terça-feira, setembro 9

O CAOS E A CRIMINALIDADE

Enquanto o sindicato da polícia não tiver noção que um governo não é inocente quanto à criminalidade, que as suas opções governativas acabam por influenciar a curto, médio e longo prazo, a segurança de um país, andarão a negociar com uma rede mafiosa inocente que não tem noção da sua influência socio-cultural. É certo que para perceber tal coisa é preciso tirar um curso e uma pós-graduação, e talvez isso não chegue, há quem adequado já tenha afirmado tal, apresentando medidas de prevenção para a criminalidade, e tenha passado ao lado, só porque, o que é absolutamente necessário, passa por reforçar o contingente em número e em decorações hollywoodescas. Basta olhar em redor, para esses países tão desenvolvidos e decentes à distância de uns binóculos, para ver que sim. O que é necessário, como se tem vindo a ouvir, e é mais do que óbvio, é implementar sistemas de vigilância de última geração à boa moda do ano de 1984. Comprar as mais virtuosas armas de fabrico israelita, ou americano, ou de outro país qualquer com um preço bem convidativo, de modo a facilitar, que é, o que é preciso, o orçamento de estado que, enfim, não pode viver de pão e água. Mais ainda, o que se precisa mesmo, é duma oposição oportunista pronta a virar o barco, não um barco a remos, nem a motor, mas o barco da política sempre pronto para virar sobre nós até só sair bílis. Precisamos é de apontar o dedo, dizer que as prisões têm que crescer para albergar esse bando de abutres esfaimados que nem tiveram educação para perceber que roubar é um pecado que vem na bíblia. É que é fodido, são sempre os mesmos filhos da puta, os que vêm dos bairros, sempre os mesmos como uma terrível coincidência, sempre dispostos a usufruir do rendimento mínimo e ainda a mamar por fora, e à socapa, só para não descontarem nos impostos. Fosse eu um gajo instruído e vindo duma família de classe média - coitados, andam a sofrer tanto com isto de crise, ainda por cima a serem invadidos por uma vaga que impede os seus virtuosos filhos de andar nas ruas descansados - e não escreveria nada disto. É certo, as minhas duas primeiras casas foram em bairros, mais certo e óbvio, a criminalidade existia mas não era nada de grave, não dava na TV, e na altura, não via o telejornal nem tão pouco lia o jornal. E só digo isto por uma razão muito óbvia: nunca fui grande apreciador de carros e não é por isso que não lhe dou à maneira no carjacking, também nunca fui de roubar postos de gasolina ou caixas Multibanco, e no entanto as razões são muito óbvias. Nos bairros, arruma-se para cantos pessoas como quem usa uma vassoura e um apanhador, muitos dos seus moradores saem do bairro para ir ao shopping ver as montras reluzir e apreciar os caprichos mais belos dos tempos modernos. Às vezes faz-se um intervalo e fuma-se uns charritos na escada de incêndio para curtir mais a onda da coisa. Nos bairros, muitos de nós moradores, enquanto crianças ou adolescentes, não tivemos um pai, ou talvez uma mãe que, ou morreu ou trabalha muito, ou vende droga na sombra, ou até que dá o pito ou cu, ou se calhar até não faz nada e vive do rendimento mínimo como uma vampira que suga o sangue que dá saúde ao orçamento de estado. E quando falo dos mais novos lembro que todos eles: mães, pais, filhos, avós, cães, gatos, hienas, leões, elefantes, crocodilos, etc, tem um passado que não se coaduna com as normas imperiais de bom senso e etiqueta, e o problema é só esse. Se ao menos se preocupassem em criar uma sociedade desprovida de poços de descriminação - de Frankensteins inocentes ao ponto de fazer mossa na cabeça mais racional -, a sociedade, com todos os seus defeitos inerentes, irreparáveis do ponto de vista mais absoluto, seria bem mais justa e equilibrada para o acusador e para o acusado. O acusador, que só acusa porque o medo é grande, aprenderia que o mundo não é assim tão assustador, as suas criancinhas, coitadinhas, deixariam de ser florzinhas de jardim de condomínio fechado, talvez até aprendessem a fumar uma brocas depois dos homens-aranhas e das winxs tão queridas e angelicais. Quando ao acusado, deixaria de ser marginalizado e enraizado ao seu meio antropologicamente violento. Claro que para tudo isto funcionar não seria pêra doce. Belíssimo, é acusar e tentar remediar a criminalidade com mais efectivos policiais e encher a prisões até à rolha, e depois - mesmo sabendo que não há dinheiro para a educação, facto comprovado pelos contentores das docas que chegam às escolas como uma sala de aula nova por estrear - investir na construção de mais prisões, mas daquelas miseráveis como qualquer infame criminoso merece para sentir o peso do erro, o dele e o dos seus criadores. Há quem já tenha aberto o olho, dou um exemplo: o bairro do Aleixo, no Porto, encontraram a solução!, vão deitar abaixo as torres da droga e vão dissolvê-los pela cidade em bairros que, ou já estão construídos, ou estão por construir; essa é a solução!, levar no cu até não se poder mais! Peço desculpa pela minha agressividade, os meus pais embora me tenham transmitido valores preciosos, não conseguiram criar um filho com grandes ambições. Não acabei os estudos por preguiça, estou desempregado porque não quero trabalhar, e os call-centers são um sonho para mim. Já me candidatei a um hiper-mercado, a uma empresa de prospecção de solos, a diversas empresas de trabalho temporário que só nos dá direito a trabalhos de sonho, e só não entrei em nenhuma delas, porque não tirei a licenciatura. Resumindo, acabe-se com este lamurio construtivo e caótico: só não sou ninguém, não anseio nada, porque a máquina de estado e o esforço dos meus pais trataram de me por longe dos bairros de onde parti. E lá, só viviam animais capazes de deitar por terra os meus mais promissores e vagos sonhos.

quinta-feira, setembro 4

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.



Rui Pires Cabral

CORTINA

Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.

Vitor Nogueira

SUGESTÃO GORADA

quarta-feira, setembro 3

O HOMEM QUE NÃO QUERIA

O homem que nunca queria,
andava pela cidade a chutar latas,
nunca queria, e as latas iam rebolando.

Era alto e o espelho não enganava,
de cada vez que se olhava, pensava,
não quero, detesto a magia do verbo.

Os degraus, enquanto descia,
pois o elevador estava avariado,
nunca lhe trocavam os pés,
contava-os um a um
e lá chegava o murmúrio metálico.

A primeira que encontrasse
seria a primeira de muitas. As latas
quase conseguiam, às vezes, fugir
com o vento, mas ele era teimoso.

Raramente falava, chutava latas
para não estar em silêncio.

Quando encontrava uma mais exótica
não a empurrava para longe com o pé,
guardava-a num saco transparente.

Quantas vezes, enquanto procurava latas,
ouvia: tens uma lata do caralho. Sorria,
mas raramente procurava resposta.

O QUIM

O Quim não podia ouvir nada,
qualquer barulho era razão
para se por debaixo da mesa.

Não gostava de festas e alguns
foliões gozavam quando se agachava

uma estadia mais próspera
determinou o seu estado analítico,
era ferrenho da guerra, acreditava
em demasia nas bombas. O Quim

ao contrário de mim, percebia
o que é isso de estar em guerra, mas vá lá,
para ele, já acabou há uns anos. O Quim

morreu, mas a guerra continua.

OU CONTOS INFANTIS

Li no jornal, ou talvez na TV
que os cidadãos do nosso mundo
têm cada vez mais apetência por
livros e música depressivos. Rotulados
como se o descontentamento fosse
sinónimo de uma caixa cheia de
benzidos fármacos, teme-se um oceano
de corpos e de cangalheiros sem mãos
a medir. Faz sentido, já não há caixões
que cheguem ou lápides que representem
condignamente a numerologia da causa.
Sem crer nem saber, meteram-me nesse mesmo
saco, deu-me vontade de rir. Tenho medo
de um dia, outorgado pelo sugestivo estudo
começar a ouvir música alegre e a ler manuais de
como ser feliz no mundo dos palhaços.

LIÇÃO Nº 5

Gosto da palavra talvez e da palavra
engano. Conjugação: talvez me engane.
Gosto desta irmandade entre elas também.
Também, fascina-me igualmente. É simples,
nenhuma delas nos dá certezas, gosto
da palavra certeza por causa da incerteza
e gosto da incerteza porque é talvez
um engano. Conclusão: gosto também
de me enganar com uma certeza incerta.

MORAL DA HISTÓRIA:
Sou um orgulhoso egoísta como tu.

terça-feira, setembro 2

LAVATÓRIO

Uma folha branca é sempre
uma folha branca, até que se suja.
Depois disso, na mesma folha
na mesma branca, as palavras imundas
pelo dia-a-dia borram o espaço,
na mesma branco, na mesma sujo
as letras carregam o fardo, e por sua
vez, a folha carrega as letras
e os dias ficam mais limpos. Talvez
não seja assim. As horas não se limpam
e as folhas também não se sujam.

Uma folha branca é sempre branca
e só mesmo as mãos se mantêm sujas.

segunda-feira, setembro 1

CACOFONIA DOS MOVIMENTOS DISPERSOS

A cacofonia dos movimentos dispersos
abriga a sintonia dos interiores desfasados.
Este tipo de veleidades completas
tem muito que se lhe diga, e a vocês também.
Uma pessoa quando obrigada aos mecanismos
regidos pela exterioridade das palas de outrem
e a ultima frase dirige-se a ti, transmuta
a sintonia dos pensamentos programados.
Quanto às veleidades completas perecíveis
de possuir identidade, apenas digo, continuem.

