quarta-feira, março 7

DIRECÇÃO ÚNICA


Direcção Única são as duas palavras postas ao lado uma da outra para indicar o único caminho por onde deve seguir toda a gente.
E, para que não haja confusões possíveis, encontramos pelas esquinas e encruzilhadas uns discos pintados de encarnado, servindo de fundo e chamariz a umas letras brancas que dizem claramente, para quem quer que seja, e até para os cegos e para os analfabetos: direcção proibida.
Ora, as direcções proibidas não nos interessam absolutamente nada.
Não quer isto dizer que vamos desprezar esses discos das direcções proibidas e desobedecer às suas ordens dadas tão visível e intimativamente para todos sem excepção. Não senhor, não é nada disso.
Pelo contrário: até lhes agradecemos de todo o coração a esses avisos tão bem postos aí nos seus lugares, que ninguém pode vir depois com desculpas de não ter sido avisado a tempo.
A nós não nos interessam as direcções proibidas pela simples razão de que só nos importa a direcção única.
Temos todo o nosso tempo muito certinho muito bem contado, e é o justo para podermos seguir em linha recta pela direcção única.
Se nos enganássemos e fôssemos por qualquer descuido ou capricho nosso por alguma das muitíssimas direcções proibidas que nos aparecem a cada passo, a cada esquina, a cada momento, em todas as encruzilhadas, arriscávamo-nos a não chegar a horas ao fim da nossa viagem, que é como quem diz, ao fim destas linhas que V. Ex.as tão amáveis, estão escutando com tanta atenção.
Mundus a Domino constitutus est. Mundo autem condito, homo factus est. Viro Admus, mulieri Eva nomen fuit.
Sulpício Severo
A direcção única não é assim uma coisa tão recente como toda a gente o pode imaginar à primeira vista. Muitíssimo antes de haver automóveis, carruagens e carroças, muitíssimo antes mesmo de ter sido inventada a própria roda, já havia no mundo a direcção única.
Ela data já daquele dia memorável em que Deus, depois de ter criado o Mundo, deu a alternativa ao Homem.
Mas entre Deus e o Homem há uma diferença dos diabos.
Entregou Deus ao Homem o nosso planeta inteirinho, com todas as suas maravilhas, com todo o esplendor de todas as suas múltiplas fortunas, e ao confiar-lhe desta maneira todas as riquezas da terra, disse-lhe:
- Toma para ti, tudo isto tem uma direcção única.
E levou ao máximo a sua lealdade de Deus para com o Homem, avisando-o como bom e verdadeiro amigo, de que havia também direcções proibidas e, por conseguinte, que tivesse muito cuidadinho com elas.
Mas contemos exactamente como as coisas se passaram:
Comecemos exactamente pelo princípio. Pois ao princípio não havia nada. Mas mesmo o que se chama nada. E sete dias depois já estava feito tudo. Mas mesmo o que se chama tudo.
E tudo isto que levou sete dias a fazer foi tudo feito expressamente para uma pessoa só.
Foi esta, minhas senhoras e meus senhores, a primeira vez que uma pessoa se viu sozinha neste mundo.
Era um homem. Um pobre homem.
Fazia dó vê-lo ali sozinho, metido no meio de todas as riquezas do mundo. Tudo aquilo só para ele e para mais ninguém. Pois se havia só ele em todo o mundo!
Há-de haver muita gente a quem faça inveja uma situação tão desafogada como esta, contudo foi esta a primeira desgraça humana que houve no Mundo. Todas as riquezas da Terra não eram o bastante para que ele não caísse na tristeza do isolamento, na angústia da solidão, nesse inferno – verdadeiro ao ar livre.
Mas Deus reparou logo nessa sua falta e emendou a mão.
Logo que apanhou o homem a dormir, viu que lhe tinha posto uma costela a mais. E é que não lhe fazia mesmo falta nenhuma como se provou logo a seguir. E vai Deus tirou-lha.
Neste momento o homem acordou e pronto, já estava acompanhado!
Já eram duas as pessoas que havia em todo o mundo!
Não eram completamente iguais uma à outra. Havia umas pequenas diferenças. Enfim, há
palavras para dizer exactamente essas diferenças: homem e mulher.
Duas pessoas, duas!
Feitas ambas para se pertencerem uma à outra, para que não se aborrecessem para aí sozinhos, para que não andasse cada um perdido no mundo sem saber o que fazer com todas as riquezas da Terra.
E então Deus disse com os seus botões.
Não há dúvida! Eu não tinha criado o mundo para uma pessoa só. Tinha-me esquecido disso mesmo. Os seres isolados não participam da vida. São seres isolados. Fora do conjunto. Longe de tudo. A parte da própria vida.
E já estamos no dia oito do mundo. E quando em todo o mundo não há senão duas pessoas, a que estas são precisamente um homem e uma mulher, não há perigo de haver engano: foram feitos um para o outro.
Mas Deus, que vê muito mais longe que as pessoas, não havia maneira de se esquecer daquele horroroso espectáculo que oferece uma pessoa quando está sozinha neste mundo, e então tomou as suas precauções para que aquilo não se tornasse a repetir. E fez então a mulher para que fossem duas pessoas e uma única combinação entre elas.
