sexta-feira, agosto 8

HORA DE PONTA

Enquanto os carros passam
As pessoas correm, os prédios
Espelham as gaivotas que
Planam, os sinais dizem
Coisas e os baloiços chiam
As árvores dançam, as sombras
Tremem, e um homem escreve

Parte ponteiros sobre o tampo duma mesa.

DEAD LETTERS OFFICE

A noite não me permite à solidão
Recolho-me na contradição dos poetas.
A luz do globo aquece-me dos mais frios,
Para os mais fervorosos, sirvo-me das sombras.

Todos me dizem «vive por muito que sofras
Por pouco que ames, pela loucura que te consome.
Que seja a loucura e não mais pensarás em suicídio»

Já pensei muitas vezes nessa porta, a mão no
Caixilho a aguardar sabe-se lá o quê, talvez a vida
Alteada: amante psicótico da impossibilidade.

Neste quarto respiram poetas. Uns têm mau hálito
E outros cheiram a rosas. Os meus predilectos são os
Que cheiram mal, os que condimentam propósitos para a loucura
Aqueles que não mentem nunca. Os que sussurram «queres vai
Roda a maçaneta, dá um passo em frente, e está feito.»
Os únicos incapazes de se negarem à vida e aos seus caminhos

Contraditórios e tumultuosos como águas duma tempestade.

terça-feira, agosto 5

LIÇÃO Nº 1

Esperas a velhice e vês-te velho
É isso que ambicionas, aldrabas-te
E achas que a velhice é o teu fim.
Quase vejo as tuas rugas na ânsia
Periclitante de atingires o teu objectivo.
Seria melhor para ti morreres novo
Mesmo depois de muitas vicissitudes, de
Anos a fio a percorrer estradas gastas
Reduzidas a pó. A ambição é tramada
Leva-nos à velhice. É teu desejo
Morrer velho, vê lá tu, para quê?
Que desejas morrer, faz sentido
Disso não foges, mas podes escolher
Para além do mofo da tua casa. Para
Quê morrer velho se sendo tu novo
Já pensas como um velho realizado?
Nunca esperes nada, falo por experiência própria.
Esperar é morrer, é ver o mundo ruir em nós.
Morre jovem e vê tudo a passar, flashbacks
Aguarda apenas a morte, a cada instante.
Não queiras morrer velho, enceta a morte.
A cada gesto morre e renasce, envelhece
Despreocupa-te. Nunca queiras morrer de velhice

domingo, agosto 3

TEORIA TRISTE IRONIA

Era especialista incontestável
Em assuntos do coração
Era terapeuta e conferencista
Há mais de vinte anos

Até que num dia de folga,
Morreu de ataque cardíaco.

sexta-feira, agosto 1

O VERÃO

Quanto ao verão: esse período nefasto e quente
Não apresenta qualquer talento para a chuva, diga-se.
Como o mundo que se concentra excessivamente
Para proferir um assobio magrinho
E acaba por tropeçar de maneira desastrada,
Caindo duma altura
Desagradável,
E falecendo. O verão, de facto
Seria insuportável, não fosse
O futuro e a cerveja.

Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, julho 31

TAL COMO PEDISTE

Estas tuas confissões
nunca esquecerei

a praia e a melodia
memorável das ondas ainda
vivem, tal como as tuas palavras

Sempre que lá passo
que piso aquela areia

a catarse

o vento sussurra a
tua voz a memória e
a dor decrescente…

quarta-feira, julho 30

Sede Crónica

Aguardo, eu e o copo
a sede de infinito. Perdidos
completamo-nos. Eu
levanto-o, ele ampara-me
somos companheiros folgados.
Aconchegamo-nos na mesma
Substância. Nunca estamos sós.
Somos variáveis da necessidade.
Fugimos à transparência como

amantes no ciúme.

segunda-feira, julho 28

CONTRA OS OPTIMISTAS

Chamam destino ao rifão do acaso
e chamam à fraude boa fortuna.
Crêem no Batman e na Virgem Maria.
Duvidam do frio, não da polícia
e nunca dão crédito àquilo que vêem.

