segunda-feira, maio 26

A CONDENAÇÃO DO ASSASSINO

E só porque o ódio nos inflama o corpo
Ao extremo de sentirmos um orgulho medonho
O mundo gira e chocamos uns com os outros
Ignorantes ao ponto de termos uma razão suposta
Que nos alimenta o ego monstruoso

A fonte para a coerência
Subliminar processo para a credibilidade

A que nos move cheios de convicções
Rumo ao destino ultrajado pela vontade

O veículo da inteligência que nos aprisiona
Que nos faz sangrar nesta banheira sideral

A que ilude, tortuosa e selvagem
Para lá de todos os sois de todas as luas
De todas infinidades expositivo/argumentativas
Que nos levam até à sapiência do egoísmo;
Que estratifica os homens e sacrifica os sonhos
Ao ponto de levarmos as discussões que nada resolvem
A um mero ponto, a um simples e carnal umbigo

Um fio que nos aprisiona e amordaça
Nadadores aflitos na corrente do rio
Mergulhadores da solidão

Ouvem-se os hinos ao amor na discórdia
Símios refractados pelo colectivo sombra
Umbilicalmente ligados pelo medo,
Limbo da razão de todos factos
De todas as tempestades e de todos os céus
Que nos fazem voar inseguros,
De todas as mágoas de todas alegrias
De todos cantos dos pontos mais remotos
Desde o eremita até ao integro ser

O eremita tem medo
Assusta-o toda a dança mortífera

Todo o orgulho construído
Todas as discussões petrificadas

O integro ser, igualmente o medo
Assusta-o toda a solidão mortífera

Todo o orgulho destruído
Todo o ostracismo petrificado

E toda a razão se esvai
Como sangue a tingir o chão pisado

Toda a coerência se afunda
Como um barco com um buraco na proa

Tudo arde até que só nos restam cinzas.

Da razão, da coerência, do eremita
Do integro ser, para sempre o pó
Pequenos grãos de nada.

E das cinzas, do pó, tudo cresce de novo despido
Desprovido de qualquer peso, de qualquer
Denominação explicação necessidade
Somente a uterina sabedoria nunca escrita
Jamais percebida, a sabedoria da pureza das balanças.


Mas como estamos tão bem neste solo
No local onde o querer é tudo o que temos
Despoletar fisgado para qualquer infinito
Como se o amanhã fosse a palma da nossa mão.

Fingimos. Reagimos. Acreditamos no que quisermos
Até que algo nos corta e faz sangrar, um intercalar
Existencial que nos imobiliza. Restabelecemos
O ritmo, a marcha escolhida pelo espírito, triagem
Que nos capacita para tudo, deuses terrestres para
Todos os sonhos e todas a batalhas e todos os fins.

Não importa o chão que pisamos, somos capazes de tudo.
Não importam os sorrisos os gritos agoniantes as gargalhadas
Somente as trincheiras e o conforto da nossa singularidade.

Nem tampouco os confrontos os medos os festins e o amor
Tudo terá um fim e nessa altura tudo cairá sobre nós como lâminas

Acutilantes arrependimentos independentemente do passo tomado.

Para quê festejar para quê chorar para quê o que quer que seja?

Nesta odisseia de pesos tudo vale todos os pesos diferem
Mas todas justificações e todas as loucuras são iguais a nada,
A rigorosamente nada. Hoje nada vale e tudo acontece, hoje
Mais do que nunca, o chilrear dos pássaros é igual ao roncar
Dos porcos que felizes chafurdam na lama da sua naturalidade.







Não somos mais do que fantasmas. Carne púrpura
Que se move para lá da temperatura dos corpos



Somos ardentes signos sob a batuta da razão
Sempre ao encontro dum argumento duma desculpa
Duma solução inalcançável prestes a ser agarrada
Pelos grilhões da ignorância infecciosa.

O relógio dá voltas e voltas
Numa espiral que se esconde nos ponteiros.

A ampulheta vira e revira
Sem nenhuma ordem definida até à
Horizontalidade, até à morte do tempo até
À morte do seu esplêndido símbolo, até à condenação
Do único assassino de sempre.

terça-feira, maio 6

AO DEDILHAR OBSCURO

E então
Inventaram-se os espelhos

Multiplicaram-nos

Do primeiro reflexo
Aos múltiplos reflexos

Foi assim que se fez o mundo
De espelhos apontados para espelhos

Imagens das imagens
Veículos apontados para o infinito

A verdade a decompor-se
A contaminar-se por ilusões refractadas

Desde a ilusão mais pura
Até ao destino mais incerto

Desde o ponto
Até este novelo

Criaram-se as palavras
Os significados

Avivaram-se actos
Brilhos do movimento

A mentira esquecida pelo espelho
Escondida na imagem da verdade
Espelho que oculta todos os espelhos do tempo

Olhamo-nos ao espelho
E só vemos um reflexo

Nada de sério
Apenas uma imagem


Não somos nós

Apenas um espelho que nos aprisiona
Que nos liberta para lá do concreto
Que nos divide e multiplica matematicamente

Foi isto que nos trouxe o espelho
Muito antes de sequer existir

O reflexo do reflexo dos reflexos do reflexo
Labiríntico caminho sem retorno

Espelho que se quebrou e requebra até ao pó
Direcção antagónica que culmina na origem

Assumimo-nos deuses nesse longínquo dia
Criamos e recriamos e moldamos o mundo

Espelho supremo de toda a criação que nos iludiu

Aquando do primeiro reflexo perdido.