Pensava, é claro; também nos outros homens e nas outras mulheres que viessem depois destes dois. E as suas contas estavam lindamente feitas:
Uma mulher e um homem são duas pessoas, mas só são dois quando não têm nada que ver um com o outro. Por conseguinte é mais verdadeiro dizer que os dois são uma coisa só, única, um par.
Foi esta a condição que Deus pôs a todos os que entrassem no Paraíso Terrestre para gozarem todas as riquezas da Terra: que viessem aos pares, que fossem sempre juntinhos os dois, como os pombinhos, como as cegonhas, como os elefantes, como os cavalos, como os burros, ambos ao mesmo tempo por toda a parte, sem ter cada um nada que pensar em si-próprio, sendo-lhes apenas consentido pensarem nos dois ao mesmo tempo. Numa palavra: a direcção única.
A direcção única era os dois ao mesmo tempo. E as direcções proibidas cada um para seu lado.
E repetimos: queria Deus com estas advertências fazer todo o possível para apagar de vez na face da terra aquele espectáculo horroroso de ver uma pessoa isolada no meio do mundo. Cortou-lhe o coração aquilo e agora tomava as suas medidas para que não tornasse a repetir-se per omnia secula seculorum. Ámen.
Mas como dizemos, tomava apenas as suas medidas, as suas, e eles que fizessem como lhes parecesse melhor.
E assim foi que Deus fez o homem e a mulher semelhantes um ao outro, mas de caracteres opostos, antagónicos; de naturezas independentíssimas cada um deles, acérrimos disputadores da igualdade no par, inimigos do sexo alheio mas irresistivelmente atraídos um pelo outro, inseparáveis de verdade, e condenados para sempre à fatalidade da sua única unidade comum.
Por outras palavras, fez Deus do homem e da mulher dois animais selvagens que não podem ser domados isoladamente. Fez o isolamento ainda pior -do que era, tornou a solidão ainda mais amarga do que devia ser e indicou a direcção única da colaboração entre ambos: 1+1=1.
Mas por causa das dúvidas, e não estando completamente seguro dos resultados por causa deles, não fossem eles estragar-lhe a sua obra, (Deus sabe muito bem e que faz), arranjou as coisas de tal maneira que a Humanidade se multiplicasse e continuasse pelos séculos ainda mesmo naqueles casos em que não fosse possível o entendimento entre a mulher e o homem.
Isto é, a direcção única haveria de ser eternamente a mesma, ainda que em toda a História da Humanidade não se fizessem senão disparates.
Tudo o que se está contando passou-se nos primeiros dias do mundo à sombra de uma árvore. E daqui vem porem agora todas as culpas à árvore. Chamam-lhe a árvore do bem e do mal. Pois sim, agora chamem-lhe nomes! É desta maldita mania que temos de pôr sempre a culpa aos outros. E quando, como nesse dia não há mais ninguém a quem se possa pôr as culpas, pomo-Ias ao que está mais à mão, – à árvore!
Mas a verdade do que se passou é a seguinte:
O par... Ah! agora me lembro de como se chamavam os dois: Adão e Eva!
Pois este par andou por toda a terra, pelas cinco partes do mundo, o qual por esse tempo era todo conhecido e não tinha ainda nenhum pedaço por descobrir; conheceu e gozou todas as maravilhas, todas as fortunas,
todas as riquezas, todas as infinitas felicidades que Deus deitou ao Mundo, até que um dia, dia maldito na História do nosso planeta, depois de já terem feito o que lhes estava permitido fazer, já não tinham mais novidades do que aquelas que eram as proibidas.
Oh curiosidade! Oh apetite!
E claro está também fizeram o que era proibido.
Dizem que foi ela quem começou, mas fosse qual fosse, isso é secundário, o importante é que acabaram os dois.
E então foi o diabo!
Desde esse momento escangalhou-se tudo. Tudo! E foi-se por água abaixo a primeira colaboração que se fazia no mundo.
Cada um para seu lado, cada um no seu isolamento, cada qual na sua solidão. Exactamente como se em vez de um houvesse dois mundos iguais e uma pessoa só para cada mundo.
Era o castigo de Deus. Cumpria-se pontualmente naquele instante em que eles saíram da direcção única e meteram por outras proibidas.
Desde esse mesmo instante todas as coisas deste mundo perderam o seu único sentido e ficaram com vários, um único bom e todos os outros maus, dificílimo de distinguir os maus do bom, parecidíssimos todos, uma trapalhada.
Foi este o pecado mais original que se fez no mundo até hoje. Tão original que aqueles que não puseram para aí nem prego nem estopa também pagam as mesmíssimas favas que os verdadeiros culpados.
E agora sim que não é mania pormos as culpas aos outros. Foi por culpa deles! por culpa desses dois curiosos de direcções proibidas! por causa dessa senhora e desse cavalheiro! por culpa desses dois caloiros da humanidade, nunca mais ninguém soube no mundo até hoje como se fazem as coisas espontaneamente.
E porque já não sabemos fazer as coisas ao natural, não temos mais remédio agora do que aprendermos a fazê-las com técnica.
