The sweet pretty things are in bed now of course
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous
The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"
Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"
The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle
Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues
The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter
Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college
Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge
Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues
Bob Dylan
sexta-feira, maio 2
quarta-feira, abril 30
O SONHO EM MARCHA
O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do Universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas - todos somos afinal só fantasmas, e o que construimos já não cabe entre as quatro paredes da matéria...
Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.
Raul Brandão
Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.
Raul Brandão
sexta-feira, abril 25
HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)
"Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e anti-sociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua corte de escribas e advogados".
The House of Morgan Ron Chernow
The House of Morgan Ron Chernow
segunda-feira, abril 14
BASTIDORES DA SELVA ABRANGENTE
Os subúrbios são o espaço da mistura de espécies individuais, a possibilidade num jogo aleatório dos espíritos, uma intimidade essência do percurso construtor do destino. Por vezes um encontro é a base para o uno, a área do tu eu, confronto saudável e progresso na identificação que nos rege a euforia alegre, o caminho que os hábitos determinam, o previsto analisado e absorvido em consonância com o tempo que nos molda, como felizes contemplados num concurso de milhões de notas em música aquecida por um espírito latino rebelde que vai amolecendo confortavelmente -a inércia a subir pela via da esquerda, a rápida que nos imobiliza galopante pela estrada, ao traçado pessoal que transfigura porque o tempo é o presente, os restos do passado amadurecidos em casca de carvalho, o processo do tempo em desmultiplicação acontecida por fragmentos doces e oriundos das profundezas do princípio que é a razão desconhecida, a razão que não se fez por nós, a que se foi fazendo sem se ver quando distraídos pela vivência, a vivência que é vida, o limbo da vitória, a união segmentada pela disponibilidade dos encontros, -a probabilidade lançada à velocidade de tudo o que vai acontecendo aceitavelmente: mar flutuante e cheio, com rochas que atingem os montes que não tocam na superfície da água, os montes das nuvens fofas e apaziguantes, as almofadas que dissimulam a realidade acutilante. As pessoas circulam pela matéria que ordena o traçado cósmico como elemento necessário e natural, passeiam pelo habitat que nos molda como barro que difere na plasticidade de cada preparação, do avançar particular e conciso, à qualidade da origem que se procura, no presente da magia. Os truques e ilusões sucedem como peixes munidos de ferros, ampolas ingeridas a golfadas enérgicas capazes de levarem à perfeição do homem equilibrista sobre o fio pesado pelo corpo que se mantém apaziguado sobre uma plateia de palmas em pé sobre outros fios de equilíbrio. Os meandros da cidade são assim, cristalização das areias douradas em noites de Inverno Palaciano. É bela a mistela, babel no seu auge sentimental, não há terra certa mas apenas uma forte vontade de viver sobrevivente da selva, a selva mágica com lianas que são fios emaranhados pela mente, pelo espaço místico, mistério, a alquimia da química do cérebro ao serviço do avanço das formas manuseadas pelas tenazes do caranguejo transversal desajeitado que age por instinto nos Bastidores da Selva.
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.
segunda-feira, abril 7
DIAGNÓSTICO PEDIÁTRICO
Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo
Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade
Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou
Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade
As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática
Os braços extensíveis
Da exponencial carência
Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo
Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade
Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou
Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade
As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática
Os braços extensíveis
Da exponencial carência
Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo
quarta-feira, abril 2
INDIE-COCK-PLOC-CHOC-RETRO
Que belo que é! Jovens preconceituosos tão abertos à cultura de plástico que lhes é entregue, a rotular supostas perversões! Perversos meninos da minha idade, cheios de dores, prestes a descarregar nas dores dos outros. Idílico até! Meninos na moda a escreverem histórias infantis em jeito de quem faz beicinho só porque prontos! Dispensava bem certas opiniões e a de certos meninos bania-as da face da terra! Mas como o ridículo é das essências que mais me fascina, até acho aceitável, hilariante! Tenho pena de dar importância a esse tipo de meninos, mas sinto a necessidade de pagar com a mesma moeda, uma moeda mais pequena sem dúvida e sem tanto engenho. Por isso, meu menino, sim, tu mesmo. Não me dês esse tipo de importância, não mereço nem quero merecer, muito menos dum estereotipado menino como tu, que tão bem personifica essa moda pseudo-contra-cultural que cresce tão harmoniosa e extraordinária.
quinta-feira, março 27
DA MAGIA DOS TEUS DEDOS
Sempre que estou na sua presença
Apenas eu e o seu corpo magnético
As minhas mãos
Ganham uma força férrea delicada
Que lhe percorre o corpo
A sua rata é quente
Uma rata que a contraria
Que transforma o seu não
Num sim ofegante do desespero consentido
Voz imersa na panóplia dos sentidos
As suas ancas são sedosas
Como lombinhos em vinha de alho
Impelem-me a beijá-las
A ferrá-las ao de leve e agarrá-las firmemente
Os seus seios
Voltas perfeitas suculentas
O seu cabelo
Lianas encaracoladas e selvagens
Emaranhado labiríntico que faz de mim
Fantoche da sua sensualidade capilar
O seu corpo
Contrai-se
Estremece
Arrepia
Diz que não diz que sim
Torna-se veículo
Do instinto mais primitivo
A sua voz
Sussurra injustiça
Relembra-me que tenho que ir
Que vai ter que se masturbar
Que não quer masturbar-se porque vicia
Que a solidão na cama
Relembra meus dedos
Que variam na amplitude
Desejo lânguido
Dos seus lábios rosados
Apenas eu e o seu corpo magnético
As minhas mãos
Ganham uma força férrea delicada
Que lhe percorre o corpo
A sua rata é quente
Uma rata que a contraria
Que transforma o seu não
Num sim ofegante do desespero consentido
Voz imersa na panóplia dos sentidos
As suas ancas são sedosas
Como lombinhos em vinha de alho
Impelem-me a beijá-las
A ferrá-las ao de leve e agarrá-las firmemente
Os seus seios
Voltas perfeitas suculentas
O seu cabelo
Lianas encaracoladas e selvagens
Emaranhado labiríntico que faz de mim
Fantoche da sua sensualidade capilar
O seu corpo
Contrai-se
Estremece
Arrepia
Diz que não diz que sim
Torna-se veículo
Do instinto mais primitivo
A sua voz
Sussurra injustiça
Relembra-me que tenho que ir
Que vai ter que se masturbar
Que não quer masturbar-se porque vicia
Que a solidão na cama
Relembra meus dedos
Que variam na amplitude
Desejo lânguido
Dos seus lábios rosados
INTERRUPÇÃO TRIANGULAR
Algures, num café de Gaia, a meio duma conversa:
-Ó Vitor, desculpa interromper, arranjas-me um cigarro?
-Na boa, pega.
-Obrigado Miguel!
-Carlos?! Chamaste-me Carlos?!
-Ó Vitor, desculpa interromper, arranjas-me um cigarro?
-Na boa, pega.
-Obrigado Miguel!
-Carlos?! Chamaste-me Carlos?!
segunda-feira, março 17
"TRABALHO NOCTURNO"
Chama-se simplesmente Zé. Chegou vindo do breu da noite. Apareceu do outro lado da vitrina como se do nada. Pediu uma Super Bock. Demorou a pagá-la, questionei-me e apressado pedi-lhe o dinheiro, já depois de ter bebido uns dois golos da lata. Lá fora, uma noite aparentemente fria, uma noite de Inverno que finda. Perguntou-me se tinha cara de ladrão, olhou-me desconfiado como troco da minha pressa igualmente desconfiada. Perguntou-me também se queria beber alguma coisa, estava disposto a pagar, a dele e o que eu quisesse e pudesse beber. Começou a desenrolar a sua alma.
“Tenho dinheiro, vim agora da Nigéria. Agora não faço nada, apenas bebo, fumas charro? Não? Eu fumo. E bebo! Gosto de beber. As pessoas aqui todas me conhecem. Sou alcoólico para todas. Mas sou homem. Este país é uma merda. Estou a ser filmado, não? Não percebo, aquela câmara da última vez que cá vim estava a apontar para mim, onde está a câmara que me filma? Eu pago, mas onde está a câmara que me grava. Não há? Olha, para veres como sou alcoólico, vês? Está vazia! Ando sempre com ela. Whisky?! Não! Brandy! Gosto de beber, sou trabalhador, vim ao mundo para trabalhar, não tenho medo do trabalho, mas todos estamos cá para trabalhar, não me assusta, quando tenho que, trabalho! Sempre queres beber alguma coisa? Eu pago! Bebe lá! Um sumo, água?! O que quiseres! Não queres?! Não há problema. Pareces ser um gajo fixe! Já agora, vivemos numa sociedade democrática, é democracia? Acreditas na democracia? Em quê que acreditas? Em nada? Não acreditas em nada? Eu acredito. Não sou burro, que idade tens? Já corri mais países do que a tua idade. Podia ser teu avô, ouve-me, o que é preciso é isto, sermos sinceros, livres, o que importa é ser livre, somos livres? Eu sou, quando tenho que trabalhar trabalho, mas gosto de beber, sou alcoólico! Posso fazer um charro? Aqui? A câmara está a filmar? Posso? Olha, para fazer o charro. Estás-te a rir. Vou fazer então. Dá-me outra Super.”
Prosseguiu assim pela calada da noite, falador, falando de tudo ao jeito do álcool.
“Um dia vou-me, mas será que vou mesmo? Será que fico mesmo depois de morto? Fico!? Pareces inteligente, mas digo-te, não leves a mal, a cara é o espelho da alma, tu és um gajo porreiro, eu sou alcoólico, mas tu és um bocado aluado, não leves a mal, notei. Não levas a mal? Estou surpreendido, já tenho uns anos de vida e fico surpreendido que me digas que depois de comido pelos bichos permaneço nas pessoas, nem que seja nas que dizem que sou alcoólico. Sou daqui. Não sou mais do que os outros. Dali de trás. Vim da beira da ponte. Da escarpa!? Nada. Mas pensas que não sei o que é branca?! Camarada gosto de drogas, LSD, coca heroa?! Já estive preso, agora trabalho, para os meus filhos. Trabalhei, agora tenho guita, agora bebo, fumo umas ganzas, sou livre! Estou a ser filmado? IDE FILMAR O CARALHO! SOU LIVRE! O teu patrão não tem mais do que eu, não o conheces? Não conheces o teu patrão?! É uma tristeza, roubam, só roubam. Dá-me outra Super Bock! Eu pago, eu tenho dinheiro! Sou alcoólico! Não me devo preocupar com o que os outros pensam? Se sou feliz? Sou. Sou alcoólico, pensava como tu, mas com a idade mudas, sabias? Sou louco não sou? Somos todos loucos?! Eu sou louco, sou alcoólico, mas trabalho quando preciso!”
Prosseguia aprofundando o monólogo sarapintado por sorrisos opiniões e perguntas minhas, uma conversa que tenho pena que se tenha perdido na integridade da noite. Clientes vinham clientes iam. Falava com todos, nenhum ouvia e fugia, todos paravam para o ouvir, gargalhava e dizia coisas com o seu tom de voz cada vez mais pesado e arrastado. Não esqueço o que disse a um velhote que apareceu.
“Boa noite, bem disposto? Olhe, você que é velhote, eu também sou, mas você é mais velho! Você acredita em padres, na igreja? Ouça o que lhe digo, não acredite! Os padres vieram ao mundo para enganar os velhinhos, ao menos não andam disfarçados! Não gosto de padres! Gosto de beber! Sou alcoólico, tenho uma hepatite, sou louco!”
O velho não mudou de cor, deu-lhe um forte e sincero aperto de mão, foi-se embora. Continuou a falar, a dizer coisas, coisas soltas, bocados capitais.
“Quero mais cerveja, quero outra! Vou fazer outro! A que horas sais? Queres fumar um? Eu dou-te! Não queres? Eu moro já ali.” Pois é. Há que trabalhar. Eu não trabalho, agora, tens a certeza que não me estão a filmar?”
A noite depressa se fez dia, depois de muita indecisão e despedidas, de mais cervejas e charros lá foi, de rastos, pesado como um pedaço de chumbo no fundo do oceano.
“Tenho dinheiro, vim agora da Nigéria. Agora não faço nada, apenas bebo, fumas charro? Não? Eu fumo. E bebo! Gosto de beber. As pessoas aqui todas me conhecem. Sou alcoólico para todas. Mas sou homem. Este país é uma merda. Estou a ser filmado, não? Não percebo, aquela câmara da última vez que cá vim estava a apontar para mim, onde está a câmara que me filma? Eu pago, mas onde está a câmara que me grava. Não há? Olha, para veres como sou alcoólico, vês? Está vazia! Ando sempre com ela. Whisky?! Não! Brandy! Gosto de beber, sou trabalhador, vim ao mundo para trabalhar, não tenho medo do trabalho, mas todos estamos cá para trabalhar, não me assusta, quando tenho que, trabalho! Sempre queres beber alguma coisa? Eu pago! Bebe lá! Um sumo, água?! O que quiseres! Não queres?! Não há problema. Pareces ser um gajo fixe! Já agora, vivemos numa sociedade democrática, é democracia? Acreditas na democracia? Em quê que acreditas? Em nada? Não acreditas em nada? Eu acredito. Não sou burro, que idade tens? Já corri mais países do que a tua idade. Podia ser teu avô, ouve-me, o que é preciso é isto, sermos sinceros, livres, o que importa é ser livre, somos livres? Eu sou, quando tenho que trabalhar trabalho, mas gosto de beber, sou alcoólico! Posso fazer um charro? Aqui? A câmara está a filmar? Posso? Olha, para fazer o charro. Estás-te a rir. Vou fazer então. Dá-me outra Super.”
Prosseguiu assim pela calada da noite, falador, falando de tudo ao jeito do álcool.
