Hoje foi um daqueles dias em que caímos numa crise existencialista da mais bela e concludente que pode haver. Logo de manhã como sempre levantei-me para ir trabalhar nas obras como sempre de há uns tempos para cá. Ganhar dinheiro! É preciso ganhar dinheiro da melhor maneira possível! Levantei-me atrasado como sempre também. A correr vesti-me, preparei o saco, esqueci-me de algo que já não me recordo, como sempre também, tive que voltar a subir as escadas de volta ao meu quarto para vir buscar a minha própria cabeça e voltá-la a pôr no sítio. Estava um rico dia de primavera invernosa, dúbia como um raio dos que se fizeram ver nos céus da tarde. Ora sente ora não sente. Um passo apressado ao ritmo demarcado pela escrita que me obriga a dactilografar dum modo real e encantador. Por acaso ainda não chovia mas no chão já não se via o pó e o áspero. Pedaços de espelhos em estados líquidos a dar forma massiva sarapintada nas concavidades do passeio, aqui e ali, de todos os tamanhos formas e reformas. Um todo que se deixa transpirar e aspira o seu próprio suor! Ora no céu! No ar! No chão! Uma força descontrolada pelo ritmo sistemático do ordenamento do tempo, o nosso tempo e o tempo da contemplação. O único tempo que se faz sentir. Único como circunstância complexa e fundamental. O que nos sorve e reabsorve que se pode chamar de relógio intemporal. O fim! O fim já foi, mas de manhã de passo apressado como um autómato digno de tal adjectivação ainda consegui ver o autocarro que devia apanhar como sempre. Devia! E como tal devo dizer que não era só eu o autómato, afinal parece que é algo contagioso. Vi pássaros esvoaçantes. Gaivotas e outros seres vivos difíceis de distinguir. O sono acelerado pelo pé pesado não permitia ter grande discernimento óptico e tendo em conta que os olhos não se queriam muito abertos para a “vida” era sem dúvida nenhuma uma bela duma compreensiva contemplação. A música, apenas nos ouvidos, dava a banda sonora como sempre do dramatismo teatral que estará em palco, chega-se a ver as mesmas peças todos os dias, tipo actos com pequenas diferenças interpretativas, uma peça por dia! Até as nuvens andavam às peças, o vento via-se nas formas magnéticas ao ritmo da minha manhã. Tudo e todos adormecidos numa peça, absorvidos pela tragédia matinal que tem uma imensidade de espectadores acordados: não eu, como é óbvio, nem todos os outros bonecos exteriores, apenas o conteúdo, as suas esponjosas formas de tecido acetinado pela chuva que entretanto começou a cair. Foi como um sossego sonolento, as gotas a caírem uma por uma do seu todo na naturalidade do Inverno que foi atropelado por um camião e desfeito em pedaços frescos e resfriados que se começaram a sentir na força do vento desfragmentado pelas formas, as tais que nos podem levar para longe! «Um belo sonho! Vou com o vento!... Sou um pássaro como aquele que vai ali em cima, o tal que não consigo identificar!...» E sendo assim a voar vou em direcção ao rumo do bafo ventoso que dá direito a uma viajem numa divisão movimentada em que diversos bancos figuram à volta do espaço ambulante carregado de carneiros mal mortos com um bafo quente e doentio carregado de alho com cebola podres dum monte qualquer agreste. É o momento Zen! Com publicidades a apelar a uma espiritualidade apaziguadora e sonolenta ao ritmo acelerado das circunferências de borracha alinhadas pelo eixo constrangedor primaveril. Um barulho evocativo de baixa frequência numa versão maquinal dum rumorejar religioso imparável. Os olhos pesam. As cabeças tombam. As crianças irritam, nunca souberam respeitar os princípios fundamentais do seu tempo, sempre com uma indiferença superior, uma inocência natural da mais pura entre as almas de todos os adormecidos e conformados. E lá vou eu, a ver adormecido no momento imagens coloridas e monótonas! As mesmas pessoas os mesmos gestos, uma percepção tardia e reflexiva do íntimo da noite que respira em mim. Uma buzina na cabine deambulatória fez-me carregar um botãozinho anteriormente. O inicio duma manhã de trabalho sob a luz pálida dum sol escondido pela força do vento. Um pé no passeio uma posição, um olhar para o céu a ver as nuvens a correrem a um ritmo divinal. Umas cuecas estreitas de fora do rabo sexy na mesa ao lado, como sempre! Um café acompanhado ao som das páginas do jornal do costume. Uma ida e volta determinada e custosa! A contagem decrescente ao som do movimento perpétuo no passeio pesado pelas solas. Está lá o porteiro. Tiro a senha horária que não vejo nem existe substancialmente, guardo-a no bolso do casaco que me fica a matar sem tão pouco lhe tocar.
Já na carrinha a conversa rola de passe em passe, pequenos remates defesas carrinhos lançamentos do meio para a esquerda da carrinha branca e perigosa nas mãos dum distraído. Sempre frenético mesmo quando calado o condutor mantém o ritmo acelerado da carroça carregada de utensílios e tubos contemporâneos. Mete o rádio mais baixo, fala do que lhe apetece, futebol e outros interesses televisivos a incidirem para um burburinho religioso que absorve muitos crentes. Conversas sobre temas que só preocupam quem anda a tentar fugir para o outro lado do espelho da criminalidade. Aí, uma revolta mais séria dá corpo pesado à voz do homem que vai a subir as escadas para o abismo, rumo à exploração maquiavélica da vida, cada passo uma abolição das barreiras que impedem a corrida para o ouro, a subir empurrado por homens felizes como eu que pelo menos e sarcasticamente percebem quem são, vê-lo a rejubilar com saídas e entradas capaz de bater o mais sério do homem, toques subtis ao ritmo do sentimento de superioridade. O trânsito condensa e a conversa vai dando uma de filosófica, filosofia barata, dum lado ao outro, desde o condutor tresloucado e brusco distraído nas curvas que não vê enquanto fala, que nem percebe tão pouco que se está a gozar com ele tão absorvido na sua demência cavalgante. À minha direita no lugar do morto está um homem que dá um empurrão com mais força, calado. De repente uma pausa para o silêncio adocicado pelo som que debita do rádio e faz chorar lágrimas de emoção! E noutras circunstâncias, de lembrança de aspirador de dourados simbólicos, a palavra trabalho impera sobre o fundo do assunto que se explana do Interlocutor, aí a conversa resvala para um campo que não me interessa nem falo, limito-me a chorar lágrimas secas, a ouvir as informações do trânsito da cidade explosiva ou até conversas gravadas pelo directo memorável duma entidade que se encontra a gravar o que diz. O morto ressuscita ganha vida marionética pactua a sangue que escorre por distracção das mãos, responde militarmente ao superior hierárquico duma guerra injusta que se fez sentir por altura dum passado de quem manda. «Sim senhor!» diz o morto por entre dentes sem tão pouco perceber o seu grunhido de baixa frequência. Na rádio dizem entretanto «Tá no ir, não há que perder tempo, hoje chuva para o dia todo mesmo que não chova!» e eu espreguiço-me pelo movimento descendente da saída para o chão molhado por um orvalho matinal frondoso.
A sinfonia de metais da quinta feira de alegria já chegou, temos que pegar nos condicionados instrumentos tirá-los da caixa e juntarmo-nos ao grupo extenso de músicos que dá ritmo estonteante e embalado pelas mãos do inconformismo conformado, que com muitos anos de treino e genética recente vão prologando e compondo a melodia dos artistas presentes. Entre todos de tudo um pouco.
As paredes ainda estão cor de laranja, uma cor muito em voga em paredes que não se hão-de ver naquela cor, pequenas quadriculas acinzentadas ostentam ordenadamente tijolos que falam quando não se percebe quem. Os fios emaranham-se no chão, os caminhos são muitos e a música berra energeticamente duma aparelhagem sonora a fazer dueto com o som áspero dos movimentos da nossa orquestra dramática em construção, quanto mais se tocam os diversos instrumentos em mais melodioso se materializa o ensaio, o tempo vai passando e a experiência enriquece o reportório de notas que se fazem expandir pelo o ar poeirento, o martelo acústico e o pneumático são os sons mais graves que impõem o ritmo urbano entre todos os demais instrumentistas. O som intercalado latejante é rodeado concentricamente ao ritmo dos timbres dos diversos intervenientes. (...)
domingo, julho 15
JARDIM DE RAÍZ

"Jardim das delícias terrenas" Hieronymus Bosch, 1504
Silenciaste-te como resposta às minhas palavras. As minhas flores, em forma escrita perderam o cheiro doce da tinta, concêntricas letras sem sentido ordenado da vontade que me explana. Não pousaste sobre as suas minhas pétalas, rumaste para longe para um longe que não consigo decifrar. Senti-me só no silêncio das minhas palavras que flores não foram aquando do eco da tua melodia. Perdido, apenas perdido no eco que é o meu e não o desejado na primavera do meu ser que se quer expandir pela intemporalidade enternecedora. Repeti-me na ânsia de te ouvir, tentando com o meu pólen voar até ao teu nariz vazio pelo cheiro da minha constatação. Sorri para mim como se ao espelho me observasse como quem espera o reflexo daquilo que escreveu. Um sorriso doloroso rasgou-me a inferioridade da cara espelhada.
Senti-me bem na procura de ver a forma que é tua na cabeça sonhadora que vive o meu corpo. Um bem-estar doloroso forçado pela memória invadiu-me as entranhas, eras tu em mim, pávida como sempre, sobre este olhar introspectivo que me tolhe explanando-se. Todo um jardim na caixa em que me tornei, grandiosa o suficiente para me fazeres crer que a caixa que me molda é insuficiente para te conter.
Rejubilei num esvoaçar do que disse
Pousaste em mim tardiamente
Era já eu um ser disperso caído aos pés dum vazio que me varreu
Já não queria palavras apenas toques um abraço um beijo um respirar
Capaz de desenraizar a raiz que me estagnou.
segunda-feira, julho 9
A RESPEITO DO CONCEITO DE RESPONSABILIDADE
No autocarro, cânticos embriagados foram estalando pelo caminho, e aos poucos, os vidros esfriados pela noite. Um bando de rapazes e tenras raparigas tinham entrado na paragem anterior munidos de cervejas e instrumentos vocais capazes de agoniar o mais paciente dos surdos. Encostado no meu canto fui delirando alegremente com tal imagem sonora. Ver as garrafas de cerveja e sentir um gosto seco na boca fizeram de mim um ser desesperado. Os cânticos eram verdadeiramente agoniantes mas foram suficientemente bons para me fazerem rir à parva e desejar fugir do autocarro rapidamente. Questionei a possibilidade de partir o vidro e saltar borda fora…
Chegado ao destino o silêncio falou mais alto. Estava uma noite agradável, as ruas estavam apinhadas de caminhantes a afunilar para a entrada do enorme barril plantado a duzentos metros do mar rumorejante.
Começou a odisseia. No dia a seguir iria trabalhar bem cedo, sem saber bem porquê, tal responsabilidade não me entrou na cabeça, fugiu para longe da minha percepção. A preocupação era agora outra. Álcool. Queria álcool e devaneio selvático. Queria entorpecer o cérebro e dar asas ao espaço sideral, o espaço do nada que nos serve de base como homens que somos. Comecei por uma cerveja de meio litro, daquelas cervejas manhosas que surgem como cogumelos das mais diversas formas e sabores com o intuito de chamar à atenção dos mais cépticos entre os bêbados. Na falta da tradicional, uma com um sabor mais forte e numa quantidade boa era o suficiente para arrefecer e suavizar a minha boca seca. Foi aí que dei um passo para o tudo. Para a perdição total, solta de rédeas, transformei-me em cavalo selvagem num prado amplo e natural repleto de cactos espinhosos e sequiosos de gotas de soluções aquosas multicolores. Ainda hoje, sóbrio e fragmentariamente esquecido, sinto que a veracidade desta minha história carece de pormenores capazes de dar forma coerente ao sucedido. Mas isso não é importante, a coerência não é sequer para aqui chamada e talvez por causa disso tal lembrança seja vista e analisada como se dum sonho se tratasse. Embriagado pelo álcool bebido a jorros e pelo ambiente respirado, atulhei-me em considerações e posições soltas perante estados de espírito como o meu. Não me lembro do que disse, pouco me lembro do que fiz. Recordo-me de sair da tenda das borlas e dirigir-me à casa de banho. Pouco trôpego lá fiz o meu slaloon gigante até ao mictório, lá chegado, mijei ao lado, era um acto menos custoso e bem mais natural. Depois de me consolar com a fluidez a jorros, tentei voltar ao ponto de partida… Caminhei, olhei em volta, caminhei, caminhei, voltei a olhar à procura do farol que me iluminava a alma e nada. Dei quatro voltas ao recinto sem encontrar, sem me encontrar. Entretanto voltei ao sítio de primeira necessidade e como cão que se preza por lá mijei mais uma vez. Ao apertar a pertinhola e levantar a cabeça desisti de voltar a procurar a tenda da copofonia. Um som de fundo cativou-me, vinha duma tenda grande a poucos metros de mim. Encaminhei-me para lá ao som do jazz crescente. Quatro indivíduos munidos com as suas armas enchiam de chumbos a tenda. Tocavam bem. Embalaram-me. Meteram-me dentro duma embalagem almofadada que me fez ficar por ali uns largos minutos. O corpo contorcia-se ao som de contrabaixo, bateria, saxofone e trompete. Era capaz de ficar ali até acabar, mas de repente, e sem saber agora explicar muito bem porquê, veio-me à ideia que a tenda era ali, na direcção para a qual olhei. Encaminhei-me nessa direcção e dei por mim de novo na tenda onde se encontravam os meus comparsas de borga. Estavam igualmente alegres, entorpecidos por charros de haxixe e copos à valente. Voltei a encher o meu copo. Não sei se de cerveja se de whisky, o que seria não era importante. As palavras e as gargalhadas saíam demencial e estonteantemente, uns bafos de haxe uns goles de álcool uma elevação suprema. Já não me lembrava de tal estado entorpecido. Há já bastante tempo que não me dava ao trabalho de sair de casa para beber como um cano de esgoto num dia de avantajadas chuvas. Que noite! Que memorável recordação! Que acto divino este, beber até cair para o lado e perceber nos dias que precedem que por vezes a vida é um processo de esquilo que rói nozes sem saber bem porquê. No dia a seguir uma série de orgulhos e conclusões brilhantes invadiram-me o cérebro como lapas bem vindas. Para quê prender-me sempre às responsabilidades impostas pela sociedade, se elas só existem para me pesar o espírito? Porque razão haveria de me sentir culpado por ter bebido bem e no dia a seguir não ter ido trabalhar? Tudo isso só serve para nos tolher, para sermos cães que não nossos. Entretanto perdi o telemóvel, o passe de autocarro e o maço de tabaco. E de todas essas três coisas só uma coisa me preocupou, o passe, sem ele não poderia vir até casa… Dei por mim já fora do recinto da queima dos neurónios, e os meus estavam bem queimadinhos, era naquele preciso momento um homem-peixe, um homem só, sem se lembrar tampouco dos que ficaram para trás, perdido em mim mesmo. Falava com três gajos com um ar bastante refinado, bem vestidos, com um sotaque educado, não me recordo se fui eu que os interpelei, se foram eles que me falaram, não fazia a mínima ideia de como tinha ali chegado… Lembro-me que tinham um carro clássico, branco sem capota, que estava um sol matinal maravilhoso e reconfortante. A brisa do mar lambia-me a cara, tal carro era o ideal para ir para casa. Descapotável! Rapidamente estava dentro dele depois de perceber que iriam atravessar a ponte Arrábida. Supostamente iriam para Coimbra ou para Aveiro… Quando tal estava no bairro da Pasteleira. Já num portal dum prédio carregando o meu corpo ondulante tentava perceber o que ali fazíamos, em vão, de repente um deles dirige-me a palavra.
- Estás todo maluco! – Ao ouvir isto uma espécie de choque apoderou-se de mim e abanou-me.
- Sabem que mais? Ide-vos foder! – Virei costas e dirigi-me para a rua.
Estava todo perdido, mas mesmo assim pus as mãos aos bolsos para me certificar do que não tinha. Tinhas apenas uma moeda no bolso, insuficiente para apanhar o autocarro que ainda não sabia qual era nem para onde. Dirigi-me para o táxi que me tinha trazido gratuitamente para ver se não tinha deixado cair pelo banco de trás as minha coisas, confirmou-se, nada estava por lá. Apetecia-me um cigarro. No tabelier algo plastificado reluziu com a luz do sol. Já de maço de tabaco na mão acendi um cigarro e encaminhei-me pelas ruas da até então desconhecida Pasteleira. Pela rua e àquela hora, desconhecida na altura, já andavam umas quantas e frescas pessoas. Velhinhas com sacas. Cães esfaimados e vadios. Senhoras de meia-idade… Dirigi-me a uma e perguntei-lhe por transporte.
- A senhora por acaso não me sabe dizer qual e onde posso apanhar o autocarro para o porto? – Não estava assim tão mal afinal, ainda conseguia articular uma pergunta com pés e cabeça.
