terça-feira, junho 17
LOCURTINO DE ABISSAL
«Estes homens que crescem, exímios na procura dum sentido para a vida, acham que são mais que os outros, que através da sua alfabetização irão encontrar um espaço vivencial que lhe embalará os filhos e os filhos por sua vez acharão o mesmo. Acham que aprender nas devidas instituições de ensino é o caminho para o mundo repleto de fantasias, e que todos aqueles que se recusam a ir por esse caminho são autênticos e reprováveis animais. Argumentam que no futuro quem não tiver como bases todas as suas descobertas maravilhosas no campo de filosofia, todas estas promessas abstractas que sinceramente e naturalmente não consigo perceber, não vive no mundo com o qual sonharam, o local onde o conhecimento é simbiose para com o meio terrestre em que caminham. Declaram guerra cerrada ao instinto. Veneram Coferti O Mago e vêem nele e na batalha da Antiga Antiguidade o exemplo máximo e o caminho para a intemporalidade. Apoiam-se no texto “O Intelectualismo” desse mesmo guerreiro que entre outras coisas e para não dar muita importância, defende que «Os homens determinam-se pela classe de inteligência» e que «Os Aliortes ao se recusarem a aprender, não sabem que o mundo tem muito para lhes dar para além do medo.» A partir destas máximas tudo para eles faz então mais sentido. Acham que o medo de saber não se justifica, tudo se torna claro cada vez mais claro, só não sabem que a cegueira leva à prisão do espírito. Se acreditasse neste nosso deus diria que era um feliz contemplado, um adormecido intelectual iluminado pela sua espada que abre espaço para o pensamento na mata densa e selvagem. Sou um egoísta por não acreditar, por perceber que não sou mais que os Aliortes, que agora mesmo enquanto escrevo olho pela janela e vejo o mundo como eles, sem nenhuma análise ou tentativa de compreensão, que isto a que chamamos de conhecimento é uma farsa criada por alguém, um embuste que nos trama e engole no mato, nos escaparates da nossa compreensão que nada vê e nada consegue perceber só porque nada há para perceber. Sinto-me um inútil, repartido no campo de batalha, retalhado por esta compreensão que de nada me serve. Vejo todo este bando alfabetizado a criar caminhos, a dividir o mundo, a criar soluções que são problemas, só porque mais logo tem que ir mais fundo e quanto mais rápido compreenderem melhor. Agora até há quem pense que os problemas são a solução, que se existem só tem que ser ultrapassados, como se fosse tão linear e instantâneo. Agem por bem nas suas mentes sem compreenderem o que é isso de agir e quais são as suas causas e consequentemente os seus efeitos. No caso de Liberpol Colinope -que morreu há bem pouco tempo, depois de se fechar em casa e procurar a chave para a compreensão durante muitos anos – “o homem inteligente que um dia quiser e achar depois de muito cálculo cerebral que as origens do homem deveriam ser imutáveis, não percebe que o conhecimento é um novo mundo, um meio que permite chegar à divindade pessoal.” Nos seus estudos notáveis e aprofundados da vida e convicções d’O Mago concluiu entrelinhas que quando o meio não se revelar favorável à origem e às razões da batalha da Antiga Antiguidade, nem tudo está perdido, somente porque a compreensão servirá para acalmar o espírito duma forma egoísta que o inflamará como madeira seca. Como é belo este bando de senhores que possuem a razão. Talvez um dia se dividam e batalhem entre si, como um dia os nossos ancestrais se dividiram. Talvez surja num futuro indeterminado um apologista contra o Intelectualismo, um filho desiludido com a herança que o sangue lhe deixou, um desiludido como eu, contra todo este mundo que é cada vez mais nosso sem que eu o queira para mim.»
Abissal encontrou pela simples observação o destino da evolução do homem. Defendia que a divisão entre os homens não era mais do que uma necessidade de afirmação e justaposição perante o abismo e a sede de conhecimento. A razão de batalha ganha por Coferti era muito linear e não tão complexa como achavam e mistificavam os pueris pensadores da sua época.
«A inflamação do ego, e as suas necessidades despertas pelo medo de acabar, levaram O Mago a iniciar uma chacina perante um adversário que muito bem conhecia não fosse ele sangue do próprio sangue. Tinha vergonha do seu passado. Se ele tinha conseguido a aprender a escrever e a compreender o mundo porquê que os seus conterrâneos não compreendiam? O seu professor -agora que já temos denominação para tal – baralhou-lhe o cérebro. Se ele compreendia, porque razão lhe tinha dito que o homem não é todo igual e nem sempre assimila o conhecimento? Fazia-lhe bastante confusão ter que estar fechado o dia todo e ficar proibido de partilhar com alguém tudo aquilo que sabia, se ele percebia o mundo, todos os outros também. Durante muito tempo, até à data da morte do seu amo, ansiou o mundo. A enclausura e identificação com as origens que o acaso lhe tinha roubado tornou-o num ser curioso desejoso por saber que um dia iria ver o mundo e iria modificá-lo como assim teria que ser. Não sabia se haveria de sorrir como um louco ou chorar como um tolo quando a morte lhe trouxe a liberdade de agir segundo os ensinamentos adquiridos.»
Nesta passagem determinou-se o espectro do ambiguismo. A morte como elemento chave leva Coferti a questionar muito instintivamente qual o caminho a seguir, e a encarar o ensino e consequente compreensão, como um enigma nunca desmascarado pelo seu professor. Apesar de todo ódio aos estudiosos do seu tempo devido ao fanatismo pelo guerreiro, Abissal vê nele a origem para o confronto que se revelou e cresceu até hoje. A curiosidade é para ele a fonte de todos os problemas.
«Quando nos defrontamos com um problema o conhecimento leva-nos a tentar resolvê-lo, mas no entanto, põe seriamente de lado a hipótese de erro, sendo assim, apenas o contornamos.»
Este pensador filho nato do conhecimento que tanto o mutilou e acabou por levar ao suicídio numa época infindável que não consigo descobrir, compreendeu o mundo como meio e o homem como finalidade para ele mesmo. Os seus pensamentos filosóficos que descobri por obra do acaso dentro dum invólucro de pedra no oceano, levam-me a crer que a evolução do homem começou com a contagem decrescente e acelerada do mundo.
