segunda-feira, julho 7

sexta-feira, julho 4

Este poema
Não é poesia das pessoas
Nem tão pouco minha

É para os gestos infames
Da alma, um grito
Que brota dos dedos
Das turvas águas que lavam
A pureza enganadora
Dos símbolos

Só porque
A felicidade, é um cão
Que nos morde,
A mordidela dos costumes
A esconder as obscuras marcas
Dentadas do tempo.

Puxa-nos a carne,
Tal como fraldas
Duma camisa desbotada.

quarta-feira, julho 2

POR ACABAR

O emprego
Essa coisa fundamental a trespassar-me o corpo
Aventura sob o sol espesso das gaivotas a fugir do mar.
Amostra ínfima da sociedade
Dos escorregas movidos a lágrimas,
Gargalhadas Fulminantes,
Varridela para o ridículo automatizado
Pela aromática nota espongiforme.

A movida matéria quente que abrilhanta
A experiência imunda das chávenas deslavadas
Pelo sangue frio dos clientes adormecidos
Entre passos fastidiosos no coro de prédios
Forrados a Papel vegetal.
No chão,
Lá fora,
O passado instantâneo abafa o carimbo ténue da lembrança.

A poesia do espaço caótico obriga-me a isto.
Sou servo miserável dum caminho que já faz pouco sentido,
Pseudo poeta da mestria extinta que se reformula
Numa máquina de café suja pelo passar descuidado do tempo.
No soalho inundado
Páginas misturadas de jornais e panfletos da luta pelos direitos
Moldáveis dos sonhos para a matéria.

E só depois,
As pessoas.

Um dono.

Emigrante de cuecas fio dental.
Uma empregada
Prosaica e bela,
Senhora verosímil como o camião
Que sob a circunferência ardente, resmunga com uma voz grosseira,
Metálica, mero instrumento da orquestra metropolitana.

E um tapa buracos
Viajante imóvel do vão de escadas para a clínica
Da Rasa. Desistiu de subi-las, preferiu abrigar-se.
Diz-me que,
Ainda me diz silencioso

A vida é um poço que cresce com os anos e com os erros
Mas os erros não o são nem se prevêem, vão sendo.

Tiro-lhe mais um fino e ele sorri, a cor amarga dos seus
Dentes a esbater toda a minha hipocrisia de profundezas
No micro cosmos deste salão em que ainda trabalho
Pois escrevo

O albergue dos gestos mais puros da campânula dos dias -o parolo
Da gravata altiva e tom de voz cristalino,
Arrogância platinada por um percurso à moda de fausto ou não.
O velho do jornal de notícias
E a sua cadeira que traz sempre de casa,
A cadeira e a gargalhada moral ressequida.
A mãe fumegante e opulenta e os seus dois filhos preciosos
Como aquela televisão de 82cm que figura no panfleto
Não o pode ver hoje
Está em uso debaixo da banca da louça
Impedindo o dilúvio.
Na parede
Em cima da cota de cabelo descolorado que todos os dias pede para ligar
Para um número que já não existe ou não existiu, o néon esverdeado como catarro

SALÃO DE
CHÁ DA RASA


O local onde se servem chávenas de café queimadas.

Deveria ser esta a adenda, talvez entre parêntesis
Como um delimitado corpo, rio turbulento duma torneira entupida.

terça-feira, junho 17

LOCURTINO DE ABISSAL

O conhecimento é nulo. É uma denominação para algo que não sabemos nem nunca soubemos usar. Nunca soube o seu ritmo. Nunca tomou conhecimento de que o relógio e a sua invenção foram o maior crime alguma vez cometido no universo a que chamamos de história. Um relógio nunca pára. E o conhecimento, ou melhor, o conceito de tal suposição determinada, é um veículo incorpóreo devido à velocidade estonteante que o move. Locurtino de Abissal retratou isso muito bem nos seus escritos. Visto como um dos pais do Ambiguismo viu no mundo da sua época que chegou até hoje, demoradamente, o equilíbrio do caos, tema este bastante debatido pelo meio intelectual que cresceu como um monstro no palaciano passar do tempo. Já na sua época achava que o afastamento entre os homens que tinha como ponto de origem o surgimento daquilo a que se chamava de conhecimento -que a meu ver e tendo em conta evolução se pode determinar mais concisamente como proto-conhecimento-, já previa a marginalização tirana perante o colectivo, achava que um dia a inteligência seria tomada como um forma de divindade capaz de controlar o mundo, real ou irreal. No manuscrito “O mundo e o Conhecimento” faz uma crítica muito seca à classe que se estruturava já na sua contemporaneidade