- Você foi para queima!... Sei sim senhor, venha comigo. – Acompanhei-a enquanto me falou com orgulho da sua filhinha que há bem pouco tempo tinha acabado um curso qualquer e já se encontrava a trabalhar. Indicou-me então a paragem e, confortado pelo sol, por lá esperei pelo autocarro. Depois de pensar no que haveria de dizer, as desculpas que serviriam de desculpa plausível, e de muitas outras e confusas suposições, chegou o autocarro, instintivamente optei por entrar sem dar cavaco ao motorista e sentar-me. Já no lugar, ao lado duma universitária orgulhosa pelo pólo que vestia e com um cheiro agradável a perfume, olhava furtivamente para o retrovisor do motorista à espera duma repreensão ou duma pergunta constrangedora. Nada disso aconteceu. Observei calmamente os transeuntes, tirei conclusões não absorvidas pela memória e de repente já estava na baixa da bela cidade do Porto. Centenas de pessoas por lá andavam. Um ritmo de dia de trabalho rolava pela calçada. Para cá para lá. A uma velocidade constante. Autocarros. Camionetas. Carros motas. A estação de São Bento a vomitar pessoas pela boca que são as suas portas.
O barulho maquinado pelo barulho citadino dava uma ambiência esquisita mas agradável à vista. Toda aquela vida rolava diante dos meus olhos descomprometidos. Olhos humedecidos pelo sono mas no entanto bem abertos. Estava então parado. Não me lembrei sequer de olhar para o relógio da estação. Entrei no fosso para o metro. Tinha uma moeda suficiente para o meio. Decidi entrar sem pagar. Sempre que andei de metro nunca vi um revisor de cartões. O metro chegou em minutos como uma cobra amarela cheia de vítimas no comprido estômago que é o seu corpo. Entrei de espírito leve sem medo. Ao atravessar a ponte D. Luís I maravilhei-me com as duas cintilantes e iluminadas margens, com o rio douro e a sua cor doentia e suja, rejubilei. Entrei na periférica deusa Gaia subi a avenida movimentada e saí na minha destinada estação: JOÃO DE DEUS. Já na rua, com os ouvidos avivados pelo movimento perpétuo, caminhei calmamente e em piloto automático para casa. Pelo meio parei numa pastelaria para gastar a minha última moeda num belo e doce bolo que justificava, neste caso sim, o gasto; seria capaz de comer mais uns quantos que figuravam na montra que ladeava o balcão, mas não tinha dinheiro suficiente… O meu ritmo era lento, ritmo de quem contempla e nada mais, sem obrigações impostas. Já nem me lembrava que tinha assinado um contrato de trabalho de seis meses no dia anterior. Atravessei o jardim de Soares dos Reis, apreciei o passarinhos, ouvi as suas melodias intrincadas, olhei para a estátua fria dum falecido e rapidamente dei por mim na cama depois de ter tentado perceber o que me tinha acontecido ao falar com um acompanhante da noite anterior. A tentativa de nada valeu. Decidi deitar-me sobre o assunto.
Nos dias seguintes o puzzle foi-se compondo. Depois de acordar com uma ressaca bastante agoniante, propus-me a arranjar uma desculpa credível afim de me justificar perante o homem que me contratou. Um homem estranho diga-se de passagem. Homem dos seus cinquenta e poucos anos. Sobrevivente da guerra colonial, filho duma guerra que o obrigou a sofrer. Pelo que me apercebi ao puxar conversa com ele na carrinha, nos dias anteriores, a caminho das diversas obras em que me vi obrigado a estar para ganhar dinheiro, era um personagem natural e consequencialmente desconfiado e capaz de mudar bruscamente de humor e tom de voz ao mínimo toque da sirene que só existe na cabeça dele. Tal retrato dele, na minha cabeça estonteada pelo álcool recesso do dia seguinte, era motivo para me assustar o suficiente e fazer-me concluir que trezentas das desculpas que engendrava seriam obviamente desmacaradas por aquele ser estranho e alienado. Consegui nesse mesmo dia perceber que não tinha apanhado uma daquelas pielas em que nos tornamos pesos aborrecidos e estupidificados pelas atitudes tomadas. Tal suposição assombrava-me já que me tinha deparado sozinho e perdido na manhã longe de todos aqueles conhecidos com quem partilhei a maior parte da noite. Mais sossegado, mas ainda mergulhado em planos justificativos capazes de me impedir de voltar à penúria de receber metade dum pobre e medíocre ordenado mínimo, tentava insistentemente encontrar uma mentira verosímil. Soube entretanto, e não no dia de folga pessoal, que me tentaram em vão arrastar para casa na esperança de que no dia seguinte me encontrasse no armazém frio e saturado de peças de alumínio e materiais afins. Nada disso aconteceu, e o meu estado era já tal nesse preciso momento de preocupação alheia que argumentei que ficaria com um personagem que em tempos rejeitou água a um grupo de amigos, em que eu me incluía. Essa rejeição é digna de ser escrita em jeito de parêntesis. Numa noite de verão em que estávamos na casa dessa pessoa somítica, embriagados por charros gordos típicos de quem corta sabões em vésperas de umas férias regadas a fumos acastanhados, a secura apoderou-se das bocas dos presentes, água foi pedida, à torneira se foi e de lá só saía um líquido amarelado, foi-nos dito pelo dono da casa que não haveria água já que a da torneira se encontrava naquele estado colorido, tal argumento foi motivo suficiente para se aceitar tal estado de desespero. Os charros continuaram a rolar a um ritmo alucinante, pela sala o nevoeiro condensava-se numa nuvem sólida e contagiante, até que alguém foi à cozinha verificar se a água tinha perdido a cor e reparou que algures pela despensa uns quantos garrafões de cinco litros cheios de água límpida repousavam num mistério escurecido… Recordar isto foi uma coisa muito estranha, estava mesmo perdido em etílico, recusei-me a vir para casa com pessoas que estimo bastante para ficar com uma pessoa capaz de rejeitar um bem essencial aos amigos só para reforçar a ideia de mitra que já se tinha sobre ele… A última pessoa conhecida com quem estive e que me recorde foi com ele. Pelo que me disse uns dias a seguir, passaram-me um copo de whisky para mão.
- Venho já!
Agora que penso sobre o assunto afincadamente, na esperança infrutífera de perceber melhor os acontecimentos, ocorre-me à ideia um pequeno facto questionável. Bombeado por um ataque de ebriedade talvez me tenha apercebido que me encontrava sozinho com o homem-mitra e, como consequência reaccional, tinha-me posto a trote trôpego e cambaleante para bem longe. Ainda hoje, muitas dias depois desse dia importante e memorável, não consigo perceber como é que tal persona foi de bom grado comprar os bilhetes para a festa do barril gigante. Em jeito de paranóia eu acho que ele sabia de tudo isto, que tudo o que aconteceu iria acontecer. Talvez tenha sido ele a roubar-me. Talvez tenha pensado para si: «vou levar aquele beberrão destravado e roubá-lo à boi quando estiver todo cego!» Sinceramente não acredito minimamente no que acabei de afirmar. Mas é-me mais difícil acreditar que pessoa que rejeita água aos amigos tenha ido para uma fila enorme para me comprar um bilhete com o seu próprio dinheiro.
Já à noite, ainda com o álcool a acidificar o meu esófago, consegui descortinar a tempo uma desculpa capaz de convencer o meu patrão tresloucado a acreditar numa mentira elaborada. A minha mãe teria ido para o hospital. O que não era mentira nenhuma. Ao constatar que não tinha às seis da madrugada posto ainda os pés no chão do meu quarto tentou-me ligar. Obviamente não o conseguiu. Consumida por um pavor materno ligou a umas quantas pessoas que nada souberam dizer sobre o meu paradeiro. E o pior é que nem mesmo o meu companheiro de trabalho que fora contactado à hora laboral soube dizer algo sobre o meu paradeiro. Apoderada pelo desespero começou a ligar desenfreadamente para os hospitais da cidade, em vão…
- Minha senhora, não entrou aqui nas urgências ninguém que corresponda ao nome do seu filho. Mas no entanto temos aqui um carreirinho deles sem identificação!... – aí a aflição fê-la sentir ainda mais os braços pesarosos do desespero.
Começou a correr os hospitais. Para todos os efeitos foi aos hospitais e de um modo mais singular «foi para o hospital» e como tal, dizer tal coisa ao meu patrão era uma boa hipótese com bases capazes de reforçar a confiança na minha afirmação de meio mentiroso. Aliado a esse argumento decidi-me por não pôr muito entulho na argumentação perante a identidade autoritária do patronato. Ser pragmático, esperar a reacção e a partir daí complementar as suas dúvidas com afirmações vagas mas plenas de coerência.
Acordei no primeiro dia de trabalho a seguir ao tiro com uma pressão no peito e uma consciência dorida de quem pode perder um emprego merdoso pelo qual teve que esperar oito meses para arranjar. Se fosse despedido, um rótulo de irresponsável seria colado na minha testa apenas visível aos olhos dos outros. Para mim, a minha atitude livre de tudo, não foi acto de irresponsável, muito pelo contrário. Fui porque quis. Bebi porque quis. Fiquei de bolsos vazios como consequência do que quis. Foi tudo obra da minha pessoa, e sendo assim, tais acontecimentos foram absolutamente da minha e singular responsabilidade. Não recusei o álcool, recusei-me a vir embora e fui senhor livre dos meus actos, larguei tudo, agarrei-me à minha responsabilidade e a nada mais.
Chegado ao destino o silêncio falou mais alto. Estava uma noite agradável, as ruas estavam apinhadas de caminhantes a afunilar para a entrada do enorme barril plantado a duzentos metros do mar rumorejante.
Começou a odisseia. No dia a seguir iria trabalhar bem cedo, sem saber bem porquê, tal responsabilidade não me entrou na cabeça, fugiu para longe da minha percepção. A preocupação era agora outra. Álcool. Queria álcool e devaneio selvático. Queria entorpecer o cérebro e dar asas ao espaço sideral, o espaço do nada que nos serve de base como homens que somos. Comecei por uma cerveja de meio litro, daquelas cervejas manhosas que surgem como cogumelos das mais diversas formas e sabores com o intuito de chamar à atenção dos mais cépticos entre os bêbados. Na falta da tradicional, uma com um sabor mais forte e numa quantidade boa era o suficiente para arrefecer e suavizar a minha boca seca. Foi aí que dei um passo para o tudo. Para a perdição total, solta de rédeas, transformei-me em cavalo selvagem num prado amplo e natural repleto de cactos espinhosos e sequiosos de gotas de soluções aquosas multicolores. Ainda hoje, sóbrio e fragmentariamente esquecido, sinto que a veracidade desta minha história carece de pormenores capazes de dar forma coerente ao sucedido. Mas isso não é importante, a coerência não é sequer para aqui chamada e talvez por causa disso tal lembrança seja vista e analisada como se dum sonho se tratasse. Embriagado pelo álcool bebido a jorros e pelo ambiente respirado, atulhei-me em considerações e posições soltas perante estados de espírito como o meu. Não me lembro do que disse, pouco me lembro do que fiz. Recordo-me de sair da tenda das borlas e dirigir-me à casa de banho. Pouco trôpego lá fiz o meu slaloon gigante até ao mictório, lá chegado, mijei ao lado, era um acto menos custoso e bem mais natural. Depois de me consolar com a fluidez a jorros, tentei voltar ao ponto de partida… Caminhei, olhei em volta, caminhei, caminhei, voltei a olhar à procura do farol que me iluminava a alma e nada. Dei quatro voltas ao recinto sem encontrar, sem me encontrar. Entretanto voltei ao sítio de primeira necessidade e como cão que se preza por lá mijei mais uma vez. Ao apertar a pertinhola e levantar a cabeça desisti de voltar a procurar a tenda da copofonia. Um som de fundo cativou-me, vinha duma tenda grande a poucos metros de mim. Encaminhei-me para lá ao som do jazz crescente. Quatro indivíduos munidos com as suas armas enchiam de chumbos a tenda. Tocavam bem. Embalaram-me. Meteram-me dentro duma embalagem almofadada que me fez ficar por ali uns largos minutos. O corpo contorcia-se ao som de contrabaixo, bateria, saxofone e trompete. Era capaz de ficar ali até acabar, mas de repente, e sem saber agora explicar muito bem porquê, veio-me à ideia que a tenda era ali, na direcção para a qual olhei. Encaminhei-me nessa direcção e dei por mim de novo na tenda onde se encontravam os meus comparsas de borga. Estavam igualmente alegres, entorpecidos por charros de haxixe e copos à valente. Voltei a encher o meu copo. Não sei se de cerveja se de whisky, o que seria não era importante. As palavras e as gargalhadas saíam demencial e estonteantemente, uns bafos de haxe uns goles de álcool uma elevação suprema. Já não me lembrava de tal estado entorpecido. Há já bastante tempo que não me dava ao trabalho de sair de casa para beber como um cano de esgoto num dia de avantajadas chuvas. Que noite! Que memorável recordação! Que acto divino este, beber até cair para o lado e perceber nos dias que precedem que por vezes a vida é um processo de esquilo que rói nozes sem saber bem porquê. No dia a seguir uma série de orgulhos e conclusões brilhantes invadiram-me o cérebro como lapas bem vindas. Para quê prender-me sempre às responsabilidades impostas pela sociedade, se elas só existem para me pesar o espírito? Porque razão haveria de me sentir culpado por ter bebido bem e no dia a seguir não ter ido trabalhar? Tudo isso só serve para nos tolher, para sermos cães que não nossos. Entretanto perdi o telemóvel, o passe de autocarro e o maço de tabaco. E de todas essas três coisas só uma coisa me preocupou, o passe, sem ele não poderia vir até casa… Dei por mim já fora do recinto da queima dos neurónios, e os meus estavam bem queimadinhos, era naquele preciso momento um homem-peixe, um homem só, sem se lembrar tampouco dos que ficaram para trás, perdido em mim mesmo. Falava com três gajos com um ar bastante refinado, bem vestidos, com um sotaque educado, não me recordo se fui eu que os interpelei, se foram eles que me falaram, não fazia a mínima ideia de como tinha ali chegado… Lembro-me que tinham um carro clássico, branco sem capota, que estava um sol matinal maravilhoso e reconfortante. A brisa do mar lambia-me a cara, tal carro era o ideal para ir para casa. Descapotável! Rapidamente estava dentro dele depois de perceber que iriam atravessar a ponte Arrábida. Supostamente iriam para Coimbra ou para Aveiro… Quando tal estava no bairro da Pasteleira. Já num portal dum prédio carregando o meu corpo ondulante tentava perceber o que ali fazíamos, em vão, de repente um deles dirige-me a palavra.
- Estás todo maluco! – Ao ouvir isto uma espécie de choque apoderou-se de mim e abanou-me.
- Sabem que mais? Ide-vos foder! – Virei costas e dirigi-me para a rua.
Estava todo perdido, mas mesmo assim pus as mãos aos bolsos para me certificar do que não tinha. Tinhas apenas uma moeda no bolso, insuficiente para apanhar o autocarro que ainda não sabia qual era nem para onde. Dirigi-me para o táxi que me tinha trazido gratuitamente para ver se não tinha deixado cair pelo banco de trás as minha coisas, confirmou-se, nada estava por lá. Apetecia-me um cigarro. No tabelier algo plastificado reluziu com a luz do sol. Já de maço de tabaco na mão acendi um cigarro e encaminhei-me pelas ruas da até então desconhecida Pasteleira. Pela rua e àquela hora, desconhecida na altura, já andavam umas quantas e frescas pessoas. Velhinhas com sacas. Cães esfaimados e vadios. Senhoras de meia-idade… Dirigi-me a uma e perguntei-lhe por transporte.
- A senhora por acaso não me sabe dizer qual e onde posso apanhar o autocarro para o porto? – Não estava assim tão mal afinal, ainda conseguia articular uma pergunta com pés e cabeça.
- Você foi para queima!... Sei sim senhor, venha comigo. – Acompanhei-a enquanto me falou com orgulho da sua filhinha que há bem pouco tempo tinha acabado um curso qualquer e já se encontrava a trabalhar. Indicou-me então a paragem e, confortado pelo sol, por lá esperei pelo autocarro. Depois de pensar no que haveria de dizer, as desculpas que serviriam de desculpa plausível, e de muitas outras e confusas suposições, chegou o autocarro, instintivamente optei por entrar sem dar cavaco ao motorista e sentar-me. Já no lugar, ao lado duma universitária orgulhosa pelo pólo que vestia e com um cheiro agradável a perfume, olhava furtivamente para o retrovisor do motorista à espera duma repreensão ou duma pergunta constrangedora. Nada disso aconteceu. Observei calmamente os transeuntes, tirei conclusões não absorvidas pela memória e de repente já estava na baixa da bela cidade do Porto. Centenas de pessoas por lá andavam. Um ritmo de dia de trabalho rolava pela calçada. Para cá para lá. A uma velocidade constante. Autocarros. Camionetas. Carros motas. A estação de São Bento a vomitar pessoas pela boca que são as suas portas.
