domingo, junho 15

SALDO







À venda o que os judeus não venderam, o que a nobreza e crime não gozaram, o que o amor maldito e a probidade infernal das massas ignoraram; o que nem tempo nem ciência têm que reconhecer:

As Vozes reconstituídas; o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; a ocasião, única, de distender os sentidos!

À venda os corpos sem preço, sem distinção de raça, mundo, sexo, descendência! A riqueza irrompe em cada lote! Saldo de diamantes sem controlo!

À venda a anarquia para as massas; a satisfação irreprimível para os amadores superiores; a morte atroz para os fieis e para os amantes!

À venda as casas e as migrações, os sports, as maravilhas e os comforts perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que fazem!

À venda as aplicações de cálculo e os saltos de harmonia inauditos. Regras e achados nunca suspeitados, entrega imediata.

Ímpeto infinito e insensato de esplendores invisíveis, de delícias insensíveis, e seus segredos enlouquecedores para cada vício, e a sua aterradora alegria para a multidão.

À venda os corpos, as vozes, a imensa opulência inquestionable, o que nunca será vendido! Ainda temos de tudo! Os viajantes não têm que entregar já as suas comissões.


Rimbaud

DEMOCRACIA















«A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.

«Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.

«Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

«Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz, inaptos para a ciência, esgotados para o conforto, e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!»


Rimbaud

quarta-feira, junho 11

SÓ TENS QUE, APENAS ISSO E NUNCA O QUE TENS

Só porque não te mexeste
Perdi toda a esperança
Aguardei frio e chorei

O grito da revolta que nos faz implodir

Só porque nada fizeste
E nada fazes só
Perdi o brilho nos olhos

Só porque não constróis nunca
E nem acompanhado
Perdi a força no âmago

Só porque sou só
E construo contigo
Ganhei uma vida

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento

E só depois de desistir de mim
E acreditar em ti que não acreditas

Vi a nossa morte e a ti ta dou
À luta na espera de te sentires vivo

Vi a morte e a ti te entrego
Toda esperança que não tens
Toda a luta que fervilha em ti
Todo o descontentamento a emergir

Vi a morte e não a vejo portanto

Mas tu crês nela e não percebes
Que a morte que te entrego
É a vida que tens para entregar

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Escrevo e contagio o descontentamento
À luta na espera de te sentires vivo
Ao grito de revolta que nos faz implodir

Só tens que morrer
Que te entregar à morte
Ao que te move nela

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que morrer
Como eu morro todos os dias
Morto para tudo mas desejoso de viver

Entregar tudo o que tens

Os teus infames gestos inúteis
Os teus sonâmbulos requintes

Só tens que viver
Como eu vivo todos os dias

Vivo para tudo mas desejoso de morrer

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E consequentemente acreditar em ti

Só tens que

Apenas isso
E nunca o que tens

Não desistas nunca mais

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Estás vazio

Apenas isso
E nunca o que sentes

Andas iludido

Apenas isso
É o que te move

É o que me dás a acreditar
Em nada
Porque ages no nada

É assim que acredito em mim
Em nada porque és nada

Demonstras-te vazio

Apenas isso
E nunca o que és

Foges e escondes-te

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é.

Falas-me e eu respondo

Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque desisti de ti
Somente para acreditar em mim
E hipoteticamente acreditar em ti

Só porque desisti de mim
Somente para acreditar em ti
E hipoteticamente acreditar em mim

Mas eu acredito em ti
E quero que tu acredites em mim

Quero que vejamos o que há para crer

E tu acreditas em mim
E queres que eu acredite em ti
E eu que creio nas palavras
Muito para além da imobilidade

Eu que creio na mudança
Muito para além do espírito

Eu que creio no espírito para a mudança

Insurjo-te para viver como nunca viveste
A estrumares o que de ti arde insuportável

Insurjo-te para cuspires nos teus hábitos
Para extenuá-los até ao seu verdadeiro valor


















Mas nada me dizes
Mas nada fazemos
E nada te digo
E nada fazemos

Só porque há muito que desistes
Só porque aceitas e vives
Só porque te arrastas e sentes vivo
Só porque vives sem nunca saber o que isso é
Só porque nem eu sei o que isso é…

sexta-feira, maio 30

A UMA VALSA INÓCUA















Invadem-se campos e destroem-se culturas de flores milenares
Os amantes de flores choram de raiva e gritam não e nunca!
Sentem o seu mundo de sonhos inebriantes a ceder
A ruir como água suja a cair para um esgoto ao sol

