Perdido nas nuvens da sua imaginação
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental
Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege
Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo
Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico
Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si
A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado
No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos
Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser
A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo
Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal
Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano
É o que corre dum lado para o outro
Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.
terça-feira, novembro 20
A VIDA
Ser é o acto custoso
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A ANOREXIA DE MARIA
Está uma noite fria entre os blocos sarapintados a luz,
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
domingo, novembro 11
HINO ÀS CRIANÇAS
Comecei bem cedo nessas lides de ser homem
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
A RESPEITO DO TRABALHO QUE JÁ NÃO TENHO - SORRIR OU CHORAR?
Cai num vazio que me irrita profundamente. A sua causa é a razão do desconforto que sinto. Mais uma vez encontro-me desempregado. Gostaria de poder não usar tal expressão, preferia de todo poder dizer desocupado, mas uma série de obrigações pessoais intrínsecas a quem tem coisas para pagar, obriga-me a suportar o peso de ser mais um desempregado. O emprego que tinha era no ramo da elevação hidráulica, área esta em que direcções descendentes e ascendentes faziam parte da execução em quase todo o processo até ao final, como em tudo na vida. Só que descender foi a minha última direcção, um rol de circunstâncias levaram a isto. Depois de muitas tentativas de elevação da dignidade fui empurrado pelas costas e cai de novo no chão que noutros tempos me trouxe mazelas. Sou hoje -como gosto eu da palavra hoje - , um homem supostamente livre e digno da sua existência, embora desolado por não poder contribuir para algo que pretendo abnegar absolutamente, sinto-me arrastado e perdido no rio turbulento que é estar morto, elemento entristecido da chamada população activa. Hoje – mais uma vez, a palavra que mais me fascina – esta sociedade que vive das várias áreas produtivas, é um espaço caótico e insuficiente para suportar pessoas como eu, que como todas, têm que ganhar o seu quinhão, o que é de todo assustador, já que a qualificação é cada vez maior e o interesse das estruturas empregadoras e governativas gigantesco -os interesses são muito básicos, aperfeiçoar cada vez mais as máquinas e esquecer que afinal já foram pessoas. É uma verdade dolorosa, isto dependendo do olhar de cada um de nós. Talvez se o meu emprego fosse empregar, mesmo que discordasse de tal robotização, ver-me-ia obrigado a concordar, não tivesse eu em casa contas para pagar! Qualquer coisa como, não concordo tendo em conta o que penso, mas concordo plenamente tendo em conta o que faço e me fazem precisar! E assim o jogo prossegue, a necessidade imposta é a necessidade fundamental substituta.
terça-feira, novembro 6
A GARAGEM EM CONSTRUÇÃO
Quando a poeira vibra melodicamente
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
segunda-feira, outubro 29
SURREALISMO SMS
"Tenho aqui uma
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"
"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"
"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"
sexta-feira, outubro 26
quinta-feira, outubro 25
quarta-feira, outubro 24
A MEMÓRIA DO MUNDO
As lembranças acumulam-se como pó em armários que são elementos duma vida. São ecos dum tempo que foi e é agora outro, mesmo na essência que as fazem recordar em nós, partículas que somos. Pode-se dizer que a memória é um boomerang mutável e necessário. Igualmente necessário é perceber que o tempo é o sempre, mesmo quando o sempre acaba e se torna numa memória que assim durará. O espaço pode transformar-se em vazio e o vazio pode abolir a matéria que deu forma à vivência, mas nem aí a lembrança se foi, somente porque o vazio é desenrolar do espaço que se fez. E aí, perdurará a memória, o rasto do tempo até ao limite que o é, deixando de o ser… tudo porque o tempo não é aquilo que criamos como tempo, mas apenas a explanação do início até ao sempre. E a lembrança da memória é isso mesmo, aquilo que fica para lá do que lembramos, a continuidade de tudo o que fomos como seres de memórias. Hoje, enquanto escrevo, lembro o que para trás disse, o que para trás ficou. Relembro o que deu origem à escrita que me faz escrever. Agi no cosmos como elemento comparticipante da intemporalidade, dei forma ao presente passado que mesmo que extinto fez faz e sempre fará parte daquilo que está para vir. O mundo pode ruir, vai ruindo num murmurar crescente que acabará em local indescritível mas continuidade daquilo que foi, mas mesmo assim, na outra forma que não sabemos existência, traços de memória demonstrarão o passado que sempre continuará e foi. Certamente não estaremos cá nesse tempo que não o nosso, mas as memórias permanecerão como são, restos capitais da importância que têm. E assim a lembrança é apenas a conclusiva peça dum puzzle gigantesco, a forma multiplicada dos presentes que nos foram oferecidos pelo passado que nos trouxe e que para sempre nos levará em si.(...)
domingo, outubro 21
A ESFERA*
“E eles passeiam-se pelo mundo com a sua imortalidade histórica e inadequada...”
Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.
Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.
Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.
Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.
Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.
Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.
Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.
A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!
Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!
Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.
E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.
Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.
Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.
Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.
Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.
Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.
* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.
TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:
"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."
Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.
Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.
Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.
Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.
Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.
Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.
Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.
A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!
Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!
Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.
E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.
Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.
Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.
Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.
Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.
Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.
* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.
TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:
"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."
quinta-feira, outubro 18
quarta-feira, outubro 10
E AFINAL DEUS EXISTE!
Mudei de ramo. Sou agora macaco noutro galho. Desta vez – mais uma experiência – sou técnico de montagem de elevadores. Nem sabem, é um sobe e desce constante. Depois de ir receber um cheque referente ao trabalho anterior, fui indicado para ir montar um elevador a uma dessas igrejas pós modernas em que a divindade aparece bem representada nas linhas que a sustentam. Escusado será dizer que nessa igreja existirá um elevador, para oito pessoas, talvez para elevá-las ao céu do todo-poderoso senhor. Prosseguindo. Não sou um gajo religioso e nem diabólico tampouco, mas hoje foi um dia em que a mão divina repousou sobre a minha cabeça, tal entidade não permitiu que eu trabalhasse da parte da manhã - os seus desígnios são supremos. A falta de andaimes demonstrou que era da sua vontade ver-me descansado a contemplar o esqueleto da sua construtiva casa. Hoje algo mudou. Sinto-me uma pessoa diferente e abençoada.
domingo, outubro 7
O NEVOEIRO DA MANHÃ
A manhã fez-se ao acordar
Como flor que acorda da terra húmida
E se esventra em poses miraculosas
Pelo rolar da estrada em que ando
O mundo não é mais do que um palmo
Um palmo cheio de tudo o que é a imaginação
A aura do nevoeiro paira a partir do que não vejo
O limite que nos dá
É o que não é
O invisível
Ganha asas
Sob os olhos da minha alma
Redesenho o horizonte
Para lá da barreira pluviosa
Escrevo em mente
A história do plano terrestre
Em formas magicadas pelo sonho
A mística do que não vejo
Assoma-me em proporções divinais
Na procura do mundo que quero
O destino chega até mim
Tudo se desdobra e mostra
Em liberdades que não tenho
A mão crava em sonho
A memória do que sinto.
Como flor que acorda da terra húmida
E se esventra em poses miraculosas
Pelo rolar da estrada em que ando
O mundo não é mais do que um palmo
Um palmo cheio de tudo o que é a imaginação
A aura do nevoeiro paira a partir do que não vejo
O limite que nos dá
É o que não é
O invisível
Ganha asas
Sob os olhos da minha alma
Redesenho o horizonte
Para lá da barreira pluviosa
Escrevo em mente
A história do plano terrestre
Em formas magicadas pelo sonho
A mística do que não vejo
Assoma-me em proporções divinais
Na procura do mundo que quero
O destino chega até mim
Tudo se desdobra e mostra
Em liberdades que não tenho
A mão crava em sonho
A memória do que sinto.
terça-feira, outubro 2
domingo, setembro 23
O RÍDICULO EM PODER MENOR
Depois do tudo que se passou a coisa tornou-se monstruosamente bela. Os pés parecidos com joelhos de elefante eram fonte aquosa de todas as preocupações cósmicas. Tudo se estendia num pranto libidinoso capaz de denegrir a pintura de unhas que o ministro trazia. A sua cabeça esponjosa era como uma melancia rachada por uma estrela decadente arrastada pelos oceanos profundos de memória coalhada. O seu sorriso era um corte transversal dum cavalo eunuco de raça árabe sangrento e até tresmalhado. As palavras eram rochas meridionais de cor arrozada, uma a uma, como gotas leitosas das mamas do gordo. A tribuna triturava-as ao ritmo duma máquina de pipocas em feira de psicopatas empertigados por roupas de cerimónia festiva. Os mitos eram demasiados para a capacidade do parlamento. Não dava para compreender o porquê de tudo aquilo. Se os malabaristas treinavam, porquê o rinoceronte listado pela polícia secreta? O caso começou a tornar-se demasiado enigmático ao ponto de se poder concluir que a chuva ácida é uma reacção natural à artificialidade de ser natural. Todos berravam e gesticulavam burburinhos em letras e cânones duma ferocidade atroz e igualmente adocicada. O mais alto dizia, “vai, vai, cai!” O da frente questionava, “então, então?” O mais gordo deitava um líquido estranho e doentio pelos bicos das suas mamas. Todos se conjugavam pelo manto encabeçado de cabeças ondulantes. Sentados em cadeiras pontiagudas e confortáveis, os rostos desfigurados, iam ouvindo através dos seus funis avermelhados de plástico sujo, “Iremos dar continuidade à desorganização da selva! Os leões continuarão a ter direito ao aperfeiçoamento da sua diarreia saudável e perfumada e os ratos serão aniquilados acutilantemente com o veneno retirado, pelos nossos piores cientistas loucos de meio palmo, das amígdalas do crocodilo albino da Papua Nova Guiné! Os canteiros serão aparados com canetas de feltro e os balões de ar quente serão um assunto delicado a ter em conta num futuro próximo de mim!...” ouviu-se urras, surras também, e até gritos duma excitação contagiosa e irrepreensível; continuava “Quanto às maçanetas das portas, referidas pelo senhor depurado, continuaremos a apostar nas arredondadas e escorregadias, precisamos primordialmente delas assim, brilhantes e engenhosas como bem precisamos!” O auditório ia quase caindo, as palmas salgadas desenhavam ondas corpóreas pelos poucos e ardentes espaços vazios. A onda elevou-se à altura da montanha espinhosa, as cabeças chocaram como chocalhos umas nas outras, e o porteiro, espalmado e seguro, disse com o seu vozeirão húmido entre grunhidos e elevações suadas para quem o ladeava “Era dum ministro destes que estávamos a precisar! Determinado e conciso como uma alheira a cair na sanita! Arrependo-me profundamente mal de não ter votado nele…” em jeito de resposta o indígena ouvinte da sua direita disse “Deixa lá, ele está no poder apesar dos seus suportes para parede serem um pouco fracos, sem encadernados ele era um anjinho careca, e nós deste lado não queremos cá disso, não queremos esquisitices embrulhadas! Ele é o maior, até me dá vertigens, hei-de trepar a montanha também!”. Era uma sala estranha aquela, nas paredes acastanhadas, cactos horizontais, carapaças de caranguejos envernizadas a pincel e molduras de estrelas enterradas do céu, um dos fotografados sorria com um pepino na mão, por baixo em pé rotativo dizia HOJE SALADA DE PEPINO AMANHÃ O MESMO. Ao fundo da sala uma pequena porta para a rua cheia de cantis e barris de pólvora extenuada. Ao lado, um homem alto anterior falante, mais alto que a própria e fria altura do ano, dizia a todos os depurados um obrigado e volte sempre com as suas ideias magicadas e as suas perguntas ridículas e despropositadas. Sorriam todos à saída como quem acabou de sair dum show de contorcionistas ébrios pelo ar respirado a bombadas capitais. Lá fora as rodas com caixas de fruta para proteger da chuva corrosiva esperavam por eles, tinham todas a mesma forma, só variava a fruta estilizada, banana, laranja, cereja, morango e até uma caixa de mangas! Uma fila indiana ordenava por valor vitamínico as suas posições. A caixa da frente era para a sua excelência ministerial. Amarrada à antena do rádio trazia uma daquelas fitas que se põe nos casamentos, amarradas ao pára-choques latas tilintantes de cerveja americana. Todos já a postos em direcção ao copo de água partiram felizes debaixo de buzinadelas e arroz amarelado pela chuva. Destino, cemitério. Por lá comeriam e pediriam facturas para apresentar na sua grande e comunitária empresa governamental.
O banquete bem regado a mijo periódico de vaca tornou-se numa orgia tresloucada e quente. O ministro à vez foi levando no seu buraco negro como forma de agradecimento pelo seu discurso completo e indicado à romaria antecedente. Gritava de prazer enquanto todos, quase sem tirar nem pôr, se deliciavam com o digestivo aprofundado da sua vontade. Era um descambar político e típico. Homens nus e sem complexos. Senhores das suas atitudes descaradas mas aprazíveis e aceitáveis por todos numa comunidade sem preconceitos entre si. O cemitério nunca tinha vivido tal coisa, os mortos batiam palmas adormecidos e castrados pelo que lhes foi entregue em prato porcelana de tempo rolado e rebolado. Até que, uma voz falou mais alto que os gemidos, “Mas o que é isto?!? Não têm vergonha na cara?” pararam todos, o ministro respirou fundo, disse algo imperceptível devido ao ofegar desconcertante, todos se riram, o homem não soube o que dizer, era coveiro! Mudo, decidiu enterrá-los a todos mesmo sabendo que das suas mortes enclausuradas outros seguidores avantajados surgiriam das escolas em que estudavam e ensinavam a ser assim.
O banquete bem regado a mijo periódico de vaca tornou-se numa orgia tresloucada e quente. O ministro à vez foi levando no seu buraco negro como forma de agradecimento pelo seu discurso completo e indicado à romaria antecedente. Gritava de prazer enquanto todos, quase sem tirar nem pôr, se deliciavam com o digestivo aprofundado da sua vontade. Era um descambar político e típico. Homens nus e sem complexos. Senhores das suas atitudes descaradas mas aprazíveis e aceitáveis por todos numa comunidade sem preconceitos entre si. O cemitério nunca tinha vivido tal coisa, os mortos batiam palmas adormecidos e castrados pelo que lhes foi entregue em prato porcelana de tempo rolado e rebolado. Até que, uma voz falou mais alto que os gemidos, “Mas o que é isto?!? Não têm vergonha na cara?” pararam todos, o ministro respirou fundo, disse algo imperceptível devido ao ofegar desconcertante, todos se riram, o homem não soube o que dizer, era coveiro! Mudo, decidiu enterrá-los a todos mesmo sabendo que das suas mortes enclausuradas outros seguidores avantajados surgiriam das escolas em que estudavam e ensinavam a ser assim.
quinta-feira, setembro 20
ANGOLA
Entrou no Angola
Pelo passo trocado que o trazia a si
Era belo, de leste, alto como um cipreste
A sua face característica, era homem pelos quarenta anos
Sentou-se na mesa de olhar inflamado
Pelo sentido tão seu que o fazia sozinho
Contou o trocado que era do seu bolso, suspirou
Pediu uma cerveja, uma cerveja veio até si;
Sorriu, demencialmente, sob o olhar inflamado dos seus espelhos
A garrafa transcendeu-o, olhou em volta, fitou-a com amor.
Tresloucado pelo que o tinha levado a ser assim feliz
Pegou em três moedas miúdas, pousou-as sobre o gargalo magro a cobre
Dedilhou o ar que rodeava o anel prestes ser humedecido
Gargalhou, girou os olhos em redor, baixou a cabeça em jeito de desespero
Começou a bufar para o peso das moedas, gargalhava, seus olhos reviravam suavemente
Minha mãe a meu lado, alheia à minha introspecção
Estava então a chorar quando me apercebi
Bebeu um gole de cerveja sua amada, e mirou-a, orgulhoso
Ao longe, da mesa a sair, uma velhinha manchada com o seu hereditário
Cambaleava rumo à sua saída para a noite quente
Toquei no ombro da minha doce origem,
Questionei o que se passava com a sua face humedecida a sal
Nada, nada.
Que vai em ti?!?
Nada, nada meu filho!...
Foi aquela senhora que vai a sair?
Sim meu querido, uma memória fresca de tua avó faz-me chorar…
Oh… deixa, preferias que ela estivesse viva?
Preferia a tudo neste mundo
Então mantém-na animada e viva em ti, não a lembres plácida…
Sorriu-me sob o brilho das suas lágrimas…
Dei-lhe espaço para pensar
Olhei em frente; o ser extraordinário olhava para nós
Sorriu… um sorriso diferente
Perdeu então o seu jeito demente
A compreensão é o que guia,
Retribuo tal imagem, reforça o seu rasgo de humanidade
Questiono a loucura que se respira nas horas do relógio
As pessoas que se acotovelam para voltar a vê-lo jocosas
Devaneando sob as luz duma incompreensão geral.