(escrito a partir duma frase de Herberto Helder)

BATINAS CASTANHAS

De capacete no sítio. Do local onde correm
Todos os males e desgraças
A circunferencial cabeça rola pelo chão,
A avarenta tômbola do devaneio
Que me contenta com as ideias no sítio
As prosaicas e arcaicas limitações
Das prisões em cores inventadas
Dos estados de espírito formalizados
Que orientam a multidão sedenta,
As cabeças espetadas entre si, emaranhado da sanidade.

Retiro o meu capacete e galgo
Espezinhado por fobias que se elevam
Que cantam que gritam
Adeus! Não mais existem
Os coros da concórdia as batinas da união
A loucura que não minha.

Adeus! Morri de desastre
Bati com a cabeça, renasci pelo trauma
Pela loucura sobre ombros

Vocifero!

“Unam-se orquestras sinfonias
Da agradável desgraça! Passem a estafeta
Para mim que não tenho mãos
Deixem-na cair no solo inflamado pela massa”;

Os limoeiros enrijecem
Para lá da minha (janela),
Entranham as suas raízes,
Asfixiam o peculiar castanho
Do vento que se vê. O céu,
O poético céu
Armistício da chuva
Espelha as vossas imagens

“O peso dos capacetes assim vos pende
Orientados sinais camuflados rumo ao funil destino”

(Do vidro um sorriso
Uma réstia espelhada
Um brilho lamacento
Quebrado, um caco pontiagudo
Uma espada simbólica
Um corte sangrento na bruma).

“Bem hajam trupes da diarreia!”

Habituaram-me ao ódio
Ao asco moldável nos dedos
Que escorre catarata,
À tinta castanha que me lava a cara

“Adoro-vos!”

sexta-feira, maio 2

TOMBSTONE BLUES

The sweet pretty things are in bed now of course
The city fathers they're trying to endorse
The reincarnation of Paul Revere's horse
But the town has no need to be nervous

The ghost of Belle Starr she hands down her wits
To Jezebel the nun she violently knits
A bald wig for Jack the Ripper who sits
At the head of the chamber of commerce

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"

Now the medicine man comes and he shuffles inside
He walks with a swagger and he says to the bride
"Stop all this weeping, swallow your pride
You will not die, it's not poison"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Well, John the Baptist after torturing a thief
Looks up at his hero the Commander-in-Chief
Saying, "Tell me great hero, but please make it brief
Is there a hole for me to get sick in?"

The Commander-in-Chief answers him while chasing a fly
Saying, "Death to all those who would whimper and cry"
And dropping a bar bell he points to the sky
Saying, "The sun's not yellow it's chicken"

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

The king of the Philistines his soldiers to save
Put jawbones on their tombstones and flatters their graves
Puts the pied pipers in prison and fattens the slaves
Then sends them out to the jungle

Gypsy Davey with a blowtorch he burns out their camps
With his faithful slave Pedro behind him he tramps
With a fantastic collection of stamps
To win friends and influence his uncle

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in TROUBLE
With the tombstone blues

The geometry of innocence flesh on the bone
Causes Galileo's math book to get thrown
At Delilah who's sitting worthlessly alone
But the tears on her cheeks are from laughter

Now I wish I could give Brother Bill his great thrill
I would set him in chains at the top of the hill
Then send out for some pillars and Cecil B. DeMille
He could die happily ever after

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Where Ma Raney and Beethoven once unwrapped their bed roll
Tuba players now rehearse around the flagpole
And the National Bank at a profit sells road maps for the soul
To the old folks home and the college

Now I wish I could write you a melody so plain
That could hold you dear lady from going insane
That could ease you and cool you and cease the pain
Of your useless and pointless knowledge

Mama's in the fact'ry
She ain't got no shoes
Daddy's in the alley
He's lookin' for FOOD
I'm in the KITCHEN
With the tombstone blues

Bob Dylan

quarta-feira, abril 30

O SONHO EM MARCHA

O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida: encerra em si a vastidão do Universo. E com isto teve de atender a máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas - todos somos afinal só fantasmas, e o que construimos já não cabe entre as quatro paredes da matéria...

Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.


Raul Brandão

sexta-feira, abril 25

HOJE É DIA DE FESTA (25 DE ABRIL DE 2008)

"Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e anti-sociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua corte de escribas e advogados".


The House of Morgan Ron Chernow

segunda-feira, abril 14

BASTIDORES DA SELVA ABRANGENTE

Os subúrbios são o espaço da mistura de espécies individuais, a possibilidade num jogo aleatório dos espíritos, uma intimidade essência do percurso construtor do destino. Por vezes um encontro é a base para o uno, a área do tu eu, confronto saudável e progresso na identificação que nos rege a euforia alegre, o caminho que os hábitos determinam, o previsto analisado e absorvido em consonância com o tempo que nos molda, como felizes contemplados num concurso de milhões de notas em música aquecida por um espírito latino rebelde que vai amolecendo confortavelmente -a inércia a subir pela via da esquerda, a rápida que nos imobiliza galopante pela estrada, ao traçado pessoal que transfigura porque o tempo é o presente, os restos do passado amadurecidos em casca de carvalho, o processo do tempo em desmultiplicação acontecida por fragmentos doces e oriundos das profundezas do princípio que é a razão desconhecida, a razão que não se fez por nós, a que se foi fazendo sem se ver quando distraídos pela vivência, a vivência que é vida, o limbo da vitória, a união segmentada pela disponibilidade dos encontros, -a probabilidade lançada à velocidade de tudo o que vai acontecendo aceitavelmente: mar flutuante e cheio, com rochas que atingem os montes que não tocam na superfície da água, os montes das nuvens fofas e apaziguantes, as almofadas que dissimulam a realidade acutilante. As pessoas circulam pela matéria que ordena o traçado cósmico como elemento necessário e natural, passeiam pelo habitat que nos molda como barro que difere na plasticidade de cada preparação, do avançar particular e conciso, à qualidade da origem que se procura, no presente da magia. Os truques e ilusões sucedem como peixes munidos de ferros, ampolas ingeridas a golfadas enérgicas capazes de levarem à perfeição do homem equilibrista sobre o fio pesado pelo corpo que se mantém apaziguado sobre uma plateia de palmas em pé sobre outros fios de equilíbrio. Os meandros da cidade são assim, cristalização das areias douradas em noites de Inverno Palaciano. É bela a mistela, babel no seu auge sentimental, não há terra certa mas apenas uma forte vontade de viver sobrevivente da selva, a selva mágica com lianas que são fios emaranhados pela mente, pelo espaço místico, mistério, a alquimia da química do cérebro ao serviço do avanço das formas manuseadas pelas tenazes do caranguejo transversal desajeitado que age por instinto nos Bastidores da Selva.
A selva é um mar, a fusão de raízes que se escrevem no crânio interliga-se harmoniosamente.

segunda-feira, abril 7

DIAGNÓSTICO PEDIÁTRICO

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca mais o mesmo

Descobriu a prática
A necessidade pela prática
A prática pela experiência
A necessidade na necessidade

Evoluiu o sangue
A mestria dos corpos
Até que para lá se esticou

Do corpo descobriu o engenho
Da compreensão dos gestos
Do aprofundamento da matéria
Da carne quente que se quer manter
Sempre diferente
Para sempre evolução
Para lá da naturalidade

As próteses para o mundo
Emaranhado da técnica
Da ancestralidade selvática

Os braços extensíveis
Da exponencial carência

Cresceu, cresceu
Não mais o mesmo
Nunca o mesmo
Cresceu e nunca
Nunca
Nunca mais o mesmo

quarta-feira, abril 2

INDIE-COCK-PLOC-CHOC-RETRO

Que belo que é! Jovens preconceituosos tão abertos à cultura de plástico que lhes é entregue, a rotular supostas perversões! Perversos meninos da minha idade, cheios de dores, prestes a descarregar nas dores dos outros. Idílico até! Meninos na moda a escreverem histórias infantis em jeito de quem faz beicinho só porque prontos! Dispensava bem certas opiniões e a de certos meninos bania-as da face da terra! Mas como o ridículo é das essências que mais me fascina, até acho aceitável, hilariante! Tenho pena de dar importância a esse tipo de meninos, mas sinto a necessidade de pagar com a mesma moeda, uma moeda mais pequena sem dúvida e sem tanto engenho. Por isso, meu menino, sim, tu mesmo. Não me dês esse tipo de importância, não mereço nem quero merecer, muito menos dum estereotipado menino como tu, que tão bem personifica essa moda pseudo-contra-cultural que cresce tão harmoniosa e extraordinária.

quinta-feira, março 27

DA MAGIA DOS TEUS DEDOS

Sempre que estou na sua presença
Apenas eu e o seu corpo magnético

As minhas mãos
Ganham uma força férrea delicada
Que lhe percorre o corpo

A sua rata é quente
Uma rata que a contraria
Que transforma o seu não
Num sim ofegante do desespero consentido
Voz imersa na panóplia dos sentidos