Tão cedo imaginariam esta chegada
Andavam demasiado ocupados na sua insipidez
No seu nada para a vivência exceptuada ao vegetalismo

Agora insurgem-se finalmente insurgem-se
Estão vivos finalmente vivos e com força para viver

Desde sempre se quedaram nos gestos vestidos
Cada vez mais embalados pela velocidade de tudo
Adormecidos fetos da acção hermética que tanto delicia

Não percebem o que se propõe ao calcar os seus jardins
Não percebem só porque estão demasiado ocupados em podas

Não percebem a força verosímil das palavras
Não percebem nada porque atribuem a culpa à própria morte

Coitados

Tenho pena da vossa ignorância mas percebo-a
Tenho pena de mim até mas percebo-me e aceito-me e aceito-vos
Tenho pena de todo este mal entendido e da vossa mesquinhez de viver

Mas afinal ainda se impõem
Ainda lutam fortes e incongruentes

E isso maravilha-me e a isto chama-se optimismo
Talvez a dose de optimismo que aconselham para as regas

Não têm com que se preocupar

Não chorem mais não gritem mais não me odeiem
Canalizem tudo isso contra os vossos corpos
Lutem contra a vossa ignorância e passividade
Deixem de me ver morto só porque sou todas as vozes
Todas as sombras e todos os males e tudo o que é vosso

Lutem como animais espumosos
Ajam por instinto e esqueçam-se de pensar

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Abram os olhos para não me repetir
Abram os olhos e enjoem e ajam e sejam
Abram os olhos e vejam a razão pela qual escrevo

A minha pretensão não vai para lá dos vossos gestos
Não é mais que um meio para vos espicaçar

É uma pretensão escrita maior que a própria religião

Uma pretensão contra a religião
Uma pretensão contra qualquer tipo de moral
Uma pretensão pretensa em ódios
Uma pretensão que nos arruína e nos eleva


É a ira a roer as concavidades do corpo

A força do teu sangue podre e nauseabundo
A condensação do que afugentas cambaleante
O limite a destruir todas as barreiras da incapacidade

Tudo serve para te ver vivo
Para perceber que ainda te mexes
Que a arte está morta mas pode respirar

Que o cheiro a mofo que dela exalas é apenas circunstancial

Que o requinte na arte é só mais um luxo
Uma característica duma nova classe

Que a beleza na arte é uma necessidade
Uma via para desligar o mundo e criar sobre ele

Que o mundo é a arte e a arte é o mundo

Sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates

E o discurso paralelo é apenas mais uma arma
E vocês só não morrem porque não quero

Quero-vos vivos a fervilhar em ideias
A construir tudo o que destruo com afinco
Para lá das palavras para lá dos sonhos

Percebam o que escrevo duma vez por todas
Percebam que a escrita também tem propósitos
Percebam que a arte só é fútil quando como vocês

Que sois animais convictos dispostos a selar pactos
Animais ecléticos pela seriedade de Hipócrates.

quarta-feira, maio 28

QUEM É QUEM?

Um homem louco é aquele cuja maneira de pensar e agir não se coaduna com a maioria dos seus contemporâneos. A sanidade mental é uma questão de estatística. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e período é a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta é a definição de sanidade mental na qual baseamos a nossa prática social. Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e acções de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psicólogo pode chegar à mesma conclusão. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos em conta. Se um homem tenta viver como se certos destes elementos constituintes do seu ser não existissem, está a tentar viver, num sentido psicológico absoluto, anormalmente. Está a tentar ser louco; e tentar ser louco é insano.