Levanto-me, cumprimento-o, a sua mão é forte
O toque carnal fá-lo sentir homem que é
Choro já pelo caminho dos meus passos leves
Lágrimas secas de tudo o que me é dado a saborear
Percebo que a distância é como um barco à vela
Afasta-nos e junta-nos, conforme o sabor do vento quer…
Pelo passo trocado que o trazia a si
Era belo, de leste, alto como um cipreste
A sua face característica, era homem pelos quarenta anos
Sentou-se na mesa de olhar inflamado
Pelo sentido tão seu que o fazia sozinho
Contou o trocado que era do seu bolso, suspirou
Pediu uma cerveja, uma cerveja veio até si;
Sorriu, demencialmente, sob o olhar inflamado dos seus espelhos
A garrafa transcendeu-o, olhou em volta, fitou-a com amor.
Tresloucado pelo que o tinha levado a ser assim feliz
Pegou em três moedas miúdas, pousou-as sobre o gargalo magro a cobre
Dedilhou o ar que rodeava o anel prestes ser humedecido
Gargalhou, girou os olhos em redor, baixou a cabeça em jeito de desespero
Começou a bufar para o peso das moedas, gargalhava, seus olhos reviravam suavemente
Minha mãe a meu lado, alheia à minha introspecção
Estava então a chorar quando me apercebi
Bebeu um gole de cerveja sua amada, e mirou-a, orgulhoso
Ao longe, da mesa a sair, uma velhinha manchada com o seu hereditário
Cambaleava rumo à sua saída para a noite quente
Toquei no ombro da minha doce origem,
Questionei o que se passava com a sua face humedecida a sal
Nada, nada.
Que vai em ti?!?
Nada, nada meu filho!...
Foi aquela senhora que vai a sair?
Sim meu querido, uma memória fresca de tua avó faz-me chorar…
Oh… deixa, preferias que ela estivesse viva?
Preferia a tudo neste mundo
Então mantém-na animada e viva em ti, não a lembres plácida…
Sorriu-me sob o brilho das suas lágrimas…
Dei-lhe espaço para pensar
Olhei em frente; o ser extraordinário olhava para nós
Sorriu… um sorriso diferente
Perdeu então o seu jeito demente
A compreensão é o que guia,
Retribuo tal imagem, reforça o seu rasgo de humanidade
Questiono a loucura que se respira nas horas do relógio
As pessoas que se acotovelam para voltar a vê-lo jocosas
Devaneando sob as luz duma incompreensão geral.
Levanto-me, cumprimento-o, a sua mão é forte
O toque carnal fá-lo sentir homem que é
Choro já pelo caminho dos meus passos leves
Lágrimas secas de tudo o que me é dado a saborear
Percebo que a distância é como um barco à vela
Afasta-nos e junta-nos, conforme o sabor do vento quer…
quinta-feira, setembro 13
VERGÍLIO A DESCASCAR A MELANCIA
(...) Estou parado à varanda, dos quatro pontos cardeais. Uma sarrabulhada de vozes, aturdem-me. Por entre a balbúrdia, uma outra voz mais alta. As que falam dos deuses todos em torrente de ecos pelo espaço, por entre um fervor de ladainhas. E das divindades subalternas, mais chegadas à humanidade, para socorro das desgraças proletárias, desde o antraz e o coice de mula à espinhela caída - com a casquinada crítica dos descrentes evoluídos, ressoa pelo espaço, entremeada à devoção como um grasnar de corvos. A dos políticos salvadores da humanidade num histerismo com receitas prontas a aviar e a defesa aos guinchos da liberdade e da autoridade, que são iguais mas muitíssimo diferentes, porque a defesa da liberdade obriga a defendê-la dos que são contra a liberdade e exige pois uma autoridade de ferro para defendê-la, da propriedade e do ideal comunitário e comunitarismo em escalões, da gestão, autogestão, e semiautogestão, do direito à informação e que tem de ser por isso desinformação por virtude do direito à informação e que tem que ser por isso informação correcta e deixa assim de ser direito à informação que todavia ainda é esse direito mas melhorado embora não seja já direito à informação por que não ter esse direito, do direito à cultura que é só a boa cultura porque a má cultura é contra a boa e já não é cultura e precisa de ser afastada para salvaguarda do povo que gosta de má cultura pelo vício intrínseco de ser povo que precisa portanto de ser defendido contra si para não ser ele mas por aqueles que defendem a boa e podem defendê-la por virtude de ser mandatados pelo povo que não gosta de boa mas da outra, do direito ao trabalho que não é o dever de trabalhar, excepto quando os que defendem esse direito, mandatados pelos que não têm esse direito, conquistam o direito de imporem esse direito que é então um dever e os que não tinham esse direito já não querem, porque o direito e o dever estão cheios de antagonismos, e a defesa da democracia popular da democracia parlamentar e da democracia orgânica, da república da monarquia da oligarquia.
- Estai calados, estupores!
e da centralização, da descentralização e da anarquia, do presidencialismo do semipresidencialismo da regionalização e das autarquias locais, do primado do grupo, do primado do indivíduo, do primado da identidade nacional, e a interpretação das leis filtradas trabalhosamente pelos ódios ambições ralhos partidários dos que foram comissianados pela vontade colectiva esquadriada pelos grupos que os sonhos e ambições e ódios esquadriam e foram apurados depois de dias e semanas e meses e saíram depois ainda com uma rede intervalada orifícios por onde se escaparam ainda em ginástica de rins as ambições teorias princípios salvadores do bem comum que ficaram de fora dos princípios do bem comum em que se entreteceu a rede de leis, enquanto de outros cantos do mundo outras leis contrárias também para o bem comum erguiam-se em grita e doutros cantos outras também para benifício de ser-se em colectividade, cruzadas vozes por cima trémulas de ardor e histeria, embatiam umas nas outras esguichavam como ondas que se entrecruzam pulverizavam-se num ruído anónimo de arraial popular.
- Estai calados, desgraçados!
e foi quando os filósofos. Eram tecnicistas especializados precisos, confusos enrodilhados subtilíssimos, falavam de deus que não havia mas havia embora não houvesse, e da liberdade inteira do homem determinada pelas circunstâncias históricas e pelas glândulas e pela vontade dos outros homens que eram livres e determinados por outras, e falavam do espírito e da matéria que era o espírito de uma maneira que não o era, e da consciência do homem que era inconsciente, e da quantificação do inquantificável que se quantifica por essa quantificação mas não podia, e da explicação do inexplicável que ficava explicável pela palavra que era o nome no inexplicável para ser explicação, e de outras palavras que formavam crosta por cima para tapar tudo o que era intapável e ficava por baixo mas não se via e era como se não ficasse,
- Ide todos À merda!
e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstânciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões e da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapasssada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado.
- Para a puta que vos pariu!
e foi quando outra vez os pregadores da religião. Mas eu já mal os ouço. Nos intervalos da minha atenção avulsa, Deus e o destino do homem - que destino é o teu? aqui, só, filtrado através de todas as ilusões, e a necessidade de justificar uma vida quem se não Deus? e a citação dos tratadistas desde o motor imóvel e metafísico do grego, e outra vez a casquinada alegre dos antimetafísicos, e o murmúrio longínquo da beatas velhas a reazar o padre-nosso, e os métodos novos e tecnocráticos, ou de pressão psicológica para se chegar à divindade, enquanto em frente, estou parado à varanda, pesada massa imensa a montanha desnudada à aridez, e os que pregam um Deus intratrável cheio de fígados coléricos, e os que pregam um Deus porreiro cheio de comunicação proletária que vai connosco aos comícios aos cafés e às putas, e os que dizem outra vez que a matéria é que, os que espremem todas as religiões para terem um Deus sintético e os que aproveitam essas escorralhas para fabricarem deuses avulsos corriqueiros e entremeados a todo o ser de circunstância, os que fabricam religiões novas com abaixo-assinados, e os pregadores dos malefícios da religião através dos tempos e do seu ódio vesgo ao progresso, e os pregadores dos benefícios da religião e do seu amor ao progresso com o exemplo dos grandes sábios que vergavam a cerviz e diziam «eu creio», enquanto os outros com outros sábios quem não diziam nem vergavam, estou imóvel à varanda, na tarde paralizada de calor - e foi quando os artistas.
- Espera. Faltavam agora ainda estes, os artistas. Que é que vós quereis, meus bardamerdas?
Queriam coisas, queriam também dizer coisas. E imediatamente um murmúrio larvar, ia crescendo, com esguichos histéricos aqui e além, depois foi a gritaria. Mas eu não quero ouvir. Fecho mesmo a varanda, não quero. Mas eles desvairam aos gritos, deve haver grossa pancadaria para as bandas da cultura. Devem ter vindo os mortos a ajudar. Dizem nomes bárbaros, é a barbaridade da nossa condição. Suprematismo, pois, pois. E orfismo purismo simultaneísmo oh, oh. E rayonismo neoplasticismo. E uma voz escura já cavernosa, cubismo,fauvismo eh, eh. E umas vozes raquíticas em falsete, a pregação do vazio programático o nulismo. E o sitismo que era a pregação contra a existência do quadro e a defesa apenas e intransigente do sítio dele na parede - e os poetas. A defesa do regresso às formas poéticas de base que um jocoso crismou de parolice e que ficou o parolismo. E o baralhismo que baralhava muitas palavras e as atirava ao ar e caíam em forma de poema - e o saquismo. Que era metê-las num saco para as tirar ao acaso da inspiração, e o mudismo. Que era a poesia muda em livros em branco. E o canalhismo que era uma poesia ordinária para as classes mais desfavorecidas. E o caralhismo, cujo o chefe de fila era o célebre autor de «Caralhícolas», e que era uma poesia ainda mais ordinária.
- Ide berrar para as profundas do inferno!
e o panacismo que considerava o pânico como medida fundamental do sentimento - e foi quando os músicos
- Não quero! Não quero!
tapei os ouvidos - meu Deus. Estou assim algum tempo, destapo os ouvidos, havia ainda atrasados os romancistas. E os arquitectos, urbanistas. Os pedagogos, os cientistas. E os críticos.
Na tarde abrasada desértica.
E os técnicos publicitários. E os técnicos dos cemitérios.
Na tarde imóvel à praga do calor. Uma voz canta ao longe - canta? Não a ouço. Na tarde de minha condenação.
E os economistas." (...)
Vergílio Ferreira, em Para Sempre
- Estai calados, estupores!
e da centralização, da descentralização e da anarquia, do presidencialismo do semipresidencialismo da regionalização e das autarquias locais, do primado do grupo, do primado do indivíduo, do primado da identidade nacional, e a interpretação das leis filtradas trabalhosamente pelos ódios ambições ralhos partidários dos que foram comissianados pela vontade colectiva esquadriada pelos grupos que os sonhos e ambições e ódios esquadriam e foram apurados depois de dias e semanas e meses e saíram depois ainda com uma rede intervalada orifícios por onde se escaparam ainda em ginástica de rins as ambições teorias princípios salvadores do bem comum que ficaram de fora dos princípios do bem comum em que se entreteceu a rede de leis, enquanto de outros cantos do mundo outras leis contrárias também para o bem comum erguiam-se em grita e doutros cantos outras também para benifício de ser-se em colectividade, cruzadas vozes por cima trémulas de ardor e histeria, embatiam umas nas outras esguichavam como ondas que se entrecruzam pulverizavam-se num ruído anónimo de arraial popular.
- Estai calados, desgraçados!
e foi quando os filósofos. Eram tecnicistas especializados precisos, confusos enrodilhados subtilíssimos, falavam de deus que não havia mas havia embora não houvesse, e da liberdade inteira do homem determinada pelas circunstâncias históricas e pelas glândulas e pela vontade dos outros homens que eram livres e determinados por outras, e falavam do espírito e da matéria que era o espírito de uma maneira que não o era, e da consciência do homem que era inconsciente, e da quantificação do inquantificável que se quantifica por essa quantificação mas não podia, e da explicação do inexplicável que ficava explicável pela palavra que era o nome no inexplicável para ser explicação, e de outras palavras que formavam crosta por cima para tapar tudo o que era intapável e ficava por baixo mas não se via e era como se não ficasse,
- Ide todos À merda!
e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstânciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões e da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapasssada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado.
- Para a puta que vos pariu!
e foi quando outra vez os pregadores da religião. Mas eu já mal os ouço. Nos intervalos da minha atenção avulsa, Deus e o destino do homem - que destino é o teu? aqui, só, filtrado através de todas as ilusões, e a necessidade de justificar uma vida quem se não Deus? e a citação dos tratadistas desde o motor imóvel e metafísico do grego, e outra vez a casquinada alegre dos antimetafísicos, e o murmúrio longínquo da beatas velhas a reazar o padre-nosso, e os métodos novos e tecnocráticos, ou de pressão psicológica para se chegar à divindade, enquanto em frente, estou parado à varanda, pesada massa imensa a montanha desnudada à aridez, e os que pregam um Deus intratrável cheio de fígados coléricos, e os que pregam um Deus porreiro cheio de comunicação proletária que vai connosco aos comícios aos cafés e às putas, e os que dizem outra vez que a matéria é que, os que espremem todas as religiões para terem um Deus sintético e os que aproveitam essas escorralhas para fabricarem deuses avulsos corriqueiros e entremeados a todo o ser de circunstância, os que fabricam religiões novas com abaixo-assinados, e os pregadores dos malefícios da religião através dos tempos e do seu ódio vesgo ao progresso, e os pregadores dos benefícios da religião e do seu amor ao progresso com o exemplo dos grandes sábios que vergavam a cerviz e diziam «eu creio», enquanto os outros com outros sábios quem não diziam nem vergavam, estou imóvel à varanda, na tarde paralizada de calor - e foi quando os artistas.
- Espera. Faltavam agora ainda estes, os artistas. Que é que vós quereis, meus bardamerdas?
Queriam coisas, queriam também dizer coisas. E imediatamente um murmúrio larvar, ia crescendo, com esguichos histéricos aqui e além, depois foi a gritaria. Mas eu não quero ouvir. Fecho mesmo a varanda, não quero. Mas eles desvairam aos gritos, deve haver grossa pancadaria para as bandas da cultura. Devem ter vindo os mortos a ajudar. Dizem nomes bárbaros, é a barbaridade da nossa condição. Suprematismo, pois, pois. E orfismo purismo simultaneísmo oh, oh. E rayonismo neoplasticismo. E uma voz escura já cavernosa, cubismo,fauvismo eh, eh. E umas vozes raquíticas em falsete, a pregação do vazio programático o nulismo. E o sitismo que era a pregação contra a existência do quadro e a defesa apenas e intransigente do sítio dele na parede - e os poetas. A defesa do regresso às formas poéticas de base que um jocoso crismou de parolice e que ficou o parolismo. E o baralhismo que baralhava muitas palavras e as atirava ao ar e caíam em forma de poema - e o saquismo. Que era metê-las num saco para as tirar ao acaso da inspiração, e o mudismo. Que era a poesia muda em livros em branco. E o canalhismo que era uma poesia ordinária para as classes mais desfavorecidas. E o caralhismo, cujo o chefe de fila era o célebre autor de «Caralhícolas», e que era uma poesia ainda mais ordinária.
- Ide berrar para as profundas do inferno!
e o panacismo que considerava o pânico como medida fundamental do sentimento - e foi quando os músicos
- Não quero! Não quero!
tapei os ouvidos - meu Deus. Estou assim algum tempo, destapo os ouvidos, havia ainda atrasados os romancistas. E os arquitectos, urbanistas. Os pedagogos, os cientistas. E os críticos.
Na tarde abrasada desértica.
E os técnicos publicitários. E os técnicos dos cemitérios.
Na tarde imóvel à praga do calor. Uma voz canta ao longe - canta? Não a ouço. Na tarde de minha condenação.
E os economistas." (...)
Vergílio Ferreira, em Para Sempre
sexta-feira, setembro 7
DISCORDANDO COM RALPH W. EMERSON - A INSTRUÇÃO É INSUFICIENTE E ALIENANTE.