O que V. Ex.as acabam de ouvir é nem mais nem menos do que a maneira como começa a História do Mundo. Estamos seguros de que absolutamente nenhum dos mortais ignora estas coisas. Por isso mesmo as escolhemos. Para que a novidade não fique pela anedota mas sim no seu verdadeiro e único sentido.
Tão-pouco aqui cabem as opiniões. A maneira como começou o mundo e a humanidade é uma, e não chegam até lá as opiniões particulares de quem quer que seja, inclusive as dos sábios.
A maioria das pessoas julga que a novidade está no material que se emprega para o que seja, quando afinal o material empregado não serve senão de veículo para pôr a claro o sentido único e puro dessa novidade.
Por isso escolhemos esta história conhecida de todos. E também porque ela não consente nenhuma espécie de divergência nos comentários. De modo que estamos obrigados, quer o queiramos ou não, e encontrar aqui o seu verdadeiro e único sentido que está arrecadado na História, ou seja, neste caso, a própria experiência da Humanidade.
Pedimos a V. Ex.as a fineza de repararem em que a História da Humanidade começa exactamente por um fracasso, o fracasso da primeira colaboração entre pessoas.
Ao primeiro homem e à primeira mulher não lhes bastou terem por sua conta todo o Paraíso Terrestre, completo. Ainda quiseram mais do que ter tudo. Ah! não há dúvida nenhuma de que ambos eram muito humanos!
Por outro lado, ele tinha lá as suas ideias, suas dele, e ela tinha as dela, suas dela. Pagavam-se na mesma moeda.
Mas ideias que eram de ambos ao mesmo tempo, essas que eram as únicas dos dois, essas que eram a própria direcção única, foram-se pelas direcções particulares, pelas direcções proibidas.
Palavra de honra que até parece que eram portugueses!
E os seus filhos lá saíram também aos pais.
Caim e Abel não querem nada a meias. Ou tudo para Caim, ou tudo para Abel.
E, continuem reparando V. Ex.as o fracasso da colaboração entre pessoas prossegue na História da Humanidade, de pais para filhos, é hereditário o fracasso, e vai de mal para pior, porque Caim já não pode aguentar tamanho desentendimento com o mano e tem de matar Abel.
E se o não mata, seria Abel quem mataria Caim. O essencial era que desaparecesse um deles. Não importa qual dos dois. O insuportável é que haja dois. Dois estorvam-se um ao outro, é necessário que fique só um. Não importa qual deles.
A humanidade não compreende isto de que cada um seja como é, a não ser o próprio que assim o pensa, mas este quer por força que todos sejam como ele.
E aqui temos uma família desgraçada: o pai e a mãe não se entendem, os filhos saem aos pais, e com esta desgraçada família começou a Humanidade.
Começou e continuou e ainda cá estamos na mesma, graças a todas civilizações que nos fizeram andar vestidos cada uma da sua maneira e graças a Deus também.
E agora vamos lá a saber uma coisa:
O que diriam V. Ex.as se lhes disséssemos que esta família nunca existiu?
E sabeis porque não existiu? Porque é um símbolo.
Como quereis que a humanidade tenha podido guardar até os nomes próprios do primeiro homem e da primeira mulher que viram este mundo? Não vedes que isto tudo é feito com a imaginação e a tradição oral? metade sonhado e metade vivido! Isto é, um símbolo. Uma criação da Arte. Poesia pura. Verdade por cima da realidade. Tragédia autêntica. A tragédia do Mundo.
A própria tragédia em pessoa. A própria tragédia humana:
A impossibilidade de pôr a vontade de cada um onde há outras, onde estão todas as vontades do Mundo.
Adão e Eva, e Abel e Caim, ainda não morreram, estão ainda aqui neste mundo, são os nossos nomes próprios, minhas senhoras e meus senhores.
Na humanidade há pelo menos todas as maneiras de ser, de modo que o humanamente lógico é deixar viver todas as maneiras de ser.
Respeitemos a própria realidade. Não raciocinemos contra o próprio raciocínio:
A individualidade é um fenómeno espontâneo, sem intervenção do Homem, é o próprio papel da natureza.
Ao passo que o do Homem é o que vem precisamente depois do da natureza e consiste em fazer relacionar-se entre si tudo o que é de verdade independente e oposto.
Isto é, como se houvesse dois mundos metidos um no outro e ocupando o mesmo espaço do que um único: no primeiro mundo, o da natureza, a vida é natural; e no segundo mundo, o da humanidade, a vida é social.
E tanto no mundo natural como no social a vida é unânime, feita de todas as coisas e não sobeja nenhuma. E fora dessa unanimidade não há vida possível; não há senão, isolamento, solidão, pior do que a própria morte, e morte antes de morte, e morte em vida.
Não é nossa pretensão assustar V. Ex.as com palavras tão antipáticas a pensamentos tão desusados como estes sobre a morte, a desgraça, a tragédia, o isolamento, a solidão; já sabemos de antemão que V. Ex.as não querem saber de desgraças a que dão o cavaquinho pelas tardes bem passadas, pelas boas piadas, pelas pessoas divertidas, ou por qualquer outra morfina que sem ser a autêntica morfina tenha o mesmo efeito que a morfina; nós já sabíamos isto tudo, mas, francamente, é um espectáculo que não nos agrada, que não vai com o nosso feitio, esse de entrarmos nós também para a bicha das pessoas que estão à espera de que lhes chegue a vez de irem buscar mais lenha para se queimarem.