Aplicando estes dois testes, o do historiador e o do psicólogo, à maioria mentalmente sã do Ocidente contemporâneo, que verificamos? Verificamos que os ideais e a filosofia da vida agora geralmente aceites são totalmente diferentes dos ideais e da filosofia aceite em quase todas as outras épocas. O Sr. Buck e os milhões por quem ele fala estão, esmagadoramente, em minoria. Os incontáveis mortos preferem a sentença a seu respeito: estão loucos. Os psicólogos confirmam o seu veredicto. O êxito – «a deusa-cadela, Êxito» na frase de William James – exige estranhos sacrifícios daqueles que a adoram. Nada menos do que automutilação espiritual pode obter os seus favores. O homem coordenado para o êxito é um homem que foi forçado a deixar metade do seu espírito fora da sua personalidade. E se ele aceitar os ideais e a filosofia da vida que a deusa-cadela tem para oferecer, achar-se-á condenado, ou a uma estrénua irreflexão ou a um cinismo poeirento e descolorido. Nascido potencialmente são, ele aprende a sua loucura. “Porque todo o Homem”, como Sancho Pança observou, “é como o céu o fez, e algumas vezes muito pior do que isso” – algumas vezes, também, muito melhor; depende, em parte, dos seus próprios esforços, em parte das tradições, das crenças, dos códigos, da filosofia da vida que acontece ser corrente na sociedade em que ele nasceu. Onde esta herança social é uma loucura, o indivíduo naturalmente mais normal está moldado à semelhança de um louco. Em relação à sociedade em que vive, ele é, sem dúvida, normal, porque se parece com a maioria dos seus pares. Mas eles são todos, falando em absoluto, conjuntamente loucos.
A Natureza permanece inalterável, quaisquer que sejam os esforços conscientes feitos para a deformar. Os Homens podem negar a existência de uma parte do seu próprio espírito; mas o que é negado não é por isso destruído. Os elementos banidos vingam-se nos indivíduos, nas sociedades inteiras. Uma coisa apenas é absolutamente certa quanto ao futuro: que as nossas sociedades ocidentais não se manterão por muito tempo no seu presente estado. Ideais loucos e uma filosofia lunática da vida não são as melhores garantias de sobrevivência.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

A 1ª AVENTURA CELESTE DO SENHOR ANTYPIRINE (EXCERTO)

Nós declaramos que o automóvel é um sentimento

que já nos animou em demasia na lentidão das suas abstracções

e os transatlânticos e os ruídos e as ideias. Entretanto

exteriorizamos a felicidade, buscamos a essência central

e ficamos muito contentes por a esconder. Nós não queremos

contar as janelas das maravilhosas elites, pois que Dada

não existe para ninguém e queremos que todos percebam isso mesmo

uma vez que é da varanda de Dada, garanto-vos, que se podem ouvir

as marchas militares

e descer cortando o ar como um serafim nos balneários públicos

para urinar e compreender a parábola.

Dada não é loucura, nem sabedoria, nem ironia – olha para cá

a ver se me vês

gentil burguês.

A Arte era um jogo, uma noz, as criancinhas

juntavam as palavras com um guiso na ponta e depois choravam

gritavam a estrofe e calçavam-lhe botinhas de boneca e a estrofe

transformava-se em rainha para morrer um bocadinho

e a rainha transformava-se numa baleia e as crianças corriam

corriam até perder o fôlego.

Então chegaram os grandes embaixadores do sentimento

gritando historicamente em coro

psicologia psicologia ia ia

Ciência Ciência Ciência

viva a França!

Nós não somos ingénuos

nós somos sucessivos

nós não somos o contrário de exclusivos

de certeza que não somos simples

e sabemos perfeitamente discutir a inteligência.

Mas nós, Dada, nós não somos da sua opinião

visto a Arte ser uma coisa pouco séria

asseguro-vos

e se vos apontamos o Sul e o crime

para dizer empanturradamente ventilador

arte negra e sem humanidade

é para que o prazer vos sufoque

queridos ouvintes


Tristan Tzara



terça-feira, maio 27

INKZ

Li no chão:
As precisões da produção
têm efeitos abruptos na intimidade
Qual o peso da alegria?
O tamanho da agonia?
A altura do desejo?
O comprimento da resignação?
Só nas fábricas evasivas
é que ainda se produzem emoções
em modelo Revolta
tamanho XL

Todas as identidades são dançantes



antimanifesto para uma arte incapaz,
Boaventura de Sousa Santos

segunda-feira, maio 26

A CONDENAÇÃO DO ASSASSINO

E só porque o ódio nos inflama o corpo
Ao extremo de sentirmos um orgulho medonho
O mundo gira e chocamos uns com os outros
Ignorantes ao ponto de termos uma razão suposta
Que nos alimenta o ego monstruoso

A fonte para a coerência
Subliminar processo para a credibilidade

A que nos move cheios de convicções
Rumo ao destino ultrajado pela vontade

O veículo da inteligência que nos aprisiona
Que nos faz sangrar nesta banheira sideral