Não me digam que tudo isto é estranho. Para vós
estranho seria andar por aqui e eu dizer

sim está tudo bem. O que até se confirma.

Nas fotografias toda a gente é calma, não fui eu
que o disse, apenas escrevo. É um facto. Nas fotos
do nosso quotidiano, muitas das pessoas até sorriem
e eu derreto-me, adoro alguém com um bom sorriso.
In loco na loucura do momento, alguém ordena

sorriam! estão a ser fotografados, tristes é que não!

Na pista dos pavões apanham-se penas e bonecas
os holofotes nunca enganam, e o ego precisa de comida.
Os animais são qualquer coisa de muito terno
ultrapassam a barreira da racionalidade bruta e

a indiferença só é impossível pelo próprio amor.

Nos manuais metafísicos, e notem, não disse dos,
as crenças alienadas, e notem, não disse crianças
são o caminho mais próximo para a vitória. Ganhar
mais do que perder, é a bandeira partidária

um bom comprimento fica sempre bem na cara mais feia.

Morrer, só se morre uma vez, e mais de uma já é ganância
no que toca à vida é diferente, nunca reparaste?, respirar
não é exclusivo dos asmáticos, acho que nunca te faltou ar

usas bombas todas os dias e tens-lhes um ódio arrepiante.

A contradição já não é um ponto de ruptura, é uma cama feita
não fosse por isso, e a tua não estaria sempre fresca e arejada
pronta para o que der e vier depois de um dia repleto de alegrias

portanto, há muito que mudar na nossa política de marketing.

Os engodos imunológicos abrigam as leis da circulação
fosse eu alguém para lá desta impessoalidade e tu
bem, tu, muito bem tu, gostarias é de sintonias dispersas

dispostas em segmentos pérfidos que albergariam belos gritos.

sexta-feira, agosto 29

LIÇÃO Nº 2

UNIR, A PASSAR PELO CENTRO, OS
3 VÉRTICES DE 1 TRIÂNGULO EQUILÁTERO


O Passado, Está Em Voga
O Futuro Berra & Bem, E O
Presente, Bem O Presente
É Convergência Que Já Brota
Como Quem: «Cospe Calmo!»

COMO SER PRETENSIOSO

Não alimento sonhos, não são para mim
sou mais de pesadelos. Um dia perguntaram-me
Mas tu queres viver da poesia? Ao que respondi
Eu já vivo dela. Não, o que pergunto é
economicamente, gostarias de viver da escrita?
Sinceramente, de maneira alguma. Viver para ela
já me chega, prefiro mil vezes viver da miséria
colher os seus frutos podres, mascá-los com iguais dentes
aguardar com a certeza de que o corpo não amolece,
e por enquanto, isso não me preocupa, no máximo
enrijece, mas só depois de mim. Logo a seguir ao pesadelo.

NO CAMINHO DA FELICIDADE

Num vão de escadas, come-se chamuças
e quebra-se o gelo d’agosto. Depois
do shopping, onde não encontrei o que
queria, a força perpétua do negócio de neons:
um rui esgotado e pouco mais para escolher.
Daqui, no caminho, o silêncio, os prédios
a recortar o horizonte como uma tesoura
gigante. Sacos que passam com pessoas pesadas
adolescentes que se juntam na felicidade comprada
um banco de jardim que aguarda só

um poema pobre como a própria tarde.

terça-feira, agosto 26

STUPOR MUNDI

Sofremos com nojo a pertença em nós
indulcada de uma geração, as suas taras
vindas de longe, modos diferentes
de se ser igual. Com uma raiva triste,
vêmo-los foder, procriar, indo aos poucos
definhando, esperados que são
por pós-modernos jazigos.

Não há nada a fazer,
nenhuma palavra nos salva.
É-se sempre contemporâneo da merda.

Manuel de Freitas

A CARREIRA DO MESSIAS

No autocarro, a concórdia sublime.
A voz rouca despoleta do silêncio
um coro impaciente prestes a explodir.
Esperou demasiado, os outros também,
esperavam-no como um Messias
dos transportes públicos. Uma hora
de atraso era demasiado, ia dizendo.
Prontificou-se também a berrar que não permitiria
a leitura do seu passe. Chamem a polícia
era a sarcástica palavra d´ordem. Querem
que andemos de autocarro, muito bem
mas esta merda não pode acontecer.
Quase se espumava da boca. Vociferou
foi apoiado, e ovacionado lá saiu.

Fez-me lembrar os intelectuais da nossa praça,
talvez um pouco mais complexo e causídico.

O DIREITO DO MAIS FORTE À LIBERDADE - RAINER WERNER FASSBINDER (1974)

1.

Quem tem amor não tem
razão, tem apenas frio.
Não te confundas, cão
vadio, com chacais.
Pois o chacal é um animal
que tem sempre razão.

2.

Sou tão feliz. Estas lágrimas,
não liguem, é do álcool.
Vá - pago um copo
a quem disser que me ama!

3.

Não te deixes enganar, raposinho,
pelos modos bem criados do chacal.
Não eras tu que dizias «Há pessoas
que se lavam, e há outras que são limpas»?

Que não te impressione a toalha de linho,
o brilhos dos talheres, o arroto de lavanda.
Repara antes no seu prato: reconheces,
inocente, o acepipe? É o teu coração,

raposinho, isso mesmo, o teu coração.


José Miguel Silva

domingo, agosto 24

SO GOODNIGHT

Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.

José Miguel Silva

sábado, agosto 23

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
presuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossados pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer e o mais que não se diz por ser
JJJverdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão

TRAVESSA DA QUEBRADA Nº 17

Sobre a mesa a enevoada sombra
de algumas cervejas, o
travo amargo da noite. Estás
cercada de medo e de ausência
e um cigarro aflora-te por vezes
aos lábios ternos, destruídos.
Mas nada te quero esconder
são vazias estas mãos
por mais que alguém lhe pudesse
dar alguma vez.

A música agora podia ser
na voz quase mineral de Joan
La Barbara. Tu nem sabes, mas podia,
if I do, if I do "love evil".

E ao falar de tanta dor
não sei se é de ti
se de mim

por onde vai a voz.


Manuel de Freitas

quinta-feira, agosto 21

NADA DE GRAVE

De imperfeições cresce o amor.
Perfeito, só nas realizações estuporadas.
Dos gestos toscos, das palavras envergonhadas
Cresce o amor como nos filmes onde morre:
Sobressai o lado prosaico da geometria caduca.
Dos silêncios genéricos e do límpido esgoto
Correm as águas transtornadas, não caem
Continuam até ao oceano incerto, mas só porque
De facto o amor não se quer perfeito. Algo falha.
De amar, só mesmo a imperfeição e só depois
A inversão pela ânsia. De tal maneira
Que num dia inesperado, tudo cai como cresceu.

Se assim não for, nada de grave
É só porque o amor não existe.

quarta-feira, agosto 20

ANTES QUE CEGUES

Desde puto as histórias, as mezinhas
Contadas por uma voz taciturna, o desejo
De incutir o primeiro filamento para futuro
Obrigando-me a fugir da frescura das sombras.

Pouco depois, descobri - já lia inocente
Os quadradinhos – aquela personagem
Malévola que se dispunha ao mal
Como um melanoma depois de muito sol.

Não é portanto com espanto, que reconheço.
Desde sempre as sombras cresceram em mim
Como aquele lado preocupante e descaracterizador
Não tive culpa, mas também cresci, agora venero-as
São como caminhos a seguir. Depois de muita pesquisa
Conclui a sua utilidade para além do medo.

Nas sombras; a oportunidade de ser outro.

terça-feira, agosto 19

THE STRANGER SONG

CENTRO DE DESEMPREGO

Se só as costas vergassem
As mãos não suariam. Dizia isto
Enquanto aguardava a sua chamada
Deveria ter uns quarenta anos
Sentia-se perdido, sempre trabalhara
Até então. Na mão, uma senha denunciava
O peso dos números. Na sala
Outros também, a incerteza não espera.
Continuava. Ao menos esta oportunidade
Incerta, claro, é um cartucho a ser queimado
Um último capaz de me devolver à luta
Foi para isto que nasci e cresci, para trabalhar
E agora que me falha, talvez esta senha.

Ao lado, uma senhora ouvia, os seus olhos
Brilhavam enquanto olhava para a sua B46.

No plasma, a lotaria sonora ia fingindo ofícios.

segunda-feira, agosto 18

O GUARDADOR DE SÍMBOLOS





















Olhar uma foto da cidade
Um quadrado estagnado
Tem muito que se lhe diga
Muito mesmo. Cidade de luz
E urbanística é engano.
Uma imagem cofre
Que agarre pelos cabelos
É do que falo. A vida
Sem filtros, concisa e
Aparentemente perfeita
Uma porta entreaberta
Por empurrar, um tapete

BEM-VINDO

Chegou a território lúcido
Aqui todos aprendemos
Basta: parar, olhar
Descortinar com um bisturi
Os princípios básicos e
As pessoas: o autocarro parado
A fila corcunda em guarda

O mundo a crescer nos passos
Perdido, os placares de publicidade
As lojas prósperas, as pessoas felizes
Miseráveis, teleguiadas por linhas contínuas

Os corpos, as bolas, a tômbola de cartão
A dança, o bailado etéreo da probabilidade

Os pés que desenham no chão deuses gastos
Ratos que evitam as águas onde se afogam.

