quinta-feira, setembro 4

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.



Rui Pires Cabral

CORTINA

Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.

Vitor Nogueira

SUGESTÃO GORADA

quarta-feira, setembro 3

O HOMEM QUE NÃO QUERIA

O homem que nunca queria,
andava pela cidade a chutar latas,
nunca queria, e as latas iam rebolando.

Era alto e o espelho não enganava,
de cada vez que se olhava, pensava,
não quero, detesto a magia do verbo.

Os degraus, enquanto descia,
pois o elevador estava avariado,
nunca lhe trocavam os pés,
contava-os um a um
e lá chegava o murmúrio metálico.

A primeira que encontrasse
seria a primeira de muitas. As latas
quase conseguiam, às vezes, fugir
com o vento, mas ele era teimoso.

Raramente falava, chutava latas
para não estar em silêncio.

Quando encontrava uma mais exótica
não a empurrava para longe com o pé,
guardava-a num saco transparente.

Quantas vezes, enquanto procurava latas,
ouvia: tens uma lata do caralho. Sorria,
mas raramente procurava resposta.

O QUIM

O Quim não podia ouvir nada,
qualquer barulho era razão
para se por debaixo da mesa.

Não gostava de festas e alguns
foliões gozavam quando se agachava

uma estadia mais próspera
determinou o seu estado analítico,
era ferrenho da guerra, acreditava
em demasia nas bombas. O Quim

ao contrário de mim, percebia
o que é isso de estar em guerra, mas vá lá,
para ele, já acabou há uns anos. O Quim

morreu, mas a guerra continua.

OU CONTOS INFANTIS

Li no jornal, ou talvez na TV
que os cidadãos do nosso mundo
têm cada vez mais apetência por
livros e música depressivos. Rotulados
como se o descontentamento fosse
sinónimo de uma caixa cheia de
benzidos fármacos, teme-se um oceano
de corpos e de cangalheiros sem mãos
a medir. Faz sentido, já não há caixões
que cheguem ou lápides que representem
condignamente a numerologia da causa.
Sem crer nem saber, meteram-me nesse mesmo
saco, deu-me vontade de rir. Tenho medo
de um dia, outorgado pelo sugestivo estudo
começar a ouvir música alegre e a ler manuais de
como ser feliz no mundo dos palhaços.

LIÇÃO Nº 5

Gosto da palavra talvez e da palavra
engano. Conjugação: talvez me engane.
Gosto desta irmandade entre elas também.
Também, fascina-me igualmente. É simples,
nenhuma delas nos dá certezas, gosto
da palavra certeza por causa da incerteza
e gosto da incerteza porque é talvez
um engano. Conclusão: gosto também
de me enganar com uma certeza incerta.

MORAL DA HISTÓRIA:
Sou um orgulhoso egoísta como tu.

terça-feira, setembro 2

LAVATÓRIO

Uma folha branca é sempre
uma folha branca, até que se suja.
Depois disso, na mesma folha
na mesma branca, as palavras imundas
pelo dia-a-dia borram o espaço,
na mesma branco, na mesma sujo
as letras carregam o fardo, e por sua
vez, a folha carrega as letras
e os dias ficam mais limpos. Talvez
não seja assim. As horas não se limpam
e as folhas também não se sujam.

Uma folha branca é sempre branca
e só mesmo as mãos se mantêm sujas.

segunda-feira, setembro 1

CACOFONIA DOS MOVIMENTOS DISPERSOS

A cacofonia dos movimentos dispersos
abriga a sintonia dos interiores desfasados.
Este tipo de veleidades completas
tem muito que se lhe diga, e a vocês também.
Uma pessoa quando obrigada aos mecanismos
regidos pela exterioridade das palas de outrem
e a ultima frase dirige-se a ti, transmuta
a sintonia dos pensamentos programados.
Quanto às veleidades completas perecíveis
de possuir identidade, apenas digo, continuem.

Não me digam que tudo isto é estranho. Para vós
estranho seria andar por aqui e eu dizer

sim está tudo bem. O que até se confirma.

Nas fotografias toda a gente é calma, não fui eu
que o disse, apenas escrevo. É um facto. Nas fotos
do nosso quotidiano, muitas das pessoas até sorriem
e eu derreto-me, adoro alguém com um bom sorriso.
In loco na loucura do momento, alguém ordena

sorriam! estão a ser fotografados, tristes é que não!

Na pista dos pavões apanham-se penas e bonecas
os holofotes nunca enganam, e o ego precisa de comida.
Os animais são qualquer coisa de muito terno
ultrapassam a barreira da racionalidade bruta e

a indiferença só é impossível pelo próprio amor.

Nos manuais metafísicos, e notem, não disse dos,
as crenças alienadas, e notem, não disse crianças
são o caminho mais próximo para a vitória. Ganhar
mais do que perder, é a bandeira partidária

um bom comprimento fica sempre bem na cara mais feia.

Morrer, só se morre uma vez, e mais de uma já é ganância
no que toca à vida é diferente, nunca reparaste?, respirar
não é exclusivo dos asmáticos, acho que nunca te faltou ar

usas bombas todas os dias e tens-lhes um ódio arrepiante.

A contradição já não é um ponto de ruptura, é uma cama feita
não fosse por isso, e a tua não estaria sempre fresca e arejada
pronta para o que der e vier depois de um dia repleto de alegrias

portanto, há muito que mudar na nossa política de marketing.

Os engodos imunológicos abrigam as leis da circulação
fosse eu alguém para lá desta impessoalidade e tu
bem, tu, muito bem tu, gostarias é de sintonias dispersas

dispostas em segmentos pérfidos que albergariam belos gritos.

sexta-feira, agosto 29

LIÇÃO Nº 2

UNIR, A PASSAR PELO CENTRO, OS
3 VÉRTICES DE 1 TRIÂNGULO EQUILÁTERO


O Passado, Está Em Voga
O Futuro Berra & Bem, E O
Presente, Bem O Presente
É Convergência Que Já Brota
Como Quem: «Cospe Calmo!»

