terça-feira, agosto 19

THE STRANGER SONG

CENTRO DE DESEMPREGO

Se só as costas vergassem
As mãos não suariam. Dizia isto
Enquanto aguardava a sua chamada
Deveria ter uns quarenta anos
Sentia-se perdido, sempre trabalhara
Até então. Na mão, uma senha denunciava
O peso dos números. Na sala
Outros também, a incerteza não espera.
Continuava. Ao menos esta oportunidade
Incerta, claro, é um cartucho a ser queimado
Um último capaz de me devolver à luta
Foi para isto que nasci e cresci, para trabalhar
E agora que me falha, talvez esta senha.

Ao lado, uma senhora ouvia, os seus olhos
Brilhavam enquanto olhava para a sua B46.

No plasma, a lotaria sonora ia fingindo ofícios.

segunda-feira, agosto 18

O GUARDADOR DE SÍMBOLOS





















Olhar uma foto da cidade
Um quadrado estagnado
Tem muito que se lhe diga
Muito mesmo. Cidade de luz
E urbanística é engano.
Uma imagem cofre
Que agarre pelos cabelos
É do que falo. A vida
Sem filtros, concisa e
Aparentemente perfeita
Uma porta entreaberta
Por empurrar, um tapete

BEM-VINDO

Chegou a território lúcido
Aqui todos aprendemos
Basta: parar, olhar
Descortinar com um bisturi
Os princípios básicos e
As pessoas: o autocarro parado
A fila corcunda em guarda

O mundo a crescer nos passos
Perdido, os placares de publicidade
As lojas prósperas, as pessoas felizes
Miseráveis, teleguiadas por linhas contínuas

Os corpos, as bolas, a tômbola de cartão
A dança, o bailado etéreo da probabilidade

Os pés que desenham no chão deuses gastos
Ratos que evitam as águas onde se afogam.

Um homem só a segurar um ovo quebrado, prestes a estrelar
A simbiose ciclópica, a implícita poesia maldita
A luta, a gritaria afónica na voz de todas as máquinas

Uma imagem vale mais de mil símbolos
As palavras só vêm depois, aguardam a
Imagem apropriada e uterina do tempo.


(Dedicado ao Grande Zé que se dá por Quase.)

sábado, agosto 16

EDEMA PULMONAR

Se ao menos percebesses, que os concursos
Se fazem em caixas de luz suportáveis,
Que a competitividade é um erro pulmonar,
E que tu, ordenhas palavras como um analfabeto
Agarrado a um orgulho cerrado pelos dentes;
Se ao menos percebesses isso, mas não
Preferes marrar na parede com a cabeça
Dizê-la mais dura do que tijolo. Ao menos
Percebe que os dias são de todos, em cada um
As preces selvagens não se limitam ao erro
São muito mais para além dele: transformam-se.

SEM HONRA NEM TÍTULO

DESTE JÀ AVISO: isto não é um poema
É uma carta aberta, uma janela póstuma

É tão bela a liberdade quando nos permite
Acusar e ser acusados. Nunca saímos ilesos
E isso engrossa o prazer. É tão fácil a culpa
Como a desculpa, nada nos detém, a superfície
É plana e imunda e as esfregonas limpam tudo
Mesmo as superfícies mais sujas.

Analogias acumulam-se como pó, o vento
Varre-o daqui para ali numa dança suave
A sua força mitológica só não varre o tempo

Esse: morre pela mão que move ponteiros,
Escreve o perscrutar fundamental das palavras.

sexta-feira, agosto 15

BETTER OFF WITHOUT A WIFE

Esquece o melhor que puderes.
Há drogas e cinema (por
enquanto). Não vais ser tu a aprisionar
os gestos felizes ou sem rumo
de que ainda sou capaz.
Não é nada pessoal, garanto-te.

Bebi sempre demais, acordo
tarde e as crianças estão longe de ser
o meu animal doméstico preferido.
Detesto horários, famílias e obrigações.
Até a partilha dos lençóis,
quando não é o amor a rasgá-los.

Os dias, porém, depressa
nos obrigam ao esterco das rotinas,
ao desejo inútil de procurar
a morte noutros braços

Mas não. Não vou mudar de marca
de cigarros nem de pasta
dentífrica. Acordo logo que puder,
já sabes. Telefono-te rouco,
eventualmente triste, a precisar
de alguma liberdade para poder provar,
sozinho, que a liberdade não existe
mas dá bastante jeito.

E no entanto, depois disto tudo,
é altamente provável que eu te queira
amar. Como não sei melhor, como sei.

Manuel de Freitas

FÁCIL E RÁPIDO

INGREDIENTES*

Amargura moída, amor à vida
Esperança, desilusão, palavras
Olhar perdido, loucura, sal em gotas

Comece por pegar no amor à vida
Cortando-o em lascas finas, depois
Já num recipiente, regue com
Esperança e sal em gotas, junte-lhe
As palavras cortadas pelos sentidos
Mais a loucura. Num outro recipiente
Faça uma papa de desilusão e amargura
Moída. Misture depois tudo e deixe marinar
(Não se preocupe com o tempo nem
Com a dosagem dos ingredientes
O critério é deixado à sua mercê)
Quando achar que marinou a seu gosto,
Unte uma frigideira com olhar perdido
E despeje para lá a mistela até
Saltear e iluminar bem os ingredientes.

Sirva de preferência numa página branca.