Um homem só a segurar um ovo quebrado, prestes a estrelar
A simbiose ciclópica, a implícita poesia maldita
A luta, a gritaria afónica na voz de todas as máquinas

Uma imagem vale mais de mil símbolos
As palavras só vêm depois, aguardam a
Imagem apropriada e uterina do tempo.


(Dedicado ao Grande Zé que se dá por Quase.)

sábado, agosto 16

EDEMA PULMONAR

Se ao menos percebesses, que os concursos
Se fazem em caixas de luz suportáveis,
Que a competitividade é um erro pulmonar,
E que tu, ordenhas palavras como um analfabeto
Agarrado a um orgulho cerrado pelos dentes;
Se ao menos percebesses isso, mas não
Preferes marrar na parede com a cabeça
Dizê-la mais dura do que tijolo. Ao menos
Percebe que os dias são de todos, em cada um
As preces selvagens não se limitam ao erro
São muito mais para além dele: transformam-se.

SEM HONRA NEM TÍTULO

DESTE JÀ AVISO: isto não é um poema
É uma carta aberta, uma janela póstuma

É tão bela a liberdade quando nos permite
Acusar e ser acusados. Nunca saímos ilesos
E isso engrossa o prazer. É tão fácil a culpa
Como a desculpa, nada nos detém, a superfície
É plana e imunda e as esfregonas limpam tudo
Mesmo as superfícies mais sujas.

Analogias acumulam-se como pó, o vento
Varre-o daqui para ali numa dança suave
A sua força mitológica só não varre o tempo

Esse: morre pela mão que move ponteiros,
Escreve o perscrutar fundamental das palavras.

sexta-feira, agosto 15

BETTER OFF WITHOUT A WIFE

Esquece o melhor que puderes.
Há drogas e cinema (por
enquanto). Não vais ser tu a aprisionar
os gestos felizes ou sem rumo
de que ainda sou capaz.
Não é nada pessoal, garanto-te.

Bebi sempre demais, acordo
tarde e as crianças estão longe de ser
o meu animal doméstico preferido.
Detesto horários, famílias e obrigações.
Até a partilha dos lençóis,
quando não é o amor a rasgá-los.

Os dias, porém, depressa
nos obrigam ao esterco das rotinas,
ao desejo inútil de procurar
a morte noutros braços

Mas não. Não vou mudar de marca
de cigarros nem de pasta
dentífrica. Acordo logo que puder,
já sabes. Telefono-te rouco,
eventualmente triste, a precisar
de alguma liberdade para poder provar,
sozinho, que a liberdade não existe
mas dá bastante jeito.

E no entanto, depois disto tudo,
é altamente provável que eu te queira
amar. Como não sei melhor, como sei.

Manuel de Freitas

FÁCIL E RÁPIDO

INGREDIENTES*

Amargura moída, amor à vida
Esperança, desilusão, palavras
Olhar perdido, loucura, sal em gotas

Comece por pegar no amor à vida
Cortando-o em lascas finas, depois
Já num recipiente, regue com
Esperança e sal em gotas, junte-lhe
As palavras cortadas pelos sentidos
Mais a loucura. Num outro recipiente
Faça uma papa de desilusão e amargura
Moída. Misture depois tudo e deixe marinar
(Não se preocupe com o tempo nem
Com a dosagem dos ingredientes
O critério é deixado à sua mercê)
Quando achar que marinou a seu gosto,
Unte uma frigideira com olhar perdido
E despeje para lá a mistela até
Saltear e iluminar bem os ingredientes.

Sirva de preferência numa página branca.

*Pode sempre mudar um ou outro
Consoante o gosto ou o desgosto

UM MUNDO CATITA

sexta-feira, agosto 8

HORA DE PONTA

Enquanto os carros passam
As pessoas correm, os prédios
Espelham as gaivotas que
Planam, os sinais dizem
Coisas e os baloiços chiam
As árvores dançam, as sombras
Tremem, e um homem escreve

Parte ponteiros sobre o tampo duma mesa.

DEAD LETTERS OFFICE

A noite não me permite à solidão
Recolho-me na contradição dos poetas.
A luz do globo aquece-me dos mais frios,
Para os mais fervorosos, sirvo-me das sombras.

Todos me dizem «vive por muito que sofras
Por pouco que ames, pela loucura que te consome.
Que seja a loucura e não mais pensarás em suicídio»

Já pensei muitas vezes nessa porta, a mão no
Caixilho a aguardar sabe-se lá o quê, talvez a vida
Alteada: amante psicótico da impossibilidade.

Neste quarto respiram poetas. Uns têm mau hálito
E outros cheiram a rosas. Os meus predilectos são os
Que cheiram mal, os que condimentam propósitos para a loucura
Aqueles que não mentem nunca. Os que sussurram «queres vai
Roda a maçaneta, dá um passo em frente, e está feito.»
Os únicos incapazes de se negarem à vida e aos seus caminhos

Contraditórios e tumultuosos como águas duma tempestade.

terça-feira, agosto 5

LIÇÃO Nº 1

Esperas a velhice e vês-te velho
É isso que ambicionas, aldrabas-te
E achas que a velhice é o teu fim.
Quase vejo as tuas rugas na ânsia
Periclitante de atingires o teu objectivo.
Seria melhor para ti morreres novo
Mesmo depois de muitas vicissitudes, de
Anos a fio a percorrer estradas gastas
Reduzidas a pó. A ambição é tramada
Leva-nos à velhice. É teu desejo
Morrer velho, vê lá tu, para quê?
Que desejas morrer, faz sentido
Disso não foges, mas podes escolher
Para além do mofo da tua casa. Para
Quê morrer velho se sendo tu novo
Já pensas como um velho realizado?
Nunca esperes nada, falo por experiência própria.
Esperar é morrer, é ver o mundo ruir em nós.
Morre jovem e vê tudo a passar, flashbacks
Aguarda apenas a morte, a cada instante.
Não queiras morrer velho, enceta a morte.
A cada gesto morre e renasce, envelhece
Despreocupa-te. Nunca queiras morrer de velhice

domingo, agosto 3

TEORIA TRISTE IRONIA

Era especialista incontestável
Em assuntos do coração
Era terapeuta e conferencista
Há mais de vinte anos

Até que num dia de folga,
Morreu de ataque cardíaco.

sexta-feira, agosto 1

O VERÃO

Quanto ao verão: esse período nefasto e quente
Não apresenta qualquer talento para a chuva, diga-se.
Como o mundo que se concentra excessivamente
Para proferir um assobio magrinho
E acaba por tropeçar de maneira desastrada,
Caindo duma altura
Desagradável,
E falecendo. O verão, de facto
Seria insuportável, não fosse
O futuro e a cerveja.

Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, julho 31

TAL COMO PEDISTE

Estas tuas confissões
nunca esquecerei

a praia e a melodia
memorável das ondas ainda
vivem, tal como as tuas palavras

Sempre que lá passo
que piso aquela areia

a catarse

o vento sussurra a
tua voz a memória e
a dor decrescente…

quarta-feira, julho 30

Sede Crónica

Aguardo, eu e o copo
a sede de infinito. Perdidos
completamo-nos. Eu
levanto-o, ele ampara-me
somos companheiros folgados.
Aconchegamo-nos na mesma
Substância. Nunca estamos sós.
Somos variáveis da necessidade.
Fugimos à transparência como

amantes no ciúme.

segunda-feira, julho 28

CONTRA OS OPTIMISTAS

Chamam destino ao rifão do acaso
e chamam à fraude boa fortuna.
Crêem no Batman e na Virgem Maria.
Duvidam do frio, não da polícia
e nunca dão crédito àquilo que vêem.

Reservam a tempo um lugar na geral,
põem o pé entre duas ciladas
e ficam a rir-se nas fotografias.
Sujam a roupa tal como nós, mas
mandam-na sempre a lavandarias
que sabem tratar dos casos difíceis.

Nunca dão ponto sem antes o nó,
mas fazem um laço por cima do nó.
Compram revistas de aval científico
em cujos artigos se prova o seguinte:
é quase impossível determinar
se é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.

Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,
guiam a vida por grandes veredas e ouvem
sininhos, muitos sininhos de música sacra.


José Miguel Silva

domingo, julho 27

Limitares-te à ciência do
Óbvio, é o caminho que tens a seguir.

Os labirintos são para os assombrosos.
Não para ti. Nunca para ti que
Não perdes tempo, que alguma vez
Imaginaste uma cadeira, uma sala de
Espera, e muito menos o limbo.

Restringe-te à via da tristeza:
Do outro lado da linha contínua
Reside apenas a felicidade

Espelho que julgas atingível
Inquebrável e absoluto.

quinta-feira, julho 24

BINÓMIO

Eu não quero viver
Não desejo a morte
Mas não quero viver

Viver é fazer parte de

Amar a vida é cumplicidade
E eu não vivo de facto

Não estou morto
Não amo a morte

Mas não vivo

Viver é compactuar
É ter medo de
E o medo rói

Um medo
Que cresce
Que passa
Que leva a vontade de viver

Quanto mais vivo
Mais cedo em viver

Não estou morto

Mas também
Nunca vivo só.