«O Mago descobriu a terra e tratou de germinar o conhecimento. Todos os homens que o conheceram e tinham predisposição para a aprendizagem seguiram os seus ensinamentos e criaram outros ensinamentos e outros caminhos e outras soluções e outros problemas. Outros matavam a seu mando para possuir tudo aquilo que queria possuir e saciar-se assim de todos os anos de proibição e abstinência de acção. A partir do momento em que saiu da sua prisão contra vontade do seu falecido professor, ele os homens e o mundo nunca mais foram o mesmo. Tudo porque guardou em segredo a enigmática proibição do seu pai que tantas vezes depois de algumas desilusões lhe ressurgia na cabeça “Os seres não são todos iguais e o conhecimento nunca deve ser transmitido para lá de ti sem que o sintas sem medo. Vivi muitos anos meu filho, nunca tive pressa, a minha longevidade leva-me a crer que o conhecimento é demasiado perigoso, daí passar-te este meu testemunho esperançoso. Não durarei o suficiente para compreender os homens e o mundo, quero que me jures que nunca o transmitirás a ninguém quando morrer. Já não falta muito. Espero que não, mas acho que me vou arrepender de te ter ensinado tudo isto, és muito jovem para ser ensinado, ainda não pensas como um homem sábio, és apenas uma criança aos pés da verdade. Quando saíres daquela porta e encontrares homens curiosos, mais, ou menos desenvolvidos do que eu e que tu, diz-lhes que tudo não passa ainda duma errónea solução, que o conhecimento é a pior arma alguma vez criada.” Não contava a ninguém este desabafo do seu percursor, a vergonha matá-lo-ia apressadamente. E eu muito menos demonstro esta faceta deste deus dos pensadores e apologistas adormecidos do intelectualismo de Colinope, que seguindo a sua sugestiva suposição “um dia irá vingar contra qualquer tempestade causada pelo erro que poderá sempre ser corrigido ou tolerado com mais ou menos afinco.” Tenho vergonha do conhecimento que possuo, tenho um medo mais do que justificado de abrir mais uma porta para o abismo, algo passível de ser analisado e tomado como uma verdade absoluta sem que o seja.»
As suas palavras não enganam e não poderiam fazer mais sentido do que hoje em dia.
«Nichos de intelectuais povoarão o mundo em pingas e dirão que as suas bases são a solução para tudo, mesmo que na prática isso não aconteça. Desiludidos seguirão a via da divinização do conhecimento, uma idolatria que levará a um sentimento recalcado e dividido. Para alguns a inércia será a força central, sentir-se-ão deuses da compreensão, viverão cheios de ideais de mudança e inconformismo nas suas cabeças. Verão nas massas instruídas a culpa para todos os cataclismos somente porque não atingiram a supremacia da errónea e injustificada intelectualidade. Outros dirão que o mundo está perdido e povoarão outro que só existirá na sua loucura. A arrogância e o orgulho separará os intelectuais dos outros ditos selvagens como deveria ter acontecido na batalha da Antiga Antiguidade. Será tarde entretanto, o conhecimento já acelerou para lá da naturalidade fundamental, os homens nunca perceberão que o conhecimento não pode ser fruto dos caprichos.»
Este homem deitou por terra todos os instruídos anteriores e posteriores a si. Mas no entanto não deitou por terra toda a esperança.
«Talvez num futuro surja mesmo um homem contra o intelectualismo, nunca profeta nem salvador, mas sim capaz de derrotar todas as bolhas de conhecimento. Um homem que diga que o intelectualismo é um capricho hipócrita que teve como base o conhecimento e compreensão que tanto o delicia e aniquila. Mesmo que tarde, fará então perceber ao mundo que a ambiguidade da natureza não nos permite afastarmo-nos dela e criarmos uma nossa igualmente dúbia. O Conhecimento existe mas engana-nos, ilude-nos ao ponto de nos acharmos inteligentes.»
Locurtino de Abissal deixou antes de morrer um último desabafo
«Porque tendemos a complicar tudo, a seguir os trilhos do conhecimento intrincado? É tudo tão simples e fácil de perceber, somos todos animais e não mais que todos os outros. Para quê tanta curiosidade? Às portas da morte tudo é claro e só agora que me proponho a ela percebo o porquê de querer acabar com todo este enigma
Quando o homem na sua infância colectiva
Abriu campo para os dissidentes
Para os percursores da inteligência que geminou
Semente tortuosa por florescer
Metamorfose do espírito agora individualista
Em busca do desconhecido criado por si
Formou-se o confronto interno da humanidade
Cerrados orgulhos na disputa
-
O dissidente
Olhado de lado
E o seu opositor
Do lado vazio
O evolucionista
E o imobilista
- Quanto mais me contrarias menos mudo…
- Não pode ser!
O que deu o passo até hoje
Até à escrita que deu outro
:
O que teve medo
Na permanência do instinto
:
Não se precisa quando
.
Num dia em que ainda não se escrevia
Um conflito partiu até este momento
,
A contemporaneidade permanece igual a sempre
Desde aquele abstracto dia de medo em que alguém falou mais alto
- Não! Não pode ser!
No local em que tudo mudou
Um silêncio
Fracção milésima para o confronto
Bifurcação ambígua dos seres
Uma resposta para o mundo em que vivemos
Cheio de tudo nos dois pratos da balança
...
A curiosidade cresceu
Abriu caminhos
O mutualismo por identificação
Abriu uma bifurcação da bifurcação
Confronto
Derrota
Confronto
Vitória
Tudo desde o ponto de conflito
Desde o infinito que não futuro
.
- Estou errado… Errei. Quem sou. De que lado estou?»
PALMAS PALMINHAS
Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas
Sim
Bravo!
As palmas
As palavras
Palmas para as palavras!
Um eco exponencial
De palmas
Muitas palmas
Para o artista
Para as palavras
Mais!
Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!
Bis!
Palmas
Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas
As palmas das mãos
Como suporte sonoro
O eco a corroer o espaço
O espaço das palmas
O espaço das palavras
Muitas mãos a dizerem que sim
Muitos bravos a viveram das palmas
E as palavras a morrerem insignificantes
Mais!
Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!
E as palavras a morrerem insignificantes.
Bravo
Muitos bravos!
Muitas palmas para tudo isto!
(0)
Lixo concentrado
Local donde jorram
As águas poluídas
Afluentes dos tempos
Os diversos tempos
Cristalizados na História
A essência é
Gruta dos seres
Local sombrio inóspito
Que nos escorre pelas mãos
Água preta e pastosa
Personificação do vulto
Que nos move.
A essência não é
Magia encantada
Pureza no corpo
É conformação
Espelho que reflecte
A embriagante imagem
Que conspurca os gestos
A essência queimou
É mero carvão que sobra
Duma fogueira que já não arde
domingo, junho 15
SALDO

À venda o que os judeus não venderam, o que a nobreza e crime não gozaram, o que o amor maldito e a probidade infernal das massas ignoraram; o que nem tempo nem ciência têm que reconhecer:
As Vozes reconstituídas; o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; a ocasião, única, de distender os sentidos!
À venda os corpos sem preço, sem distinção de raça, mundo, sexo, descendência! A riqueza irrompe em cada lote! Saldo de diamantes sem controlo!
À venda a anarquia para as massas; a satisfação irreprimível para os amadores superiores; a morte atroz para os fieis e para os amantes!
À venda as casas e as migrações, os sports, as maravilhas e os comforts perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que fazem!
À venda as aplicações de cálculo e os saltos de harmonia inauditos. Regras e achados nunca suspeitados, entrega imediata.
Ímpeto infinito e insensato de esplendores invisíveis, de delícias insensíveis, e seus segredos enlouquecedores para cada vício, e a sua aterradora alegria para a multidão.
