terça-feira, junho 17

LOCURTINO DE ABISSAL

O conhecimento é nulo. É uma denominação para algo que não sabemos nem nunca soubemos usar. Nunca soube o seu ritmo. Nunca tomou conhecimento de que o relógio e a sua invenção foram o maior crime alguma vez cometido no universo a que chamamos de história. Um relógio nunca pára. E o conhecimento, ou melhor, o conceito de tal suposição determinada, é um veículo incorpóreo devido à velocidade estonteante que o move. Locurtino de Abissal retratou isso muito bem nos seus escritos. Visto como um dos pais do Ambiguismo viu no mundo da sua época que chegou até hoje, demoradamente, o equilíbrio do caos, tema este bastante debatido pelo meio intelectual que cresceu como um monstro no palaciano passar do tempo. Já na sua época achava que o afastamento entre os homens que tinha como ponto de origem o surgimento daquilo a que se chamava de conhecimento -que a meu ver e tendo em conta evolução se pode determinar mais concisamente como proto-conhecimento-, já previa a marginalização tirana perante o colectivo, achava que um dia a inteligência seria tomada como um forma de divindade capaz de controlar o mundo, real ou irreal. No manuscrito “O mundo e o Conhecimento” faz uma crítica muito seca à classe que se estruturava já na sua contemporaneidade

«Estes homens que crescem, exímios na procura dum sentido para a vida, acham que são mais que os outros, que através da sua alfabetização irão encontrar um espaço vivencial que lhe embalará os filhos e os filhos por sua vez acharão o mesmo. Acham que aprender nas devidas instituições de ensino é o caminho para o mundo repleto de fantasias, e que todos aqueles que se recusam a ir por esse caminho são autênticos e reprováveis animais. Argumentam que no futuro quem não tiver como bases todas as suas descobertas maravilhosas no campo de filosofia, todas estas promessas abstractas que sinceramente e naturalmente não consigo perceber, não vive no mundo com o qual sonharam, o local onde o conhecimento é simbiose para com o meio terrestre em que caminham. Declaram guerra cerrada ao instinto. Veneram Coferti O Mago e vêem nele e na batalha da Antiga Antiguidade o exemplo máximo e o caminho para a intemporalidade. Apoiam-se no texto “O Intelectualismo” desse mesmo guerreiro que entre outras coisas e para não dar muita importância, defende que «Os homens determinam-se pela classe de inteligência» e que «Os Aliortes ao se recusarem a aprender, não sabem que o mundo tem muito para lhes dar para além do medo.» A partir destas máximas tudo para eles faz então mais sentido. Acham que o medo de saber não se justifica, tudo se torna claro cada vez mais claro, só não sabem que a cegueira leva à prisão do espírito. Se acreditasse neste nosso deus diria que era um feliz contemplado, um adormecido intelectual iluminado pela sua espada que abre espaço para o pensamento na mata densa e selvagem. Sou um egoísta por não acreditar, por perceber que não sou mais que os Aliortes, que agora mesmo enquanto escrevo olho pela janela e vejo o mundo como eles, sem nenhuma análise ou tentativa de compreensão, que isto a que chamamos de conhecimento é uma farsa criada por alguém, um embuste que nos trama e engole no mato, nos escaparates da nossa compreensão que nada vê e nada consegue perceber só porque nada há para perceber. Sinto-me um inútil, repartido no campo de batalha, retalhado por esta compreensão que de nada me serve. Vejo todo este bando alfabetizado a criar caminhos, a dividir o mundo, a criar soluções que são problemas, só porque mais logo tem que ir mais fundo e quanto mais rápido compreenderem melhor. Agora até há quem pense que os problemas são a solução, que se existem só tem que ser ultrapassados, como se fosse tão linear e instantâneo. Agem por bem nas suas mentes sem compreenderem o que é isso de agir e quais são as suas causas e consequentemente os seus efeitos. No caso de Liberpol Colinope -que morreu há bem pouco tempo, depois de se fechar em casa e procurar a chave para a compreensão durante muitos anos – “o homem inteligente que um dia quiser e achar depois de muito cálculo cerebral que as origens do homem deveriam ser imutáveis, não percebe que o conhecimento é um novo mundo, um meio que permite chegar à divindade pessoal.” Nos seus estudos notáveis e aprofundados da vida e convicções d’O Mago concluiu entrelinhas que quando o meio não se revelar favorável à origem e às razões da batalha da Antiga Antiguidade, nem tudo está perdido, somente porque a compreensão servirá para acalmar o espírito duma forma egoísta que o inflamará como madeira seca. Como é belo este bando de senhores que possuem a razão. Talvez um dia se dividam e batalhem entre si, como um dia os nossos ancestrais se dividiram. Talvez surja num futuro indeterminado um apologista contra o Intelectualismo, um filho desiludido com a herança que o sangue lhe deixou, um desiludido como eu, contra todo este mundo que é cada vez mais nosso sem que eu o queira para mim.»

Abissal encontrou pela simples observação o destino da evolução do homem. Defendia que a divisão entre os homens não era mais do que uma necessidade de afirmação e justaposição perante o abismo e a sede de conhecimento. A razão de batalha ganha por Coferti era muito linear e não tão complexa como achavam e mistificavam os pueris pensadores da sua época.

«A inflamação do ego, e as suas necessidades despertas pelo medo de acabar, levaram O Mago a iniciar uma chacina perante um adversário que muito bem conhecia não fosse ele sangue do próprio sangue. Tinha vergonha do seu passado. Se ele tinha conseguido a aprender a escrever e a compreender o mundo porquê que os seus conterrâneos não compreendiam? O seu professor -agora que já temos denominação para tal – baralhou-lhe o cérebro. Se ele compreendia, porque razão lhe tinha dito que o homem não é todo igual e nem sempre assimila o conhecimento? Fazia-lhe bastante confusão ter que estar fechado o dia todo e ficar proibido de partilhar com alguém tudo aquilo que sabia, se ele percebia o mundo, todos os outros também. Durante muito tempo, até à data da morte do seu amo, ansiou o mundo. A enclausura e identificação com as origens que o acaso lhe tinha roubado tornou-o num ser curioso desejoso por saber que um dia iria ver o mundo e iria modificá-lo como assim teria que ser. Não sabia se haveria de sorrir como um louco ou chorar como um tolo quando a morte lhe trouxe a liberdade de agir segundo os ensinamentos adquiridos.»

Nesta passagem determinou-se o espectro do ambiguismo. A morte como elemento chave leva Coferti a questionar muito instintivamente qual o caminho a seguir, e a encarar o ensino e consequente compreensão, como um enigma nunca desmascarado pelo seu professor. Apesar de todo ódio aos estudiosos do seu tempo devido ao fanatismo pelo guerreiro, Abissal vê nele a origem para o confronto que se revelou e cresceu até hoje. A curiosidade é para ele a fonte de todos os problemas.

«Quando nos defrontamos com um problema o conhecimento leva-nos a tentar resolvê-lo, mas no entanto, põe seriamente de lado a hipótese de erro, sendo assim, apenas o contornamos.»

Este pensador filho nato do conhecimento que tanto o mutilou e acabou por levar ao suicídio numa época infindável que não consigo descobrir, compreendeu o mundo como meio e o homem como finalidade para ele mesmo. Os seus pensamentos filosóficos que descobri por obra do acaso dentro dum invólucro de pedra no oceano, levam-me a crer que a evolução do homem começou com a contagem decrescente e acelerada do mundo.

«O Mago descobriu a terra e tratou de germinar o conhecimento. Todos os homens que o conheceram e tinham predisposição para a aprendizagem seguiram os seus ensinamentos e criaram outros ensinamentos e outros caminhos e outras soluções e outros problemas. Outros matavam a seu mando para possuir tudo aquilo que queria possuir e saciar-se assim de todos os anos de proibição e abstinência de acção. A partir do momento em que saiu da sua prisão contra vontade do seu falecido professor, ele os homens e o mundo nunca mais foram o mesmo. Tudo porque guardou em segredo a enigmática proibição do seu pai que tantas vezes depois de algumas desilusões lhe ressurgia na cabeça “Os seres não são todos iguais e o conhecimento nunca deve ser transmitido para lá de ti sem que o sintas sem medo. Vivi muitos anos meu filho, nunca tive pressa, a minha longevidade leva-me a crer que o conhecimento é demasiado perigoso, daí passar-te este meu testemunho esperançoso. Não durarei o suficiente para compreender os homens e o mundo, quero que me jures que nunca o transmitirás a ninguém quando morrer. Já não falta muito. Espero que não, mas acho que me vou arrepender de te ter ensinado tudo isto, és muito jovem para ser ensinado, ainda não pensas como um homem sábio, és apenas uma criança aos pés da verdade. Quando saíres daquela porta e encontrares homens curiosos, mais, ou menos desenvolvidos do que eu e que tu, diz-lhes que tudo não passa ainda duma errónea solução, que o conhecimento é a pior arma alguma vez criada.” Não contava a ninguém este desabafo do seu percursor, a vergonha matá-lo-ia apressadamente. E eu muito menos demonstro esta faceta deste deus dos pensadores e apologistas adormecidos do intelectualismo de Colinope, que seguindo a sua sugestiva suposição “um dia irá vingar contra qualquer tempestade causada pelo erro que poderá sempre ser corrigido ou tolerado com mais ou menos afinco.” Tenho vergonha do conhecimento que possuo, tenho um medo mais do que justificado de abrir mais uma porta para o abismo, algo passível de ser analisado e tomado como uma verdade absoluta sem que o seja.»