«Estes homens que crescem, exímios na procura dum sentido para a vida, acham que são mais que os outros, que através da sua alfabetização irão encontrar um espaço vivencial que lhe embalará os filhos e os filhos por sua vez acharão o mesmo. Acham que aprender nas devidas instituições de ensino é o caminho para o mundo repleto de fantasias, e que todos aqueles que se recusam a ir por esse caminho são autênticos e reprováveis animais. Argumentam que no futuro quem não tiver como bases todas as suas descobertas maravilhosas no campo de filosofia, todas estas promessas abstractas que sinceramente e naturalmente não consigo perceber, não vive no mundo com o qual sonharam, o local onde o conhecimento é simbiose para com o meio terrestre em que caminham. Declaram guerra cerrada ao instinto. Veneram Coferti O Mago e vêem nele e na batalha da Antiga Antiguidade o exemplo máximo e o caminho para a intemporalidade. Apoiam-se no texto “O Intelectualismo” desse mesmo guerreiro que entre outras coisas e para não dar muita importância, defende que «Os homens determinam-se pela classe de inteligência» e que «Os Aliortes ao se recusarem a aprender, não sabem que o mundo tem muito para lhes dar para além do medo.» A partir destas máximas tudo para eles faz então mais sentido. Acham que o medo de saber não se justifica, tudo se torna claro cada vez mais claro, só não sabem que a cegueira leva à prisão do espírito. Se acreditasse neste nosso deus diria que era um feliz contemplado, um adormecido intelectual iluminado pela sua espada que abre espaço para o pensamento na mata densa e selvagem. Sou um egoísta por não acreditar, por perceber que não sou mais que os Aliortes, que agora mesmo enquanto escrevo olho pela janela e vejo o mundo como eles, sem nenhuma análise ou tentativa de compreensão, que isto a que chamamos de conhecimento é uma farsa criada por alguém, um embuste que nos trama e engole no mato, nos escaparates da nossa compreensão que nada vê e nada consegue perceber só porque nada há para perceber. Sinto-me um inútil, repartido no campo de batalha, retalhado por esta compreensão que de nada me serve. Vejo todo este bando alfabetizado a criar caminhos, a dividir o mundo, a criar soluções que são problemas, só porque mais logo tem que ir mais fundo e quanto mais rápido compreenderem melhor. Agora até há quem pense que os problemas são a solução, que se existem só tem que ser ultrapassados, como se fosse tão linear e instantâneo. Agem por bem nas suas mentes sem compreenderem o que é isso de agir e quais são as suas causas e consequentemente os seus efeitos. No caso de Liberpol Colinope -que morreu há bem pouco tempo, depois de se fechar em casa e procurar a chave para a compreensão durante muitos anos – “o homem inteligente que um dia quiser e achar depois de muito cálculo cerebral que as origens do homem deveriam ser imutáveis, não percebe que o conhecimento é um novo mundo, um meio que permite chegar à divindade pessoal.” Nos seus estudos notáveis e aprofundados da vida e convicções d’O Mago concluiu entrelinhas que quando o meio não se revelar favorável à origem e às razões da batalha da Antiga Antiguidade, nem tudo está perdido, somente porque a compreensão servirá para acalmar o espírito duma forma egoísta que o inflamará como madeira seca. Como é belo este bando de senhores que possuem a razão. Talvez um dia se dividam e batalhem entre si, como um dia os nossos ancestrais se dividiram. Talvez surja num futuro indeterminado um apologista contra o Intelectualismo, um filho desiludido com a herança que o sangue lhe deixou, um desiludido como eu, contra todo este mundo que é cada vez mais nosso sem que eu o queira para mim.»

Abissal encontrou pela simples observação o destino da evolução do homem. Defendia que a divisão entre os homens não era mais do que uma necessidade de afirmação e justaposição perante o abismo e a sede de conhecimento. A razão de batalha ganha por Coferti era muito linear e não tão complexa como achavam e mistificavam os pueris pensadores da sua época.

«A inflamação do ego, e as suas necessidades despertas pelo medo de acabar, levaram O Mago a iniciar uma chacina perante um adversário que muito bem conhecia não fosse ele sangue do próprio sangue. Tinha vergonha do seu passado. Se ele tinha conseguido a aprender a escrever e a compreender o mundo porquê que os seus conterrâneos não compreendiam? O seu professor -agora que já temos denominação para tal – baralhou-lhe o cérebro. Se ele compreendia, porque razão lhe tinha dito que o homem não é todo igual e nem sempre assimila o conhecimento? Fazia-lhe bastante confusão ter que estar fechado o dia todo e ficar proibido de partilhar com alguém tudo aquilo que sabia, se ele percebia o mundo, todos os outros também. Durante muito tempo, até à data da morte do seu amo, ansiou o mundo. A enclausura e identificação com as origens que o acaso lhe tinha roubado tornou-o num ser curioso desejoso por saber que um dia iria ver o mundo e iria modificá-lo como assim teria que ser. Não sabia se haveria de sorrir como um louco ou chorar como um tolo quando a morte lhe trouxe a liberdade de agir segundo os ensinamentos adquiridos.»