À venda os corpos, as vozes, a imensa opulência inquestionable, o que nunca será vendido! Ainda temos de tudo! Os viajantes não têm que entregar já as suas comissões.
Rimbaud
DEMOCRACIA

«A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.
«Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
«Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
«Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz, inaptos para a ciência, esgotados para o conforto, e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!»
Rimbaud
quarta-feira, junho 11
SÓ TENS QUE, APENAS ISSO E NUNCA O QUE TENS
Perdi toda a esperança
Aguardei frio e chorei
O grito da revolta que nos faz implodir
Só porque nada fizeste
E nada fazes só
Perdi o brilho nos olhos
Só porque não constróis nunca
E nem acompanhado
Perdi a força no âmago
Só porque sou só
E construo contigo
Ganhei uma vida
Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti
Escrevo e contagio o descontentamento
E só depois de desistir de mim
E acreditar em ti que não acreditas
Vi a nossa morte e a ti ta dou
À luta na espera de te sentires vivo
Vi a morte e a ti te entrego
Toda esperança que não tens
Toda a luta que fervilha em ti
Todo o descontentamento a emergir
Vi a morte e não a vejo portanto
Mas tu crês nela e não percebes
Que a morte que te entrego
É a vida que tens para entregar
Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti
Escrevo e contagio o descontentamento
À luta na espera de te sentires vivo
Ao grito de revolta que nos faz implodir
Só tens que morrer
Que te entregar à morte
Ao que te move nela
Entregar tudo o que tens
Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes
Só tens que morrer
Como eu morro todos os dias
Morto para tudo mas desejoso de viver
Entregar tudo o que tens
Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes
Só tens que viver
Como eu vivo todos os dias
Vivo para tudo mas desejoso de morrer
Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti
Só tens que
Apenas isso
E nunca o que tens
Não desistas nunca mais
Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.
Estás vazio
Apenas isso
E nunca o que sentes
Andas iludido
Apenas isso
É o que te move
É o que me dás a acreditar
Em nada
Porque ages no nada
É assim que acredito em mim
Em nada porque és nada
Demonstras-te vazio
Apenas isso
E nunca o que és
Foges e escondes-te
Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.
Falas-me e eu respondo
Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos
Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E hipoteticamente acreditar em ti
Só porque desisti de mim
Somente para acreditar em ti
E hipoteticamente acreditar em mim
Mas eu acredito em ti
E quero que tu acredites em mim
Quero que vejamos o que há para crer
E tu acreditas em mim
E queres que eu acredite em ti
E eu que creio nas palavras
Muito para além da imobilidade
Eu que creio na mudança
Muito para além do espírito
Eu que creio no espírito para a mudança
Insurjo-te para viver como nunca viveste
A estrumares o que de ti arde insuportável
Insurjo-te para cuspires nos teus hábitos
Para extenuá-los até ao seu verdadeiro valor

Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos
Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é
Só porque nem eu sei o que isso é…
segunda-feira, junho 2
sexta-feira, maio 30
A UMA VALSA INÓCUA

Invadem-se campos e destroem-se culturas de flores milenares
Os amantes de flores choram de raiva e gritam não e nunca!
Sentem o seu mundo de sonhos inebriantes a ceder
A ruir como água suja a cair para um esgoto ao sol
Tão cedo imaginariam esta chegada
Andavam demasiado ocupados na sua insipidez
No seu nada para a vivência exceptuada ao vegetalismo
Agora insurgem-se finalmente insurgem-se
Estão vivos finalmente vivos e com força para viver
Desde sempre se quedaram nos gestos vestidos
Cada vez mais embalados pela velocidade de tudo
Adormecidos fetos da acção hermética que tanto delicia
Não percebem o que se propõe ao calcar os seus jardins
Não percebem só porque estão demasiado ocupados em podas
Não percebem a força verosímil das palavras
Não percebem nada porque atribuem a culpa à própria morte
Coitados
Tenho pena da vossa ignorância mas percebo-a
Tenho pena de mim até mas percebo-me e aceito-me e aceito-vos
Tenho pena de todo este mal entendido e da vossa mesquinhez de viver
Mas afinal ainda se impõem
Ainda lutam fortes e incongruentes
E isso maravilha-me e a isto chama-se optimismo
Talvez a dose de optimismo que aconselham para as regas
Não têm com que se preocupar
Não chorem mais não gritem mais não me odeiem
Canalizem tudo isso contra os vossos corpos
Lutem contra a vossa ignorância e passividade
Deixem de me ver morto só porque sou todas as vozes
Todas as sombras e todos os males e tudo o que é vosso
Lutem como animais espumosos
Ajam por instinto e esqueçam-se de pensar
Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês
Abram os olhos para não me repetir
Abram os olhos e enjoem e ajam e sejam
Abram os olhos e vejam a razão pela qual escrevo
A minha pretensão não vai para lá dos vossos gestos
Não é mais que um meio para vos espicaçar
É uma pretensão escrita maior que a própria religião
Uma pretensão contra a religião
Uma pretensão contra qualquer tipo de moral
Uma pretensão pretensa em ódios
Uma pretensão que nos arruína e nos eleva
É a ira a roer as concavidades do corpo
A força do teu sangue podre e nauseabundo
A condensação do que afugentas cambaleante
O limite a destruir todas as barreiras da incapacidade
Tudo serve para te ver vivo
Para perceber que ainda te mexes
Que a arte está morta mas pode respirar
Que o cheiro a mofo que dela exalas é apenas circunstancial
Que o requinte na arte é só mais um luxo
Uma característica duma nova classe
Que a beleza na arte é uma necessidade
Uma via para desligar o mundo e criar sobre ele
Que o mundo é a arte e a arte é o mundo
Sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates
E o discurso paralelo é apenas mais uma arma
E vocês só não morrem porque não quero
Quero-vos vivos a fervilhar em ideias
A construir tudo o que destruo com afinco
Para lá das palavras para lá dos sonhos
Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês
Que sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates.
quarta-feira, maio 28
QUEM É QUEM?
Um homem louco é aquele cuja maneira de pensar e agir não se coaduna com a maioria dos seus contemporâneos. A sanidade mental é uma questão de estatística. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e período é a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta é a definição de sanidade mental na qual baseamos a nossa prática social. Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e acções de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psicólogo pode chegar à mesma conclusão. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos
Aplicando estes dois testes, o do historiador e o do psicólogo, à maioria mentalmente sã do Ocidente contemporâneo, que verificamos? Verificamos que os ideais e a filosofia da vida agora geralmente aceites são totalmente diferentes dos ideais e da filosofia aceite em quase todas as outras épocas. O Sr. Buck e os milhões por quem ele fala estão, esmagadoramente,
A Natureza permanece inalterável, quaisquer que sejam os esforços conscientes feitos para a deformar. Os Homens podem negar a existência de uma parte do seu próprio espírito; mas o que é negado não é por isso destruído. Os elementos banidos vingam-se nos indivíduos, nas sociedades inteiras. Uma coisa apenas é absolutamente certa quanto ao futuro: que as nossas sociedades ocidentais não se manterão por muito tempo no seu presente estado. Ideais loucos e uma filosofia lunática da vida não são as melhores garantias de sobrevivência.
Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"
A 1ª AVENTURA CELESTE DO SENHOR ANTYPIRINE (EXCERTO)
Nós declaramos que o automóvel é um sentimento
que já nos animou em demasia na lentidão das suas abstracções
e os transatlânticos e os ruídos e as ideias. Entretanto
exteriorizamos a felicidade, buscamos a essência central
e ficamos muito contentes por a esconder. Nós não queremos
contar as janelas das maravilhosas elites, pois que Dada
não existe para ninguém e queremos que todos percebam isso mesmo
uma vez que é da varanda de Dada, garanto-vos, que se podem ouvir
as marchas militares
e descer cortando o ar como um serafim nos balneários públicos
para urinar e compreender a parábola.
Dada não é loucura, nem sabedoria, nem ironia – olha para cá
a ver se me vês
gentil burguês.
A Arte era um jogo, uma noz, as criancinhas
juntavam as palavras com um guiso na ponta e depois choravam
gritavam a estrofe e calçavam-lhe botinhas de boneca e a estrofe
transformava-se em rainha para morrer um bocadinho
e a rainha transformava-se numa baleia e as crianças corriam
corriam até perder o fôlego.
Então chegaram os grandes embaixadores do sentimento
gritando historicamente em coro
psicologia psicologia ia ia
viva a França!
Nós não somos ingénuos
nós somos sucessivos
nós não somos o contrário de exclusivos
de certeza que não somos simples
e sabemos perfeitamente discutir a inteligência.
Mas nós, Dada, nós não somos da sua opinião
visto a Arte ser uma coisa pouco séria
asseguro-vos
e se vos apontamos o Sul e o crime
para dizer empanturradamente ventilador
arte negra e sem humanidade
é para que o prazer vos sufoque
queridos ouvintes
Tristan Tzara
terça-feira, maio 27
INKZ
As precisões da produção
têm efeitos abruptos na intimidade
Qual o peso da alegria?
O tamanho da agonia?
A altura do desejo?
O comprimento da resignação?
Só nas fábricas evasivas
é que ainda se produzem emoções
em modelo Revolta
tamanho XL
Todas as identidades são dançantes
antimanifesto para uma arte incapaz,
Boaventura de Sousa Santos
segunda-feira, maio 26
A CONDENAÇÃO DO ASSASSINO
Ao extremo de sentirmos um orgulho medonho
O mundo gira e chocamos uns com os outros
Ignorantes ao ponto de termos uma razão suposta
Que nos alimenta o ego monstruoso
A fonte para a coerência
Subliminar processo para a credibilidade
A que nos move cheios de convicções
Rumo ao destino ultrajado pela vontade
O veículo da inteligência que nos aprisiona
Que nos faz sangrar nesta banheira sideral
A que ilude, tortuosa e selvagem
Para lá de todos os sois de todas as luas
De todas infinidades expositivo/argumentativas
Que nos levam até à sapiência do egoísmo;
Que estratifica os homens e sacrifica os sonhos
Ao ponto de levarmos as discussões que nada resolvem
A um mero ponto, a um simples e carnal umbigo
Um fio que nos aprisiona e amordaça
Nadadores aflitos na corrente do rio
Mergulhadores da solidão
Ouvem-se os hinos ao amor na discórdia
Símios refractados pelo colectivo sombra
Umbilicalmente ligados pelo medo,
Limbo da razão de todos factos
De todas as tempestades e de todos os céus
Que nos fazem voar inseguros,
De todas as mágoas de todas alegrias
De todos cantos dos pontos mais remotos
Desde o eremita até ao integro ser
O eremita tem medo
Assusta-o toda a dança mortífera
Todo o orgulho construído
Todas as discussões petrificadas
O integro ser, igualmente o medo
Assusta-o toda a solidão mortífera
Todo o orgulho destruído
Todo o ostracismo petrificado
E toda a razão se esvai
Como sangue a tingir o chão pisado
Toda a coerência se afunda
Como um barco com um buraco na proa
Tudo arde até que só nos restam cinzas.
Da razão, da coerência, do eremita
Do integro ser, para sempre o pó
Pequenos grãos de nada.
E das cinzas, do pó, tudo cresce de novo despido
Desprovido de qualquer peso, de qualquer
Denominação explicação necessidade
Somente a uterina sabedoria nunca escrita
Jamais percebida, a sabedoria da pureza das balanças.
Mas como estamos tão bem neste solo
No local onde o querer é tudo o que temos
Despoletar fisgado para qualquer infinito
Como se o amanhã fosse a palma da nossa mão.
Fingimos. Reagimos. Acreditamos no que quisermos
Até que algo nos corta e faz sangrar, um intercalar
Existencial que nos imobiliza. Restabelecemos
O ritmo, a marcha escolhida pelo espírito, triagem
Que nos capacita para tudo, deuses terrestres para
Todos os sonhos e todas a batalhas e todos os fins.
Não importa o chão que pisamos, somos capazes de tudo.
Não importam os sorrisos os gritos agoniantes as gargalhadas
Somente as trincheiras e o conforto da nossa singularidade.
Nem tampouco os confrontos os medos os festins e o amor
Tudo terá um fim e nessa altura tudo cairá sobre nós como lâminas
Acutilantes arrependimentos independentemente do passo tomado.
Para quê festejar para quê chorar para quê o que quer que seja?
Nesta odisseia de pesos tudo vale todos os pesos diferem
Mas todas justificações e todas as loucuras são iguais a nada,
A rigorosamente nada. Hoje nada vale e tudo acontece, hoje
Mais do que nunca, o chilrear dos pássaros é igual ao roncar
Dos porcos que felizes chafurdam na lama da sua naturalidade.

Não somos mais do que fantasmas. Carne púrpura
Que se move para lá da temperatura dos corpos
Somos ardentes signos sob a batuta da razão
Sempre ao encontro dum argumento duma desculpa
Duma solução inalcançável prestes a ser agarrada
Pelos grilhões da ignorância infecciosa.
O relógio dá voltas e voltas
Numa espiral que se esconde nos ponteiros.