“Deviam parar com a demagogia sobre as massas. As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências. Não precisam de lisonjas mas de instrução”
Ao ler esta opinião de um tal Emerson discordo plenamente da sua sabedoria resignada. Respeito sempre uma opinião, mesmo quando discordo plenamente do seu conteúdo, e é aí, que o respeito pelo emissor se torna ainda maior. É-me dado um prazer respeitador imenso quando certas palavras que vão para além do homem que as escreveu fazem crescer em mim muitas outras palavras capazes de dar um sentido justificado para com aquilo com o qual não concordo. Sendo assim, é inevitável dizer o seguinte:
A demagogia é coisa feia, horripilante até, como tal, tal opinião não passa disso mesmo, DEMAGOGIA, e pior do que isso, acrescentando eu à frente a palavra RESIGNADA, tudo fica ainda mais assustador. Quero eu com isto concordar que “As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências”. Se assim é, pode não ser, é apenas a minha e a opinião desse tal de Emerson que se insere tristemente nas massas que são tudo aquilo que as suas palavras descrevem… Tal pensador devia ser sem dúvida nenhuma um homem limitado aos seus estudos e à sua curta observação. Tristemente pode-se dizer que a sua preparação para a vida era insuficiente para poder perceber o que realmente se passava no seu mundo que era o de todos. Ignorante também o era pelos vistos… Sem me alongar prometo que dará para perceber mais adiante. Continuando. Tal senhor digno de tal nome arrastado pela memória a que chamamos de História deve ter sido em vida homem de grandes feitos e escritos, homem carregado de dom e consequentemente lisonjeado por outros instruídos como ele. Forçosamente, uma dúvida levanta-se:
De que serviram as suas opiniões e reivindicações?
De nada certamente! Encheu o seu universo pessoal de prazeres, de pequenas coisas necessárias ao desenrolar duma vida, mas no entanto, esta sua afirmação de resignado, denota que algo lhe faltou, um certo descontentamento cresceu, algo que lhe fugiu da sua compreensão instruída. Não quero eu com estas dilações demonstrar-me como um ser iludido que transcende tal notável pensador, nada disso! Sou apenas um homem, ou um jovem, uma partícula numa massa disforme que conclusivamente não tem instrução suficiente para compreender o que quer que seja… mas uma coisa é certa, tanto em mim jovem partícula das massas rudes, como em Emerson, como até nas “massas perniciosas em suas reivindicações e influências” o descontentamento é grande, por muito escondido e dissimulado que esteja. Isso… é certo! Por muitas dúvidas que me consumam avidamente, as massas elitistas, intelectuais, normais e outras coisas que tais, tem esse sentimento em comum, sentem que algo falta que dê verdadeiro sentido à existência, nem que seja segmentada e misteriosamente. Sentem que os carris estão tortos e enferrujados. Mas no entanto, a massa maior, a dos pouco ou nada instruídos, a massa rude sem preparação e ignorante, vive à custa dos lisonjeados, vive sob o padrão que lhes é entregue por mãos preparadas, instruídas, mas que no entanto e ironicamente são também ignorantes e rudes. Mais uma pergunta força a sua entrada neste texto:
De que serve então a instrução se não é capaz de dar vida às massas ignorantes?
Embora a instrução seja importante, outras necessidades se levantam. Precisam-se é de seres com força suficiente para convencer as massas. Precisam-se de palavras. De atitudes. É fundamental encontrar os meios para abater a resignação.
De que nos serve acreditar nas massas quando em nós próprios não acreditamos?
Foi essa interrogação pessoal que abateu Emerson – fê-lo não acreditar em si próprio – só isso pode ter sido o motivo para esta sua saída (de) infeliz. Nunca acreditou na sua força como segmento duma força maior à espera de um propulsor que ainda não foi encontrado. E esse seu grave problema, é apenas o símbolo-escrito dos problemas que assolam os homens instruídos e resignados que apesar da sua instrução e consequente opinião não conseguem provar que a instrução é o único caminho capaz de dar um sentido plausível e adequado às massas rudes e ignorantes. E se isso acontece, a razão é simples e perniciosa: é porque a instrução pela qual apregoam como fanáticos religiosos cheios de preconceitos, de nada serve, até conseguirem uma prova que contrarie esta minha última rude e ignorante afirmação.
Entretanto, mais uma pergunta se impõe:
Qual a demagogia que se adequa mais àquilo que verdadeiramente se procura, a minha de rude-ignorante que quer acreditar na força das massas em vez de as iludir, ou a de Emerson e de todos os outros semelhantes instruídos-resignados, que não são mais que rodas de comboio-social-fantasma?...
E agora, para concluir, deixo mais uma citação deste surpreendente ensaísta e poeta norte-americano:
“Entregar-se de corpo e alma; lutar por um mundo melhor, um pequeno jardim, ou uma condição social justa; ter brincado e gargalhado com entusiasmo e cantado com fervor; saber que alguém respira mais aliviado por você estar vivo; isso é ter vencido.”
Concluindo de vez, uma coisa é certa: apesar de não ter acreditado e ter visto as massas à sua imagem, foi sem dúvida alguma um homem de palavras bonitas.
Ao ler esta opinião de um tal Emerson discordo plenamente da sua sabedoria resignada. Respeito sempre uma opinião, mesmo quando discordo plenamente do seu conteúdo, e é aí, que o respeito pelo emissor se torna ainda maior. É-me dado um prazer respeitador imenso quando certas palavras que vão para além do homem que as escreveu fazem crescer em mim muitas outras palavras capazes de dar um sentido justificado para com aquilo com o qual não concordo. Sendo assim, é inevitável dizer o seguinte:
A demagogia é coisa feia, horripilante até, como tal, tal opinião não passa disso mesmo, DEMAGOGIA, e pior do que isso, acrescentando eu à frente a palavra RESIGNADA, tudo fica ainda mais assustador. Quero eu com isto concordar que “As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências”. Se assim é, pode não ser, é apenas a minha e a opinião desse tal de Emerson que se insere tristemente nas massas que são tudo aquilo que as suas palavras descrevem… Tal pensador devia ser sem dúvida nenhuma um homem limitado aos seus estudos e à sua curta observação. Tristemente pode-se dizer que a sua preparação para a vida era insuficiente para poder perceber o que realmente se passava no seu mundo que era o de todos. Ignorante também o era pelos vistos… Sem me alongar prometo que dará para perceber mais adiante. Continuando. Tal senhor digno de tal nome arrastado pela memória a que chamamos de História deve ter sido em vida homem de grandes feitos e escritos, homem carregado de dom e consequentemente lisonjeado por outros instruídos como ele. Forçosamente, uma dúvida levanta-se:
De que serviram as suas opiniões e reivindicações?
De nada certamente! Encheu o seu universo pessoal de prazeres, de pequenas coisas necessárias ao desenrolar duma vida, mas no entanto, esta sua afirmação de resignado, denota que algo lhe faltou, um certo descontentamento cresceu, algo que lhe fugiu da sua compreensão instruída. Não quero eu com estas dilações demonstrar-me como um ser iludido que transcende tal notável pensador, nada disso! Sou apenas um homem, ou um jovem, uma partícula numa massa disforme que conclusivamente não tem instrução suficiente para compreender o que quer que seja… mas uma coisa é certa, tanto em mim jovem partícula das massas rudes, como em Emerson, como até nas “massas perniciosas em suas reivindicações e influências” o descontentamento é grande, por muito escondido e dissimulado que esteja. Isso… é certo! Por muitas dúvidas que me consumam avidamente, as massas elitistas, intelectuais, normais e outras coisas que tais, tem esse sentimento em comum, sentem que algo falta que dê verdadeiro sentido à existência, nem que seja segmentada e misteriosamente. Sentem que os carris estão tortos e enferrujados. Mas no entanto, a massa maior, a dos pouco ou nada instruídos, a massa rude sem preparação e ignorante, vive à custa dos lisonjeados, vive sob o padrão que lhes é entregue por mãos preparadas, instruídas, mas que no entanto e ironicamente são também ignorantes e rudes. Mais uma pergunta força a sua entrada neste texto:
De que serve então a instrução se não é capaz de dar vida às massas ignorantes?
Embora a instrução seja importante, outras necessidades se levantam. Precisam-se é de seres com força suficiente para convencer as massas. Precisam-se de palavras. De atitudes. É fundamental encontrar os meios para abater a resignação.
De que nos serve acreditar nas massas quando em nós próprios não acreditamos?
Foi essa interrogação pessoal que abateu Emerson – fê-lo não acreditar em si próprio – só isso pode ter sido o motivo para esta sua saída (de) infeliz. Nunca acreditou na sua força como segmento duma força maior à espera de um propulsor que ainda não foi encontrado. E esse seu grave problema, é apenas o símbolo-escrito dos problemas que assolam os homens instruídos e resignados que apesar da sua instrução e consequente opinião não conseguem provar que a instrução é o único caminho capaz de dar um sentido plausível e adequado às massas rudes e ignorantes. E se isso acontece, a razão é simples e perniciosa: é porque a instrução pela qual apregoam como fanáticos religiosos cheios de preconceitos, de nada serve, até conseguirem uma prova que contrarie esta minha última rude e ignorante afirmação.
Entretanto, mais uma pergunta se impõe:
Qual a demagogia que se adequa mais àquilo que verdadeiramente se procura, a minha de rude-ignorante que quer acreditar na força das massas em vez de as iludir, ou a de Emerson e de todos os outros semelhantes instruídos-resignados, que não são mais que rodas de comboio-social-fantasma?...
E agora, para concluir, deixo mais uma citação deste surpreendente ensaísta e poeta norte-americano:
“Entregar-se de corpo e alma; lutar por um mundo melhor, um pequeno jardim, ou uma condição social justa; ter brincado e gargalhado com entusiasmo e cantado com fervor; saber que alguém respira mais aliviado por você estar vivo; isso é ter vencido.”
Concluindo de vez, uma coisa é certa: apesar de não ter acreditado e ter visto as massas à sua imagem, foi sem dúvida alguma um homem de palavras bonitas.
sábado, agosto 25
A MINHA RUA
Extorquia igual miúdo enquanto sorria demencialmente
Era desde cedo filho das ruas da urbe
Argolas nas orelhas e boné para marcar atitude
Peito feito e inchado pelo medo que queria rejeitar
Seu pai borrachola e violento por acréscimo
Era homem rijo dos velhos tempos
Bigode e linhas pesadas davam-lhe forma à face
Sua mãe submissa e trabalhadora era uma verosímil senhora
Aos seis era uma cria citadina em crescente
Não havia mãos para o segurarem
Era liberdade posta e justa pela velocidade de tudo
Viu de tudo fez de igual
Moldou-se às necessidades da selva
Cresceu ao ritmo imposto e compreendido por si.
O carro rufa pelas concavidades das suas ruas apodrecidas
Seu motor violento sincroniza-se com a vontade
Os movimentos acentuam-se na cor que dão à noite
Por animais sem consciência do que fazem
Como verdadeiros que agem no seu prol egoísta e natural
O artifício já não é contrário natural
É o mesmo o único
É o desenrolar do que vive
O medo é o contrário reflexo
Fecha os olhos com olhos abertos
Ao que transforma a situação
Age perante o que tem.
Era desde cedo filho das ruas da urbe
Argolas nas orelhas e boné para marcar atitude
Peito feito e inchado pelo medo que queria rejeitar
Seu pai borrachola e violento por acréscimo
Era homem rijo dos velhos tempos
Bigode e linhas pesadas davam-lhe forma à face
Sua mãe submissa e trabalhadora era uma verosímil senhora
Aos seis era uma cria citadina em crescente
Não havia mãos para o segurarem
Era liberdade posta e justa pela velocidade de tudo
Viu de tudo fez de igual
Moldou-se às necessidades da selva
Cresceu ao ritmo imposto e compreendido por si.
O carro rufa pelas concavidades das suas ruas apodrecidas
Seu motor violento sincroniza-se com a vontade
Os movimentos acentuam-se na cor que dão à noite
Por animais sem consciência do que fazem
Como verdadeiros que agem no seu prol egoísta e natural
O artifício já não é contrário natural
É o mesmo o único
É o desenrolar do que vive
O medo é o contrário reflexo
Fecha os olhos com olhos abertos
Ao que transforma a situação
Age perante o que tem.
quarta-feira, agosto 22
SER NA NOITE
Caminhava pela rua perdido em devaneios, seus olhos pesados e acastanhados deixavam brilhar o que rodeava. Os seus passos, serenos, eram como levianas pingas de chuva. Trazia pouca roupa, uma camisa desbotada, umas calças rotas e uns sapatos que estavam em contacto directo com a pele dos seus pés. Não tinha ninguém, apenas um sorriso cheio de tudo aquilo que via em volta, as pessoas, os movimentos da cidade, os pássaros, as arvores e tudo o demais. Não queria nada mais para além da possibilidade de respirar sem se aperceber. Já não tinha fome de nada, estava vazio como quem está cheio de tudo, bem dentro de si. A sua alma era como uma rede, durante anos de vida foi apanhando tudo o que lhe interessava em mar imenso, o que escapava era somente porque era peixe demasiado miúdo para bloquear no seu quadriculado espiritual. Pescou até se encher de tudo que lhe interessava. Até que um dia, cortou a rede, quis começar tudo de novo numa via diferente, já tinha bagagem despejada para tomar tal e capital atitude. Ali estava ele, pela cidade que fala para quem quer ouvir, no seu canto, o canto do teatro que era o degrau do seu quarto com vista para as estrelas. Nada o prendia, nem o mau cheiro, nem a segurança, nem mesmo a vontade. Era um verdadeiro senhor o que via quando parava em frente a um vidro. Era ele. O rosto era o mesmo, os olhos, o nariz, as bochechas, a boca… Era capaz de correr pelos cantos e recantos como o menino que tinha sido há já demasiado tempo. Nada o impedia. A miséria desculpava-o de tudo o que havia para demonstrar cinicamente. Debaixo do seu cartão, de visita, para quem passava e olhava curiosamente, apenas uns livros, uma manta purificada por noites de solidão contemplativa. Nem a luz dos candeeiros o incomodava na hora do sono, eram fonte luminosa para todo o tipo de leituras possíveis em noites de infinidades acontecidas. Os seus livros não tinham frases, nem linhas nem tampouco tinta. Eram livros abertos na escuridão de estar sozinho. Às vezes, como pérolas nunca vistas, conversas até amanhecer, páginas folheadas pela sonoridade das palavras. Sorrisos, gargalhadas, toques, olhares nas mais variadas das percepções interpretativas. Eram esses pequenos tesouros que o deixavam feliz como vagabundo que era. Sem casa, sem carro, sem televisão, sem quartos, prateleiras, sem nada -com tudo. Por vezes chorava, não se negava a necessidades fulcrais como esse acto altruísta de se deixar ser. Não sabia porque chorava. Chorava apenas por necessidade. O choro era para ele o acto contínuo de ser homem como todos os outros que passavam pelos seus dias.
segunda-feira, agosto 20
MÚSICA
“A música é a forma mais eficaz de contar histórias. (…) Porque «existe uma canção na tua dor». E há arte contra a dor. Entre a esperança e a realidade,” (…)
sexta-feira, agosto 17
A escrita é algo de pessoal transmissível, é um acto de identificação que une quem escreve sobre quem lê. Uma maneira de pensar como o requisito justificável para agir, torna-se força de quem escreve, como que uma chamada ao âmago de quem interpreta de livre vontade, por gosto. É um acto de altruísmo mútuo, uma mensagem e um eco do outro lado, um jogo de ecos desmultiplicados em estado instável mas repetidos até à verdade. Torna-se tudo claro entre nós, emissor e receptor, entre aquilo que só nós compreendemos de uma forma solitária, numa autêntica implosão introspectiva que nos faz girar concentricamente tolhendo-nos a acção como se não tivesse sido compreendido o necessário, o que nos faz sonhar até ao dia em que agimos em prol das pequenas coisas que poderiam ser diferentes, particularidades que nos descontentam, suposições do que poderia ser. Aí, a mensagem, por muito que dissimulada, seria assimilada à vontade do escritor, o descontente, o que procura preencher o seu tempo com o desejo de no mínimo perceber e constatar o que é o mundo de hoje, que embora retardado mesmo no passado continua a ser um olhar para o lado daquilo que queremos cada vez com menos noção das coisas, do geral, aquilo pelo qual sonhamos sós com os nossos botões. Aí concretiza-se um referido eco, um eco inaudível mediante uma superfície dura que teimamos em deixar de pé, como que um muro entre uma vontade e um grande propósito. Um muro tão alto que desmoraliza-nos só de olhar, como quem conclui: «nem tento, parece um demasiado alto!» Como se liberdade nos tivesse sido espremida como uma laranja fresca e progressivamente biológica, cada vez mais seca e inoperante, como se a mentira fosse verdade em tempos de liberdade anárquica.