As suas palavras não enganam e não poderiam fazer mais sentido do que hoje em dia.

«Nichos de intelectuais povoarão o mundo em pingas e dirão que as suas bases são a solução para tudo, mesmo que na prática isso não aconteça. Desiludidos seguirão a via da divinização do conhecimento, uma idolatria que levará a um sentimento recalcado e dividido. Para alguns a inércia será a força central, sentir-se-ão deuses da compreensão, viverão cheios de ideais de mudança e inconformismo nas suas cabeças. Verão nas massas instruídas a culpa para todos os cataclismos somente porque não atingiram a supremacia da errónea e injustificada intelectualidade. Outros dirão que o mundo está perdido e povoarão outro que só existirá na sua loucura. A arrogância e o orgulho separará os intelectuais dos outros ditos selvagens como deveria ter acontecido na batalha da Antiga Antiguidade. Será tarde entretanto, o conhecimento já acelerou para lá da naturalidade fundamental, os homens nunca perceberão que o conhecimento não pode ser fruto dos caprichos.»

Este homem deitou por terra todos os instruídos anteriores e posteriores a si. Mas no entanto não deitou por terra toda a esperança.

«Talvez num futuro surja mesmo um homem contra o intelectualismo, nunca profeta nem salvador, mas sim capaz de derrotar todas as bolhas de conhecimento. Um homem que diga que o intelectualismo é um capricho hipócrita que teve como base o conhecimento e compreensão que tanto o delicia e aniquila. Mesmo que tarde, fará então perceber ao mundo que a ambiguidade da natureza não nos permite afastarmo-nos dela e criarmos uma nossa igualmente dúbia. O Conhecimento existe mas engana-nos, ilude-nos ao ponto de nos acharmos inteligentes.»

Locurtino de Abissal deixou antes de morrer um último desabafo

«Porque tendemos a complicar tudo, a seguir os trilhos do conhecimento intrincado? É tudo tão simples e fácil de perceber, somos todos animais e não mais que todos os outros. Para quê tanta curiosidade? Às portas da morte tudo é claro e só agora que me proponho a ela percebo o porquê de querer acabar com todo este enigma



Quando o homem na sua infância colectiva
Abriu campo para os dissidentes
Para os percursores da inteligência que geminou
Semente tortuosa por florescer
Metamorfose do espírito agora individualista
Em busca do desconhecido criado por si

Formou-se o confronto interno da humanidade
Cerrados orgulhos na disputa

-

O dissidente
Olhado de lado
E o seu opositor
Do lado vazio

O evolucionista
E o imobilista

- Quanto mais me contrarias menos mudo…

- Não pode ser!

O que deu o passo até hoje
Até à escrita que deu outro

:

O que teve medo
Na permanência do instinto

:

Não se precisa quando

.

Num dia em que ainda não se escrevia
Um conflito partiu até este momento

,

A contemporaneidade permanece igual a sempre
Desde aquele abstracto dia de medo em que alguém falou mais alto

- Não! Não pode ser!

No local em que tudo mudou
Um silêncio
Fracção milésima para o confronto
Bifurcação ambígua dos seres
Uma resposta para o mundo em que vivemos
Cheio de tudo nos dois pratos da balança

...

A curiosidade cresceu

Abriu caminhos

O mutualismo por identificação
Abriu uma bifurcação da bifurcação

Confronto
Derrota

Confronto
Vitória

Tudo desde o ponto de conflito
Desde o infinito que não futuro

.

- Estou errado… Errei. Quem sou. De que lado estou?»

PALMAS PALMINHAS

Palmas

Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas

Sim
Bravo!

As palmas
As palavras
Palmas para as palavras!

Um eco exponencial
De palmas

Muitas palmas

Para o artista
Para as palavras

Mais!

Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!

Bis!

Palmas

Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas
As palmas das mãos
Como suporte sonoro

O eco a corroer o espaço
O espaço das palmas
O espaço das palavras

Muitas mãos a dizerem que sim
Muitos bravos a viveram das palmas
E as palavras a morrerem insignificantes

Mais!

Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!

E as palavras a morrerem insignificantes.

Bravo
Muitos bravos!

Muitas palmas para tudo isto!

(0)

A essência é
Lixo concentrado
Local donde jorram
As águas poluídas
Afluentes dos tempos
Os diversos tempos
Cristalizados na História

A essência é
Gruta dos seres
Local sombrio inóspito
Que nos escorre pelas mãos
Água preta e pastosa
Personificação do vulto
Que nos move.

A essência não é
Magia encantada
Pureza no corpo

É conformação
Espelho que reflecte
A embriagante imagem
Que conspurca os gestos

A essência queimou
É mero carvão que sobra
Duma fogueira que já não arde

domingo, junho 15

SALDO







À venda o que os judeus não venderam, o que a nobreza e crime não gozaram, o que o amor maldito e a probidade infernal das massas ignoraram; o que nem tempo nem ciência têm que reconhecer:

As Vozes reconstituídas; o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; a ocasião, única, de distender os sentidos!

À venda os corpos sem preço, sem distinção de raça, mundo, sexo, descendência! A riqueza irrompe em cada lote! Saldo de diamantes sem controlo!

À venda a anarquia para as massas; a satisfação irreprimível para os amadores superiores; a morte atroz para os fieis e para os amantes!

À venda as casas e as migrações, os sports, as maravilhas e os comforts perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que fazem!

À venda as aplicações de cálculo e os saltos de harmonia inauditos. Regras e achados nunca suspeitados, entrega imediata.

Ímpeto infinito e insensato de esplendores invisíveis, de delícias insensíveis, e seus segredos enlouquecedores para cada vício, e a sua aterradora alegria para a multidão.

À venda os corpos, as vozes, a imensa opulência inquestionable, o que nunca será vendido! Ainda temos de tudo! Os viajantes não têm que entregar já as suas comissões.


Rimbaud

DEMOCRACIA















«A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.

«Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.

«Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

«Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz, inaptos para a ciência, esgotados para o conforto, e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!»


Rimbaud

quarta-feira, junho 11

SÓ TENS QUE, APENAS ISSO E NUNCA O QUE TENS

Só porque não te mexeste
Perdi toda a esperança
Aguardei frio e chorei

O grito da revolta que nos faz implodir

Só porque nada fizeste
E nada fazes só
Perdi o brilho nos olhos

Só porque não constróis nunca
E nem acompanhado
Perdi a força no âmago

Só porque sou só
E construo contigo
Ganhei uma vida

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento

E só depois de desistir de mim
E acreditar em ti que não acreditas

Vi a nossa morte e a ti ta dou
À luta na espera de te sentires vivo

Vi a morte e a ti te entrego
Toda esperança que não tens
Toda a luta que fervilha em ti
Todo o descontentamento a emergir

Vi a morte e não a vejo portanto

Mas tu crês nela e não percebes
Que a morte que te entrego
É a vida que tens para entregar

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento
À luta na espera de te sentires vivo
Ao grito de revolta que nos faz implodir

Só tens que morrer
Que te entregar à morte
Ao que te move nela

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que morrer
Como eu morro todos os dias
Morto para tudo mas desejoso de viver

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que viver
Como eu vivo todos os dias

Vivo para tudo mas desejoso de morrer

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Só tens que

Apenas isso
E nunca o que tens

Não desistas nunca mais

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Estás vazio

Apenas isso
E nunca o que sentes

Andas iludido

Apenas isso
É o que te move

É o que me dás a acreditar
Em nada
Porque ages no nada

É assim que acredito em mim
Em nada porque és nada

Demonstras-te vazio

Apenas isso
E nunca o que és

Foges e escondes-te

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Falas-me e eu respondo

Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E hipoteticamente acreditar em ti

Só porque desisti de mim
Somente para acreditar em ti
E hipoteticamente acreditar em mim

Mas eu acredito em ti
E quero que tu acredites em mim

Quero que vejamos o que há para crer

E tu acreditas em mim
E queres que eu acredite em ti
E eu que creio nas palavras
Muito para além da imobilidade

Eu que creio na mudança
Muito para além do espírito

Eu que creio no espírito para a mudança

Insurjo-te para viver como nunca viveste
A estrumares o que de ti arde insuportável

Insurjo-te para cuspires nos teus hábitos
Para extenuá-los até ao seu verdadeiro valor


















Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é
Só porque nem eu sei o que isso é…

sexta-feira, maio 30

A UMA VALSA INÓCUA















Invadem-se campos e destroem-se culturas de flores milenares
Os amantes de flores choram de raiva e gritam não e nunca!
Sentem o seu mundo de sonhos inebriantes a ceder
A ruir como água suja a cair para um esgoto ao sol

Tão cedo imaginariam esta chegada
Andavam demasiado ocupados na sua insipidez
No seu nada para a vivência exceptuada ao vegetalismo

Agora insurgem-se finalmente insurgem-se
Estão vivos finalmente vivos e com força para viver

Desde sempre se quedaram nos gestos vestidos
Cada vez mais embalados pela velocidade de tudo
Adormecidos fetos da acção hermética que tanto delicia

Não percebem o que se propõe ao calcar os seus jardins
Não percebem só porque estão demasiado ocupados em podas

Não percebem a força verosímil das palavras
Não percebem nada porque atribuem a culpa à própria morte

Coitados

Tenho pena da vossa ignorância mas percebo-a
Tenho pena de mim até mas percebo-me e aceito-me e aceito-vos
Tenho pena de todo este mal entendido e da vossa mesquinhez de viver