As suas ancas são sedosas
Como lombinhos em vinha de alho
Impelem-me a beijá-las
A ferrá-las ao de leve e agarrá-las firmemente

Os seus seios
Voltas perfeitas suculentas

O seu cabelo
Lianas encaracoladas e selvagens
Emaranhado labiríntico que faz de mim
Fantoche da sua sensualidade capilar

O seu corpo

Contrai-se
Estremece
Arrepia

Diz que não diz que sim
Torna-se veículo
Do instinto mais primitivo

A sua voz
Sussurra injustiça
Relembra-me que tenho que ir

Que vai ter que se masturbar

Que não quer masturbar-se porque vicia

Que a solidão na cama
Relembra meus dedos
Que variam na amplitude

Desejo lânguido
Dos seus lábios rosados

INTERRUPÇÃO TRIANGULAR

Algures, num café de Gaia, a meio duma conversa:

-Ó Vitor, desculpa interromper, arranjas-me um cigarro?

-Na boa, pega.

-Obrigado Miguel!

-Carlos?! Chamaste-me Carlos?!

segunda-feira, março 17

"TRABALHO NOCTURNO"

Chama-se simplesmente Zé. Chegou vindo do breu da noite. Apareceu do outro lado da vitrina como se do nada. Pediu uma Super Bock. Demorou a pagá-la, questionei-me e apressado pedi-lhe o dinheiro, já depois de ter bebido uns dois golos da lata. Lá fora, uma noite aparentemente fria, uma noite de Inverno que finda. Perguntou-me se tinha cara de ladrão, olhou-me desconfiado como troco da minha pressa igualmente desconfiada. Perguntou-me também se queria beber alguma coisa, estava disposto a pagar, a dele e o que eu quisesse e pudesse beber. Começou a desenrolar a sua alma.

“Tenho dinheiro, vim agora da Nigéria. Agora não faço nada, apenas bebo, fumas charro? Não? Eu fumo. E bebo! Gosto de beber. As pessoas aqui todas me conhecem. Sou alcoólico para todas. Mas sou homem. Este país é uma merda. Estou a ser filmado, não? Não percebo, aquela câmara da última vez que cá vim estava a apontar para mim, onde está a câmara que me filma? Eu pago, mas onde está a câmara que me grava. Não há? Olha, para veres como sou alcoólico, vês? Está vazia! Ando sempre com ela. Whisky?! Não! Brandy! Gosto de beber, sou trabalhador, vim ao mundo para trabalhar, não tenho medo do trabalho, mas todos estamos cá para trabalhar, não me assusta, quando tenho que, trabalho! Sempre queres beber alguma coisa? Eu pago! Bebe lá! Um sumo, água?! O que quiseres! Não queres?! Não há problema. Pareces ser um gajo fixe! Já agora, vivemos numa sociedade democrática, é democracia? Acreditas na democracia? Em quê que acreditas? Em nada? Não acreditas em nada? Eu acredito. Não sou burro, que idade tens? Já corri mais países do que a tua idade. Podia ser teu avô, ouve-me, o que é preciso é isto, sermos sinceros, livres, o que importa é ser livre, somos livres? Eu sou, quando tenho que trabalhar trabalho, mas gosto de beber, sou alcoólico! Posso fazer um charro? Aqui? A câmara está a filmar? Posso? Olha, para fazer o charro. Estás-te a rir. Vou fazer então. Dá-me outra Super.”

Prosseguiu assim pela calada da noite, falador, falando de tudo ao jeito do álcool.

“Um dia vou-me, mas será que vou mesmo? Será que fico mesmo depois de morto? Fico!? Pareces inteligente, mas digo-te, não leves a mal, a cara é o espelho da alma, tu és um gajo porreiro, eu sou alcoólico, mas tu és um bocado aluado, não leves a mal, notei. Não levas a mal? Estou surpreendido, já tenho uns anos de vida e fico surpreendido que me digas que depois de comido pelos bichos permaneço nas pessoas, nem que seja nas que dizem que sou alcoólico. Sou daqui. Não sou mais do que os outros. Dali de trás. Vim da beira da ponte. Da escarpa!? Nada. Mas pensas que não sei o que é branca?! Camarada gosto de drogas, LSD, coca heroa?! Já estive preso, agora trabalho, para os meus filhos. Trabalhei, agora tenho guita, agora bebo, fumo umas ganzas, sou livre! Estou a ser filmado? IDE FILMAR O CARALHO! SOU LIVRE! O teu patrão não tem mais do que eu, não o conheces? Não conheces o teu patrão?! É uma tristeza, roubam, só roubam. Dá-me outra Super Bock! Eu pago, eu tenho dinheiro! Sou alcoólico! Não me devo preocupar com o que os outros pensam? Se sou feliz? Sou. Sou alcoólico, pensava como tu, mas com a idade mudas, sabias? Sou louco não sou? Somos todos loucos?! Eu sou louco, sou alcoólico, mas trabalho quando preciso!”