A ampulheta vira e revira
Sem nenhuma ordem definida até à
Horizontalidade, até à morte do tempo até
À morte do seu esplêndido símbolo, até à condenação
Do único assassino de sempre.
terça-feira, maio 6
AO DEDILHAR OBSCURO
Inventaram-se os espelhos
Multiplicaram-nos
Do primeiro reflexo
Aos múltiplos reflexos
Foi assim que se fez o mundo
De espelhos apontados para espelhos
Imagens das imagens
Veículos apontados para o infinito
A verdade a decompor-se
A contaminar-se por ilusões refractadas
Desde a ilusão mais pura
Até ao destino mais incerto
Desde o ponto
Até este novelo
Criaram-se as palavras
Os significados
Avivaram-se actos
Brilhos do movimento
A mentira esquecida pelo espelho
Escondida na imagem da verdade
Espelho que oculta todos os espelhos do tempo
Olhamo-nos ao espelhoE só vemos um reflexo
Nada de sério
Apenas uma imagem
Não somos nós
Apenas um espelho que nos aprisiona
Que nos liberta para lá do concreto
Que nos divide e multiplica matematicamente
Foi isto que nos trouxe o espelho
Muito antes de sequer existir
O reflexo do reflexo dos reflexos do reflexo
Labiríntico caminho sem retorno
Espelho que se quebrou e requebra até ao pó
Direcção antagónica que culmina na origem
Assumimo-nos deuses nesse longínquo dia
Criamos e recriamos e moldamos o mundo
Espelho supremo de toda a criação que nos iludiu
Aquando do primeiro reflexo perdido.
(escrito a partir duma frase de Herberto Helder)
BATINAS CASTANHAS
Todos os males e desgraças
A circunferencial cabeça rola pelo chão,
A avarenta tômbola do devaneio
Que me contenta com as ideias no sítio
As prosaicas e arcaicas limitações
Das prisões em cores inventadas
Dos estados de espírito formalizados
Que orientam a multidão sedenta,
As cabeças espetadas entre si, emaranhado da sanidade.
Retiro o meu capacete e galgo
Espezinhado por fobias que se elevam
Que cantam que gritam
Adeus! Não mais existem
Os coros da concórdia as batinas da união
A loucura que não minha.
Adeus! Morri de desastre
Bati com a cabeça, renasci pelo trauma
Pela loucura sobre ombros
Vocifero!
“Unam-se orquestras sinfonias
Da agradável desgraça! Passem a estafeta
Para mim que não tenho mãos
Deixem-na cair no solo inflamado pela massa”;
Os limoeiros enrijecem
Para lá da minha (janela),
Entranham as suas raízes,
Asfixiam o peculiar castanho
Do vento que se vê. O céu,
O poético céu
Armistício da chuva
Espelha as vossas imagens
“O peso dos capacetes assim vos pende
Orientados sinais camuflados rumo ao funil destino”
(Do vidro um sorriso
Uma réstia espelhada
Um brilho lamacento
Quebrado, um caco pontiagudo
Uma espada simbólica
Um corte sangrento na bruma).
“Bem hajam trupes da diarreia!”
Habituaram-me ao ódio
Ao asco moldável nos dedos
Que escorre catarata,
À tinta castanha que me lava a cara
“Adoro-vos!”
sexta-feira, maio 2
TOMBSTONE BLUES
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous
The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"
Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"
The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle
Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues
The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter
Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college
Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
Bob Dylan
quarta-feira, abril 30
O SONHO EM MARCHA
Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.
Raul Brandão
sexta-feira, abril 25
HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)
The House of Morgan Ron Chernow
segunda-feira, abril 14
BASTIDORES DA SELVA ABRANGENTE
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.
segunda-feira, abril 7
DIAGNÓSTICO PEDIÁTRICO
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo
Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade
Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou
Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade
As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática
Os braços extensíveis
Da exponencial carência
Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo
quarta-feira, abril 2
INDIE-COCK-PLOC-CHOC-RETRO
quinta-feira, março 27
DA MAGIA DOS TEUS DEDOS
Apenas eu e o seu corpo magnético
As minhas mãos
Ganham uma força férrea delicada
Que lhe percorre o corpo
A sua rata é quente
Uma rata que a contraria
Que transforma o seu não
Num sim ofegante do desespero consentido
Voz imersa na panóplia dos sentidos
As suas ancas são sedosas
Como lombinhos em vinha de alho
Impelem-me a beijá-las
A ferrá-las ao de leve e agarrá-las firmemente
Os seus seios
Voltas perfeitas suculentas
O seu cabelo
Lianas encaracoladas e selvagens
Emaranhado labiríntico que faz de mim
Fantoche da sua sensualidade capilar
O seu corpo
Contrai-se
Estremece
Arrepia
Diz que não diz que sim
Torna-se veículo
Do instinto mais primitivo
A sua voz
Sussurra injustiça
Relembra-me que tenho que ir
Que vai ter que se masturbar
Que não quer masturbar-se porque vicia
Que a solidão na cama
Relembra meus dedos
Que variam na amplitude
Desejo lânguido
Dos seus lábios rosados
INTERRUPÇÃO TRIANGULAR
-Ó Vitor, desculpa interromper, arranjas-me um cigarro?
-Na boa, pega.
-Obrigado Miguel!
-Carlos?! Chamaste-me Carlos?!
segunda-feira, março 17
"TRABALHO NOCTURNO"
“Tenho dinheiro, vim agora da Nigéria. Agora não faço nada, apenas bebo, fumas charro? Não? Eu fumo. E bebo! Gosto de beber. As pessoas aqui todas me conhecem. Sou alcoólico para todas. Mas sou homem. Este país é uma merda. Estou a ser filmado, não? Não percebo, aquela câmara da última vez que cá vim estava a apontar para mim, onde está a câmara que me filma? Eu pago, mas onde está a câmara que me grava. Não há? Olha, para veres como sou alcoólico, vês? Está vazia! Ando sempre com ela. Whisky?! Não! Brandy! Gosto de beber, sou trabalhador, vim ao mundo para trabalhar, não tenho medo do trabalho, mas todos estamos cá para trabalhar, não me assusta, quando tenho que, trabalho! Sempre queres beber alguma coisa? Eu pago! Bebe lá! Um sumo, água?! O que quiseres! Não queres?! Não há problema. Pareces ser um gajo fixe! Já agora, vivemos numa sociedade democrática, é democracia? Acreditas na democracia? Em quê que acreditas? Em nada? Não acreditas em nada? Eu acredito. Não sou burro, que idade tens? Já corri mais países do que a tua idade. Podia ser teu avô, ouve-me, o que é preciso é isto, sermos sinceros, livres, o que importa é ser livre, somos livres? Eu sou, quando tenho que trabalhar trabalho, mas gosto de beber, sou alcoólico! Posso fazer um charro? Aqui? A câmara está a filmar? Posso? Olha, para fazer o charro. Estás-te a rir. Vou fazer então. Dá-me outra Super.”
Prosseguiu assim pela calada da noite, falador, falando de tudo ao jeito do álcool.