Mas afinal ainda se impõem
Ainda lutam fortes e incongruentes

E isso maravilha-me e a isto chama-se optimismo
Talvez a dose de optimismo que aconselham para as regas

Não têm com que se preocupar

Não chorem mais não gritem mais não me odeiem
Canalizem tudo isso contra os vossos corpos
Lutem contra a vossa ignorância e passividade
Deixem de me ver morto só porque sou todas as vozes
Todas as sombras e todos os males e tudo o que é vosso

Lutem como animais espumosos
Ajam por instinto e esqueçam-se de pensar

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Abram os olhos para não me repetir
Abram os olhos e enjoem e ajam e sejam
Abram os olhos e vejam a razão pela qual escrevo

A minha pretensão não vai para lá dos vossos gestos
Não é mais que um meio para vos espicaçar

É uma pretensão escrita maior que a própria religião

Uma pretensão contra a religião
Uma pretensão contra qualquer tipo de moral
Uma pretensão pretensa em ódios
Uma pretensão que nos arruína e nos eleva


É a ira a roer as concavidades do corpo

A força do teu sangue podre e nauseabundo
A condensação do que afugentas cambaleante
O limite a destruir todas as barreiras da incapacidade

Tudo serve para te ver vivo
Para perceber que ainda te mexes
Que a arte está morta mas pode respirar

Que o cheiro a mofo que dela exalas é apenas circunstancial

Que o requinte na arte é só mais um luxo
Uma característica duma nova classe

Que a beleza na arte é uma necessidade
Uma via para desligar o mundo e criar sobre ele

Que o mundo é a arte e a arte é o mundo

Sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates

E o discurso paralelo é apenas mais uma arma
E vocês só não morrem porque não quero

Quero-vos vivos a fervilhar em ideias
A construir tudo o que destruo com afinco
Para lá das palavras para lá dos sonhos

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Que sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates.

quarta-feira, maio 28

QUEM É QUEM?

Um homem louco é aquele cuja maneira de pensar e agir não se coaduna com a maioria dos seus contemporâneos. A sanidade mental é uma questão de estatística. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e período é a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta é a definição de sanidade mental na qual baseamos a nossa prática social. Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e acções de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psicólogo pode chegar à mesma conclusão. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos em conta. Se um homem tenta viver como se certos destes elementos constituintes do seu ser não existissem, está a tentar viver, num sentido psicológico absoluto, anormalmente. Está a tentar ser louco; e tentar ser louco é insano.

Aplicando estes dois testes, o do historiador e o do psicólogo, à maioria mentalmente sã do Ocidente contemporâneo, que verificamos? Verificamos que os ideais e a filosofia da vida agora geralmente aceites são totalmente diferentes dos ideais e da filosofia aceite em quase todas as outras épocas. O Sr. Buck e os milhões por quem ele fala estão, esmagadoramente, em minoria. Os incontáveis mortos preferem a sentença a seu respeito: estão loucos. Os psicólogos confirmam o seu veredicto. O êxito – «a deusa-cadela, Êxito» na frase de William James – exige estranhos sacrifícios daqueles que a adoram. Nada menos do que automutilação espiritual pode obter os seus favores. O homem coordenado para o êxito é um homem que foi forçado a deixar metade do seu espírito fora da sua personalidade. E se ele aceitar os ideais e a filosofia da vida que a deusa-cadela tem para oferecer, achar-se-á condenado, ou a uma estrénua irreflexão ou a um cinismo poeirento e descolorido. Nascido potencialmente são, ele aprende a sua loucura. “Porque todo o Homem”, como Sancho Pança observou, “é como o céu o fez, e algumas vezes muito pior do que isso” – algumas vezes, também, muito melhor; depende, em parte, dos seus próprios esforços, em parte das tradições, das crenças, dos códigos, da filosofia da vida que acontece ser corrente na sociedade em que ele nasceu. Onde esta herança social é uma loucura, o indivíduo naturalmente mais normal está moldado à semelhança de um louco. Em relação à sociedade em que vive, ele é, sem dúvida, normal, porque se parece com a maioria dos seus pares. Mas eles são todos, falando em absoluto, conjuntamente loucos.
A Natureza permanece inalterável, quaisquer que sejam os esforços conscientes feitos para a deformar. Os Homens podem negar a existência de uma parte do seu próprio espírito; mas o que é negado não é por isso destruído. Os elementos banidos vingam-se nos indivíduos, nas sociedades inteiras. Uma coisa apenas é absolutamente certa quanto ao futuro: que as nossas sociedades ocidentais não se manterão por muito tempo no seu presente estado. Ideais loucos e uma filosofia lunática da vida não são as melhores garantias de sobrevivência.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

A 1ª AVENTURA CELESTE DO SENHOR ANTYPIRINE (EXCERTO)

Nós declaramos que o automóvel é um sentimento

que já nos animou em demasia na lentidão das suas abstracções

e os transatlânticos e os ruídos e as ideias. Entretanto

exteriorizamos a felicidade, buscamos a essência central

e ficamos muito contentes por a esconder. Nós não queremos

contar as janelas das maravilhosas elites, pois que Dada

não existe para ninguém e queremos que todos percebam isso mesmo

uma vez que é da varanda de Dada, garanto-vos, que se podem ouvir

as marchas militares

e descer cortando o ar como um serafim nos balneários públicos

para urinar e compreender a parábola.

Dada não é loucura, nem sabedoria, nem ironia – olha para cá

a ver se me vês

gentil burguês.

A Arte era um jogo, uma noz, as criancinhas

juntavam as palavras com um guiso na ponta e depois choravam

gritavam a estrofe e calçavam-lhe botinhas de boneca e a estrofe

transformava-se em rainha para morrer um bocadinho

e a rainha transformava-se numa baleia e as crianças corriam

corriam até perder o fôlego.

Então chegaram os grandes embaixadores do sentimento

gritando historicamente em coro

psicologia psicologia ia ia

Ciência Ciência Ciência

viva a França!

Nós não somos ingénuos

nós somos sucessivos

nós não somos o contrário de exclusivos

de certeza que não somos simples

e sabemos perfeitamente discutir a inteligência.

Mas nós, Dada, nós não somos da sua opinião

visto a Arte ser uma coisa pouco séria

asseguro-vos

e se vos apontamos o Sul e o crime

para dizer empanturradamente ventilador

arte negra e sem humanidade

é para que o prazer vos sufoque

queridos ouvintes


Tristan Tzara



terça-feira, maio 27

INKZ

Li no chão:
As precisões da produção
têm efeitos abruptos na intimidade
Qual o peso da alegria?
O tamanho da agonia?
A altura do desejo?
O comprimento da resignação?
Só nas fábricas evasivas
é que ainda se produzem emoções
em modelo Revolta
tamanho XL

Todas as identidades são dançantes



antimanifesto para uma arte incapaz,
Boaventura de Sousa Santos

segunda-feira, maio 26

A CONDENAÇÃO DO ASSASSINO

E só porque o ódio nos inflama o corpo
Ao extremo de sentirmos um orgulho medonho
O mundo gira e chocamos uns com os outros
Ignorantes ao ponto de termos uma razão suposta
Que nos alimenta o ego monstruoso

A fonte para a coerência
Subliminar processo para a credibilidade

A que nos move cheios de convicções
Rumo ao destino ultrajado pela vontade

O veículo da inteligência que nos aprisiona
Que nos faz sangrar nesta banheira sideral

A que ilude, tortuosa e selvagem
Para lá de todos os sois de todas as luas
De todas infinidades expositivo/argumentativas
Que nos levam até à sapiência do egoísmo;
Que estratifica os homens e sacrifica os sonhos
Ao ponto de levarmos as discussões que nada resolvem
A um mero ponto, a um simples e carnal umbigo

Um fio que nos aprisiona e amordaça
Nadadores aflitos na corrente do rio
Mergulhadores da solidão

Ouvem-se os hinos ao amor na discórdia
Símios refractados pelo colectivo sombra
Umbilicalmente ligados pelo medo,
Limbo da razão de todos factos
De todas as tempestades e de todos os céus
Que nos fazem voar inseguros,
De todas as mágoas de todas alegrias
De todos cantos dos pontos mais remotos
Desde o eremita até ao integro ser

O eremita tem medo
Assusta-o toda a dança mortífera

Todo o orgulho construído
Todas as discussões petrificadas

O integro ser, igualmente o medo
Assusta-o toda a solidão mortífera

Todo o orgulho destruído
Todo o ostracismo petrificado

E toda a razão se esvai
Como sangue a tingir o chão pisado

Toda a coerência se afunda
Como um barco com um buraco na proa

Tudo arde até que só nos restam cinzas.

Da razão, da coerência, do eremita
Do integro ser, para sempre o pó
Pequenos grãos de nada.

E das cinzas, do pó, tudo cresce de novo despido
Desprovido de qualquer peso, de qualquer
Denominação explicação necessidade
Somente a uterina sabedoria nunca escrita
Jamais percebida, a sabedoria da pureza das balanças.


Mas como estamos tão bem neste solo
No local onde o querer é tudo o que temos
Despoletar fisgado para qualquer infinito
Como se o amanhã fosse a palma da nossa mão.