Prosseguia aprofundando o monólogo sarapintado por sorrisos opiniões e perguntas minhas, uma conversa que tenho pena que se tenha perdido na integridade da noite. Clientes vinham clientes iam. Falava com todos, nenhum ouvia e fugia, todos paravam para o ouvir, gargalhava e dizia coisas com o seu tom de voz cada vez mais pesado e arrastado. Não esqueço o que disse a um velhote que apareceu.

“Boa noite, bem disposto? Olhe, você que é velhote, eu também sou, mas você é mais velho! Você acredita em padres, na igreja? Ouça o que lhe digo, não acredite! Os padres vieram ao mundo para enganar os velhinhos, ao menos não andam disfarçados! Não gosto de padres! Gosto de beber! Sou alcoólico, tenho uma hepatite, sou louco!”

O velho não mudou de cor, deu-lhe um forte e sincero aperto de mão, foi-se embora. Continuou a falar, a dizer coisas, coisas soltas, bocados capitais.

“Quero mais cerveja, quero outra! Vou fazer outro! A que horas sais? Queres fumar um? Eu dou-te! Não queres? Eu moro já ali.” Pois é. Há que trabalhar. Eu não trabalho, agora, tens a certeza que não me estão a filmar?”

A noite depressa se fez dia, depois de muita indecisão e despedidas, de mais cervejas e charros lá foi, de rastos, pesado como um pedaço de chumbo no fundo do oceano.

terça-feira, março 11

CRÓNICA DA FACA DOS DOIS GUMES

Esta era tecnológica revela-se surpreendente apelo. Lado de baixo pelo lado sobre.

É tido como certo, por mim, este passo firme em frente para a liberdade que gradualmente e em aprendizagem trás à superfície o contra-senso maior do abuso da liberdade como forma de prisão. Novas portas abriram-se ao rodar-se as suas maçanetas e fizeram-nos ver mais uma ala da continuidade na liberdade instituída.Foi o que percebi da minha liberdade. Abre-se uma nova porta, explora-se o espaço no seu interior e quando tentamos voltar alguém guardou ou perdeu as chaves para sair, um contra-senso, como referido -liberdade delimitada pela observação transformadora. A liberdade, caro leitor, é uma faca de dois gumes cada vez mais bem afiada na pedra pomos temporal: na sua ponta encontra-se o choque entre lâminas que se esbatem num único vértice. É com tristeza, mas com perfeito espírito de integridade e identificação, que vejo a liberdade de hoje que tanto me guia e me leva à compreensão, na parte da lâmina que já penetra na carne ao mínimo toque. A guerra das liberdades, como desde há muito tempo, continua nos seus dois campos da batalha, liberdade contra liberdade, uma luta pelo mesmo direito, o direito à Liberdade Absoluta, a última, aquela palavra metafísica inventada por nós da qual desconheço os contornos e reconheço apenas o veículo da essência. Este símbolo que tanto apregoamos no espírito dos mais diversos postos da barricada, que se concretizará no culminar da vontade colectiva, vai ser elevado ao ponto de divindade e eu desconheço, para já, qual vai ser o seu valor fixo – isto se já não foi, agora mesmo, e por distracção minha, afixado naquela vitrina que desconhecemos mas que tem a informação burocrática necessária para nos inscrevermos na liberdade dos vencedores da guerra detentores da verdade. A liberdade, como foi definida por senhores do meu passado, só existe no espírito. Hoje, mais do que ninguém que não queira, percebo que só na alma se condensam os sentidos da vida, no recuado da Edificação da Liberdade, o local para onde vamos sonhar acordados. E foi aí, nessa transposição do corpo por parte da alma, que encontrei o ponto comum que rege o nosso objectivo cada vez mais exigido como batalhadores do bem comum e colectivo.

(A minha preocupação pelo colectivo mais do que uma posição esquerdista pessoal, mesmo sendo suspeito por ser canhoto, é uma posição me vem do âmago e uma sintomática confissão da constatação.)

A tecnologia, hoje, é um utensílio indispensável, principalmente a Internet (até lhe digo leitor, que o Word reconhece automaticamente a sua palavra com um w maiúsculo e Internet com i de igual tamanho, enfatizando assim, duas pequenas partículas do universo tecnológico desmultiplicado), sem essa ferramenta, de base Suiça a partir do canivete, não conseguiria de maneira alguma explanar a minha dimensão opinativa, e sem computador então, nem se discute. Lembro entretanto que vivemos num país em que computadores nas escolas não faltam, mas aquecedores em certas não é coisa que abunde, coloco a hipótese de que talvez os computadores venham sem ventilação e o seu consequente sobreaquecimento seja uma útil fonte de calor. Certamente pensarão que sou contra os computadores nas escolas, mas não sou, sou apenas contra a colocação de degraus sem outros anteriores a servir de base. Sirvo-me desta figura de estilo prosaica e até um pouco redutora, para que entenda que os tempos em que vivemos são de liberdade, como disse, faca de dois gumes.