“Um dia vou-me, mas será que vou mesmo? Será que fico mesmo depois de morto? Fico!? Pareces inteligente, mas digo-te, não leves a mal, a cara é o espelho da alma, tu és um gajo porreiro, eu sou alcoólico, mas tu és um bocado aluado, não leves a mal, notei. Não levas a mal? Estou surpreendido, já tenho uns anos de vida e fico surpreendido que me digas que depois de comido pelos bichos permaneço nas pessoas, nem que seja nas que dizem que sou alcoólico. Sou daqui. Não sou mais do que os outros. Dali de trás. Vim da beira da ponte. Da escarpa!? Nada. Mas pensas que não sei o que é branca?! Camarada gosto de drogas, LSD, coca heroa?! Já estive preso, agora trabalho, para os meus filhos. Trabalhei, agora tenho guita, agora bebo, fumo umas ganzas, sou livre! Estou a ser filmado? IDE FILMAR O CARALHO! SOU LIVRE! O teu patrão não tem mais do que eu, não o conheces? Não conheces o teu patrão?! É uma tristeza, roubam, só roubam. Dá-me outra Super Bock! Eu pago, eu tenho dinheiro! Sou alcoólico! Não me devo preocupar com o que os outros pensam? Se sou feliz? Sou. Sou alcoólico, pensava como tu, mas com a idade mudas, sabias? Sou louco não sou? Somos todos loucos?! Eu sou louco, sou alcoólico, mas trabalho quando preciso!”
Prosseguia aprofundando o monólogo sarapintado por sorrisos opiniões e perguntas minhas, uma conversa que tenho pena que se tenha perdido na integridade da noite. Clientes vinham clientes iam. Falava com todos, nenhum ouvia e fugia, todos paravam para o ouvir, gargalhava e dizia coisas com o seu tom de voz cada vez mais pesado e arrastado. Não esqueço o que disse a um velhote que apareceu.
“Boa noite, bem disposto? Olhe, você que é velhote, eu também sou, mas você é mais velho! Você acredita em padres, na igreja? Ouça o que lhe digo, não acredite! Os padres vieram ao mundo para enganar os velhinhos, ao menos não andam disfarçados! Não gosto de padres! Gosto de beber! Sou alcoólico, tenho uma hepatite, sou louco!”
O velho não mudou de cor, deu-lhe um forte e sincero aperto de mão, foi-se embora. Continuou a falar, a dizer coisas, coisas soltas, bocados capitais.
“Quero mais cerveja, quero outra! Vou fazer outro! A que horas sais? Queres fumar um? Eu dou-te! Não queres? Eu moro já ali.” Pois é. Há que trabalhar. Eu não trabalho, agora, tens a certeza que não me estão a filmar?”
A noite depressa se fez dia, depois de muita indecisão e despedidas, de mais cervejas e charros lá foi, de rastos, pesado como um pedaço de chumbo no fundo do oceano.
terça-feira, março 11
CRÓNICA DA FACA DOS DOIS GUMES
É tido como certo, por mim, este passo firme em frente para a liberdade que gradualmente e em aprendizagem trás à superfície o contra-senso maior do abuso da liberdade como forma de prisão. Novas portas abriram-se ao rodar-se as suas maçanetas e fizeram-nos ver mais uma ala da continuidade na liberdade instituída.Foi o que percebi da minha liberdade. Abre-se uma nova porta, explora-se o espaço no seu interior e quando tentamos voltar alguém guardou ou perdeu as chaves para sair, um contra-senso, como referido -liberdade delimitada pela observação transformadora. A liberdade, caro leitor, é uma faca de dois gumes cada vez mais bem afiada na pedra pomos temporal: na sua ponta encontra-se o choque entre lâminas que se esbatem num único vértice. É com tristeza, mas com perfeito espírito de integridade e identificação, que vejo a liberdade de hoje que tanto me guia e me leva à compreensão, na parte da lâmina que já penetra na carne ao mínimo toque. A guerra das liberdades, como desde há muito tempo, continua nos seus dois campos da batalha, liberdade contra liberdade, uma luta pelo mesmo direito, o direito à Liberdade Absoluta, a última, aquela palavra metafísica inventada por nós da qual desconheço os contornos e reconheço apenas o veículo da essência. Este símbolo que tanto apregoamos no espírito dos mais diversos postos da barricada, que se concretizará no culminar da vontade colectiva, vai ser elevado ao ponto de divindade e eu desconheço, para já, qual vai ser o seu valor fixo – isto se já não foi, agora mesmo, e por distracção minha, afixado naquela vitrina que desconhecemos mas que tem a informação burocrática necessária para nos inscrevermos na liberdade dos vencedores da guerra detentores da verdade. A liberdade, como foi definida por senhores do meu passado, só existe no espírito. Hoje, mais do que ninguém que não queira, percebo que só na alma se condensam os sentidos da vida, no recuado da Edificação da Liberdade, o local para onde vamos sonhar acordados. E foi aí, nessa transposição do corpo por parte da alma, que encontrei o ponto comum que rege o nosso objectivo cada vez mais exigido como batalhadores do bem comum e colectivo.
(A minha preocupação pelo colectivo mais do que uma posição esquerdista pessoal, mesmo sendo suspeito por ser canhoto, é uma posição me vem do âmago e uma sintomática confissão da constatação.)
A tecnologia, hoje, é um utensílio indispensável, principalmente a Internet (até lhe digo leitor, que o Word reconhece automaticamente a sua palavra com um w maiúsculo e Internet com i de igual tamanho, enfatizando assim, duas pequenas partículas do universo tecnológico desmultiplicado), sem essa ferramenta, de base Suiça a partir do canivete, não conseguiria de maneira alguma explanar a minha dimensão opinativa, e sem computador então, nem se discute. Lembro entretanto que vivemos num país em que computadores nas escolas não faltam, mas aquecedores em certas não é coisa que abunde, coloco a hipótese de que talvez os computadores venham sem ventilação e o seu consequente sobreaquecimento seja uma útil fonte de calor. Certamente pensarão que sou contra os computadores nas escolas, mas não sou, sou apenas contra a colocação de degraus sem outros anteriores a servir de base. Sirvo-me desta figura de estilo prosaica e até um pouco redutora, para que entenda que os tempos em que vivemos são de liberdade, como disse, faca de dois gumes.
Por um lado é óptimo que os jovens alunos percorram a Internet nas suas escolas como ponto de partida para uma opinião vincada sobre o mundo, ou até, para uma adaptação ao seu mundo que se transforma acelerada e desgovernadamente.
Sou um egoísta caro leitor, falo-lhe em tudo isto para me revoltar sob a capa das palavras contra o cerco cada vez mais fechado à Internet. Irrita-me profundamente perceber que o próprio espaço cibernético tende a ficar cada vez mais burocratizado e controlado, tal como todos os meios de comunicação anteriores. Mais um veículo flamejado pelo poder, pelos donos da liberdade, pelos primeiros a chegar ao cume da faca. Daí olhar para trás e sentir ainda a aura da antiga literatura, da antiga música, da antiga arte dos tempos que tinha outra liberdade mesmo enclausurada. Sinto as saudades a baterem-me do alto dos meus tenros vinte e três anos de idade. A pureza perdeu-se, a liberdade que precisamos perdeu mais um dos seus aliados, não sei quando foi isso precisamente, mas sinto-o.
Cresci num bairro, num desses bairros longínquos que parecem já não existir até que percebemos que ainda existem e servem de catapulta para as nossas memórias de infância. No tempo em que não havia Internet nem computadores nem consolas nem falsidades nem aquecedores nos dias de frio, nem frio tampouco. No tempo em que a puerilidade permitiu que hoje veja o mundo com olhos de ver. O mesmo tempo que me dá agora tempo para escrever tudo isto nesta odisseia pelo mundo que é o meu.