“Um dia vou-me, mas será que vou mesmo? Será que fico mesmo depois de morto? Fico!? Pareces inteligente, mas digo-te, não leves a mal, a cara é o espelho da alma, tu és um gajo porreiro, eu sou alcoólico, mas tu és um bocado aluado, não leves a mal, notei. Não levas a mal? Estou surpreendido, já tenho uns anos de vida e fico surpreendido que me digas que depois de comido pelos bichos permaneço nas pessoas, nem que seja nas que dizem que sou alcoólico. Sou daqui. Não sou mais do que os outros. Dali de trás. Vim da beira da ponte. Da escarpa!? Nada. Mas pensas que não sei o que é branca?! Camarada gosto de drogas, LSD, coca heroa?! Já estive preso, agora trabalho, para os meus filhos. Trabalhei, agora tenho guita, agora bebo, fumo umas ganzas, sou livre! Estou a ser filmado? IDE FILMAR O CARALHO! SOU LIVRE! O teu patrão não tem mais do que eu, não o conheces? Não conheces o teu patrão?! É uma tristeza, roubam, só roubam. Dá-me outra Super Bock! Eu pago, eu tenho dinheiro! Sou alcoólico! Não me devo preocupar com o que os outros pensam? Se sou feliz? Sou. Sou alcoólico, pensava como tu, mas com a idade mudas, sabias? Sou louco não sou? Somos todos loucos?! Eu sou louco, sou alcoólico, mas trabalho quando preciso!”
Prosseguia aprofundando o monólogo sarapintado por sorrisos opiniões e perguntas minhas, uma conversa que tenho pena que se tenha perdido na integridade da noite. Clientes vinham clientes iam. Falava com todos, nenhum ouvia e fugia, todos paravam para o ouvir, gargalhava e dizia coisas com o seu tom de voz cada vez mais pesado e arrastado. Não esqueço o que disse a um velhote que apareceu.
“Boa noite, bem disposto? Olhe, você que é velhote, eu também sou, mas você é mais velho! Você acredita em padres, na igreja? Ouça o que lhe digo, não acredite! Os padres vieram ao mundo para enganar os velhinhos, ao menos não andam disfarçados! Não gosto de padres! Gosto de beber! Sou alcoólico, tenho uma hepatite, sou louco!”
O velho não mudou de cor, deu-lhe um forte e sincero aperto de mão, foi-se embora. Continuou a falar, a dizer coisas, coisas soltas, bocados capitais.
“Quero mais cerveja, quero outra! Vou fazer outro! A que horas sais? Queres fumar um? Eu dou-te! Não queres? Eu moro já ali.” Pois é. Há que trabalhar. Eu não trabalho, agora, tens a certeza que não me estão a filmar?”
A noite depressa se fez dia, depois de muita indecisão e despedidas, de mais cervejas e charros lá foi, de rastos, pesado como um pedaço de chumbo no fundo do oceano.
terça-feira, março 11
CRÓNICA DA FACA DOS DOIS GUMES
Esta era tecnológica revela-se surpreendente apelo. Lado de baixo pelo lado sobre.
É tido como certo, por mim, este passo firme em frente para a liberdade que gradualmente e em aprendizagem trás à superfície o contra-senso maior do abuso da liberdade como forma de prisão. Novas portas abriram-se ao rodar-se as suas maçanetas e fizeram-nos ver mais uma ala da continuidade na liberdade instituída.Foi o que percebi da minha liberdade. Abre-se uma nova porta, explora-se o espaço no seu interior e quando tentamos voltar alguém guardou ou perdeu as chaves para sair, um contra-senso, como referido -liberdade delimitada pela observação transformadora. A liberdade, caro leitor, é uma faca de dois gumes cada vez mais bem afiada na pedra pomos temporal: na sua ponta encontra-se o choque entre lâminas que se esbatem num único vértice. É com tristeza, mas com perfeito espírito de integridade e identificação, que vejo a liberdade de hoje que tanto me guia e me leva à compreensão, na parte da lâmina que já penetra na carne ao mínimo toque. A guerra das liberdades, como desde há muito tempo, continua nos seus dois campos da batalha, liberdade contra liberdade, uma luta pelo mesmo direito, o direito à Liberdade Absoluta, a última, aquela palavra metafísica inventada por nós da qual desconheço os contornos e reconheço apenas o veículo da essência. Este símbolo que tanto apregoamos no espírito dos mais diversos postos da barricada, que se concretizará no culminar da vontade colectiva, vai ser elevado ao ponto de divindade e eu desconheço, para já, qual vai ser o seu valor fixo – isto se já não foi, agora mesmo, e por distracção minha, afixado naquela vitrina que desconhecemos mas que tem a informação burocrática necessária para nos inscrevermos na liberdade dos vencedores da guerra detentores da verdade. A liberdade, como foi definida por senhores do meu passado, só existe no espírito. Hoje, mais do que ninguém que não queira, percebo que só na alma se condensam os sentidos da vida, no recuado da Edificação da Liberdade, o local para onde vamos sonhar acordados. E foi aí, nessa transposição do corpo por parte da alma, que encontrei o ponto comum que rege o nosso objectivo cada vez mais exigido como batalhadores do bem comum e colectivo.
(A minha preocupação pelo colectivo mais do que uma posição esquerdista pessoal, mesmo sendo suspeito por ser canhoto, é uma posição me vem do âmago e uma sintomática confissão da constatação.)
A tecnologia, hoje, é um utensílio indispensável, principalmente a Internet (até lhe digo leitor, que o Word reconhece automaticamente a sua palavra com um w maiúsculo e Internet com i de igual tamanho, enfatizando assim, duas pequenas partículas do universo tecnológico desmultiplicado), sem essa ferramenta, de base Suiça a partir do canivete, não conseguiria de maneira alguma explanar a minha dimensão opinativa, e sem computador então, nem se discute. Lembro entretanto que vivemos num país em que computadores nas escolas não faltam, mas aquecedores em certas não é coisa que abunde, coloco a hipótese de que talvez os computadores venham sem ventilação e o seu consequente sobreaquecimento seja uma útil fonte de calor. Certamente pensarão que sou contra os computadores nas escolas, mas não sou, sou apenas contra a colocação de degraus sem outros anteriores a servir de base. Sirvo-me desta figura de estilo prosaica e até um pouco redutora, para que entenda que os tempos em que vivemos são de liberdade, como disse, faca de dois gumes.
Por um lado é óptimo que os jovens alunos percorram a Internet nas suas escolas como ponto de partida para uma opinião vincada sobre o mundo, ou até, para uma adaptação ao seu mundo que se transforma acelerada e desgovernadamente.
Sou um egoísta caro leitor, falo-lhe em tudo isto para me revoltar sob a capa das palavras contra o cerco cada vez mais fechado à Internet. Irrita-me profundamente perceber que o próprio espaço cibernético tende a ficar cada vez mais burocratizado e controlado, tal como todos os meios de comunicação anteriores. Mais um veículo flamejado pelo poder, pelos donos da liberdade, pelos primeiros a chegar ao cume da faca. Daí olhar para trás e sentir ainda a aura da antiga literatura, da antiga música, da antiga arte dos tempos que tinha outra liberdade mesmo enclausurada. Sinto as saudades a baterem-me do alto dos meus tenros vinte e três anos de idade. A pureza perdeu-se, a liberdade que precisamos perdeu mais um dos seus aliados, não sei quando foi isso precisamente, mas sinto-o.
Cresci num bairro, num desses bairros longínquos que parecem já não existir até que percebemos que ainda existem e servem de catapulta para as nossas memórias de infância. No tempo em que não havia Internet nem computadores nem consolas nem falsidades nem aquecedores nos dias de frio, nem frio tampouco. No tempo em que a puerilidade permitiu que hoje veja o mundo com olhos de ver. O mesmo tempo que me dá agora tempo para escrever tudo isto nesta odisseia pelo mundo que é o meu.
Acredito que me leia e fique a achar que sofro de envelhecimento precoce, talvez sofra, este mundo fez de mim um caco de pote do século vinte e um disperso pelo chão. Vivemos numa liberdade individual partidos. Somos cacos que entre os espaços que nos distanciam formam diversas teias que por sua vez formam uma só. A nossa liberdade resume-se a esses espaços cada vez mais entrosados entre si.
Mesmo assim, sinto-me vivo, sinto-me contínuo da luta das palavras. Sinto-me em liberdade quando escrevo, quando choro lágrimas de tinta e desenho sorrisos amarelos e necessários. Tenho liberdade para tudo isso e para tudo mais que me entreguem de bandeja sem folhetim informativo com asteriscos e letras minúsculas.
Sinto-me.
Tenho a liberdade para agir nos escaparates da acção que me tiraram, pois só me resta esta, a estafeta entregue pela anterior geração que não distinguiu liberdades, a geração do vinte cinco de Abril, a revolucionária, a que se cansou e se adaptou ao admirável mundo novo de liberdades que lhes surgiu como uma aparição -uma luz que os cegou e apagou dos seus olhos o brilho da liberdade.
Ainda hoje neste século, surgem políticos a apregoar ao progresso. Essa palavra tão bonita, tão cheia de pompa e circunstância, e digo circunstância porque a circunstância pós ditadura da velha senhora fez de nós seres esfomeados e finalmente sincronizados com o mundo. Essa palavra tão bem empregue pelo nosso monsenhor ministerial que aproveita a sua liberdade expositiva e argumentativa para descaradamente mentir e ser aceite por nós, seres libertos, que tão facilmente acreditamos que somos livres mesmo que não das suas mentiras.
Não vejo, por tudo isto, Portugal como um buraco negro na Europa, nem culpo os lutadores pela liberdade de expressão do meu passado pelo estado deste meu país com um governo digno de nos pôr a chorar lágrimas de cebola. Somos agora seres globais (a Internet é um dos meios que mais bem argumenta em prol desta afirmação), e como tal, o nosso estado, para lá da governação má, é também influenciada pela incestuosa economia mundial, pela imensa rede que se vai ocupando do espaço cada vez maior entre nós.
Não tenho medo do espaço entre as pessoas, a razão é muito simples, cada vez mais me isolo e quero menos dos outros, irrita-me profundamente aperceber-me do reflexo dos meus defeitos em todas as outras faces com que convivo no dia-a-dia.
O que me assusta e aterroriza é este alastrar incessante deste cancro que nos prende em si, este murmúrio que mal se percebe mas que se ouve. Esta invasão do espaço por uma série de necessidades que se ramificam em propósitos que até há bem pouco tempo não eram tão fundamentais mas que agora nos prendem e nos afastam de tudo o resto que é mais capital que todo o capital das multinacionais sem escrúpulos de todo o mundo criadas pelos fungos dessa ciência a que se chama economia.
A liberdade de escolha é portanto, e digo-o com certeza, uma forma de liberdade que é muitas vezes confundida com a possibilidade de ser livre. Usada como arma de arremesso, em jeito de quem atira com um ramo de flores, proporciona a tal sensação de liberdade que é, como disse, de escolha. Podemos entender liberdade de escolha como e muito contemporaneamente ter acesso a um sem número coisas nas mais diversas variantes e necessidades. Excepto derrubar um governo. Isso é demasiado complicado, a nossa liberdade de expressão já não chega para a liberdade de acção que têm e criaram.
Cheio de escrever e desta liberdade pura que afinal não é assim tão pura quanto isso, encerro esta crónica com as pálpebras pesadas e desejoso de voltar à cama mais uma noite para me perder na outra liberdade pura que entretanto me escapou mas que em boa hora e tarde chegou: o mundo dos sonhos em que vivemos de olhos fechados.
É tido como certo, por mim, este passo firme em frente para a liberdade que gradualmente e em aprendizagem trás à superfície o contra-senso maior do abuso da liberdade como forma de prisão. Novas portas abriram-se ao rodar-se as suas maçanetas e fizeram-nos ver mais uma ala da continuidade na liberdade instituída.Foi o que percebi da minha liberdade. Abre-se uma nova porta, explora-se o espaço no seu interior e quando tentamos voltar alguém guardou ou perdeu as chaves para sair, um contra-senso, como referido -liberdade delimitada pela observação transformadora. A liberdade, caro leitor, é uma faca de dois gumes cada vez mais bem afiada na pedra pomos temporal: na sua ponta encontra-se o choque entre lâminas que se esbatem num único vértice. É com tristeza, mas com perfeito espírito de integridade e identificação, que vejo a liberdade de hoje que tanto me guia e me leva à compreensão, na parte da lâmina que já penetra na carne ao mínimo toque. A guerra das liberdades, como desde há muito tempo, continua nos seus dois campos da batalha, liberdade contra liberdade, uma luta pelo mesmo direito, o direito à Liberdade Absoluta, a última, aquela palavra metafísica inventada por nós da qual desconheço os contornos e reconheço apenas o veículo da essência. Este símbolo que tanto apregoamos no espírito dos mais diversos postos da barricada, que se concretizará no culminar da vontade colectiva, vai ser elevado ao ponto de divindade e eu desconheço, para já, qual vai ser o seu valor fixo – isto se já não foi, agora mesmo, e por distracção minha, afixado naquela vitrina que desconhecemos mas que tem a informação burocrática necessária para nos inscrevermos na liberdade dos vencedores da guerra detentores da verdade. A liberdade, como foi definida por senhores do meu passado, só existe no espírito. Hoje, mais do que ninguém que não queira, percebo que só na alma se condensam os sentidos da vida, no recuado da Edificação da Liberdade, o local para onde vamos sonhar acordados. E foi aí, nessa transposição do corpo por parte da alma, que encontrei o ponto comum que rege o nosso objectivo cada vez mais exigido como batalhadores do bem comum e colectivo.
(A minha preocupação pelo colectivo mais do que uma posição esquerdista pessoal, mesmo sendo suspeito por ser canhoto, é uma posição me vem do âmago e uma sintomática confissão da constatação.)
A tecnologia, hoje, é um utensílio indispensável, principalmente a Internet (até lhe digo leitor, que o Word reconhece automaticamente a sua palavra com um w maiúsculo e Internet com i de igual tamanho, enfatizando assim, duas pequenas partículas do universo tecnológico desmultiplicado), sem essa ferramenta, de base Suiça a partir do canivete, não conseguiria de maneira alguma explanar a minha dimensão opinativa, e sem computador então, nem se discute. Lembro entretanto que vivemos num país em que computadores nas escolas não faltam, mas aquecedores em certas não é coisa que abunde, coloco a hipótese de que talvez os computadores venham sem ventilação e o seu consequente sobreaquecimento seja uma útil fonte de calor. Certamente pensarão que sou contra os computadores nas escolas, mas não sou, sou apenas contra a colocação de degraus sem outros anteriores a servir de base. Sirvo-me desta figura de estilo prosaica e até um pouco redutora, para que entenda que os tempos em que vivemos são de liberdade, como disse, faca de dois gumes.