Fomos instados pelas mais cavalheirescas pessoas da nossa terra para que trouxéssemos aqui à nossa gente alegria a rodos, coragem aos potes, tanks de felicidade, transatlânticos de entusiasmo, e a nossa resposta foi esta:
Alegria sim. Faremos todo o possível. Mas que não confundam a alegria com o riso. O riso é a expressão das caveiras. E a alegria é para os vivos, a coisa mais séria da vida!
Alegria é saber muito bem por onde se vai, é ter a certeza de que o caminho é o bom, que a direcção é a única.
Rogamos portanto, a V. Ex.as que não vejam na palavra tragédia nada de trágico, desanimador, irremediável, fatal, pelo contrário, é na própria tragédia que está toda a claridade do Mundo.
Hoje, neste admirável século XX, herança legítima de todos os mais séculos da História, já não ficou por nenhuma parte nenhum mistério com o qual se possa ainda meter medo do papão aos mais meninos. Hoje a claridade é tal que cada palavra retoma o seu sentido único, cada valor da terra regressa íntegro de todas as espécies da fantasia à sua própria essência, tudo o que é falso dura apenas a própria falsidade, tudo o que é provisório serve apenas para isso mesmo, o que é natural é natural, o que é sobrenatural é sobrenatural, as coisas são o que são, tudo é do seu verdadeiro tamanho, a própria Terra descobriu por fim os seus próprios limites, e a tragédia parece-nos maior do que nunca porque o é de verdade, porque a claridade jamais foi tamanha como hoje e mostra-nos completamente nua, sem disfarce, sem hipocrisias, sem mistério e grande tragédia que afoga a humanidade.
Hoje, neste admirável século XX, trágico e alegre, a claridade é tanta que podemos ver a imensidade da nossa própria tragédia em toda a sua extensão e domínios, e ainda nos fica muita para tapar com ela de uma vez para sempre todas as direcções proibidas, e depois sobra ainda o bastante para irmos abrindo o novo caminho da direcção única.
Avisa-se o público de que estão espalhados por aí uns restos podres que ficaram de ontem, podres e fedorentos, intrujando os nossos sentidos porque à sombra têm a fosforescência dos fogos-fátuos, mas é que são fogos-fátuos, não é mistério nenhum, e ao vir a claridade foi-se-lhes logo aquela luzinha mentirosa. Juramos que estão podres. De resto, cheiram que tresandam!
Referimo-nos lealmente neste momento e alguns sábios (assim lhes chamam ainda os da sua laia) a que vêm a público com uma autoridade, que ninguém sabe como a têm nem quem lha deu, e dizem frases importantes e definitivas como estas:
O individualismo morreu.
Estamos na época colectivista.
Ora muito bem. Analisemos: Se eles dissessem: O indivíduo não existe isso já era outro cantar, e estava certo, diziam uma grande verdade. Mas dizer: o individualismo morreu é aceitar como definitivo, para sempre, esse facto. Ou então, para fazer valer melhor apenas o que eles querem como seja, isto é, a vitória do colectivismo.
Ora, isto é falso. Nem o individualismo morreu nem o colectivismo ganhou. Nem o individualismo pode morrer nunca nem o colectivismo pode jamais sair vencedor por esmagamento do individualismo.
Aqueles que tão falsamente se julgam iluminados para cantar em público o colectivismo como única solução, das duas uma: ou não sabem o que dizem ou então sabem-no muito bem. Se não o sabem são míopes, e se o sabem são de recear.
Como se houvesse hoje alguma solução separada de qualquer outra! Tudo são problemas determinados, cada problema tem a sua solução, mas a única, essa que o mundo inteiro unanimemente busca hoje nas cinco partes, é a de cada problema relacionada com as de todos e a de qualquer outro.
É supinamente cómodo resolver uma complicação como o fazem os simplistas, excluindo todas as outras complicações que não sejam aquela. Mas isso é do que nós já estamos fartos. É a isso mesmo o que se chama uma direcção proibida. E a direcção única é precisamente levar o que está por resolver. O indivíduo, a família e a colectividade, não são três caminhos diferentes, são um único sentido, a direcção única. Se uma pessoa se mete apenas por uma dessas três direcções: O individualismo, a família ou o colectivismo, pode quando muito ser prestável a qualquer das três mas ficará exactamente na terceira parte do seu próprio caminho neste mundo. Isolar o que seja do próprio conjunto a que pertence tudo é fazer disso mesmo uma direcção proibida.
Não se pode separar absolutamente nada do que quer que seja. Todas as coisas se relacionam entre si. A própria claridade só é claridade porque existe de verdade a tragédia. Senão não fazia falta nenhuma a claridade e estaríamos todos no Paraíso Terrestre.
Mas vêm os simplistas, todos arranhados de ciência, e querem logo a todo o custo que a direcção única caiba por força pelo cu de uma agulha. Ora a direcção é única porque é para todos. E a única coisa que é comum a toda a humanidade é a própria vida, é o próprio mundo, não cabe pelo cu de uma agulha.