O barulho maquinado pelo barulho citadino dava uma ambiência esquisita mas agradável à vista. Toda aquela vida rolava diante dos meus olhos descomprometidos. Olhos humedecidos pelo sono mas no entanto bem abertos. Estava então parado. Não me lembrei sequer de olhar para o relógio da estação. Entrei no fosso para o metro. Tinha uma moeda suficiente para o meio. Decidi entrar sem pagar. Sempre que andei de metro nunca vi um revisor de cartões. O metro chegou em minutos como uma cobra amarela cheia de vítimas no comprido estômago que é o seu corpo. Entrei de espírito leve sem medo. Ao atravessar a ponte D. Luís I maravilhei-me com as duas cintilantes e iluminadas margens, com o rio douro e a sua cor doentia e suja, rejubilei. Entrei na periférica deusa Gaia subi a avenida movimentada e saí na minha destinada estação: JOÃO DE DEUS. Já na rua, com os ouvidos avivados pelo movimento perpétuo, caminhei calmamente e em piloto automático para casa. Pelo meio parei numa pastelaria para gastar a minha última moeda num belo e doce bolo que justificava, neste caso sim, o gasto; seria capaz de comer mais uns quantos que figuravam na montra que ladeava o balcão, mas não tinha dinheiro suficiente… O meu ritmo era lento, ritmo de quem contempla e nada mais, sem obrigações impostas. Já nem me lembrava que tinha assinado um contrato de trabalho de seis meses no dia anterior. Atravessei o jardim de Soares dos Reis, apreciei o passarinhos, ouvi as suas melodias intrincadas, olhei para a estátua fria dum falecido e rapidamente dei por mim na cama depois de ter tentado perceber o que me tinha acontecido ao falar com um acompanhante da noite anterior. A tentativa de nada valeu. Decidi deitar-me sobre o assunto.
Nos dias seguintes o puzzle foi-se compondo. Depois de acordar com uma ressaca bastante agoniante, propus-me a arranjar uma desculpa credível afim de me justificar perante o homem que me contratou. Um homem estranho diga-se de passagem. Homem dos seus cinquenta e poucos anos. Sobrevivente da guerra colonial, filho duma guerra que o obrigou a sofrer. Pelo que me apercebi ao puxar conversa com ele na carrinha, nos dias anteriores, a caminho das diversas obras em que me vi obrigado a estar para ganhar dinheiro, era um personagem natural e consequencialmente desconfiado e capaz de mudar bruscamente de humor e tom de voz ao mínimo toque da sirene que só existe na cabeça dele. Tal retrato dele, na minha cabeça estonteada pelo álcool recesso do dia seguinte, era motivo para me assustar o suficiente e fazer-me concluir que trezentas das desculpas que engendrava seriam obviamente desmacaradas por aquele ser estranho e alienado. Consegui nesse mesmo dia perceber que não tinha apanhado uma daquelas pielas em que nos tornamos pesos aborrecidos e estupidificados pelas atitudes tomadas. Tal suposição assombrava-me já que me tinha deparado sozinho e perdido na manhã longe de todos aqueles conhecidos com quem partilhei a maior parte da noite. Mais sossegado, mas ainda mergulhado em planos justificativos capazes de me impedir de voltar à penúria de receber metade dum pobre e medíocre ordenado mínimo, tentava insistentemente encontrar uma mentira verosímil. Soube entretanto, e não no dia de folga pessoal, que me tentaram em vão arrastar para casa na esperança de que no dia seguinte me encontrasse no armazém frio e saturado de peças de alumínio e materiais afins. Nada disso aconteceu, e o meu estado era já tal nesse preciso momento de preocupação alheia que argumentei que ficaria com um personagem que em tempos rejeitou água a um grupo de amigos, em que eu me incluía. Essa rejeição é digna de ser escrita em jeito de parêntesis. Numa noite de verão em que estávamos na casa dessa pessoa somítica, embriagados por charros gordos típicos de quem corta sabões em vésperas de umas férias regadas a fumos acastanhados, a secura apoderou-se das bocas dos presentes, água foi pedida, à torneira se foi e de lá só saía um líquido amarelado, foi-nos dito pelo dono da casa que não haveria água já que a da torneira se encontrava naquele estado colorido, tal argumento foi motivo suficiente para se aceitar tal estado de desespero. Os charros continuaram a rolar a um ritmo alucinante, pela sala o nevoeiro condensava-se numa nuvem sólida e contagiante, até que alguém foi à cozinha verificar se a água tinha perdido a cor e reparou que algures pela despensa uns quantos garrafões de cinco litros cheios de água límpida repousavam num mistério escurecido… Recordar isto foi uma coisa muito estranha, estava mesmo perdido em etílico, recusei-me a vir para casa com pessoas que estimo bastante para ficar com uma pessoa capaz de rejeitar um bem essencial aos amigos só para reforçar a ideia de mitra que já se tinha sobre ele… A última pessoa conhecida com quem estive e que me recorde foi com ele. Pelo que me disse uns dias a seguir, passaram-me um copo de whisky para mão.
- Venho já!
Agora que penso sobre o assunto afincadamente, na esperança infrutífera de perceber melhor os acontecimentos, ocorre-me à ideia um pequeno facto questionável. Bombeado por um ataque de ebriedade talvez me tenha apercebido que me encontrava sozinho com o homem-mitra e, como consequência reaccional, tinha-me posto a trote trôpego e cambaleante para bem longe. Ainda hoje, muitas dias depois desse dia importante e memorável, não consigo perceber como é que tal persona foi de bom grado comprar os bilhetes para a festa do barril gigante. Em jeito de paranóia eu acho que ele sabia de tudo isto, que tudo o que aconteceu iria acontecer. Talvez tenha sido ele a roubar-me. Talvez tenha pensado para si: «vou levar aquele beberrão destravado e roubá-lo à boi quando estiver todo cego!» Sinceramente não acredito minimamente no que acabei de afirmar. Mas é-me mais difícil acreditar que pessoa que rejeita água aos amigos tenha ido para uma fila enorme para me comprar um bilhete com o seu próprio dinheiro.
Já à noite, ainda com o álcool a acidificar o meu esófago, consegui descortinar a tempo uma desculpa capaz de convencer o meu patrão tresloucado a acreditar numa mentira elaborada. A minha mãe teria ido para o hospital. O que não era mentira nenhuma. Ao constatar que não tinha às seis da madrugada posto ainda os pés no chão do meu quarto tentou-me ligar. Obviamente não o conseguiu. Consumida por um pavor materno ligou a umas quantas pessoas que nada souberam dizer sobre o meu paradeiro. E o pior é que nem mesmo o meu companheiro de trabalho que fora contactado à hora laboral soube dizer algo sobre o meu paradeiro. Apoderada pelo desespero começou a ligar desenfreadamente para os hospitais da cidade, em vão…
- Minha senhora, não entrou aqui nas urgências ninguém que corresponda ao nome do seu filho. Mas no entanto temos aqui um carreirinho deles sem identificação!... – aí a aflição fê-la sentir ainda mais os braços pesarosos do desespero.
Começou a correr os hospitais. Para todos os efeitos foi aos hospitais e de um modo mais singular «foi para o hospital» e como tal, dizer tal coisa ao meu patrão era uma boa hipótese com bases capazes de reforçar a confiança na minha afirmação de meio mentiroso. Aliado a esse argumento decidi-me por não pôr muito entulho na argumentação perante a identidade autoritária do patronato. Ser pragmático, esperar a reacção e a partir daí complementar as suas dúvidas com afirmações vagas mas plenas de coerência.
Acordei no primeiro dia de trabalho a seguir ao tiro com uma pressão no peito e uma consciência dorida de quem pode perder um emprego merdoso pelo qual teve que esperar oito meses para arranjar. Se fosse despedido, um rótulo de irresponsável seria colado na minha testa apenas visível aos olhos dos outros. Para mim, a minha atitude livre de tudo, não foi acto de irresponsável, muito pelo contrário. Fui porque quis. Bebi porque quis. Fiquei de bolsos vazios como consequência do que quis. Foi tudo obra da minha pessoa, e sendo assim, tais acontecimentos foram absolutamente da minha e singular responsabilidade. Não recusei o álcool, recusei-me a vir embora e fui senhor livre dos meus actos, larguei tudo, agarrei-me à minha responsabilidade e a nada mais.
quinta-feira, julho 5
PRIMAVERA LABORAL
Enquanto o trabalho se vai organizando no armazém da manhã, eu, de costas voltadas, bafejo um pesado cigarro, vou contemplando a audível e apaziguadora chuva que cai do céu imenso sobrelotado a cinza primaveril. Seria capaz de por ali ficar, imóvel, uma luxuriante eternidade...
?
Por vezes as circunstâncias tornam-se estranhas, repletas de fantasmas que nos assolam por as concavidades da cidade serem propícias para o deleite previsível a que nunca nos habituamos. As suposições transformaram-se em certezas que não queremos aceitar verdadeiramente. Um momento chega, já previsto pelo vento que para lá nos empurrou, corta-nos, enfraquece-nos, um mundo transforma-se em metamorfose instantânea. Um cigarro acende-se depois de alguns outros fumados como quem inala gás com uma pressão constante que surpreendentemente nos abana. O perímetro condensa-se, um anel de beleza mental ganha forma no processo que o solidifica, como se tudo fosse tudo diferente. Os pássaros apercebem-nos pela sombra provocada pelo sol que se esvanece na noite que tudo tem, como uma nuance de pincel húmido de lágrimas que nos escorrem pela cara que solidifica em vincos que nos marcam e são desenhados de novo, com uma outra consistência. As linhas tornam-se voláteis, correspondentes a um som que nos embala na mais confusa das conclusões confirmadas pela carne que não se vê. Um ânimo estranho pega em nós, pesados como uma rocha, granito talvez, componentes são formados pela passagem do tempo até encontrar uma rigidez aparentemente insensível mas chorosa. O olhar fica preso, tudo tem outras cores, diferentes pinceladas na tela que se vai deixando ver até ao último toque. Diversas cores recalcadas e coloridas por cores mais fortes mais sombrias que provavelmente vão ser calcadas e recoloridas pela emoção que dá vida ao pincel. A experiência começa a dar azo a novas técnicas, palavras que nos são feias mas bastante úteis. Usa-se um instrumento bem afinado, com uma definição sonora exponencial que ecoa pela sala de espectáculos enquanto o público rejubila alheio. A música vai embalando as necessidades abanando-nos como se procurasse misturar tudo o que temos e concluímos. É bela a sonorização da sala, os altos os baixos e o graves e agudos, entrosa-se tudo numa parafernália deliciosa composta por uma imensidade sensorial que perfura o local onde me encontro. A vida corre no seu rumo inconstante na procura da proximidade duma perfeição natural que nos faça encontrar mais mais e mais. Uma perfeição que nos remete para as profundezas da alma, a eterna metáfora que nos magoa corporalmente.
As árvores agitam-se entre as paredes que formam o espaço sensitivo. Dão vida ao cenário pintado no caminho da mestria. O todo ganha espaço, liberdade para tentar aperfeiçoar o voo, pequenas penas vão crescendo até planarem serenamente sobre céu que se expande. Algures o tempo corre como água numa fonte cristalina e misteriosa, o caminho é longo e cada passo é menos custoso. Pequenos fios de água pelo chão quase imperceptíveis vão-nos saciando a sede até ao dia em que a fonte secar. O meio caminho vai no início e ainda tem muito mais que metade para nos dar.
As árvores agitam-se entre as paredes que formam o espaço sensitivo. Dão vida ao cenário pintado no caminho da mestria. O todo ganha espaço, liberdade para tentar aperfeiçoar o voo, pequenas penas vão crescendo até planarem serenamente sobre céu que se expande. Algures o tempo corre como água numa fonte cristalina e misteriosa, o caminho é longo e cada passo é menos custoso. Pequenos fios de água pelo chão quase imperceptíveis vão-nos saciando a sede até ao dia em que a fonte secar. O meio caminho vai no início e ainda tem muito mais que metade para nos dar.
COISAS A FAZER AINDA ESTE ANO
Sodomizar os sete anões!
Agarrar num punhado de pregos e pregá-los dum só arremesso!
Correr nú pela cidade com a minha bagagem carnal e pesada!
Limpar o cu depois de cagar, com folha de lixa da grossa!
Lamber o chão para sentir o seu localizado sabor!
Ouvir a mais detestável das músicas!
Matar umas quantas pessoas com uma caneta bic!
Coçar os ouvidos e tirar a mais consistente das ceras para assim construir quatro palácios imperiais!
Cagar ininterruptamente para um dia alpinistas escalarem o ponto mais alto do mundo!
Tirar macacos do nariz e deitá-los para uma jaula à sua medida!
Agarrar num punhado de pregos e pregá-los dum só arremesso!
Correr nú pela cidade com a minha bagagem carnal e pesada!
Limpar o cu depois de cagar, com folha de lixa da grossa!
Lamber o chão para sentir o seu localizado sabor!
Ouvir a mais detestável das músicas!
Matar umas quantas pessoas com uma caneta bic!
Coçar os ouvidos e tirar a mais consistente das ceras para assim construir quatro palácios imperiais!
Cagar ininterruptamente para um dia alpinistas escalarem o ponto mais alto do mundo!
Tirar macacos do nariz e deitá-los para uma jaula à sua medida!
quinta-feira, maio 10
segunda-feira, maio 7
OCCULTA PECTORIS SEDITIOSA
Viajo pela alma
Como poeira que levita com o vento
Solto-me de rédeas pesadas
Do peso pesado pelo Tempo
Canto uma melodia desconhecida
Uma ária perpetuada pela noite
Nos meus dedos
Uma fragrância, um cheiro a Sentimento
Uma procura necessária pelo Belo…
No meu peito
Um batimento descompassado
O Sonho que não passa de sonho
Uma Esperança que não passa de esperança
Um desalento com tudo o que passa ao lado
Na minha mão
Uma Força, um apelo
Uma Voz, um pesadelo
Um rio que não corre para o mar
Um poema que nada diz
A quem nada quer entender
E assim, sofro, por ver sofrer
E sofro, por ver querer sofrer
E sofro, pela inexistência dum eco
Eco das almas de outros cantos
(Fragmentos dispersos no ser
Pedaços estilhaçados pelas bombas
Pelas bombas do atarantado viver)
A desistência, por vezes é bela
Quando desistir é irremediavelmente sorrir
E se sorrir é necessário
É tanto quanto fugir
E assim a Beleza perdeu-se… é agora outra,
Ficou para trás
É agora um corpo etéreo, como sempre
Fácil de manusear
É uma fuga constante
Incessante, é uma bola-pequena-brilhante…
E o brilho ofusca a Esperança
E a Esperança esconde-se sob a capa do não-querer
E os homens perdem-se na verosimilhança
Na verdade que é esconder!
É isto… o belo o sonho
Os sonhos
É isto que nos reserva orgulhos medonhos!
Eu não fujo, mas sonho
Eu não me escondo, mas vivo
Farto de viver, como enganado
Sonhador
Escondido!
Arreei a minha capa
Entreguei-a como beleza
Fiz peito, dei azo à minha natureza
Sorri de querer ver outros sorrisos
E assim
A Esperança e o Belo redimiram-se
Desistiram de ser meras palavras!...
Como poeira que levita com o vento
Solto-me de rédeas pesadas
Do peso pesado pelo Tempo
Canto uma melodia desconhecida
Uma ária perpetuada pela noite
Nos meus dedos
Uma fragrância, um cheiro a Sentimento
Uma procura necessária pelo Belo…
No meu peito
Um batimento descompassado
O Sonho que não passa de sonho
Uma Esperança que não passa de esperança
Um desalento com tudo o que passa ao lado
Na minha mão
Uma Força, um apelo
Uma Voz, um pesadelo
Um rio que não corre para o mar
Um poema que nada diz
A quem nada quer entender
E assim, sofro, por ver sofrer
E sofro, por ver querer sofrer
E sofro, pela inexistência dum eco
Eco das almas de outros cantos
(Fragmentos dispersos no ser
Pedaços estilhaçados pelas bombas
Pelas bombas do atarantado viver)
A desistência, por vezes é bela
Quando desistir é irremediavelmente sorrir
E se sorrir é necessário
É tanto quanto fugir
E assim a Beleza perdeu-se… é agora outra,
Ficou para trás
É agora um corpo etéreo, como sempre
Fácil de manusear
É uma fuga constante
Incessante, é uma bola-pequena-brilhante…
E o brilho ofusca a Esperança
E a Esperança esconde-se sob a capa do não-querer
E os homens perdem-se na verosimilhança
Na verdade que é esconder!
É isto… o belo o sonho
Os sonhos
É isto que nos reserva orgulhos medonhos!
Eu não fujo, mas sonho
Eu não me escondo, mas vivo
Farto de viver, como enganado
Sonhador
Escondido!
Arreei a minha capa
Entreguei-a como beleza
Fiz peito, dei azo à minha natureza
Sorri de querer ver outros sorrisos
E assim
A Esperança e o Belo redimiram-se
Desistiram de ser meras palavras!...
NADA PARA DIZER
Há dias assim!
Que não se sabe o que escrever
Mas por alguma razão mais forte
Não conseguimos parar de o fazer...
Hoje é um desses dias
Em que me apetece escrever,
Escrever e escrever...
Mesmo não tendo nada para dizer!
As palavras não interessam,
O que interessa é escrever!
Não procuro nenhum sentido.
Nem nenhuma lógica,
Apenas me sinto escrever!
Não sei o que dizer
Não sei que fazer
E por isso mesmo me encontro a escrever!
