quinta-feira, setembro 11
O ETERNO RETORNO
que nela pesam por gastar. É esse
o preço do dinheiro, o peso de menos
um copo, a fome para menos uma sandes,
a mão, ocupada por símbolos merdosos.
Não me esqueço daquela brasileira
a do para quê tanto dinheiro, tal como
não esqueço que, o corpo, assim como
o dinheiro, é só pra gastar.
E só por isso, – e, caso te condenes
exclusivamente à miserabilidade
das letras – não te esqueças também
de abrir a mão, deixar fugir a pomba:
por mais negra e pesada que seja.
De resto, abrir a mão para esperar troco
é o gesto que se perpetua na escrita.
UM BARRIL QUE NÃO EXPLODE
mesas cheias de copos vazios. É sempre assim,
depois do barulho caótico e dos corpos trôpegos
o tempo é infinitamente perpétuo
o silêncio eterno e terno, a acalmia
só superada pela magia do sono,
as horas, suspensas pelo movimento
quebradiço: um corpo, pesado,
à espera de ser arrumado
vazio como copos, mas cheio de eternidade.
AI! SÃO COISAS SÃO COISAS!
“Uma lição dos últimos anos é que o desejo de modernidade não se traduz sempre no desejo de uma sociedade liberal” Esther Mucznik
acabamos por perceber a caldeirada em que vivemos.
Não conhecia a senhora, pelos vistos é polémica, acarreta às costas os propósitos de um estado bélico e supostamente detentor duma verdade questionável. O que é certo é que me trouxe uma outra verdade que tem muito que se lhe diga. Embora o local onde li esta frase não me permita ler o resto do artigo, e a pesquisa que fiz, se resuma a uma série de opiniões díspares e comprometidas com desígnios um tanto ou quanto perigosos, esta frase, só por si, vale muito mais que ouro.
É pena que, gente muito manhosa, continue a usar a linguagem e desculpas mais do que justificadas por atrocidades fodidas comó caralho, para defender propósitos que em nada impedem a injustiça de continuar a vingar no mundo sob a forma mais impura de liberdade. Pois é, a modernidade é um fardo dissimulado pelos propósitos liberais que vingam na utopia do mundo. Não sei o ela quereria dizer, mas vendo bem, não é importante, pois não há muito mais por onde tentar descortinar.
terça-feira, setembro 9
O CAOS E A CRIMINALIDADE
quinta-feira, setembro 4
NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
CORTINA
Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.
quarta-feira, setembro 3
O HOMEM QUE NÃO QUERIA
andava pela cidade a chutar latas,
nunca queria, e as latas iam rebolando.
Era alto e o espelho não enganava,
de cada vez que se olhava, pensava,
não quero, detesto a magia do verbo.
Os degraus, enquanto descia,
pois o elevador estava avariado,
nunca lhe trocavam os pés,
contava-os um a um
e lá chegava o murmúrio metálico.
A primeira que encontrasse
seria a primeira de muitas. As latas
quase conseguiam, às vezes, fugir
com o vento, mas ele era teimoso.
Raramente falava, chutava latas
para não estar em silêncio.
Quando encontrava uma mais exótica
não a empurrava para longe com o pé,
guardava-a num saco transparente.
Quantas vezes, enquanto procurava latas,
ouvia: tens uma lata do caralho. Sorria,
mas raramente procurava resposta.
O QUIM
qualquer barulho era razão
para se por debaixo da mesa.
Não gostava de festas e alguns
foliões gozavam quando se agachava
uma estadia mais próspera
determinou o seu estado analítico,
era ferrenho da guerra, acreditava
em demasia nas bombas. O Quim
ao contrário de mim, percebia
o que é isso de estar em guerra, mas vá lá,
para ele, já acabou há uns anos. O Quim
morreu, mas a guerra continua.
OU CONTOS INFANTIS
que os cidadãos do nosso mundo
têm cada vez mais apetência por
livros e música depressivos. Rotulados
como se o descontentamento fosse
sinónimo de uma caixa cheia de
benzidos fármacos, teme-se um oceano
de corpos e de cangalheiros sem mãos
a medir. Faz sentido, já não há caixões
que cheguem ou lápides que representem
condignamente a numerologia da causa.
Sem crer nem saber, meteram-me nesse mesmo
saco, deu-me vontade de rir. Tenho medo
de um dia, outorgado pelo sugestivo estudo
começar a ouvir música alegre e a ler manuais de
como ser feliz no mundo dos palhaços.
LIÇÃO Nº 5
engano. Conjugação: talvez me engane.
Gosto desta irmandade entre elas também.
Também, fascina-me igualmente. É simples,
nenhuma delas nos dá certezas, gosto
da palavra certeza por causa da incerteza
e gosto da incerteza porque é talvez
um engano. Conclusão: gosto também
de me enganar com uma certeza incerta.
MORAL DA HISTÓRIA:
Sou um orgulhoso egoísta como tu.
terça-feira, setembro 2
LAVATÓRIO
uma folha branca, até que se suja.
Depois disso, na mesma folha
na mesma branca, as palavras imundas
pelo dia-a-dia borram o espaço,
na mesma branco, na mesma sujo
as letras carregam o fardo, e por sua
vez, a folha carrega as letras
e os dias ficam mais limpos. Talvez
não seja assim. As horas não se limpam
e as folhas também não se sujam.
Uma folha branca é sempre branca
e só mesmo as mãos se mantêm sujas.
segunda-feira, setembro 1
CACOFONIA DOS MOVIMENTOS DISPERSOS
abriga a sintonia dos interiores desfasados.