A que ilude, tortuosa e selvagem
Para lá de todos os sois de todas as luas
De todas infinidades expositivo/argumentativas
Que nos levam até à sapiência do egoísmo;
Que estratifica os homens e sacrifica os sonhos
Ao ponto de levarmos as discussões que nada resolvem
A um mero ponto, a um simples e carnal umbigo

Um fio que nos aprisiona e amordaça
Nadadores aflitos na corrente do rio
Mergulhadores da solidão

Ouvem-se os hinos ao amor na discórdia
Símios refractados pelo colectivo sombra
Umbilicalmente ligados pelo medo,
Limbo da razão de todos factos
De todas as tempestades e de todos os céus
Que nos fazem voar inseguros,
De todas as mágoas de todas alegrias
De todos cantos dos pontos mais remotos
Desde o eremita até ao integro ser

O eremita tem medo
Assusta-o toda a dança mortífera

Todo o orgulho construído
Todas as discussões petrificadas

O integro ser, igualmente o medo
Assusta-o toda a solidão mortífera

Todo o orgulho destruído
Todo o ostracismo petrificado

E toda a razão se esvai
Como sangue a tingir o chão pisado

Toda a coerência se afunda
Como um barco com um buraco na proa

Tudo arde até que só nos restam cinzas.

Da razão, da coerência, do eremita
Do integro ser, para sempre o pó
Pequenos grãos de nada.

E das cinzas, do pó, tudo cresce de novo despido
Desprovido de qualquer peso, de qualquer
Denominação explicação necessidade
Somente a uterina sabedoria nunca escrita
Jamais percebida, a sabedoria da pureza das balanças.


Mas como estamos tão bem neste solo
No local onde o querer é tudo o que temos
Despoletar fisgado para qualquer infinito
Como se o amanhã fosse a palma da nossa mão.

Fingimos. Reagimos. Acreditamos no que quisermos
Até que algo nos corta e faz sangrar, um intercalar
Existencial que nos imobiliza. Restabelecemos
O ritmo, a marcha escolhida pelo espírito, triagem
Que nos capacita para tudo, deuses terrestres para
Todos os sonhos e todas a batalhas e todos os fins.

Não importa o chão que pisamos, somos capazes de tudo.
Não importam os sorrisos os gritos agoniantes as gargalhadas
Somente as trincheiras e o conforto da nossa singularidade.

Nem tampouco os confrontos os medos os festins e o amor
Tudo terá um fim e nessa altura tudo cairá sobre nós como lâminas

Acutilantes arrependimentos independentemente do passo tomado.

Para quê festejar para quê chorar para quê o que quer que seja?

Nesta odisseia de pesos tudo vale todos os pesos diferem
Mas todas justificações e todas as loucuras são iguais a nada,
A rigorosamente nada. Hoje nada vale e tudo acontece, hoje
Mais do que nunca, o chilrear dos pássaros é igual ao roncar
Dos porcos que felizes chafurdam na lama da sua naturalidade.







Não somos mais do que fantasmas. Carne púrpura
Que se move para lá da temperatura dos corpos



Somos ardentes signos sob a batuta da razão
Sempre ao encontro dum argumento duma desculpa
Duma solução inalcançável prestes a ser agarrada
Pelos grilhões da ignorância infecciosa.

O relógio dá voltas e voltas
Numa espiral que se esconde nos ponteiros.

A ampulheta vira e revira
Sem nenhuma ordem definida até à
Horizontalidade, até à morte do tempo até
À morte do seu esplêndido símbolo, até à condenação
Do único assassino de sempre.

terça-feira, maio 6

AO DEDILHAR OBSCURO

E então
Inventaram-se os espelhos

Multiplicaram-nos

Do primeiro reflexo
Aos múltiplos reflexos

Foi assim que se fez o mundo
De espelhos apontados para espelhos

Imagens das imagens
Veículos apontados para o infinito

A verdade a decompor-se
A contaminar-se por ilusões refractadas

Desde a ilusão mais pura
Até ao destino mais incerto

Desde o ponto
Até este novelo

Criaram-se as palavras
Os significados

Avivaram-se actos
Brilhos do movimento

A mentira esquecida pelo espelho
Escondida na imagem da verdade
Espelho que oculta todos os espelhos do tempo

Olhamo-nos ao espelho
E só vemos um reflexo

Nada de sério
Apenas uma imagem


Não somos nós

Apenas um espelho que nos aprisiona
Que nos liberta para lá do concreto
Que nos divide e multiplica matematicamente

Foi isto que nos trouxe o espelho
Muito antes de sequer existir

O reflexo do reflexo dos reflexos do reflexo
Labiríntico caminho sem retorno

Espelho que se quebrou e requebra até ao pó
Direcção antagónica que culmina na origem

Assumimo-nos deuses nesse longínquo dia
Criamos e recriamos e moldamos o mundo

Espelho supremo de toda a criação que nos iludiu

Aquando do primeiro reflexo perdido.