Não aleijemos a pobre humanidade mais do que ela já está com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. Não sejamos tão crianças que queiramos levantar ao ar e esfera pretendendo agarrá-la apenas pelo hemisfério da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisfério superior, porque a única maneira de agarrá-la bem tão-pouco é pôr-lhe as mãos por baixo, nem ainda abraçando-a com os dois braços e os dedos metidos uns nos outros para não deixar escapar as mãos e com o próprio peito do lado de cá e ajudar também; a única maneira de equilibrar a esfera no ar é deixá-la estar no ar como a pôs Deus Nosso Senhor, às voltas à roda do sol, como a lua à roda de nós e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.
Não temos mais remédio do que ir aprender tecnicamente como funcionam estas coisas tão naturais!
O Mundo da Natureza é o modelo dos modelos de todas as maquinarias, porque não havemos então de acertar também o mundo social no seu próprio funcionamento como todas as outras máquinas do mundo?
Actualmente comemora-se no mundo inteiro o centenário da morte de um homem, o qual todos os povos das cinco partes são unânimes em considerar o mais universal dos Europeus. Chamava-se Goethe.
Fixem bem V. Ex.as estes dois títulos máximos de Goethe: Europeu e Universal.
As suas duas obras principais, se é que alguma pode ser a preferida ou separada da própria vida do autor, são o Werther e o Fausto.
Goethe é um génio. Ninguém se arrisca a perder uma reputação de crítico ao afirmá-lo. Está assente que o é.
E então vejamos a obra mais conhecida do génio no Werther e no Fausto.
Goethe não conhece senão o indivíduo. Para ele o indivíduo é o próprio espelho da humanidade inteira.
Ao terminar o Werther faz suicidar-se o indivíduo e ponto final.
Depois vem o Fausto. Como é natural, Fausto segue o caminho oposto ao do suicida. Canta a coragem de viver, canta a acção, sempre a acção, sempre a coragem de viver. É o primeiro Fausto.
Trinta e sete anos depois outra vez o Fausto, outra vez a acção, outra vez a coragem de viver.
Fausto é uma obra genial.
Mas afinal talvez Werther tivesse tido mais razão em suicidar-se do que Fausto em teimar ir tanto para diante.
Em resumo, dois desgraçados: Werther e Fausto. E um génio: Goethe.
Bem feitas as contas serão três os desgraçados. Mas um deles, o autor, falou pelos três, falou por toda a gente. No seu século tão grande, tão elevado, tão luminoso, tão invejável, o indivíduo era afinal tão desgraçado como em qualquer outra idade da História menos esclarecida do que aquela.
O génio no-lo revela na sua obra e com a sua própria vida.
Mas não se espantam V. Ex.as com estas coisas. Isto já não é nenhuma novidade para nós. É a eterna tragédia dos filhos de Adão e Eva. Desde o princípio do mundo que estamos todos condenados à maior das desgraças humanas: o nosso próprio isolamento, a nossa própria solidão. Seja qual for o século em que fale o génio, todos os génios coincidem no mesmo. E quanto mais a Terra se vai enchendo de gente, quanto mais a Humanidade se multiplica, maior se vai tornando ainda a solidão de cada um dos seus indivíduos.
E hoje? Vejam aí com os seus olhos: coitadinho do Charlot que não pára de vagabundear!
Goethe, apesar da fama do seu nome em vida, apesar da sua vida de grande senhor; Goethe a quem o próprio Napoleão disse: vous êtes un homme, monsieur Goethe! apesar da sua própria natureza dotadíssima, privilegiada, excepcional, robustíssima, completa, genial; apesar de tudo, a sua vida é um desastre. Um desastre completo, levado até ao fim. Goethe morreu velho. Um desastre heróico levado dignamente até à última, e com aquela verticalidade exclusiva do próprio Goethe.
Ao filho de Goethe chamavam-lhe «o filho da criada». O filho do génio é o filho da criada. Nunca ninguém lhe chamou o filho do génio!
O génio continuava efectivamente sozinho.
E já não é a primeira vez que o homem está sozinho no mundo.
Por esse tempo nascia na Europa o Romantismo e era como uma libertação de todos os indivíduos, de todos aqueles que tinham legitimamente a sua vida para vivê-la, a hora dos Prometeus desencadeados.
E é curioso, isto só o podemos ver nós hoje, depois de passado um século, o Romantismo nascia na Europa ao mesmo tempo que na mesma Europa Goethe acabava de pôr nessa mesma esquina do Romantismo o disco encarnado com as letras em branco: direcção proibida.
Era o mesmíssimo beco sem saída onde Werther se tinha suicidado e donde Fausto não tinha podido sair, onde o ideal e a acção individuais estavam sepultadas para sempre.
Nenhum outro homem mais próximo de nós foi mais justo e mais preciso do que Goethe pondo toda a claridade no caos da nossa própria tragédia humana de isolados, de sozinhos. É o verdadeiro génio. Aquele que viu mais e melhor. E então todos à uma quiseram ver também, todos quiseram ver com os próprios olhos como o génio, a entraram todos um por um, naquela direcção proibida que já tinha sido tapada para sempre pelo próprio Goethe. E todos ficaram românticos. Uns passaram a chamar-se Werther e outros Fausto. Uns suicidaram-se e aqueles que não se mataram ficaram sem uma gota de esperança. Sinceros todos.