Por um lado é óptimo que os jovens alunos percorram a Internet nas suas escolas como ponto de partida para uma opinião vincada sobre o mundo, ou até, para uma adaptação ao seu mundo que se transforma acelerada e desgovernadamente.
Sou um egoísta caro leitor, falo-lhe em tudo isto para me revoltar sob a capa das palavras contra o cerco cada vez mais fechado à Internet. Irrita-me profundamente perceber que o próprio espaço cibernético tende a ficar cada vez mais burocratizado e controlado, tal como todos os meios de comunicação anteriores. Mais um veículo flamejado pelo poder, pelos donos da liberdade, pelos primeiros a chegar ao cume da faca. Daí olhar para trás e sentir ainda a aura da antiga literatura, da antiga música, da antiga arte dos tempos que tinha outra liberdade mesmo enclausurada. Sinto as saudades a baterem-me do alto dos meus tenros vinte e três anos de idade. A pureza perdeu-se, a liberdade que precisamos perdeu mais um dos seus aliados, não sei quando foi isso precisamente, mas sinto-o.
Cresci num bairro, num desses bairros longínquos que parecem já não existir até que percebemos que ainda existem e servem de catapulta para as nossas memórias de infância. No tempo em que não havia Internet nem computadores nem consolas nem falsidades nem aquecedores nos dias de frio, nem frio tampouco. No tempo em que a puerilidade permitiu que hoje veja o mundo com olhos de ver. O mesmo tempo que me dá agora tempo para escrever tudo isto nesta odisseia pelo mundo que é o meu.
Acredito que me leia e fique a achar que sofro de envelhecimento precoce, talvez sofra, este mundo fez de mim um caco de pote do século vinte e um disperso pelo chão. Vivemos numa liberdade individual partidos. Somos cacos que entre os espaços que nos distanciam formam diversas teias que por sua vez formam uma só. A nossa liberdade resume-se a esses espaços cada vez mais entrosados entre si.
Mesmo assim, sinto-me vivo, sinto-me contínuo da luta das palavras. Sinto-me em liberdade quando escrevo, quando choro lágrimas de tinta e desenho sorrisos amarelos e necessários. Tenho liberdade para tudo isso e para tudo mais que me entreguem de bandeja sem folhetim informativo com asteriscos e letras minúsculas.
Sinto-me.
Tenho a liberdade para agir nos escaparates da acção que me tiraram, pois só me resta esta, a estafeta entregue pela anterior geração que não distinguiu liberdades, a geração do vinte cinco de Abril, a revolucionária, a que se cansou e se adaptou ao admirável mundo novo de liberdades que lhes surgiu como uma aparição -uma luz que os cegou e apagou dos seus olhos o brilho da liberdade.
Ainda hoje neste século, surgem políticos a apregoar ao progresso. Essa palavra tão bonita, tão cheia de pompa e circunstância, e digo circunstância porque a circunstância pós ditadura da velha senhora fez de nós seres esfomeados e finalmente sincronizados com o mundo. Essa palavra tão bem empregue pelo nosso monsenhor ministerial que aproveita a sua liberdade expositiva e argumentativa para descaradamente mentir e ser aceite por nós, seres libertos, que tão facilmente acreditamos que somos livres mesmo que não das suas mentiras.
Não vejo, por tudo isto, Portugal como um buraco negro na Europa, nem culpo os lutadores pela liberdade de expressão do meu passado pelo estado deste meu país com um governo digno de nos pôr a chorar lágrimas de cebola. Somos agora seres globais (a Internet é um dos meios que mais bem argumenta em prol desta afirmação), e como tal, o nosso estado, para lá da governação má, é também influenciada pela incestuosa economia mundial, pela imensa rede que se vai ocupando do espaço cada vez maior entre nós.
Não tenho medo do espaço entre as pessoas, a razão é muito simples, cada vez mais me isolo e quero menos dos outros, irrita-me profundamente aperceber-me do reflexo dos meus defeitos em todas as outras faces com que convivo no dia-a-dia.
O que me assusta e aterroriza é este alastrar incessante deste cancro que nos prende em si, este murmúrio que mal se percebe mas que se ouve. Esta invasão do espaço por uma série de necessidades que se ramificam em propósitos que até há bem pouco tempo não eram tão fundamentais mas que agora nos prendem e nos afastam de tudo o resto que é mais capital que todo o capital das multinacionais sem escrúpulos de todo o mundo criadas pelos fungos dessa ciência a que se chama economia.
A liberdade de escolha é portanto, e digo-o com certeza, uma forma de liberdade que é muitas vezes confundida com a possibilidade de ser livre. Usada como arma de arremesso, em jeito de quem atira com um ramo de flores, proporciona a tal sensação de liberdade que é, como disse, de escolha. Podemos entender liberdade de escolha como e muito contemporaneamente ter acesso a um sem número coisas nas mais diversas variantes e necessidades. Excepto derrubar um governo. Isso é demasiado complicado, a nossa liberdade de expressão já não chega para a liberdade de acção que têm e criaram.
Cheio de escrever e desta liberdade pura que afinal não é assim tão pura quanto isso, encerro esta crónica com as pálpebras pesadas e desejoso de voltar à cama mais uma noite para me perder na outra liberdade pura que entretanto me escapou mas que em boa hora e tarde chegou: o mundo dos sonhos em que vivemos de olhos fechados.
segunda-feira, março 3
O TOLDO VERMELHO
Uma bela noite de verão. A lua mingua, as luzes captam os pedaços iluminados de palavras que murmuram na consistência de pessoas. A temperatura é agradável, o álcool acompanha o silêncio da noite que se faz em copos de vidro abençoados. As cabeças são muitas, movimentos perpétuos na sonoridade aconchegante que tudo mistura: volumes gargalhadas sorrisos e cheiros. Ali estou, descontraído em ritmo sereno que ouve, vê, fala e passa ao lado. O movimento é o centro de gravidade pendular que me faz caminhar na noite. A pele está quente enquanto se gesticula palavras em gestos extraordinários. A melodia vai em frente, sou animal natural da realidade em que vivo. São horas aveludadas enquanto se pede mais um fino. Uma felicidade de bêbado vem-me bem estampada na cara que sorri. Vivemos todos numa sincronia momentânea. É uma noite de verão quente, as palavras sob o toldo vermelho fazem ouvir passadas mais amplas. Somos todos filhos do nosso tempo, sem deus, sem pátria inquestionável, e com toda uma vontade adormecida de ser feliz. Vivemos todos da diferença que é unanimidade. Somos felizes em nós, nas alturas em que ecos de conversas se explanam pelas estrelas que encimam a noite que se vai fazendo iluminada de vida. O ambiente está calmo, os bilhares repousam sob o olhar que é o meu. Tudo se compreende, nada desalinha.
quinta-feira, fevereiro 21
ART BLAKEY & JAZZ MESSENGERS- ARE YOU REAL?
Por vezes, esta pergunta banal impõe-se,
palavras para quê?
segunda-feira, fevereiro 18
A ESSÊNCIA DO HOMEM
Perguntar pelo Infinito
É resposta nas Palavras
É a criação de um mito
O ordenar da desordem
É ir e vir…
O Homem é um pêndulo de arroz
Na panela que é Cosmos
Vai e vem!
Responder pelo Infinito
É perguntar nas Palavras
É ordenar de um mito
A criação da desordem
Tic-tac!
O Homem é um ponteiro
No relógio que define o Tempo
Tac-tic…
É a carne apodrecida
No corpo em corrente
…
O Homem é uma esponja
Na matéria da sua vontade
Zás e traz…
É o veículo Inocente
Na carne que o faz
Traz e zás!
O Homem é uma cobra
Na pele da hereditariedade
Zig zag!
É esquivo da Memória
No sonho da Perfeição efémera
Zag zig…
É o Homem uma árvore
Nas raízes da saudade
Contrariado pela mão
Acção!
Ping-pong!
É a bola lá e cá
Na mesa da Contradição
Pong-Ping…
É o Homem o ridículo
No circo da sua abstracção
Ri e chora…
É o Homem uma Lágrima
Na face da desilusão
Chora e ri!
É um rasgo de Alegria
No pano da Admiração.
Vai e vem
Vem vai…
E Traz e zás!
Zás traz!
E Tic e tac!
Tac tic!
E zig e zag!
Zag zig!
E ping e pong!
Pong-ping!
E ri e chora…
E chora E RI!
É o Homem um Homem
É balança em Equilíbrio
Nos pesos
Consolação!
É resposta nas Palavras
É a criação de um mito
O ordenar da desordem
É ir e vir…
O Homem é um pêndulo de arroz
Na panela que é Cosmos
Vai e vem!
Responder pelo Infinito
É perguntar nas Palavras
É ordenar de um mito
A criação da desordem
Tic-tac!
O Homem é um ponteiro
No relógio que define o Tempo
Tac-tic…
É a carne apodrecida
No corpo em corrente
…
O Homem é uma esponja
Na matéria da sua vontade
Zás e traz…
É o veículo Inocente
Na carne que o faz
Traz e zás!
O Homem é uma cobra
Na pele da hereditariedade
Zig zag!
É esquivo da Memória
No sonho da Perfeição efémera
Zag zig…
É o Homem uma árvore
Nas raízes da saudade
Contrariado pela mão
Acção!
Ping-pong!
É a bola lá e cá
Na mesa da Contradição
Pong-Ping…
É o Homem o ridículo
No circo da sua abstracção
Ri e chora…
É o Homem uma Lágrima
Na face da desilusão
Chora e ri!
É um rasgo de Alegria
No pano da Admiração.
Vai e vem
Vem vai…
E Traz e zás!
Zás traz!
E Tic e tac!
Tac tic!
E zig e zag!
Zag zig!
E ping e pong!
Pong-ping!
E ri e chora…
E chora E RI!
É o Homem um Homem
É balança em Equilíbrio
Nos pesos
Consolação!
quarta-feira, fevereiro 13
"THE BIG SLEEP"
Anda por aí muita gente a rir-se dos ingleses que, segundo um estudo agora divulgado, acreditam que Sherlock Holmes, Robin dos Bosques e Os Três Mosqueteiros são seres reais e Churchill uma personagem de ficção. Ora basta ler jornais e ver TV para verificarmos que os portugueses não são menos crédulos que os ingleses. Uma assustadora percentagem de portugueses acredita, por exemplo, que Mário Lino existe e é ministro das Obras Públicas e, tendo adormecido durante a projecção do filme que passa no país há dois anos, julga que Maria de Lurdes Rodrigues, Teixeira dos Santos ou Manuel Pinho são de carne e osso e não alucinações que, como o Freddy Kruger de "Pesadelo em Elm Street", personificam os seus piores medos. Coleridge observa que, de dia, as imagens geram sentimentos ao passo que, durante o sono, são os sentimentos que geram imagens. Assim, é natural que os medos dos professores (caos e desalento nas escolas, derrocada do sistema de ensino) suscitem neles a imagem "uncanny" de Maria de Lurdes Rodrigues e que essa imagem lhes pareça real. E do mesmo modo, nos outros casos, trabalhadores, empresários e cidadãos em geral. A solução é acordar e esfregar os olhos. O problema é que o filme tem uma banda sonora suave e embaladora, propícia à sonolência.
Manuel António Pina
Jornal de Notícias do dia 12 de Fevereiro de 2008
Manuel António Pina
Jornal de Notícias do dia 12 de Fevereiro de 2008
AOS CAVALOS DA DEMOCRACIA
A democracia é a mãe destas nossas sociedades caprichosas. É a trama que vive da liberdade que não temos, tendo-a em absoluto. A democracia é liberdade, a liberdade é rédea solta, a rédea é o que se dá a um cavalo quando a sua selvajaria é total e a sua condição assim exige. Imagino assim certos democratas em campo aberto, a correram furiosamente e a seu bel-prazer sobre chão que sempre foi seu, desde os primórdios da existência democrática. Não especifico democratas como partidários políticos, mas sim como praticantes da democracia. Assim como não diferencio as diversas raças de cavalo existentes. Aqui generalizo apenas.
Sendo eu filho da democracia e consequentemente da liberdade, imagino-me um dia destes a montar um democrata que não é mais que um cavalo – desgraçados dos cavalos, equipará-los a um democrata deve ser aborrecido, mas como nunca conheci um cavalo que tivesse aprendido a leitura, sinto-me livre de abusar de tal ignorância - , a puxar rédea e a gritar alto e a bom som “anda lá democrata, eu quero posso e mando, por ali que se faz tarde!” e o pobre desgraçado que é, a prosseguir comigo em peso sobre o seu costado cansado de tanta correria! Aí sim! Diria que a democracia é liberdade, e que o peso e medida não seriam abuso da liberdade que posso ter na sociedade democrática em que vivo. Adiante. O abuso é feio, e os cavalos andam a abusar! Como tal, seria homem para fazê-los correr até ao fim do mundo, o local vertiginoso em que detritos da terra caiem como água numa catarata de poeiras temporais. Levá-los-ia lá, ou melhor eles levar-me-iam, só para constatarem que idílica imagem era digna de ser vista pelos seus próprios olhos de cavalo com palas. Depois fazia-o voltar atrás, e certamente que ele correria para lá da sua ignorância e eu que remédio que teria que vir atrás. De regresso ao ponto de partida a sua orientada fugida determinaria a sua morte. “Ritmo assustado foi a causa da morte.” Diria concisamente o veterinário depois da autópsia. Nada triste regressaria ao estábulo, por lá escolheria outro democrata, e de lá correria outra vez até ao fim do mundo. Pensava para mim antes de puxar a rédea “mais um que vai morrer, mas que gosto isto me dá!”. Aquela viagem dar-me-ia tanto gosto e espaço para a contemplação, que um dia, depois de dias e dias de óbitos e viagens de ida e volta até ao fim do mundo, acabaria por encontrar o estábulo vazio de democratas. Tal vazio espacial assolar-me-ia de dúvidas, não teriam sido essas viagens abuso da liberdade que me deram? Ou foram somente actos ajustados à democracia que me deram? O dar seria o verbo da minha consumação. O que me tinham dado durante anos era um conceito de democracia deturpada pelo tempo que se desfazia para lá das minhas mãos, e as minhas, tinham sido a razão de todas as mortes.