(escrito a partir duma frase de Herberto Helder)

BATINAS CASTANHAS

De capacete no sítio. Do local onde correm
Todos os males e desgraças
A circunferencial cabeça rola pelo chão,
A avarenta tômbola do devaneio
Que me contenta com as ideias no sítio
As prosaicas e arcaicas limitações
Das prisões em cores inventadas
Dos estados de espírito formalizados
Que orientam a multidão sedenta,
As cabeças espetadas entre si, emaranhado da sanidade.

Retiro o meu capacete e galgo
Espezinhado por fobias que se elevam
Que cantam que gritam
Adeus! Não mais existem
Os coros da concórdia as batinas da união
A loucura que não minha.

Adeus! Morri de desastre
Bati com a cabeça, renasci pelo trauma
Pela loucura sobre ombros

Vocifero!

“Unam-se orquestras sinfonias
Da agradável desgraça! Passem a estafeta
Para mim que não tenho mãos
Deixem-na cair no solo inflamado pela massa”;

Os limoeiros enrijecem
Para lá da minha (janela),
Entranham as suas raízes,
Asfixiam o peculiar castanho
Do vento que se vê. O céu,
O poético céu
Armistício da chuva
Espelha as vossas imagens

“O peso dos capacetes assim vos pende
Orientados sinais camuflados rumo ao funil destino”

(Do vidro um sorriso
Uma réstia espelhada
Um brilho lamacento
Quebrado, um caco pontiagudo
Uma espada simbólica
Um corte sangrento na bruma).

“Bem hajam trupes da diarreia!”

Habituaram-me ao ódio
Ao asco moldável nos dedos
Que escorre catarata,
À tinta castanha que me lava a cara

“Adoro-vos!”

sexta-feira, maio 2

TOMBSTONE BLUES

The sweet pretty things are in bed now of course
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous

The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"

Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"

The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle

Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues

The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter

Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college

Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Bob Dylan

quarta-feira, abril 30

O SONHO EM MARCHA

O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do Universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas - todos somos afinal só fantasmas, e o que construimos já não cabe entre as quatro paredes da matéria...

Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.


Raul Brandão

sexta-feira, abril 25

HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)

"Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e anti-sociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua corte de escribas e advogados".


The House of Morgan Ron Chernow

segunda-feira, abril 14

BASTIDORES DA SELVA ABRANGENTE

Os subúrbios são o espaço da mistura de espécies individuais, a possibilidade num jogo aleatório dos espíritos, uma intimidade essência do percurso construtor do destino. Por vezes um encontro é a base para o uno, a área do tu eu, confronto saudável e progresso na identificação que nos rege a euforia alegre, o caminho que os hábitos determinam, o previsto analisado e absorvido em consonância com o tempo que nos molda, como felizes contemplados num concurso de milhões de notas em música aquecida por um espírito latino rebelde que vai amolecendo confortavelmente -a inércia a subir pela via da esquerda, a rápida que nos imobiliza galopante pela estrada, ao traçado pessoal que transfigura porque o tempo é o presente, os restos do passado amadurecidos em casca de carvalho, o processo do tempo em desmultiplicação acontecida por fragmentos doces e oriundos das profundezas do princípio que é a razão desconhecida, a razão que não se fez por nós, a que se foi fazendo sem se ver quando distraídos pela vivência, a vivência que é vida, o limbo da vitória, a união segmentada pela disponibilidade dos encontros, -a probabilidade lançada à velocidade de tudo o que vai acontecendo aceitavelmente: mar flutuante e cheio, com rochas que atingem os montes que não tocam na superfície da água, os montes das nuvens fofas e apaziguantes, as almofadas que dissimulam a realidade acutilante. As pessoas circulam pela matéria que ordena o traçado cósmico como elemento necessário e natural, passeiam pelo habitat que nos molda como barro que difere na plasticidade de cada preparação, do avançar particular e conciso, à qualidade da origem que se procura, no presente da magia. Os truques e ilusões sucedem como peixes munidos de ferros, ampolas ingeridas a golfadas enérgicas capazes de levarem à perfeição do homem equilibrista sobre o fio pesado pelo corpo que se mantém apaziguado sobre uma plateia de palmas em pé sobre outros fios de equilíbrio. Os meandros da cidade são assim, cristalização das areias douradas em noites de Inverno Palaciano. É bela a mistela, babel no seu auge sentimental, não há terra certa mas apenas uma forte vontade de viver sobrevivente da selva, a selva mágica com lianas que são fios emaranhados pela mente, pelo espaço místico, mistério, a alquimia da química do cérebro ao serviço do avanço das formas manuseadas pelas tenazes do caranguejo transversal desajeitado que age por instinto nos Bastidores da Selva.
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.