Fingimos. Reagimos. Acreditamos no que quisermos
Até que algo nos corta e faz sangrar, um intercalar
Existencial que nos imobiliza. Restabelecemos
O ritmo, a marcha escolhida pelo espírito, triagem
Que nos capacita para tudo, deuses terrestres para
Todos os sonhos e todas a batalhas e todos os fins.

Não importa o chão que pisamos, somos capazes de tudo.
Não importam os sorrisos os gritos agoniantes as gargalhadas
Somente as trincheiras e o conforto da nossa singularidade.

Nem tampouco os confrontos os medos os festins e o amor
Tudo terá um fim e nessa altura tudo cairá sobre nós como lâminas

Acutilantes arrependimentos independentemente do passo tomado.

Para quê festejar para quê chorar para quê o que quer que seja?

Nesta odisseia de pesos tudo vale todos os pesos diferem
Mas todas justificações e todas as loucuras são iguais a nada,
A rigorosamente nada. Hoje nada vale e tudo acontece, hoje
Mais do que nunca, o chilrear dos pássaros é igual ao roncar
Dos porcos que felizes chafurdam na lama da sua naturalidade.







Não somos mais do que fantasmas. Carne púrpura
Que se move para lá da temperatura dos corpos



Somos ardentes signos sob a batuta da razão
Sempre ao encontro dum argumento duma desculpa
Duma solução inalcançável prestes a ser agarrada
Pelos grilhões da ignorância infecciosa.

O relógio dá voltas e voltas
Numa espiral que se esconde nos ponteiros.

A ampulheta vira e revira
Sem nenhuma ordem definida até à
Horizontalidade, até à morte do tempo até
À morte do seu esplêndido símbolo, até à condenação
Do único assassino de sempre.

terça-feira, maio 6

AO DEDILHAR OBSCURO

E então
Inventaram-se os espelhos

Multiplicaram-nos

Do primeiro reflexo
Aos múltiplos reflexos

Foi assim que se fez o mundo
De espelhos apontados para espelhos

Imagens das imagens
Veículos apontados para o infinito

A verdade a decompor-se
A contaminar-se por ilusões refractadas

Desde a ilusão mais pura
Até ao destino mais incerto

Desde o ponto
Até este novelo

Criaram-se as palavras
Os significados

Avivaram-se actos
Brilhos do movimento

A mentira esquecida pelo espelho
Escondida na imagem da verdade
Espelho que oculta todos os espelhos do tempo

Olhamo-nos ao espelho
E só vemos um reflexo

Nada de sério
Apenas uma imagem


Não somos nós

Apenas um espelho que nos aprisiona
Que nos liberta para lá do concreto
Que nos divide e multiplica matematicamente

Foi isto que nos trouxe o espelho
Muito antes de sequer existir

O reflexo do reflexo dos reflexos do reflexo
Labiríntico caminho sem retorno

Espelho que se quebrou e requebra até ao pó
Direcção antagónica que culmina na origem

Assumimo-nos deuses nesse longínquo dia
Criamos e recriamos e moldamos o mundo

Espelho supremo de toda a criação que nos iludiu

Aquando do primeiro reflexo perdido.


(escrito a partir duma frase de Herberto Helder)

BATINAS CASTANHAS

De capacete no sítio. Do local onde correm
Todos os males e desgraças
A circunferencial cabeça rola pelo chão,
A avarenta tômbola do devaneio
Que me contenta com as ideias no sítio
As prosaicas e arcaicas limitações
Das prisões em cores inventadas
Dos estados de espírito formalizados
Que orientam a multidão sedenta,
As cabeças espetadas entre si, emaranhado da sanidade.

Retiro o meu capacete e galgo
Espezinhado por fobias que se elevam
Que cantam que gritam
Adeus! Não mais existem
Os coros da concórdia as batinas da união
A loucura que não minha.

Adeus! Morri de desastre
Bati com a cabeça, renasci pelo trauma
Pela loucura sobre ombros

Vocifero!

“Unam-se orquestras sinfonias
Da agradável desgraça! Passem a estafeta
Para mim que não tenho mãos
Deixem-na cair no solo inflamado pela massa”;

Os limoeiros enrijecem
Para lá da minha (janela),
Entranham as suas raízes,
Asfixiam o peculiar castanho
Do vento que se vê. O céu,
O poético céu
Armistício da chuva
Espelha as vossas imagens

“O peso dos capacetes assim vos pende
Orientados sinais camuflados rumo ao funil destino”

(Do vidro um sorriso
Uma réstia espelhada
Um brilho lamacento
Quebrado, um caco pontiagudo
Uma espada simbólica
Um corte sangrento na bruma).

“Bem hajam trupes da diarreia!”

Habituaram-me ao ódio
Ao asco moldável nos dedos
Que escorre catarata,
À tinta castanha que me lava a cara

“Adoro-vos!”

sexta-feira, maio 2

TOMBSTONE BLUES

The sweet pretty things are in bed now of course
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous

The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"

Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"

The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle

Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues

The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter

Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college

Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Bob Dylan

quarta-feira, abril 30

O SONHO EM MARCHA

O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do Universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas - todos somos afinal só fantasmas, e o que construimos já não cabe entre as quatro paredes da matéria...

Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.


Raul Brandão

sexta-feira, abril 25

HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)

"Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e anti-sociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua corte de escribas e advogados".


The House of Morgan Ron Chernow

segunda-feira, abril 14

BASTIDORES DA SELVA ABRANGENTE

Os subúrbios são o espaço da mistura de espécies individuais, a possibilidade num jogo aleatório dos espíritos, uma intimidade essência do percurso construtor do destino. Por vezes um encontro é a base para o uno, a área do tu eu, confronto saudável e progresso na identificação que nos rege a euforia alegre, o caminho que os hábitos determinam, o previsto analisado e absorvido em consonância com o tempo que nos molda, como felizes contemplados num concurso de milhões de notas em música aquecida por um espírito latino rebelde que vai amolecendo confortavelmente -a inércia a subir pela via da esquerda, a rápida que nos imobiliza galopante pela estrada, ao traçado pessoal que transfigura porque o tempo é o presente, os restos do passado amadurecidos em casca de carvalho, o processo do tempo em desmultiplicação acontecida por fragmentos doces e oriundos das profundezas do princípio que é a razão desconhecida, a razão que não se fez por nós, a que se foi fazendo sem se ver quando distraídos pela vivência, a vivência que é vida, o limbo da vitória, a união segmentada pela disponibilidade dos encontros, -a probabilidade lançada à velocidade de tudo o que vai acontecendo aceitavelmente: mar flutuante e cheio, com rochas que atingem os montes que não tocam na superfície da água, os montes das nuvens fofas e apaziguantes, as almofadas que dissimulam a realidade acutilante. As pessoas circulam pela matéria que ordena o traçado cósmico como elemento necessário e natural, passeiam pelo habitat que nos molda como barro que difere na plasticidade de cada preparação, do avançar particular e conciso, à qualidade da origem que se procura, no presente da magia. Os truques e ilusões sucedem como peixes munidos de ferros, ampolas ingeridas a golfadas enérgicas capazes de levarem à perfeição do homem equilibrista sobre o fio pesado pelo corpo que se mantém apaziguado sobre uma plateia de palmas em pé sobre outros fios de equilíbrio. Os meandros da cidade são assim, cristalização das areias douradas em noites de Inverno Palaciano. É bela a mistela, babel no seu auge sentimental, não há terra certa mas apenas uma forte vontade de viver sobrevivente da selva, a selva mágica com lianas que são fios emaranhados pela mente, pelo espaço místico, mistério, a alquimia da química do cérebro ao serviço do avanço das formas manuseadas pelas tenazes do caranguejo transversal desajeitado que age por instinto nos Bastidores da Selva.
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.

segunda-feira, abril 7

DIAGNÓSTICO PEDIÁTRICO

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo

Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade

Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou

Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade

As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática

Os braços extensíveis
Da exponencial carência

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo

quarta-feira, abril 2

INDIE-COCK-PLOC-CHOC-RETRO

Que belo que é! Jovens preconceituosos tão abertos à cultura de plástico que lhes é entregue, a rotular supostas perversões! Perversos meninos da minha idade, cheios de dores, prestes a descarregar nas dores dos outros. Idílico até! Meninos na moda a escreverem histórias infantis em jeito de quem faz beicinho só porque prontos! Dispensava bem certas opiniões e a de certos meninos bania-as da face da terra! Mas como o ridículo é das essências que mais me fascina, até acho aceitável, hilariante! Tenho pena de dar importância a esse tipo de meninos, mas sinto a necessidade de pagar com a mesma moeda, uma moeda mais pequena sem dúvida e sem tanto engenho. Por isso, meu menino, sim, tu mesmo. Não me dês esse tipo de importância, não mereço nem quero merecer, muito menos dum estereotipado menino como tu, que tão bem personifica essa moda pseudo-contra-cultural que cresce tão harmoniosa e extraordinária.

quinta-feira, março 27

DA MAGIA DOS TEUS DEDOS

Sempre que estou na sua presença
Apenas eu e o seu corpo magnético

As minhas mãos
Ganham uma força férrea delicada
Que lhe percorre o corpo

A sua rata é quente
Uma rata que a contraria
Que transforma o seu não
Num sim ofegante do desespero consentido
Voz imersa na panóplia dos sentidos

As suas ancas são sedosas
Como lombinhos em vinha de alho
Impelem-me a beijá-las
A ferrá-las ao de leve e agarrá-las firmemente

Os seus seios
Voltas perfeitas suculentas

O seu cabelo
Lianas encaracoladas e selvagens
Emaranhado labiríntico que faz de mim
Fantoche da sua sensualidade capilar

O seu corpo

Contrai-se
Estremece
Arrepia

Diz que não diz que sim
Torna-se veículo
Do instinto mais primitivo

A sua voz
Sussurra injustiça
Relembra-me que tenho que ir

Que vai ter que se masturbar

Que não quer masturbar-se porque vicia

Que a solidão na cama
Relembra meus dedos
Que variam na amplitude

Desejo lânguido
Dos seus lábios rosados

INTERRUPÇÃO TRIANGULAR

Algures, num café de Gaia, a meio duma conversa:

-Ó Vitor, desculpa interromper, arranjas-me um cigarro?