AFOGAR AS MÁGOAS

Sempre o burburinho fantasmagórico que
Trepa pelas paredes forradas a álcool. A necessidade
Capaz de nos entorpecer, sob o estrelado fundido do
Céu enevoado que arrebita os corpos,
Dança imutável que nos trouxe pelos caminhos mais
Belíssimos da tristeza solitária: labiríntica introspecção ao
Ritmo sonoro de um motor. Sempre bem acomodado, no
Banco turbulento do autocarro a assumir o peso da alegria
Como um transcendente ressacado, depois de mais um calhau
Para o nada. Sempre a cidade a chorar
Iluminada pelos candeeiros da vontade dos pássaros nocturnos.
Sempre um todo poeirento e vicioso, um belo vício
Como todos os vícios que nos libertam. Sempre os
Transportes misantropos para esta minha escrita de sangue, suor e
Alegria. Sempre a vida a ser compreendida e aceite, como
A morte dum inevitável familiar, entre campas festivas do
Cemitério dos sentidos. Sempre e do outro lado do
Vidro, as varandas a cuspir olhares fumegantes -lembram-me o
Fumo da minha varanda para o mundo. Sempre o
Mesmo e mísero rectângulo para o infinito, para a
Verticalidade dos corpos, na praça em que os leões se
Refrescam depois de uma tarde pelas áfricas do nosso espírito
Sempre quixotesco e ultrapassado. Sempre o humor o
Pedestal dourado na tinta dos edifícios, a noite
A fervilhar terapia da loucura. Sempre a forma sana de combater
A velocidade indómita do tempo, as gargalhadas
A abafarem todas as vozes na praça. Sempre o somatório blindado
E carnal a derrotar as tropas da linearidade que nos
Apaparica e distrai. Sempre a melancolia duma noite que não
Esta, lá atrás, naquele ponto de partida em que o breu, o insaciável
Morcego que me capacitou para a mutilação bem-vinda no
Caco do carácter, tomou proporções inversas mas inexoráveis nas
Fronteiras da geografia simbiótica. Sempre as estanques
Espumas bélicas e as salgadas feridas que não saram
Numa noite de solidão sóbria. Sempre a sede, a sede de tudo
Das pessoas e dos líquidos, das liquidações das
Intimações para o esquecimento. Sempre a música
Que nos embala em ninho de cucos, sempre a levar-nos
À concórdia silenciosa ou estridente de copos cheios
De copos vazios sorvidos até à última lágrima cintilante, entre
Dedos sujos e decrépitos pelo uso. Sempre os abraços que recebo
E os que já não sinto a varrer-me a alma, só porque lá, já nada resta
Para varrer. Sempre o absoluto latejar de alguém que não conheci e
Nunca hei-de conhecer alguma vez, só porque não me conheço
Tampouco. Sempre o manto a fechar-se pela crescente
E vaporosa luz do movimento perpétuo, dos sinais
Que se agitam ao vento -assustadores e irrisórios. Sempre
A cama quente pelo verão que me acolhe, sempre
O seu sorriso cansado. Das cinzas da mente, sempre o
«Amanhã é outro dia de miasmáticas incertezas»
Sempre o grito uníssono das gaivotas na maresia betuminosa
Da cidade que cresce. Sempre as asas saudosas
Do alvorário mar que já não lhes pertence, sempre e simultânea:

A mente, ao longe, como um barco rumo a nenhures.

terça-feira, julho 22

1 e 46

O sono pesa
A cama abre-se

O sonho espera
O corpo estica-se

O lençol enruga-se

domingo, julho 20

CONSPIRAÇÃO

As gaivotas no céu pastoso da tarde
Choram cada vez mais, um choro agudo
De agonia, uma emaranhada conspiração
Para com os homens. Enquanto as observo,
Acendo uma tocha para a morte

No telhado sobrepovoado
Uma dança permuta, penosa
Fulminante e
Agitada

Uma destaca-se, serena,
Parabólica como o final da tarde
Procura e aproxima o horizonte

Numa língua estranha, selvagem
Leva-me até gritos agoniantes, a um ser que me traz
Prisioneiro, lancinante bailarino etéreo do corpo

E é então que as telhas ruem, que
Os sentidos roçam o absurdo. Tudo se resume
A um cigarro já apagado, ao verão, a gritos
Irreverentes a perpetuarem-se na noite

Alienados hábitos que incomodam quem dorme.

SE HOUVESSE DEGRAUS




















Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.


Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.


Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.


quinta-feira, julho 17

NA DÚVIDA

Talvez me perca
Não sei ainda se
Talvez consiga

Não sei se talvez
Entretanto
Entalado na bruma
Cadente do dia

O saber
Tem que se lhe diga
Ocupa espaço

O corpo é ínfimo
E as mãos são grandes

Talvez
Um dia minguem
E o corpo cresça

Mas não sei se

Talvez
Um dia encontre
No desencontro
Entre
Uma talvez mão
E um talvez corpo
Uma frase

Talvez aí me encontre

Perdido da mão
E do corpo

Abandonado à certeza.

THE BEAT

Não dormi com a beleza toda a vida
fazendo inconfidências a mim próprio
dos seus encantos planturosos

Não, não dormi com a beleza toda a vida
mas com ela menti
fazendo confidências a mim próprio
de como ela nunca morre
mas jaz à parte
no meio dos aborígenes
da arte
e paira por cima dos campos de batalha
do amor

Está acima de tudo isso
muito acima
Está sentada no mais selecto dos assentos
da Igreja
lá em cima onde os administradores da arte marcam encontros
para escolherem o que há-de ficar para a eternidade
Eles, sim, dormiram com a beleza
durante toda a vida
Eles, sim, alimentaram-se da ambrósia
e beberam o vinho do Paraíso
e por isso sabem exactamente como é que
uma coisa bela é uma alegria
para sempre e para sempre
e como é que ela nunca nunca
pode inteiramente desvanecer-se
num nada que leve à bancarrota

Oh não, nunca dormi
em Regaços de Beleza como esses
receando levantar-me de noite
com medo de perder nesses segundos
qualquer belo movimento que ela esboçasse
E contudo dormi com a beleza
à minha estranha maneira
e fiz uma ou duas cenas terríveis
com a beleza na minha cama
de onde transbordou um poema ou dois
de onde transbordou um poema ou dois
para este mundo tão parecido com o de Bosch

Lawrence Ferlinghetti


terça-feira, julho 15

ANDA POR AÍ

Circula em círculos
Diz coisas, o que
Quer que seja, circula
Bebe mais uma

Pede outra
Diz coisas

Vive como tens que
Viver, cheio de sede. É
Assim que se vive, em
Círculos. Circula.

Berra bem alto
Gesticula em gestos
Agride, brota sangue
Dá socos no tampo da
Mesa, revolta-te
Bebe mais uma.

Pede outra
Diz coisas

Sorri demencialmente
Mostra os teus dentes podres
Cospe-te enquanto falas
Esvai-te em berros, berra
Bem alto, até perderes a voz

Levanta-te, trôpego
Circula cheio de sede
Caminha em círculos
Canta vitória na derrota
Diz barbaridades e sangra

Vê a cor do sangue
Fuma um cigarro, um
Charro. Afoga-te.

Pede outra e diz coisas

Bamboleia o teu corpo
Circula, sonhador perdido

Encontra a face que cai
Que te rói, sangra até
Perderes a voz, pede outra
Que não a que bebes

Só porque a tua sede
É a de sangue pisado

Mas nunca apenas isso.

CONSERVE ESTE BILHETE ATÉ AO FIM DA VIAGEM

Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas
. E também
os que replicam:
Valha-nos isso.

Rui Pires Cabral

segunda-feira, julho 7

sexta-feira, julho 4

Este poema
Não é poesia das pessoas
Nem tão pouco minha

É para os gestos infames
Da alma, um grito
Que brota dos dedos
Das turvas águas que lavam
A pureza enganadora
Dos símbolos

Só porque
A felicidade, é um cão
Que nos morde,
A mordidela dos costumes
A esconder as obscuras marcas
Dentadas do tempo.

Puxa-nos a carne,
Tal como fraldas
Duma camisa desbotada.

quarta-feira, julho 2

POR ACABAR

O emprego
Essa coisa fundamental a trespassar-me o corpo
Aventura sob o sol espesso das gaivotas a fugir do mar.
Amostra ínfima da sociedade
Dos escorregas movidos a lágrimas,
Gargalhadas Fulminantes,
Varridela para o ridículo automatizado
Pela aromática nota espongiforme.

A movida matéria quente que abrilhanta
A experiência imunda das chávenas deslavadas
Pelo sangue frio dos clientes adormecidos
Entre passos fastidiosos no coro de prédios
Forrados a Papel vegetal.
No chão,
Lá fora,
O passado instantâneo abafa o carimbo ténue da lembrança.

A poesia do espaço caótico obriga-me a isto.
Sou servo miserável dum caminho que já faz pouco sentido,
Pseudo poeta da mestria extinta que se reformula
Numa máquina de café suja pelo passar descuidado do tempo.
No soalho inundado
Páginas misturadas de jornais e panfletos da luta pelos direitos
Moldáveis dos sonhos para a matéria.

E só depois,
As pessoas.

Um dono.

Emigrante de cuecas fio dental.
Uma empregada
Prosaica e bela,
Senhora verosímil como o camião
Que sob a circunferência ardente, resmunga com uma voz grosseira,
Metálica, mero instrumento da orquestra metropolitana.

E um tapa buracos
Viajante imóvel do vão de escadas para a clínica
Da Rasa. Desistiu de subi-las, preferiu abrigar-se.
Diz-me que,
Ainda me diz silencioso

A vida é um poço que cresce com os anos e com os erros
Mas os erros não o são nem se prevêem, vão sendo.