O mundo é uma anarquia! Embora carregado de guloseimas várias e em suficiência para nos adocicar a boca, é um lugar em que a vontade colectiva encontra-se num estado simbolizado pelo abstracto imposto pela turbulência do futurismo instantâneo, ao ritmo de um corredor de saltos barreiras que não pula sobre as altas barras horizontais, tropeçando em todos os degraus sem perceber ao fim dos quantos tropeções que mais barreiras se interpõe pela frente e os mesmos tombos no precipício não nos deixam ganhar a corrida desvairada e reconfortante. A liberdade existe, dum quadrante ao outro, de propósito a propósito. É algo adquirido pelo homem lutador contra a barreira não limitadora que é o tempo. Hoje em dia, nas horas, minutos e segundos de acção selvática o limite não se limita a ele próprio, o limite está na formalidade ilimitada. O político age segundo os seus interesses, o prosaico ser elege-o de livre vontade e arrepende-se de tal eleição. O ritmo transtornado da locomotiva em que viajamos percorre um caminho sem rumo desgovernado pela liberdade de acção de quem torna bem real o que não quer para si enquanto individualista sonhador que não partilha das suas conclusões com o vizinho do lado que ouve música de mau gosto a som demasiado elevado. Mais uma vez uma parede interpõe-se. Uma fina parede. E quem fala numa, pensa irremediavelmente em todas as outras paredes frágeis que separam as pessoas na sua condição de humanos encaixotados e formatados, como se um simples soco arrebatador e explosivo não fosse suficiente para aniquilar a barreira que limita o descontentamento. Por enquanto vamos vivendo uma liberdade que não nos satisfaz. Seguindo trilhos cruzados que nos fazem chocar em nós, nas nossas contradições suficientes. Privando-nos livremente duma outra liberdade.
O mundo é uma anarquia! Embora carregado de guloseimas várias e em suficiência para nos adocicar a boca, é um lugar em que a vontade colectiva encontra-se num estado simbolizado pelo abstracto imposto pela turbulência do futurismo instantâneo, ao ritmo de um corredor de saltos barreiras que não pula sobre as altas barras horizontais, tropeçando em todos os degraus sem perceber ao fim dos quantos tropeções que mais barreiras se interpõe pela frente e os mesmos tombos no precipício não nos deixam ganhar a corrida desvairada e reconfortante. A liberdade existe, dum quadrante ao outro, de propósito a propósito. É algo adquirido pelo homem lutador contra a barreira não limitadora que é o tempo. Hoje em dia, nas horas, minutos e segundos de acção selvática o limite não se limita a ele próprio, o limite está na formalidade ilimitada. O político age segundo os seus interesses, o prosaico ser elege-o de livre vontade e arrepende-se de tal eleição. O ritmo transtornado da locomotiva em que viajamos percorre um caminho sem rumo desgovernado pela liberdade de acção de quem torna bem real o que não quer para si enquanto individualista sonhador que não partilha das suas conclusões com o vizinho do lado que ouve música de mau gosto a som demasiado elevado. Mais uma vez uma parede interpõe-se. Uma fina parede. E quem fala numa, pensa irremediavelmente em todas as outras paredes frágeis que separam as pessoas na sua condição de humanos encaixotados e formatados, como se um simples soco arrebatador e explosivo não fosse suficiente para aniquilar a barreira que limita o descontentamento. Por enquanto vamos vivendo uma liberdade que não nos satisfaz. Seguindo trilhos cruzados que nos fazem chocar em nós, nas nossas contradições suficientes. Privando-nos livremente duma outra liberdade.
terça-feira, julho 24
segunda-feira, julho 23
A ESCRITA É COMO UM LEVIANO NOVELO
O gosto pela escrita é um acto que me consome. Por vezes falta-me a vontade. Os dias por vezes são demasiado completos, completos ao ponto de nos roubar tudo aquilo que temos como principal interesse a desejar. Durante um dia certas bases são-nos necessárias, e muitas vezes o tempo já é mínimo para esses fragmentos essenciais. Temos como principal e bruta causa o trabalho, é óbvio que mesmo sendo essa área inevitável uma base fundamental para a sobrevivência, não é propriamente desse tipo de bases necessárias que me estou referir. O trabalho é mais como um mal necessário e despoletador. Trabalhando-se, uma série de consequências desenrolam-se como um pesado novelo que desce em vão de escadas. O que pesa é o trabalho, o fio que vai ficando para trás, é tudo o que dele se desenrola. Podemos começar pela segmentada linha de cansaço. Psicológica. Física. Vivencial. A parte psicológica é uma das primeiras a desenrolar-se nos degraus que pretendemos subir, mas no entanto, vai em sentido contrário e descendente. A física dá-lhe seguimento. A vivencial é a continuidade da linha que permanece ligada ao novelo.
Hoje, domingo, o novelo vai caindo pelas escadas abaixo. Amanhã é segunda, uma segunda chuvosa de verão estranho.
Decidi largar o novelo para me libertar da sua gravidade, e assim poder dar cumprimento ao outro novelo implícito, o novelo que por vezes se deixa engolir por aquele que caiu pelas escadas abaixo. Pode parecer estranho imaginar um novelo a engolir outro pela sua boca que não existe, mas a verdade diz-me notoriamente que isso acontece. Digo isto por constatação. Nos últimos dias os dois novelos tem-se emaranhado um no outro, e só hoje, depois de muito esforço, é que consegui soltar o meu fio a que posso chamar simbolicamente de escrita do outro a que posso chamar dramaticamente de trabalho, evitando assim, a queda dos dois pelas escadas abaixo que servem de base para o local onde me encontro. Só depois de algum esforço aprazível consegui fazer com que o meu desejável novelo subisse de novo as escadas até mim bem enrolado como uma esfera de fios, para assim, ver, sem olhar directamente, que o outro novelo, o pesado, já se encontra bem lá no fundo à beira da porta de saída do prédio. A ponta por cá continua.
Quanto à do meu belo novelo, está algures por aí emaranhada pela cidade. Não a cidade dos prédios em construção, mas sim a cidade em construção, a minha cidade. A cidade labiríntica que só eu compreendo, que se vai desenrolando pela ponta de fio que é a do meu pensamento e que bem junto a mim se encontra, desenrolada do novelo que guardo como compreensão. E a escrita é isso mesmo. Um encontro que se guarda maleável para sempre. Um fio enrolado de forma a dar forma a uma bola que nunca é a mesma porque o seu tamanho cresce e mingua mediante o ritmo complexo dos dias. Hoje contrariei e desemaranhei tudo o que previa. Mesmo esvaziado pela saturação poeirenta dos últimos dias que me impedia de escrever devido a necessidades como a contemplação e a descontracção psicológica, soltei-me do fio que me prendia à letargia e que me ia impedindo de falar pelas palavras escritas. Rodeei-me de componentes que me saciam a sede que tenho sempre. Letras. Palavras. Frases. Metáforas. Hipérboles. Linhas. Virgulas. Símbolos. Pontos. Parágrafos. Um texto. Voltei ao meu mundo em construção, à minha cidade natal que moldo a meu gosto com as minhas próprias duas mãos. Sem prédios. Nem obrigações. Apenas a liberdade consciente de ser e procurar evidenciar o que se escondeu em mim nos últimos dias, de cansaço, que me impediam de desenrolar o novelo que se escreve por si.
Hoje, domingo, o novelo vai caindo pelas escadas abaixo. Amanhã é segunda, uma segunda chuvosa de verão estranho.
Decidi largar o novelo para me libertar da sua gravidade, e assim poder dar cumprimento ao outro novelo implícito, o novelo que por vezes se deixa engolir por aquele que caiu pelas escadas abaixo. Pode parecer estranho imaginar um novelo a engolir outro pela sua boca que não existe, mas a verdade diz-me notoriamente que isso acontece. Digo isto por constatação. Nos últimos dias os dois novelos tem-se emaranhado um no outro, e só hoje, depois de muito esforço, é que consegui soltar o meu fio a que posso chamar simbolicamente de escrita do outro a que posso chamar dramaticamente de trabalho, evitando assim, a queda dos dois pelas escadas abaixo que servem de base para o local onde me encontro. Só depois de algum esforço aprazível consegui fazer com que o meu desejável novelo subisse de novo as escadas até mim bem enrolado como uma esfera de fios, para assim, ver, sem olhar directamente, que o outro novelo, o pesado, já se encontra bem lá no fundo à beira da porta de saída do prédio. A ponta por cá continua.
Quanto à do meu belo novelo, está algures por aí emaranhada pela cidade. Não a cidade dos prédios em construção, mas sim a cidade em construção, a minha cidade. A cidade labiríntica que só eu compreendo, que se vai desenrolando pela ponta de fio que é a do meu pensamento e que bem junto a mim se encontra, desenrolada do novelo que guardo como compreensão. E a escrita é isso mesmo. Um encontro que se guarda maleável para sempre. Um fio enrolado de forma a dar forma a uma bola que nunca é a mesma porque o seu tamanho cresce e mingua mediante o ritmo complexo dos dias. Hoje contrariei e desemaranhei tudo o que previa. Mesmo esvaziado pela saturação poeirenta dos últimos dias que me impedia de escrever devido a necessidades como a contemplação e a descontracção psicológica, soltei-me do fio que me prendia à letargia e que me ia impedindo de falar pelas palavras escritas. Rodeei-me de componentes que me saciam a sede que tenho sempre. Letras. Palavras. Frases. Metáforas. Hipérboles. Linhas. Virgulas. Símbolos. Pontos. Parágrafos. Um texto. Voltei ao meu mundo em construção, à minha cidade natal que moldo a meu gosto com as minhas próprias duas mãos. Sem prédios. Nem obrigações. Apenas a liberdade consciente de ser e procurar evidenciar o que se escondeu em mim nos últimos dias, de cansaço, que me impediam de desenrolar o novelo que se escreve por si.
segunda-feira, julho 16
O SOFÁ
Absorvo-me num sofá
Em tudo o que ele me pode mostrar
Explosões cerebrais
Recordações duma imaginativa concreta
O seu tecido, a sua cor as suas pessoas
Mãos que lhe deram forma
Capazes de me fazer recordar sonhando?
Quedo-me na sua questionação para lá dum olhar
Quanto tempo faz? Foi dado envelhecido, gasto pelo tempo
Onde esteve, por onde andou? O toque que lhe foi sentido
Está velho, tem história um conto magicado por mim
Um amor que ali começou a afagar, apaixonou o homem
Que aqui escreve escreveu
Alguém o formalizou antecedentemente
Talvez uma mulher de cabelos encaracolados
Pelas mesmas mãos delicadas que penteavam meditativo espelho
Embaciado pelo banho do repouso de fim de tarde
Pernas aplainadas pela condutiva ancestralidade
Utensílios na sombra duma oficina fechada por hoje
Martelos, pregos, tecidos e todos os demais amigos
Unidos para fazer recordar uma noite
A noite do sofá que me olha demonstrando-se
Misterioso o suficiente para me fazer voar para lá
Para o tempo passado pelo presente que já foi…
Deito-me nele, acabo as linhas que lhe dão forma
Amparada no cansaço de acordado
Conforto-me nas palavras que me trouxe
Enquanto espero sonhos de olhar agora fechado
Em tudo o que ele me pode mostrar
Explosões cerebrais
Recordações duma imaginativa concreta
O seu tecido, a sua cor as suas pessoas
Mãos que lhe deram forma
Capazes de me fazer recordar sonhando?
Quedo-me na sua questionação para lá dum olhar
Quanto tempo faz? Foi dado envelhecido, gasto pelo tempo
Onde esteve, por onde andou? O toque que lhe foi sentido
Está velho, tem história um conto magicado por mim
Um amor que ali começou a afagar, apaixonou o homem
Que aqui escreve escreveu
Alguém o formalizou antecedentemente
Talvez uma mulher de cabelos encaracolados
Pelas mesmas mãos delicadas que penteavam meditativo espelho
Embaciado pelo banho do repouso de fim de tarde
Pernas aplainadas pela condutiva ancestralidade
Utensílios na sombra duma oficina fechada por hoje
Martelos, pregos, tecidos e todos os demais amigos
Unidos para fazer recordar uma noite
A noite do sofá que me olha demonstrando-se
Misterioso o suficiente para me fazer voar para lá
Para o tempo passado pelo presente que já foi…
Deito-me nele, acabo as linhas que lhe dão forma
Amparada no cansaço de acordado
Conforto-me nas palavras que me trouxe
Enquanto espero sonhos de olhar agora fechado
domingo, julho 15
COMO SEMPRE!
Hoje foi um daqueles dias em que caímos numa crise existencialista da mais bela e concludente que pode haver. Logo de manhã como sempre levantei-me para ir trabalhar nas obras como sempre de há uns tempos para cá. Ganhar dinheiro! É preciso ganhar dinheiro da melhor maneira possível! Levantei-me atrasado como sempre também. A correr vesti-me, preparei o saco, esqueci-me de algo que já não me recordo, como sempre também, tive que voltar a subir as escadas de volta ao meu quarto para vir buscar a minha própria cabeça e voltá-la a pôr no sítio. Estava um rico dia de primavera invernosa, dúbia como um raio dos que se fizeram ver nos céus da tarde. Ora sente ora não sente. Um passo apressado ao ritmo demarcado pela escrita que me obriga a dactilografar dum modo real e encantador. Por acaso ainda não chovia mas no chão já não se via o pó e o áspero. Pedaços de espelhos em estados líquidos a dar forma massiva sarapintada nas concavidades do passeio, aqui e ali, de todos os tamanhos formas e reformas. Um todo que se deixa transpirar e aspira o seu próprio suor! Ora no céu! No ar! No chão! Uma força descontrolada pelo ritmo sistemático do ordenamento do tempo, o nosso tempo e o tempo da contemplação. O único tempo que se faz sentir. Único como circunstância complexa e fundamental. O que nos sorve e reabsorve que se pode chamar de relógio intemporal. O fim! O fim já foi, mas de manhã de passo apressado como um autómato digno de tal adjectivação ainda consegui ver o autocarro que devia apanhar como sempre. Devia! E como tal devo dizer que não era só eu o autómato, afinal parece que é algo contagioso. Vi pássaros esvoaçantes. Gaivotas e outros seres vivos difíceis de distinguir. O sono acelerado pelo pé pesado não permitia ter grande discernimento óptico e tendo em conta que os olhos não se queriam muito abertos para a “vida” era sem dúvida nenhuma uma bela duma compreensiva contemplação. A música, apenas nos ouvidos, dava a banda sonora como sempre do dramatismo teatral que estará em palco, chega-se a ver as mesmas peças todos os dias, tipo actos com pequenas diferenças interpretativas, uma peça por dia! Até as nuvens andavam às peças, o vento via-se nas formas magnéticas ao ritmo da minha manhã. Tudo e todos adormecidos numa peça, absorvidos pela tragédia matinal que tem uma imensidade de espectadores acordados: não eu, como é óbvio, nem todos os outros bonecos exteriores, apenas o conteúdo, as suas esponjosas formas de tecido acetinado pela chuva que entretanto começou a cair. Foi como um sossego sonolento, as gotas a caírem uma por uma do seu todo na naturalidade do Inverno que foi atropelado por um camião e desfeito em pedaços frescos e resfriados que se começaram a sentir na força do vento desfragmentado pelas formas, as tais que nos podem levar para longe! «Um belo sonho! Vou com o vento!... Sou um pássaro como aquele que vai ali em cima, o tal que não consigo identificar!...» E sendo assim a voar vou em direcção ao rumo do bafo ventoso que dá direito a uma viajem numa divisão movimentada em que diversos bancos figuram à volta do espaço ambulante carregado de carneiros mal mortos com um bafo quente e doentio carregado de alho com cebola podres dum monte qualquer agreste. É o momento Zen! Com publicidades a apelar a uma espiritualidade apaziguadora e sonolenta ao ritmo acelerado das circunferências de borracha alinhadas pelo eixo constrangedor primaveril. Um barulho evocativo de baixa frequência numa versão maquinal dum rumorejar religioso imparável. Os olhos pesam. As cabeças tombam. As crianças irritam, nunca souberam respeitar os princípios fundamentais do seu tempo, sempre com uma indiferença superior, uma inocência natural da mais pura entre as almas de todos os adormecidos e conformados. E lá vou eu, a ver adormecido no momento imagens coloridas e monótonas! As mesmas pessoas os mesmos gestos, uma percepção tardia e reflexiva do íntimo da noite que respira em mim. Uma buzina na cabine deambulatória fez-me carregar um botãozinho anteriormente. O inicio duma manhã de trabalho sob a luz pálida dum sol escondido pela força do vento. Um pé no passeio uma posição, um olhar para o céu a ver as nuvens a correrem a um ritmo divinal. Umas cuecas estreitas de fora do rabo sexy na mesa ao lado, como sempre! Um café acompanhado ao som das páginas do jornal do costume. Uma ida e volta determinada e custosa! A contagem decrescente ao som do movimento perpétuo no passeio pesado pelas solas. Está lá o porteiro. Tiro a senha horária que não vejo nem existe substancialmente, guardo-a no bolso do casaco que me fica a matar sem tão pouco lhe tocar.