Por um lado é óptimo que os jovens alunos percorram a Internet nas suas escolas como ponto de partida para uma opinião vincada sobre o mundo, ou até, para uma adaptação ao seu mundo que se transforma acelerada e desgovernadamente.

Sou um egoísta caro leitor, falo-lhe em tudo isto para me revoltar sob a capa das palavras contra o cerco cada vez mais fechado à Internet. Irrita-me profundamente perceber que o próprio espaço cibernético tende a ficar cada vez mais burocratizado e controlado, tal como todos os meios de comunicação anteriores. Mais um veículo flamejado pelo poder, pelos donos da liberdade, pelos primeiros a chegar ao cume da faca. Daí olhar para trás e sentir ainda a aura da antiga literatura, da antiga música, da antiga arte dos tempos que tinha outra liberdade mesmo enclausurada. Sinto as saudades a baterem-me do alto dos meus tenros vinte e três anos de idade. A pureza perdeu-se, a liberdade que precisamos perdeu mais um dos seus aliados, não sei quando foi isso precisamente, mas sinto-o.

Cresci num bairro, num desses bairros longínquos que parecem já não existir até que percebemos que ainda existem e servem de catapulta para as nossas memórias de infância. No tempo em que não havia Internet nem computadores nem consolas nem falsidades nem aquecedores nos dias de frio, nem frio tampouco. No tempo em que a puerilidade permitiu que hoje veja o mundo com olhos de ver. O mesmo tempo que me dá agora tempo para escrever tudo isto nesta odisseia pelo mundo que é o meu.

Acredito que me leia e fique a achar que sofro de envelhecimento precoce, talvez sofra, este mundo fez de mim um caco de pote do século vinte e um disperso pelo chão. Vivemos numa liberdade individual partidos. Somos cacos que entre os espaços que nos distanciam formam diversas teias que por sua vez formam uma só. A nossa liberdade resume-se a esses espaços cada vez mais entrosados entre si.

Mesmo assim, sinto-me vivo, sinto-me contínuo da luta das palavras. Sinto-me em liberdade quando escrevo, quando choro lágrimas de tinta e desenho sorrisos amarelos e necessários. Tenho liberdade para tudo isso e para tudo mais que me entreguem de bandeja sem folhetim informativo com asteriscos e letras minúsculas.

Sinto-me.

Tenho a liberdade para agir nos escaparates da acção que me tiraram, pois só me resta esta, a estafeta entregue pela anterior geração que não distinguiu liberdades, a geração do vinte cinco de Abril, a revolucionária, a que se cansou e se adaptou ao admirável mundo novo de liberdades que lhes surgiu como uma aparição -uma luz que os cegou e apagou dos seus olhos o brilho da liberdade.

Ainda hoje neste século, surgem políticos a apregoar ao progresso. Essa palavra tão bonita, tão cheia de pompa e circunstância, e digo circunstância porque a circunstância pós ditadura da velha senhora fez de nós seres esfomeados e finalmente sincronizados com o mundo. Essa palavra tão bem empregue pelo nosso monsenhor ministerial que aproveita a sua liberdade expositiva e argumentativa para descaradamente mentir e ser aceite por nós, seres libertos, que tão facilmente acreditamos que somos livres mesmo que não das suas mentiras.

Não vejo, por tudo isto, Portugal como um buraco negro na Europa, nem culpo os lutadores pela liberdade de expressão do meu passado pelo estado deste meu país com um governo digno de nos pôr a chorar lágrimas de cebola. Somos agora seres globais (a Internet é um dos meios que mais bem argumenta em prol desta afirmação), e como tal, o nosso estado, para lá da governação má, é também influenciada pela incestuosa economia mundial, pela imensa rede que se vai ocupando do espaço cada vez maior entre nós.

Não tenho medo do espaço entre as pessoas, a razão é muito simples, cada vez mais me isolo e quero menos dos outros, irrita-me profundamente aperceber-me do reflexo dos meus defeitos em todas as outras faces com que convivo no dia-a-dia.

O que me assusta e aterroriza é este alastrar incessante deste cancro que nos prende em si, este murmúrio que mal se percebe mas que se ouve. Esta invasão do espaço por uma série de necessidades que se ramificam em propósitos que até há bem pouco tempo não eram tão fundamentais mas que agora nos prendem e nos afastam de tudo o resto que é mais capital que todo o capital das multinacionais sem escrúpulos de todo o mundo criadas pelos fungos dessa ciência a que se chama economia.