É estúpida esta vontade,
É inútil a escrita, absurda demais,
Mas que posso eu fazer
Quando nada mais consigo
Do que escrever
Assim me encontro…
Ando às voltas e abandono tudo
Para simplesmente escrever!
Assim sou, assim somos…
Uma repetição enfadonha…
Escrever! Escrever! Escrever!
Escrever e Escrever!
Escrever para me (não) sentir viver…
Que não se sabe o que escrever
Mas por alguma razão mais forte
Não conseguimos parar de o fazer...
Hoje é um desses dias
Em que me apetece escrever,
Escrever e escrever...
Mesmo não tendo nada para dizer!
As palavras não interessam,
O que interessa é escrever!
Não procuro nenhum sentido.
Nem nenhuma lógica,
Apenas me sinto escrever!
Não sei o que dizer
Não sei que fazer
E por isso mesmo me encontro a escrever!
É estúpida esta vontade,
É inútil a escrita, absurda demais,
Mas que posso eu fazer
Quando nada mais consigo
Do que escrever
Assim me encontro…
Ando às voltas e abandono tudo
Para simplesmente escrever!
Assim sou, assim somos…
Uma repetição enfadonha…
Escrever! Escrever! Escrever!
Escrever e Escrever!
Escrever para me (não) sentir viver…
sábado, maio 5
MEMÓRIA ANTECIPADA
Hoje por força da vontade inesperada que me acordou, decidi dar corda com comprimento suficiente para puxar as lembranças de infância como quem puxa água de um poço. Um poço que ainda não é muito fundo, mas como o tempo rola não há grande tempo, nem profundidade suficiente, para alcançar esse fundo que é tão estimulado pelo jogo das circunstâncias e coincidências que dá rodinhas à gigantesca máquina em que se tornou a sociedade de hoje amanhã e sabe-se lá mais quanto tempo. Avivado por não-sei-o-quê concretamente, senti em mim uma força enorme de agir perante um tumulto, o tumulto do espírito, a luta incessante contra as tropas da razão que nos foi dada como prenda de natal, a destruição com as amarras da prosaica vivência.
Não acordei nada cedo. O costume.
Um bafo sonolento dispersava-se pelo quarto como nevoeiro de verão, era esse o ar que se respirava, como se a cama tivesse umas presas plumadas e macias que me impedissem de sair dela com a maior das naturalidades. O sol, lá fora, aproveitando as frinchas existentes, demonstrava a sua força, denotando na luz o seu orgulho, o orgulho de quem cada vez mais se aproxima de tudo quanto pode. Abro a persiana. Os carros passam a escassos metros da minha tela para o mundo, não os vejo, mas ouve-se bem a sua voz violenta e incomodativa.
«Belo dia!»
Depois de comer, ruminar, colar ao computador, coçar-me, tomar banho e ruminar mais um bocadito, decidi deixar-me levar pela tal vontade inesperada de que falo.
Ao sair da minha porta encontrei uma familiar que já não havia há coisa de um ano, mais coisa menos coisa, a minha Prima; fiquei sem dúvida surpreendido, mas não muito, devido a relatos de meus conhecidos que a viram um dia destes e me disseram que estava fresca e jovial como sempre. Nem sei que idade Ela deve ter, mas penso que já deve ter uns quantos anos. Contava-me histórias do tempo em que os antigos egípcios estavam de pé, e isso é sem dúvida alguma motivo para colocá-la nessa época da história; hipoteticamente deve ter nascido no tempo em que o império se começou a desmoronar. Como nunca me disse a idade, reconhecendo ela que é acto de mulher que se preze e que a uma mulher nunca se deve perguntar a idade, qualquer hipótese remota que possa dar percebas quanto à sua temporalidade é sempre motivo para ser colocada como possibilidade.
Adiante.
Disse-lhe olá sem falar, apenas um sorriso de contentado. A sua luminosidade era tanta que tive que pôr os óculos para conseguir ver os seus contornos. Sorriu-me, com aquele sorriso de quem ri de tudo para tudo.
Nada me disse.
Com a imponência do querer ver, consegui convencê-la a acompanhar-me sem me esforçar muito. Os seus passos eram suaves. Os seus movimentos fluidos como o escasso vento que lambe cara e pescoço. A sua presença era como o nevoeiro de éter, alma sem corpo, só espírito e subtileza vital.
Os carros continuaram a passar, faziam-se ouvir quebrando o silêncio da minha prima que só vejo uma vez por ano; mas no entanto, o silêncio continuava a persistir, fragmentado, mas sempre ali, entre as concavidades dos barulhos do subúrbio. A persistência motivada pela sua etérea presença esbatia cores sobre os barulhos a agitação e sobre tudo o que dá forma ao desenrolar dum dia da semana, dando ao dia um aspecto surpreendente e minimamente reconfortante. Acompanhou-me até ao final do meu passeio pela rua da memória. Sempre fechada em si, na sua beleza, para demonstrar a sua graciosidade.
Pelo caminho, talvez no autocarro, apercebi-me do porquê da vontade inesperada. Acho que foi aí que percebi o quão divinal poderia ser a tarde. No sítio mais inesperado deparo-me com este raciocínio, esta conclusão orientada, como quem recebe um soco sem luva. O soco pôs-me mais atento como quem escrutina tudo para conseguir fugir de um futuro. Atento. Embriagado pela ambiência proporcionada por uns singelos e fiados raios de sol no meu quarto, ambiência mínima que foi crescendo ao ritmo das conclusões circunstanciais, lá estava eu já fora do autocarro, de passo determinado, com leveza de espírito suficiente para escorregar, inocentemente, entre as superfícies áridas e ásperas da calçada gasta pelas calcadelas apressadas do tempo. Fora do meu corpo, as recordações amplificadas pelo estado em que me sentia abstraíram-me de todas as estruturas habituais. A estrutura era agora só uma. Não era eu, não era a minha prima, nem tão pouco tudo o que me rodeava: era tudo isso e muito mais numa bela singularidade triangular.
De repente encontrava-me entre as muralhas da memória da minha infância. Dentro daquela área eu era de novo criança, tinha menos de cinco anos. Ali, naquele espaço limitado pela inocência dos velhos outros tempos vindouros, senti-me de novo pequeno. Uma pequenez tacanha mas bem recordada… As ruas estavam iguais. As casas iguais estavam. O céu estava à mesma distância, à distância duma vontade. Com passos curtos fui embrenhando num farto tufo de algodão. A cada passo sentia menos o chão como se começasse a levantar voo. De repente estava perdido, a estrada da minha infância já não existia, consequentemente tive de voltar para trás para retomar o passo curto. O percurso era íngreme, quanto mais descia mais alto me sentia. O sentimento era cada vez mais bruto e puro. Memórias do bairro que surgia sob os meus olhos brilhantes percorriam-me o cérebro a uma velocidade confusa e espantosa…
Sons estridentes eram o pão-nosso de cada dia, eram o pão amassado pelo diabo que alimentava muitos seres embrutecidos pela irresponsabilidade de viver. O bairro era grande e sobrepovoado. As casas, de apenas três ou quatro divisões escondiam e debitavam os berros abafados de quem lá vivia. Mas no entanto eram o palco exterior das minhas brincadeiras maravilhosas de que tanto tenho saudade. Tenho, agora que penso, saudades de Tânia, a minha extinta e fiel companhia de brincadeira. Das festas de anos em que a mesa era um tanque de cimento armado com uma tábua de madeira. Saudades do Pata Descalça, que por muito que o obrigassem a calçar e lhe dessem sapatilhas novas andava sempre descalço; fosse por onde fosse, pelo paralelo frio, pela terra quente ou pelos montes agrestes que espaçavam o vão de escadas que não eram mais do que casas. Bem lá distantes os pneus sem jante que rolavam sobre o chão empurrados por um pau qualquer encontrado pelo bairro. As bolas de borracha hiper saltitantes que teimavam em fugir das mãos dando uma vontade ainda maior de as apanhar. A voz amplificada da minha mãe, que ressoava na arquitectural configuração bairrística, na hora duma refeição ou do recolher anoitecido. O barulho das bolas a bater nas garagens naquela rampa íngreme a que chamávamos de campo da bola. Saudades da peixeira que passava com a sua voz grossa de bom som a apregoar peixe fosse qual ele fosse. Da família de ciganos que atirava o pequeno-almoço do terceiro andar ao seu filho que se encontrava a uma distância de vinte ou trinta metros no recreio da escola que ficava do outra lado da rua íngreme da casa da minha avó. Do gato da minha avó de nome Tareco que sorrateiramente se enfiava debaixo do cobertor para nos aquecer e aveludar os pés; saudades dos banhos de bacia e de água aquecida pelo fogão jorrada enternecedoramente sobre os meus caracóis dourados; de ouvir a chuva bater harmoniosamente sobre os telhados de chapa e acrílico que davam forma à casa da minha avó. De ir à fonte da rija beber água pelo simples prazer inocente de beber água da fonte. Dos campos de milho onde se ia buscar o vinho doce para os adultos e entretanto se roubavam espigas para desespero dos donos dos milheirais; das correrias frenéticas como quem foge dos donos que viram roubar as espigas...
23 de março, 2007
Não acordei nada cedo. O costume.
Um bafo sonolento dispersava-se pelo quarto como nevoeiro de verão, era esse o ar que se respirava, como se a cama tivesse umas presas plumadas e macias que me impedissem de sair dela com a maior das naturalidades. O sol, lá fora, aproveitando as frinchas existentes, demonstrava a sua força, denotando na luz o seu orgulho, o orgulho de quem cada vez mais se aproxima de tudo quanto pode. Abro a persiana. Os carros passam a escassos metros da minha tela para o mundo, não os vejo, mas ouve-se bem a sua voz violenta e incomodativa.
«Belo dia!»
Depois de comer, ruminar, colar ao computador, coçar-me, tomar banho e ruminar mais um bocadito, decidi deixar-me levar pela tal vontade inesperada de que falo.
Ao sair da minha porta encontrei uma familiar que já não havia há coisa de um ano, mais coisa menos coisa, a minha Prima; fiquei sem dúvida surpreendido, mas não muito, devido a relatos de meus conhecidos que a viram um dia destes e me disseram que estava fresca e jovial como sempre. Nem sei que idade Ela deve ter, mas penso que já deve ter uns quantos anos. Contava-me histórias do tempo em que os antigos egípcios estavam de pé, e isso é sem dúvida alguma motivo para colocá-la nessa época da história; hipoteticamente deve ter nascido no tempo em que o império se começou a desmoronar. Como nunca me disse a idade, reconhecendo ela que é acto de mulher que se preze e que a uma mulher nunca se deve perguntar a idade, qualquer hipótese remota que possa dar percebas quanto à sua temporalidade é sempre motivo para ser colocada como possibilidade.
Adiante.
Disse-lhe olá sem falar, apenas um sorriso de contentado. A sua luminosidade era tanta que tive que pôr os óculos para conseguir ver os seus contornos. Sorriu-me, com aquele sorriso de quem ri de tudo para tudo.
Nada me disse.
Com a imponência do querer ver, consegui convencê-la a acompanhar-me sem me esforçar muito. Os seus passos eram suaves. Os seus movimentos fluidos como o escasso vento que lambe cara e pescoço. A sua presença era como o nevoeiro de éter, alma sem corpo, só espírito e subtileza vital.
Os carros continuaram a passar, faziam-se ouvir quebrando o silêncio da minha prima que só vejo uma vez por ano; mas no entanto, o silêncio continuava a persistir, fragmentado, mas sempre ali, entre as concavidades dos barulhos do subúrbio. A persistência motivada pela sua etérea presença esbatia cores sobre os barulhos a agitação e sobre tudo o que dá forma ao desenrolar dum dia da semana, dando ao dia um aspecto surpreendente e minimamente reconfortante. Acompanhou-me até ao final do meu passeio pela rua da memória. Sempre fechada em si, na sua beleza, para demonstrar a sua graciosidade.
Pelo caminho, talvez no autocarro, apercebi-me do porquê da vontade inesperada. Acho que foi aí que percebi o quão divinal poderia ser a tarde. No sítio mais inesperado deparo-me com este raciocínio, esta conclusão orientada, como quem recebe um soco sem luva. O soco pôs-me mais atento como quem escrutina tudo para conseguir fugir de um futuro. Atento. Embriagado pela ambiência proporcionada por uns singelos e fiados raios de sol no meu quarto, ambiência mínima que foi crescendo ao ritmo das conclusões circunstanciais, lá estava eu já fora do autocarro, de passo determinado, com leveza de espírito suficiente para escorregar, inocentemente, entre as superfícies áridas e ásperas da calçada gasta pelas calcadelas apressadas do tempo. Fora do meu corpo, as recordações amplificadas pelo estado em que me sentia abstraíram-me de todas as estruturas habituais. A estrutura era agora só uma. Não era eu, não era a minha prima, nem tão pouco tudo o que me rodeava: era tudo isso e muito mais numa bela singularidade triangular.
De repente encontrava-me entre as muralhas da memória da minha infância. Dentro daquela área eu era de novo criança, tinha menos de cinco anos. Ali, naquele espaço limitado pela inocência dos velhos outros tempos vindouros, senti-me de novo pequeno. Uma pequenez tacanha mas bem recordada… As ruas estavam iguais. As casas iguais estavam. O céu estava à mesma distância, à distância duma vontade. Com passos curtos fui embrenhando num farto tufo de algodão. A cada passo sentia menos o chão como se começasse a levantar voo. De repente estava perdido, a estrada da minha infância já não existia, consequentemente tive de voltar para trás para retomar o passo curto. O percurso era íngreme, quanto mais descia mais alto me sentia. O sentimento era cada vez mais bruto e puro. Memórias do bairro que surgia sob os meus olhos brilhantes percorriam-me o cérebro a uma velocidade confusa e espantosa…
Sons estridentes eram o pão-nosso de cada dia, eram o pão amassado pelo diabo que alimentava muitos seres embrutecidos pela irresponsabilidade de viver. O bairro era grande e sobrepovoado. As casas, de apenas três ou quatro divisões escondiam e debitavam os berros abafados de quem lá vivia. Mas no entanto eram o palco exterior das minhas brincadeiras maravilhosas de que tanto tenho saudade. Tenho, agora que penso, saudades de Tânia, a minha extinta e fiel companhia de brincadeira. Das festas de anos em que a mesa era um tanque de cimento armado com uma tábua de madeira. Saudades do Pata Descalça, que por muito que o obrigassem a calçar e lhe dessem sapatilhas novas andava sempre descalço; fosse por onde fosse, pelo paralelo frio, pela terra quente ou pelos montes agrestes que espaçavam o vão de escadas que não eram mais do que casas. Bem lá distantes os pneus sem jante que rolavam sobre o chão empurrados por um pau qualquer encontrado pelo bairro. As bolas de borracha hiper saltitantes que teimavam em fugir das mãos dando uma vontade ainda maior de as apanhar. A voz amplificada da minha mãe, que ressoava na arquitectural configuração bairrística, na hora duma refeição ou do recolher anoitecido. O barulho das bolas a bater nas garagens naquela rampa íngreme a que chamávamos de campo da bola. Saudades da peixeira que passava com a sua voz grossa de bom som a apregoar peixe fosse qual ele fosse. Da família de ciganos que atirava o pequeno-almoço do terceiro andar ao seu filho que se encontrava a uma distância de vinte ou trinta metros no recreio da escola que ficava do outra lado da rua íngreme da casa da minha avó. Do gato da minha avó de nome Tareco que sorrateiramente se enfiava debaixo do cobertor para nos aquecer e aveludar os pés; saudades dos banhos de bacia e de água aquecida pelo fogão jorrada enternecedoramente sobre os meus caracóis dourados; de ouvir a chuva bater harmoniosamente sobre os telhados de chapa e acrílico que davam forma à casa da minha avó. De ir à fonte da rija beber água pelo simples prazer inocente de beber água da fonte. Dos campos de milho onde se ia buscar o vinho doce para os adultos e entretanto se roubavam espigas para desespero dos donos dos milheirais; das correrias frenéticas como quem foge dos donos que viram roubar as espigas...
23 de março, 2007
quarta-feira, abril 25
ODE À LIBERDADE

Hoje, dia 25 de abril de 2007, comemora-se uma liberdade pela qual se lutou que não a de hoje, sendo assim, e em jeito de "comemoração", deixo aqui uma música desse nunca falecido senhor que é José Afonso.
A CIDADE
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
quarta-feira, abril 18
sábado, abril 7
4306
Quatro e trinta e seis da manhã. Ouço um estrondo metálico. Acabo de fazer o que estava a fazer. Vou espreitar a janela aberta por causa do fumo de cigarro. Lá fora, um homem encostado a um poste em pose de quem mija para ele, começa a andar de repente; encosta a mão à parede em pose de indisposição e desespero. Parece estar bêbado, tenho quase a certeza que o está. Prossegue a passo trôpego, vai parando, barafustando, bamboleando doentiamente o corpo como quem se tenta soltar de algo. Gesticula com os braços. Pára de novo em frente a um segundo poste depois de se encostar à parede umas três vezes como quem ampara um desabamento. Prossegue. Bate surpreendido contra um terceiro; diz-lhe qualquer coisa; pára, oscilante, dobra a esquina, perde-se para lá desta minha sensação nocturna...
quarta-feira, abril 4
ADEUS! (OUTROS DIAS VIRÃO...)