Sendo eu filho da democracia e consequentemente da liberdade, imagino-me um dia destes a montar um democrata que não é mais que um cavalo – desgraçados dos cavalos, equipará-los a um democrata deve ser aborrecido, mas como nunca conheci um cavalo que tivesse aprendido a leitura, sinto-me livre de abusar de tal ignorância - , a puxar rédea e a gritar alto e a bom som “anda lá democrata, eu quero posso e mando, por ali que se faz tarde!” e o pobre desgraçado que é, a prosseguir comigo em peso sobre o seu costado cansado de tanta correria! Aí sim! Diria que a democracia é liberdade, e que o peso e medida não seriam abuso da liberdade que posso ter na sociedade democrática em que vivo. Adiante. O abuso é feio, e os cavalos andam a abusar! Como tal, seria homem para fazê-los correr até ao fim do mundo, o local vertiginoso em que detritos da terra caiem como água numa catarata de poeiras temporais. Levá-los-ia lá, ou melhor eles levar-me-iam, só para constatarem que idílica imagem era digna de ser vista pelos seus próprios olhos de cavalo com palas. Depois fazia-o voltar atrás, e certamente que ele correria para lá da sua ignorância e eu que remédio que teria que vir atrás. De regresso ao ponto de partida a sua orientada fugida determinaria a sua morte. “Ritmo assustado foi a causa da morte.” Diria concisamente o veterinário depois da autópsia. Nada triste regressaria ao estábulo, por lá escolheria outro democrata, e de lá correria outra vez até ao fim do mundo. Pensava para mim antes de puxar a rédea “mais um que vai morrer, mas que gosto isto me dá!”. Aquela viagem dar-me-ia tanto gosto e espaço para a contemplação, que um dia, depois de dias e dias de óbitos e viagens de ida e volta até ao fim do mundo, acabaria por encontrar o estábulo vazio de democratas. Tal vazio espacial assolar-me-ia de dúvidas, não teriam sido essas viagens abuso da liberdade que me deram? Ou foram somente actos ajustados à democracia que me deram? O dar seria o verbo da minha consumação. O que me tinham dado durante anos era um conceito de democracia deturpada pelo tempo que se desfazia para lá das minhas mãos, e as minhas, tinham sido a razão de todas as mortes.
ENTRE PÁGINAS
Abro o livro que te ampara
Não és personagem
És entre páginas a recordação que me deste
Naquele dia longínquo de Inverno
Nunca te ouvi,
Guardo de ti aquela folha
Aquela tua caligrafia sobre papel pardo
Daquele dia,
O dia em que passaste e não te vi
Do outro lado da rua do meu contentamento
Que não foi maior porque não quiseste
Maravilho-me com o teu cheiro no passar do tempo
O aroma deturpado pelo calor das páginas
Imagino-te, naquela manhã
Sorridente e perfumada como hoje que te toco
Folha de papel que tantas vezes evoco
Na ânsia do sonho que desejo diariamente.
Não és personagem
És entre páginas a recordação que me deste
Naquele dia longínquo de Inverno
Nunca te ouvi,
Guardo de ti aquela folha
Aquela tua caligrafia sobre papel pardo
Daquele dia,
O dia em que passaste e não te vi
Do outro lado da rua do meu contentamento
Que não foi maior porque não quiseste
Maravilho-me com o teu cheiro no passar do tempo
O aroma deturpado pelo calor das páginas
Imagino-te, naquela manhã
Sorridente e perfumada como hoje que te toco
Folha de papel que tantas vezes evoco
Na ânsia do sonho que desejo diariamente.
domingo, fevereiro 10
O PÉ
Bato o pé
Cresce poema
Memória do tempo
Que se faz crescente,
Dou um passo
Cresce o poema
Ritmo compassado
Passeio lento:
Troco o passo
Cresce um poema
Viagem pelo pé
Velocidade gema.
Cresce poema
Memória do tempo
Que se faz crescente,
Dou um passo
Cresce o poema
Ritmo compassado
Passeio lento:
Troco o passo
Cresce um poema
Viagem pelo pé
Velocidade gema.
sábado, janeiro 26
HOMEM LOUCO NO JARDIM
Lambia com os olhos as pessoas que passavam. Nas suas mãos um jornal dizia que o mundo estava caótico. Não o olhava. Apenas era seguro pelos seus dedos tremendos. Fazia sol nesse dia, pequenas nuvens tingiam o céu de lixívia. Entretanto passou um homem, magro como uma cabeça de gado sugada até ao tutano por um bicho misterioso. De passo rápido ia tirando a faneca do cu como gente grande. Mais abaixo, acompanhada pelo seu cão grisalho, uma senhora descolorada ia dizendo para si que as folhas eram a fonte de toda a miséria do mundo. Tudo se conjugava, sobre o seu jornal, como numa tela carregada de símbolos propulsores duma realidade. Acendeu então o cigarro e olhou mais amplamente em seu redor. Ao fundo um touro. Tinha um ar enraivecido, o toureiro nem vê-lo, aquela imagem para ele era ainda mais estranha, mas nada de impossível. O animal caminhava determinado mas compassado, algo trazia em si, origem de toda a raiva, tinha um olhar desconfiado capaz de fulminar o mais desatento dos homens. No seu banco tudo isto lhe dava uma sensação de imobilidade vindoura e até interessante. O homem da faneca, o jornal nas suas mãos, a velha descolorada, o touro enraivecido pela vivência. Ouviu-se uma voz. Era o homem dos gelados. Perguntou-lhe qual queria. Nenhum foi-lhe respondido. Um seguro foi então sugerido. Um porque não foi respondido. Já há bastante tempo que sabia que precisava de tal segurança. Perguntou quando era e se, como se sabe, numa altura de aflição o seguro ia deixá-lo na prancha para os tubarões. Claro que sim empurraram. Sendo assim, quero dois. De vida e de, ressoou a interrogação. Nada disso, quero um de baunilha e outro de morango. O homem dos gelados ficou atónito, na sua cabeça a tômbola girava desordenadamente. Mesmo assim, tirou os dois gelados. Quando se esticou um braço com uma mão na ponta e duas moedas na palma, a rejeição monetária surpreendeu. Não era de maneira nenhuma normal a recusa. Sorriram os dois. Um para cada lado. O jornal começava a pesar, as folhas eram espessas como um manto de flanela. O homem dos gelados e dos seguros prosseguia com o seu carrinho e tentava impingir ao touro, ao fundo, qualquer coisa de inaudível. Sentado, e com os gelados a derreter no prolongamento do banco gargalhou. O touro tinha espetado uma cornada tal no carrinho e no homem que os dois voavam bem juntinhos e emaranhados pelo ar. Foi impressionante para si, o barulho seco que se fez ouvir aquando do contacto simultâneo com o chão. Já satisfeito com o nível visionário proporcionado decidiu abrir o jornal. Letras e mais letras e imagens acompanhantes figuravam por lá acertadamente. De repente um cabeçalho bombástico, ou melhor, mais bombástico e miserável do que todos os outros lidos de relanço. HOMEM LOUCO NO JARDIM. A leitura começou a correr ao ritmo das diminuídas letras. “Todos os dias é visto um homem, porque nunca de lá sai, sentado num banco do jardim Y, não se percebe o que lá faz, nem nunca, tão pouco, lhe foi perguntado o que faz por lá há tanto tempo. É um homem dum aspecto frio intrigante, parece sempre rir de todos aqueles que por lá passam. Não se sabe minimamente o que lhe ocorre na cabeça, daí ser o seu sorriso a razão desta reportagem flexiva.” Ao lado vinha uma foto do homem, e o homem do jornal não ficou nada surpreendido ao ver que o homem era afinal ele. O homem de riso frio e estranho, ao ler sobre si, entrou numa viagem pela sua galáxia introspectiva. Pensava para si. É bom saber que a minha loucura vem no jornal, pode ser que assim se perceba, que o mundo não é mais que multiplicadas insanidades dignas de serem observadas por todos, e consequentemente, insanidades que a todos pertencem, mesmo quando no jornal não figuram como eu. E assim voltou a gargalhar, gargalhou a tal volume, que rapidamente toda a gente parou para perceber donde vinha tal gargalhada demente.
O ARTISTA A LÁPIS DE COR
Se eu tivesse outra vida
E outra escolha me dessem
Eu seria um desenhador perfeccionista
Primeiramente, analista
Desenharia o mundo
Numa folha de papel maior
Numa escala real a lápis de cor
Desenharia tudo aquilo que gira com o mundo
O globo o Homem os seus gestos
O universo para lá
As emoções os choros e os sorrisos
Desenharia os animais as fábricas as casas
As florestas os rios os mares a chuva e o sol
Realizava uma nova lua feita a partir da mesma
Flores cheiros até ao limite pintado do nunca visto
Depois de tudo colorido
Sobre a superfície maior que tudo
Apagaria tudo o que não me agradasse
Tornar-me-ia um artista do egoísmo
Apagaria certos gestos do Homem
Certos seres e os seus sorrisos
E outros choros para além dos que ficariam
Desenharia mais animais outras fábricas e casas
Florestas mais densas e rios mais dourados
E também outras chuvas com o mesmo sol escondido
Delinearia uma lua cheia permanente
Passava a borracha sobre certos cheiros e algumas flores
Desenhar-me-ia um novo esplendor
Depois de tudo
Transformar-se-ia o Homem
Nesta minha mudança riscada
Um Homem novo filho do paraíso
Mas se no entanto
Este paraíso não fosse para o outro novo Homem
Nenhum pânico me abalaria
A perfeição é um pedestal em construção
De novo esticaria a minha tela de papel
Não mais outra seria tingida
De borracha essências apagaria
De lápis na mão de novo recriaria.
E outra escolha me dessem
Eu seria um desenhador perfeccionista
Primeiramente, analista
Desenharia o mundo
Numa folha de papel maior
Numa escala real a lápis de cor
Desenharia tudo aquilo que gira com o mundo
O globo o Homem os seus gestos
O universo para lá
As emoções os choros e os sorrisos
Desenharia os animais as fábricas as casas
As florestas os rios os mares a chuva e o sol
Realizava uma nova lua feita a partir da mesma
Flores cheiros até ao limite pintado do nunca visto
Depois de tudo colorido
Sobre a superfície maior que tudo
Apagaria tudo o que não me agradasse
Tornar-me-ia um artista do egoísmo
Apagaria certos gestos do Homem
Certos seres e os seus sorrisos
E outros choros para além dos que ficariam
Desenharia mais animais outras fábricas e casas
Florestas mais densas e rios mais dourados
E também outras chuvas com o mesmo sol escondido
Delinearia uma lua cheia permanente
Passava a borracha sobre certos cheiros e algumas flores
Desenhar-me-ia um novo esplendor
Depois de tudo
Transformar-se-ia o Homem
Nesta minha mudança riscada
Um Homem novo filho do paraíso
Mas se no entanto
Este paraíso não fosse para o outro novo Homem
Nenhum pânico me abalaria
A perfeição é um pedestal em construção
De novo esticaria a minha tela de papel
Não mais outra seria tingida
De borracha essências apagaria
De lápis na mão de novo recriaria.
O CIRCO VEIO À CIDADE
É o meu circo em viagem
Enriquecido em imagem
Solstício do sabor!
A minha tenda em vantagem
Sobre a trupe pajem
Que me arrasta extintor!
A aurora da verdade
Metamorfose do visto
Que se desfaz em riso
- Minha alma em risco!
O espectáculo na estrada
Sociedade errada
Pela sensibilidade encontrada
No artista fanfarrão!
O meu tolde de formol
Que cobre em sombra do sol
Os palhaços do caixão!
Uma performance de actores
Narizes vermelhos em clamores
Pela veracidade em humores
Na jaula do leão!
Mais uma cidade que me recebe
No auge seu ridículo
Sob o tolde da emoção!
Lá vai meu circo embora
Abandonando gargalhada outrora
Sintomática satisfação!
E para trás os palhaços
Que nas cidades ficam
Os seres que para sempre magicam
A continuidade da Razão!
Só porque o mundo é uma cidade
Uma crescente saudade
Do que nunca teve na mão!
Enriquecido em imagem
Solstício do sabor!
A minha tenda em vantagem
Sobre a trupe pajem
Que me arrasta extintor!
A aurora da verdade
Metamorfose do visto
Que se desfaz em riso
- Minha alma em risco!
O espectáculo na estrada
Sociedade errada
Pela sensibilidade encontrada
No artista fanfarrão!
O meu tolde de formol
Que cobre em sombra do sol
Os palhaços do caixão!
Uma performance de actores
Narizes vermelhos em clamores
Pela veracidade em humores
Na jaula do leão!
Mais uma cidade que me recebe
No auge seu ridículo
Sob o tolde da emoção!
Lá vai meu circo embora
Abandonando gargalhada outrora
Sintomática satisfação!
E para trás os palhaços
Que nas cidades ficam
Os seres que para sempre magicam
A continuidade da Razão!
Só porque o mundo é uma cidade
Uma crescente saudade
Do que nunca teve na mão!
SINCRONISMO, PARALELISMO - A VARA DO RÍDICULO
Os suínos da permanência evolutiva
Capricham a sua pocilga esterilizada crescente
Guincham ladainhas de bolota
E gesticulam pergaminhos de gula
- Quais animais capazes
Das maiores atrocidades adocicadas no seu espaço lamacento!
Os suínos da reminiscência ardida
Comicham o seu couro limitado demente
Pincham nos seus frascos compota
E articulam rosmaninhos de lula
- Mais arbitrais perspicazes
Para agigantar caminhos alterados pelo seu toque peganhento!
Os suínos da displicência intuitiva
Cochicham palavras no seu perímetro quente
Lincham carnes na derrota
E simulam vitórias na bula
- Divinais quintais lilases
Diluídos na força extrema construída do seu vento!