A liberdade de escolha é portanto, e digo-o com certeza, uma forma de liberdade que é muitas vezes confundida com a possibilidade de ser livre. Usada como arma de arremesso, em jeito de quem atira com um ramo de flores, proporciona a tal sensação de liberdade que é, como disse, de escolha. Podemos entender liberdade de escolha como e muito contemporaneamente ter acesso a um sem número coisas nas mais diversas variantes e necessidades. Excepto derrubar um governo. Isso é demasiado complicado, a nossa liberdade de expressão já não chega para a liberdade de acção que têm e criaram.

Cheio de escrever e desta liberdade pura que afinal não é assim tão pura quanto isso, encerro esta crónica com as pálpebras pesadas e desejoso de voltar à cama mais uma noite para me perder na outra liberdade pura que entretanto me escapou mas que em boa hora e tarde chegou: o mundo dos sonhos em que vivemos de olhos fechados.

segunda-feira, março 3

O TOLDO VERMELHO

Uma bela noite de verão. A lua mingua, as luzes captam os pedaços iluminados de palavras que murmuram na consistência de pessoas. A temperatura é agradável, o álcool acompanha o silêncio da noite que se faz em copos de vidro abençoados. As cabeças são muitas, movimentos perpétuos na sonoridade aconchegante que tudo mistura: volumes gargalhadas sorrisos e cheiros. Ali estou, descontraído em ritmo sereno que ouve, vê, fala e passa ao lado. O movimento é o centro de gravidade pendular que me faz caminhar na noite. A pele está quente enquanto se gesticula palavras em gestos extraordinários. A melodia vai em frente, sou animal natural da realidade em que vivo. São horas aveludadas enquanto se pede mais um fino. Uma felicidade de bêbado vem-me bem estampada na cara que sorri. Vivemos todos numa sincronia momentânea. É uma noite de verão quente, as palavras sob o toldo vermelho fazem ouvir passadas mais amplas. Somos todos filhos do nosso tempo, sem deus, sem pátria inquestionável, e com toda uma vontade adormecida de ser feliz. Vivemos todos da diferença que é unanimidade. Somos felizes em nós, nas alturas em que ecos de conversas se explanam pelas estrelas que encimam a noite que se vai fazendo iluminada de vida. O ambiente está calmo, os bilhares repousam sob o olhar que é o meu. Tudo se compreende, nada desalinha.

quinta-feira, fevereiro 21

ART BLAKEY & JAZZ MESSENGERS- ARE YOU REAL?



Por vezes, esta pergunta banal impõe-se,
palavras para quê?

segunda-feira, fevereiro 18

A ESSÊNCIA DO HOMEM

Perguntar pelo Infinito
É resposta nas Palavras
É a criação de um mito
O ordenar da desordem

É ir e vir

O Homem é um pêndulo de arroz
Na panela que é Cosmos

Vai e vem!

Responder pelo Infinito
É perguntar nas Palavras
É ordenar de um mito
A criação da desordem

Tic-tac!

O Homem é um ponteiro
No relógio que define o Tempo

Tac-tic…

É a carne apodrecida
No corpo em corrente



O Homem é uma esponja
Na matéria da sua vontade

Zás e traz…

É o veículo Inocente
Na carne que o faz

Traz e zás!

O Homem é uma cobra
Na pele da hereditariedade

Zig zag!

É esquivo da Memória
No sonho da Perfeição efémera

Zag zig…

É o Homem uma árvore
Nas raízes da saudade
Contrariado pela mão

Acção!


Ping-pong!

É a bola lá e cá
Na mesa da Contradição

Pong-Ping…

É o Homem o ridículo
No circo da sua abstracção

Ri e chora…

É o Homem uma Lágrima
Na face da desilusão

Chora e ri!

É um rasgo de Alegria
No pano da Admiração.

Vai e vem
Vem vai…

E Traz e zás!
Zás traz!

E Tic e tac!
Tac tic!

E zig e zag!
Zag zig!

E ping e pong!
Pong-ping!

E ri e chora…
E chora E RI!