-Na boa, pega.

-Obrigado Miguel!

-Carlos?! Chamaste-me Carlos?!

segunda-feira, março 17

"TRABALHO NOCTURNO"

Chama-se simplesmente Zé. Chegou vindo do breu da noite. Apareceu do outro lado da vitrina como se do nada. Pediu uma Super Bock. Demorou a pagá-la, questionei-me e apressado pedi-lhe o dinheiro, já depois de ter bebido uns dois golos da lata. Lá fora, uma noite aparentemente fria, uma noite de Inverno que finda. Perguntou-me se tinha cara de ladrão, olhou-me desconfiado como troco da minha pressa igualmente desconfiada. Perguntou-me também se queria beber alguma coisa, estava disposto a pagar, a dele e o que eu quisesse e pudesse beber. Começou a desenrolar a sua alma.

“Tenho dinheiro, vim agora da Nigéria. Agora não faço nada, apenas bebo, fumas charro? Não? Eu fumo. E bebo! Gosto de beber. As pessoas aqui todas me conhecem. Sou alcoólico para todas. Mas sou homem. Este país é uma merda. Estou a ser filmado, não? Não percebo, aquela câmara da última vez que cá vim estava a apontar para mim, onde está a câmara que me filma? Eu pago, mas onde está a câmara que me grava. Não há? Olha, para veres como sou alcoólico, vês? Está vazia! Ando sempre com ela. Whisky?! Não! Brandy! Gosto de beber, sou trabalhador, vim ao mundo para trabalhar, não tenho medo do trabalho, mas todos estamos cá para trabalhar, não me assusta, quando tenho que, trabalho! Sempre queres beber alguma coisa? Eu pago! Bebe lá! Um sumo, água?! O que quiseres! Não queres?! Não há problema. Pareces ser um gajo fixe! Já agora, vivemos numa sociedade democrática, é democracia? Acreditas na democracia? Em quê que acreditas? Em nada? Não acreditas em nada? Eu acredito. Não sou burro, que idade tens? Já corri mais países do que a tua idade. Podia ser teu avô, ouve-me, o que é preciso é isto, sermos sinceros, livres, o que importa é ser livre, somos livres? Eu sou, quando tenho que trabalhar trabalho, mas gosto de beber, sou alcoólico! Posso fazer um charro? Aqui? A câmara está a filmar? Posso? Olha, para fazer o charro. Estás-te a rir. Vou fazer então. Dá-me outra Super.”

Prosseguiu assim pela calada da noite, falador, falando de tudo ao jeito do álcool.

“Um dia vou-me, mas será que vou mesmo? Será que fico mesmo depois de morto? Fico!? Pareces inteligente, mas digo-te, não leves a mal, a cara é o espelho da alma, tu és um gajo porreiro, eu sou alcoólico, mas tu és um bocado aluado, não leves a mal, notei. Não levas a mal? Estou surpreendido, já tenho uns anos de vida e fico surpreendido que me digas que depois de comido pelos bichos permaneço nas pessoas, nem que seja nas que dizem que sou alcoólico. Sou daqui. Não sou mais do que os outros. Dali de trás. Vim da beira da ponte. Da escarpa!? Nada. Mas pensas que não sei o que é branca?! Camarada gosto de drogas, LSD, coca heroa?! Já estive preso, agora trabalho, para os meus filhos. Trabalhei, agora tenho guita, agora bebo, fumo umas ganzas, sou livre! Estou a ser filmado? IDE FILMAR O CARALHO! SOU LIVRE! O teu patrão não tem mais do que eu, não o conheces? Não conheces o teu patrão?! É uma tristeza, roubam, só roubam. Dá-me outra Super Bock! Eu pago, eu tenho dinheiro! Sou alcoólico! Não me devo preocupar com o que os outros pensam? Se sou feliz? Sou. Sou alcoólico, pensava como tu, mas com a idade mudas, sabias? Sou louco não sou? Somos todos loucos?! Eu sou louco, sou alcoólico, mas trabalho quando preciso!”

Prosseguia aprofundando o monólogo sarapintado por sorrisos opiniões e perguntas minhas, uma conversa que tenho pena que se tenha perdido na integridade da noite. Clientes vinham clientes iam. Falava com todos, nenhum ouvia e fugia, todos paravam para o ouvir, gargalhava e dizia coisas com o seu tom de voz cada vez mais pesado e arrastado. Não esqueço o que disse a um velhote que apareceu.

“Boa noite, bem disposto? Olhe, você que é velhote, eu também sou, mas você é mais velho! Você acredita em padres, na igreja? Ouça o que lhe digo, não acredite! Os padres vieram ao mundo para enganar os velhinhos, ao menos não andam disfarçados! Não gosto de padres! Gosto de beber! Sou alcoólico, tenho uma hepatite, sou louco!”

O velho não mudou de cor, deu-lhe um forte e sincero aperto de mão, foi-se embora. Continuou a falar, a dizer coisas, coisas soltas, bocados capitais.

“Quero mais cerveja, quero outra! Vou fazer outro! A que horas sais? Queres fumar um? Eu dou-te! Não queres? Eu moro já ali.” Pois é. Há que trabalhar. Eu não trabalho, agora, tens a certeza que não me estão a filmar?”

A noite depressa se fez dia, depois de muita indecisão e despedidas, de mais cervejas e charros lá foi, de rastos, pesado como um pedaço de chumbo no fundo do oceano.

terça-feira, março 11

CRÓNICA DA FACA DOS DOIS GUMES

Esta era tecnológica revela-se surpreendente apelo. Lado de baixo pelo lado sobre.

É tido como certo, por mim, este passo firme em frente para a liberdade que gradualmente e em aprendizagem trás à superfície o contra-senso maior do abuso da liberdade como forma de prisão. Novas portas abriram-se ao rodar-se as suas maçanetas e fizeram-nos ver mais uma ala da continuidade na liberdade instituída.Foi o que percebi da minha liberdade. Abre-se uma nova porta, explora-se o espaço no seu interior e quando tentamos voltar alguém guardou ou perdeu as chaves para sair, um contra-senso, como referido -liberdade delimitada pela observação transformadora. A liberdade, caro leitor, é uma faca de dois gumes cada vez mais bem afiada na pedra pomos temporal: na sua ponta encontra-se o choque entre lâminas que se esbatem num único vértice. É com tristeza, mas com perfeito espírito de integridade e identificação, que vejo a liberdade de hoje que tanto me guia e me leva à compreensão, na parte da lâmina que já penetra na carne ao mínimo toque. A guerra das liberdades, como desde há muito tempo, continua nos seus dois campos da batalha, liberdade contra liberdade, uma luta pelo mesmo direito, o direito à Liberdade Absoluta, a última, aquela palavra metafísica inventada por nós da qual desconheço os contornos e reconheço apenas o veículo da essência. Este símbolo que tanto apregoamos no espírito dos mais diversos postos da barricada, que se concretizará no culminar da vontade colectiva, vai ser elevado ao ponto de divindade e eu desconheço, para já, qual vai ser o seu valor fixo – isto se já não foi, agora mesmo, e por distracção minha, afixado naquela vitrina que desconhecemos mas que tem a informação burocrática necessária para nos inscrevermos na liberdade dos vencedores da guerra detentores da verdade. A liberdade, como foi definida por senhores do meu passado, só existe no espírito. Hoje, mais do que ninguém que não queira, percebo que só na alma se condensam os sentidos da vida, no recuado da Edificação da Liberdade, o local para onde vamos sonhar acordados. E foi aí, nessa transposição do corpo por parte da alma, que encontrei o ponto comum que rege o nosso objectivo cada vez mais exigido como batalhadores do bem comum e colectivo.

(A minha preocupação pelo colectivo mais do que uma posição esquerdista pessoal, mesmo sendo suspeito por ser canhoto, é uma posição me vem do âmago e uma sintomática confissão da constatação.)

A tecnologia, hoje, é um utensílio indispensável, principalmente a Internet (até lhe digo leitor, que o Word reconhece automaticamente a sua palavra com um w maiúsculo e Internet com i de igual tamanho, enfatizando assim, duas pequenas partículas do universo tecnológico desmultiplicado), sem essa ferramenta, de base Suiça a partir do canivete, não conseguiria de maneira alguma explanar a minha dimensão opinativa, e sem computador então, nem se discute. Lembro entretanto que vivemos num país em que computadores nas escolas não faltam, mas aquecedores em certas não é coisa que abunde, coloco a hipótese de que talvez os computadores venham sem ventilação e o seu consequente sobreaquecimento seja uma útil fonte de calor. Certamente pensarão que sou contra os computadores nas escolas, mas não sou, sou apenas contra a colocação de degraus sem outros anteriores a servir de base. Sirvo-me desta figura de estilo prosaica e até um pouco redutora, para que entenda que os tempos em que vivemos são de liberdade, como disse, faca de dois gumes.