Nesta passagem determinou-se o espectro do ambiguismo. A morte como elemento chave leva Coferti a questionar muito instintivamente qual o caminho a seguir, e a encarar o ensino e consequente compreensão, como um enigma nunca desmascarado pelo seu professor. Apesar de todo ódio aos estudiosos do seu tempo devido ao fanatismo pelo guerreiro, Abissal vê nele a origem para o confronto que se revelou e cresceu até hoje. A curiosidade é para ele a fonte de todos os problemas.

«Quando nos defrontamos com um problema o conhecimento leva-nos a tentar resolvê-lo, mas no entanto, põe seriamente de lado a hipótese de erro, sendo assim, apenas o contornamos.»

Este pensador filho nato do conhecimento que tanto o mutilou e acabou por levar ao suicídio numa época infindável que não consigo descobrir, compreendeu o mundo como meio e o homem como finalidade para ele mesmo. Os seus pensamentos filosóficos que descobri por obra do acaso dentro dum invólucro de pedra no oceano, levam-me a crer que a evolução do homem começou com a contagem decrescente e acelerada do mundo.

«O Mago descobriu a terra e tratou de germinar o conhecimento. Todos os homens que o conheceram e tinham predisposição para a aprendizagem seguiram os seus ensinamentos e criaram outros ensinamentos e outros caminhos e outras soluções e outros problemas. Outros matavam a seu mando para possuir tudo aquilo que queria possuir e saciar-se assim de todos os anos de proibição e abstinência de acção. A partir do momento em que saiu da sua prisão contra vontade do seu falecido professor, ele os homens e o mundo nunca mais foram o mesmo. Tudo porque guardou em segredo a enigmática proibição do seu pai que tantas vezes depois de algumas desilusões lhe ressurgia na cabeça “Os seres não são todos iguais e o conhecimento nunca deve ser transmitido para lá de ti sem que o sintas sem medo. Vivi muitos anos meu filho, nunca tive pressa, a minha longevidade leva-me a crer que o conhecimento é demasiado perigoso, daí passar-te este meu testemunho esperançoso. Não durarei o suficiente para compreender os homens e o mundo, quero que me jures que nunca o transmitirás a ninguém quando morrer. Já não falta muito. Espero que não, mas acho que me vou arrepender de te ter ensinado tudo isto, és muito jovem para ser ensinado, ainda não pensas como um homem sábio, és apenas uma criança aos pés da verdade. Quando saíres daquela porta e encontrares homens curiosos, mais, ou menos desenvolvidos do que eu e que tu, diz-lhes que tudo não passa ainda duma errónea solução, que o conhecimento é a pior arma alguma vez criada.” Não contava a ninguém este desabafo do seu percursor, a vergonha matá-lo-ia apressadamente. E eu muito menos demonstro esta faceta deste deus dos pensadores e apologistas adormecidos do intelectualismo de Colinope, que seguindo a sua sugestiva suposição “um dia irá vingar contra qualquer tempestade causada pelo erro que poderá sempre ser corrigido ou tolerado com mais ou menos afinco.” Tenho vergonha do conhecimento que possuo, tenho um medo mais do que justificado de abrir mais uma porta para o abismo, algo passível de ser analisado e tomado como uma verdade absoluta sem que o seja.»

As suas palavras não enganam e não poderiam fazer mais sentido do que hoje em dia.

«Nichos de intelectuais povoarão o mundo em pingas e dirão que as suas bases são a solução para tudo, mesmo que na prática isso não aconteça. Desiludidos seguirão a via da divinização do conhecimento, uma idolatria que levará a um sentimento recalcado e dividido. Para alguns a inércia será a força central, sentir-se-ão deuses da compreensão, viverão cheios de ideais de mudança e inconformismo nas suas cabeças. Verão nas massas instruídas a culpa para todos os cataclismos somente porque não atingiram a supremacia da errónea e injustificada intelectualidade. Outros dirão que o mundo está perdido e povoarão outro que só existirá na sua loucura. A arrogância e o orgulho separará os intelectuais dos outros ditos selvagens como deveria ter acontecido na batalha da Antiga Antiguidade. Será tarde entretanto, o conhecimento já acelerou para lá da naturalidade fundamental, os homens nunca perceberão que o conhecimento não pode ser fruto dos caprichos.»