Os suínos da complacência diluída
Mancham o futuro passado presente
Esguicham sangue em anedota
E estimulam a individualidade mula
- Jograis demais ases
Destruidores alarves, criadores da jaula que é o tempo!
Os suínos da ciência instruída
Chucham a capacidade da mente
Acham os genes sota
E copulam a criatividade nula.
Capricham a sua pocilga esterilizada crescente
Guincham ladainhas de bolota
E gesticulam pergaminhos de gula
- Quais animais capazes
Das maiores atrocidades adocicadas no seu espaço lamacento!
Os suínos da reminiscência ardida
Comicham o seu couro limitado demente
Pincham nos seus frascos compota
E articulam rosmaninhos de lula
- Mais arbitrais perspicazes
Para agigantar caminhos alterados pelo seu toque peganhento!
Os suínos da displicência intuitiva
Cochicham palavras no seu perímetro quente
Lincham carnes na derrota
E simulam vitórias na bula
- Divinais quintais lilases
Diluídos na força extrema construída do seu vento!
Os suínos da complacência diluída
Mancham o futuro passado presente
Esguicham sangue em anedota
E estimulam a individualidade mula
- Jograis demais ases
Destruidores alarves, criadores da jaula que é o tempo!
Os suínos da ciência instruída
Chucham a capacidade da mente
Acham os genes sota
E copulam a criatividade nula.
domingo, janeiro 6
NO CAMIÃO TURBULENTO QUE É O RELÓGIO
A óssea vontade do meu espírito
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;
És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio
Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.
A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.
O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.
Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.
A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.
Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;
És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio
Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.
A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.
O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.
Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.
A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.
Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.
CASALMA
Frio de lenha húmida
Nesta manhã dos pássaros
Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.
A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.
Mostra-se baú do mistério
Despoletar da curiosidade…
Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.
O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,
Curioso poeta da matéria
Alma que se escreve
Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado
Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.
Nesta manhã dos pássaros
Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.
A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.
Mostra-se baú do mistério
Despoletar da curiosidade…
Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.
O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,
Curioso poeta da matéria
Alma que se escreve
Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado
Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.
EXTERIOR, INTERIOR , A LÂMPADA QUE SE FUNDE
O horizonte prolongado
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.
sexta-feira, dezembro 28
sexta-feira, dezembro 21
quinta-feira, dezembro 20
A cidade aquece sob as lâmpadas que iluminam a vicissitudes da calçada. Lá no alto da pedra talhada o relógio arrefece a noite. Os carros passam perdidos no seu ruído monótono e tolhido. Olhos meus observam a queda do tempo vivo. Homens arrastam-se como a aragem que se faz sentir, plácidos e encaminhados pelas mãos do acaso pesado na balança do mercado das frutas coloridas. Os cães de caça abrangem-se pela calada da lua, a sua pelugem azul confunde-os ao passarem em frente a uma montra que reflecte a justiça centrifugada. Um gato aparece, símbolo da pureza existente, branco como a espuma dos mares e esguio como os ramos das árvores secas que oscilam nas intempéries assobiadas. O relógio, dá as cinco badaladas do que sinto.
terça-feira, novembro 20
O POETA EM MIM
Perdido nas nuvens da sua imaginação
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental
Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege
Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo
Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico
Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si
A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado
No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos
Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser
A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo
Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal
Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano
É o que corre dum lado para o outro
Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental
Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege
Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo
Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico
Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si
A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado
No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos
Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser
A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo
Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal
Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano
É o que corre dum lado para o outro
Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.
A VIDA
Ser é o acto custoso
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A ANOREXIA DE MARIA
Está uma noite fria entre os blocos sarapintados a luz,
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
domingo, novembro 11
HINO ÀS CRIANÇAS
Comecei bem cedo nessas lides de ser homem
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
A RESPEITO DO TRABALHO QUE JÁ NÃO TENHO - SORRIR OU CHORAR?
Cai num vazio que me irrita profundamente. A sua causa é a razão do desconforto que sinto. Mais uma vez encontro-me desempregado. Gostaria de poder não usar tal expressão, preferia de todo poder dizer desocupado, mas uma série de obrigações pessoais intrínsecas a quem tem coisas para pagar, obriga-me a suportar o peso de ser mais um desempregado. O emprego que tinha era no ramo da elevação hidráulica, área esta em que direcções descendentes e ascendentes faziam parte da execução em quase todo o processo até ao final, como em tudo na vida. Só que descender foi a minha última direcção, um rol de circunstâncias levaram a isto. Depois de muitas tentativas de elevação da dignidade fui empurrado pelas costas e cai de novo no chão que noutros tempos me trouxe mazelas. Sou hoje -como gosto eu da palavra hoje - , um homem supostamente livre e digno da sua existência, embora desolado por não poder contribuir para algo que pretendo abnegar absolutamente, sinto-me arrastado e perdido no rio turbulento que é estar morto, elemento entristecido da chamada população activa. Hoje – mais uma vez, a palavra que mais me fascina – esta sociedade que vive das várias áreas produtivas, é um espaço caótico e insuficiente para suportar pessoas como eu, que como todas, têm que ganhar o seu quinhão, o que é de todo assustador, já que a qualificação é cada vez maior e o interesse das estruturas empregadoras e governativas gigantesco -os interesses são muito básicos, aperfeiçoar cada vez mais as máquinas e esquecer que afinal já foram pessoas. É uma verdade dolorosa, isto dependendo do olhar de cada um de nós. Talvez se o meu emprego fosse empregar, mesmo que discordasse de tal robotização, ver-me-ia obrigado a concordar, não tivesse eu em casa contas para pagar! Qualquer coisa como, não concordo tendo em conta o que penso, mas concordo plenamente tendo em conta o que faço e me fazem precisar! E assim o jogo prossegue, a necessidade imposta é a necessidade fundamental substituta.
terça-feira, novembro 6
A GARAGEM EM CONSTRUÇÃO
Quando a poeira vibra melodicamente
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
segunda-feira, outubro 29
SURREALISMO SMS
"Tenho aqui uma
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"
"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"
"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"
sexta-feira, outubro 26
quinta-feira, outubro 25
quarta-feira, outubro 24
A MEMÓRIA DO MUNDO
As lembranças acumulam-se como pó em armários que são elementos duma vida. São ecos dum tempo que foi e é agora outro, mesmo na essência que as fazem recordar em nós, partículas que somos. Pode-se dizer que a memória é um boomerang mutável e necessário. Igualmente necessário é perceber que o tempo é o sempre, mesmo quando o sempre acaba e se torna numa memória que assim durará. O espaço pode transformar-se em vazio e o vazio pode abolir a matéria que deu forma à vivência, mas nem aí a lembrança se foi, somente porque o vazio é desenrolar do espaço que se fez. E aí, perdurará a memória, o rasto do tempo até ao limite que o é, deixando de o ser… tudo porque o tempo não é aquilo que criamos como tempo, mas apenas a explanação do início até ao sempre. E a lembrança da memória é isso mesmo, aquilo que fica para lá do que lembramos, a continuidade de tudo o que fomos como seres de memórias. Hoje, enquanto escrevo, lembro o que para trás disse, o que para trás ficou. Relembro o que deu origem à escrita que me faz escrever. Agi no cosmos como elemento comparticipante da intemporalidade, dei forma ao presente passado que mesmo que extinto fez faz e sempre fará parte daquilo que está para vir. O mundo pode ruir, vai ruindo num murmurar crescente que acabará em local indescritível mas continuidade daquilo que foi, mas mesmo assim, na outra forma que não sabemos existência, traços de memória demonstrarão o passado que sempre continuará e foi. Certamente não estaremos cá nesse tempo que não o nosso, mas as memórias permanecerão como são, restos capitais da importância que têm. E assim a lembrança é apenas a conclusiva peça dum puzzle gigantesco, a forma multiplicada dos presentes que nos foram oferecidos pelo passado que nos trouxe e que para sempre nos levará em si.(...)
domingo, outubro 21
A ESFERA*
“E eles passeiam-se pelo mundo com a sua imortalidade histórica e inadequada...”
Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.
Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.
Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.
Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.
Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.
Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.
Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.
A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!
Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!
Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.
E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.
Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.
Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.
Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.
Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.
Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.
* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.
TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:
"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."
Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.
Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.
Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.
Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.
Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.
Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.
Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.
A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!
Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!
Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.
E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.
Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.
Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.
Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.
Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.
Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.
* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.
TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:
"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."
quinta-feira, outubro 18
quarta-feira, outubro 10
E AFINAL DEUS EXISTE!
Mudei de ramo. Sou agora macaco noutro galho. Desta vez – mais uma experiência – sou técnico de montagem de elevadores. Nem sabem, é um sobe e desce constante. Depois de ir receber um cheque referente ao trabalho anterior, fui indicado para ir montar um elevador a uma dessas igrejas pós modernas em que a divindade aparece bem representada nas linhas que a sustentam. Escusado será dizer que nessa igreja existirá um elevador, para oito pessoas, talvez para elevá-las ao céu do todo-poderoso senhor. Prosseguindo. Não sou um gajo religioso e nem diabólico tampouco, mas hoje foi um dia em que a mão divina repousou sobre a minha cabeça, tal entidade não permitiu que eu trabalhasse da parte da manhã - os seus desígnios são supremos. A falta de andaimes demonstrou que era da sua vontade ver-me descansado a contemplar o esqueleto da sua construtiva casa. Hoje algo mudou. Sinto-me uma pessoa diferente e abençoada.
domingo, outubro 7
O NEVOEIRO DA MANHÃ
A manhã fez-se ao acordar
Como flor que acorda da terra húmida
E se esventra em poses miraculosas
Pelo rolar da estrada em que ando
O mundo não é mais do que um palmo
Um palmo cheio de tudo o que é a imaginação
A aura do nevoeiro paira a partir do que não vejo
O limite que nos dá
É o que não é
O invisível
Ganha asas
Sob os olhos da minha alma
Redesenho o horizonte
Para lá da barreira pluviosa
Escrevo em mente
A história do plano terrestre
Em formas magicadas pelo sonho
A mística do que não vejo
Assoma-me em proporções divinais
Na procura do mundo que quero
O destino chega até mim
Tudo se desdobra e mostra
Em liberdades que não tenho
A mão crava em sonho
A memória do que sinto.
Como flor que acorda da terra húmida
E se esventra em poses miraculosas
Pelo rolar da estrada em que ando
O mundo não é mais do que um palmo
Um palmo cheio de tudo o que é a imaginação
A aura do nevoeiro paira a partir do que não vejo
O limite que nos dá
É o que não é
O invisível
Ganha asas
Sob os olhos da minha alma
Redesenho o horizonte
Para lá da barreira pluviosa
Escrevo em mente
A história do plano terrestre
Em formas magicadas pelo sonho
A mística do que não vejo
Assoma-me em proporções divinais
Na procura do mundo que quero
O destino chega até mim
Tudo se desdobra e mostra
Em liberdades que não tenho
A mão crava em sonho
A memória do que sinto.
terça-feira, outubro 2
domingo, setembro 23
O RÍDICULO EM PODER MENOR
Depois do tudo que se passou a coisa tornou-se monstruosamente bela. Os pés parecidos com joelhos de elefante eram fonte aquosa de todas as preocupações cósmicas. Tudo se estendia num pranto libidinoso capaz de denegrir a pintura de unhas que o ministro trazia. A sua cabeça esponjosa era como uma melancia rachada por uma estrela decadente arrastada pelos oceanos profundos de memória coalhada. O seu sorriso era um corte transversal dum cavalo eunuco de raça árabe sangrento e até tresmalhado. As palavras eram rochas meridionais de cor arrozada, uma a uma, como gotas leitosas das mamas do gordo. A tribuna triturava-as ao ritmo duma máquina de pipocas em feira de psicopatas empertigados por roupas de cerimónia festiva. Os mitos eram demasiados para a capacidade do parlamento. Não dava para compreender o porquê de tudo aquilo. Se os malabaristas treinavam, porquê o rinoceronte listado pela polícia secreta? O caso começou a tornar-se demasiado enigmático ao ponto de se poder concluir que a chuva ácida é uma reacção natural à artificialidade de ser natural. Todos berravam e gesticulavam burburinhos em letras e cânones duma ferocidade atroz e igualmente adocicada. O mais alto dizia, “vai, vai, cai!” O da frente questionava, “então, então?” O mais gordo deitava um líquido estranho e doentio pelos bicos das suas mamas. Todos se conjugavam pelo manto encabeçado de cabeças ondulantes. Sentados em cadeiras pontiagudas e confortáveis, os rostos desfigurados, iam ouvindo através dos seus funis avermelhados de plástico sujo, “Iremos dar continuidade à desorganização da selva! Os leões continuarão a ter direito ao aperfeiçoamento da sua diarreia saudável e perfumada e os ratos serão aniquilados acutilantemente com o veneno retirado, pelos nossos piores cientistas loucos de meio palmo, das amígdalas do crocodilo albino da Papua Nova Guiné! Os canteiros serão aparados com canetas de feltro e os balões de ar quente serão um assunto delicado a ter em conta num futuro próximo de mim!...” ouviu-se urras, surras também, e até gritos duma excitação contagiosa e irrepreensível; continuava “Quanto às maçanetas das portas, referidas pelo senhor depurado, continuaremos a apostar nas arredondadas e escorregadias, precisamos primordialmente delas assim, brilhantes e engenhosas como bem precisamos!” O auditório ia quase caindo, as palmas salgadas desenhavam ondas corpóreas pelos poucos e ardentes espaços vazios. A onda elevou-se à altura da montanha espinhosa, as cabeças chocaram como chocalhos umas nas outras, e o porteiro, espalmado e seguro, disse com o seu vozeirão húmido entre grunhidos e elevações suadas para quem o ladeava “Era dum ministro destes que estávamos a precisar! Determinado e conciso como uma alheira a cair na sanita! Arrependo-me profundamente mal de não ter votado nele…” em jeito de resposta o indígena ouvinte da sua direita disse “Deixa lá, ele está no poder apesar dos seus suportes para parede serem um pouco fracos, sem encadernados ele era um anjinho careca, e nós deste lado não queremos cá disso, não queremos esquisitices embrulhadas! Ele é o maior, até me dá vertigens, hei-de trepar a montanha também!”. Era uma sala estranha aquela, nas paredes acastanhadas, cactos horizontais, carapaças de caranguejos envernizadas a pincel e molduras de estrelas enterradas do céu, um dos fotografados sorria com um pepino na mão, por baixo em pé rotativo dizia HOJE SALADA DE PEPINO AMANHÃ O MESMO. Ao fundo da sala uma pequena porta para a rua cheia de cantis e barris de pólvora extenuada. Ao lado, um homem alto anterior falante, mais alto que a própria e fria altura do ano, dizia a todos os depurados um obrigado e volte sempre com as suas ideias magicadas e as suas perguntas ridículas e despropositadas. Sorriam todos à saída como quem acabou de sair dum show de contorcionistas ébrios pelo ar respirado a bombadas capitais. Lá fora as rodas com caixas de fruta para proteger da chuva corrosiva esperavam por eles, tinham todas a mesma forma, só variava a fruta estilizada, banana, laranja, cereja, morango e até uma caixa de mangas! Uma fila indiana ordenava por valor vitamínico as suas posições. A caixa da frente era para a sua excelência ministerial. Amarrada à antena do rádio trazia uma daquelas fitas que se põe nos casamentos, amarradas ao pára-choques latas tilintantes de cerveja americana. Todos já a postos em direcção ao copo de água partiram felizes debaixo de buzinadelas e arroz amarelado pela chuva. Destino, cemitério. Por lá comeriam e pediriam facturas para apresentar na sua grande e comunitária empresa governamental.