Já na carrinha a conversa rola de passe em passe, pequenos remates defesas carrinhos lançamentos do meio para a esquerda da carrinha branca e perigosa nas mãos dum distraído. Sempre frenético mesmo quando calado o condutor mantém o ritmo acelerado da carroça carregada de utensílios e tubos contemporâneos. Mete o rádio mais baixo, fala do que lhe apetece, futebol e outros interesses televisivos a incidirem para um burburinho religioso que absorve muitos crentes. Conversas sobre temas que só preocupam quem anda a tentar fugir para o outro lado do espelho da criminalidade. Aí, uma revolta mais séria dá corpo pesado à voz do homem que vai a subir as escadas para o abismo, rumo à exploração maquiavélica da vida, cada passo uma abolição das barreiras que impedem a corrida para o ouro, a subir empurrado por homens felizes como eu que pelo menos e sarcasticamente percebem quem são, vê-lo a rejubilar com saídas e entradas capaz de bater o mais sério do homem, toques subtis ao ritmo do sentimento de superioridade. O trânsito condensa e a conversa vai dando uma de filosófica, filosofia barata, dum lado ao outro, desde o condutor tresloucado e brusco distraído nas curvas que não vê enquanto fala, que nem percebe tão pouco que se está a gozar com ele tão absorvido na sua demência cavalgante. À minha direita no lugar do morto está um homem que dá um empurrão com mais força, calado. De repente uma pausa para o silêncio adocicado pelo som que debita do rádio e faz chorar lágrimas de emoção! E noutras circunstâncias, de lembrança de aspirador de dourados simbólicos, a palavra trabalho impera sobre o fundo do assunto que se explana do Interlocutor, aí a conversa resvala para um campo que não me interessa nem falo, limito-me a chorar lágrimas secas, a ouvir as informações do trânsito da cidade explosiva ou até conversas gravadas pelo directo memorável duma entidade que se encontra a gravar o que diz. O morto ressuscita ganha vida marionética pactua a sangue que escorre por distracção das mãos, responde militarmente ao superior hierárquico duma guerra injusta que se fez sentir por altura dum passado de quem manda. «Sim senhor!» diz o morto por entre dentes sem tão pouco perceber o seu grunhido de baixa frequência. Na rádio dizem entretanto «Tá no ir, não há que perder tempo, hoje chuva para o dia todo mesmo que não chova!» e eu espreguiço-me pelo movimento descendente da saída para o chão molhado por um orvalho matinal frondoso.
A sinfonia de metais da quinta feira de alegria já chegou, temos que pegar nos condicionados instrumentos tirá-los da caixa e juntarmo-nos ao grupo extenso de músicos que dá ritmo estonteante e embalado pelas mãos do inconformismo conformado, que com muitos anos de treino e genética recente vão prologando e compondo a melodia dos artistas presentes. Entre todos de tudo um pouco.
As paredes ainda estão cor de laranja, uma cor muito em voga em paredes que não se hão-de ver naquela cor, pequenas quadriculas acinzentadas ostentam ordenadamente tijolos que falam quando não se percebe quem. Os fios emaranham-se no chão, os caminhos são muitos e a música berra energeticamente duma aparelhagem sonora a fazer dueto com o som áspero dos movimentos da nossa orquestra dramática em construção, quanto mais se tocam os diversos instrumentos em mais melodioso se materializa o ensaio, o tempo vai passando e a experiência enriquece o reportório de notas que se fazem expandir pelo o ar poeirento, o martelo acústico e o pneumático são os sons mais graves que impõem o ritmo urbano entre todos os demais instrumentistas. O som intercalado latejante é rodeado concentricamente ao ritmo dos timbres dos diversos intervenientes. (...)
Já na carrinha a conversa rola de passe em passe, pequenos remates defesas carrinhos lançamentos do meio para a esquerda da carrinha branca e perigosa nas mãos dum distraído. Sempre frenético mesmo quando calado o condutor mantém o ritmo acelerado da carroça carregada de utensílios e tubos contemporâneos. Mete o rádio mais baixo, fala do que lhe apetece, futebol e outros interesses televisivos a incidirem para um burburinho religioso que absorve muitos crentes. Conversas sobre temas que só preocupam quem anda a tentar fugir para o outro lado do espelho da criminalidade. Aí, uma revolta mais séria dá corpo pesado à voz do homem que vai a subir as escadas para o abismo, rumo à exploração maquiavélica da vida, cada passo uma abolição das barreiras que impedem a corrida para o ouro, a subir empurrado por homens felizes como eu que pelo menos e sarcasticamente percebem quem são, vê-lo a rejubilar com saídas e entradas capaz de bater o mais sério do homem, toques subtis ao ritmo do sentimento de superioridade. O trânsito condensa e a conversa vai dando uma de filosófica, filosofia barata, dum lado ao outro, desde o condutor tresloucado e brusco distraído nas curvas que não vê enquanto fala, que nem percebe tão pouco que se está a gozar com ele tão absorvido na sua demência cavalgante. À minha direita no lugar do morto está um homem que dá um empurrão com mais força, calado. De repente uma pausa para o silêncio adocicado pelo som que debita do rádio e faz chorar lágrimas de emoção! E noutras circunstâncias, de lembrança de aspirador de dourados simbólicos, a palavra trabalho impera sobre o fundo do assunto que se explana do Interlocutor, aí a conversa resvala para um campo que não me interessa nem falo, limito-me a chorar lágrimas secas, a ouvir as informações do trânsito da cidade explosiva ou até conversas gravadas pelo directo memorável duma entidade que se encontra a gravar o que diz. O morto ressuscita ganha vida marionética pactua a sangue que escorre por distracção das mãos, responde militarmente ao superior hierárquico duma guerra injusta que se fez sentir por altura dum passado de quem manda. «Sim senhor!» diz o morto por entre dentes sem tão pouco perceber o seu grunhido de baixa frequência. Na rádio dizem entretanto «Tá no ir, não há que perder tempo, hoje chuva para o dia todo mesmo que não chova!» e eu espreguiço-me pelo movimento descendente da saída para o chão molhado por um orvalho matinal frondoso.
A sinfonia de metais da quinta feira de alegria já chegou, temos que pegar nos condicionados instrumentos tirá-los da caixa e juntarmo-nos ao grupo extenso de músicos que dá ritmo estonteante e embalado pelas mãos do inconformismo conformado, que com muitos anos de treino e genética recente vão prologando e compondo a melodia dos artistas presentes. Entre todos de tudo um pouco.
As paredes ainda estão cor de laranja, uma cor muito em voga em paredes que não se hão-de ver naquela cor, pequenas quadriculas acinzentadas ostentam ordenadamente tijolos que falam quando não se percebe quem. Os fios emaranham-se no chão, os caminhos são muitos e a música berra energeticamente duma aparelhagem sonora a fazer dueto com o som áspero dos movimentos da nossa orquestra dramática em construção, quanto mais se tocam os diversos instrumentos em mais melodioso se materializa o ensaio, o tempo vai passando e a experiência enriquece o reportório de notas que se fazem expandir pelo o ar poeirento, o martelo acústico e o pneumático são os sons mais graves que impõem o ritmo urbano entre todos os demais instrumentistas. O som intercalado latejante é rodeado concentricamente ao ritmo dos timbres dos diversos intervenientes. (...)
JARDIM DE RAÍZ

"Jardim das delícias terrenas" Hieronymus Bosch, 1504
Silenciaste-te como resposta às minhas palavras. As minhas flores, em forma escrita perderam o cheiro doce da tinta, concêntricas letras sem sentido ordenado da vontade que me explana. Não pousaste sobre as suas minhas pétalas, rumaste para longe para um longe que não consigo decifrar. Senti-me só no silêncio das minhas palavras que flores não foram aquando do eco da tua melodia. Perdido, apenas perdido no eco que é o meu e não o desejado na primavera do meu ser que se quer expandir pela intemporalidade enternecedora. Repeti-me na ânsia de te ouvir, tentando com o meu pólen voar até ao teu nariz vazio pelo cheiro da minha constatação. Sorri para mim como se ao espelho me observasse como quem espera o reflexo daquilo que escreveu. Um sorriso doloroso rasgou-me a inferioridade da cara espelhada.
Senti-me bem na procura de ver a forma que é tua na cabeça sonhadora que vive o meu corpo. Um bem-estar doloroso forçado pela memória invadiu-me as entranhas, eras tu em mim, pávida como sempre, sobre este olhar introspectivo que me tolhe explanando-se. Todo um jardim na caixa em que me tornei, grandiosa o suficiente para me fazeres crer que a caixa que me molda é insuficiente para te conter.
Rejubilei num esvoaçar do que disse
Pousaste em mim tardiamente
Era já eu um ser disperso caído aos pés dum vazio que me varreu
Já não queria palavras apenas toques um abraço um beijo um respirar
Capaz de desenraizar a raiz que me estagnou.
segunda-feira, julho 9
A RESPEITO DO CONCEITO DE RESPONSABILIDADE
No autocarro, cânticos embriagados foram estalando pelo caminho, e aos poucos, os vidros esfriados pela noite. Um bando de rapazes e tenras raparigas tinham entrado na paragem anterior munidos de cervejas e instrumentos vocais capazes de agoniar o mais paciente dos surdos. Encostado no meu canto fui delirando alegremente com tal imagem sonora. Ver as garrafas de cerveja e sentir um gosto seco na boca fizeram de mim um ser desesperado. Os cânticos eram verdadeiramente agoniantes mas foram suficientemente bons para me fazerem rir à parva e desejar fugir do autocarro rapidamente. Questionei a possibilidade de partir o vidro e saltar borda fora…
Chegado ao destino o silêncio falou mais alto. Estava uma noite agradável, as ruas estavam apinhadas de caminhantes a afunilar para a entrada do enorme barril plantado a duzentos metros do mar rumorejante.
Começou a odisseia. No dia a seguir iria trabalhar bem cedo, sem saber bem porquê, tal responsabilidade não me entrou na cabeça, fugiu para longe da minha percepção. A preocupação era agora outra. Álcool. Queria álcool e devaneio selvático. Queria entorpecer o cérebro e dar asas ao espaço sideral, o espaço do nada que nos serve de base como homens que somos. Comecei por uma cerveja de meio litro, daquelas cervejas manhosas que surgem como cogumelos das mais diversas formas e sabores com o intuito de chamar à atenção dos mais cépticos entre os bêbados. Na falta da tradicional, uma com um sabor mais forte e numa quantidade boa era o suficiente para arrefecer e suavizar a minha boca seca. Foi aí que dei um passo para o tudo. Para a perdição total, solta de rédeas, transformei-me em cavalo selvagem num prado amplo e natural repleto de cactos espinhosos e sequiosos de gotas de soluções aquosas multicolores. Ainda hoje, sóbrio e fragmentariamente esquecido, sinto que a veracidade desta minha história carece de pormenores capazes de dar forma coerente ao sucedido. Mas isso não é importante, a coerência não é sequer para aqui chamada e talvez por causa disso tal lembrança seja vista e analisada como se dum sonho se tratasse. Embriagado pelo álcool bebido a jorros e pelo ambiente respirado, atulhei-me em considerações e posições soltas perante estados de espírito como o meu. Não me lembro do que disse, pouco me lembro do que fiz. Recordo-me de sair da tenda das borlas e dirigir-me à casa de banho. Pouco trôpego lá fiz o meu slaloon gigante até ao mictório, lá chegado, mijei ao lado, era um acto menos custoso e bem mais natural. Depois de me consolar com a fluidez a jorros, tentei voltar ao ponto de partida… Caminhei, olhei em volta, caminhei, caminhei, voltei a olhar à procura do farol que me iluminava a alma e nada. Dei quatro voltas ao recinto sem encontrar, sem me encontrar. Entretanto voltei ao sítio de primeira necessidade e como cão que se preza por lá mijei mais uma vez. Ao apertar a pertinhola e levantar a cabeça desisti de voltar a procurar a tenda da copofonia. Um som de fundo cativou-me, vinha duma tenda grande a poucos metros de mim. Encaminhei-me para lá ao som do jazz crescente. Quatro indivíduos munidos com as suas armas enchiam de chumbos a tenda. Tocavam bem. Embalaram-me. Meteram-me dentro duma embalagem almofadada que me fez ficar por ali uns largos minutos. O corpo contorcia-se ao som de contrabaixo, bateria, saxofone e trompete. Era capaz de ficar ali até acabar, mas de repente, e sem saber agora explicar muito bem porquê, veio-me à ideia que a tenda era ali, na direcção para a qual olhei. Encaminhei-me nessa direcção e dei por mim de novo na tenda onde se encontravam os meus comparsas de borga. Estavam igualmente alegres, entorpecidos por charros de haxixe e copos à valente. Voltei a encher o meu copo. Não sei se de cerveja se de whisky, o que seria não era importante. As palavras e as gargalhadas saíam demencial e estonteantemente, uns bafos de haxe uns goles de álcool uma elevação suprema. Já não me lembrava de tal estado entorpecido. Há já bastante tempo que não me dava ao trabalho de sair de casa para beber como um cano de esgoto num dia de avantajadas chuvas. Que noite! Que memorável recordação! Que acto divino este, beber até cair para o lado e perceber nos dias que precedem que por vezes a vida é um processo de esquilo que rói nozes sem saber bem porquê. No dia a seguir uma série de orgulhos e conclusões brilhantes invadiram-me o cérebro como lapas bem vindas. Para quê prender-me sempre às responsabilidades impostas pela sociedade, se elas só existem para me pesar o espírito? Porque razão haveria de me sentir culpado por ter bebido bem e no dia a seguir não ter ido trabalhar? Tudo isso só serve para nos tolher, para sermos cães que não nossos. Entretanto perdi o telemóvel, o passe de autocarro e o maço de tabaco. E de todas essas três coisas só uma coisa me preocupou, o passe, sem ele não poderia vir até casa… Dei por mim já fora do recinto da queima dos neurónios, e os meus estavam bem queimadinhos, era naquele preciso momento um homem-peixe, um homem só, sem se lembrar tampouco dos que ficaram para trás, perdido em mim mesmo. Falava com três gajos com um ar bastante refinado, bem vestidos, com um sotaque educado, não me recordo se fui eu que os interpelei, se foram eles que me falaram, não fazia a mínima ideia de como tinha ali chegado… Lembro-me que tinham um carro clássico, branco sem capota, que estava um sol matinal maravilhoso e reconfortante. A brisa do mar lambia-me a cara, tal carro era o ideal para ir para casa. Descapotável! Rapidamente estava dentro dele depois de perceber que iriam atravessar a ponte Arrábida. Supostamente iriam para Coimbra ou para Aveiro… Quando tal estava no bairro da Pasteleira. Já num portal dum prédio carregando o meu corpo ondulante tentava perceber o que ali fazíamos, em vão, de repente um deles dirige-me a palavra.
- Estás todo maluco! – Ao ouvir isto uma espécie de choque apoderou-se de mim e abanou-me.
- Sabem que mais? Ide-vos foder! – Virei costas e dirigi-me para a rua.
Estava todo perdido, mas mesmo assim pus as mãos aos bolsos para me certificar do que não tinha. Tinhas apenas uma moeda no bolso, insuficiente para apanhar o autocarro que ainda não sabia qual era nem para onde. Dirigi-me para o táxi que me tinha trazido gratuitamente para ver se não tinha deixado cair pelo banco de trás as minha coisas, confirmou-se, nada estava por lá. Apetecia-me um cigarro. No tabelier algo plastificado reluziu com a luz do sol. Já de maço de tabaco na mão acendi um cigarro e encaminhei-me pelas ruas da até então desconhecida Pasteleira. Pela rua e àquela hora, desconhecida na altura, já andavam umas quantas e frescas pessoas. Velhinhas com sacas. Cães esfaimados e vadios. Senhoras de meia-idade… Dirigi-me a uma e perguntei-lhe por transporte.
- A senhora por acaso não me sabe dizer qual e onde posso apanhar o autocarro para o porto? – Não estava assim tão mal afinal, ainda conseguia articular uma pergunta com pés e cabeça.
- Você foi para queima!... Sei sim senhor, venha comigo. – Acompanhei-a enquanto me falou com orgulho da sua filhinha que há bem pouco tempo tinha acabado um curso qualquer e já se encontrava a trabalhar. Indicou-me então a paragem e, confortado pelo sol, por lá esperei pelo autocarro. Depois de pensar no que haveria de dizer, as desculpas que serviriam de desculpa plausível, e de muitas outras e confusas suposições, chegou o autocarro, instintivamente optei por entrar sem dar cavaco ao motorista e sentar-me. Já no lugar, ao lado duma universitária orgulhosa pelo pólo que vestia e com um cheiro agradável a perfume, olhava furtivamente para o retrovisor do motorista à espera duma repreensão ou duma pergunta constrangedora. Nada disso aconteceu. Observei calmamente os transeuntes, tirei conclusões não absorvidas pela memória e de repente já estava na baixa da bela cidade do Porto. Centenas de pessoas por lá andavam. Um ritmo de dia de trabalho rolava pela calçada. Para cá para lá. A uma velocidade constante. Autocarros. Camionetas. Carros motas. A estação de São Bento a vomitar pessoas pela boca que são as suas portas.