Goethe não tinha deixado ali por onde sair o indivíduo. Ele tinha, na verdade, falado de uma maneira diferente daquela que o ouviram.
E depois ainda veio Nietzsche e quis também ele sozinho chegar até ao Homem! e mais para lá também até ao Super-Homem, mas quem sabe? se calhar é capaz de lá ter chegado. Nós é que já nunca mais soubemos nada dele. O pobre Nietzsche, de repente, pôs-se a falar sozinho com a sua loucura.
Não vos assustais com esta Humanidade onde aqueles que não são anónimos, e precisamente os mais conhecidos, são suicidas, desesperados, sozinhos ou loucos?!
Não! não vos assusteis, porque temos que ir ainda mais para diante. E se é a alegria o que vós lealmente quereis e pedis, tende confiança que é por aqui o caminho e já lá chegaremos se Deus
Nosso Senhor quiser.
Falámos já muito de Goethe. Mas ele disse tantas coisas que sabe de cada um de nós, que não é demais toda a nossa curiosidade a seu respeito.
E na verdade, o seu génio não se limitou a pôr direcções proibidas pelas esquinas e encruzilhadas. Além disso, e aqui precisamente é que ele foi o génio, também marcou e magistralmente a direcção única.
Permitam V. Ex.as uma pequena observação antes de seguirmos o nosso pensamento deste momento.
A direcção única não é uma solução, é infinitamente melhor do que uma solução, é uma direcção, e a única.
Quanto mais aflita está a Humanidade mais se desespera à procura de soluções. Até se podia
inventar este rifão: buscas solução estás cheiinho de aflição.
Ora aqui não é nenhuma agência de empregar a amigos e parentes e trata-se nem mais nem menos do que colocar a toda a gente, seja quem for, nos seus devidos postos neste mundo. Por isso mesmo a direcção é única, porque é para todos, o que é, aliás, como Deus manda.
A diferença entre solução e direcção será esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça, ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade.
E foi o que fez Goethe: Descobriu a direcção única. Artista, na verdadeira acepção da palavra; Artista é aquele que precede a própria ciência. Por isso Goethe afastou-se de quantas realidades irrealizáveis onde costumam habitar instaladas as gentes. E impassível, desde cima, assistiu ao desenrolar da tragédia. E viu o mundo inteiro por cima de todas as cabeças, e viu a Europa toda e com cada um dos seus pedaços, e viu cada indivíduo da Humanidade como um pequenino astro tonto que nem sabe sequer ir na parábola da sua própria trajectória, e viu que de todos os seres deste mundo o único que errava o seu fim era o Homem, o dono da Terra! e viu que era na Humanidade que estavam os únicos seres deste mundo que não cumpriam com o seu próprio destino, e finalmente viu! Viu com os seus próprios olhos o que ninguém tinha visto antes dele. Viu pela humanidade inteira, viu por toda a Europa e viu por cada indivíduo. E compreendeu o mundo, e concebeu uma Europa, e para todos os indivíduos da Terra abriu de par em par a direcção única.
Goethe, o génio, é universal, europeu e alemão.
Goethe, o indivíduo Goethe, também pertence a essas três unidades, humana, europeia e alemã, as quais três são uma única, a dele.
Nós os Portugueses pertencemos à Humanidade, à Europa e a Portugal. Não somos três coisas distintas, senão uma única, inteira, e nossa.
Cada indivíduo não pode chegar até si mesmo senão através dessas três unidades a que pertence: o mundo, aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra, e a sua terra.
A terra de cada indivíduo não está limitada pelas legítimas fronteiras físicas e políticas do seu próprio território, é além disso um pedaço determinado de uma quinta parte do mundo inteiro.
E o indivíduo está tão longe de si mesmo que para chegar até si tem primeiro que dar a sua volta ao mundo, completa, até ao ponto de partida.
E todo aquele que queira encontrar dentro de si mesmo a sua própria personalidade, ficará romanticamente sozinho no meio das multidões, na mais terrível solidão de todos os tempos, uma solidão onde o próprio deserto está cheio de arranha-céus e as ruas inundadas de gente!
O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua colectividade. E a sua colectividade é a sua própria Terra e mais aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra e mais o mundo inteiro também.
Mas que não se julgue por estas palavras que o indivíduo há-de servir apenas de instrumento à sua própria colectividade. Não! nem vice-versa tão-pouco. É um jogo simultâneo da colectividade para os seus indivíduos e de cada indivíduo para a sua colectividade.
E se hoje o indivíduo não existe, isto é, se não tem nem pode ter acção própria, não é tal, de maneira nenhuma, porque a colectividade lhe tenha usurpado também o seu lugar, é apenas porque ninguém está capacitado da obediência que deve a si próprio, é apenas por ignorância do que, justamente, ninguém devia ignorar: o seu próprio destino neste mundo.
O destino não é coisa que se saiba pelas sinas, nem obra do acaso, nem artes para adivinhos ou leitores de palmas de mão, nem nada que se modifique com caprichos da fatalidade. O destino de cada indivíduo neste mundo está por cima do seu próprio caso pessoal.