Inquietação, sufocante, a de ouvir sofrer
O canto rouco consequência do viver,
Fim de linha para a sapiência
Vontade suplicante de ouvir
Melodia suave-agir,
O toque melódico da ninfa
A grandiosa Ninfa-da-Solidão…
Toque rasgado no coração, desesperado
Atónito, pedaço da minha vida;
Campainha que toca, estridentemente
Que ressoa em campânulas atentas
A gritar um S.O.S., uma impossibilidade
Uma contrariedade
-quero-te, sem te poder querer.
O canto rouco consequência do viver,
Fim de linha para a sapiência
Vontade suplicante de ouvir
Melodia suave-agir,
O toque melódico da ninfa
A grandiosa Ninfa-da-Solidão…
Toque rasgado no coração, desesperado
Atónito, pedaço da minha vida;
Campainha que toca, estridentemente
Que ressoa em campânulas atentas
A gritar um S.O.S., uma impossibilidade
Uma contrariedade
-quero-te, sem te poder querer.
segunda-feira, abril 2
CÃO EUFÉMICO
Às vezes apetece-me ser cão
Para esquecer o cão que sou
Lamber o pêlo sujo
De me esfregar no chão:
Ficar limpo e Viver!
O que é pena, é ser só sonho!...
Sonho de cão, cão raivoso
Com que ladra mas não ferra
Cão que sonha com o osso
Osso que esconde, como um cão.
Quem vai à “guerra” dá e leva!
Como cão (também) é assim,
E se cão a cão ferrasse
Certa raça teria fim!
Para esquecer o cão que sou
Lamber o pêlo sujo
De me esfregar no chão:
Ficar limpo e Viver!
O que é pena, é ser só sonho!...
Sonho de cão, cão raivoso
Com que ladra mas não ferra
Cão que sonha com o osso
Osso que esconde, como um cão.
Quem vai à “guerra” dá e leva!
Como cão (também) é assim,
E se cão a cão ferrasse
Certa raça teria fim!
CONFISSÕES

Procuro raramente pôr no papel aquilo que é dado como belo. Não porque não goste da beleza, mas tão só e apenas porque acho que o belo é-me reservado. Não é preciso criar beleza daquilo que é belo por si só, e que, a meu ver, é mais que suficiente para me tornar num ser que respira e faz aquilo que quer. Prosseguindo. Vejo naquilo que escrevo uma certa desolação com o presente. Releio sempre o que escrevo e a meu ver são verdadeiras obras primas. O que os outros pensam de depreciativo em relação à minha forma de expressão, é para mim uma fonte de deleito e satisfação. Consegui impôr o meu ritmo, o desconforto, consegui que parássem mais um pouco para pensar, sem se camuflarem em
"tudo o que de bom tem a vida"
Seguindo em frente. Hoje em dia, há uma preocupação muito grande em ser feliz idilicamente, como se tal parafernália fosse a desculpa para a merda que nos rodeia, como se tudo isso fosse areia atirada por nós mesmos para os olhos que são nossos.
"só é cego aquele que não quer ver"
E se por vezes cego pareço, não é porque não saiba dar valor a
"tudo o que de bom tem a vida"
mas simplesmente porque não tenho medo de exprimir o meu descontentamento. Poder-se-á dizer que isso é
"bater no ceguinho"
e vendo bem talvez seja... é do género:
«ó ceguinho acorda! acorda!»
Não tenho pena dos que querem à força toda desviar o olhar de tudo aquilo que é grotesco, nada disso, é mais do tipo: tenho pena de tentarem formular uma opinião apoindo-se em meras suposições que não fazem sentido nenhum enquanto pessoa que sou. Uns, compreendem uma dor imensa, em vez de compreenderam uma forma de exprimir cristalizada pela vontade. outros, uma espécie de peditório por algo que cada vez menos procuro. Nada disso me consome, muito menos me é compreendido como algo que me atormente, somente acho que tal tentativa de compreensão é tentativa em vão.
«Não me sinto na escrita como homem que sou em vivência. Na escrita, sinto uma enorme vontade de depositar a esperança. Nas pessoas, eu incluído, sinto insuficiente esperança que necessita de ser fortificada pela palavra, sinto as pessoas com um pesado nó na garganta apertado pelo medo de exprimir aquilo que sentem e querem, verdadeiramente, em relação à vivência.»
Para concluír, e para
"tudo o que de bom tem a vida"
Seguindo em frente. Hoje em dia, há uma preocupação muito grande em ser feliz idilicamente, como se tal parafernália fosse a desculpa para a merda que nos rodeia, como se tudo isso fosse areia atirada por nós mesmos para os olhos que são nossos.
"só é cego aquele que não quer ver"
E se por vezes cego pareço, não é porque não saiba dar valor a
"tudo o que de bom tem a vida"
mas simplesmente porque não tenho medo de exprimir o meu descontentamento. Poder-se-á dizer que isso é
"bater no ceguinho"
e vendo bem talvez seja... é do género:
«ó ceguinho acorda! acorda!»
Não tenho pena dos que querem à força toda desviar o olhar de tudo aquilo que é grotesco, nada disso, é mais do tipo: tenho pena de tentarem formular uma opinião apoindo-se em meras suposições que não fazem sentido nenhum enquanto pessoa que sou. Uns, compreendem uma dor imensa, em vez de compreenderam uma forma de exprimir cristalizada pela vontade. outros, uma espécie de peditório por algo que cada vez menos procuro. Nada disso me consome, muito menos me é compreendido como algo que me atormente, somente acho que tal tentativa de compreensão é tentativa em vão.
«Não me sinto na escrita como homem que sou em vivência. Na escrita, sinto uma enorme vontade de depositar a esperança. Nas pessoas, eu incluído, sinto insuficiente esperança que necessita de ser fortificada pela palavra, sinto as pessoas com um pesado nó na garganta apertado pelo medo de exprimir aquilo que sentem e querem, verdadeiramente, em relação à vivência.»
Para concluír, e para
"não fugir com o cu à seringa"
direi com todas as certezas possíveis e encontradas que sou alguém feliz. Posso não o ser, sob o olhar de alguém prosaico, habituado à rotina que dá a cara por muitos homens, posso não corresponder aos moldes que foram projectados coerentemente pelos séculos, milénios, por aí fora, mas sou feliz comigo e para mim e isso ninguém me tira; a razão - que-não-razão - é simples:
«Procuro uma felicidade que não existe e essa procura faz-me sentir feliz, comigo próprio.»
quinta-feira, março 29
O CANTO SURDO DE UM MUDO NUMA NOITE CHUVOSA DE INVERNO!
Neste meu canto humedecido pelo céu povoado de nuvens que lá fora se constrangem, prossigo a minha odisseia pelo mundo em que vivo, vou vivendo o momento de um mundo que se auto-destroi e corrompe pelas circunstâncias em que as vivências se tornaram. Porque que te destróis ó homem da sabedoria que é demência plausível? Onde anda o sonho transpirado pelos poros desse teu cérebro cansado de tudo o que constróis à tua volta? Ó mundo sobrepovoado de morte e de ganância, porquê que um homem só no seu quarto como o meu se arrasta em pensamentos contraditórios em relação ao estilo de vida que leva? Vou à cozinha e dou um gole num massificado refrigerante que dentro de mim vai roendo o canceroso estômago entorpecido de merdas. Olho para a parede branca e lisa e vejo o destino de tudo aquilo que me rodeia, vejo o nada, a longa caminhada pelo nada, por tudo aquilo que não nos preenche, tudo aquilo que nos torna azedos como um metafórico limão. Mundo cruel é este em que respiramos. É o mundo da guerra eterna pela felicidade, que se vai resumindo a uma ilusória felicidade simbolizada e encarcerada pelos campos de batalha que infelizmente são tão reais; mundo que vive do sangue escurecido e sujo pela tinta impregnada numa nota. Tudo se resume a isso, à ilusão de que a vida se vive com dinheiro e que tudo o resto sem ele não é mais do que uma preguiça notória de quem tenta viver à custa dos outros. O cansaço consome-nos o corpo, o corpo não mais se sente vivo, é apenas o cadáver que repousa sobre a areia quente dum deserto global; a vida deixa de ser vivida, só nos resta a sobrevivência impregnada de multiplicadas oportunidades artificiais; a sobrevivência de que falo não faz sentido; pelo tapete longo que é a superfície da terra, outras formas de sobrevivência ainda mais sofrida fazem-se ouvir, sofrem porque querem mais, querem tudo aquilo de todos nós que sofremos por demais, querem porque não têm, porque não vêem outras formas de querer, querem porque ter o que temos é um sonho impingido, é uma lavagem incutida pelas mãos do homem abstracto que fez o mundo, pelo deus, deus desses seres minúsculos que somos como homens, o senhor-deus da supremacia dos tempos e das tempestades ornamentadas pelo sangue coagulado dos seus filhos.
03/01/07
03/01/07
PENSAMENTO DE UMA TARDE DE PRIMAVERA
A humidade sovaquiana serve de condição artificial para o aparecimento de cogumelos urbanísticos.
domingo, março 25
TOXICODEPENDÊNCIA

Arrastam-se como cobras
Amolgam-se como chapas de um chapeiro citadino
Prolongam-se em chamas crepitantes
Apodrecendo obscuramente o seu perpétuo caminho.
Coçam-se, comicham-se, vão se destruindo
Em peregrinações constantes ao pesadelo.
Roubam, como todos nós
Talvez duma forma mais directa,
Perdem-se como nós
Mas numa aparência mais concreta;
Desfigurados pelo reflexivo tempo
Congeminam uma vontade única:
Mutilação com agulhas e simples garrafas de plástico…
Pergunto-me por que o fazem,
Pergunto porque somos assim
E embora não encontre uma resposta em concreto
Uma abstracta apareceu…
São assim porque assim somos,
Filhos da vontade que nossa não parece individualmente
Aos pais duma vontade colectiva que nos desfigura;
Somos uma parte de um todo
Um todo real e que é tão nosso
Que por muito injustificável que pareça
É a razão da peregrinação…
Não se justifica tal afunilamento
Não se justifica a apatia de ver a vida como ela é
Talvez por isso se quedem em garrafas adulteradas
Talvez assim se esqueçam da vida estúpida que levam…
São vidas, são opções insensatas na abismal estupidez
Que é apenas fruto da estupidez colectiva!
Amolgam-se como chapas de um chapeiro citadino
Prolongam-se em chamas crepitantes
Apodrecendo obscuramente o seu perpétuo caminho.
Coçam-se, comicham-se, vão se destruindo
Em peregrinações constantes ao pesadelo.
Roubam, como todos nós
Talvez duma forma mais directa,
Perdem-se como nós
Mas numa aparência mais concreta;
Desfigurados pelo reflexivo tempo
Congeminam uma vontade única:
Mutilação com agulhas e simples garrafas de plástico…
Pergunto-me por que o fazem,
Pergunto porque somos assim
E embora não encontre uma resposta em concreto
Uma abstracta apareceu…
São assim porque assim somos,
Filhos da vontade que nossa não parece individualmente
Aos pais duma vontade colectiva que nos desfigura;
Somos uma parte de um todo
Um todo real e que é tão nosso
Que por muito injustificável que pareça
É a razão da peregrinação…
Não se justifica tal afunilamento
Não se justifica a apatia de ver a vida como ela é
Talvez por isso se quedem em garrafas adulteradas
Talvez assim se esqueçam da vida estúpida que levam…
São vidas, são opções insensatas na abismal estupidez
Que é apenas fruto da estupidez colectiva!
MESTRES NO TRABALHO
As rodas cantam a música
de lés a lés
latitude e longitude
sincronizadas pelo som do
glaciar
pela melodia árida do
Tempo
Almoço uma sandes
uma bifana,
uma refeição sob o tolde
sujo do Meio-dia:
Descanso da inércia
rodeado de belos cães
esfomeados.
Uma espera indefinida
dura esta vida,
a do jogo de reflexos que multiplica
as diversas imagens,
que dá forma materializada ao viver
à campânula dourada, ilusória
ao imenso deserto
sobrelotado de engenhos
Aglutinação fria de pessoas
numa ampla sala de corpos inanimados
conjugação apática de respirares
mortos: o suster incessante na obrigação do ser.
de lés a lés
latitude e longitude
sincronizadas pelo som do
glaciar
pela melodia árida do
Tempo
Almoço uma sandes
uma bifana,
uma refeição sob o tolde
sujo do Meio-dia:
Descanso da inércia
rodeado de belos cães
esfomeados.
Uma espera indefinida
dura esta vida,
a do jogo de reflexos que multiplica
as diversas imagens,
que dá forma materializada ao viver
à campânula dourada, ilusória
ao imenso deserto
sobrelotado de engenhos
Aglutinação fria de pessoas
numa ampla sala de corpos inanimados
conjugação apática de respirares
mortos: o suster incessante na obrigação do ser.
sábado, março 17
PENSAMENTO DO DIA DE ONTEM
Já peguei em quinhentas mil novecentas e trinta e sete secretárias e é com muito pesar que não posso pegar em todas, principalmente nas secretárias naturalmente apetecíveis.
segunda-feira, março 12
RIO CURIOSO
Vimos por este meio pedir
a todos vós um segundo
que este não seja o dever
que se anuncia ao mundo
Somos mais muito mais que o parafuso
é decerto um exagero
já que pensar nestes dias é um abuso
que se paga em desespero
Já lá vai a guilhotina
e nem é caso para tanto
agora a dor corta mais fino
e depois, poupa-se um santo
Vimos sem freios
vimos agora dizer que está podre o reinado
que por mais voltas e revoltas que se der
não passamos do teu gado
Quando nos roubam o sorriso
quando nos enchem os ouvidos
quando nos mostram o paraíso
esfomeados
cobiçam-nos logo os sentidos
Chegai ó deuses cá da terra
vinde ao menos saber
se os que vivem lá na serra
estão prontos para morrer
Haja uma luz, uma estrela que nos aponte
quando perdidos no horizonte
esperando que depois de morta a manhã fria
depois da noite chegue o dia
Como um rio curioso,
fervilhando ao luar,
procura o mar que é sempre um leito carinhoso
onde possa descansar.
TROVANTE (no seu melhor!)
a todos vós um segundo
que este não seja o dever
que se anuncia ao mundo
Somos mais muito mais que o parafuso
é decerto um exagero
já que pensar nestes dias é um abuso
que se paga em desespero
Já lá vai a guilhotina
e nem é caso para tanto
agora a dor corta mais fino
e depois, poupa-se um santo
Vimos sem freios
vimos agora dizer que está podre o reinado
que por mais voltas e revoltas que se der
não passamos do teu gado
Quando nos roubam o sorriso
quando nos enchem os ouvidos
quando nos mostram o paraíso
esfomeados
cobiçam-nos logo os sentidos
Chegai ó deuses cá da terra
vinde ao menos saber
se os que vivem lá na serra
estão prontos para morrer
Haja uma luz, uma estrela que nos aponte
quando perdidos no horizonte
esperando que depois de morta a manhã fria
depois da noite chegue o dia
Como um rio curioso,
fervilhando ao luar,
procura o mar que é sempre um leito carinhoso
onde possa descansar.
TROVANTE (no seu melhor!)
PROCISSÃO DE SANTA BEBIANA
Já comi e já bebi
Já molhei minha garganta
Eu sou como o roxinal
Quando bebe logo canta
Rapazes quando eu morrer
Levai-me devagarinho
Na campa deitai-me àgua
Por cima deitai-me vinho
Um e um são dois - quem tem vacas espera bois
Dois e um são três - ainda cá volto outra vez
À porta do St. António
Está um ramo de loureiro
É uma pouca vergonha
Fazer do santo tasqueiro
Hei-de morrer numa adega
Um tonel ser meu caixão
Hei-de levar de mortalha
Um copo cheio na mão
Dois e dois são quatro - bela carne tem o pato
Três e dois são cinco - vai do branco se não há tinto
O vinho é coisa boa
Nascido da cepa torta
A uns faz perder o tino
Outros faz perder a porta
Se um dia perder a porta
Seja com tal desatino
Que vá dar a um lugar
Onde se venda bom vinho
Três e três são seis - posto Natal vêm os Reis
Quatro e três são sete - quem não pode não promete
O vinho mata tristezas
A água cria lombrigas
Quando vejo vinho puro
Peço a Deus sete barigas
Minha avó quando morreu
Levou palma e capela
Deixou-me as chaves da adega
O vinho bebeu-a ela
Quatro e quatro são oito - não há bolo como o biscoito
Quatro e cinco são nove - canta o rico chora o pobre
Cinco e cinco são dez - descansam as mãos trabalham os pés
CANÇÃO POPULAR INTERPRETADA P´LOS TROVANTE
Já molhei minha garganta
Eu sou como o roxinal
Quando bebe logo canta
Rapazes quando eu morrer
Levai-me devagarinho
Na campa deitai-me àgua
Por cima deitai-me vinho
Um e um são dois - quem tem vacas espera bois
Dois e um são três - ainda cá volto outra vez
À porta do St. António
Está um ramo de loureiro
É uma pouca vergonha
Fazer do santo tasqueiro
Hei-de morrer numa adega
Um tonel ser meu caixão
Hei-de levar de mortalha
Um copo cheio na mão
Dois e dois são quatro - bela carne tem o pato
Três e dois são cinco - vai do branco se não há tinto
O vinho é coisa boa
Nascido da cepa torta
A uns faz perder o tino
Outros faz perder a porta
Se um dia perder a porta
Seja com tal desatino
Que vá dar a um lugar
Onde se venda bom vinho
Três e três são seis - posto Natal vêm os Reis
Quatro e três são sete - quem não pode não promete
O vinho mata tristezas
A água cria lombrigas
Quando vejo vinho puro
Peço a Deus sete barigas
Minha avó quando morreu
Levou palma e capela
Deixou-me as chaves da adega
O vinho bebeu-a ela
Quatro e quatro são oito - não há bolo como o biscoito
Quatro e cinco são nove - canta o rico chora o pobre
Cinco e cinco são dez - descansam as mãos trabalham os pés
CANÇÃO POPULAR INTERPRETADA P´LOS TROVANTE
quarta-feira, março 7
DIRECÇÃO ÚNICA

Direcção Única são as duas palavras postas ao lado uma da outra para indicar o único caminho por onde deve seguir toda a gente.