segunda-feira, abril 7

DIAGNÓSTICO PEDIÁTRICO

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo

Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade

Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou

Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade

As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática

Os braços extensíveis
Da exponencial carência

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo

quarta-feira, abril 2

INDIE-COCK-PLOC-CHOC-RETRO

Que belo que é! Jovens preconceituosos tão abertos à cultura de plástico que lhes é entregue, a rotular supostas perversões! Perversos meninos da minha idade, cheios de dores, prestes a descarregar nas dores dos outros. Idílico até! Meninos na moda a escreverem histórias infantis em jeito de quem faz beicinho só porque prontos! Dispensava bem certas opiniões e a de certos meninos bania-as da face da terra! Mas como o ridículo é das essências que mais me fascina, até acho aceitável, hilariante! Tenho pena de dar importância a esse tipo de meninos, mas sinto a necessidade de pagar com a mesma moeda, uma moeda mais pequena sem dúvida e sem tanto engenho. Por isso, meu menino, sim, tu mesmo. Não me dês esse tipo de importância, não mereço nem quero merecer, muito menos dum estereotipado menino como tu, que tão bem personifica essa moda pseudo-contra-cultural que cresce tão harmoniosa e extraordinária.

quinta-feira, março 27

DA MAGIA DOS TEUS DEDOS

Sempre que estou na sua presença
Apenas eu e o seu corpo magnético

As minhas mãos
Ganham uma força férrea delicada
Que lhe percorre o corpo

A sua rata é quente
Uma rata que a contraria
Que transforma o seu não
Num sim ofegante do desespero consentido
Voz imersa na panóplia dos sentidos

As suas ancas são sedosas
Como lombinhos em vinha de alho
Impelem-me a beijá-las
A ferrá-las ao de leve e agarrá-las firmemente

Os seus seios
Voltas perfeitas suculentas

O seu cabelo
Lianas encaracoladas e selvagens
Emaranhado labiríntico que faz de mim
Fantoche da sua sensualidade capilar

O seu corpo

Contrai-se
Estremece
Arrepia

Diz que não diz que sim
Torna-se veículo
Do instinto mais primitivo

A sua voz
Sussurra injustiça
Relembra-me que tenho que ir

Que vai ter que se masturbar

Que não quer masturbar-se porque vicia

Que a solidão na cama
Relembra meus dedos
Que variam na amplitude

Desejo lânguido
Dos seus lábios rosados

INTERRUPÇÃO TRIANGULAR

Algures, num café de Gaia, a meio duma conversa:

-Ó Vitor, desculpa interromper, arranjas-me um cigarro?

-Na boa, pega.

-Obrigado Miguel!

-Carlos?! Chamaste-me Carlos?!

segunda-feira, março 17

"TRABALHO NOCTURNO"

Chama-se simplesmente Zé. Chegou vindo do breu da noite. Apareceu do outro lado da vitrina como se do nada. Pediu uma Super Bock. Demorou a pagá-la, questionei-me e apressado pedi-lhe o dinheiro, já depois de ter bebido uns dois golos da lata. Lá fora, uma noite aparentemente fria, uma noite de Inverno que finda. Perguntou-me se tinha cara de ladrão, olhou-me desconfiado como troco da minha pressa igualmente desconfiada. Perguntou-me também se queria beber alguma coisa, estava disposto a pagar, a dele e o que eu quisesse e pudesse beber. Começou a desenrolar a sua alma.