Tiro-lhe mais um fino e ele sorri, a cor amarga dos seus
Dentes a esbater toda a minha hipocrisia de profundezas
No micro cosmos deste salão em que ainda trabalho
Pois escrevo

O albergue dos gestos mais puros da campânula dos dias -o parolo
Da gravata altiva e tom de voz cristalino,
Arrogância platinada por um percurso à moda de fausto ou não.
O velho do jornal de notícias
E a sua cadeira que traz sempre de casa,
A cadeira e a gargalhada moral ressequida.
A mãe fumegante e opulenta e os seus dois filhos preciosos
Como aquela televisão de 82cm que figura no panfleto
Não o pode ver hoje
Está em uso debaixo da banca da louça
Impedindo o dilúvio.
Na parede
Em cima da cota de cabelo descolorado que todos os dias pede para ligar
Para um número que já não existe ou não existiu, o néon esverdeado como catarro

SALÃO DE
CHÁ DA RASA


O local onde se servem chávenas de café queimadas.

Deveria ser esta a adenda, talvez entre parêntesis
Como um delimitado corpo, rio turbulento duma torneira entupida.

terça-feira, junho 17

LOCURTINO DE ABISSAL

O conhecimento é nulo. É uma denominação para algo que não sabemos nem nunca soubemos usar. Nunca soube o seu ritmo. Nunca tomou conhecimento de que o relógio e a sua invenção foram o maior crime alguma vez cometido no universo a que chamamos de história. Um relógio nunca pára. E o conhecimento, ou melhor, o conceito de tal suposição determinada, é um veículo incorpóreo devido à velocidade estonteante que o move. Locurtino de Abissal retratou isso muito bem nos seus escritos. Visto como um dos pais do Ambiguismo viu no mundo da sua época que chegou até hoje, demoradamente, o equilíbrio do caos, tema este bastante debatido pelo meio intelectual que cresceu como um monstro no palaciano passar do tempo. Já na sua época achava que o afastamento entre os homens que tinha como ponto de origem o surgimento daquilo a que se chamava de conhecimento -que a meu ver e tendo em conta evolução se pode determinar mais concisamente como proto-conhecimento-, já previa a marginalização tirana perante o colectivo, achava que um dia a inteligência seria tomada como um forma de divindade capaz de controlar o mundo, real ou irreal. No manuscrito “O mundo e o Conhecimento” faz uma crítica muito seca à classe que se estruturava já na sua contemporaneidade

«Estes homens que crescem, exímios na procura dum sentido para a vida, acham que são mais que os outros, que através da sua alfabetização irão encontrar um espaço vivencial que lhe embalará os filhos e os filhos por sua vez acharão o mesmo. Acham que aprender nas devidas instituições de ensino é o caminho para o mundo repleto de fantasias, e que todos aqueles que se recusam a ir por esse caminho são autênticos e reprováveis animais. Argumentam que no futuro quem não tiver como bases todas as suas descobertas maravilhosas no campo de filosofia, todas estas promessas abstractas que sinceramente e naturalmente não consigo perceber, não vive no mundo com o qual sonharam, o local onde o conhecimento é simbiose para com o meio terrestre em que caminham. Declaram guerra cerrada ao instinto. Veneram Coferti O Mago e vêem nele e na batalha da Antiga Antiguidade o exemplo máximo e o caminho para a intemporalidade. Apoiam-se no texto “O Intelectualismo” desse mesmo guerreiro que entre outras coisas e para não dar muita importância, defende que «Os homens determinam-se pela classe de inteligência» e que «Os Aliortes ao se recusarem a aprender, não sabem que o mundo tem muito para lhes dar para além do medo.» A partir destas máximas tudo para eles faz então mais sentido. Acham que o medo de saber não se justifica, tudo se torna claro cada vez mais claro, só não sabem que a cegueira leva à prisão do espírito. Se acreditasse neste nosso deus diria que era um feliz contemplado, um adormecido intelectual iluminado pela sua espada que abre espaço para o pensamento na mata densa e selvagem. Sou um egoísta por não acreditar, por perceber que não sou mais que os Aliortes, que agora mesmo enquanto escrevo olho pela janela e vejo o mundo como eles, sem nenhuma análise ou tentativa de compreensão, que isto a que chamamos de conhecimento é uma farsa criada por alguém, um embuste que nos trama e engole no mato, nos escaparates da nossa compreensão que nada vê e nada consegue perceber só porque nada há para perceber. Sinto-me um inútil, repartido no campo de batalha, retalhado por esta compreensão que de nada me serve. Vejo todo este bando alfabetizado a criar caminhos, a dividir o mundo, a criar soluções que são problemas, só porque mais logo tem que ir mais fundo e quanto mais rápido compreenderem melhor. Agora até há quem pense que os problemas são a solução, que se existem só tem que ser ultrapassados, como se fosse tão linear e instantâneo. Agem por bem nas suas mentes sem compreenderem o que é isso de agir e quais são as suas causas e consequentemente os seus efeitos. No caso de Liberpol Colinope -que morreu há bem pouco tempo, depois de se fechar em casa e procurar a chave para a compreensão durante muitos anos – “o homem inteligente que um dia quiser e achar depois de muito cálculo cerebral que as origens do homem deveriam ser imutáveis, não percebe que o conhecimento é um novo mundo, um meio que permite chegar à divindade pessoal.” Nos seus estudos notáveis e aprofundados da vida e convicções d’O Mago concluiu entrelinhas que quando o meio não se revelar favorável à origem e às razões da batalha da Antiga Antiguidade, nem tudo está perdido, somente porque a compreensão servirá para acalmar o espírito duma forma egoísta que o inflamará como madeira seca. Como é belo este bando de senhores que possuem a razão. Talvez um dia se dividam e batalhem entre si, como um dia os nossos ancestrais se dividiram. Talvez surja num futuro indeterminado um apologista contra o Intelectualismo, um filho desiludido com a herança que o sangue lhe deixou, um desiludido como eu, contra todo este mundo que é cada vez mais nosso sem que eu o queira para mim.»

Abissal encontrou pela simples observação o destino da evolução do homem. Defendia que a divisão entre os homens não era mais do que uma necessidade de afirmação e justaposição perante o abismo e a sede de conhecimento. A razão de batalha ganha por Coferti era muito linear e não tão complexa como achavam e mistificavam os pueris pensadores da sua época.

«A inflamação do ego, e as suas necessidades despertas pelo medo de acabar, levaram O Mago a iniciar uma chacina perante um adversário que muito bem conhecia não fosse ele sangue do próprio sangue. Tinha vergonha do seu passado. Se ele tinha conseguido a aprender a escrever e a compreender o mundo porquê que os seus conterrâneos não compreendiam? O seu professor -agora que já temos denominação para tal – baralhou-lhe o cérebro. Se ele compreendia, porque razão lhe tinha dito que o homem não é todo igual e nem sempre assimila o conhecimento? Fazia-lhe bastante confusão ter que estar fechado o dia todo e ficar proibido de partilhar com alguém tudo aquilo que sabia, se ele percebia o mundo, todos os outros também. Durante muito tempo, até à data da morte do seu amo, ansiou o mundo. A enclausura e identificação com as origens que o acaso lhe tinha roubado tornou-o num ser curioso desejoso por saber que um dia iria ver o mundo e iria modificá-lo como assim teria que ser. Não sabia se haveria de sorrir como um louco ou chorar como um tolo quando a morte lhe trouxe a liberdade de agir segundo os ensinamentos adquiridos.»

Nesta passagem determinou-se o espectro do ambiguismo. A morte como elemento chave leva Coferti a questionar muito instintivamente qual o caminho a seguir, e a encarar o ensino e consequente compreensão, como um enigma nunca desmascarado pelo seu professor. Apesar de todo ódio aos estudiosos do seu tempo devido ao fanatismo pelo guerreiro, Abissal vê nele a origem para o confronto que se revelou e cresceu até hoje. A curiosidade é para ele a fonte de todos os problemas.

«Quando nos defrontamos com um problema o conhecimento leva-nos a tentar resolvê-lo, mas no entanto, põe seriamente de lado a hipótese de erro, sendo assim, apenas o contornamos.»

Este pensador filho nato do conhecimento que tanto o mutilou e acabou por levar ao suicídio numa época infindável que não consigo descobrir, compreendeu o mundo como meio e o homem como finalidade para ele mesmo. Os seus pensamentos filosóficos que descobri por obra do acaso dentro dum invólucro de pedra no oceano, levam-me a crer que a evolução do homem começou com a contagem decrescente e acelerada do mundo.

«O Mago descobriu a terra e tratou de germinar o conhecimento. Todos os homens que o conheceram e tinham predisposição para a aprendizagem seguiram os seus ensinamentos e criaram outros ensinamentos e outros caminhos e outras soluções e outros problemas. Outros matavam a seu mando para possuir tudo aquilo que queria possuir e saciar-se assim de todos os anos de proibição e abstinência de acção. A partir do momento em que saiu da sua prisão contra vontade do seu falecido professor, ele os homens e o mundo nunca mais foram o mesmo. Tudo porque guardou em segredo a enigmática proibição do seu pai que tantas vezes depois de algumas desilusões lhe ressurgia na cabeça “Os seres não são todos iguais e o conhecimento nunca deve ser transmitido para lá de ti sem que o sintas sem medo. Vivi muitos anos meu filho, nunca tive pressa, a minha longevidade leva-me a crer que o conhecimento é demasiado perigoso, daí passar-te este meu testemunho esperançoso. Não durarei o suficiente para compreender os homens e o mundo, quero que me jures que nunca o transmitirás a ninguém quando morrer. Já não falta muito. Espero que não, mas acho que me vou arrepender de te ter ensinado tudo isto, és muito jovem para ser ensinado, ainda não pensas como um homem sábio, és apenas uma criança aos pés da verdade. Quando saíres daquela porta e encontrares homens curiosos, mais, ou menos desenvolvidos do que eu e que tu, diz-lhes que tudo não passa ainda duma errónea solução, que o conhecimento é a pior arma alguma vez criada.” Não contava a ninguém este desabafo do seu percursor, a vergonha matá-lo-ia apressadamente. E eu muito menos demonstro esta faceta deste deus dos pensadores e apologistas adormecidos do intelectualismo de Colinope, que seguindo a sua sugestiva suposição “um dia irá vingar contra qualquer tempestade causada pelo erro que poderá sempre ser corrigido ou tolerado com mais ou menos afinco.” Tenho vergonha do conhecimento que possuo, tenho um medo mais do que justificado de abrir mais uma porta para o abismo, algo passível de ser analisado e tomado como uma verdade absoluta sem que o seja.»