Este tipo de veleidades completas
tem muito que se lhe diga, e a vocês também.
Uma pessoa quando obrigada aos mecanismos
regidos pela exterioridade das palas de outrem
e a ultima frase dirige-se a ti, transmuta
a sintonia dos pensamentos programados.
Quanto às veleidades completas perecíveis
de possuir identidade, apenas digo, continuem.
Não me digam que tudo isto é estranho. Para vós
estranho seria andar por aqui e eu dizer
sim está tudo bem. O que até se confirma.
Nas fotografias toda a gente é calma, não fui eu
que o disse, apenas escrevo. É um facto. Nas fotos
do nosso quotidiano, muitas das pessoas até sorriem
e eu derreto-me, adoro alguém com um bom sorriso.
In loco na loucura do momento, alguém ordena
sorriam! estão a ser fotografados, tristes é que não!
Na pista dos pavões apanham-se penas e bonecas
os holofotes nunca enganam, e o ego precisa de comida.
Os animais são qualquer coisa de muito terno
ultrapassam a barreira da racionalidade bruta e
a indiferença só é impossível pelo próprio amor.
Nos manuais metafísicos, e notem, não disse dos,
as crenças alienadas, e notem, não disse crianças
são o caminho mais próximo para a vitória. Ganhar
mais do que perder, é a bandeira partidária
um bom comprimento fica sempre bem na cara mais feia.
Morrer, só se morre uma vez, e mais de uma já é ganância
no que toca à vida é diferente, nunca reparaste?, respirar
não é exclusivo dos asmáticos, acho que nunca te faltou ar
usas bombas todas os dias e tens-lhes um ódio arrepiante.
A contradição já não é um ponto de ruptura, é uma cama feita
não fosse por isso, e a tua não estaria sempre fresca e arejada
pronta para o que der e vier depois de um dia repleto de alegrias
portanto, há muito que mudar na nossa política de marketing.
Os engodos imunológicos abrigam as leis da circulação
fosse eu alguém para lá desta impessoalidade e tu
bem, tu, muito bem tu, gostarias é de sintonias dispersas
dispostas em segmentos pérfidos que albergariam belos gritos.
sexta-feira, agosto 29
LIÇÃO Nº 2
3 VÉRTICES DE 1 TRIÂNGULO EQUILÁTERO
O Passado, Está Em Voga
O Futuro Berra & Bem, E O
Presente, Bem O Presente
É Convergência Que Já Brota
Como Quem: «Cospe Calmo!»
COMO SER PRETENSIOSO
sou mais de pesadelos. Um dia perguntaram-me
Mas tu queres viver da poesia? Ao que respondi
Eu já vivo dela. Não, o que pergunto é
economicamente, gostarias de viver da escrita?
Sinceramente, de maneira alguma. Viver para ela
já me chega, prefiro mil vezes viver da miséria
colher os seus frutos podres, mascá-los com iguais dentes
aguardar com a certeza de que o corpo não amolece,
e por enquanto, isso não me preocupa, no máximo
enrijece, mas só depois de mim. Logo a seguir ao pesadelo.
NO CAMINHO DA FELICIDADE
e quebra-se o gelo d’agosto. Depois
do shopping, onde não encontrei o que
queria, a força perpétua do negócio de neons:
um rui esgotado e pouco mais para escolher.
Daqui, no caminho, o silêncio, os prédios
a recortar o horizonte como uma tesoura
gigante. Sacos que passam com pessoas pesadas
adolescentes que se juntam na felicidade comprada
um banco de jardim que aguarda só
um poema pobre como a própria tarde.
terça-feira, agosto 26
STUPOR MUNDI
Sofremos com nojo a pertença em nós
indulcada de uma geração, as suas taras
vindas de longe, modos diferentes
de se ser igual. Com uma raiva triste,
vêmo-los foder, procriar, indo aos poucos
definhando, esperados que são
por pós-modernos jazigos.
Não há nada a fazer,
nenhuma palavra nos salva.
É-se sempre contemporâneo da merda.
A CARREIRA DO MESSIAS
A voz rouca despoleta do silêncio
um coro impaciente prestes a explodir.
Esperou demasiado, os outros também,
esperavam-no como um Messias
dos transportes públicos. Uma hora
de atraso era demasiado, ia dizendo.
Prontificou-se também a berrar que não permitiria
a leitura do seu passe. Chamem a polícia
era a sarcástica palavra d´ordem. Querem
que andemos de autocarro, muito bem
mas esta merda não pode acontecer.
Quase se espumava da boca. Vociferou
foi apoiado, e ovacionado lá saiu.
Fez-me lembrar os intelectuais da nossa praça,
talvez um pouco mais complexo e causídico.
O DIREITO DO MAIS FORTE À LIBERDADE - RAINER WERNER FASSBINDER (1974)
1.
Quem tem amor não tem
razão, tem apenas frio.
Não te confundas, cão
vadio, com chacais.
Pois o chacal é um animal
que tem sempre razão.
2.
Sou tão feliz. Estas lágrimas,
não liguem, é do álcool.
Vá - pago um copo
a quem disser que me ama!
3.
Não te deixes enganar, raposinho,
pelos modos bem criados do chacal.
Não eras tu que dizias «Há pessoas
que se lavam, e há outras que são limpas»?
Que não te impressione a toalha de linho,
o brilhos dos talheres, o arroto de lavanda.
Repara antes no seu prato: reconheces,
inocente, o acepipe? É o teu coração,
raposinho, isso mesmo, o teu coração.
José Miguel Silva
domingo, agosto 24
SO GOODNIGHT
Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.