Este homem deitou por terra todos os instruídos anteriores e posteriores a si. Mas no entanto não deitou por terra toda a esperança.

«Talvez num futuro surja mesmo um homem contra o intelectualismo, nunca profeta nem salvador, mas sim capaz de derrotar todas as bolhas de conhecimento. Um homem que diga que o intelectualismo é um capricho hipócrita que teve como base o conhecimento e compreensão que tanto o delicia e aniquila. Mesmo que tarde, fará então perceber ao mundo que a ambiguidade da natureza não nos permite afastarmo-nos dela e criarmos uma nossa igualmente dúbia. O Conhecimento existe mas engana-nos, ilude-nos ao ponto de nos acharmos inteligentes.»

Locurtino de Abissal deixou antes de morrer um último desabafo

«Porque tendemos a complicar tudo, a seguir os trilhos do conhecimento intrincado? É tudo tão simples e fácil de perceber, somos todos animais e não mais que todos os outros. Para quê tanta curiosidade? Às portas da morte tudo é claro e só agora que me proponho a ela percebo o porquê de querer acabar com todo este enigma



Quando o homem na sua infância colectiva
Abriu campo para os dissidentes
Para os percursores da inteligência que geminou
Semente tortuosa por florescer
Metamorfose do espírito agora individualista
Em busca do desconhecido criado por si

Formou-se o confronto interno da humanidade
Cerrados orgulhos na disputa

-

O dissidente
Olhado de lado
E o seu opositor
Do lado vazio

O evolucionista
E o imobilista

- Quanto mais me contrarias menos mudo…

- Não pode ser!

O que deu o passo até hoje
Até à escrita que deu outro

:

O que teve medo
Na permanência do instinto

:

Não se precisa quando

.

Num dia em que ainda não se escrevia
Um conflito partiu até este momento

,

A contemporaneidade permanece igual a sempre
Desde aquele abstracto dia de medo em que alguém falou mais alto

- Não! Não pode ser!

No local em que tudo mudou
Um silêncio
Fracção milésima para o confronto
Bifurcação ambígua dos seres
Uma resposta para o mundo em que vivemos
Cheio de tudo nos dois pratos da balança

...

A curiosidade cresceu

Abriu caminhos

O mutualismo por identificação
Abriu uma bifurcação da bifurcação

Confronto
Derrota

Confronto
Vitória

Tudo desde o ponto de conflito
Desde o infinito que não futuro

.

- Estou errado… Errei. Quem sou. De que lado estou?»

PALMAS PALMINHAS

Palmas

Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas

Sim
Bravo!

As palmas
As palavras
Palmas para as palavras!

Um eco exponencial
De palmas

Muitas palmas

Para o artista
Para as palavras

Mais!

Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!

Bis!

Palmas

Muitas palmas
Um coro de palmas
As mãos bem ocupadas
As palmas das mãos
Como suporte sonoro

O eco a corroer o espaço
O espaço das palmas
O espaço das palavras

Muitas mãos a dizerem que sim
Muitos bravos a viveram das palmas
E as palavras a morrerem insignificantes

Mais!

Mais palmas
Mais palavras
Mais sins
Mais bravos
Mais do mesmo!

E as palavras a morrerem insignificantes.

Bravo
Muitos bravos!

Muitas palmas para tudo isto!

(0)

A essência é
Lixo concentrado
Local donde jorram
As águas poluídas
Afluentes dos tempos
Os diversos tempos
Cristalizados na História

A essência é
Gruta dos seres
Local sombrio inóspito
Que nos escorre pelas mãos
Água preta e pastosa
Personificação do vulto
Que nos move.

A essência não é
Magia encantada
Pureza no corpo

É conformação
Espelho que reflecte
A embriagante imagem
Que conspurca os gestos

A essência queimou
É mero carvão que sobra
Duma fogueira que já não arde

domingo, junho 15

SALDO







À venda o que os judeus não venderam, o que a nobreza e crime não gozaram, o que o amor maldito e a probidade infernal das massas ignoraram; o que nem tempo nem ciência têm que reconhecer:

As Vozes reconstituídas; o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; a ocasião, única, de distender os sentidos!

À venda os corpos sem preço, sem distinção de raça, mundo, sexo, descendência! A riqueza irrompe em cada lote! Saldo de diamantes sem controlo!

À venda a anarquia para as massas; a satisfação irreprimível para os amadores superiores; a morte atroz para os fieis e para os amantes!

À venda as casas e as migrações, os sports, as maravilhas e os comforts perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que fazem!

À venda as aplicações de cálculo e os saltos de harmonia inauditos. Regras e achados nunca suspeitados, entrega imediata.