As suas palavras não enganam e não poderiam fazer mais sentido do que hoje em dia.

«Nichos de intelectuais povoarão o mundo em pingas e dirão que as suas bases são a solução para tudo, mesmo que na prática isso não aconteça. Desiludidos seguirão a via da divinização do conhecimento, uma idolatria que levará a um sentimento recalcado e dividido. Para alguns a inércia será a força central, sentir-se-ão deuses da compreensão, viverão cheios de ideais de mudança e inconformismo nas suas cabeças. Verão nas massas instruídas a culpa para todos os cataclismos somente porque não atingiram a supremacia da errónea e injustificada intelectualidade. Outros dirão que o mundo está perdido e povoarão outro que só existirá na sua loucura. A arrogância e o orgulho separará os intelectuais dos outros ditos selvagens como deveria ter acontecido na batalha da Antiga Antiguidade. Será tarde entretanto, o conhecimento já acelerou para lá da naturalidade fundamental, os homens nunca perceberão que o conhecimento não pode ser fruto dos caprichos.»

Este homem deitou por terra todos os instruídos anteriores e posteriores a si. Mas no entanto não deitou por terra toda a esperança.

«Talvez num futuro surja mesmo um homem contra o intelectualismo, nunca profeta nem salvador, mas sim capaz de derrotar todas as bolhas de conhecimento. Um homem que diga que o intelectualismo é um capricho hipócrita que teve como base o conhecimento e compreensão que tanto o delicia e aniquila. Mesmo que tarde, fará então perceber ao mundo que a ambiguidade da natureza não nos permite afastarmo-nos dela e criarmos uma nossa igualmente dúbia. O Conhecimento existe mas engana-nos, ilude-nos ao ponto de nos acharmos inteligentes.»

Locurtino de Abissal deixou antes de morrer um último desabafo

«Porque tendemos a complicar tudo, a seguir os trilhos do conhecimento intrincado? É tudo tão simples e fácil de perceber, somos todos animais e não mais que todos os outros. Para quê tanta curiosidade? Às portas da morte tudo é claro e só agora que me proponho a ela percebo o porquê de querer acabar com todo este enigma



Quando o homem na sua infância colectiva
Abriu campo para os dissidentes
Para os percursores da inteligência que geminou
Semente tortuosa por florescer
Metamorfose do espírito agora individualista
Em busca do desconhecido criado por si

Formou-se o confronto interno da humanidade
Cerrados orgulhos na disputa

-

O dissidente
Olhado de lado
E o seu opositor
Do lado vazio

O evolucionista
E o imobilista

- Quanto mais me contrarias menos mudo…

- Não pode ser!

O que deu o passo até hoje
Até à escrita que deu outro

:

O que teve medo
Na permanência do instinto

:

Não se precisa quando

.

Num dia em que ainda não se escrevia
Um conflito partiu até este momento

,

A contemporaneidade permanece igual a sempre
Desde aquele abstracto dia de medo em que alguém falou mais alto

- Não! Não pode ser!

No local em que tudo mudou
Um silêncio
Fracção milésima para o confronto
Bifurcação ambígua dos seres
Uma resposta para o mundo em que vivemos
Cheio de tudo nos dois pratos da balança

...

A curiosidade cresceu

Abriu caminhos

O mutualismo por identificação
Abriu uma bifurcação da bifurcação

Confronto
Derrota

Confronto
Vitória

Tudo desde o ponto de conflito
Desde o infinito que não futuro

.

- Estou errado… Errei. Quem sou. De que lado estou?»

PALMAS PALMINHAS

Palmas

Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas

Sim
Bravo!

As palmas
As palavras
Palmas para as palavras!

Um eco exponencial
De palmas

Muitas palmas

Para o artista
Para as palavras

Mais!

Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!

Bis!

Palmas

Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas
As palmas das mãos
Como suporte sonoro

O eco a corroer o espaço
O espaço das palmas
O espaço das palavras

Muitas mãos a dizerem que sim
Muitos bravos a viveram das palmas
E as palavras a morrerem insignificantes

Mais!

Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!

E as palavras a morrerem insignificantes.

Bravo
Muitos bravos!

Muitas palmas para tudo isto!

(0)

A essência é
Lixo concentrado
Local donde jorram
As águas poluídas
Afluentes dos tempos
Os diversos tempos
Cristalizados na História

A essência é
Gruta dos seres
Local sombrio inóspito
Que nos escorre pelas mãos
Água preta e pastosa
Personificação do vulto
Que nos move.

A essência não é
Magia encantada
Pureza no corpo

É conformação
Espelho que reflecte
A embriagante imagem
Que conspurca os gestos

A essência queimou
É mero carvão que sobra
Duma fogueira que já não arde

domingo, junho 15

SALDO







À venda o que os judeus não venderam, o que a nobreza e crime não gozaram, o que o amor maldito e a probidade infernal das massas ignoraram; o que nem tempo nem ciência têm que reconhecer:

As Vozes reconstituídas; o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; a ocasião, única, de distender os sentidos!

À venda os corpos sem preço, sem distinção de raça, mundo, sexo, descendência! A riqueza irrompe em cada lote! Saldo de diamantes sem controlo!

À venda a anarquia para as massas; a satisfação irreprimível para os amadores superiores; a morte atroz para os fieis e para os amantes!

À venda as casas e as migrações, os sports, as maravilhas e os comforts perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que fazem!

À venda as aplicações de cálculo e os saltos de harmonia inauditos. Regras e achados nunca suspeitados, entrega imediata.

Ímpeto infinito e insensato de esplendores invisíveis, de delícias insensíveis, e seus segredos enlouquecedores para cada vício, e a sua aterradora alegria para a multidão.

À venda os corpos, as vozes, a imensa opulência inquestionable, o que nunca será vendido! Ainda temos de tudo! Os viajantes não têm que entregar já as suas comissões.


Rimbaud

DEMOCRACIA















«A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.

«Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.

«Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

«Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz, inaptos para a ciência, esgotados para o conforto, e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!»


Rimbaud

quarta-feira, junho 11

SÓ TENS QUE, APENAS ISSO E NUNCA O QUE TENS

Só porque não te mexeste
Perdi toda a esperança
Aguardei frio e chorei

O grito da revolta que nos faz implodir

Só porque nada fizeste
E nada fazes só
Perdi o brilho nos olhos

Só porque não constróis nunca
E nem acompanhado
Perdi a força no âmago

Só porque sou só
E construo contigo
Ganhei uma vida

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento

E só depois de desistir de mim
E acreditar em ti que não acreditas

Vi a nossa morte e a ti ta dou
À luta na espera de te sentires vivo

Vi a morte e a ti te entrego
Toda esperança que não tens
Toda a luta que fervilha em ti
Todo o descontentamento a emergir

Vi a morte e não a vejo portanto

Mas tu crês nela e não percebes
Que a morte que te entrego
É a vida que tens para entregar

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento
À luta na espera de te sentires vivo
Ao grito de revolta que nos faz implodir

Só tens que morrer
Que te entregar à morte
Ao que te move nela

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que morrer
Como eu morro todos os dias
Morto para tudo mas desejoso de viver

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que viver
Como eu vivo todos os dias

Vivo para tudo mas desejoso de morrer

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Só tens que

Apenas isso
E nunca o que tens

Não desistas nunca mais

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Estás vazio

Apenas isso
E nunca o que sentes

Andas iludido

Apenas isso
É o que te move

É o que me dás a acreditar
Em nada
Porque ages no nada

É assim que acredito em mim
Em nada porque és nada

Demonstras-te vazio

Apenas isso
E nunca o que és

Foges e escondes-te

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Falas-me e eu respondo

Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E hipoteticamente acreditar em ti

Só porque desisti de mim
Somente para acreditar em ti
E hipoteticamente acreditar em mim

Mas eu acredito em ti
E quero que tu acredites em mim

Quero que vejamos o que há para crer

E tu acreditas em mim
E queres que eu acredite em ti
E eu que creio nas palavras
Muito para além da imobilidade

Eu que creio na mudança
Muito para além do espírito

Eu que creio no espírito para a mudança

Insurjo-te para viver como nunca viveste
A estrumares o que de ti arde insuportável

Insurjo-te para cuspires nos teus hábitos
Para extenuá-los até ao seu verdadeiro valor


















Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é
Só porque nem eu sei o que isso é…

sexta-feira, maio 30

A UMA VALSA INÓCUA















Invadem-se campos e destroem-se culturas de flores milenares
Os amantes de flores choram de raiva e gritam não e nunca!
Sentem o seu mundo de sonhos inebriantes a ceder
A ruir como água suja a cair para um esgoto ao sol