O único procedimento para conhecer o destino de cada qual é este: Vai-se buscar uma esfera terrestre. Faz-se dar voltas ao mundo, e quando passe diante de nós aquela das cinco partes em que se divide a geografia, e que nos parece a mais bonita, procura-se aí com o dedo aquela terra que conhecemos como ninguém e onde entendemos tudo o que lá se diz e pronto, deixa-se ficar o dedo aí. É o dedo do Destino, e nós julgamos que é com o nosso dedo que indicamos no mapa.
E há seis milhões e meio de indivíduos que puseram o dedo no mesmo sítio. Seis milhões e meio de pessoas cujo destino é o mesmo.
E no mapa, exactamente nesse sítio, está escrito: Portugal.
E por cima de Portugal há um grande E, a primeira letra de uma palavra que começa em Portugal e que vai subindo para o Norte sempre em grandes letras, seis grandes letras, seis grandes letras que iluminam as cinco partes do mundo, seis grandes letras que juntam os povos mais independentes do mundo, até onde acaba a Rússia, que é debaixo das seis grandes letras da Europa, aquela terra dos indivíduos que ficam mais longe de Portugal.
E aqui é o destino único de seis milhões e meio de indivíduos neste mundo, aqui na Europa, aqui na Península Ibérica, aqui no sul e aqui no Ocidente da principal das cinco partes da Terra.
«A Europa é a mãe de numerosos filhos. E Goethe, o europeu, quem nos abre os olhos, para que tenhamos a consciência uns dos outros, para que tenhamos vergonha de nos caluniarmos e de nos odiarmos.
Para fazer uma Europa, é necessário uma Alemanha, um Portugal, uma França, uma Espanha, uma Inglaterra, uma Suíça, uma Itália e o resto. Será necessário também uma Ásia, duas Américas, uma África, uma Austrália, negros, vermelhos e amarelos para fazer, um dia, o mundo.
Goethe, poderoso alemão, não pretende que a Europa seja alemã, nem que a França ou a China o venham a ser alguma vez. Para que a Europa seja verdadeiramente ela mesma, é necessário que a Alemanha seja o mais alemã possível, a França o mais francesa que possa, a Espanha o mais espanhola, Portugal o mais português, Inglaterra a mais inglesa, e qualquer outra terra o mais ela própria porque apenas nos seus superlativos, nos seus máximos, nos seus cúmulos é viável o acordo, a colaboração entre os povos independentes e bem contornados pelas fronteiras invulneráveis.» (Goethe, Andres Suares.)

§ § §

A colectividade é, qualitativa e quantitativamente, o conjunto de todos os indivíduos que a formam. Mas que não nos sirva de atrapalhação tanta gente junta. Pelo contrário: já cá estamos, finalmente, no nosso caminho.
A colectividade, apesar de ser o conjunto de todos os seus indivíduos, funciona exactamente como um indivíduo a mais. Assim como se no mundo houvesse toda a gente que existe e mais uma pessoa: esta pessoa seria exactamente todos num só. A colectividade é também um indivíduo, um indivíduo como qualquer outro, mas é o indivíduo colectivo, na verdade colectivo e indivíduo. Com a vantagem sobre qualquer outro de não estar sujeito, como nós, às vacilações de um organismo mortal. A colectividade é o indivíduo imortal. Feito da mesma massa humana que qualquer de nós, os indivíduos mortais.
Já cá temos, por conseguinte, o modelo invariável para os nossos actos individuais: a colectividade.
Senão reparem V. Ex.as em como é feito o nosso próprio corpo:
Está formado por vários órgãos, distintos uns dos outros, e nenhum deles com vida própria, ou melhor, dependente cada um deles da vida total e unânime do nosso organismo individual, isto é, da unidade da qual faz apenas parte.
Pois o indivíduo no mundo é exactamente como um dos nossos órgãos no nosso próprio corpo. Nós não temos vida própria. Dependemos da vida total e unânime do organismo colectivo, e de cuja unidade fazemos apenas parte; o que não é pouco nem muito, senão o justo para cada um de nós.
O indivíduo e a colectividade são as duas únicas expressões humanas do mundo social como o homem e a mulher são as duas únicas expressões humanas do mundo natural.
E assim como a mulher e o homem estão condenados à fatalidade da sua única unidade comum, também acontece o mesmo, paralelamente, no mundo social com a colectividade e o indivíduo.
São unicamente quatro as expressões da humanidade: o homem, a mulher, a colectividade e o indivíduo. Cada uma delas separadamente é o próprio isolamento, a autêntica solidão, a direcção proibida. E todas as quatro juntas são exactamente a direcção única.
Agora, neste momento, entramos decididamente no mundo social: a colectividade e o indivíduo.
Este assunto é de uma actualidade desesperadora. Ou melhor, sejamos ainda mais claros, é o único assunto que preocupa o mundo inteiro.
Artistas e cientistas, trabalhadores e desempregados, temos todos os olhos fixos nessas duas palavras que fazem estremecer hoje o mundo de alto a baixo: colectividade, indivíduo.
O indivíduo não existe. É um resto que ficou ainda de ontem. Já não há nada mais do que o espaço que ele ontem ocupava no seu lugar. E a colectividade? Também. É um resto que ficou ainda de ontem. Já não existe nada mais do que o lugar que ela ontem ocupava.