Ímpeto infinito e insensato de esplendores invisíveis, de delícias insensíveis, e seus segredos enlouquecedores para cada vício, e a sua aterradora alegria para a multidão.

À venda os corpos, as vozes, a imensa opulência inquestionable, o que nunca será vendido! Ainda temos de tudo! Os viajantes não têm que entregar já as suas comissões.


Rimbaud

DEMOCRACIA















«A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.

«Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.

«Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

«Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz, inaptos para a ciência, esgotados para o conforto, e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!»


Rimbaud

quarta-feira, junho 11

SÓ TENS QUE, APENAS ISSO E NUNCA O QUE TENS

Só porque não te mexeste
Perdi toda a esperança
Aguardei frio e chorei

O grito da revolta que nos faz implodir

Só porque nada fizeste
E nada fazes só
Perdi o brilho nos olhos

Só porque não constróis nunca
E nem acompanhado
Perdi a força no âmago

Só porque sou só
E construo contigo
Ganhei uma vida

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento

E só depois de desistir de mim
E acreditar em ti que não acreditas

Vi a nossa morte e a ti ta dou
À luta na espera de te sentires vivo

Vi a morte e a ti te entrego
Toda esperança que não tens
Toda a luta que fervilha em ti
Todo o descontentamento a emergir

Vi a morte e não a vejo portanto

Mas tu crês nela e não percebes
Que a morte que te entrego
É a vida que tens para entregar

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento
À luta na espera de te sentires vivo
Ao grito de revolta que nos faz implodir

Só tens que morrer
Que te entregar à morte
Ao que te move nela

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que morrer
Como eu morro todos os dias
Morto para tudo mas desejoso de viver

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que viver
Como eu vivo todos os dias

Vivo para tudo mas desejoso de morrer

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Só tens que

Apenas isso
E nunca o que tens

Não desistas nunca mais

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Estás vazio

Apenas isso
E nunca o que sentes

Andas iludido

Apenas isso
É o que te move

É o que me dás a acreditar
Em nada
Porque ages no nada

É assim que acredito em mim
Em nada porque és nada

Demonstras-te vazio

Apenas isso
E nunca o que és

Foges e escondes-te

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Falas-me e eu respondo

Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E hipoteticamente acreditar em ti

Só porque desisti de mim
Somente para acreditar em ti
E hipoteticamente acreditar em mim

Mas eu acredito em ti
E quero que tu acredites em mim

Quero que vejamos o que há para crer

E tu acreditas em mim
E queres que eu acredite em ti
E eu que creio nas palavras
Muito para além da imobilidade

Eu que creio na mudança
Muito para além do espírito

Eu que creio no espírito para a mudança

Insurjo-te para viver como nunca viveste
A estrumares o que de ti arde insuportável

Insurjo-te para cuspires nos teus hábitos
Para extenuá-los até ao seu verdadeiro valor


















Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é
Só porque nem eu sei o que isso é…

sexta-feira, maio 30

A UMA VALSA INÓCUA















Invadem-se campos e destroem-se culturas de flores milenares
Os amantes de flores choram de raiva e gritam não e nunca!
Sentem o seu mundo de sonhos inebriantes a ceder
A ruir como água suja a cair para um esgoto ao sol

Tão cedo imaginariam esta chegada
Andavam demasiado ocupados na sua insipidez
No seu nada para a vivência exceptuada ao vegetalismo

Agora insurgem-se finalmente insurgem-se
Estão vivos finalmente vivos e com força para viver

Desde sempre se quedaram nos gestos vestidos
Cada vez mais embalados pela velocidade de tudo
Adormecidos fetos da acção hermética que tanto delicia

Não percebem o que se propõe ao calcar os seus jardins
Não percebem só porque estão demasiado ocupados em podas

Não percebem a força verosímil das palavras
Não percebem nada porque atribuem a culpa à própria morte

Coitados

Tenho pena da vossa ignorância mas percebo-a
Tenho pena de mim até mas percebo-me e aceito-me e aceito-vos
Tenho pena de todo este mal entendido e da vossa mesquinhez de viver

Mas afinal ainda se impõem
Ainda lutam fortes e incongruentes

E isso maravilha-me e a isto chama-se optimismo
Talvez a dose de optimismo que aconselham para as regas

Não têm com que se preocupar

Não chorem mais não gritem mais não me odeiem
Canalizem tudo isso contra os vossos corpos
Lutem contra a vossa ignorância e passividade
Deixem de me ver morto só porque sou todas as vozes
Todas as sombras e todos os males e tudo o que é vosso

Lutem como animais espumosos
Ajam por instinto e esqueçam-se de pensar

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Abram os olhos para não me repetir
Abram os olhos e enjoem e ajam e sejam
Abram os olhos e vejam a razão pela qual escrevo