O banquete bem regado a mijo periódico de vaca tornou-se numa orgia tresloucada e quente. O ministro à vez foi levando no seu buraco negro como forma de agradecimento pelo seu discurso completo e indicado à romaria antecedente. Gritava de prazer enquanto todos, quase sem tirar nem pôr, se deliciavam com o digestivo aprofundado da sua vontade. Era um descambar político e típico. Homens nus e sem complexos. Senhores das suas atitudes descaradas mas aprazíveis e aceitáveis por todos numa comunidade sem preconceitos entre si. O cemitério nunca tinha vivido tal coisa, os mortos batiam palmas adormecidos e castrados pelo que lhes foi entregue em prato porcelana de tempo rolado e rebolado. Até que, uma voz falou mais alto que os gemidos, “Mas o que é isto?!? Não têm vergonha na cara?” pararam todos, o ministro respirou fundo, disse algo imperceptível devido ao ofegar desconcertante, todos se riram, o homem não soube o que dizer, era coveiro! Mudo, decidiu enterrá-los a todos mesmo sabendo que das suas mortes enclausuradas outros seguidores avantajados surgiriam das escolas em que estudavam e ensinavam a ser assim.
O banquete bem regado a mijo periódico de vaca tornou-se numa orgia tresloucada e quente. O ministro à vez foi levando no seu buraco negro como forma de agradecimento pelo seu discurso completo e indicado à romaria antecedente. Gritava de prazer enquanto todos, quase sem tirar nem pôr, se deliciavam com o digestivo aprofundado da sua vontade. Era um descambar político e típico. Homens nus e sem complexos. Senhores das suas atitudes descaradas mas aprazíveis e aceitáveis por todos numa comunidade sem preconceitos entre si. O cemitério nunca tinha vivido tal coisa, os mortos batiam palmas adormecidos e castrados pelo que lhes foi entregue em prato porcelana de tempo rolado e rebolado. Até que, uma voz falou mais alto que os gemidos, “Mas o que é isto?!? Não têm vergonha na cara?” pararam todos, o ministro respirou fundo, disse algo imperceptível devido ao ofegar desconcertante, todos se riram, o homem não soube o que dizer, era coveiro! Mudo, decidiu enterrá-los a todos mesmo sabendo que das suas mortes enclausuradas outros seguidores avantajados surgiriam das escolas em que estudavam e ensinavam a ser assim.
quinta-feira, setembro 20
ANGOLA
Entrou no Angola
Pelo passo trocado que o trazia a si
Era belo, de leste, alto como um cipreste
A sua face característica, era homem pelos quarenta anos
Sentou-se na mesa de olhar inflamado
Pelo sentido tão seu que o fazia sozinho
Contou o trocado que era do seu bolso, suspirou
Pediu uma cerveja, uma cerveja veio até si;
Sorriu, demencialmente, sob o olhar inflamado dos seus espelhos
A garrafa transcendeu-o, olhou em volta, fitou-a com amor.
Tresloucado pelo que o tinha levado a ser assim feliz
Pegou em três moedas miúdas, pousou-as sobre o gargalo magro a cobre
Dedilhou o ar que rodeava o anel prestes ser humedecido
Gargalhou, girou os olhos em redor, baixou a cabeça em jeito de desespero
Começou a bufar para o peso das moedas, gargalhava, seus olhos reviravam suavemente
Minha mãe a meu lado, alheia à minha introspecção
Estava então a chorar quando me apercebi
Bebeu um gole de cerveja sua amada, e mirou-a, orgulhoso
Ao longe, da mesa a sair, uma velhinha manchada com o seu hereditário
Cambaleava rumo à sua saída para a noite quente
Toquei no ombro da minha doce origem,
Questionei o que se passava com a sua face humedecida a sal
Nada, nada.
Que vai em ti?!?
Nada, nada meu filho!...
Foi aquela senhora que vai a sair?
Sim meu querido, uma memória fresca de tua avó faz-me chorar…
Oh… deixa, preferias que ela estivesse viva?
Preferia a tudo neste mundo
Então mantém-na animada e viva em ti, não a lembres plácida…
Sorriu-me sob o brilho das suas lágrimas…
Dei-lhe espaço para pensar
Olhei em frente; o ser extraordinário olhava para nós
Sorriu… um sorriso diferente
Perdeu então o seu jeito demente
A compreensão é o que guia,
Retribuo tal imagem, reforça o seu rasgo de humanidade
Questiono a loucura que se respira nas horas do relógio
As pessoas que se acotovelam para voltar a vê-lo jocosas
Devaneando sob as luz duma incompreensão geral.
Levanto-me, cumprimento-o, a sua mão é forte
O toque carnal fá-lo sentir homem que é
Choro já pelo caminho dos meus passos leves
Lágrimas secas de tudo o que me é dado a saborear
Percebo que a distância é como um barco à vela
Afasta-nos e junta-nos, conforme o sabor do vento quer…
Pelo passo trocado que o trazia a si
Era belo, de leste, alto como um cipreste
A sua face característica, era homem pelos quarenta anos
Sentou-se na mesa de olhar inflamado
Pelo sentido tão seu que o fazia sozinho
Contou o trocado que era do seu bolso, suspirou
Pediu uma cerveja, uma cerveja veio até si;
Sorriu, demencialmente, sob o olhar inflamado dos seus espelhos
A garrafa transcendeu-o, olhou em volta, fitou-a com amor.
Tresloucado pelo que o tinha levado a ser assim feliz
Pegou em três moedas miúdas, pousou-as sobre o gargalo magro a cobre
Dedilhou o ar que rodeava o anel prestes ser humedecido
Gargalhou, girou os olhos em redor, baixou a cabeça em jeito de desespero
Começou a bufar para o peso das moedas, gargalhava, seus olhos reviravam suavemente
Minha mãe a meu lado, alheia à minha introspecção
Estava então a chorar quando me apercebi
Bebeu um gole de cerveja sua amada, e mirou-a, orgulhoso
Ao longe, da mesa a sair, uma velhinha manchada com o seu hereditário
Cambaleava rumo à sua saída para a noite quente
Toquei no ombro da minha doce origem,
Questionei o que se passava com a sua face humedecida a sal
Nada, nada.
Que vai em ti?!?
Nada, nada meu filho!...
Foi aquela senhora que vai a sair?
Sim meu querido, uma memória fresca de tua avó faz-me chorar…
Oh… deixa, preferias que ela estivesse viva?
Preferia a tudo neste mundo
Então mantém-na animada e viva em ti, não a lembres plácida…
Sorriu-me sob o brilho das suas lágrimas…
Dei-lhe espaço para pensar
Olhei em frente; o ser extraordinário olhava para nós
Sorriu… um sorriso diferente
Perdeu então o seu jeito demente
A compreensão é o que guia,
Retribuo tal imagem, reforça o seu rasgo de humanidade
Questiono a loucura que se respira nas horas do relógio
As pessoas que se acotovelam para voltar a vê-lo jocosas
Devaneando sob as luz duma incompreensão geral.
Levanto-me, cumprimento-o, a sua mão é forte
O toque carnal fá-lo sentir homem que é
Choro já pelo caminho dos meus passos leves
Lágrimas secas de tudo o que me é dado a saborear
Percebo que a distância é como um barco à vela
Afasta-nos e junta-nos, conforme o sabor do vento quer…
quinta-feira, setembro 13
VERGÍLIO A DESCASCAR A MELANCIA
(...) Estou parado à varanda, dos quatro pontos cardeais. Uma sarrabulhada de vozes, aturdem-me. Por entre a balbúrdia, uma outra voz mais alta. As que falam dos deuses todos em torrente de ecos pelo espaço, por entre um fervor de ladainhas. E das divindades subalternas, mais chegadas à humanidade, para socorro das desgraças proletárias, desde o antraz e o coice de mula à espinhela caída - com a casquinada crítica dos descrentes evoluídos, ressoa pelo espaço, entremeada à devoção como um grasnar de corvos. A dos políticos salvadores da humanidade num histerismo com receitas prontas a aviar e a defesa aos guinchos da liberdade e da autoridade, que são iguais mas muitíssimo diferentes, porque a defesa da liberdade obriga a defendê-la dos que são contra a liberdade e exige pois uma autoridade de ferro para defendê-la, da propriedade e do ideal comunitário e comunitarismo em escalões, da gestão, autogestão, e semiautogestão, do direito à informação e que tem de ser por isso desinformação por virtude do direito à informação e que tem que ser por isso informação correcta e deixa assim de ser direito à informação que todavia ainda é esse direito mas melhorado embora não seja já direito à informação por que não ter esse direito, do direito à cultura que é só a boa cultura porque a má cultura é contra a boa e já não é cultura e precisa de ser afastada para salvaguarda do povo que gosta de má cultura pelo vício intrínseco de ser povo que precisa portanto de ser defendido contra si para não ser ele mas por aqueles que defendem a boa e podem defendê-la por virtude de ser mandatados pelo povo que não gosta de boa mas da outra, do direito ao trabalho que não é o dever de trabalhar, excepto quando os que defendem esse direito, mandatados pelos que não têm esse direito, conquistam o direito de imporem esse direito que é então um dever e os que não tinham esse direito já não querem, porque o direito e o dever estão cheios de antagonismos, e a defesa da democracia popular da democracia parlamentar e da democracia orgânica, da república da monarquia da oligarquia.
- Estai calados, estupores!
e da centralização, da descentralização e da anarquia, do presidencialismo do semipresidencialismo da regionalização e das autarquias locais, do primado do grupo, do primado do indivíduo, do primado da identidade nacional, e a interpretação das leis filtradas trabalhosamente pelos ódios ambições ralhos partidários dos que foram comissianados pela vontade colectiva esquadriada pelos grupos que os sonhos e ambições e ódios esquadriam e foram apurados depois de dias e semanas e meses e saíram depois ainda com uma rede intervalada orifícios por onde se escaparam ainda em ginástica de rins as ambições teorias princípios salvadores do bem comum que ficaram de fora dos princípios do bem comum em que se entreteceu a rede de leis, enquanto de outros cantos do mundo outras leis contrárias também para o bem comum erguiam-se em grita e doutros cantos outras também para benifício de ser-se em colectividade, cruzadas vozes por cima trémulas de ardor e histeria, embatiam umas nas outras esguichavam como ondas que se entrecruzam pulverizavam-se num ruído anónimo de arraial popular.
- Estai calados, desgraçados!
e foi quando os filósofos. Eram tecnicistas especializados precisos, confusos enrodilhados subtilíssimos, falavam de deus que não havia mas havia embora não houvesse, e da liberdade inteira do homem determinada pelas circunstâncias históricas e pelas glândulas e pela vontade dos outros homens que eram livres e determinados por outras, e falavam do espírito e da matéria que era o espírito de uma maneira que não o era, e da consciência do homem que era inconsciente, e da quantificação do inquantificável que se quantifica por essa quantificação mas não podia, e da explicação do inexplicável que ficava explicável pela palavra que era o nome no inexplicável para ser explicação, e de outras palavras que formavam crosta por cima para tapar tudo o que era intapável e ficava por baixo mas não se via e era como se não ficasse,
- Ide todos À merda!
e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstânciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões e da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapasssada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado.
- Para a puta que vos pariu!
e foi quando outra vez os pregadores da religião. Mas eu já mal os ouço. Nos intervalos da minha atenção avulsa, Deus e o destino do homem - que destino é o teu? aqui, só, filtrado através de todas as ilusões, e a necessidade de justificar uma vida quem se não Deus? e a citação dos tratadistas desde o motor imóvel e metafísico do grego, e outra vez a casquinada alegre dos antimetafísicos, e o murmúrio longínquo da beatas velhas a reazar o padre-nosso, e os métodos novos e tecnocráticos, ou de pressão psicológica para se chegar à divindade, enquanto em frente, estou parado à varanda, pesada massa imensa a montanha desnudada à aridez, e os que pregam um Deus intratrável cheio de fígados coléricos, e os que pregam um Deus porreiro cheio de comunicação proletária que vai connosco aos comícios aos cafés e às putas, e os que dizem outra vez que a matéria é que, os que espremem todas as religiões para terem um Deus sintético e os que aproveitam essas escorralhas para fabricarem deuses avulsos corriqueiros e entremeados a todo o ser de circunstância, os que fabricam religiões novas com abaixo-assinados, e os pregadores dos malefícios da religião através dos tempos e do seu ódio vesgo ao progresso, e os pregadores dos benefícios da religião e do seu amor ao progresso com o exemplo dos grandes sábios que vergavam a cerviz e diziam «eu creio», enquanto os outros com outros sábios quem não diziam nem vergavam, estou imóvel à varanda, na tarde paralizada de calor - e foi quando os artistas.