O barulho maquinado pelo barulho citadino dava uma ambiência esquisita mas agradável à vista. Toda aquela vida rolava diante dos meus olhos descomprometidos. Olhos humedecidos pelo sono mas no entanto bem abertos. Estava então parado. Não me lembrei sequer de olhar para o relógio da estação. Entrei no fosso para o metro. Tinha uma moeda suficiente para o meio. Decidi entrar sem pagar. Sempre que andei de metro nunca vi um revisor de cartões. O metro chegou em minutos como uma cobra amarela cheia de vítimas no comprido estômago que é o seu corpo. Entrei de espírito leve sem medo. Ao atravessar a ponte D. Luís I maravilhei-me com as duas cintilantes e iluminadas margens, com o rio douro e a sua cor doentia e suja, rejubilei. Entrei na periférica deusa Gaia subi a avenida movimentada e saí na minha destinada estação: JOÃO DE DEUS. Já na rua, com os ouvidos avivados pelo movimento perpétuo, caminhei calmamente e em piloto automático para casa. Pelo meio parei numa pastelaria para gastar a minha última moeda num belo e doce bolo que justificava, neste caso sim, o gasto; seria capaz de comer mais uns quantos que figuravam na montra que ladeava o balcão, mas não tinha dinheiro suficiente… O meu ritmo era lento, ritmo de quem contempla e nada mais, sem obrigações impostas. Já nem me lembrava que tinha assinado um contrato de trabalho de seis meses no dia anterior. Atravessei o jardim de Soares dos Reis, apreciei o passarinhos, ouvi as suas melodias intrincadas, olhei para a estátua fria dum falecido e rapidamente dei por mim na cama depois de ter tentado perceber o que me tinha acontecido ao falar com um acompanhante da noite anterior. A tentativa de nada valeu. Decidi deitar-me sobre o assunto.
Nos dias seguintes o puzzle foi-se compondo. Depois de acordar com uma ressaca bastante agoniante, propus-me a arranjar uma desculpa credível afim de me justificar perante o homem que me contratou. Um homem estranho diga-se de passagem. Homem dos seus cinquenta e poucos anos. Sobrevivente da guerra colonial, filho duma guerra que o obrigou a sofrer. Pelo que me apercebi ao puxar conversa com ele na carrinha, nos dias anteriores, a caminho das diversas obras em que me vi obrigado a estar para ganhar dinheiro, era um personagem natural e consequencialmente desconfiado e capaz de mudar bruscamente de humor e tom de voz ao mínimo toque da sirene que só existe na cabeça dele. Tal retrato dele, na minha cabeça estonteada pelo álcool recesso do dia seguinte, era motivo para me assustar o suficiente e fazer-me concluir que trezentas das desculpas que engendrava seriam obviamente desmacaradas por aquele ser estranho e alienado. Consegui nesse mesmo dia perceber que não tinha apanhado uma daquelas pielas em que nos tornamos pesos aborrecidos e estupidificados pelas atitudes tomadas. Tal suposição assombrava-me já que me tinha deparado sozinho e perdido na manhã longe de todos aqueles conhecidos com quem partilhei a maior parte da noite. Mais sossegado, mas ainda mergulhado em planos justificativos capazes de me impedir de voltar à penúria de receber metade dum pobre e medíocre ordenado mínimo, tentava insistentemente encontrar uma mentira verosímil. Soube entretanto, e não no dia de folga pessoal, que me tentaram em vão arrastar para casa na esperança de que no dia seguinte me encontrasse no armazém frio e saturado de peças de alumínio e materiais afins. Nada disso aconteceu, e o meu estado era já tal nesse preciso momento de preocupação alheia que argumentei que ficaria com um personagem que em tempos rejeitou água a um grupo de amigos, em que eu me incluía. Essa rejeição é digna de ser escrita em jeito de parêntesis. Numa noite de verão em que estávamos na casa dessa pessoa somítica, embriagados por charros gordos típicos de quem corta sabões em vésperas de umas férias regadas a fumos acastanhados, a secura apoderou-se das bocas dos presentes, água foi pedida, à torneira se foi e de lá só saía um líquido amarelado, foi-nos dito pelo dono da casa que não haveria água já que a da torneira se encontrava naquele estado colorido, tal argumento foi motivo suficiente para se aceitar tal estado de desespero. Os charros continuaram a rolar a um ritmo alucinante, pela sala o nevoeiro condensava-se numa nuvem sólida e contagiante, até que alguém foi à cozinha verificar se a água tinha perdido a cor e reparou que algures pela despensa uns quantos garrafões de cinco litros cheios de água límpida repousavam num mistério escurecido… Recordar isto foi uma coisa muito estranha, estava mesmo perdido em etílico, recusei-me a vir para casa com pessoas que estimo bastante para ficar com uma pessoa capaz de rejeitar um bem essencial aos amigos só para reforçar a ideia de mitra que já se tinha sobre ele… A última pessoa conhecida com quem estive e que me recorde foi com ele. Pelo que me disse uns dias a seguir, passaram-me um copo de whisky para mão.
- Venho já!
Agora que penso sobre o assunto afincadamente, na esperança infrutífera de perceber melhor os acontecimentos, ocorre-me à ideia um pequeno facto questionável. Bombeado por um ataque de ebriedade talvez me tenha apercebido que me encontrava sozinho com o homem-mitra e, como consequência reaccional, tinha-me posto a trote trôpego e cambaleante para bem longe. Ainda hoje, muitas dias depois desse dia importante e memorável, não consigo perceber como é que tal persona foi de bom grado comprar os bilhetes para a festa do barril gigante. Em jeito de paranóia eu acho que ele sabia de tudo isto, que tudo o que aconteceu iria acontecer. Talvez tenha sido ele a roubar-me. Talvez tenha pensado para si: «vou levar aquele beberrão destravado e roubá-lo à boi quando estiver todo cego!» Sinceramente não acredito minimamente no que acabei de afirmar. Mas é-me mais difícil acreditar que pessoa que rejeita água aos amigos tenha ido para uma fila enorme para me comprar um bilhete com o seu próprio dinheiro.
Já à noite, ainda com o álcool a acidificar o meu esófago, consegui descortinar a tempo uma desculpa capaz de convencer o meu patrão tresloucado a acreditar numa mentira elaborada. A minha mãe teria ido para o hospital. O que não era mentira nenhuma. Ao constatar que não tinha às seis da madrugada posto ainda os pés no chão do meu quarto tentou-me ligar. Obviamente não o conseguiu. Consumida por um pavor materno ligou a umas quantas pessoas que nada souberam dizer sobre o meu paradeiro. E o pior é que nem mesmo o meu companheiro de trabalho que fora contactado à hora laboral soube dizer algo sobre o meu paradeiro. Apoderada pelo desespero começou a ligar desenfreadamente para os hospitais da cidade, em vão…
- Minha senhora, não entrou aqui nas urgências ninguém que corresponda ao nome do seu filho. Mas no entanto temos aqui um carreirinho deles sem identificação!... – aí a aflição fê-la sentir ainda mais os braços pesarosos do desespero.
Começou a correr os hospitais. Para todos os efeitos foi aos hospitais e de um modo mais singular «foi para o hospital» e como tal, dizer tal coisa ao meu patrão era uma boa hipótese com bases capazes de reforçar a confiança na minha afirmação de meio mentiroso. Aliado a esse argumento decidi-me por não pôr muito entulho na argumentação perante a identidade autoritária do patronato. Ser pragmático, esperar a reacção e a partir daí complementar as suas dúvidas com afirmações vagas mas plenas de coerência.
Acordei no primeiro dia de trabalho a seguir ao tiro com uma pressão no peito e uma consciência dorida de quem pode perder um emprego merdoso pelo qual teve que esperar oito meses para arranjar. Se fosse despedido, um rótulo de irresponsável seria colado na minha testa apenas visível aos olhos dos outros. Para mim, a minha atitude livre de tudo, não foi acto de irresponsável, muito pelo contrário. Fui porque quis. Bebi porque quis. Fiquei de bolsos vazios como consequência do que quis. Foi tudo obra da minha pessoa, e sendo assim, tais acontecimentos foram absolutamente da minha e singular responsabilidade. Não recusei o álcool, recusei-me a vir embora e fui senhor livre dos meus actos, larguei tudo, agarrei-me à minha responsabilidade e a nada mais.
Chegado ao destino o silêncio falou mais alto. Estava uma noite agradável, as ruas estavam apinhadas de caminhantes a afunilar para a entrada do enorme barril plantado a duzentos metros do mar rumorejante.
Começou a odisseia. No dia a seguir iria trabalhar bem cedo, sem saber bem porquê, tal responsabilidade não me entrou na cabeça, fugiu para longe da minha percepção. A preocupação era agora outra. Álcool. Queria álcool e devaneio selvático. Queria entorpecer o cérebro e dar asas ao espaço sideral, o espaço do nada que nos serve de base como homens que somos. Comecei por uma cerveja de meio litro, daquelas cervejas manhosas que surgem como cogumelos das mais diversas formas e sabores com o intuito de chamar à atenção dos mais cépticos entre os bêbados. Na falta da tradicional, uma com um sabor mais forte e numa quantidade boa era o suficiente para arrefecer e suavizar a minha boca seca. Foi aí que dei um passo para o tudo. Para a perdição total, solta de rédeas, transformei-me em cavalo selvagem num prado amplo e natural repleto de cactos espinhosos e sequiosos de gotas de soluções aquosas multicolores. Ainda hoje, sóbrio e fragmentariamente esquecido, sinto que a veracidade desta minha história carece de pormenores capazes de dar forma coerente ao sucedido. Mas isso não é importante, a coerência não é sequer para aqui chamada e talvez por causa disso tal lembrança seja vista e analisada como se dum sonho se tratasse. Embriagado pelo álcool bebido a jorros e pelo ambiente respirado, atulhei-me em considerações e posições soltas perante estados de espírito como o meu. Não me lembro do que disse, pouco me lembro do que fiz. Recordo-me de sair da tenda das borlas e dirigir-me à casa de banho. Pouco trôpego lá fiz o meu slaloon gigante até ao mictório, lá chegado, mijei ao lado, era um acto menos custoso e bem mais natural. Depois de me consolar com a fluidez a jorros, tentei voltar ao ponto de partida… Caminhei, olhei em volta, caminhei, caminhei, voltei a olhar à procura do farol que me iluminava a alma e nada. Dei quatro voltas ao recinto sem encontrar, sem me encontrar. Entretanto voltei ao sítio de primeira necessidade e como cão que se preza por lá mijei mais uma vez. Ao apertar a pertinhola e levantar a cabeça desisti de voltar a procurar a tenda da copofonia. Um som de fundo cativou-me, vinha duma tenda grande a poucos metros de mim. Encaminhei-me para lá ao som do jazz crescente. Quatro indivíduos munidos com as suas armas enchiam de chumbos a tenda. Tocavam bem. Embalaram-me. Meteram-me dentro duma embalagem almofadada que me fez ficar por ali uns largos minutos. O corpo contorcia-se ao som de contrabaixo, bateria, saxofone e trompete. Era capaz de ficar ali até acabar, mas de repente, e sem saber agora explicar muito bem porquê, veio-me à ideia que a tenda era ali, na direcção para a qual olhei. Encaminhei-me nessa direcção e dei por mim de novo na tenda onde se encontravam os meus comparsas de borga. Estavam igualmente alegres, entorpecidos por charros de haxixe e copos à valente. Voltei a encher o meu copo. Não sei se de cerveja se de whisky, o que seria não era importante. As palavras e as gargalhadas saíam demencial e estonteantemente, uns bafos de haxe uns goles de álcool uma elevação suprema. Já não me lembrava de tal estado entorpecido. Há já bastante tempo que não me dava ao trabalho de sair de casa para beber como um cano de esgoto num dia de avantajadas chuvas. Que noite! Que memorável recordação! Que acto divino este, beber até cair para o lado e perceber nos dias que precedem que por vezes a vida é um processo de esquilo que rói nozes sem saber bem porquê. No dia a seguir uma série de orgulhos e conclusões brilhantes invadiram-me o cérebro como lapas bem vindas. Para quê prender-me sempre às responsabilidades impostas pela sociedade, se elas só existem para me pesar o espírito? Porque razão haveria de me sentir culpado por ter bebido bem e no dia a seguir não ter ido trabalhar? Tudo isso só serve para nos tolher, para sermos cães que não nossos. Entretanto perdi o telemóvel, o passe de autocarro e o maço de tabaco. E de todas essas três coisas só uma coisa me preocupou, o passe, sem ele não poderia vir até casa… Dei por mim já fora do recinto da queima dos neurónios, e os meus estavam bem queimadinhos, era naquele preciso momento um homem-peixe, um homem só, sem se lembrar tampouco dos que ficaram para trás, perdido em mim mesmo. Falava com três gajos com um ar bastante refinado, bem vestidos, com um sotaque educado, não me recordo se fui eu que os interpelei, se foram eles que me falaram, não fazia a mínima ideia de como tinha ali chegado… Lembro-me que tinham um carro clássico, branco sem capota, que estava um sol matinal maravilhoso e reconfortante. A brisa do mar lambia-me a cara, tal carro era o ideal para ir para casa. Descapotável! Rapidamente estava dentro dele depois de perceber que iriam atravessar a ponte Arrábida. Supostamente iriam para Coimbra ou para Aveiro… Quando tal estava no bairro da Pasteleira. Já num portal dum prédio carregando o meu corpo ondulante tentava perceber o que ali fazíamos, em vão, de repente um deles dirige-me a palavra.
- Estás todo maluco! – Ao ouvir isto uma espécie de choque apoderou-se de mim e abanou-me.
- Sabem que mais? Ide-vos foder! – Virei costas e dirigi-me para a rua.
Estava todo perdido, mas mesmo assim pus as mãos aos bolsos para me certificar do que não tinha. Tinhas apenas uma moeda no bolso, insuficiente para apanhar o autocarro que ainda não sabia qual era nem para onde. Dirigi-me para o táxi que me tinha trazido gratuitamente para ver se não tinha deixado cair pelo banco de trás as minha coisas, confirmou-se, nada estava por lá. Apetecia-me um cigarro. No tabelier algo plastificado reluziu com a luz do sol. Já de maço de tabaco na mão acendi um cigarro e encaminhei-me pelas ruas da até então desconhecida Pasteleira. Pela rua e àquela hora, desconhecida na altura, já andavam umas quantas e frescas pessoas. Velhinhas com sacas. Cães esfaimados e vadios. Senhoras de meia-idade… Dirigi-me a uma e perguntei-lhe por transporte.
- A senhora por acaso não me sabe dizer qual e onde posso apanhar o autocarro para o porto? – Não estava assim tão mal afinal, ainda conseguia articular uma pergunta com pés e cabeça.
- Você foi para queima!... Sei sim senhor, venha comigo. – Acompanhei-a enquanto me falou com orgulho da sua filhinha que há bem pouco tempo tinha acabado um curso qualquer e já se encontrava a trabalhar. Indicou-me então a paragem e, confortado pelo sol, por lá esperei pelo autocarro. Depois de pensar no que haveria de dizer, as desculpas que serviriam de desculpa plausível, e de muitas outras e confusas suposições, chegou o autocarro, instintivamente optei por entrar sem dar cavaco ao motorista e sentar-me. Já no lugar, ao lado duma universitária orgulhosa pelo pólo que vestia e com um cheiro agradável a perfume, olhava furtivamente para o retrovisor do motorista à espera duma repreensão ou duma pergunta constrangedora. Nada disso aconteceu. Observei calmamente os transeuntes, tirei conclusões não absorvidas pela memória e de repente já estava na baixa da bela cidade do Porto. Centenas de pessoas por lá andavam. Um ritmo de dia de trabalho rolava pela calçada. Para cá para lá. A uma velocidade constante. Autocarros. Camionetas. Carros motas. A estação de São Bento a vomitar pessoas pela boca que são as suas portas.