Acredito que me leia e fique a achar que sofro de envelhecimento precoce, talvez sofra, este mundo fez de mim um caco de pote do século vinte e um disperso pelo chão. Vivemos numa liberdade individual partidos. Somos cacos que entre os espaços que nos distanciam formam diversas teias que por sua vez formam uma só. A nossa liberdade resume-se a esses espaços cada vez mais entrosados entre si.
Mesmo assim, sinto-me vivo, sinto-me contínuo da luta das palavras. Sinto-me em liberdade quando escrevo, quando choro lágrimas de tinta e desenho sorrisos amarelos e necessários. Tenho liberdade para tudo isso e para tudo mais que me entreguem de bandeja sem folhetim informativo com asteriscos e letras minúsculas.
Sinto-me.
Tenho a liberdade para agir nos escaparates da acção que me tiraram, pois só me resta esta, a estafeta entregue pela anterior geração que não distinguiu liberdades, a geração do vinte cinco de Abril, a revolucionária, a que se cansou e se adaptou ao admirável mundo novo de liberdades que lhes surgiu como uma aparição -uma luz que os cegou e apagou dos seus olhos o brilho da liberdade.
Ainda hoje neste século, surgem políticos a apregoar ao progresso. Essa palavra tão bonita, tão cheia de pompa e circunstância, e digo circunstância porque a circunstância pós ditadura da velha senhora fez de nós seres esfomeados e finalmente sincronizados com o mundo. Essa palavra tão bem empregue pelo nosso monsenhor ministerial que aproveita a sua liberdade expositiva e argumentativa para descaradamente mentir e ser aceite por nós, seres libertos, que tão facilmente acreditamos que somos livres mesmo que não das suas mentiras.
Não vejo, por tudo isto, Portugal como um buraco negro na Europa, nem culpo os lutadores pela liberdade de expressão do meu passado pelo estado deste meu país com um governo digno de nos pôr a chorar lágrimas de cebola. Somos agora seres globais (a Internet é um dos meios que mais bem argumenta em prol desta afirmação), e como tal, o nosso estado, para lá da governação má, é também influenciada pela incestuosa economia mundial, pela imensa rede que se vai ocupando do espaço cada vez maior entre nós.
Não tenho medo do espaço entre as pessoas, a razão é muito simples, cada vez mais me isolo e quero menos dos outros, irrita-me profundamente aperceber-me do reflexo dos meus defeitos em todas as outras faces com que convivo no dia-a-dia.
O que me assusta e aterroriza é este alastrar incessante deste cancro que nos prende em si, este murmúrio que mal se percebe mas que se ouve. Esta invasão do espaço por uma série de necessidades que se ramificam em propósitos que até há bem pouco tempo não eram tão fundamentais mas que agora nos prendem e nos afastam de tudo o resto que é mais capital que todo o capital das multinacionais sem escrúpulos de todo o mundo criadas pelos fungos dessa ciência a que se chama economia.
A liberdade de escolha é portanto, e digo-o com certeza, uma forma de liberdade que é muitas vezes confundida com a possibilidade de ser livre. Usada como arma de arremesso, em jeito de quem atira com um ramo de flores, proporciona a tal sensação de liberdade que é, como disse, de escolha. Podemos entender liberdade de escolha como e muito contemporaneamente ter acesso a um sem número coisas nas mais diversas variantes e necessidades. Excepto derrubar um governo. Isso é demasiado complicado, a nossa liberdade de expressão já não chega para a liberdade de acção que têm e criaram.
Cheio de escrever e desta liberdade pura que afinal não é assim tão pura quanto isso, encerro esta crónica com as pálpebras pesadas e desejoso de voltar à cama mais uma noite para me perder na outra liberdade pura que entretanto me escapou mas que em boa hora e tarde chegou: o mundo dos sonhos em que vivemos de olhos fechados.
segunda-feira, março 3
O TOLDO VERMELHO
quinta-feira, fevereiro 21
ART BLAKEY & JAZZ MESSENGERS- ARE YOU REAL?
Por vezes, esta pergunta banal impõe-se,
palavras para quê?
segunda-feira, fevereiro 18
A ESSÊNCIA DO HOMEM
É resposta nas Palavras
É a criação de um mito
O ordenar da desordem
É ir e vir…
O Homem é um pêndulo de arroz
Na panela que é Cosmos
Vai e vem!
Responder pelo Infinito
É perguntar nas Palavras
É ordenar de um mito
A criação da desordem
Tic-tac!
O Homem é um ponteiro
No relógio que define o Tempo
Tac-tic…
É a carne apodrecida
No corpo em corrente
…
O Homem é uma esponja
Na matéria da sua vontade
Zás e traz…
É o veículo Inocente
Na carne que o faz
Traz e zás!
O Homem é uma cobra
Na pele da hereditariedade
Zig zag!
É esquivo da Memória
No sonho da Perfeição efémera
Zag zig…
É o Homem uma árvore
Nas raízes da saudade
Contrariado pela mão
Acção!
Ping-pong!
É a bola lá e cá
Na mesa da Contradição
Pong-Ping…
É o Homem o ridículo
No circo da sua abstracção
Ri e chora…
É o Homem uma Lágrima
Na face da desilusão
Chora e ri!
É um rasgo de Alegria
No pano da Admiração.
Vai e vem
Vem vai…
E Traz e zás!
Zás traz!
E Tic e tac!
Tac tic!
E zig e zag!
Zag zig!
E ping e pong!
Pong-ping!
E ri e chora…
E chora E RI!
É o Homem um Homem
É balança em Equilíbrio
Nos pesos
Consolação!