A minha pretensão não vai para lá dos vossos gestos
Não é mais que um meio para vos espicaçar

É uma pretensão escrita maior que a própria religião

Uma pretensão contra a religião
Uma pretensão contra qualquer tipo de moral
Uma pretensão pretensa em ódios
Uma pretensão que nos arruína e nos eleva


É a ira a roer as concavidades do corpo

A força do teu sangue podre e nauseabundo
A condensação do que afugentas cambaleante
O limite a destruir todas as barreiras da incapacidade

Tudo serve para te ver vivo
Para perceber que ainda te mexes
Que a arte está morta mas pode respirar

Que o cheiro a mofo que dela exalas é apenas circunstancial

Que o requinte na arte é só mais um luxo
Uma característica duma nova classe

Que a beleza na arte é uma necessidade
Uma via para desligar o mundo e criar sobre ele

Que o mundo é a arte e a arte é o mundo

Sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates

E o discurso paralelo é apenas mais uma arma
E vocês só não morrem porque não quero

Quero-vos vivos a fervilhar em ideias
A construir tudo o que destruo com afinco
Para lá das palavras para lá dos sonhos

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Que sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates.

quarta-feira, maio 28

QUEM É QUEM?

Um homem louco é aquele cuja maneira de pensar e agir não se coaduna com a maioria dos seus contemporâneos. A sanidade mental é uma questão de estatística. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e período é a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta é a definição de sanidade mental na qual baseamos a nossa prática social. Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e acções de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psicólogo pode chegar à mesma conclusão. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos em conta. Se um homem tenta viver como se certos destes elementos constituintes do seu ser não existissem, está a tentar viver, num sentido psicológico absoluto, anormalmente. Está a tentar ser louco; e tentar ser louco é insano.

Aplicando estes dois testes, o do historiador e o do psicólogo, à maioria mentalmente sã do Ocidente contemporâneo, que verificamos? Verificamos que os ideais e a filosofia da vida agora geralmente aceites são totalmente diferentes dos ideais e da filosofia aceite em quase todas as outras épocas. O Sr. Buck e os milhões por quem ele fala estão, esmagadoramente, em minoria. Os incontáveis mortos preferem a sentença a seu respeito: estão loucos. Os psicólogos confirmam o seu veredicto. O êxito – «a deusa-cadela, Êxito» na frase de William James – exige estranhos sacrifícios daqueles que a adoram. Nada menos do que automutilação espiritual pode obter os seus favores. O homem coordenado para o êxito é um homem que foi forçado a deixar metade do seu espírito fora da sua personalidade. E se ele aceitar os ideais e a filosofia da vida que a deusa-cadela tem para oferecer, achar-se-á condenado, ou a uma estrénua irreflexão ou a um cinismo poeirento e descolorido. Nascido potencialmente são, ele aprende a sua loucura. “Porque todo o Homem”, como Sancho Pança observou, “é como o céu o fez, e algumas vezes muito pior do que isso” – algumas vezes, também, muito melhor; depende, em parte, dos seus próprios esforços, em parte das tradições, das crenças, dos códigos, da filosofia da vida que acontece ser corrente na sociedade em que ele nasceu. Onde esta herança social é uma loucura, o indivíduo naturalmente mais normal está moldado à semelhança de um louco. Em relação à sociedade em que vive, ele é, sem dúvida, normal, porque se parece com a maioria dos seus pares. Mas eles são todos, falando em absoluto, conjuntamente loucos.
A Natureza permanece inalterável, quaisquer que sejam os esforços conscientes feitos para a deformar. Os Homens podem negar a existência de uma parte do seu próprio espírito; mas o que é negado não é por isso destruído. Os elementos banidos vingam-se nos indivíduos, nas sociedades inteiras. Uma coisa apenas é absolutamente certa quanto ao futuro: que as nossas sociedades ocidentais não se manterão por muito tempo no seu presente estado. Ideais loucos e uma filosofia lunática da vida não são as melhores garantias de sobrevivência.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

A 1ª AVENTURA CELESTE DO SENHOR ANTYPIRINE (EXCERTO)

Nós declaramos que o automóvel é um sentimento

que já nos animou em demasia na lentidão das suas abstracções

e os transatlânticos e os ruídos e as ideias. Entretanto

exteriorizamos a felicidade, buscamos a essência central

e ficamos muito contentes por a esconder. Nós não queremos

contar as janelas das maravilhosas elites, pois que Dada

não existe para ninguém e queremos que todos percebam isso mesmo

uma vez que é da varanda de Dada, garanto-vos, que se podem ouvir

as marchas militares

e descer cortando o ar como um serafim nos balneários públicos

para urinar e compreender a parábola.