O barulho maquinado pelo barulho citadino dava uma ambiência esquisita mas agradável à vista. Toda aquela vida rolava diante dos meus olhos descomprometidos. Olhos humedecidos pelo sono mas no entanto bem abertos. Estava então parado. Não me lembrei sequer de olhar para o relógio da estação. Entrei no fosso para o metro. Tinha uma moeda suficiente para o meio. Decidi entrar sem pagar. Sempre que andei de metro nunca vi um revisor de cartões. O metro chegou em minutos como uma cobra amarela cheia de vítimas no comprido estômago que é o seu corpo. Entrei de espírito leve sem medo. Ao atravessar a ponte D. Luís I maravilhei-me com as duas cintilantes e iluminadas margens, com o rio douro e a sua cor doentia e suja, rejubilei. Entrei na periférica deusa Gaia subi a avenida movimentada e saí na minha destinada estação: JOÃO DE DEUS. Já na rua, com os ouvidos avivados pelo movimento perpétuo, caminhei calmamente e em piloto automático para casa. Pelo meio parei numa pastelaria para gastar a minha última moeda num belo e doce bolo que justificava, neste caso sim, o gasto; seria capaz de comer mais uns quantos que figuravam na montra que ladeava o balcão, mas não tinha dinheiro suficiente… O meu ritmo era lento, ritmo de quem contempla e nada mais, sem obrigações impostas. Já nem me lembrava que tinha assinado um contrato de trabalho de seis meses no dia anterior. Atravessei o jardim de Soares dos Reis, apreciei o passarinhos, ouvi as suas melodias intrincadas, olhei para a estátua fria dum falecido e rapidamente dei por mim na cama depois de ter tentado perceber o que me tinha acontecido ao falar com um acompanhante da noite anterior. A tentativa de nada valeu. Decidi deitar-me sobre o assunto.
Nos dias seguintes o puzzle foi-se compondo. Depois de acordar com uma ressaca bastante agoniante, propus-me a arranjar uma desculpa credível afim de me justificar perante o homem que me contratou. Um homem estranho diga-se de passagem. Homem dos seus cinquenta e poucos anos. Sobrevivente da guerra colonial, filho duma guerra que o obrigou a sofrer. Pelo que me apercebi ao puxar conversa com ele na carrinha, nos dias anteriores, a caminho das diversas obras em que me vi obrigado a estar para ganhar dinheiro, era um personagem natural e consequencialmente desconfiado e capaz de mudar bruscamente de humor e tom de voz ao mínimo toque da sirene que só existe na cabeça dele. Tal retrato dele, na minha cabeça estonteada pelo álcool recesso do dia seguinte, era motivo para me assustar o suficiente e fazer-me concluir que trezentas das desculpas que engendrava seriam obviamente desmacaradas por aquele ser estranho e alienado. Consegui nesse mesmo dia perceber que não tinha apanhado uma daquelas pielas em que nos tornamos pesos aborrecidos e estupidificados pelas atitudes tomadas. Tal suposição assombrava-me já que me tinha deparado sozinho e perdido na manhã longe de todos aqueles conhecidos com quem partilhei a maior parte da noite. Mais sossegado, mas ainda mergulhado em planos justificativos capazes de me impedir de voltar à penúria de receber metade dum pobre e medíocre ordenado mínimo, tentava insistentemente encontrar uma mentira verosímil. Soube entretanto, e não no dia de folga pessoal, que me tentaram em vão arrastar para casa na esperança de que no dia seguinte me encontrasse no armazém frio e saturado de peças de alumínio e materiais afins. Nada disso aconteceu, e o meu estado era já tal nesse preciso momento de preocupação alheia que argumentei que ficaria com um personagem que em tempos rejeitou água a um grupo de amigos, em que eu me incluía. Essa rejeição é digna de ser escrita em jeito de parêntesis. Numa noite de verão em que estávamos na casa dessa pessoa somítica, embriagados por charros gordos típicos de quem corta sabões em vésperas de umas férias regadas a fumos acastanhados, a secura apoderou-se das bocas dos presentes, água foi pedida, à torneira se foi e de lá só saía um líquido amarelado, foi-nos dito pelo dono da casa que não haveria água já que a da torneira se encontrava naquele estado colorido, tal argumento foi motivo suficiente para se aceitar tal estado de desespero. Os charros continuaram a rolar a um ritmo alucinante, pela sala o nevoeiro condensava-se numa nuvem sólida e contagiante, até que alguém foi à cozinha verificar se a água tinha perdido a cor e reparou que algures pela despensa uns quantos garrafões de cinco litros cheios de água límpida repousavam num mistério escurecido… Recordar isto foi uma coisa muito estranha, estava mesmo perdido em etílico, recusei-me a vir para casa com pessoas que estimo bastante para ficar com uma pessoa capaz de rejeitar um bem essencial aos amigos só para reforçar a ideia de mitra que já se tinha sobre ele… A última pessoa conhecida com quem estive e que me recorde foi com ele. Pelo que me disse uns dias a seguir, passaram-me um copo de whisky para mão.
- Venho já!
Agora que penso sobre o assunto afincadamente, na esperança infrutífera de perceber melhor os acontecimentos, ocorre-me à ideia um pequeno facto questionável. Bombeado por um ataque de ebriedade talvez me tenha apercebido que me encontrava sozinho com o homem-mitra e, como consequência reaccional, tinha-me posto a trote trôpego e cambaleante para bem longe. Ainda hoje, muitas dias depois desse dia importante e memorável, não consigo perceber como é que tal persona foi de bom grado comprar os bilhetes para a festa do barril gigante. Em jeito de paranóia eu acho que ele sabia de tudo isto, que tudo o que aconteceu iria acontecer. Talvez tenha sido ele a roubar-me. Talvez tenha pensado para si: «vou levar aquele beberrão destravado e roubá-lo à boi quando estiver todo cego!» Sinceramente não acredito minimamente no que acabei de afirmar. Mas é-me mais difícil acreditar que pessoa que rejeita água aos amigos tenha ido para uma fila enorme para me comprar um bilhete com o seu próprio dinheiro.
Já à noite, ainda com o álcool a acidificar o meu esófago, consegui descortinar a tempo uma desculpa capaz de convencer o meu patrão tresloucado a acreditar numa mentira elaborada. A minha mãe teria ido para o hospital. O que não era mentira nenhuma. Ao constatar que não tinha às seis da madrugada posto ainda os pés no chão do meu quarto tentou-me ligar. Obviamente não o conseguiu. Consumida por um pavor materno ligou a umas quantas pessoas que nada souberam dizer sobre o meu paradeiro. E o pior é que nem mesmo o meu companheiro de trabalho que fora contactado à hora laboral soube dizer algo sobre o meu paradeiro. Apoderada pelo desespero começou a ligar desenfreadamente para os hospitais da cidade, em vão…
- Minha senhora, não entrou aqui nas urgências ninguém que corresponda ao nome do seu filho. Mas no entanto temos aqui um carreirinho deles sem identificação!... – aí a aflição fê-la sentir ainda mais os braços pesarosos do desespero.
Começou a correr os hospitais. Para todos os efeitos foi aos hospitais e de um modo mais singular «foi para o hospital» e como tal, dizer tal coisa ao meu patrão era uma boa hipótese com bases capazes de reforçar a confiança na minha afirmação de meio mentiroso. Aliado a esse argumento decidi-me por não pôr muito entulho na argumentação perante a identidade autoritária do patronato. Ser pragmático, esperar a reacção e a partir daí complementar as suas dúvidas com afirmações vagas mas plenas de coerência.
Acordei no primeiro dia de trabalho a seguir ao tiro com uma pressão no peito e uma consciência dorida de quem pode perder um emprego merdoso pelo qual teve que esperar oito meses para arranjar. Se fosse despedido, um rótulo de irresponsável seria colado na minha testa apenas visível aos olhos dos outros. Para mim, a minha atitude livre de tudo, não foi acto de irresponsável, muito pelo contrário. Fui porque quis. Bebi porque quis. Fiquei de bolsos vazios como consequência do que quis. Foi tudo obra da minha pessoa, e sendo assim, tais acontecimentos foram absolutamente da minha e singular responsabilidade. Não recusei o álcool, recusei-me a vir embora e fui senhor livre dos meus actos, larguei tudo, agarrei-me à minha responsabilidade e a nada mais.
quinta-feira, julho 5
PRIMAVERA LABORAL
Enquanto o trabalho se vai organizando no armazém da manhã, eu, de costas voltadas, bafejo um pesado cigarro, vou contemplando a audível e apaziguadora chuva que cai do céu imenso sobrelotado a cinza primaveril. Seria capaz de por ali ficar, imóvel, uma luxuriante eternidade...
?
Por vezes as circunstâncias tornam-se estranhas, repletas de fantasmas que nos assolam por as concavidades da cidade serem propícias para o deleite previsível a que nunca nos habituamos. As suposições transformaram-se em certezas que não queremos aceitar verdadeiramente. Um momento chega, já previsto pelo vento que para lá nos empurrou, corta-nos, enfraquece-nos, um mundo transforma-se em metamorfose instantânea. Um cigarro acende-se depois de alguns outros fumados como quem inala gás com uma pressão constante que surpreendentemente nos abana. O perímetro condensa-se, um anel de beleza mental ganha forma no processo que o solidifica, como se tudo fosse tudo diferente. Os pássaros apercebem-nos pela sombra provocada pelo sol que se esvanece na noite que tudo tem, como uma nuance de pincel húmido de lágrimas que nos escorrem pela cara que solidifica em vincos que nos marcam e são desenhados de novo, com uma outra consistência. As linhas tornam-se voláteis, correspondentes a um som que nos embala na mais confusa das conclusões confirmadas pela carne que não se vê. Um ânimo estranho pega em nós, pesados como uma rocha, granito talvez, componentes são formados pela passagem do tempo até encontrar uma rigidez aparentemente insensível mas chorosa. O olhar fica preso, tudo tem outras cores, diferentes pinceladas na tela que se vai deixando ver até ao último toque. Diversas cores recalcadas e coloridas por cores mais fortes mais sombrias que provavelmente vão ser calcadas e recoloridas pela emoção que dá vida ao pincel. A experiência começa a dar azo a novas técnicas, palavras que nos são feias mas bastante úteis. Usa-se um instrumento bem afinado, com uma definição sonora exponencial que ecoa pela sala de espectáculos enquanto o público rejubila alheio. A música vai embalando as necessidades abanando-nos como se procurasse misturar tudo o que temos e concluímos. É bela a sonorização da sala, os altos os baixos e o graves e agudos, entrosa-se tudo numa parafernália deliciosa composta por uma imensidade sensorial que perfura o local onde me encontro. A vida corre no seu rumo inconstante na procura da proximidade duma perfeição natural que nos faça encontrar mais mais e mais. Uma perfeição que nos remete para as profundezas da alma, a eterna metáfora que nos magoa corporalmente.
As árvores agitam-se entre as paredes que formam o espaço sensitivo. Dão vida ao cenário pintado no caminho da mestria. O todo ganha espaço, liberdade para tentar aperfeiçoar o voo, pequenas penas vão crescendo até planarem serenamente sobre céu que se expande. Algures o tempo corre como água numa fonte cristalina e misteriosa, o caminho é longo e cada passo é menos custoso. Pequenos fios de água pelo chão quase imperceptíveis vão-nos saciando a sede até ao dia em que a fonte secar. O meio caminho vai no início e ainda tem muito mais que metade para nos dar.
As árvores agitam-se entre as paredes que formam o espaço sensitivo. Dão vida ao cenário pintado no caminho da mestria. O todo ganha espaço, liberdade para tentar aperfeiçoar o voo, pequenas penas vão crescendo até planarem serenamente sobre céu que se expande. Algures o tempo corre como água numa fonte cristalina e misteriosa, o caminho é longo e cada passo é menos custoso. Pequenos fios de água pelo chão quase imperceptíveis vão-nos saciando a sede até ao dia em que a fonte secar. O meio caminho vai no início e ainda tem muito mais que metade para nos dar.
COISAS A FAZER AINDA ESTE ANO
Sodomizar os sete anões!
Agarrar num punhado de pregos e pregá-los dum só arremesso!
Correr nú pela cidade com a minha bagagem carnal e pesada!
Limpar o cu depois de cagar, com folha de lixa da grossa!
Lamber o chão para sentir o seu localizado sabor!
Ouvir a mais detestável das músicas!
Matar umas quantas pessoas com uma caneta bic!
Coçar os ouvidos e tirar a mais consistente das ceras para assim construir quatro palácios imperiais!
Cagar ininterruptamente para um dia alpinistas escalarem o ponto mais alto do mundo!
Tirar macacos do nariz e deitá-los para uma jaula à sua medida!
Agarrar num punhado de pregos e pregá-los dum só arremesso!
Correr nú pela cidade com a minha bagagem carnal e pesada!
Limpar o cu depois de cagar, com folha de lixa da grossa!
Lamber o chão para sentir o seu localizado sabor!
Ouvir a mais detestável das músicas!
Matar umas quantas pessoas com uma caneta bic!
Coçar os ouvidos e tirar a mais consistente das ceras para assim construir quatro palácios imperiais!
Cagar ininterruptamente para um dia alpinistas escalarem o ponto mais alto do mundo!
Tirar macacos do nariz e deitá-los para uma jaula à sua medida!
quinta-feira, maio 10
segunda-feira, maio 7
OCCULTA PECTORIS SEDITIOSA
Viajo pela alma
Como poeira que levita com o vento
Solto-me de rédeas pesadas
Do peso pesado pelo Tempo
Canto uma melodia desconhecida
Uma ária perpetuada pela noite
Nos meus dedos
Uma fragrância, um cheiro a Sentimento
Uma procura necessária pelo Belo…
No meu peito
Um batimento descompassado
O Sonho que não passa de sonho
Uma Esperança que não passa de esperança
Um desalento com tudo o que passa ao lado
Na minha mão
Uma Força, um apelo
Uma Voz, um pesadelo
Um rio que não corre para o mar
Um poema que nada diz
A quem nada quer entender
E assim, sofro, por ver sofrer
E sofro, por ver querer sofrer
E sofro, pela inexistência dum eco
Eco das almas de outros cantos
(Fragmentos dispersos no ser
Pedaços estilhaçados pelas bombas
Pelas bombas do atarantado viver)
A desistência, por vezes é bela
Quando desistir é irremediavelmente sorrir
E se sorrir é necessário
É tanto quanto fugir
E assim a Beleza perdeu-se… é agora outra,
Ficou para trás
É agora um corpo etéreo, como sempre
Fácil de manusear
É uma fuga constante
Incessante, é uma bola-pequena-brilhante…
E o brilho ofusca a Esperança
E a Esperança esconde-se sob a capa do não-querer
E os homens perdem-se na verosimilhança
Na verdade que é esconder!
É isto… o belo o sonho
Os sonhos
É isto que nos reserva orgulhos medonhos!
Eu não fujo, mas sonho
Eu não me escondo, mas vivo
Farto de viver, como enganado
Sonhador
Escondido!
Arreei a minha capa
Entreguei-a como beleza
Fiz peito, dei azo à minha natureza
Sorri de querer ver outros sorrisos
E assim
A Esperança e o Belo redimiram-se
Desistiram de ser meras palavras!...
Como poeira que levita com o vento
Solto-me de rédeas pesadas
Do peso pesado pelo Tempo
Canto uma melodia desconhecida
Uma ária perpetuada pela noite
Nos meus dedos
Uma fragrância, um cheiro a Sentimento
Uma procura necessária pelo Belo…
No meu peito
Um batimento descompassado
O Sonho que não passa de sonho
Uma Esperança que não passa de esperança
Um desalento com tudo o que passa ao lado
Na minha mão
Uma Força, um apelo
Uma Voz, um pesadelo
Um rio que não corre para o mar
Um poema que nada diz
A quem nada quer entender
E assim, sofro, por ver sofrer
E sofro, por ver querer sofrer
E sofro, pela inexistência dum eco
Eco das almas de outros cantos
(Fragmentos dispersos no ser
Pedaços estilhaçados pelas bombas
Pelas bombas do atarantado viver)
A desistência, por vezes é bela
Quando desistir é irremediavelmente sorrir
E se sorrir é necessário
É tanto quanto fugir
E assim a Beleza perdeu-se… é agora outra,
Ficou para trás
É agora um corpo etéreo, como sempre
Fácil de manusear
É uma fuga constante
Incessante, é uma bola-pequena-brilhante…
E o brilho ofusca a Esperança
E a Esperança esconde-se sob a capa do não-querer
E os homens perdem-se na verosimilhança
Na verdade que é esconder!
É isto… o belo o sonho
Os sonhos
É isto que nos reserva orgulhos medonhos!
Eu não fujo, mas sonho
Eu não me escondo, mas vivo
Farto de viver, como enganado
Sonhador
Escondido!
Arreei a minha capa
Entreguei-a como beleza
Fiz peito, dei azo à minha natureza
Sorri de querer ver outros sorrisos
E assim
A Esperança e o Belo redimiram-se
Desistiram de ser meras palavras!...