E, para que não haja confusões possíveis, encontramos pelas esquinas e encruzilhadas uns discos pintados de encarnado, servindo de fundo e chamariz a umas letras brancas que dizem claramente, para quem quer que seja, e até para os cegos e para os analfabetos: direcção proibida.
Ora, as direcções proibidas não nos interessam absolutamente nada.
Não quer isto dizer que vamos desprezar esses discos das direcções proibidas e desobedecer às suas ordens dadas tão visível e intimativamente para todos sem excepção. Não senhor, não é nada disso.
Pelo contrário: até lhes agradecemos de todo o coração a esses avisos tão bem postos aí nos seus lugares, que ninguém pode vir depois com desculpas de não ter sido avisado a tempo.
A nós não nos interessam as direcções proibidas pela simples razão de que só nos importa a direcção única.
Temos todo o nosso tempo muito certinho muito bem contado, e é o justo para podermos seguir em linha recta pela direcção única.
Se nos enganássemos e fôssemos por qualquer descuido ou capricho nosso por alguma das muitíssimas direcções proibidas que nos aparecem a cada passo, a cada esquina, a cada momento, em todas as encruzilhadas, arriscávamo-nos a não chegar a horas ao fim da nossa viagem, que é como quem diz, ao fim destas linhas que V. Ex.as tão amáveis, estão escutando com tanta atenção.
Mundus a Domino constitutus est. Mundo autem condito, homo factus est. Viro Admus, mulieri Eva nomen fuit.
Sulpício Severo
A direcção única não é assim uma coisa tão recente como toda a gente o pode imaginar à primeira vista. Muitíssimo antes de haver automóveis, carruagens e carroças, muitíssimo antes mesmo de ter sido inventada a própria roda, já havia no mundo a direcção única.
Ela data já daquele dia memorável em que Deus, depois de ter criado o Mundo, deu a alternativa ao Homem.
Mas entre Deus e o Homem há uma diferença dos diabos.
Entregou Deus ao Homem o nosso planeta inteirinho, com todas as suas maravilhas, com todo o esplendor de todas as suas múltiplas fortunas, e ao confiar-lhe desta maneira todas as riquezas da terra, disse-lhe:
- Toma para ti, tudo isto tem uma direcção única.
E levou ao máximo a sua lealdade de Deus para com o Homem, avisando-o como bom e verdadeiro amigo, de que havia também direcções proibidas e, por conseguinte, que tivesse muito cuidadinho com elas.
Mas contemos exactamente como as coisas se passaram:
Comecemos exactamente pelo princípio. Pois ao princípio não havia nada. Mas mesmo o que se chama nada. E sete dias depois já estava feito tudo. Mas mesmo o que se chama tudo.
E tudo isto que levou sete dias a fazer foi tudo feito expressamente para uma pessoa só.
E tudo isto que levou sete dias a fazer foi tudo feito expressamente para uma pessoa só.
Foi esta, minhas senhoras e meus senhores, a primeira vez que uma pessoa se viu sozinha neste mundo.
Era um homem. Um pobre homem.
Fazia dó vê-lo ali sozinho, metido no meio de todas as riquezas do mundo. Tudo aquilo só para ele e para mais ninguém. Pois se havia só ele em todo o mundo!
Há-de haver muita gente a quem faça inveja uma situação tão desafogada como esta, contudo foi esta a primeira desgraça humana que houve no Mundo. Todas as riquezas da Terra não eram o bastante para que ele não caísse na tristeza do isolamento, na angústia da solidão, nesse inferno – verdadeiro ao ar livre.
Mas Deus reparou logo nessa sua falta e emendou a mão.
Logo que apanhou o homem a dormir, viu que lhe tinha posto uma costela a mais. E é que não lhe fazia mesmo falta nenhuma como se provou logo a seguir. E vai Deus tirou-lha.
Neste momento o homem acordou e pronto, já estava acompanhado!
Já eram duas as pessoas que havia em todo o mundo!
Não eram completamente iguais uma à outra. Havia umas pequenas diferenças. Enfim, há
palavras para dizer exactamente essas diferenças: homem e mulher.
Duas pessoas, duas!
Feitas ambas para se pertencerem uma à outra, para que não se aborrecessem para aí sozinhos, para que não andasse cada um perdido no mundo sem saber o que fazer com todas as riquezas da Terra.
E então Deus disse com os seus botões.
Não há dúvida! Eu não tinha criado o mundo para uma pessoa só. Tinha-me esquecido disso mesmo. Os seres isolados não participam da vida. São seres isolados. Fora do conjunto. Longe de tudo. A parte da própria vida.
E já estamos no dia oito do mundo. E quando em todo o mundo não há senão duas pessoas, a que estas são precisamente um homem e uma mulher, não há perigo de haver engano: foram feitos um para o outro.
Mas Deus, que vê muito mais longe que as pessoas, não havia maneira de se esquecer daquele horroroso espectáculo que oferece uma pessoa quando está sozinha neste mundo, e então tomou as suas precauções para que aquilo não se tornasse a repetir. E fez então a mulher para que fossem duas pessoas e uma única combinação entre elas.
Pensava, é claro; também nos outros homens e nas outras mulheres que viessem depois destes dois. E as suas contas estavam lindamente feitas:
Uma mulher e um homem são duas pessoas, mas só são dois quando não têm nada que ver um com o outro. Por conseguinte é mais verdadeiro dizer que os dois são uma coisa só, única, um par.
Foi esta a condição que Deus pôs a todos os que entrassem no Paraíso Terrestre para gozarem todas as riquezas da Terra: que viessem aos pares, que fossem sempre juntinhos os dois, como os pombinhos, como as cegonhas, como os elefantes, como os cavalos, como os burros, ambos ao mesmo tempo por toda a parte, sem ter cada um nada que pensar em si-próprio, sendo-lhes apenas consentido pensarem nos dois ao mesmo tempo. Numa palavra: a direcção única.
A direcção única era os dois ao mesmo tempo. E as direcções proibidas cada um para seu lado.
E repetimos: queria Deus com estas advertências fazer todo o possível para apagar de vez na face da terra aquele espectáculo horroroso de ver uma pessoa isolada no meio do mundo. Cortou-lhe o coração aquilo e agora tomava as suas medidas para que não tornasse a repetir-se per omnia secula seculorum. Ámen.
A direcção única era os dois ao mesmo tempo. E as direcções proibidas cada um para seu lado.
E repetimos: queria Deus com estas advertências fazer todo o possível para apagar de vez na face da terra aquele espectáculo horroroso de ver uma pessoa isolada no meio do mundo. Cortou-lhe o coração aquilo e agora tomava as suas medidas para que não tornasse a repetir-se per omnia secula seculorum. Ámen.
Mas como dizemos, tomava apenas as suas medidas, as suas, e eles que fizessem como lhes parecesse melhor.
E assim foi que Deus fez o homem e a mulher semelhantes um ao outro, mas de caracteres opostos, antagónicos; de naturezas independentíssimas cada um deles, acérrimos disputadores da igualdade no par, inimigos do sexo alheio mas irresistivelmente atraídos um pelo outro, inseparáveis de verdade, e condenados para sempre à fatalidade da sua única unidade comum.
Por outras palavras, fez Deus do homem e da mulher dois animais selvagens que não podem ser domados isoladamente. Fez o isolamento ainda pior -do que era, tornou a solidão ainda mais amarga do que devia ser e indicou a direcção única da colaboração entre ambos: 1+1=1.
Mas por causa das dúvidas, e não estando completamente seguro dos resultados por causa deles, não fossem eles estragar-lhe a sua obra, (Deus sabe muito bem e que faz), arranjou as coisas de tal maneira que a Humanidade se multiplicasse e continuasse pelos séculos ainda mesmo naqueles casos em que não fosse possível o entendimento entre a mulher e o homem.
Isto é, a direcção única haveria de ser eternamente a mesma, ainda que em toda a História da Humanidade não se fizessem senão disparates.
Por outras palavras, fez Deus do homem e da mulher dois animais selvagens que não podem ser domados isoladamente. Fez o isolamento ainda pior -do que era, tornou a solidão ainda mais amarga do que devia ser e indicou a direcção única da colaboração entre ambos: 1+1=1.
Mas por causa das dúvidas, e não estando completamente seguro dos resultados por causa deles, não fossem eles estragar-lhe a sua obra, (Deus sabe muito bem e que faz), arranjou as coisas de tal maneira que a Humanidade se multiplicasse e continuasse pelos séculos ainda mesmo naqueles casos em que não fosse possível o entendimento entre a mulher e o homem.
Isto é, a direcção única haveria de ser eternamente a mesma, ainda que em toda a História da Humanidade não se fizessem senão disparates.
Tudo o que se está contando passou-se nos primeiros dias do mundo à sombra de uma árvore. E daqui vem porem agora todas as culpas à árvore. Chamam-lhe a árvore do bem e do mal. Pois sim, agora chamem-lhe nomes! É desta maldita mania que temos de pôr sempre a culpa aos outros. E quando, como nesse dia não há mais ninguém a quem se possa pôr as culpas, pomo-Ias ao que está mais à mão, – à árvore!
Mas a verdade do que se passou é a seguinte:
Mas a verdade do que se passou é a seguinte:
O par... Ah! agora me lembro de como se chamavam os dois: Adão e Eva!
Pois este par andou por toda a terra, pelas cinco partes do mundo, o qual por esse tempo era todo conhecido e não tinha ainda nenhum pedaço por descobrir; conheceu e gozou todas as maravilhas, todas as fortunas,
todas as riquezas, todas as infinitas felicidades que Deus deitou ao Mundo, até que um dia, dia maldito na História do nosso planeta, depois de já terem feito o que lhes estava permitido fazer, já não tinham mais novidades do que aquelas que eram as proibidas.
todas as riquezas, todas as infinitas felicidades que Deus deitou ao Mundo, até que um dia, dia maldito na História do nosso planeta, depois de já terem feito o que lhes estava permitido fazer, já não tinham mais novidades do que aquelas que eram as proibidas.
Oh curiosidade! Oh apetite!
E claro está também fizeram o que era proibido.
Dizem que foi ela quem começou, mas fosse qual fosse, isso é secundário, o importante é que acabaram os dois.
E então foi o diabo!
Desde esse momento escangalhou-se tudo. Tudo! E foi-se por água abaixo a primeira colaboração que se fazia no mundo.
Cada um para seu lado, cada um no seu isolamento, cada qual na sua solidão. Exactamente como se em vez de um houvesse dois mundos iguais e uma pessoa só para cada mundo.
Era o castigo de Deus. Cumpria-se pontualmente naquele instante em que eles saíram da direcção única e meteram por outras proibidas.
Era o castigo de Deus. Cumpria-se pontualmente naquele instante em que eles saíram da direcção única e meteram por outras proibidas.
Desde esse mesmo instante todas as coisas deste mundo perderam o seu único sentido e ficaram com vários, um único bom e todos os outros maus, dificílimo de distinguir os maus do bom, parecidíssimos todos, uma trapalhada.
Foi este o pecado mais original que se fez no mundo até hoje. Tão original que aqueles que não puseram para aí nem prego nem estopa também pagam as mesmíssimas favas que os verdadeiros culpados.
E agora sim que não é mania pormos as culpas aos outros. Foi por culpa deles! por culpa desses dois curiosos de direcções proibidas! por causa dessa senhora e desse cavalheiro! por culpa desses dois caloiros da humanidade, nunca mais ninguém soube no mundo até hoje como se fazem as coisas espontaneamente.
E porque já não sabemos fazer as coisas ao natural, não temos mais remédio agora do que aprendermos a fazê-las com técnica.
O que V. Ex.as acabam de ouvir é nem mais nem menos do que a maneira como começa a História do Mundo. Estamos seguros de que absolutamente nenhum dos mortais ignora estas coisas. Por isso mesmo as escolhemos. Para que a novidade não fique pela anedota mas sim no seu verdadeiro e único sentido.
Tão-pouco aqui cabem as opiniões. A maneira como começou o mundo e a humanidade é uma, e não chegam até lá as opiniões particulares de quem quer que seja, inclusive as dos sábios.
A maioria das pessoas julga que a novidade está no material que se emprega para o que seja, quando afinal o material empregado não serve senão de veículo para pôr a claro o sentido único e puro dessa novidade.
A maioria das pessoas julga que a novidade está no material que se emprega para o que seja, quando afinal o material empregado não serve senão de veículo para pôr a claro o sentido único e puro dessa novidade.
Por isso escolhemos esta história conhecida de todos. E também porque ela não consente nenhuma espécie de divergência nos comentários. De modo que estamos obrigados, quer o queiramos ou não, e encontrar aqui o seu verdadeiro e único sentido que está arrecadado na História, ou seja, neste caso, a própria experiência da Humanidade.
Pedimos a V. Ex.as a fineza de repararem em que a História da Humanidade começa exactamente por um fracasso, o fracasso da primeira colaboração entre pessoas.
Ao primeiro homem e à primeira mulher não lhes bastou terem por sua conta todo o Paraíso Terrestre, completo. Ainda quiseram mais do que ter tudo. Ah! não há dúvida nenhuma de que ambos eram muito humanos!
Por outro lado, ele tinha lá as suas ideias, suas dele, e ela tinha as dela, suas dela. Pagavam-se na mesma moeda.
Mas ideias que eram de ambos ao mesmo tempo, essas que eram as únicas dos dois, essas que eram a própria direcção única, foram-se pelas direcções particulares, pelas direcções proibidas.
Palavra de honra que até parece que eram portugueses!
E os seus filhos lá saíram também aos pais.
Caim e Abel não querem nada a meias. Ou tudo para Caim, ou tudo para Abel.
E, continuem reparando V. Ex.as o fracasso da colaboração entre pessoas prossegue na História da Humanidade, de pais para filhos, é hereditário o fracasso, e vai de mal para pior, porque Caim já não pode aguentar tamanho desentendimento com o mano e tem de matar Abel.
E se o não mata, seria Abel quem mataria Caim. O essencial era que desaparecesse um deles. Não importa qual dos dois. O insuportável é que haja dois. Dois estorvam-se um ao outro, é necessário que fique só um. Não importa qual deles.
E, continuem reparando V. Ex.as o fracasso da colaboração entre pessoas prossegue na História da Humanidade, de pais para filhos, é hereditário o fracasso, e vai de mal para pior, porque Caim já não pode aguentar tamanho desentendimento com o mano e tem de matar Abel.
E se o não mata, seria Abel quem mataria Caim. O essencial era que desaparecesse um deles. Não importa qual dos dois. O insuportável é que haja dois. Dois estorvam-se um ao outro, é necessário que fique só um. Não importa qual deles.
A humanidade não compreende isto de que cada um seja como é, a não ser o próprio que assim o pensa, mas este quer por força que todos sejam como ele.
E aqui temos uma família desgraçada: o pai e a mãe não se entendem, os filhos saem aos pais, e com esta desgraçada família começou a Humanidade.
Começou e continuou e ainda cá estamos na mesma, graças a todas civilizações que nos fizeram andar vestidos cada uma da sua maneira e graças a Deus também.
E agora vamos lá a saber uma coisa:
O que diriam V. Ex.as se lhes disséssemos que esta família nunca existiu?
E sabeis porque não existiu? Porque é um símbolo.
Como quereis que a humanidade tenha podido guardar até os nomes próprios do primeiro homem e da primeira mulher que viram este mundo? Não vedes que isto tudo é feito com a imaginação e a tradição oral? metade sonhado e metade vivido! Isto é, um símbolo. Uma criação da Arte. Poesia pura. Verdade por cima da realidade. Tragédia autêntica. A tragédia do Mundo.
A própria tragédia em pessoa. A própria tragédia humana:
A impossibilidade de pôr a vontade de cada um onde há outras, onde estão todas as vontades do Mundo.
Adão e Eva, e Abel e Caim, ainda não morreram, estão ainda aqui neste mundo, são os nossos nomes próprios, minhas senhoras e meus senhores.
Na humanidade há pelo menos todas as maneiras de ser, de modo que o humanamente lógico é deixar viver todas as maneiras de ser.