COMO SER PRETENSIOSO

Não alimento sonhos, não são para mim
sou mais de pesadelos. Um dia perguntaram-me
Mas tu queres viver da poesia? Ao que respondi
Eu já vivo dela. Não, o que pergunto é
economicamente, gostarias de viver da escrita?
Sinceramente, de maneira alguma. Viver para ela
já me chega, prefiro mil vezes viver da miséria
colher os seus frutos podres, mascá-los com iguais dentes
aguardar com a certeza de que o corpo não amolece,
e por enquanto, isso não me preocupa, no máximo
enrijece, mas só depois de mim. Logo a seguir ao pesadelo.

NO CAMINHO DA FELICIDADE

Num vão de escadas, come-se chamuças
e quebra-se o gelo d’agosto. Depois
do shopping, onde não encontrei o que
queria, a força perpétua do negócio de neons:
um rui esgotado e pouco mais para escolher.
Daqui, no caminho, o silêncio, os prédios
a recortar o horizonte como uma tesoura
gigante. Sacos que passam com pessoas pesadas
adolescentes que se juntam na felicidade comprada
um banco de jardim que aguarda só

um poema pobre como a própria tarde.

terça-feira, agosto 26

STUPOR MUNDI

Sofremos com nojo a pertença em nós
indulcada de uma geração, as suas taras
vindas de longe, modos diferentes
de se ser igual. Com uma raiva triste,
vêmo-los foder, procriar, indo aos poucos
definhando, esperados que são
por pós-modernos jazigos.

Não há nada a fazer,
nenhuma palavra nos salva.
É-se sempre contemporâneo da merda.

Manuel de Freitas

A CARREIRA DO MESSIAS

No autocarro, a concórdia sublime.
A voz rouca despoleta do silêncio
um coro impaciente prestes a explodir.
Esperou demasiado, os outros também,
esperavam-no como um Messias
dos transportes públicos. Uma hora
de atraso era demasiado, ia dizendo.
Prontificou-se também a berrar que não permitiria
a leitura do seu passe. Chamem a polícia
era a sarcástica palavra d´ordem. Querem
que andemos de autocarro, muito bem
mas esta merda não pode acontecer.
Quase se espumava da boca. Vociferou
foi apoiado, e ovacionado lá saiu.

Fez-me lembrar os intelectuais da nossa praça,
talvez um pouco mais complexo e causídico.

O DIREITO DO MAIS FORTE À LIBERDADE - RAINER WERNER FASSBINDER (1974)

1.

Quem tem amor não tem
razão, tem apenas frio.
Não te confundas, cão
vadio, com chacais.
Pois o chacal é um animal
que tem sempre razão.

2.

Sou tão feliz. Estas lágrimas,
não liguem, é do álcool.
Vá - pago um copo
a quem disser que me ama!

3.

Não te deixes enganar, raposinho,
pelos modos bem criados do chacal.
Não eras tu que dizias «Há pessoas
que se lavam, e há outras que são limpas»?

Que não te impressione a toalha de linho,
o brilhos dos talheres, o arroto de lavanda.
Repara antes no seu prato: reconheces,
inocente, o acepipe? É o teu coração,

raposinho, isso mesmo, o teu coração.


José Miguel Silva

domingo, agosto 24

SO GOODNIGHT

Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.

José Miguel Silva

sábado, agosto 23

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
presuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossados pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer e o mais que não se diz por ser
JJJverdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão

TRAVESSA DA QUEBRADA Nº 17

Sobre a mesa a enevoada sombra
de algumas cervejas, o
travo amargo da noite. Estás
cercada de medo e de ausência
e um cigarro aflora-te por vezes
aos lábios ternos, destruídos.
Mas nada te quero esconder
são vazias estas mãos
por mais que alguém lhe pudesse
dar alguma vez.

A música agora podia ser
na voz quase mineral de Joan
La Barbara. Tu nem sabes, mas podia,
if I do, if I do "love evil".

E ao falar de tanta dor
não sei se é de ti
se de mim

por onde vai a voz.


Manuel de Freitas

quinta-feira, agosto 21

NADA DE GRAVE

De imperfeições cresce o amor.
Perfeito, só nas realizações estuporadas.
Dos gestos toscos, das palavras envergonhadas
Cresce o amor como nos filmes onde morre:
Sobressai o lado prosaico da geometria caduca.
Dos silêncios genéricos e do límpido esgoto
Correm as águas transtornadas, não caem
Continuam até ao oceano incerto, mas só porque
De facto o amor não se quer perfeito. Algo falha.
De amar, só mesmo a imperfeição e só depois
A inversão pela ânsia. De tal maneira
Que num dia inesperado, tudo cai como cresceu.

Se assim não for, nada de grave
É só porque o amor não existe.

quarta-feira, agosto 20

ANTES QUE CEGUES

Desde puto as histórias, as mezinhas
Contadas por uma voz taciturna, o desejo
De incutir o primeiro filamento para futuro
Obrigando-me a fugir da frescura das sombras.

Pouco depois, descobri - já lia inocente
Os quadradinhos – aquela personagem
Malévola que se dispunha ao mal
Como um melanoma depois de muito sol.

Não é portanto com espanto, que reconheço.
Desde sempre as sombras cresceram em mim
Como aquele lado preocupante e descaracterizador
Não tive culpa, mas também cresci, agora venero-as
São como caminhos a seguir. Depois de muita pesquisa
Conclui a sua utilidade para além do medo.

Nas sombras; a oportunidade de ser outro.