Dada não é loucura, nem sabedoria, nem ironia – olha para cá

a ver se me vês

gentil burguês.

A Arte era um jogo, uma noz, as criancinhas

juntavam as palavras com um guiso na ponta e depois choravam

gritavam a estrofe e calçavam-lhe botinhas de boneca e a estrofe

transformava-se em rainha para morrer um bocadinho

e a rainha transformava-se numa baleia e as crianças corriam

corriam até perder o fôlego.

Então chegaram os grandes embaixadores do sentimento

gritando historicamente em coro

psicologia psicologia ia ia

Ciência Ciência Ciência

viva a França!

Nós não somos ingénuos

nós somos sucessivos

nós não somos o contrário de exclusivos

de certeza que não somos simples

e sabemos perfeitamente discutir a inteligência.

Mas nós, Dada, nós não somos da sua opinião

visto a Arte ser uma coisa pouco séria

asseguro-vos

e se vos apontamos o Sul e o crime

para dizer empanturradamente ventilador

arte negra e sem humanidade

é para que o prazer vos sufoque

queridos ouvintes


Tristan Tzara



terça-feira, maio 27

INKZ

Li no chão:
As precisões da produção
têm efeitos abruptos na intimidade
Qual o peso da alegria?
O tamanho da agonia?
A altura do desejo?
O comprimento da resignação?
Só nas fábricas evasivas
é que ainda se produzem emoções
em modelo Revolta
tamanho XL

Todas as identidades são dançantes



antimanifesto para uma arte incapaz,
Boaventura de Sousa Santos

segunda-feira, maio 26

A CONDENAÇÃO DO ASSASSINO

E só porque o ódio nos inflama o corpo
Ao extremo de sentirmos um orgulho medonho
O mundo gira e chocamos uns com os outros
Ignorantes ao ponto de termos uma razão suposta
Que nos alimenta o ego monstruoso

A fonte para a coerência
Subliminar processo para a credibilidade

A que nos move cheios de convicções
Rumo ao destino ultrajado pela vontade

O veículo da inteligência que nos aprisiona
Que nos faz sangrar nesta banheira sideral

A que ilude, tortuosa e selvagem
Para lá de todos os sois de todas as luas
De todas infinidades expositivo/argumentativas
Que nos levam até à sapiência do egoísmo;
Que estratifica os homens e sacrifica os sonhos
Ao ponto de levarmos as discussões que nada resolvem
A um mero ponto, a um simples e carnal umbigo

Um fio que nos aprisiona e amordaça
Nadadores aflitos na corrente do rio
Mergulhadores da solidão

Ouvem-se os hinos ao amor na discórdia
Símios refractados pelo colectivo sombra
Umbilicalmente ligados pelo medo,
Limbo da razão de todos factos
De todas as tempestades e de todos os céus
Que nos fazem voar inseguros,
De todas as mágoas de todas alegrias
De todos cantos dos pontos mais remotos
Desde o eremita até ao integro ser

O eremita tem medo
Assusta-o toda a dança mortífera

Todo o orgulho construído
Todas as discussões petrificadas

O integro ser, igualmente o medo
Assusta-o toda a solidão mortífera

Todo o orgulho destruído
Todo o ostracismo petrificado

E toda a razão se esvai
Como sangue a tingir o chão pisado

Toda a coerência se afunda
Como um barco com um buraco na proa

Tudo arde até que só nos restam cinzas.

Da razão, da coerência, do eremita
Do integro ser, para sempre o pó
Pequenos grãos de nada.

E das cinzas, do pó, tudo cresce de novo despido
Desprovido de qualquer peso, de qualquer
Denominação explicação necessidade
Somente a uterina sabedoria nunca escrita
Jamais percebida, a sabedoria da pureza das balanças.


Mas como estamos tão bem neste solo
No local onde o querer é tudo o que temos
Despoletar fisgado para qualquer infinito
Como se o amanhã fosse a palma da nossa mão.

Fingimos. Reagimos. Acreditamos no que quisermos
Até que algo nos corta e faz sangrar, um intercalar
Existencial que nos imobiliza. Restabelecemos
O ritmo, a marcha escolhida pelo espírito, triagem
Que nos capacita para tudo, deuses terrestres para
Todos os sonhos e todas a batalhas e todos os fins.

Não importa o chão que pisamos, somos capazes de tudo.
Não importam os sorrisos os gritos agoniantes as gargalhadas
Somente as trincheiras e o conforto da nossa singularidade.

Nem tampouco os confrontos os medos os festins e o amor
Tudo terá um fim e nessa altura tudo cairá sobre nós como lâminas

Acutilantes arrependimentos independentemente do passo tomado.