Respeitemos a própria realidade. Não raciocinemos contra o próprio raciocínio:
A individualidade é um fenómeno espontâneo, sem intervenção do Homem, é o próprio papel da natureza.
A individualidade é um fenómeno espontâneo, sem intervenção do Homem, é o próprio papel da natureza.
Ao passo que o do Homem é o que vem precisamente depois do da natureza e consiste em fazer relacionar-se entre si tudo o que é de verdade independente e oposto.
Isto é, como se houvesse dois mundos metidos um no outro e ocupando o mesmo espaço do que um único: no primeiro mundo, o da natureza, a vida é natural; e no segundo mundo, o da humanidade, a vida é social.
E tanto no mundo natural como no social a vida é unânime, feita de todas as coisas e não sobeja nenhuma. E fora dessa unanimidade não há vida possível; não há senão, isolamento, solidão, pior do que a própria morte, e morte antes de morte, e morte em vida.
Não é nossa pretensão assustar V. Ex.as com palavras tão antipáticas a pensamentos tão desusados como estes sobre a morte, a desgraça, a tragédia, o isolamento, a solidão; já sabemos de antemão que V. Ex.as não querem saber de desgraças a que dão o cavaquinho pelas tardes bem passadas, pelas boas piadas, pelas pessoas divertidas, ou por qualquer outra morfina que sem ser a autêntica morfina tenha o mesmo efeito que a morfina; nós já sabíamos isto tudo, mas, francamente, é um espectáculo que não nos agrada, que não vai com o nosso feitio, esse de entrarmos nós também para a bicha das pessoas que estão à espera de que lhes chegue a vez de irem buscar mais lenha para se queimarem.
Fomos instados pelas mais cavalheirescas pessoas da nossa terra para que trouxéssemos aqui à nossa gente alegria a rodos, coragem aos potes, tanks de felicidade, transatlânticos de entusiasmo, e a nossa resposta foi esta:
Alegria sim. Faremos todo o possível. Mas que não confundam a alegria com o riso. O riso é a expressão das caveiras. E a alegria é para os vivos, a coisa mais séria da vida!
Alegria é saber muito bem por onde se vai, é ter a certeza de que o caminho é o bom, que a direcção é a única.
Alegria é saber muito bem por onde se vai, é ter a certeza de que o caminho é o bom, que a direcção é a única.
Rogamos portanto, a V. Ex.as que não vejam na palavra tragédia nada de trágico, desanimador, irremediável, fatal, pelo contrário, é na própria tragédia que está toda a claridade do Mundo.
Hoje, neste admirável século XX, herança legítima de todos os mais séculos da História, já não ficou por nenhuma parte nenhum mistério com o qual se possa ainda meter medo do papão aos mais meninos. Hoje a claridade é tal que cada palavra retoma o seu sentido único, cada valor da terra regressa íntegro de todas as espécies da fantasia à sua própria essência, tudo o que é falso dura apenas a própria falsidade, tudo o que é provisório serve apenas para isso mesmo, o que é natural é natural, o que é sobrenatural é sobrenatural, as coisas são o que são, tudo é do seu verdadeiro tamanho, a própria Terra descobriu por fim os seus próprios limites, e a tragédia parece-nos maior do que nunca porque o é de verdade, porque a claridade jamais foi tamanha como hoje e mostra-nos completamente nua, sem disfarce, sem hipocrisias, sem mistério e grande tragédia que afoga a humanidade.
Hoje, neste admirável século XX, herança legítima de todos os mais séculos da História, já não ficou por nenhuma parte nenhum mistério com o qual se possa ainda meter medo do papão aos mais meninos. Hoje a claridade é tal que cada palavra retoma o seu sentido único, cada valor da terra regressa íntegro de todas as espécies da fantasia à sua própria essência, tudo o que é falso dura apenas a própria falsidade, tudo o que é provisório serve apenas para isso mesmo, o que é natural é natural, o que é sobrenatural é sobrenatural, as coisas são o que são, tudo é do seu verdadeiro tamanho, a própria Terra descobriu por fim os seus próprios limites, e a tragédia parece-nos maior do que nunca porque o é de verdade, porque a claridade jamais foi tamanha como hoje e mostra-nos completamente nua, sem disfarce, sem hipocrisias, sem mistério e grande tragédia que afoga a humanidade.
Hoje, neste admirável século XX, trágico e alegre, a claridade é tanta que podemos ver a imensidade da nossa própria tragédia em toda a sua extensão e domínios, e ainda nos fica muita para tapar com ela de uma vez para sempre todas as direcções proibidas, e depois sobra ainda o bastante para irmos abrindo o novo caminho da direcção única.
Avisa-se o público de que estão espalhados por aí uns restos podres que ficaram de ontem, podres e fedorentos, intrujando os nossos sentidos porque à sombra têm a fosforescência dos fogos-fátuos, mas é que são fogos-fátuos, não é mistério nenhum, e ao vir a claridade foi-se-lhes logo aquela luzinha mentirosa. Juramos que estão podres. De resto, cheiram que tresandam!
Referimo-nos lealmente neste momento e alguns sábios (assim lhes chamam ainda os da sua laia) a que vêm a público com uma autoridade, que ninguém sabe como a têm nem quem lha deu, e dizem frases importantes e definitivas como estas:
Referimo-nos lealmente neste momento e alguns sábios (assim lhes chamam ainda os da sua laia) a que vêm a público com uma autoridade, que ninguém sabe como a têm nem quem lha deu, e dizem frases importantes e definitivas como estas:
O individualismo morreu.
Estamos na época colectivista.
Ora muito bem. Analisemos: Se eles dissessem: O indivíduo não existe isso já era outro cantar, e estava certo, diziam uma grande verdade. Mas dizer: o individualismo morreu é aceitar como definitivo, para sempre, esse facto. Ou então, para fazer valer melhor apenas o que eles querem como seja, isto é, a vitória do colectivismo.
Ora, isto é falso. Nem o individualismo morreu nem o colectivismo ganhou. Nem o individualismo pode morrer nunca nem o colectivismo pode jamais sair vencedor por esmagamento do individualismo.
Aqueles que tão falsamente se julgam iluminados para cantar em público o colectivismo como única solução, das duas uma: ou não sabem o que dizem ou então sabem-no muito bem. Se não o sabem são míopes, e se o sabem são de recear.
Como se houvesse hoje alguma solução separada de qualquer outra! Tudo são problemas determinados, cada problema tem a sua solução, mas a única, essa que o mundo inteiro unanimemente busca hoje nas cinco partes, é a de cada problema relacionada com as de todos e a de qualquer outro.
É supinamente cómodo resolver uma complicação como o fazem os simplistas, excluindo todas as outras complicações que não sejam aquela. Mas isso é do que nós já estamos fartos. É a isso mesmo o que se chama uma direcção proibida. E a direcção única é precisamente levar o que está por resolver. O indivíduo, a família e a colectividade, não são três caminhos diferentes, são um único sentido, a direcção única. Se uma pessoa se mete apenas por uma dessas três direcções: O individualismo, a família ou o colectivismo, pode quando muito ser prestável a qualquer das três mas ficará exactamente na terceira parte do seu próprio caminho neste mundo. Isolar o que seja do próprio conjunto a que pertence tudo é fazer disso mesmo uma direcção proibida.
Não se pode separar absolutamente nada do que quer que seja. Todas as coisas se relacionam entre si. A própria claridade só é claridade porque existe de verdade a tragédia. Senão não fazia falta nenhuma a claridade e estaríamos todos no Paraíso Terrestre.
Mas vêm os simplistas, todos arranhados de ciência, e querem logo a todo o custo que a direcção única caiba por força pelo cu de uma agulha. Ora a direcção é única porque é para todos. E a única coisa que é comum a toda a humanidade é a própria vida, é o próprio mundo, não cabe pelo cu de uma agulha.
Não aleijemos a pobre humanidade mais do que ela já está com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. Não sejamos tão crianças que queiramos levantar ao ar e esfera pretendendo agarrá-la apenas pelo hemisfério da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisfério superior, porque a única maneira de agarrá-la bem tão-pouco é pôr-lhe as mãos por baixo, nem ainda abraçando-a com os dois braços e os dedos metidos uns nos outros para não deixar escapar as mãos e com o próprio peito do lado de cá e ajudar também; a única maneira de equilibrar a esfera no ar é deixá-la estar no ar como a pôs Deus Nosso Senhor, às voltas à roda do sol, como a lua à roda de nós e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.
Não temos mais remédio do que ir aprender tecnicamente como funcionam estas coisas tão naturais!
O Mundo da Natureza é o modelo dos modelos de todas as maquinarias, porque não havemos então de acertar também o mundo social no seu próprio funcionamento como todas as outras máquinas do mundo?
Actualmente comemora-se no mundo inteiro o centenário da morte de um homem, o qual todos os povos das cinco partes são unânimes em considerar o mais universal dos Europeus. Chamava-se Goethe.
Fixem bem V. Ex.as estes dois títulos máximos de Goethe: Europeu e Universal.
As suas duas obras principais, se é que alguma pode ser a preferida ou separada da própria vida do autor, são o Werther e o Fausto.
As suas duas obras principais, se é que alguma pode ser a preferida ou separada da própria vida do autor, são o Werther e o Fausto.
Goethe é um génio. Ninguém se arrisca a perder uma reputação de crítico ao afirmá-lo. Está assente que o é.
E então vejamos a obra mais conhecida do génio no Werther e no Fausto.
Goethe não conhece senão o indivíduo. Para ele o indivíduo é o próprio espelho da humanidade inteira.
Goethe não conhece senão o indivíduo. Para ele o indivíduo é o próprio espelho da humanidade inteira.
Ao terminar o Werther faz suicidar-se o indivíduo e ponto final.
Depois vem o Fausto. Como é natural, Fausto segue o caminho oposto ao do suicida. Canta a coragem de viver, canta a acção, sempre a acção, sempre a coragem de viver. É o primeiro Fausto.
Depois vem o Fausto. Como é natural, Fausto segue o caminho oposto ao do suicida. Canta a coragem de viver, canta a acção, sempre a acção, sempre a coragem de viver. É o primeiro Fausto.
Trinta e sete anos depois outra vez o Fausto, outra vez a acção, outra vez a coragem de viver.
Fausto é uma obra genial.
Fausto é uma obra genial.
Mas afinal talvez Werther tivesse tido mais razão em suicidar-se do que Fausto em teimar ir tanto para diante.
Em resumo, dois desgraçados: Werther e Fausto. E um génio: Goethe.
Bem feitas as contas serão três os desgraçados. Mas um deles, o autor, falou pelos três, falou por toda a gente. No seu século tão grande, tão elevado, tão luminoso, tão invejável, o indivíduo era afinal tão desgraçado como em qualquer outra idade da História menos esclarecida do que aquela.
O génio no-lo revela na sua obra e com a sua própria vida.
Mas não se espantam V. Ex.as com estas coisas. Isto já não é nenhuma novidade para nós. É a eterna tragédia dos filhos de Adão e Eva. Desde o princípio do mundo que estamos todos condenados à maior das desgraças humanas: o nosso próprio isolamento, a nossa própria solidão. Seja qual for o século em que fale o génio, todos os génios coincidem no mesmo. E quanto mais a Terra se vai enchendo de gente, quanto mais a Humanidade se multiplica, maior se vai tornando ainda a solidão de cada um dos seus indivíduos.
E hoje? Vejam aí com os seus olhos: coitadinho do Charlot que não pára de vagabundear!
Goethe, apesar da fama do seu nome em vida, apesar da sua vida de grande senhor; Goethe a quem o próprio Napoleão disse: vous êtes un homme, monsieur Goethe! apesar da sua própria natureza dotadíssima, privilegiada, excepcional, robustíssima, completa, genial; apesar de tudo, a sua vida é um desastre. Um desastre completo, levado até ao fim. Goethe morreu velho. Um desastre heróico levado dignamente até à última, e com aquela verticalidade exclusiva do próprio Goethe.
Goethe, apesar da fama do seu nome em vida, apesar da sua vida de grande senhor; Goethe a quem o próprio Napoleão disse: vous êtes un homme, monsieur Goethe! apesar da sua própria natureza dotadíssima, privilegiada, excepcional, robustíssima, completa, genial; apesar de tudo, a sua vida é um desastre. Um desastre completo, levado até ao fim. Goethe morreu velho. Um desastre heróico levado dignamente até à última, e com aquela verticalidade exclusiva do próprio Goethe.
Ao filho de Goethe chamavam-lhe «o filho da criada». O filho do génio é o filho da criada. Nunca ninguém lhe chamou o filho do génio!
O génio continuava efectivamente sozinho.
E já não é a primeira vez que o homem está sozinho no mundo.
Por esse tempo nascia na Europa o Romantismo e era como uma libertação de todos os indivíduos, de todos aqueles que tinham legitimamente a sua vida para vivê-la, a hora dos Prometeus desencadeados.
Por esse tempo nascia na Europa o Romantismo e era como uma libertação de todos os indivíduos, de todos aqueles que tinham legitimamente a sua vida para vivê-la, a hora dos Prometeus desencadeados.
E é curioso, isto só o podemos ver nós hoje, depois de passado um século, o Romantismo nascia na Europa ao mesmo tempo que na mesma Europa Goethe acabava de pôr nessa mesma esquina do Romantismo o disco encarnado com as letras em branco: direcção proibida.
Era o mesmíssimo beco sem saída onde Werther se tinha suicidado e donde Fausto não tinha podido sair, onde o ideal e a acção individuais estavam sepultadas para sempre.
Era o mesmíssimo beco sem saída onde Werther se tinha suicidado e donde Fausto não tinha podido sair, onde o ideal e a acção individuais estavam sepultadas para sempre.
Nenhum outro homem mais próximo de nós foi mais justo e mais preciso do que Goethe pondo toda a claridade no caos da nossa própria tragédia humana de isolados, de sozinhos. É o verdadeiro génio. Aquele que viu mais e melhor. E então todos à uma quiseram ver também, todos quiseram ver com os próprios olhos como o génio, a entraram todos um por um, naquela direcção proibida que já tinha sido tapada para sempre pelo próprio Goethe. E todos ficaram românticos. Uns passaram a chamar-se Werther e outros Fausto. Uns suicidaram-se e aqueles que não se mataram ficaram sem uma gota de esperança. Sinceros todos.
Goethe não tinha deixado ali por onde sair o indivíduo. Ele tinha, na verdade, falado de uma maneira diferente daquela que o ouviram.
E depois ainda veio Nietzsche e quis também ele sozinho chegar até ao Homem! e mais para lá também até ao Super-Homem, mas quem sabe? se calhar é capaz de lá ter chegado. Nós é que já nunca mais soubemos nada dele. O pobre Nietzsche, de repente, pôs-se a falar sozinho com a sua loucura.
Não vos assustais com esta Humanidade onde aqueles que não são anónimos, e precisamente os mais conhecidos, são suicidas, desesperados, sozinhos ou loucos?!
Não! não vos assusteis, porque temos que ir ainda mais para diante. E se é a alegria o que vós lealmente quereis e pedis, tende confiança que é por aqui o caminho e já lá chegaremos se Deus
Nosso Senhor quiser.
Falámos já muito de Goethe. Mas ele disse tantas coisas que sabe de cada um de nós, que não é demais toda a nossa curiosidade a seu respeito.
E na verdade, o seu génio não se limitou a pôr direcções proibidas pelas esquinas e encruzilhadas. Além disso, e aqui precisamente é que ele foi o génio, também marcou e magistralmente a direcção única.
Permitam V. Ex.as uma pequena observação antes de seguirmos o nosso pensamento deste momento.
A direcção única não é uma solução, é infinitamente melhor do que uma solução, é uma direcção, e a única.
Quanto mais aflita está a Humanidade mais se desespera à procura de soluções. Até se podia
inventar este rifão: buscas solução estás cheiinho de aflição.
Ora aqui não é nenhuma agência de empregar a amigos e parentes e trata-se nem mais nem menos do que colocar a toda a gente, seja quem for, nos seus devidos postos neste mundo. Por isso mesmo a direcção é única, porque é para todos, o que é, aliás, como Deus manda.
A diferença entre solução e direcção será esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça, ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade.
E foi o que fez Goethe: Descobriu a direcção única. Artista, na verdadeira acepção da palavra; Artista é aquele que precede a própria ciência. Por isso Goethe afastou-se de quantas realidades irrealizáveis onde costumam habitar instaladas as gentes. E impassível, desde cima, assistiu ao desenrolar da tragédia. E viu o mundo inteiro por cima de todas as cabeças, e viu a Europa toda e com cada um dos seus pedaços, e viu cada indivíduo da Humanidade como um pequenino astro tonto que nem sabe sequer ir na parábola da sua própria trajectória, e viu que de todos os seres deste mundo o único que errava o seu fim era o Homem, o dono da Terra! e viu que era na Humanidade que estavam os únicos seres deste mundo que não cumpriam com o seu próprio destino, e finalmente viu! Viu com os seus próprios olhos o que ninguém tinha visto antes dele. Viu pela humanidade inteira, viu por toda a Europa e viu por cada indivíduo. E compreendeu o mundo, e concebeu uma Europa, e para todos os indivíduos da Terra abriu de par em par a direcção única.