quarta-feira, fevereiro 13
"THE BIG SLEEP"
Manuel António Pina
Jornal de Notícias do dia 12 de Fevereiro de 2008
AOS CAVALOS DA DEMOCRACIA
Sendo eu filho da democracia e consequentemente da liberdade, imagino-me um dia destes a montar um democrata que não é mais que um cavalo – desgraçados dos cavalos, equipará-los a um democrata deve ser aborrecido, mas como nunca conheci um cavalo que tivesse aprendido a leitura, sinto-me livre de abusar de tal ignorância - , a puxar rédea e a gritar alto e a bom som “anda lá democrata, eu quero posso e mando, por ali que se faz tarde!” e o pobre desgraçado que é, a prosseguir comigo em peso sobre o seu costado cansado de tanta correria! Aí sim! Diria que a democracia é liberdade, e que o peso e medida não seriam abuso da liberdade que posso ter na sociedade democrática em que vivo. Adiante. O abuso é feio, e os cavalos andam a abusar! Como tal, seria homem para fazê-los correr até ao fim do mundo, o local vertiginoso em que detritos da terra caiem como água numa catarata de poeiras temporais. Levá-los-ia lá, ou melhor eles levar-me-iam, só para constatarem que idílica imagem era digna de ser vista pelos seus próprios olhos de cavalo com palas. Depois fazia-o voltar atrás, e certamente que ele correria para lá da sua ignorância e eu que remédio que teria que vir atrás. De regresso ao ponto de partida a sua orientada fugida determinaria a sua morte. “Ritmo assustado foi a causa da morte.” Diria concisamente o veterinário depois da autópsia. Nada triste regressaria ao estábulo, por lá escolheria outro democrata, e de lá correria outra vez até ao fim do mundo. Pensava para mim antes de puxar a rédea “mais um que vai morrer, mas que gosto isto me dá!”. Aquela viagem dar-me-ia tanto gosto e espaço para a contemplação, que um dia, depois de dias e dias de óbitos e viagens de ida e volta até ao fim do mundo, acabaria por encontrar o estábulo vazio de democratas. Tal vazio espacial assolar-me-ia de dúvidas, não teriam sido essas viagens abuso da liberdade que me deram? Ou foram somente actos ajustados à democracia que me deram? O dar seria o verbo da minha consumação. O que me tinham dado durante anos era um conceito de democracia deturpada pelo tempo que se desfazia para lá das minhas mãos, e as minhas, tinham sido a razão de todas as mortes.
ENTRE PÁGINAS
Não és personagem
És entre páginas a recordação que me deste
Naquele dia longínquo de Inverno
Nunca te ouvi,
Guardo de ti aquela folha
Aquela tua caligrafia sobre papel pardo
Daquele dia,
O dia em que passaste e não te vi
Do outro lado da rua do meu contentamento
Que não foi maior porque não quiseste
Maravilho-me com o teu cheiro no passar do tempo
O aroma deturpado pelo calor das páginas
Imagino-te, naquela manhã
Sorridente e perfumada como hoje que te toco
Folha de papel que tantas vezes evoco
Na ânsia do sonho que desejo diariamente.
domingo, fevereiro 10
O PÉ
Cresce poema
Memória do tempo
Que se faz crescente,
Dou um passo
Cresce o poema
Ritmo compassado
Passeio lento:
Troco o passo
Cresce um poema
Viagem pelo pé
Velocidade gema.
sábado, janeiro 26
HOMEM LOUCO NO JARDIM
O ARTISTA A LÁPIS DE COR
E outra escolha me dessem
Eu seria um desenhador perfeccionista
Primeiramente, analista
Desenharia o mundo
Numa folha de papel maior
Numa escala real a lápis de cor
Desenharia tudo aquilo que gira com o mundo
O globo o Homem os seus gestos
O universo para lá
As emoções os choros e os sorrisos
Desenharia os animais as fábricas as casas
As florestas os rios os mares a chuva e o sol
Realizava uma nova lua feita a partir da mesma
Flores cheiros até ao limite pintado do nunca visto
Depois de tudo colorido
Sobre a superfície maior que tudo
Apagaria tudo o que não me agradasse
Tornar-me-ia um artista do egoísmo
Apagaria certos gestos do Homem
Certos seres e os seus sorrisos
E outros choros para além dos que ficariam
Desenharia mais animais outras fábricas e casas
Florestas mais densas e rios mais dourados
E também outras chuvas com o mesmo sol escondido
Delinearia uma lua cheia permanente
Passava a borracha sobre certos cheiros e algumas flores
Desenhar-me-ia um novo esplendor
Depois de tudo
Transformar-se-ia o Homem
Nesta minha mudança riscada
Um Homem novo filho do paraíso
Mas se no entanto
Este paraíso não fosse para o outro novo Homem
Nenhum pânico me abalaria
A perfeição é um pedestal em construção
De novo esticaria a minha tela de papel
Não mais outra seria tingida
De borracha essências apagaria
De lápis na mão de novo recriaria.
O CIRCO VEIO À CIDADE
Enriquecido em imagem
Solstício do sabor!
A minha tenda em vantagem
Sobre a trupe pajem
Que me arrasta extintor!
A aurora da verdade
Metamorfose do visto
Que se desfaz em riso
- Minha alma em risco!
O espectáculo na estrada
Sociedade errada
Pela sensibilidade encontrada
No artista fanfarrão!
O meu tolde de formol
Que cobre em sombra do sol
Os palhaços do caixão!
Uma performance de actores
Narizes vermelhos em clamores
Pela veracidade em humores
Na jaula do leão!
Mais uma cidade que me recebe
No auge seu ridículo
Sob o tolde da emoção!
Lá vai meu circo embora
Abandonando gargalhada outrora
Sintomática satisfação!
E para trás os palhaços
Que nas cidades ficam
Os seres que para sempre magicam
A continuidade da Razão!
Só porque o mundo é uma cidade
Uma crescente saudade
Do que nunca teve na mão!
SINCRONISMO, PARALELISMO - A VARA DO RÍDICULO
Capricham a sua pocilga esterilizada crescente
Guincham ladainhas de bolota
E gesticulam pergaminhos de gula
- Quais animais capazes
Das maiores atrocidades adocicadas no seu espaço lamacento!
Os suínos da reminiscência ardida
Comicham o seu couro limitado demente
Pincham nos seus frascos compota
E articulam rosmaninhos de lula
- Mais arbitrais perspicazes
Para agigantar caminhos alterados pelo seu toque peganhento!
Os suínos da displicência intuitiva
Cochicham palavras no seu perímetro quente
Lincham carnes na derrota
E simulam vitórias na bula
- Divinais quintais lilases
Diluídos na força extrema construída do seu vento!
Os suínos da complacência diluída
Mancham o futuro passado presente
Esguicham sangue em anedota
E estimulam a individualidade mula
- Jograis demais ases
Destruidores alarves, criadores da jaula que é o tempo!
Os suínos da ciência instruída
Chucham a capacidade da mente
Acham os genes sota
E copulam a criatividade nula.
domingo, janeiro 6
NO CAMIÃO TURBULENTO QUE É O RELÓGIO
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;
És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio
Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.
A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.
O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.
Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.
A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.
Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.
CASALMA
Nesta manhã dos pássaros
Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.
A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.
Mostra-se baú do mistério
Despoletar da curiosidade…
Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.
O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,
Curioso poeta da matéria
Alma que se escreve
Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado
Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.
EXTERIOR, INTERIOR , A LÂMPADA QUE SE FUNDE
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.
sexta-feira, dezembro 28
sexta-feira, dezembro 21
quinta-feira, dezembro 20
terça-feira, novembro 20
O POETA EM MIM
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental
Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege
Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo
Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico
Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si
A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado
No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos
Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser
A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo
Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal
Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano
É o que corre dum lado para o outro
Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.
A VIDA
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A ANOREXIA DE MARIA
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
domingo, novembro 11
HINO ÀS CRIANÇAS
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
A RESPEITO DO TRABALHO QUE JÁ NÃO TENHO - SORRIR OU CHORAR?
terça-feira, novembro 6
A GARAGEM EM CONSTRUÇÃO
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