- Espera. Faltavam agora ainda estes, os artistas. Que é que vós quereis, meus bardamerdas?
Queriam coisas, queriam também dizer coisas. E imediatamente um murmúrio larvar, ia crescendo, com esguichos histéricos aqui e além, depois foi a gritaria. Mas eu não quero ouvir. Fecho mesmo a varanda, não quero. Mas eles desvairam aos gritos, deve haver grossa pancadaria para as bandas da cultura. Devem ter vindo os mortos a ajudar. Dizem nomes bárbaros, é a barbaridade da nossa condição. Suprematismo, pois, pois. E orfismo purismo simultaneísmo oh, oh. E rayonismo neoplasticismo. E uma voz escura já cavernosa, cubismo,fauvismo eh, eh. E umas vozes raquíticas em falsete, a pregação do vazio programático o nulismo. E o sitismo que era a pregação contra a existência do quadro e a defesa apenas e intransigente do sítio dele na parede - e os poetas. A defesa do regresso às formas poéticas de base que um jocoso crismou de parolice e que ficou o parolismo. E o baralhismo que baralhava muitas palavras e as atirava ao ar e caíam em forma de poema - e o saquismo. Que era metê-las num saco para as tirar ao acaso da inspiração, e o mudismo. Que era a poesia muda em livros em branco. E o canalhismo que era uma poesia ordinária para as classes mais desfavorecidas. E o caralhismo, cujo o chefe de fila era o célebre autor de «Caralhícolas», e que era uma poesia ainda mais ordinária.
- Ide berrar para as profundas do inferno!
e o panacismo que considerava o pânico como medida fundamental do sentimento - e foi quando os músicos
- Não quero! Não quero!
tapei os ouvidos - meu Deus. Estou assim algum tempo, destapo os ouvidos, havia ainda atrasados os romancistas. E os arquitectos, urbanistas. Os pedagogos, os cientistas. E os críticos.
Na tarde abrasada desértica.
E os técnicos publicitários. E os técnicos dos cemitérios.
Na tarde imóvel à praga do calor. Uma voz canta ao longe - canta? Não a ouço. Na tarde de minha condenação.
E os economistas." (...)
Vergílio Ferreira, em Para Sempre
- Estai calados, estupores!
e da centralização, da descentralização e da anarquia, do presidencialismo do semipresidencialismo da regionalização e das autarquias locais, do primado do grupo, do primado do indivíduo, do primado da identidade nacional, e a interpretação das leis filtradas trabalhosamente pelos ódios ambições ralhos partidários dos que foram comissianados pela vontade colectiva esquadriada pelos grupos que os sonhos e ambições e ódios esquadriam e foram apurados depois de dias e semanas e meses e saíram depois ainda com uma rede intervalada orifícios por onde se escaparam ainda em ginástica de rins as ambições teorias princípios salvadores do bem comum que ficaram de fora dos princípios do bem comum em que se entreteceu a rede de leis, enquanto de outros cantos do mundo outras leis contrárias também para o bem comum erguiam-se em grita e doutros cantos outras também para benifício de ser-se em colectividade, cruzadas vozes por cima trémulas de ardor e histeria, embatiam umas nas outras esguichavam como ondas que se entrecruzam pulverizavam-se num ruído anónimo de arraial popular.
- Estai calados, desgraçados!
e foi quando os filósofos. Eram tecnicistas especializados precisos, confusos enrodilhados subtilíssimos, falavam de deus que não havia mas havia embora não houvesse, e da liberdade inteira do homem determinada pelas circunstâncias históricas e pelas glândulas e pela vontade dos outros homens que eram livres e determinados por outras, e falavam do espírito e da matéria que era o espírito de uma maneira que não o era, e da consciência do homem que era inconsciente, e da quantificação do inquantificável que se quantifica por essa quantificação mas não podia, e da explicação do inexplicável que ficava explicável pela palavra que era o nome no inexplicável para ser explicação, e de outras palavras que formavam crosta por cima para tapar tudo o que era intapável e ficava por baixo mas não se via e era como se não ficasse,
- Ide todos À merda!
e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstânciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões e da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapasssada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado.
- Para a puta que vos pariu!
e foi quando outra vez os pregadores da religião. Mas eu já mal os ouço. Nos intervalos da minha atenção avulsa, Deus e o destino do homem - que destino é o teu? aqui, só, filtrado através de todas as ilusões, e a necessidade de justificar uma vida quem se não Deus? e a citação dos tratadistas desde o motor imóvel e metafísico do grego, e outra vez a casquinada alegre dos antimetafísicos, e o murmúrio longínquo da beatas velhas a reazar o padre-nosso, e os métodos novos e tecnocráticos, ou de pressão psicológica para se chegar à divindade, enquanto em frente, estou parado à varanda, pesada massa imensa a montanha desnudada à aridez, e os que pregam um Deus intratrável cheio de fígados coléricos, e os que pregam um Deus porreiro cheio de comunicação proletária que vai connosco aos comícios aos cafés e às putas, e os que dizem outra vez que a matéria é que, os que espremem todas as religiões para terem um Deus sintético e os que aproveitam essas escorralhas para fabricarem deuses avulsos corriqueiros e entremeados a todo o ser de circunstância, os que fabricam religiões novas com abaixo-assinados, e os pregadores dos malefícios da religião através dos tempos e do seu ódio vesgo ao progresso, e os pregadores dos benefícios da religião e do seu amor ao progresso com o exemplo dos grandes sábios que vergavam a cerviz e diziam «eu creio», enquanto os outros com outros sábios quem não diziam nem vergavam, estou imóvel à varanda, na tarde paralizada de calor - e foi quando os artistas.
- Espera. Faltavam agora ainda estes, os artistas. Que é que vós quereis, meus bardamerdas?
Queriam coisas, queriam também dizer coisas. E imediatamente um murmúrio larvar, ia crescendo, com esguichos histéricos aqui e além, depois foi a gritaria. Mas eu não quero ouvir. Fecho mesmo a varanda, não quero. Mas eles desvairam aos gritos, deve haver grossa pancadaria para as bandas da cultura. Devem ter vindo os mortos a ajudar. Dizem nomes bárbaros, é a barbaridade da nossa condição. Suprematismo, pois, pois. E orfismo purismo simultaneísmo oh, oh. E rayonismo neoplasticismo. E uma voz escura já cavernosa, cubismo,fauvismo eh, eh. E umas vozes raquíticas em falsete, a pregação do vazio programático o nulismo. E o sitismo que era a pregação contra a existência do quadro e a defesa apenas e intransigente do sítio dele na parede - e os poetas. A defesa do regresso às formas poéticas de base que um jocoso crismou de parolice e que ficou o parolismo. E o baralhismo que baralhava muitas palavras e as atirava ao ar e caíam em forma de poema - e o saquismo. Que era metê-las num saco para as tirar ao acaso da inspiração, e o mudismo. Que era a poesia muda em livros em branco. E o canalhismo que era uma poesia ordinária para as classes mais desfavorecidas. E o caralhismo, cujo o chefe de fila era o célebre autor de «Caralhícolas», e que era uma poesia ainda mais ordinária.
- Ide berrar para as profundas do inferno!
e o panacismo que considerava o pânico como medida fundamental do sentimento - e foi quando os músicos
- Não quero! Não quero!
tapei os ouvidos - meu Deus. Estou assim algum tempo, destapo os ouvidos, havia ainda atrasados os romancistas. E os arquitectos, urbanistas. Os pedagogos, os cientistas. E os críticos.
Na tarde abrasada desértica.
E os técnicos publicitários. E os técnicos dos cemitérios.
Na tarde imóvel à praga do calor. Uma voz canta ao longe - canta? Não a ouço. Na tarde de minha condenação.
E os economistas." (...)
Vergílio Ferreira, em Para Sempre
sexta-feira, setembro 7
DISCORDANDO COM RALPH W. EMERSON - A INSTRUÇÃO É INSUFICIENTE E ALIENANTE.
“Deviam parar com a demagogia sobre as massas. As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências. Não precisam de lisonjas mas de instrução”
Ao ler esta opinião de um tal Emerson discordo plenamente da sua sabedoria resignada. Respeito sempre uma opinião, mesmo quando discordo plenamente do seu conteúdo, e é aí, que o respeito pelo emissor se torna ainda maior. É-me dado um prazer respeitador imenso quando certas palavras que vão para além do homem que as escreveu fazem crescer em mim muitas outras palavras capazes de dar um sentido justificado para com aquilo com o qual não concordo. Sendo assim, é inevitável dizer o seguinte:
A demagogia é coisa feia, horripilante até, como tal, tal opinião não passa disso mesmo, DEMAGOGIA, e pior do que isso, acrescentando eu à frente a palavra RESIGNADA, tudo fica ainda mais assustador. Quero eu com isto concordar que “As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências”. Se assim é, pode não ser, é apenas a minha e a opinião desse tal de Emerson que se insere tristemente nas massas que são tudo aquilo que as suas palavras descrevem… Tal pensador devia ser sem dúvida nenhuma um homem limitado aos seus estudos e à sua curta observação. Tristemente pode-se dizer que a sua preparação para a vida era insuficiente para poder perceber o que realmente se passava no seu mundo que era o de todos. Ignorante também o era pelos vistos… Sem me alongar prometo que dará para perceber mais adiante. Continuando. Tal senhor digno de tal nome arrastado pela memória a que chamamos de História deve ter sido em vida homem de grandes feitos e escritos, homem carregado de dom e consequentemente lisonjeado por outros instruídos como ele. Forçosamente, uma dúvida levanta-se:
De que serviram as suas opiniões e reivindicações?
De nada certamente! Encheu o seu universo pessoal de prazeres, de pequenas coisas necessárias ao desenrolar duma vida, mas no entanto, esta sua afirmação de resignado, denota que algo lhe faltou, um certo descontentamento cresceu, algo que lhe fugiu da sua compreensão instruída. Não quero eu com estas dilações demonstrar-me como um ser iludido que transcende tal notável pensador, nada disso! Sou apenas um homem, ou um jovem, uma partícula numa massa disforme que conclusivamente não tem instrução suficiente para compreender o que quer que seja… mas uma coisa é certa, tanto em mim jovem partícula das massas rudes, como em Emerson, como até nas “massas perniciosas em suas reivindicações e influências” o descontentamento é grande, por muito escondido e dissimulado que esteja. Isso… é certo! Por muitas dúvidas que me consumam avidamente, as massas elitistas, intelectuais, normais e outras coisas que tais, tem esse sentimento em comum, sentem que algo falta que dê verdadeiro sentido à existência, nem que seja segmentada e misteriosamente. Sentem que os carris estão tortos e enferrujados. Mas no entanto, a massa maior, a dos pouco ou nada instruídos, a massa rude sem preparação e ignorante, vive à custa dos lisonjeados, vive sob o padrão que lhes é entregue por mãos preparadas, instruídas, mas que no entanto e ironicamente são também ignorantes e rudes. Mais uma pergunta força a sua entrada neste texto:
De que serve então a instrução se não é capaz de dar vida às massas ignorantes?
Embora a instrução seja importante, outras necessidades se levantam. Precisam-se é de seres com força suficiente para convencer as massas. Precisam-se de palavras. De atitudes. É fundamental encontrar os meios para abater a resignação.
De que nos serve acreditar nas massas quando em nós próprios não acreditamos?
Foi essa interrogação pessoal que abateu Emerson – fê-lo não acreditar em si próprio – só isso pode ter sido o motivo para esta sua saída (de) infeliz. Nunca acreditou na sua força como segmento duma força maior à espera de um propulsor que ainda não foi encontrado. E esse seu grave problema, é apenas o símbolo-escrito dos problemas que assolam os homens instruídos e resignados que apesar da sua instrução e consequente opinião não conseguem provar que a instrução é o único caminho capaz de dar um sentido plausível e adequado às massas rudes e ignorantes. E se isso acontece, a razão é simples e perniciosa: é porque a instrução pela qual apregoam como fanáticos religiosos cheios de preconceitos, de nada serve, até conseguirem uma prova que contrarie esta minha última rude e ignorante afirmação.
Entretanto, mais uma pergunta se impõe:
Qual a demagogia que se adequa mais àquilo que verdadeiramente se procura, a minha de rude-ignorante que quer acreditar na força das massas em vez de as iludir, ou a de Emerson e de todos os outros semelhantes instruídos-resignados, que não são mais que rodas de comboio-social-fantasma?...
E agora, para concluir, deixo mais uma citação deste surpreendente ensaísta e poeta norte-americano:
“Entregar-se de corpo e alma; lutar por um mundo melhor, um pequeno jardim, ou uma condição social justa; ter brincado e gargalhado com entusiasmo e cantado com fervor; saber que alguém respira mais aliviado por você estar vivo; isso é ter vencido.”
Concluindo de vez, uma coisa é certa: apesar de não ter acreditado e ter visto as massas à sua imagem, foi sem dúvida alguma um homem de palavras bonitas.
Ao ler esta opinião de um tal Emerson discordo plenamente da sua sabedoria resignada. Respeito sempre uma opinião, mesmo quando discordo plenamente do seu conteúdo, e é aí, que o respeito pelo emissor se torna ainda maior. É-me dado um prazer respeitador imenso quando certas palavras que vão para além do homem que as escreveu fazem crescer em mim muitas outras palavras capazes de dar um sentido justificado para com aquilo com o qual não concordo. Sendo assim, é inevitável dizer o seguinte:
A demagogia é coisa feia, horripilante até, como tal, tal opinião não passa disso mesmo, DEMAGOGIA, e pior do que isso, acrescentando eu à frente a palavra RESIGNADA, tudo fica ainda mais assustador. Quero eu com isto concordar que “As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências”. Se assim é, pode não ser, é apenas a minha e a opinião desse tal de Emerson que se insere tristemente nas massas que são tudo aquilo que as suas palavras descrevem… Tal pensador devia ser sem dúvida nenhuma um homem limitado aos seus estudos e à sua curta observação. Tristemente pode-se dizer que a sua preparação para a vida era insuficiente para poder perceber o que realmente se passava no seu mundo que era o de todos. Ignorante também o era pelos vistos… Sem me alongar prometo que dará para perceber mais adiante. Continuando. Tal senhor digno de tal nome arrastado pela memória a que chamamos de História deve ter sido em vida homem de grandes feitos e escritos, homem carregado de dom e consequentemente lisonjeado por outros instruídos como ele. Forçosamente, uma dúvida levanta-se:
De que serviram as suas opiniões e reivindicações?