E foi o que fez Goethe: Descobriu a direcção única. Artista, na verdadeira acepção da palavra; Artista é aquele que precede a própria ciência. Por isso Goethe afastou-se de quantas realidades irrealizáveis onde costumam habitar instaladas as gentes. E impassível, desde cima, assistiu ao desenrolar da tragédia. E viu o mundo inteiro por cima de todas as cabeças, e viu a Europa toda e com cada um dos seus pedaços, e viu cada indivíduo da Humanidade como um pequenino astro tonto que nem sabe sequer ir na parábola da sua própria trajectória, e viu que de todos os seres deste mundo o único que errava o seu fim era o Homem, o dono da Terra! e viu que era na Humanidade que estavam os únicos seres deste mundo que não cumpriam com o seu próprio destino, e finalmente viu! Viu com os seus próprios olhos o que ninguém tinha visto antes dele. Viu pela humanidade inteira, viu por toda a Europa e viu por cada indivíduo. E compreendeu o mundo, e concebeu uma Europa, e para todos os indivíduos da Terra abriu de par em par a direcção única.
Goethe, o génio, é universal, europeu e alemão.
Goethe, o indivíduo Goethe, também pertence a essas três unidades, humana, europeia e alemã, as quais três são uma única, a dele.
Nós os Portugueses pertencemos à Humanidade, à Europa e a Portugal. Não somos três coisas distintas, senão uma única, inteira, e nossa.
Cada indivíduo não pode chegar até si mesmo senão através dessas três unidades a que pertence: o mundo, aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra, e a sua terra.
A terra de cada indivíduo não está limitada pelas legítimas fronteiras físicas e políticas do seu próprio território, é além disso um pedaço determinado de uma quinta parte do mundo inteiro.
E o indivíduo está tão longe de si mesmo que para chegar até si tem primeiro que dar a sua volta ao mundo, completa, até ao ponto de partida.
A terra de cada indivíduo não está limitada pelas legítimas fronteiras físicas e políticas do seu próprio território, é além disso um pedaço determinado de uma quinta parte do mundo inteiro.
E o indivíduo está tão longe de si mesmo que para chegar até si tem primeiro que dar a sua volta ao mundo, completa, até ao ponto de partida.
E todo aquele que queira encontrar dentro de si mesmo a sua própria personalidade, ficará romanticamente sozinho no meio das multidões, na mais terrível solidão de todos os tempos, uma solidão onde o próprio deserto está cheio de arranha-céus e as ruas inundadas de gente!
O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua colectividade. E a sua colectividade é a sua própria Terra e mais aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra e mais o mundo inteiro também.
O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua colectividade. E a sua colectividade é a sua própria Terra e mais aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra e mais o mundo inteiro também.
Mas que não se julgue por estas palavras que o indivíduo há-de servir apenas de instrumento à sua própria colectividade. Não! nem vice-versa tão-pouco. É um jogo simultâneo da colectividade para os seus indivíduos e de cada indivíduo para a sua colectividade.
E se hoje o indivíduo não existe, isto é, se não tem nem pode ter acção própria, não é tal, de maneira nenhuma, porque a colectividade lhe tenha usurpado também o seu lugar, é apenas porque ninguém está capacitado da obediência que deve a si próprio, é apenas por ignorância do que, justamente, ninguém devia ignorar: o seu próprio destino neste mundo.
O destino não é coisa que se saiba pelas sinas, nem obra do acaso, nem artes para adivinhos ou leitores de palmas de mão, nem nada que se modifique com caprichos da fatalidade. O destino de cada indivíduo neste mundo está por cima do seu próprio caso pessoal.
O único procedimento para conhecer o destino de cada qual é este: Vai-se buscar uma esfera terrestre. Faz-se dar voltas ao mundo, e quando passe diante de nós aquela das cinco partes em que se divide a geografia, e que nos parece a mais bonita, procura-se aí com o dedo aquela terra que conhecemos como ninguém e onde entendemos tudo o que lá se diz e pronto, deixa-se ficar o dedo aí. É o dedo do Destino, e nós julgamos que é com o nosso dedo que indicamos no mapa.
E há seis milhões e meio de indivíduos que puseram o dedo no mesmo sítio. Seis milhões e meio de pessoas cujo destino é o mesmo.
E no mapa, exactamente nesse sítio, está escrito: Portugal.
E por cima de Portugal há um grande E, a primeira letra de uma palavra que começa em Portugal e que vai subindo para o Norte sempre em grandes letras, seis grandes letras, seis grandes letras que iluminam as cinco partes do mundo, seis grandes letras que juntam os povos mais independentes do mundo, até onde acaba a Rússia, que é debaixo das seis grandes letras da Europa, aquela terra dos indivíduos que ficam mais longe de Portugal.
E aqui é o destino único de seis milhões e meio de indivíduos neste mundo, aqui na Europa, aqui na Península Ibérica, aqui no sul e aqui no Ocidente da principal das cinco partes da Terra.
«A Europa é a mãe de numerosos filhos. E Goethe, o europeu, quem nos abre os olhos, para que tenhamos a consciência uns dos outros, para que tenhamos vergonha de nos caluniarmos e de nos odiarmos.
«A Europa é a mãe de numerosos filhos. E Goethe, o europeu, quem nos abre os olhos, para que tenhamos a consciência uns dos outros, para que tenhamos vergonha de nos caluniarmos e de nos odiarmos.
Para fazer uma Europa, é necessário uma Alemanha, um Portugal, uma França, uma Espanha, uma Inglaterra, uma Suíça, uma Itália e o resto. Será necessário também uma Ásia, duas Américas, uma África, uma Austrália, negros, vermelhos e amarelos para fazer, um dia, o mundo.
Goethe, poderoso alemão, não pretende que a Europa seja alemã, nem que a França ou a China o venham a ser alguma vez. Para que a Europa seja verdadeiramente ela mesma, é necessário que a Alemanha seja o mais alemã possível, a França o mais francesa que possa, a Espanha o mais espanhola, Portugal o mais português, Inglaterra a mais inglesa, e qualquer outra terra o mais ela própria porque apenas nos seus superlativos, nos seus máximos, nos seus cúmulos é viável o acordo, a colaboração entre os povos independentes e bem contornados pelas fronteiras invulneráveis.» (Goethe, Andres Suares.)
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A colectividade é, qualitativa e quantitativamente, o conjunto de todos os indivíduos que a formam. Mas que não nos sirva de atrapalhação tanta gente junta. Pelo contrário: já cá estamos, finalmente, no nosso caminho.
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A colectividade é, qualitativa e quantitativamente, o conjunto de todos os indivíduos que a formam. Mas que não nos sirva de atrapalhação tanta gente junta. Pelo contrário: já cá estamos, finalmente, no nosso caminho.
A colectividade, apesar de ser o conjunto de todos os seus indivíduos, funciona exactamente como um indivíduo a mais. Assim como se no mundo houvesse toda a gente que existe e mais uma pessoa: esta pessoa seria exactamente todos num só. A colectividade é também um indivíduo, um indivíduo como qualquer outro, mas é o indivíduo colectivo, na verdade colectivo e indivíduo. Com a vantagem sobre qualquer outro de não estar sujeito, como nós, às vacilações de um organismo mortal. A colectividade é o indivíduo imortal. Feito da mesma massa humana que qualquer de nós, os indivíduos mortais.
Já cá temos, por conseguinte, o modelo invariável para os nossos actos individuais: a colectividade.
Senão reparem V. Ex.as em como é feito o nosso próprio corpo:
Está formado por vários órgãos, distintos uns dos outros, e nenhum deles com vida própria, ou melhor, dependente cada um deles da vida total e unânime do nosso organismo individual, isto é, da unidade da qual faz apenas parte.
Pois o indivíduo no mundo é exactamente como um dos nossos órgãos no nosso próprio corpo. Nós não temos vida própria. Dependemos da vida total e unânime do organismo colectivo, e de cuja unidade fazemos apenas parte; o que não é pouco nem muito, senão o justo para cada um de nós.
O indivíduo e a colectividade são as duas únicas expressões humanas do mundo social como o homem e a mulher são as duas únicas expressões humanas do mundo natural.
E assim como a mulher e o homem estão condenados à fatalidade da sua única unidade comum, também acontece o mesmo, paralelamente, no mundo social com a colectividade e o indivíduo.
São unicamente quatro as expressões da humanidade: o homem, a mulher, a colectividade e o indivíduo. Cada uma delas separadamente é o próprio isolamento, a autêntica solidão, a direcção proibida. E todas as quatro juntas são exactamente a direcção única.
E assim como a mulher e o homem estão condenados à fatalidade da sua única unidade comum, também acontece o mesmo, paralelamente, no mundo social com a colectividade e o indivíduo.
São unicamente quatro as expressões da humanidade: o homem, a mulher, a colectividade e o indivíduo. Cada uma delas separadamente é o próprio isolamento, a autêntica solidão, a direcção proibida. E todas as quatro juntas são exactamente a direcção única.
Agora, neste momento, entramos decididamente no mundo social: a colectividade e o indivíduo.
Este assunto é de uma actualidade desesperadora. Ou melhor, sejamos ainda mais claros, é o único assunto que preocupa o mundo inteiro.
Este assunto é de uma actualidade desesperadora. Ou melhor, sejamos ainda mais claros, é o único assunto que preocupa o mundo inteiro.
Artistas e cientistas, trabalhadores e desempregados, temos todos os olhos fixos nessas duas palavras que fazem estremecer hoje o mundo de alto a baixo: colectividade, indivíduo.
O indivíduo não existe. É um resto que ficou ainda de ontem. Já não há nada mais do que o espaço que ele ontem ocupava no seu lugar. E a colectividade? Também. É um resto que ficou ainda de ontem. Já não existe nada mais do que o lugar que ela ontem ocupava.
Não é só o indivíduo que não existe, hoje também não existe a colectividade. São apenas dois restos que ficaram de ontem.
Não existe nenhum deles por causa do outro. São inseparáveis de verdade.
Não existe nenhum deles por causa do outro. São inseparáveis de verdade.
Acabou-se o mundo antigo. Fica para a História. Hoje nasce o mundo outra vez, desde o princípio. Não há absolutamente nada. Temos de fazer tudo outra vez: a colectividade e o indivíduo. Esses dois valores iguais, recíprocos, que dependem um do outro a que isoladamente se suicidam por suas próprias mãos.
E é esta, minhas senhoras e meus senhores, a grande tragédia da unidade: Não há indivíduos porque não existe a colectividade e não há colectividade porque não existem os indivíduos.
O mundo inteiro está sozinho. Cada pessoa vive isolada no meio das multidões. As multidões são formadas por indivíduos, por numerosíssimos indivíduos isolados uns dos outros.
As palavras caem perdidas no chão.
As palavras caem perdidas no chão.
Sozinhos todos. Ninguém se entende. A humanidade inteira está reduzida à solidão de cada um dos seus indivíduos.
O mundo inteiro está dividido em tantos mundozinhos individuais, pequeníssimos, microscópicos, quantos sãos os seus habitantes.
Mas aquele mundo da colaboração de todos, o único mundo real afinal de contas, esse, já não existe. Veio cada qual roubar-lhe o seu pedacito e o mundo ficou feito em migalhas, reduzido a grãos de areia, pó, nada!
Vós, indivíduos das cidades, e dos campos, vós, indivíduos de todas as partes e que fazeis parte de todas as multidões, respondei todos um por um:
Com quem comunicas tu?
Com quem comunicas tu?
Não to perguntamos com quem tratas todos os dias, nem com quem falas, nem com quem vives, nem com quem dormes. Perguntamos-te unicamente com quem to entendes?
Com ninguém!
Com ninguém!
Estás tão sozinho no meio de toda a gente ou ainda mais do que se não houvesse no mundo mais ninguém do que tu.
E ainda não sabes de memória tudo quanto possa dizer-to toda a gente? Ainda não sabes de cor as várias opiniões do mundo inteiro?
Ainda não sabes de cor a salteado todas as notícias de todos os jornais que se publicam diariamente, pela manhã, à tarde e à noite, nas cinco partes da terra?
Ainda não sabes de memória todas as novidades da última hora que nos traz a cada instante a rádio de todos os lados do mundo?
E as que dirá amanhã, a depois de amanhã, a daqui a um ano a sempre, sempre a mesma notícia para quem ainda não a saiba, sempre a mesma cantilena a buzinar-nos os ouvidos:
S. O. S. perdidos, desencontrados, sozinhos! S. O. S. estamos todos desencontrados, estamos todos sozinhos, perdidos todos! S. O. S. sozinhos! S. O. S. desencontrados! S. O. S. perdidos! S. O. S. sós! S. O. S. sós! S. O. S.
S. O. S. perdidos, desencontrados, sozinhos! S. O. S. estamos todos desencontrados, estamos todos sozinhos, perdidos todos! S. O. S. sozinhos! S. O. S. desencontrados! S. O. S. perdidos! S. O. S. sós! S. O. S. sós! S. O. S.
S. O. S. é o sinal internacional de telegrafia a pedir socorro.
Está formado pelas três iniciais da frase inglesa: «Save Our Soules», que quer dizer em português: «Salvai Nossas Almas».
Estas três letras S. O. S. são as mesmas com que se escreve em português o plural de indivíduo isolado: Sós.
Nós, que somos portugueses, somos por isso mesmo aqueles que menos podemos alegar a ignorância dos valores recíprocos da colectividade e o indivíduo.
Na História de Portugal, a primeira e a segunda dinastias são em todo o mundo um modelo exemplar da formação a funcionamento da colectividade. Na primeira dinastia funda-se a fixa-se a colectividade portuguesa. São estes os primeiros passos do indivíduo: Tornar fixa na terra a sua própria colectividade.
Nessa dinastia temos como expressão máxima do indivíduo da colectividade a El-Rei Dom Dinis, o primeiro português que já pode começar a cuidar em conjunto das nossas coisas colectivas. E o facto de fixar os quilómetros de areias com o pinhal de Leiria é o símbolo da vontade e constância de uma colectividade que quer manter invariável através dos séculos o seu próprio e único perfil geográfico.
Símbolo imponente da realidade feita pelo povo que chega até aos dias de hoje, o decano das gentes da Europa nas suas fronteiras primitivas.
Na segunda dinastia, a colectividade portuguesa é para o mundo inteiro a própria maravilha da máquina social. Cada indivíduo da nossa terra tem o seu lugar determinado na nossa colectividade. E um deles chamar-se-á Vasco da Gama, a ainda antes mesmo de ter realmente chegado a este mundo, já estava destinado pelos interesses comuns da colectividade portuguesa, para vir a ser o maior marinheiro do mundo!
E não era outra diferente desta a razão por que houve gente também na Grécia Antiga. Era a de que havia uma Grécia Antiga. Era a de que havia uma Grécia, uma colectividade que criava os seus próprios indivíduos.
Felizes os tempos em que em Portugal cada português podia ter o seu próprio valor, porque a colectividade portuguesa também tinha o seu, a estava à altura de si-mesma, e não se prejudicava a si-própria nem aos seus indivíduos!
Felizes os tempos em que Portugal tinha a direcção única a era esta a única maneira como cabiam aqui todos os mais diferentes dos Portugueses!
Hoje o mundo é do seu verdadeiro tamanho. Nem uma polegada a menos nem uma ilusão a mais.
Das cinco partes da Terra todos regressam aos territórios das suas próprias colectividades. O mundo está o mesmo por toda a parte. A realidade é sempre a mesma em todos os lados do mundo. É impossível fugir da realidade. E quer queiramos ou não, hoje temos de ser todos profetas na nossa própria terra.
Acabaram-se as iniciativas particulares. Acabaram-se os caprichos dos viajantes isolados. Acabaram-se os génios que cantavam chorando a solidão dos indivíduos. Hoje pedimos todos à uma, a colectividade que nos represente, a colectividade a que temos direito, que é ela mesma a nossa colectividade, o nosso próprio a único direito à vida.
Queremos a colectividade portuguesa à altura de si-própria, vista de todos os lados da terra. Que cada português, dentro ou fora da nossa terra, seja o perfeito indivíduo da nossa própria colectividade.
Estamos todos incondicionalmente ao lado da colectividade portuguesa passo a passo, egoistamente, como quem sabe exactamente o sítio onde está a sua própria vida de indivíduo português.
Exactamente neste momento terminaram as nossas palavras da direcção única. Fizemos todo o nosso possível para que elas fossem a própria alegria, a coisa mais séria da vida. Se na verdade não o conseguimos, pedimos perdão a V. Ex.as por lhes termos feito perder esta meia hora do vosso tempo. Na certeza porém, de que o nosso desejo de colaborar na obra comum da direcção única é leal, tão leal que estamos seguros de não termos emitido nenhuma opinião pessoal nem nossa nem de outrem, a que apenas nos servimos dos próprios exemplos da Bíblia, da História, dos génios a dos clássicos para com estes factos conhecidos, aceites a consagrados estabelecer a ligação entre as distâncias mais diferentes a longínquas da Humanidade, e podermos dizer com elas que a direcção é efectivamente única para todos aqueles que a possam ver a também para os que não a virem nunca.
Lisboa, Abril 1932.
José de Almada Negreiros
(Conferência realizada em Lisboa no Teatro Nacional de Almeida Garrett)
(Conferência realizada em Lisboa no Teatro Nacional de Almeida Garrett)
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