Por um lado é óptimo que os jovens alunos percorram a Internet nas suas escolas como ponto de partida para uma opinião vincada sobre o mundo, ou até, para uma adaptação ao seu mundo que se transforma acelerada e desgovernadamente.

Sou um egoísta caro leitor, falo-lhe em tudo isto para me revoltar sob a capa das palavras contra o cerco cada vez mais fechado à Internet. Irrita-me profundamente perceber que o próprio espaço cibernético tende a ficar cada vez mais burocratizado e controlado, tal como todos os meios de comunicação anteriores. Mais um veículo flamejado pelo poder, pelos donos da liberdade, pelos primeiros a chegar ao cume da faca. Daí olhar para trás e sentir ainda a aura da antiga literatura, da antiga música, da antiga arte dos tempos que tinha outra liberdade mesmo enclausurada. Sinto as saudades a baterem-me do alto dos meus tenros vinte e três anos de idade. A pureza perdeu-se, a liberdade que precisamos perdeu mais um dos seus aliados, não sei quando foi isso precisamente, mas sinto-o.

Cresci num bairro, num desses bairros longínquos que parecem já não existir até que percebemos que ainda existem e servem de catapulta para as nossas memórias de infância. No tempo em que não havia Internet nem computadores nem consolas nem falsidades nem aquecedores nos dias de frio, nem frio tampouco. No tempo em que a puerilidade permitiu que hoje veja o mundo com olhos de ver. O mesmo tempo que me dá agora tempo para escrever tudo isto nesta odisseia pelo mundo que é o meu.

Acredito que me leia e fique a achar que sofro de envelhecimento precoce, talvez sofra, este mundo fez de mim um caco de pote do século vinte e um disperso pelo chão. Vivemos numa liberdade individual partidos. Somos cacos que entre os espaços que nos distanciam formam diversas teias que por sua vez formam uma só. A nossa liberdade resume-se a esses espaços cada vez mais entrosados entre si.

Mesmo assim, sinto-me vivo, sinto-me contínuo da luta das palavras. Sinto-me em liberdade quando escrevo, quando choro lágrimas de tinta e desenho sorrisos amarelos e necessários. Tenho liberdade para tudo isso e para tudo mais que me entreguem de bandeja sem folhetim informativo com asteriscos e letras minúsculas.

Sinto-me.

Tenho a liberdade para agir nos escaparates da acção que me tiraram, pois só me resta esta, a estafeta entregue pela anterior geração que não distinguiu liberdades, a geração do vinte cinco de Abril, a revolucionária, a que se cansou e se adaptou ao admirável mundo novo de liberdades que lhes surgiu como uma aparição -uma luz que os cegou e apagou dos seus olhos o brilho da liberdade.

Ainda hoje neste século, surgem políticos a apregoar ao progresso. Essa palavra tão bonita, tão cheia de pompa e circunstância, e digo circunstância porque a circunstância pós ditadura da velha senhora fez de nós seres esfomeados e finalmente sincronizados com o mundo. Essa palavra tão bem empregue pelo nosso monsenhor ministerial que aproveita a sua liberdade expositiva e argumentativa para descaradamente mentir e ser aceite por nós, seres libertos, que tão facilmente acreditamos que somos livres mesmo que não das suas mentiras.

Não vejo, por tudo isto, Portugal como um buraco negro na Europa, nem culpo os lutadores pela liberdade de expressão do meu passado pelo estado deste meu país com um governo digno de nos pôr a chorar lágrimas de cebola. Somos agora seres globais (a Internet é um dos meios que mais bem argumenta em prol desta afirmação), e como tal, o nosso estado, para lá da governação má, é também influenciada pela incestuosa economia mundial, pela imensa rede que se vai ocupando do espaço cada vez maior entre nós.

Não tenho medo do espaço entre as pessoas, a razão é muito simples, cada vez mais me isolo e quero menos dos outros, irrita-me profundamente aperceber-me do reflexo dos meus defeitos em todas as outras faces com que convivo no dia-a-dia.

O que me assusta e aterroriza é este alastrar incessante deste cancro que nos prende em si, este murmúrio que mal se percebe mas que se ouve. Esta invasão do espaço por uma série de necessidades que se ramificam em propósitos que até há bem pouco tempo não eram tão fundamentais mas que agora nos prendem e nos afastam de tudo o resto que é mais capital que todo o capital das multinacionais sem escrúpulos de todo o mundo criadas pelos fungos dessa ciência a que se chama economia.

A liberdade de escolha é portanto, e digo-o com certeza, uma forma de liberdade que é muitas vezes confundida com a possibilidade de ser livre. Usada como arma de arremesso, em jeito de quem atira com um ramo de flores, proporciona a tal sensação de liberdade que é, como disse, de escolha. Podemos entender liberdade de escolha como e muito contemporaneamente ter acesso a um sem número coisas nas mais diversas variantes e necessidades. Excepto derrubar um governo. Isso é demasiado complicado, a nossa liberdade de expressão já não chega para a liberdade de acção que têm e criaram.

Cheio de escrever e desta liberdade pura que afinal não é assim tão pura quanto isso, encerro esta crónica com as pálpebras pesadas e desejoso de voltar à cama mais uma noite para me perder na outra liberdade pura que entretanto me escapou mas que em boa hora e tarde chegou: o mundo dos sonhos em que vivemos de olhos fechados.

segunda-feira, março 3

O TOLDO VERMELHO

Uma bela noite de verão. A lua mingua, as luzes captam os pedaços iluminados de palavras que murmuram na consistência de pessoas. A temperatura é agradável, o álcool acompanha o silêncio da noite que se faz em copos de vidro abençoados. As cabeças são muitas, movimentos perpétuos na sonoridade aconchegante que tudo mistura: volumes gargalhadas sorrisos e cheiros. Ali estou, descontraído em ritmo sereno que ouve, vê, fala e passa ao lado. O movimento é o centro de gravidade pendular que me faz caminhar na noite. A pele está quente enquanto se gesticula palavras em gestos extraordinários. A melodia vai em frente, sou animal natural da realidade em que vivo. São horas aveludadas enquanto se pede mais um fino. Uma felicidade de bêbado vem-me bem estampada na cara que sorri. Vivemos todos numa sincronia momentânea. É uma noite de verão quente, as palavras sob o toldo vermelho fazem ouvir passadas mais amplas. Somos todos filhos do nosso tempo, sem deus, sem pátria inquestionável, e com toda uma vontade adormecida de ser feliz. Vivemos todos da diferença que é unanimidade. Somos felizes em nós, nas alturas em que ecos de conversas se explanam pelas estrelas que encimam a noite que se vai fazendo iluminada de vida. O ambiente está calmo, os bilhares repousam sob o olhar que é o meu. Tudo se compreende, nada desalinha.

quinta-feira, fevereiro 21

ART BLAKEY & JAZZ MESSENGERS- ARE YOU REAL?



Por vezes, esta pergunta banal impõe-se,
palavras para quê?

segunda-feira, fevereiro 18

A ESSÊNCIA DO HOMEM

Perguntar pelo Infinito
É resposta nas Palavras
É a criação de um mito
O ordenar da desordem

É ir e vir

O Homem é um pêndulo de arroz
Na panela que é Cosmos

Vai e vem!

Responder pelo Infinito
É perguntar nas Palavras
É ordenar de um mito
A criação da desordem

Tic-tac!

O Homem é um ponteiro
No relógio que define o Tempo

Tac-tic…

É a carne apodrecida
No corpo em corrente



O Homem é uma esponja
Na matéria da sua vontade

Zás e traz…

É o veículo Inocente
Na carne que o faz

Traz e zás!

O Homem é uma cobra
Na pele da hereditariedade

Zig zag!

É esquivo da Memória
No sonho da Perfeição efémera

Zag zig…

É o Homem uma árvore
Nas raízes da saudade
Contrariado pela mão

Acção!


Ping-pong!

É a bola lá e cá
Na mesa da Contradição

Pong-Ping…

É o Homem o ridículo
No circo da sua abstracção

Ri e chora…

É o Homem uma Lágrima
Na face da desilusão

Chora e ri!

É um rasgo de Alegria
No pano da Admiração.

Vai e vem
Vem vai…

E Traz e zás!
Zás traz!

E Tic e tac!
Tac tic!

E zig e zag!
Zag zig!

E ping e pong!
Pong-ping!

E ri e chora…
E chora E RI!

É o Homem um Homem



É balança em Equilíbrio
Nos pesos
Consolação!

quarta-feira, fevereiro 13

"THE BIG SLEEP"

Anda por aí muita gente a rir-se dos ingleses que, segundo um estudo agora divulgado, acreditam que Sherlock Holmes, Robin dos Bosques e Os Três Mosqueteiros são seres reais e Churchill uma personagem de ficção. Ora basta ler jornais e ver TV para verificarmos que os portugueses não são menos crédulos que os ingleses. Uma assustadora percentagem de portugueses acredita, por exemplo, que Mário Lino existe e é ministro das Obras Públicas e, tendo adormecido durante a projecção do filme que passa no país há dois anos, julga que Maria de Lurdes Rodrigues, Teixeira dos Santos ou Manuel Pinho são de carne e osso e não alucinações que, como o Freddy Kruger de "Pesadelo em Elm Street", personificam os seus piores medos. Coleridge observa que, de dia, as imagens geram sentimentos ao passo que, durante o sono, são os sentimentos que geram imagens. Assim, é natural que os medos dos professores (caos e desalento nas escolas, derrocada do sistema de ensino) suscitem neles a imagem "uncanny" de Maria de Lurdes Rodrigues e que essa imagem lhes pareça real. E do mesmo modo, nos outros casos, trabalhadores, empresários e cidadãos em geral. A solução é acordar e esfregar os olhos. O problema é que o filme tem uma banda sonora suave e embaladora, propícia à sonolência.