De nada certamente! Encheu o seu universo pessoal de prazeres, de pequenas coisas necessárias ao desenrolar duma vida, mas no entanto, esta sua afirmação de resignado, denota que algo lhe faltou, um certo descontentamento cresceu, algo que lhe fugiu da sua compreensão instruída. Não quero eu com estas dilações demonstrar-me como um ser iludido que transcende tal notável pensador, nada disso! Sou apenas um homem, ou um jovem, uma partícula numa massa disforme que conclusivamente não tem instrução suficiente para compreender o que quer que seja… mas uma coisa é certa, tanto em mim jovem partícula das massas rudes, como em Emerson, como até nas “massas perniciosas em suas reivindicações e influências” o descontentamento é grande, por muito escondido e dissimulado que esteja. Isso… é certo! Por muitas dúvidas que me consumam avidamente, as massas elitistas, intelectuais, normais e outras coisas que tais, tem esse sentimento em comum, sentem que algo falta que dê verdadeiro sentido à existência, nem que seja segmentada e misteriosamente. Sentem que os carris estão tortos e enferrujados. Mas no entanto, a massa maior, a dos pouco ou nada instruídos, a massa rude sem preparação e ignorante, vive à custa dos lisonjeados, vive sob o padrão que lhes é entregue por mãos preparadas, instruídas, mas que no entanto e ironicamente são também ignorantes e rudes. Mais uma pergunta força a sua entrada neste texto:
De que serve então a instrução se não é capaz de dar vida às massas ignorantes?
Embora a instrução seja importante, outras necessidades se levantam. Precisam-se é de seres com força suficiente para convencer as massas. Precisam-se de palavras. De atitudes. É fundamental encontrar os meios para abater a resignação.
De que nos serve acreditar nas massas quando em nós próprios não acreditamos?
Foi essa interrogação pessoal que abateu Emerson – fê-lo não acreditar em si próprio – só isso pode ter sido o motivo para esta sua saída (de) infeliz. Nunca acreditou na sua força como segmento duma força maior à espera de um propulsor que ainda não foi encontrado. E esse seu grave problema, é apenas o símbolo-escrito dos problemas que assolam os homens instruídos e resignados que apesar da sua instrução e consequente opinião não conseguem provar que a instrução é o único caminho capaz de dar um sentido plausível e adequado às massas rudes e ignorantes. E se isso acontece, a razão é simples e perniciosa: é porque a instrução pela qual apregoam como fanáticos religiosos cheios de preconceitos, de nada serve, até conseguirem uma prova que contrarie esta minha última rude e ignorante afirmação.
Entretanto, mais uma pergunta se impõe:
Qual a demagogia que se adequa mais àquilo que verdadeiramente se procura, a minha de rude-ignorante que quer acreditar na força das massas em vez de as iludir, ou a de Emerson e de todos os outros semelhantes instruídos-resignados, que não são mais que rodas de comboio-social-fantasma?...
E agora, para concluir, deixo mais uma citação deste surpreendente ensaísta e poeta norte-americano:
“Entregar-se de corpo e alma; lutar por um mundo melhor, um pequeno jardim, ou uma condição social justa; ter brincado e gargalhado com entusiasmo e cantado com fervor; saber que alguém respira mais aliviado por você estar vivo; isso é ter vencido.”
Concluindo de vez, uma coisa é certa: apesar de não ter acreditado e ter visto as massas à sua imagem, foi sem dúvida alguma um homem de palavras bonitas.
sábado, agosto 25
A MINHA RUA
Extorquia igual miúdo enquanto sorria demencialmente
Era desde cedo filho das ruas da urbe
Argolas nas orelhas e boné para marcar atitude
Peito feito e inchado pelo medo que queria rejeitar
Seu pai borrachola e violento por acréscimo
Era homem rijo dos velhos tempos
Bigode e linhas pesadas davam-lhe forma à face
Sua mãe submissa e trabalhadora era uma verosímil senhora
Aos seis era uma cria citadina em crescente
Não havia mãos para o segurarem
Era liberdade posta e justa pela velocidade de tudo
Viu de tudo fez de igual
Moldou-se às necessidades da selva
Cresceu ao ritmo imposto e compreendido por si.
O carro rufa pelas concavidades das suas ruas apodrecidas
Seu motor violento sincroniza-se com a vontade
Os movimentos acentuam-se na cor que dão à noite
Por animais sem consciência do que fazem
Como verdadeiros que agem no seu prol egoísta e natural
O artifício já não é contrário natural
É o mesmo o único
É o desenrolar do que vive
O medo é o contrário reflexo
Fecha os olhos com olhos abertos
Ao que transforma a situação
Age perante o que tem.
Era desde cedo filho das ruas da urbe
Argolas nas orelhas e boné para marcar atitude
Peito feito e inchado pelo medo que queria rejeitar
Seu pai borrachola e violento por acréscimo
Era homem rijo dos velhos tempos
Bigode e linhas pesadas davam-lhe forma à face
Sua mãe submissa e trabalhadora era uma verosímil senhora
Aos seis era uma cria citadina em crescente
Não havia mãos para o segurarem
Era liberdade posta e justa pela velocidade de tudo
Viu de tudo fez de igual
Moldou-se às necessidades da selva
Cresceu ao ritmo imposto e compreendido por si.
O carro rufa pelas concavidades das suas ruas apodrecidas
Seu motor violento sincroniza-se com a vontade
Os movimentos acentuam-se na cor que dão à noite
Por animais sem consciência do que fazem
Como verdadeiros que agem no seu prol egoísta e natural
O artifício já não é contrário natural
É o mesmo o único
É o desenrolar do que vive
O medo é o contrário reflexo
Fecha os olhos com olhos abertos
Ao que transforma a situação
Age perante o que tem.
quarta-feira, agosto 22
SER NA NOITE
Caminhava pela rua perdido em devaneios, seus olhos pesados e acastanhados deixavam brilhar o que rodeava. Os seus passos, serenos, eram como levianas pingas de chuva. Trazia pouca roupa, uma camisa desbotada, umas calças rotas e uns sapatos que estavam em contacto directo com a pele dos seus pés. Não tinha ninguém, apenas um sorriso cheio de tudo aquilo que via em volta, as pessoas, os movimentos da cidade, os pássaros, as arvores e tudo o demais. Não queria nada mais para além da possibilidade de respirar sem se aperceber. Já não tinha fome de nada, estava vazio como quem está cheio de tudo, bem dentro de si. A sua alma era como uma rede, durante anos de vida foi apanhando tudo o que lhe interessava em mar imenso, o que escapava era somente porque era peixe demasiado miúdo para bloquear no seu quadriculado espiritual. Pescou até se encher de tudo que lhe interessava. Até que um dia, cortou a rede, quis começar tudo de novo numa via diferente, já tinha bagagem despejada para tomar tal e capital atitude. Ali estava ele, pela cidade que fala para quem quer ouvir, no seu canto, o canto do teatro que era o degrau do seu quarto com vista para as estrelas. Nada o prendia, nem o mau cheiro, nem a segurança, nem mesmo a vontade. Era um verdadeiro senhor o que via quando parava em frente a um vidro. Era ele. O rosto era o mesmo, os olhos, o nariz, as bochechas, a boca… Era capaz de correr pelos cantos e recantos como o menino que tinha sido há já demasiado tempo. Nada o impedia. A miséria desculpava-o de tudo o que havia para demonstrar cinicamente. Debaixo do seu cartão, de visita, para quem passava e olhava curiosamente, apenas uns livros, uma manta purificada por noites de solidão contemplativa. Nem a luz dos candeeiros o incomodava na hora do sono, eram fonte luminosa para todo o tipo de leituras possíveis em noites de infinidades acontecidas. Os seus livros não tinham frases, nem linhas nem tampouco tinta. Eram livros abertos na escuridão de estar sozinho. Às vezes, como pérolas nunca vistas, conversas até amanhecer, páginas folheadas pela sonoridade das palavras. Sorrisos, gargalhadas, toques, olhares nas mais variadas das percepções interpretativas. Eram esses pequenos tesouros que o deixavam feliz como vagabundo que era. Sem casa, sem carro, sem televisão, sem quartos, prateleiras, sem nada -com tudo. Por vezes chorava, não se negava a necessidades fulcrais como esse acto altruísta de se deixar ser. Não sabia porque chorava. Chorava apenas por necessidade. O choro era para ele o acto contínuo de ser homem como todos os outros que passavam pelos seus dias.
segunda-feira, agosto 20
MÚSICA
“A música é a forma mais eficaz de contar histórias. (…) Porque «existe uma canção na tua dor». E há arte contra a dor. Entre a esperança e a realidade,” (…)
sexta-feira, agosto 17
A escrita é algo de pessoal transmissível, é um acto de identificação que une quem escreve sobre quem lê. Uma maneira de pensar como o requisito justificável para agir, torna-se força de quem escreve, como que uma chamada ao âmago de quem interpreta de livre vontade, por gosto. É um acto de altruísmo mútuo, uma mensagem e um eco do outro lado, um jogo de ecos desmultiplicados em estado instável mas repetidos até à verdade. Torna-se tudo claro entre nós, emissor e receptor, entre aquilo que só nós compreendemos de uma forma solitária, numa autêntica implosão introspectiva que nos faz girar concentricamente tolhendo-nos a acção como se não tivesse sido compreendido o necessário, o que nos faz sonhar até ao dia em que agimos em prol das pequenas coisas que poderiam ser diferentes, particularidades que nos descontentam, suposições do que poderia ser. Aí, a mensagem, por muito que dissimulada, seria assimilada à vontade do escritor, o descontente, o que procura preencher o seu tempo com o desejo de no mínimo perceber e constatar o que é o mundo de hoje, que embora retardado mesmo no passado continua a ser um olhar para o lado daquilo que queremos cada vez com menos noção das coisas, do geral, aquilo pelo qual sonhamos sós com os nossos botões. Aí concretiza-se um referido eco, um eco inaudível mediante uma superfície dura que teimamos em deixar de pé, como que um muro entre uma vontade e um grande propósito. Um muro tão alto que desmoraliza-nos só de olhar, como quem conclui: «nem tento, parece um demasiado alto!» Como se liberdade nos tivesse sido espremida como uma laranja fresca e progressivamente biológica, cada vez mais seca e inoperante, como se a mentira fosse verdade em tempos de liberdade anárquica.
O mundo é uma anarquia! Embora carregado de guloseimas várias e em suficiência para nos adocicar a boca, é um lugar em que a vontade colectiva encontra-se num estado simbolizado pelo abstracto imposto pela turbulência do futurismo instantâneo, ao ritmo de um corredor de saltos barreiras que não pula sobre as altas barras horizontais, tropeçando em todos os degraus sem perceber ao fim dos quantos tropeções que mais barreiras se interpõe pela frente e os mesmos tombos no precipício não nos deixam ganhar a corrida desvairada e reconfortante. A liberdade existe, dum quadrante ao outro, de propósito a propósito. É algo adquirido pelo homem lutador contra a barreira não limitadora que é o tempo. Hoje em dia, nas horas, minutos e segundos de acção selvática o limite não se limita a ele próprio, o limite está na formalidade ilimitada. O político age segundo os seus interesses, o prosaico ser elege-o de livre vontade e arrepende-se de tal eleição. O ritmo transtornado da locomotiva em que viajamos percorre um caminho sem rumo desgovernado pela liberdade de acção de quem torna bem real o que não quer para si enquanto individualista sonhador que não partilha das suas conclusões com o vizinho do lado que ouve música de mau gosto a som demasiado elevado. Mais uma vez uma parede interpõe-se. Uma fina parede. E quem fala numa, pensa irremediavelmente em todas as outras paredes frágeis que separam as pessoas na sua condição de humanos encaixotados e formatados, como se um simples soco arrebatador e explosivo não fosse suficiente para aniquilar a barreira que limita o descontentamento. Por enquanto vamos vivendo uma liberdade que não nos satisfaz. Seguindo trilhos cruzados que nos fazem chocar em nós, nas nossas contradições suficientes. Privando-nos livremente duma outra liberdade.
O mundo é uma anarquia! Embora carregado de guloseimas várias e em suficiência para nos adocicar a boca, é um lugar em que a vontade colectiva encontra-se num estado simbolizado pelo abstracto imposto pela turbulência do futurismo instantâneo, ao ritmo de um corredor de saltos barreiras que não pula sobre as altas barras horizontais, tropeçando em todos os degraus sem perceber ao fim dos quantos tropeções que mais barreiras se interpõe pela frente e os mesmos tombos no precipício não nos deixam ganhar a corrida desvairada e reconfortante. A liberdade existe, dum quadrante ao outro, de propósito a propósito. É algo adquirido pelo homem lutador contra a barreira não limitadora que é o tempo. Hoje em dia, nas horas, minutos e segundos de acção selvática o limite não se limita a ele próprio, o limite está na formalidade ilimitada. O político age segundo os seus interesses, o prosaico ser elege-o de livre vontade e arrepende-se de tal eleição. O ritmo transtornado da locomotiva em que viajamos percorre um caminho sem rumo desgovernado pela liberdade de acção de quem torna bem real o que não quer para si enquanto individualista sonhador que não partilha das suas conclusões com o vizinho do lado que ouve música de mau gosto a som demasiado elevado. Mais uma vez uma parede interpõe-se. Uma fina parede. E quem fala numa, pensa irremediavelmente em todas as outras paredes frágeis que separam as pessoas na sua condição de humanos encaixotados e formatados, como se um simples soco arrebatador e explosivo não fosse suficiente para aniquilar a barreira que limita o descontentamento. Por enquanto vamos vivendo uma liberdade que não nos satisfaz. Seguindo trilhos cruzados que nos fazem chocar em nós, nas nossas contradições suficientes. Privando-nos livremente duma outra liberdade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