NADA PARA DIZER
Há dias assim!
Que não se sabe o que escrever
Mas por alguma razão mais forte
Não conseguimos parar de o fazer...
Hoje é um desses dias
Em que me apetece escrever,
Escrever e escrever...
Mesmo não tendo nada para dizer!
As palavras não interessam,
O que interessa é escrever!
Não procuro nenhum sentido.
Nem nenhuma lógica,
Apenas me sinto escrever!
Não sei o que dizer
Não sei que fazer
E por isso mesmo me encontro a escrever!
É estúpida esta vontade,
É inútil a escrita, absurda demais,
Mas que posso eu fazer
Quando nada mais consigo
Do que escrever
Assim me encontro…
Ando às voltas e abandono tudo
Para simplesmente escrever!
Assim sou, assim somos…
Uma repetição enfadonha…
Escrever! Escrever! Escrever!
Escrever e Escrever!
Escrever para me (não) sentir viver…
Que não se sabe o que escrever
Mas por alguma razão mais forte
Não conseguimos parar de o fazer...
Hoje é um desses dias
Em que me apetece escrever,
Escrever e escrever...
Mesmo não tendo nada para dizer!
As palavras não interessam,
O que interessa é escrever!
Não procuro nenhum sentido.
Nem nenhuma lógica,
Apenas me sinto escrever!
Não sei o que dizer
Não sei que fazer
E por isso mesmo me encontro a escrever!
É estúpida esta vontade,
É inútil a escrita, absurda demais,
Mas que posso eu fazer
Quando nada mais consigo
Do que escrever
Assim me encontro…
Ando às voltas e abandono tudo
Para simplesmente escrever!
Assim sou, assim somos…
Uma repetição enfadonha…
Escrever! Escrever! Escrever!
Escrever e Escrever!
Escrever para me (não) sentir viver…
sábado, maio 5
MEMÓRIA ANTECIPADA
Hoje por força da vontade inesperada que me acordou, decidi dar corda com comprimento suficiente para puxar as lembranças de infância como quem puxa água de um poço. Um poço que ainda não é muito fundo, mas como o tempo rola não há grande tempo, nem profundidade suficiente, para alcançar esse fundo que é tão estimulado pelo jogo das circunstâncias e coincidências que dá rodinhas à gigantesca máquina em que se tornou a sociedade de hoje amanhã e sabe-se lá mais quanto tempo. Avivado por não-sei-o-quê concretamente, senti em mim uma força enorme de agir perante um tumulto, o tumulto do espírito, a luta incessante contra as tropas da razão que nos foi dada como prenda de natal, a destruição com as amarras da prosaica vivência.
Não acordei nada cedo. O costume.
Um bafo sonolento dispersava-se pelo quarto como nevoeiro de verão, era esse o ar que se respirava, como se a cama tivesse umas presas plumadas e macias que me impedissem de sair dela com a maior das naturalidades. O sol, lá fora, aproveitando as frinchas existentes, demonstrava a sua força, denotando na luz o seu orgulho, o orgulho de quem cada vez mais se aproxima de tudo quanto pode. Abro a persiana. Os carros passam a escassos metros da minha tela para o mundo, não os vejo, mas ouve-se bem a sua voz violenta e incomodativa.
«Belo dia!»
Depois de comer, ruminar, colar ao computador, coçar-me, tomar banho e ruminar mais um bocadito, decidi deixar-me levar pela tal vontade inesperada de que falo.
Ao sair da minha porta encontrei uma familiar que já não havia há coisa de um ano, mais coisa menos coisa, a minha Prima; fiquei sem dúvida surpreendido, mas não muito, devido a relatos de meus conhecidos que a viram um dia destes e me disseram que estava fresca e jovial como sempre. Nem sei que idade Ela deve ter, mas penso que já deve ter uns quantos anos. Contava-me histórias do tempo em que os antigos egípcios estavam de pé, e isso é sem dúvida alguma motivo para colocá-la nessa época da história; hipoteticamente deve ter nascido no tempo em que o império se começou a desmoronar. Como nunca me disse a idade, reconhecendo ela que é acto de mulher que se preze e que a uma mulher nunca se deve perguntar a idade, qualquer hipótese remota que possa dar percebas quanto à sua temporalidade é sempre motivo para ser colocada como possibilidade.
Adiante.
Disse-lhe olá sem falar, apenas um sorriso de contentado. A sua luminosidade era tanta que tive que pôr os óculos para conseguir ver os seus contornos. Sorriu-me, com aquele sorriso de quem ri de tudo para tudo.
Nada me disse.
Com a imponência do querer ver, consegui convencê-la a acompanhar-me sem me esforçar muito. Os seus passos eram suaves. Os seus movimentos fluidos como o escasso vento que lambe cara e pescoço. A sua presença era como o nevoeiro de éter, alma sem corpo, só espírito e subtileza vital.
Os carros continuaram a passar, faziam-se ouvir quebrando o silêncio da minha prima que só vejo uma vez por ano; mas no entanto, o silêncio continuava a persistir, fragmentado, mas sempre ali, entre as concavidades dos barulhos do subúrbio. A persistência motivada pela sua etérea presença esbatia cores sobre os barulhos a agitação e sobre tudo o que dá forma ao desenrolar dum dia da semana, dando ao dia um aspecto surpreendente e minimamente reconfortante. Acompanhou-me até ao final do meu passeio pela rua da memória. Sempre fechada em si, na sua beleza, para demonstrar a sua graciosidade.
Pelo caminho, talvez no autocarro, apercebi-me do porquê da vontade inesperada. Acho que foi aí que percebi o quão divinal poderia ser a tarde. No sítio mais inesperado deparo-me com este raciocínio, esta conclusão orientada, como quem recebe um soco sem luva. O soco pôs-me mais atento como quem escrutina tudo para conseguir fugir de um futuro. Atento. Embriagado pela ambiência proporcionada por uns singelos e fiados raios de sol no meu quarto, ambiência mínima que foi crescendo ao ritmo das conclusões circunstanciais, lá estava eu já fora do autocarro, de passo determinado, com leveza de espírito suficiente para escorregar, inocentemente, entre as superfícies áridas e ásperas da calçada gasta pelas calcadelas apressadas do tempo. Fora do meu corpo, as recordações amplificadas pelo estado em que me sentia abstraíram-me de todas as estruturas habituais. A estrutura era agora só uma. Não era eu, não era a minha prima, nem tão pouco tudo o que me rodeava: era tudo isso e muito mais numa bela singularidade triangular.
De repente encontrava-me entre as muralhas da memória da minha infância. Dentro daquela área eu era de novo criança, tinha menos de cinco anos. Ali, naquele espaço limitado pela inocência dos velhos outros tempos vindouros, senti-me de novo pequeno. Uma pequenez tacanha mas bem recordada… As ruas estavam iguais. As casas iguais estavam. O céu estava à mesma distância, à distância duma vontade. Com passos curtos fui embrenhando num farto tufo de algodão. A cada passo sentia menos o chão como se começasse a levantar voo. De repente estava perdido, a estrada da minha infância já não existia, consequentemente tive de voltar para trás para retomar o passo curto. O percurso era íngreme, quanto mais descia mais alto me sentia. O sentimento era cada vez mais bruto e puro. Memórias do bairro que surgia sob os meus olhos brilhantes percorriam-me o cérebro a uma velocidade confusa e espantosa…
Sons estridentes eram o pão-nosso de cada dia, eram o pão amassado pelo diabo que alimentava muitos seres embrutecidos pela irresponsabilidade de viver. O bairro era grande e sobrepovoado. As casas, de apenas três ou quatro divisões escondiam e debitavam os berros abafados de quem lá vivia. Mas no entanto eram o palco exterior das minhas brincadeiras maravilhosas de que tanto tenho saudade. Tenho, agora que penso, saudades de Tânia, a minha extinta e fiel companhia de brincadeira. Das festas de anos em que a mesa era um tanque de cimento armado com uma tábua de madeira. Saudades do Pata Descalça, que por muito que o obrigassem a calçar e lhe dessem sapatilhas novas andava sempre descalço; fosse por onde fosse, pelo paralelo frio, pela terra quente ou pelos montes agrestes que espaçavam o vão de escadas que não eram mais do que casas. Bem lá distantes os pneus sem jante que rolavam sobre o chão empurrados por um pau qualquer encontrado pelo bairro. As bolas de borracha hiper saltitantes que teimavam em fugir das mãos dando uma vontade ainda maior de as apanhar. A voz amplificada da minha mãe, que ressoava na arquitectural configuração bairrística, na hora duma refeição ou do recolher anoitecido. O barulho das bolas a bater nas garagens naquela rampa íngreme a que chamávamos de campo da bola. Saudades da peixeira que passava com a sua voz grossa de bom som a apregoar peixe fosse qual ele fosse. Da família de ciganos que atirava o pequeno-almoço do terceiro andar ao seu filho que se encontrava a uma distância de vinte ou trinta metros no recreio da escola que ficava do outra lado da rua íngreme da casa da minha avó. Do gato da minha avó de nome Tareco que sorrateiramente se enfiava debaixo do cobertor para nos aquecer e aveludar os pés; saudades dos banhos de bacia e de água aquecida pelo fogão jorrada enternecedoramente sobre os meus caracóis dourados; de ouvir a chuva bater harmoniosamente sobre os telhados de chapa e acrílico que davam forma à casa da minha avó. De ir à fonte da rija beber água pelo simples prazer inocente de beber água da fonte. Dos campos de milho onde se ia buscar o vinho doce para os adultos e entretanto se roubavam espigas para desespero dos donos dos milheirais; das correrias frenéticas como quem foge dos donos que viram roubar as espigas...
23 de março, 2007
Não acordei nada cedo. O costume.
Um bafo sonolento dispersava-se pelo quarto como nevoeiro de verão, era esse o ar que se respirava, como se a cama tivesse umas presas plumadas e macias que me impedissem de sair dela com a maior das naturalidades. O sol, lá fora, aproveitando as frinchas existentes, demonstrava a sua força, denotando na luz o seu orgulho, o orgulho de quem cada vez mais se aproxima de tudo quanto pode. Abro a persiana. Os carros passam a escassos metros da minha tela para o mundo, não os vejo, mas ouve-se bem a sua voz violenta e incomodativa.
«Belo dia!»
Depois de comer, ruminar, colar ao computador, coçar-me, tomar banho e ruminar mais um bocadito, decidi deixar-me levar pela tal vontade inesperada de que falo.
Ao sair da minha porta encontrei uma familiar que já não havia há coisa de um ano, mais coisa menos coisa, a minha Prima; fiquei sem dúvida surpreendido, mas não muito, devido a relatos de meus conhecidos que a viram um dia destes e me disseram que estava fresca e jovial como sempre. Nem sei que idade Ela deve ter, mas penso que já deve ter uns quantos anos. Contava-me histórias do tempo em que os antigos egípcios estavam de pé, e isso é sem dúvida alguma motivo para colocá-la nessa época da história; hipoteticamente deve ter nascido no tempo em que o império se começou a desmoronar. Como nunca me disse a idade, reconhecendo ela que é acto de mulher que se preze e que a uma mulher nunca se deve perguntar a idade, qualquer hipótese remota que possa dar percebas quanto à sua temporalidade é sempre motivo para ser colocada como possibilidade.
Adiante.
Disse-lhe olá sem falar, apenas um sorriso de contentado. A sua luminosidade era tanta que tive que pôr os óculos para conseguir ver os seus contornos. Sorriu-me, com aquele sorriso de quem ri de tudo para tudo.
Nada me disse.
Com a imponência do querer ver, consegui convencê-la a acompanhar-me sem me esforçar muito. Os seus passos eram suaves. Os seus movimentos fluidos como o escasso vento que lambe cara e pescoço. A sua presença era como o nevoeiro de éter, alma sem corpo, só espírito e subtileza vital.
Os carros continuaram a passar, faziam-se ouvir quebrando o silêncio da minha prima que só vejo uma vez por ano; mas no entanto, o silêncio continuava a persistir, fragmentado, mas sempre ali, entre as concavidades dos barulhos do subúrbio. A persistência motivada pela sua etérea presença esbatia cores sobre os barulhos a agitação e sobre tudo o que dá forma ao desenrolar dum dia da semana, dando ao dia um aspecto surpreendente e minimamente reconfortante. Acompanhou-me até ao final do meu passeio pela rua da memória. Sempre fechada em si, na sua beleza, para demonstrar a sua graciosidade.
Pelo caminho, talvez no autocarro, apercebi-me do porquê da vontade inesperada. Acho que foi aí que percebi o quão divinal poderia ser a tarde. No sítio mais inesperado deparo-me com este raciocínio, esta conclusão orientada, como quem recebe um soco sem luva. O soco pôs-me mais atento como quem escrutina tudo para conseguir fugir de um futuro. Atento. Embriagado pela ambiência proporcionada por uns singelos e fiados raios de sol no meu quarto, ambiência mínima que foi crescendo ao ritmo das conclusões circunstanciais, lá estava eu já fora do autocarro, de passo determinado, com leveza de espírito suficiente para escorregar, inocentemente, entre as superfícies áridas e ásperas da calçada gasta pelas calcadelas apressadas do tempo. Fora do meu corpo, as recordações amplificadas pelo estado em que me sentia abstraíram-me de todas as estruturas habituais. A estrutura era agora só uma. Não era eu, não era a minha prima, nem tão pouco tudo o que me rodeava: era tudo isso e muito mais numa bela singularidade triangular.
De repente encontrava-me entre as muralhas da memória da minha infância. Dentro daquela área eu era de novo criança, tinha menos de cinco anos. Ali, naquele espaço limitado pela inocência dos velhos outros tempos vindouros, senti-me de novo pequeno. Uma pequenez tacanha mas bem recordada… As ruas estavam iguais. As casas iguais estavam. O céu estava à mesma distância, à distância duma vontade. Com passos curtos fui embrenhando num farto tufo de algodão. A cada passo sentia menos o chão como se começasse a levantar voo. De repente estava perdido, a estrada da minha infância já não existia, consequentemente tive de voltar para trás para retomar o passo curto. O percurso era íngreme, quanto mais descia mais alto me sentia. O sentimento era cada vez mais bruto e puro. Memórias do bairro que surgia sob os meus olhos brilhantes percorriam-me o cérebro a uma velocidade confusa e espantosa…
Sons estridentes eram o pão-nosso de cada dia, eram o pão amassado pelo diabo que alimentava muitos seres embrutecidos pela irresponsabilidade de viver. O bairro era grande e sobrepovoado. As casas, de apenas três ou quatro divisões escondiam e debitavam os berros abafados de quem lá vivia. Mas no entanto eram o palco exterior das minhas brincadeiras maravilhosas de que tanto tenho saudade. Tenho, agora que penso, saudades de Tânia, a minha extinta e fiel companhia de brincadeira. Das festas de anos em que a mesa era um tanque de cimento armado com uma tábua de madeira. Saudades do Pata Descalça, que por muito que o obrigassem a calçar e lhe dessem sapatilhas novas andava sempre descalço; fosse por onde fosse, pelo paralelo frio, pela terra quente ou pelos montes agrestes que espaçavam o vão de escadas que não eram mais do que casas. Bem lá distantes os pneus sem jante que rolavam sobre o chão empurrados por um pau qualquer encontrado pelo bairro. As bolas de borracha hiper saltitantes que teimavam em fugir das mãos dando uma vontade ainda maior de as apanhar. A voz amplificada da minha mãe, que ressoava na arquitectural configuração bairrística, na hora duma refeição ou do recolher anoitecido. O barulho das bolas a bater nas garagens naquela rampa íngreme a que chamávamos de campo da bola. Saudades da peixeira que passava com a sua voz grossa de bom som a apregoar peixe fosse qual ele fosse. Da família de ciganos que atirava o pequeno-almoço do terceiro andar ao seu filho que se encontrava a uma distância de vinte ou trinta metros no recreio da escola que ficava do outra lado da rua íngreme da casa da minha avó. Do gato da minha avó de nome Tareco que sorrateiramente se enfiava debaixo do cobertor para nos aquecer e aveludar os pés; saudades dos banhos de bacia e de água aquecida pelo fogão jorrada enternecedoramente sobre os meus caracóis dourados; de ouvir a chuva bater harmoniosamente sobre os telhados de chapa e acrílico que davam forma à casa da minha avó. De ir à fonte da rija beber água pelo simples prazer inocente de beber água da fonte. Dos campos de milho onde se ia buscar o vinho doce para os adultos e entretanto se roubavam espigas para desespero dos donos dos milheirais; das correrias frenéticas como quem foge dos donos que viram roubar as espigas...
23 de março, 2007
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