É o Homem um Homem



É balança em Equilíbrio
Nos pesos
Consolação!

quarta-feira, fevereiro 13

"THE BIG SLEEP"

Anda por aí muita gente a rir-se dos ingleses que, segundo um estudo agora divulgado, acreditam que Sherlock Holmes, Robin dos Bosques e Os Três Mosqueteiros são seres reais e Churchill uma personagem de ficção. Ora basta ler jornais e ver TV para verificarmos que os portugueses não são menos crédulos que os ingleses. Uma assustadora percentagem de portugueses acredita, por exemplo, que Mário Lino existe e é ministro das Obras Públicas e, tendo adormecido durante a projecção do filme que passa no país há dois anos, julga que Maria de Lurdes Rodrigues, Teixeira dos Santos ou Manuel Pinho são de carne e osso e não alucinações que, como o Freddy Kruger de "Pesadelo em Elm Street", personificam os seus piores medos. Coleridge observa que, de dia, as imagens geram sentimentos ao passo que, durante o sono, são os sentimentos que geram imagens. Assim, é natural que os medos dos professores (caos e desalento nas escolas, derrocada do sistema de ensino) suscitem neles a imagem "uncanny" de Maria de Lurdes Rodrigues e que essa imagem lhes pareça real. E do mesmo modo, nos outros casos, trabalhadores, empresários e cidadãos em geral. A solução é acordar e esfregar os olhos. O problema é que o filme tem uma banda sonora suave e embaladora, propícia à sonolência.

Manuel António Pina

Jornal de Notícias do dia 12 de Fevereiro de 2008

AOS CAVALOS DA DEMOCRACIA

A democracia é a mãe destas nossas sociedades caprichosas. É a trama que vive da liberdade que não temos, tendo-a em absoluto. A democracia é liberdade, a liberdade é rédea solta, a rédea é o que se dá a um cavalo quando a sua selvajaria é total e a sua condição assim exige. Imagino assim certos democratas em campo aberto, a correram furiosamente e a seu bel-prazer sobre chão que sempre foi seu, desde os primórdios da existência democrática. Não especifico democratas como partidários políticos, mas sim como praticantes da democracia. Assim como não diferencio as diversas raças de cavalo existentes. Aqui generalizo apenas.
Sendo eu filho da democracia e consequentemente da liberdade, imagino-me um dia destes a montar um democrata que não é mais que um cavalo – desgraçados dos cavalos, equipará-los a um democrata deve ser aborrecido, mas como nunca conheci um cavalo que tivesse aprendido a leitura, sinto-me livre de abusar de tal ignorância - , a puxar rédea e a gritar alto e a bom som “anda lá democrata, eu quero posso e mando, por ali que se faz tarde!” e o pobre desgraçado que é, a prosseguir comigo em peso sobre o seu costado cansado de tanta correria! Aí sim! Diria que a democracia é liberdade, e que o peso e medida não seriam abuso da liberdade que posso ter na sociedade democrática em que vivo. Adiante. O abuso é feio, e os cavalos andam a abusar! Como tal, seria homem para fazê-los correr até ao fim do mundo, o local vertiginoso em que detritos da terra caiem como água numa catarata de poeiras temporais. Levá-los-ia lá, ou melhor eles levar-me-iam, só para constatarem que idílica imagem era digna de ser vista pelos seus próprios olhos de cavalo com palas. Depois fazia-o voltar atrás, e certamente que ele correria para lá da sua ignorância e eu que remédio que teria que vir atrás. De regresso ao ponto de partida a sua orientada fugida determinaria a sua morte. “Ritmo assustado foi a causa da morte.” Diria concisamente o veterinário depois da autópsia. Nada triste regressaria ao estábulo, por lá escolheria outro democrata, e de lá correria outra vez até ao fim do mundo. Pensava para mim antes de puxar a rédea “mais um que vai morrer, mas que gosto isto me dá!”. Aquela viagem dar-me-ia tanto gosto e espaço para a contemplação, que um dia, depois de dias e dias de óbitos e viagens de ida e volta até ao fim do mundo, acabaria por encontrar o estábulo vazio de democratas. Tal vazio espacial assolar-me-ia de dúvidas, não teriam sido essas viagens abuso da liberdade que me deram? Ou foram somente actos ajustados à democracia que me deram? O dar seria o verbo da minha consumação. O que me tinham dado durante anos era um conceito de democracia deturpada pelo tempo que se desfazia para lá das minhas mãos, e as minhas, tinham sido a razão de todas as mortes.

ENTRE PÁGINAS

Abro o livro que te ampara
Não és personagem
És entre páginas a recordação que me deste
Naquele dia longínquo de Inverno

Nunca te ouvi,
Guardo de ti aquela folha
Aquela tua caligrafia sobre papel pardo
Daquele dia,
O dia em que passaste e não te vi
Do outro lado da rua do meu contentamento
Que não foi maior porque não quiseste

Maravilho-me com o teu cheiro no passar do tempo
O aroma deturpado pelo calor das páginas

Imagino-te, naquela manhã
Sorridente e perfumada como hoje que te toco
Folha de papel que tantas vezes evoco
Na ânsia do sonho que desejo diariamente.

domingo, fevereiro 10

O PÉ

Bato o pé
Cresce poema
Memória do tempo
Que se faz crescente,
Dou um passo
Cresce o poema
Ritmo compassado
Passeio lento:
Troco o passo
Cresce um poema
Viagem pelo pé
Velocidade gema.