Tão cedo imaginariam esta chegada
Andavam demasiado ocupados na sua insipidez
No seu nada para a vivência exceptuada ao vegetalismo

Agora insurgem-se finalmente insurgem-se
Estão vivos finalmente vivos e com força para viver

Desde sempre se quedaram nos gestos vestidos
Cada vez mais embalados pela velocidade de tudo
Adormecidos fetos da acção hermética que tanto delicia

Não percebem o que se propõe ao calcar os seus jardins
Não percebem só porque estão demasiado ocupados em podas

Não percebem a força verosímil das palavras
Não percebem nada porque atribuem a culpa à própria morte

Coitados

Tenho pena da vossa ignorância mas percebo-a
Tenho pena de mim até mas percebo-me e aceito-me e aceito-vos
Tenho pena de todo este mal entendido e da vossa mesquinhez de viver

Mas afinal ainda se impõem
Ainda lutam fortes e incongruentes

E isso maravilha-me e a isto chama-se optimismo
Talvez a dose de optimismo que aconselham para as regas

Não têm com que se preocupar

Não chorem mais não gritem mais não me odeiem
Canalizem tudo isso contra os vossos corpos
Lutem contra a vossa ignorância e passividade
Deixem de me ver morto só porque sou todas as vozes
Todas as sombras e todos os males e tudo o que é vosso

Lutem como animais espumosos
Ajam por instinto e esqueçam-se de pensar

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Abram os olhos para não me repetir
Abram os olhos e enjoem e ajam e sejam
Abram os olhos e vejam a razão pela qual escrevo

A minha pretensão não vai para lá dos vossos gestos
Não é mais que um meio para vos espicaçar

É uma pretensão escrita maior que a própria religião

Uma pretensão contra a religião
Uma pretensão contra qualquer tipo de moral
Uma pretensão pretensa em ódios
Uma pretensão que nos arruína e nos eleva


É a ira a roer as concavidades do corpo

A força do teu sangue podre e nauseabundo
A condensação do que afugentas cambaleante
O limite a destruir todas as barreiras da incapacidade

Tudo serve para te ver vivo
Para perceber que ainda te mexes
Que a arte está morta mas pode respirar

Que o cheiro a mofo que dela exalas é apenas circunstancial

Que o requinte na arte é só mais um luxo
Uma característica duma nova classe

Que a beleza na arte é uma necessidade
Uma via para desligar o mundo e criar sobre ele

Que o mundo é a arte e a arte é o mundo

Sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates

E o discurso paralelo é apenas mais uma arma
E vocês só não morrem porque não quero

Quero-vos vivos a fervilhar em ideias
A construir tudo o que destruo com afinco
Para lá das palavras para lá dos sonhos

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Que sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates.

quarta-feira, maio 28

QUEM É QUEM?

Um homem louco é aquele cuja maneira de pensar e agir não se coaduna com a maioria dos seus contemporâneos. A sanidade mental é uma questão de estatística. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e período é a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta é a definição de sanidade mental na qual baseamos a nossa prática social. Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e acções de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psicólogo pode chegar à mesma conclusão. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos em conta. Se um homem tenta viver como se certos destes elementos constituintes do seu ser não existissem, está a tentar viver, num sentido psicológico absoluto, anormalmente. Está a tentar ser louco; e tentar ser louco é insano.

Aplicando estes dois testes, o do historiador e o do psicólogo, à maioria mentalmente sã do Ocidente contemporâneo, que verificamos? Verificamos que os ideais e a filosofia da vida agora geralmente aceites são totalmente diferentes dos ideais e da filosofia aceite em quase todas as outras épocas. O Sr. Buck e os milhões por quem ele fala estão, esmagadoramente, em minoria. Os incontáveis mortos preferem a sentença a seu respeito: estão loucos. Os psicólogos confirmam o seu veredicto. O êxito – «a deusa-cadela, Êxito» na frase de William James – exige estranhos sacrifícios daqueles que a adoram. Nada menos do que automutilação espiritual pode obter os seus favores. O homem coordenado para o êxito é um homem que foi forçado a deixar metade do seu espírito fora da sua personalidade. E se ele aceitar os ideais e a filosofia da vida que a deusa-cadela tem para oferecer, achar-se-á condenado, ou a uma estrénua irreflexão ou a um cinismo poeirento e descolorido. Nascido potencialmente são, ele aprende a sua loucura. “Porque todo o Homem”, como Sancho Pança observou, “é como o céu o fez, e algumas vezes muito pior do que isso” – algumas vezes, também, muito melhor; depende, em parte, dos seus próprios esforços, em parte das tradições, das crenças, dos códigos, da filosofia da vida que acontece ser corrente na sociedade em que ele nasceu. Onde esta herança social é uma loucura, o indivíduo naturalmente mais normal está moldado à semelhança de um louco. Em relação à sociedade em que vive, ele é, sem dúvida, normal, porque se parece com a maioria dos seus pares. Mas eles são todos, falando em absoluto, conjuntamente loucos.
A Natureza permanece inalterável, quaisquer que sejam os esforços conscientes feitos para a deformar. Os Homens podem negar a existência de uma parte do seu próprio espírito; mas o que é negado não é por isso destruído. Os elementos banidos vingam-se nos indivíduos, nas sociedades inteiras. Uma coisa apenas é absolutamente certa quanto ao futuro: que as nossas sociedades ocidentais não se manterão por muito tempo no seu presente estado. Ideais loucos e uma filosofia lunática da vida não são as melhores garantias de sobrevivência.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

A 1ª AVENTURA CELESTE DO SENHOR ANTYPIRINE (EXCERTO)

Nós declaramos que o automóvel é um sentimento

que já nos animou em demasia na lentidão das suas abstracções

e os transatlânticos e os ruídos e as ideias. Entretanto

exteriorizamos a felicidade, buscamos a essência central

e ficamos muito contentes por a esconder. Nós não queremos

contar as janelas das maravilhosas elites, pois que Dada

não existe para ninguém e queremos que todos percebam isso mesmo

uma vez que é da varanda de Dada, garanto-vos, que se podem ouvir

as marchas militares

e descer cortando o ar como um serafim nos balneários públicos

para urinar e compreender a parábola.

Dada não é loucura, nem sabedoria, nem ironia – olha para cá

a ver se me vês

gentil burguês.

A Arte era um jogo, uma noz, as criancinhas

juntavam as palavras com um guiso na ponta e depois choravam

gritavam a estrofe e calçavam-lhe botinhas de boneca e a estrofe

transformava-se em rainha para morrer um bocadinho

e a rainha transformava-se numa baleia e as crianças corriam

corriam até perder o fôlego.

Então chegaram os grandes embaixadores do sentimento

gritando historicamente em coro

psicologia psicologia ia ia

Ciência Ciência Ciência

viva a França!

Nós não somos ingénuos

nós somos sucessivos

nós não somos o contrário de exclusivos

de certeza que não somos simples

e sabemos perfeitamente discutir a inteligência.

Mas nós, Dada, nós não somos da sua opinião

visto a Arte ser uma coisa pouco séria

asseguro-vos

e se vos apontamos o Sul e o crime

para dizer empanturradamente ventilador

arte negra e sem humanidade

é para que o prazer vos sufoque

queridos ouvintes


Tristan Tzara



terça-feira, maio 27

INKZ

Li no chão:
As precisões da produção
têm efeitos abruptos na intimidade
Qual o peso da alegria?
O tamanho da agonia?
A altura do desejo?
O comprimento da resignação?
Só nas fábricas evasivas
é que ainda se produzem emoções
em modelo Revolta
tamanho XL

Todas as identidades são dançantes



antimanifesto para uma arte incapaz,
Boaventura de Sousa Santos

segunda-feira, maio 26

A CONDENAÇÃO DO ASSASSINO

E só porque o ódio nos inflama o corpo
Ao extremo de sentirmos um orgulho medonho
O mundo gira e chocamos uns com os outros
Ignorantes ao ponto de termos uma razão suposta
Que nos alimenta o ego monstruoso

A fonte para a coerência
Subliminar processo para a credibilidade

A que nos move cheios de convicções
Rumo ao destino ultrajado pela vontade

O veículo da inteligência que nos aprisiona
Que nos faz sangrar nesta banheira sideral

A que ilude, tortuosa e selvagem
Para lá de todos os sois de todas as luas
De todas infinidades expositivo/argumentativas
Que nos levam até à sapiência do egoísmo;
Que estratifica os homens e sacrifica os sonhos
Ao ponto de levarmos as discussões que nada resolvem
A um mero ponto, a um simples e carnal umbigo

Um fio que nos aprisiona e amordaça
Nadadores aflitos na corrente do rio
Mergulhadores da solidão

Ouvem-se os hinos ao amor na discórdia
Símios refractados pelo colectivo sombra
Umbilicalmente ligados pelo medo,
Limbo da razão de todos factos
De todas as tempestades e de todos os céus
Que nos fazem voar inseguros,
De todas as mágoas de todas alegrias
De todos cantos dos pontos mais remotos
Desde o eremita até ao integro ser

O eremita tem medo
Assusta-o toda a dança mortífera

Todo o orgulho construído
Todas as discussões petrificadas

O integro ser, igualmente o medo
Assusta-o toda a solidão mortífera

Todo o orgulho destruído
Todo o ostracismo petrificado

E toda a razão se esvai
Como sangue a tingir o chão pisado

Toda a coerência se afunda
Como um barco com um buraco na proa

Tudo arde até que só nos restam cinzas.