Manuel António Pina

Jornal de Notícias do dia 12 de Fevereiro de 2008

AOS CAVALOS DA DEMOCRACIA

A democracia é a mãe destas nossas sociedades caprichosas. É a trama que vive da liberdade que não temos, tendo-a em absoluto. A democracia é liberdade, a liberdade é rédea solta, a rédea é o que se dá a um cavalo quando a sua selvajaria é total e a sua condição assim exige. Imagino assim certos democratas em campo aberto, a correram furiosamente e a seu bel-prazer sobre chão que sempre foi seu, desde os primórdios da existência democrática. Não especifico democratas como partidários políticos, mas sim como praticantes da democracia. Assim como não diferencio as diversas raças de cavalo existentes. Aqui generalizo apenas.
Sendo eu filho da democracia e consequentemente da liberdade, imagino-me um dia destes a montar um democrata que não é mais que um cavalo – desgraçados dos cavalos, equipará-los a um democrata deve ser aborrecido, mas como nunca conheci um cavalo que tivesse aprendido a leitura, sinto-me livre de abusar de tal ignorância - , a puxar rédea e a gritar alto e a bom som “anda lá democrata, eu quero posso e mando, por ali que se faz tarde!” e o pobre desgraçado que é, a prosseguir comigo em peso sobre o seu costado cansado de tanta correria! Aí sim! Diria que a democracia é liberdade, e que o peso e medida não seriam abuso da liberdade que posso ter na sociedade democrática em que vivo. Adiante. O abuso é feio, e os cavalos andam a abusar! Como tal, seria homem para fazê-los correr até ao fim do mundo, o local vertiginoso em que detritos da terra caiem como água numa catarata de poeiras temporais. Levá-los-ia lá, ou melhor eles levar-me-iam, só para constatarem que idílica imagem era digna de ser vista pelos seus próprios olhos de cavalo com palas. Depois fazia-o voltar atrás, e certamente que ele correria para lá da sua ignorância e eu que remédio que teria que vir atrás. De regresso ao ponto de partida a sua orientada fugida determinaria a sua morte. “Ritmo assustado foi a causa da morte.” Diria concisamente o veterinário depois da autópsia. Nada triste regressaria ao estábulo, por lá escolheria outro democrata, e de lá correria outra vez até ao fim do mundo. Pensava para mim antes de puxar a rédea “mais um que vai morrer, mas que gosto isto me dá!”. Aquela viagem dar-me-ia tanto gosto e espaço para a contemplação, que um dia, depois de dias e dias de óbitos e viagens de ida e volta até ao fim do mundo, acabaria por encontrar o estábulo vazio de democratas. Tal vazio espacial assolar-me-ia de dúvidas, não teriam sido essas viagens abuso da liberdade que me deram? Ou foram somente actos ajustados à democracia que me deram? O dar seria o verbo da minha consumação. O que me tinham dado durante anos era um conceito de democracia deturpada pelo tempo que se desfazia para lá das minhas mãos, e as minhas, tinham sido a razão de todas as mortes.

ENTRE PÁGINAS

Abro o livro que te ampara
Não és personagem
És entre páginas a recordação que me deste
Naquele dia longínquo de Inverno

Nunca te ouvi,
Guardo de ti aquela folha
Aquela tua caligrafia sobre papel pardo
Daquele dia,
O dia em que passaste e não te vi
Do outro lado da rua do meu contentamento
Que não foi maior porque não quiseste

Maravilho-me com o teu cheiro no passar do tempo
O aroma deturpado pelo calor das páginas

Imagino-te, naquela manhã
Sorridente e perfumada como hoje que te toco
Folha de papel que tantas vezes evoco
Na ânsia do sonho que desejo diariamente.

domingo, fevereiro 10

O PÉ

Bato o pé
Cresce poema
Memória do tempo
Que se faz crescente,
Dou um passo
Cresce o poema
Ritmo compassado
Passeio lento:
Troco o passo
Cresce um poema
Viagem pelo pé
Velocidade gema.

sábado, janeiro 26

HOMEM LOUCO NO JARDIM

Lambia com os olhos as pessoas que passavam. Nas suas mãos um jornal dizia que o mundo estava caótico. Não o olhava. Apenas era seguro pelos seus dedos tremendos. Fazia sol nesse dia, pequenas nuvens tingiam o céu de lixívia. Entretanto passou um homem, magro como uma cabeça de gado sugada até ao tutano por um bicho misterioso. De passo rápido ia tirando a faneca do cu como gente grande. Mais abaixo, acompanhada pelo seu cão grisalho, uma senhora descolorada ia dizendo para si que as folhas eram a fonte de toda a miséria do mundo. Tudo se conjugava, sobre o seu jornal, como numa tela carregada de símbolos propulsores duma realidade. Acendeu então o cigarro e olhou mais amplamente em seu redor. Ao fundo um touro. Tinha um ar enraivecido, o toureiro nem vê-lo, aquela imagem para ele era ainda mais estranha, mas nada de impossível. O animal caminhava determinado mas compassado, algo trazia em si, origem de toda a raiva, tinha um olhar desconfiado capaz de fulminar o mais desatento dos homens. No seu banco tudo isto lhe dava uma sensação de imobilidade vindoura e até interessante. O homem da faneca, o jornal nas suas mãos, a velha descolorada, o touro enraivecido pela vivência. Ouviu-se uma voz. Era o homem dos gelados. Perguntou-lhe qual queria. Nenhum foi-lhe respondido. Um seguro foi então sugerido. Um porque não foi respondido. Já há bastante tempo que sabia que precisava de tal segurança. Perguntou quando era e se, como se sabe, numa altura de aflição o seguro ia deixá-lo na prancha para os tubarões. Claro que sim empurraram. Sendo assim, quero dois. De vida e de, ressoou a interrogação. Nada disso, quero um de baunilha e outro de morango. O homem dos gelados ficou atónito, na sua cabeça a tômbola girava desordenadamente. Mesmo assim, tirou os dois gelados. Quando se esticou um braço com uma mão na ponta e duas moedas na palma, a rejeição monetária surpreendeu. Não era de maneira nenhuma normal a recusa. Sorriram os dois. Um para cada lado. O jornal começava a pesar, as folhas eram espessas como um manto de flanela. O homem dos gelados e dos seguros prosseguia com o seu carrinho e tentava impingir ao touro, ao fundo, qualquer coisa de inaudível. Sentado, e com os gelados a derreter no prolongamento do banco gargalhou. O touro tinha espetado uma cornada tal no carrinho e no homem que os dois voavam bem juntinhos e emaranhados pelo ar. Foi impressionante para si, o barulho seco que se fez ouvir aquando do contacto simultâneo com o chão. Já satisfeito com o nível visionário proporcionado decidiu abrir o jornal. Letras e mais letras e imagens acompanhantes figuravam por lá acertadamente. De repente um cabeçalho bombástico, ou melhor, mais bombástico e miserável do que todos os outros lidos de relanço. HOMEM LOUCO NO JARDIM. A leitura começou a correr ao ritmo das diminuídas letras. “Todos os dias é visto um homem, porque nunca de lá sai, sentado num banco do jardim Y, não se percebe o que lá faz, nem nunca, tão pouco, lhe foi perguntado o que faz por lá há tanto tempo. É um homem dum aspecto frio intrigante, parece sempre rir de todos aqueles que por lá passam. Não se sabe minimamente o que lhe ocorre na cabeça, daí ser o seu sorriso a razão desta reportagem flexiva.” Ao lado vinha uma foto do homem, e o homem do jornal não ficou nada surpreendido ao ver que o homem era afinal ele. O homem de riso frio e estranho, ao ler sobre si, entrou numa viagem pela sua galáxia introspectiva. Pensava para si. É bom saber que a minha loucura vem no jornal, pode ser que assim se perceba, que o mundo não é mais que multiplicadas insanidades dignas de serem observadas por todos, e consequentemente, insanidades que a todos pertencem, mesmo quando no jornal não figuram como eu. E assim voltou a gargalhar, gargalhou a tal volume, que rapidamente toda a gente parou para perceber donde vinha tal gargalhada demente.

O ARTISTA A LÁPIS DE COR

Se eu tivesse outra vida
E outra escolha me dessem
Eu seria um desenhador perfeccionista

Primeiramente, analista

Desenharia o mundo
Numa folha de papel maior
Numa escala real a lápis de cor

Desenharia tudo aquilo que gira com o mundo
O globo o Homem os seus gestos

O universo para lá
As emoções os choros e os sorrisos

Desenharia os animais as fábricas as casas
As florestas os rios os mares a chuva e o sol
Realizava uma nova lua feita a partir da mesma
Flores cheiros até ao limite pintado do nunca visto

Depois de tudo colorido
Sobre a superfície maior que tudo
Apagaria tudo o que não me agradasse
Tornar-me-ia um artista do egoísmo

Apagaria certos gestos do Homem
Certos seres e os seus sorrisos
E outros choros para além dos que ficariam

Desenharia mais animais outras fábricas e casas
Florestas mais densas e rios mais dourados
E também outras chuvas com o mesmo sol escondido

Delinearia uma lua cheia permanente
Passava a borracha sobre certos cheiros e algumas flores
Desenhar-me-ia um novo esplendor

Depois de tudo
Transformar-se-ia o Homem
Nesta minha mudança riscada
Um Homem novo filho do paraíso

Mas se no entanto
Este paraíso não fosse para o outro novo Homem
Nenhum pânico me abalaria
A perfeição é um pedestal em construção

De novo esticaria a minha tela de papel
Não mais outra seria tingida
De borracha essências apagaria
De lápis na mão de novo recriaria.