*Pode sempre mudar um ou outro
Consoante o gosto ou o desgosto

UM MUNDO CATITA

sexta-feira, agosto 8

HORA DE PONTA

Enquanto os carros passam
As pessoas correm, os prédios
Espelham as gaivotas que
Planam, os sinais dizem
Coisas e os baloiços chiam
As árvores dançam, as sombras
Tremem, e um homem escreve

Parte ponteiros sobre o tampo duma mesa.

DEAD LETTERS OFFICE

A noite não me permite à solidão
Recolho-me na contradição dos poetas.
A luz do globo aquece-me dos mais frios,
Para os mais fervorosos, sirvo-me das sombras.

Todos me dizem «vive por muito que sofras
Por pouco que ames, pela loucura que te consome.
Que seja a loucura e não mais pensarás em suicídio»

Já pensei muitas vezes nessa porta, a mão no
Caixilho a aguardar sabe-se lá o quê, talvez a vida
Alteada: amante psicótico da impossibilidade.

Neste quarto respiram poetas. Uns têm mau hálito
E outros cheiram a rosas. Os meus predilectos são os
Que cheiram mal, os que condimentam propósitos para a loucura
Aqueles que não mentem nunca. Os que sussurram «queres vai
Roda a maçaneta, dá um passo em frente, e está feito.»
Os únicos incapazes de se negarem à vida e aos seus caminhos

Contraditórios e tumultuosos como águas duma tempestade.

terça-feira, agosto 5

LIÇÃO Nº 1

Esperas a velhice e vês-te velho
É isso que ambicionas, aldrabas-te
E achas que a velhice é o teu fim.
Quase vejo as tuas rugas na ânsia
Periclitante de atingires o teu objectivo.
Seria melhor para ti morreres novo
Mesmo depois de muitas vicissitudes, de
Anos a fio a percorrer estradas gastas
Reduzidas a pó. A ambição é tramada
Leva-nos à velhice. É teu desejo
Morrer velho, vê lá tu, para quê?
Que desejas morrer, faz sentido
Disso não foges, mas podes escolher
Para além do mofo da tua casa. Para
Quê morrer velho se sendo tu novo
Já pensas como um velho realizado?
Nunca esperes nada, falo por experiência própria.
Esperar é morrer, é ver o mundo ruir em nós.
Morre jovem e vê tudo a passar, flashbacks
Aguarda apenas a morte, a cada instante.
Não queiras morrer velho, enceta a morte.
A cada gesto morre e renasce, envelhece
Despreocupa-te. Nunca queiras morrer de velhice

domingo, agosto 3

TEORIA TRISTE IRONIA

Era especialista incontestável
Em assuntos do coração
Era terapeuta e conferencista
Há mais de vinte anos

Até que num dia de folga,
Morreu de ataque cardíaco.

sexta-feira, agosto 1

O VERÃO

Quanto ao verão: esse período nefasto e quente
Não apresenta qualquer talento para a chuva, diga-se.
Como o mundo que se concentra excessivamente
Para proferir um assobio magrinho
E acaba por tropeçar de maneira desastrada,
Caindo duma altura
Desagradável,
E falecendo. O verão, de facto
Seria insuportável, não fosse
O futuro e a cerveja.

Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, julho 31

TAL COMO PEDISTE

Estas tuas confissões
nunca esquecerei

a praia e a melodia
memorável das ondas ainda
vivem, tal como as tuas palavras

Sempre que lá passo
que piso aquela areia

a catarse

o vento sussurra a
tua voz a memória e
a dor decrescente…

quarta-feira, julho 30

Sede Crónica

Aguardo, eu e o copo
a sede de infinito. Perdidos
completamo-nos. Eu
levanto-o, ele ampara-me
somos companheiros folgados.
Aconchegamo-nos na mesma
Substância. Nunca estamos sós.
Somos variáveis da necessidade.
Fugimos à transparência como

amantes no ciúme.

segunda-feira, julho 28

CONTRA OS OPTIMISTAS

Chamam destino ao rifão do acaso
e chamam à fraude boa fortuna.
Crêem no Batman e na Virgem Maria.
Duvidam do frio, não da polícia
e nunca dão crédito àquilo que vêem.

Reservam a tempo um lugar na geral,
põem o pé entre duas ciladas
e ficam a rir-se nas fotografias.
Sujam a roupa tal como nós, mas
mandam-na sempre a lavandarias
que sabem tratar dos casos difíceis.

Nunca dão ponto sem antes o nó,
mas fazem um laço por cima do nó.
Compram revistas de aval científico
em cujos artigos se prova o seguinte:
é quase impossível determinar
se é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.

Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,
guiam a vida por grandes veredas e ouvem
sininhos, muitos sininhos de música sacra.


José Miguel Silva

domingo, julho 27

Limitares-te à ciência do
Óbvio, é o caminho que tens a seguir.

Os labirintos são para os assombrosos.
Não para ti. Nunca para ti que
Não perdes tempo, que alguma vez
Imaginaste uma cadeira, uma sala de
Espera, e muito menos o limbo.

Restringe-te à via da tristeza:
Do outro lado da linha contínua
Reside apenas a felicidade

Espelho que julgas atingível
Inquebrável e absoluto.

quinta-feira, julho 24

BINÓMIO

Eu não quero viver
Não desejo a morte
Mas não quero viver

Viver é fazer parte de

Amar a vida é cumplicidade
E eu não vivo de facto

Não estou morto
Não amo a morte

Mas não vivo

Viver é compactuar
É ter medo de
E o medo rói

Um medo
Que cresce
Que passa
Que leva a vontade de viver

Quanto mais vivo
Mais cedo em viver

Não estou morto

Mas também
Nunca vivo só.