Reservam a tempo um lugar na geral,
põem o pé entre duas ciladas
e ficam a rir-se nas fotografias.
Sujam a roupa tal como nós, mas
mandam-na sempre a lavandarias
que sabem tratar dos casos difíceis.

Nunca dão ponto sem antes o nó,
mas fazem um laço por cima do nó.
Compram revistas de aval científico
em cujos artigos se prova o seguinte:
é quase impossível determinar
se é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.

Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,
guiam a vida por grandes veredas e ouvem
sininhos, muitos sininhos de música sacra.


José Miguel Silva

domingo, julho 27

Limitares-te à ciência do
Óbvio, é o caminho que tens a seguir.

Os labirintos são para os assombrosos.
Não para ti. Nunca para ti que
Não perdes tempo, que alguma vez
Imaginaste uma cadeira, uma sala de
Espera, e muito menos o limbo.

Restringe-te à via da tristeza:
Do outro lado da linha contínua
Reside apenas a felicidade

Espelho que julgas atingível
Inquebrável e absoluto.

quinta-feira, julho 24

BINÓMIO

Eu não quero viver
Não desejo a morte
Mas não quero viver

Viver é fazer parte de

Amar a vida é cumplicidade
E eu não vivo de facto

Não estou morto
Não amo a morte

Mas não vivo

Viver é compactuar
É ter medo de
E o medo rói

Um medo
Que cresce
Que passa
Que leva a vontade de viver

Quanto mais vivo
Mais cedo em viver

Não estou morto

Mas também
Nunca vivo só.

AFOGAR AS MÁGOAS

Sempre o burburinho fantasmagórico que
Trepa pelas paredes forradas a álcool. A necessidade
Capaz de nos entorpecer, sob o estrelado fundido do
Céu enevoado que arrebita os corpos,
Dança imutável que nos trouxe pelos caminhos mais
Belíssimos da tristeza solitária: labiríntica introspecção ao
Ritmo sonoro de um motor. Sempre bem acomodado, no
Banco turbulento do autocarro a assumir o peso da alegria
Como um transcendente ressacado, depois de mais um calhau
Para o nada. Sempre a cidade a chorar
Iluminada pelos candeeiros da vontade dos pássaros nocturnos.
Sempre um todo poeirento e vicioso, um belo vício
Como todos os vícios que nos libertam. Sempre os
Transportes misantropos para esta minha escrita de sangue, suor e
Alegria. Sempre a vida a ser compreendida e aceite, como
A morte dum inevitável familiar, entre campas festivas do
Cemitério dos sentidos. Sempre e do outro lado do
Vidro, as varandas a cuspir olhares fumegantes -lembram-me o
Fumo da minha varanda para o mundo. Sempre o
Mesmo e mísero rectângulo para o infinito, para a
Verticalidade dos corpos, na praça em que os leões se
Refrescam depois de uma tarde pelas áfricas do nosso espírito
Sempre quixotesco e ultrapassado. Sempre o humor o
Pedestal dourado na tinta dos edifícios, a noite
A fervilhar terapia da loucura. Sempre a forma sana de combater
A velocidade indómita do tempo, as gargalhadas
A abafarem todas as vozes na praça. Sempre o somatório blindado
E carnal a derrotar as tropas da linearidade que nos
Apaparica e distrai. Sempre a melancolia duma noite que não
Esta, lá atrás, naquele ponto de partida em que o breu, o insaciável
Morcego que me capacitou para a mutilação bem-vinda no
Caco do carácter, tomou proporções inversas mas inexoráveis nas
Fronteiras da geografia simbiótica. Sempre as estanques
Espumas bélicas e as salgadas feridas que não saram
Numa noite de solidão sóbria. Sempre a sede, a sede de tudo
Das pessoas e dos líquidos, das liquidações das
Intimações para o esquecimento. Sempre a música
Que nos embala em ninho de cucos, sempre a levar-nos
À concórdia silenciosa ou estridente de copos cheios
De copos vazios sorvidos até à última lágrima cintilante, entre
Dedos sujos e decrépitos pelo uso. Sempre os abraços que recebo
E os que já não sinto a varrer-me a alma, só porque lá, já nada resta
Para varrer. Sempre o absoluto latejar de alguém que não conheci e
Nunca hei-de conhecer alguma vez, só porque não me conheço
Tampouco. Sempre o manto a fechar-se pela crescente
E vaporosa luz do movimento perpétuo, dos sinais
Que se agitam ao vento -assustadores e irrisórios. Sempre
A cama quente pelo verão que me acolhe, sempre
O seu sorriso cansado. Das cinzas da mente, sempre o
«Amanhã é outro dia de miasmáticas incertezas»
Sempre o grito uníssono das gaivotas na maresia betuminosa
Da cidade que cresce. Sempre as asas saudosas
Do alvorário mar que já não lhes pertence, sempre e simultânea:

A mente, ao longe, como um barco rumo a nenhures.

terça-feira, julho 22

1 e 46

O sono pesa
A cama abre-se

O sonho espera
O corpo estica-se

O lençol enruga-se

domingo, julho 20

CONSPIRAÇÃO

As gaivotas no céu pastoso da tarde
Choram cada vez mais, um choro agudo
De agonia, uma emaranhada conspiração
Para com os homens. Enquanto as observo,
Acendo uma tocha para a morte

No telhado sobrepovoado
Uma dança permuta, penosa
Fulminante e
Agitada

Uma destaca-se, serena,
Parabólica como o final da tarde
Procura e aproxima o horizonte

Numa língua estranha, selvagem
Leva-me até gritos agoniantes, a um ser que me traz
Prisioneiro, lancinante bailarino etéreo do corpo

E é então que as telhas ruem, que
Os sentidos roçam o absurdo. Tudo se resume
A um cigarro já apagado, ao verão, a gritos
Irreverentes a perpetuarem-se na noite

Alienados hábitos que incomodam quem dorme.

SE HOUVESSE DEGRAUS




















Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.


Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.


Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.


quinta-feira, julho 17

NA DÚVIDA

Talvez me perca
Não sei ainda se
Talvez consiga

Não sei se talvez
Entretanto
Entalado na bruma
Cadente do dia

O saber
Tem que se lhe diga
Ocupa espaço

O corpo é ínfimo
E as mãos são grandes

Talvez
Um dia minguem
E o corpo cresça

Mas não sei se

Talvez
Um dia encontre
No desencontro
Entre
Uma talvez mão
E um talvez corpo
Uma frase

Talvez aí me encontre

Perdido da mão
E do corpo

Abandonado à certeza.

THE BEAT

Não dormi com a beleza toda a vida
fazendo inconfidências a mim próprio
dos seus encantos planturosos

Não, não dormi com a beleza toda a vida
mas com ela menti
fazendo confidências a mim próprio
de como ela nunca morre
mas jaz à parte
no meio dos aborígenes
da arte
e paira por cima dos campos de batalha
do amor

Está acima de tudo isso
muito acima
Está sentada no mais selecto dos assentos
da Igreja
lá em cima onde os administradores da arte marcam encontros
para escolherem o que há-de ficar para a eternidade
Eles, sim, dormiram com a beleza
durante toda a vida
Eles, sim, alimentaram-se da ambrósia
e beberam o vinho do Paraíso
e por isso sabem exactamente como é que
uma coisa bela é uma alegria
para sempre e para sempre
e como é que ela nunca nunca
pode inteiramente desvanecer-se
num nada que leve à bancarrota

Oh não, nunca dormi
em Regaços de Beleza como esses
receando levantar-me de noite
com medo de perder nesses segundos
qualquer belo movimento que ela esboçasse
E contudo dormi com a beleza
à minha estranha maneira
e fiz uma ou duas cenas terríveis
com a beleza na minha cama
de onde transbordou um poema ou dois
de onde transbordou um poema ou dois
para este mundo tão parecido com o de Bosch

Lawrence Ferlinghetti


terça-feira, julho 15