Da razão, da coerência, do eremita
Do integro ser, para sempre o pó
Pequenos grãos de nada.

E das cinzas, do pó, tudo cresce de novo despido
Desprovido de qualquer peso, de qualquer
Denominação explicação necessidade
Somente a uterina sabedoria nunca escrita
Jamais percebida, a sabedoria da pureza das balanças.


Mas como estamos tão bem neste solo
No local onde o querer é tudo o que temos
Despoletar fisgado para qualquer infinito
Como se o amanhã fosse a palma da nossa mão.

Fingimos. Reagimos. Acreditamos no que quisermos
Até que algo nos corta e faz sangrar, um intercalar
Existencial que nos imobiliza. Restabelecemos
O ritmo, a marcha escolhida pelo espírito, triagem
Que nos capacita para tudo, deuses terrestres para
Todos os sonhos e todas a batalhas e todos os fins.

Não importa o chão que pisamos, somos capazes de tudo.
Não importam os sorrisos os gritos agoniantes as gargalhadas
Somente as trincheiras e o conforto da nossa singularidade.

Nem tampouco os confrontos os medos os festins e o amor
Tudo terá um fim e nessa altura tudo cairá sobre nós como lâminas

Acutilantes arrependimentos independentemente do passo tomado.

Para quê festejar para quê chorar para quê o que quer que seja?

Nesta odisseia de pesos tudo vale todos os pesos diferem
Mas todas justificações e todas as loucuras são iguais a nada,
A rigorosamente nada. Hoje nada vale e tudo acontece, hoje
Mais do que nunca, o chilrear dos pássaros é igual ao roncar
Dos porcos que felizes chafurdam na lama da sua naturalidade.







Não somos mais do que fantasmas. Carne púrpura
Que se move para lá da temperatura dos corpos



Somos ardentes signos sob a batuta da razão
Sempre ao encontro dum argumento duma desculpa
Duma solução inalcançável prestes a ser agarrada
Pelos grilhões da ignorância infecciosa.

O relógio dá voltas e voltas
Numa espiral que se esconde nos ponteiros.

A ampulheta vira e revira
Sem nenhuma ordem definida até à
Horizontalidade, até à morte do tempo até
À morte do seu esplêndido símbolo, até à condenação
Do único assassino de sempre.

terça-feira, maio 6

AO DEDILHAR OBSCURO

E então
Inventaram-se os espelhos

Multiplicaram-nos

Do primeiro reflexo
Aos múltiplos reflexos

Foi assim que se fez o mundo
De espelhos apontados para espelhos

Imagens das imagens
Veículos apontados para o infinito

A verdade a decompor-se
A contaminar-se por ilusões refractadas

Desde a ilusão mais pura
Até ao destino mais incerto

Desde o ponto
Até este novelo

Criaram-se as palavras
Os significados

Avivaram-se actos
Brilhos do movimento

A mentira esquecida pelo espelho
Escondida na imagem da verdade
Espelho que oculta todos os espelhos do tempo

Olhamo-nos ao espelho
E só vemos um reflexo

Nada de sério
Apenas uma imagem


Não somos nós

Apenas um espelho que nos aprisiona
Que nos liberta para lá do concreto
Que nos divide e multiplica matematicamente

Foi isto que nos trouxe o espelho
Muito antes de sequer existir

O reflexo do reflexo dos reflexos do reflexo
Labiríntico caminho sem retorno

Espelho que se quebrou e requebra até ao pó
Direcção antagónica que culmina na origem

Assumimo-nos deuses nesse longínquo dia
Criamos e recriamos e moldamos o mundo

Espelho supremo de toda a criação que nos iludiu

Aquando do primeiro reflexo perdido.


(escrito a partir duma frase de Herberto Helder)

BATINAS CASTANHAS

De capacete no sítio. Do local onde correm
Todos os males e desgraças
A circunferencial cabeça rola pelo chão,
A avarenta tômbola do devaneio
Que me contenta com as ideias no sítio
As prosaicas e arcaicas limitações
Das prisões em cores inventadas
Dos estados de espírito formalizados
Que orientam a multidão sedenta,
As cabeças espetadas entre si, emaranhado da sanidade.

Retiro o meu capacete e galgo
Espezinhado por fobias que se elevam
Que cantam que gritam
Adeus! Não mais existem
Os coros da concórdia as batinas da união
A loucura que não minha.

Adeus! Morri de desastre
Bati com a cabeça, renasci pelo trauma
Pela loucura sobre ombros

Vocifero!

“Unam-se orquestras sinfonias
Da agradável desgraça! Passem a estafeta
Para mim que não tenho mãos
Deixem-na cair no solo inflamado pela massa”;

Os limoeiros enrijecem
Para lá da minha (janela),
Entranham as suas raízes,
Asfixiam o peculiar castanho
Do vento que se vê. O céu,
O poético céu
Armistício da chuva
Espelha as vossas imagens

“O peso dos capacetes assim vos pende
Orientados sinais camuflados rumo ao funil destino”

(Do vidro um sorriso
Uma réstia espelhada
Um brilho lamacento
Quebrado, um caco pontiagudo
Uma espada simbólica
Um corte sangrento na bruma).

“Bem hajam trupes da diarreia!”

Habituaram-me ao ódio
Ao asco moldável nos dedos
Que escorre catarata,
À tinta castanha que me lava a cara

“Adoro-vos!”

sexta-feira, maio 2

TOMBSTONE BLUES

The sweet pretty things are in bed now of course
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous

The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"

Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"

The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle

Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues

The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter

Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college

Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Bob Dylan

quarta-feira, abril 30

O SONHO EM MARCHA

O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do Universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas - todos somos afinal só fantasmas, e o que construimos já não cabe entre as quatro paredes da matéria...

Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.


Raul Brandão

sexta-feira, abril 25

HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)

"Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e anti-sociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua corte de escribas e advogados".


The House of Morgan Ron Chernow

segunda-feira, abril 14

BASTIDORES DA SELVA ABRANGENTE

Os subúrbios são o espaço da mistura de espécies individuais, a possibilidade num jogo aleatório dos espíritos, uma intimidade essência do percurso construtor do destino. Por vezes um encontro é a base para o uno, a área do tu eu, confronto saudável e progresso na identificação que nos rege a euforia alegre, o caminho que os hábitos determinam, o previsto analisado e absorvido em consonância com o tempo que nos molda, como felizes contemplados num concurso de milhões de notas em música aquecida por um espírito latino rebelde que vai amolecendo confortavelmente -a inércia a subir pela via da esquerda, a rápida que nos imobiliza galopante pela estrada, ao traçado pessoal que transfigura porque o tempo é o presente, os restos do passado amadurecidos em casca de carvalho, o processo do tempo em desmultiplicação acontecida por fragmentos doces e oriundos das profundezas do princípio que é a razão desconhecida, a razão que não se fez por nós, a que se foi fazendo sem se ver quando distraídos pela vivência, a vivência que é vida, o limbo da vitória, a união segmentada pela disponibilidade dos encontros, -a probabilidade lançada à velocidade de tudo o que vai acontecendo aceitavelmente: mar flutuante e cheio, com rochas que atingem os montes que não tocam na superfície da água, os montes das nuvens fofas e apaziguantes, as almofadas que dissimulam a realidade acutilante. As pessoas circulam pela matéria que ordena o traçado cósmico como elemento necessário e natural, passeiam pelo habitat que nos molda como barro que difere na plasticidade de cada preparação, do avançar particular e conciso, à qualidade da origem que se procura, no presente da magia. Os truques e ilusões sucedem como peixes munidos de ferros, ampolas ingeridas a golfadas enérgicas capazes de levarem à perfeição do homem equilibrista sobre o fio pesado pelo corpo que se mantém apaziguado sobre uma plateia de palmas em pé sobre outros fios de equilíbrio. Os meandros da cidade são assim, cristalização das areias douradas em noites de Inverno Palaciano. É bela a mistela, babel no seu auge sentimental, não há terra certa mas apenas uma forte vontade de viver sobrevivente da selva, a selva mágica com lianas que são fios emaranhados pela mente, pelo espaço místico, mistério, a alquimia da química do cérebro ao serviço do avanço das formas manuseadas pelas tenazes do caranguejo transversal desajeitado que age por instinto nos Bastidores da Selva.
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.

segunda-feira, abril 7

DIAGNÓSTICO PEDIÁTRICO

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo

Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade

Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou

Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade

As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática

Os braços extensíveis
Da exponencial carência

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo

quarta-feira, abril 2

INDIE-COCK-PLOC-CHOC-RETRO

Que belo que é! Jovens preconceituosos tão abertos à cultura de plástico que lhes é entregue, a rotular supostas perversões! Perversos meninos da minha idade, cheios de dores, prestes a descarregar nas dores dos outros. Idílico até! Meninos na moda a escreverem histórias infantis em jeito de quem faz beicinho só porque prontos! Dispensava bem certas opiniões e a de certos meninos bania-as da face da terra! Mas como o ridículo é das essências que mais me fascina, até acho aceitável, hilariante! Tenho pena de dar importância a esse tipo de meninos, mas sinto a necessidade de pagar com a mesma moeda, uma moeda mais pequena sem dúvida e sem tanto engenho. Por isso, meu menino, sim, tu mesmo. Não me dês esse tipo de importância, não mereço nem quero merecer, muito menos dum estereotipado menino como tu, que tão bem personifica essa moda pseudo-contra-cultural que cresce tão harmoniosa e extraordinária.