Para quê festejar para quê chorar para quê o que quer que seja?

Nesta odisseia de pesos tudo vale todos os pesos diferem
Mas todas justificações e todas as loucuras são iguais a nada,
A rigorosamente nada. Hoje nada vale e tudo acontece, hoje
Mais do que nunca, o chilrear dos pássaros é igual ao roncar
Dos porcos que felizes chafurdam na lama da sua naturalidade.







Não somos mais do que fantasmas. Carne púrpura
Que se move para lá da temperatura dos corpos



Somos ardentes signos sob a batuta da razão
Sempre ao encontro dum argumento duma desculpa
Duma solução inalcançável prestes a ser agarrada
Pelos grilhões da ignorância infecciosa.

O relógio dá voltas e voltas
Numa espiral que se esconde nos ponteiros.

A ampulheta vira e revira
Sem nenhuma ordem definida até à
Horizontalidade, até à morte do tempo até
À morte do seu esplêndido símbolo, até à condenação
Do único assassino de sempre.

terça-feira, maio 6

AO DEDILHAR OBSCURO

E então
Inventaram-se os espelhos

Multiplicaram-nos

Do primeiro reflexo
Aos múltiplos reflexos

Foi assim que se fez o mundo
De espelhos apontados para espelhos

Imagens das imagens
Veículos apontados para o infinito

A verdade a decompor-se
A contaminar-se por ilusões refractadas

Desde a ilusão mais pura
Até ao destino mais incerto

Desde o ponto
Até este novelo

Criaram-se as palavras
Os significados

Avivaram-se actos
Brilhos do movimento

A mentira esquecida pelo espelho
Escondida na imagem da verdade
Espelho que oculta todos os espelhos do tempo

Olhamo-nos ao espelho
E só vemos um reflexo

Nada de sério
Apenas uma imagem


Não somos nós

Apenas um espelho que nos aprisiona
Que nos liberta para lá do concreto
Que nos divide e multiplica matematicamente

Foi isto que nos trouxe o espelho
Muito antes de sequer existir

O reflexo do reflexo dos reflexos do reflexo
Labiríntico caminho sem retorno

Espelho que se quebrou e requebra até ao pó
Direcção antagónica que culmina na origem

Assumimo-nos deuses nesse longínquo dia
Criamos e recriamos e moldamos o mundo

Espelho supremo de toda a criação que nos iludiu

Aquando do primeiro reflexo perdido.


(escrito a partir duma frase de Herberto Helder)

BATINAS CASTANHAS

De capacete no sítio. Do local onde correm
Todos os males e desgraças
A circunferencial cabeça rola pelo chão,
A avarenta tômbola do devaneio
Que me contenta com as ideias no sítio
As prosaicas e arcaicas limitações
Das prisões em cores inventadas
Dos estados de espírito formalizados
Que orientam a multidão sedenta,
As cabeças espetadas entre si, emaranhado da sanidade.

Retiro o meu capacete e galgo
Espezinhado por fobias que se elevam
Que cantam que gritam
Adeus! Não mais existem
Os coros da concórdia as batinas da união
A loucura que não minha.

Adeus! Morri de desastre
Bati com a cabeça, renasci pelo trauma
Pela loucura sobre ombros

Vocifero!

“Unam-se orquestras sinfonias
Da agradável desgraça! Passem a estafeta
Para mim que não tenho mãos
Deixem-na cair no solo inflamado pela massa”;

Os limoeiros enrijecem
Para lá da minha (janela),
Entranham as suas raízes,
Asfixiam o peculiar castanho
Do vento que se vê. O céu,
O poético céu
Armistício da chuva
Espelha as vossas imagens

“O peso dos capacetes assim vos pende
Orientados sinais camuflados rumo ao funil destino”

(Do vidro um sorriso
Uma réstia espelhada
Um brilho lamacento
Quebrado, um caco pontiagudo
Uma espada simbólica
Um corte sangrento na bruma).

“Bem hajam trupes da diarreia!”

Habituaram-me ao ódio
Ao asco moldável nos dedos
Que escorre catarata,
À tinta castanha que me lava a cara

“Adoro-vos!”

sexta-feira, maio 2

TOMBSTONE BLUES

The sweet pretty things are in bed now of course
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous

The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"

Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"

The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle

Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues

The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter

Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college

Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Bob Dylan

quarta-feira, abril 30

O SONHO EM MARCHA

O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do Universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas - todos somos afinal só fantasmas, e o que construimos já não cabe entre as quatro paredes da matéria...

Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.


Raul Brandão

sexta-feira, abril 25

HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)

"Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e anti-sociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua corte de escribas e advogados".


The House of Morgan Ron Chernow