“Tenho dinheiro, vim agora da Nigéria. Agora não faço nada, apenas bebo, fumas charro? Não? Eu fumo. E bebo! Gosto de beber. As pessoas aqui todas me conhecem. Sou alcoólico para todas. Mas sou homem. Este país é uma merda. Estou a ser filmado, não? Não percebo, aquela câmara da última vez que cá vim estava a apontar para mim, onde está a câmara que me filma? Eu pago, mas onde está a câmara que me grava. Não há? Olha, para veres como sou alcoólico, vês? Está vazia! Ando sempre com ela. Whisky?! Não! Brandy! Gosto de beber, sou trabalhador, vim ao mundo para trabalhar, não tenho medo do trabalho, mas todos estamos cá para trabalhar, não me assusta, quando tenho que, trabalho! Sempre queres beber alguma coisa? Eu pago! Bebe lá! Um sumo, água?! O que quiseres! Não queres?! Não há problema. Pareces ser um gajo fixe! Já agora, vivemos numa sociedade democrática, é democracia? Acreditas na democracia? Em quê que acreditas? Em nada? Não acreditas em nada? Eu acredito. Não sou burro, que idade tens? Já corri mais países do que a tua idade. Podia ser teu avô, ouve-me, o que é preciso é isto, sermos sinceros, livres, o que importa é ser livre, somos livres? Eu sou, quando tenho que trabalhar trabalho, mas gosto de beber, sou alcoólico! Posso fazer um charro? Aqui? A câmara está a filmar? Posso? Olha, para fazer o charro. Estás-te a rir. Vou fazer então. Dá-me outra Super.”

Prosseguiu assim pela calada da noite, falador, falando de tudo ao jeito do álcool.

“Um dia vou-me, mas será que vou mesmo? Será que fico mesmo depois de morto? Fico!? Pareces inteligente, mas digo-te, não leves a mal, a cara é o espelho da alma, tu és um gajo porreiro, eu sou alcoólico, mas tu és um bocado aluado, não leves a mal, notei. Não levas a mal? Estou surpreendido, já tenho uns anos de vida e fico surpreendido que me digas que depois de comido pelos bichos permaneço nas pessoas, nem que seja nas que dizem que sou alcoólico. Sou daqui. Não sou mais do que os outros. Dali de trás. Vim da beira da ponte. Da escarpa!? Nada. Mas pensas que não sei o que é branca?! Camarada gosto de drogas, LSD, coca heroa?! Já estive preso, agora trabalho, para os meus filhos. Trabalhei, agora tenho guita, agora bebo, fumo umas ganzas, sou livre! Estou a ser filmado? IDE FILMAR O CARALHO! SOU LIVRE! O teu patrão não tem mais do que eu, não o conheces? Não conheces o teu patrão?! É uma tristeza, roubam, só roubam. Dá-me outra Super Bock! Eu pago, eu tenho dinheiro! Sou alcoólico! Não me devo preocupar com o que os outros pensam? Se sou feliz? Sou. Sou alcoólico, pensava como tu, mas com a idade mudas, sabias? Sou louco não sou? Somos todos loucos?! Eu sou louco, sou alcoólico, mas trabalho quando preciso!”

Prosseguia aprofundando o monólogo sarapintado por sorrisos opiniões e perguntas minhas, uma conversa que tenho pena que se tenha perdido na integridade da noite. Clientes vinham clientes iam. Falava com todos, nenhum ouvia e fugia, todos paravam para o ouvir, gargalhava e dizia coisas com o seu tom de voz cada vez mais pesado e arrastado. Não esqueço o que disse a um velhote que apareceu.

“Boa noite, bem disposto? Olhe, você que é velhote, eu também sou, mas você é mais velho! Você acredita em padres, na igreja? Ouça o que lhe digo, não acredite! Os padres vieram ao mundo para enganar os velhinhos, ao menos não andam disfarçados! Não gosto de padres! Gosto de beber! Sou alcoólico, tenho uma hepatite, sou louco!”

O velho não mudou de cor, deu-lhe um forte e sincero aperto de mão, foi-se embora. Continuou a falar, a dizer coisas, coisas soltas, bocados capitais.

“Quero mais cerveja, quero outra! Vou fazer outro! A que horas sais? Queres fumar um? Eu dou-te! Não queres? Eu moro já ali.” Pois é. Há que trabalhar. Eu não trabalho, agora, tens a certeza que não me estão a filmar?”

A noite depressa se fez dia, depois de muita indecisão e despedidas, de mais cervejas e charros lá foi, de rastos, pesado como um pedaço de chumbo no fundo do oceano.