O CIRCO VEIO À CIDADE

É o meu circo em viagem
Enriquecido em imagem
Solstício do sabor!

A minha tenda em vantagem
Sobre a trupe pajem
Que me arrasta extintor!

A aurora da verdade
Metamorfose do visto
Que se desfaz em riso

- Minha alma em risco!

O espectáculo na estrada
Sociedade errada
Pela sensibilidade encontrada
No artista fanfarrão!

O meu tolde de formol
Que cobre em sombra do sol
Os palhaços do caixão!

Uma performance de actores
Narizes vermelhos em clamores
Pela veracidade em humores
Na jaula do leão!

Mais uma cidade que me recebe
No auge seu ridículo
Sob o tolde da emoção!

Lá vai meu circo embora
Abandonando gargalhada outrora
Sintomática satisfação!

E para trás os palhaços
Que nas cidades ficam
Os seres que para sempre magicam
A continuidade da Razão!

Só porque o mundo é uma cidade
Uma crescente saudade
Do que nunca teve na mão!

SINCRONISMO, PARALELISMO - A VARA DO RÍDICULO

Os suínos da permanência evolutiva
Capricham a sua pocilga esterilizada crescente
Guincham ladainhas de bolota
E gesticulam pergaminhos de gula

- Quais animais capazes
Das maiores atrocidades adocicadas no seu espaço lamacento!

Os suínos da reminiscência ardida
Comicham o seu couro limitado demente
Pincham nos seus frascos compota
E articulam rosmaninhos de lula

- Mais arbitrais perspicazes
Para agigantar caminhos alterados pelo seu toque peganhento!

Os suínos da displicência intuitiva
Cochicham palavras no seu perímetro quente
Lincham carnes na derrota
E simulam vitórias na bula

- Divinais quintais lilases
Diluídos na força extrema construída do seu vento!

Os suínos da complacência diluída
Mancham o futuro passado presente
Esguicham sangue em anedota
E estimulam a individualidade mula

- Jograis demais ases
Destruidores alarves, criadores da jaula que é o tempo!

Os suínos da ciência instruída
Chucham a capacidade da mente
Acham os genes sota
E copulam a criatividade nula.

domingo, janeiro 6

NO CAMIÃO TURBULENTO QUE É O RELÓGIO

A óssea vontade do meu espírito
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;

És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio

Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.

A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.

O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.

Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.

A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.

Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.

CASALMA

Frio de lenha húmida
Nesta manhã dos pássaros

Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.

A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.

Mostra-se baú do mistério

Despoletar da curiosidade…

Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.

O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,

Curioso poeta da matéria

Alma que se escreve

Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado

Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.

EXTERIOR, INTERIOR , A LÂMPADA QUE SE FUNDE

O horizonte prolongado
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.

quinta-feira, dezembro 20

A cidade aquece sob as lâmpadas que iluminam a vicissitudes da calçada. Lá no alto da pedra talhada o relógio arrefece a noite. Os carros passam perdidos no seu ruído monótono e tolhido. Olhos meus observam a queda do tempo vivo. Homens arrastam-se como a aragem que se faz sentir, plácidos e encaminhados pelas mãos do acaso pesado na balança do mercado das frutas coloridas. Os cães de caça abrangem-se pela calada da lua, a sua pelugem azul confunde-os ao passarem em frente a uma montra que reflecte a justiça centrifugada. Um gato aparece, símbolo da pureza existente, branco como a espuma dos mares e esguio como os ramos das árvores secas que oscilam nas intempéries assobiadas. O relógio, dá as cinco badaladas do que sinto.

terça-feira, novembro 20

O POETA EM MIM

Perdido nas nuvens da sua imaginação
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental

Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege

Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo

Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico

Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si

A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado

No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos

Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser

A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo

Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal

Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano

É o que corre dum lado para o outro

Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.

A VIDA

Ser é o acto custoso
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim

Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo

Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência

Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade

Ser é unir

Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados

No ser está vida

Não ser é viver.

A ANOREXIA DE MARIA

Está uma noite fria entre os blocos sarapintados a luz,
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai

E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti

O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo

domingo, novembro 11

HINO ÀS CRIANÇAS

Comecei bem cedo nessas lides de ser homem
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam

Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência

Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência

«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»

Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível

Apercebi-me do desespero...

No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são

«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»

Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.

Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri

Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri

Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.

A RESPEITO DO TRABALHO QUE JÁ NÃO TENHO - SORRIR OU CHORAR?

Cai num vazio que me irrita profundamente. A sua causa é a razão do desconforto que sinto. Mais uma vez encontro-me desempregado. Gostaria de poder não usar tal expressão, preferia de todo poder dizer desocupado, mas uma série de obrigações pessoais intrínsecas a quem tem coisas para pagar, obriga-me a suportar o peso de ser mais um desempregado. O emprego que tinha era no ramo da elevação hidráulica, área esta em que direcções descendentes e ascendentes faziam parte da execução em quase todo o processo até ao final, como em tudo na vida. Só que descender foi a minha última direcção, um rol de circunstâncias levaram a isto. Depois de muitas tentativas de elevação da dignidade fui empurrado pelas costas e cai de novo no chão que noutros tempos me trouxe mazelas. Sou hoje -como gosto eu da palavra hoje - , um homem supostamente livre e digno da sua existência, embora desolado por não poder contribuir para algo que pretendo abnegar absolutamente, sinto-me arrastado e perdido no rio turbulento que é estar morto, elemento entristecido da chamada população activa. Hoje – mais uma vez, a palavra que mais me fascina – esta sociedade que vive das várias áreas produtivas, é um espaço caótico e insuficiente para suportar pessoas como eu, que como todas, têm que ganhar o seu quinhão, o que é de todo assustador, já que a qualificação é cada vez maior e o interesse das estruturas empregadoras e governativas gigantesco -os interesses são muito básicos, aperfeiçoar cada vez mais as máquinas e esquecer que afinal já foram pessoas. É uma verdade dolorosa, isto dependendo do olhar de cada um de nós. Talvez se o meu emprego fosse empregar, mesmo que discordasse de tal robotização, ver-me-ia obrigado a concordar, não tivesse eu em casa contas para pagar! Qualquer coisa como, não concordo tendo em conta o que penso, mas concordo plenamente tendo em conta o que faço e me fazem precisar! E assim o jogo prossegue, a necessidade imposta é a necessidade fundamental substituta.

terça-feira, novembro 6

A GARAGEM EM CONSTRUÇÃO

Quando a poeira vibra melodicamente
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve

Uma acalmia leve perdura no espaço

Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si

Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura

O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação

E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa

Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar

Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade

Que também é fonte de beleza sofrida

Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver

Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta

Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro

E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória

É simples
É a simplicidade que nos rege

É poético
É a poética que queremos

É dúbio
Como tudo o é

É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo

É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos

É ânimo que não se perde nos actos

Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;

E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido

Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.

segunda-feira, outubro 29

SURREALISMO SMS

"Tenho aqui uma
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"

"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"

quarta-feira, outubro 24

A MEMÓRIA DO MUNDO

As lembranças acumulam-se como pó em armários que são elementos duma vida. São ecos dum tempo que foi e é agora outro, mesmo na essência que as fazem recordar em nós, partículas que somos. Pode-se dizer que a memória é um boomerang mutável e necessário. Igualmente necessário é perceber que o tempo é o sempre, mesmo quando o sempre acaba e se torna numa memória que assim durará. O espaço pode transformar-se em vazio e o vazio pode abolir a matéria que deu forma à vivência, mas nem aí a lembrança se foi, somente porque o vazio é desenrolar do espaço que se fez. E aí, perdurará a memória, o rasto do tempo até ao limite que o é, deixando de o ser… tudo porque o tempo não é aquilo que criamos como tempo, mas apenas a explanação do início até ao sempre. E a lembrança da memória é isso mesmo, aquilo que fica para lá do que lembramos, a continuidade de tudo o que fomos como seres de memórias. Hoje, enquanto escrevo, lembro o que para trás disse, o que para trás ficou. Relembro o que deu origem à escrita que me faz escrever. Agi no cosmos como elemento comparticipante da intemporalidade, dei forma ao presente passado que mesmo que extinto fez faz e sempre fará parte daquilo que está para vir. O mundo pode ruir, vai ruindo num murmurar crescente que acabará em local indescritível mas continuidade daquilo que foi, mas mesmo assim, na outra forma que não sabemos existência, traços de memória demonstrarão o passado que sempre continuará e foi. Certamente não estaremos cá nesse tempo que não o nosso, mas as memórias permanecerão como são, restos capitais da importância que têm. E assim a lembrança é apenas a conclusiva peça dum puzzle gigantesco, a forma multiplicada dos presentes que nos foram oferecidos pelo passado que nos trouxe e que para sempre nos levará em si.(...)