Não é só o indivíduo que não existe, hoje também não existe a colectividade. São apenas dois restos que ficaram de ontem.
Não existe nenhum deles por causa do outro. São inseparáveis de verdade.
Acabou-se o mundo antigo. Fica para a História. Hoje nasce o mundo outra vez, desde o princípio. Não há absolutamente nada. Temos de fazer tudo outra vez: a colectividade e o indivíduo. Esses dois valores iguais, recíprocos, que dependem um do outro a que isoladamente se suicidam por suas próprias mãos.
E é esta, minhas senhoras e meus senhores, a grande tragédia da unidade: Não há indivíduos porque não existe a colectividade e não há colectividade porque não existem os indivíduos.
O mundo inteiro está sozinho. Cada pessoa vive isolada no meio das multidões. As multidões são formadas por indivíduos, por numerosíssimos indivíduos isolados uns dos outros.
As palavras caem perdidas no chão.
Sozinhos todos. Ninguém se entende. A humanidade inteira está reduzida à solidão de cada um dos seus indivíduos.
O mundo inteiro está dividido em tantos mundozinhos individuais, pequeníssimos, microscópicos, quantos sãos os seus habitantes.
Mas aquele mundo da colaboração de todos, o único mundo real afinal de contas, esse, já não existe. Veio cada qual roubar-lhe o seu pedacito e o mundo ficou feito em migalhas, reduzido a grãos de areia, pó, nada!
Vós, indivíduos das cidades, e dos campos, vós, indivíduos de todas as partes e que fazeis parte de todas as multidões, respondei todos um por um:
Com quem comunicas tu?
Não to perguntamos com quem tratas todos os dias, nem com quem falas, nem com quem vives, nem com quem dormes. Perguntamos-te unicamente com quem to entendes?
Com ninguém!
Estás tão sozinho no meio de toda a gente ou ainda mais do que se não houvesse no mundo mais ninguém do que tu.
E ainda não sabes de memória tudo quanto possa dizer-to toda a gente? Ainda não sabes de cor as várias opiniões do mundo inteiro?
Ainda não sabes de cor a salteado todas as notícias de todos os jornais que se publicam diariamente, pela manhã, à tarde e à noite, nas cinco partes da terra?
Ainda não sabes de memória todas as novidades da última hora que nos traz a cada instante a rádio de todos os lados do mundo?
E as que dirá amanhã, a depois de amanhã, a daqui a um ano a sempre, sempre a mesma notícia para quem ainda não a saiba, sempre a mesma cantilena a buzinar-nos os ouvidos:
S. O. S. perdidos, desencontrados, sozinhos! S. O. S. estamos todos desencontrados, estamos todos sozinhos, perdidos todos! S. O. S. sozinhos! S. O. S. desencontrados! S. O. S. perdidos! S. O. S. sós! S. O. S. sós! S. O. S.
S. O. S. é o sinal internacional de telegrafia a pedir socorro.
Está formado pelas três iniciais da frase inglesa: «Save Our Soules», que quer dizer em português: «Salvai Nossas Almas».
Estas três letras S. O. S. são as mesmas com que se escreve em português o plural de indivíduo isolado: Sós.
Nós, que somos portugueses, somos por isso mesmo aqueles que menos podemos alegar a ignorância dos valores recíprocos da colectividade e o indivíduo.
Na História de Portugal, a primeira e a segunda dinastias são em todo o mundo um modelo exemplar da formação a funcionamento da colectividade. Na primeira dinastia funda-se a fixa-se a colectividade portuguesa. São estes os primeiros passos do indivíduo: Tornar fixa na terra a sua própria colectividade.
Nessa dinastia temos como expressão máxima do indivíduo da colectividade a El-Rei Dom Dinis, o primeiro português que já pode começar a cuidar em conjunto das nossas coisas colectivas. E o facto de fixar os quilómetros de areias com o pinhal de Leiria é o símbolo da vontade e constância de uma colectividade que quer manter invariável através dos séculos o seu próprio e único perfil geográfico.
Símbolo imponente da realidade feita pelo povo que chega até aos dias de hoje, o decano das gentes da Europa nas suas fronteiras primitivas.
Na segunda dinastia, a colectividade portuguesa é para o mundo inteiro a própria maravilha da máquina social. Cada indivíduo da nossa terra tem o seu lugar determinado na nossa colectividade. E um deles chamar-se-á Vasco da Gama, a ainda antes mesmo de ter realmente chegado a este mundo, já estava destinado pelos interesses comuns da colectividade portuguesa, para vir a ser o maior marinheiro do mundo!
E não era outra diferente desta a razão por que houve gente também na Grécia Antiga. Era a de que havia uma Grécia Antiga. Era a de que havia uma Grécia, uma colectividade que criava os seus próprios indivíduos.
Felizes os tempos em que em Portugal cada português podia ter o seu próprio valor, porque a colectividade portuguesa também tinha o seu, a estava à altura de si-mesma, e não se prejudicava a si-própria nem aos seus indivíduos!
Felizes os tempos em que Portugal tinha a direcção única a era esta a única maneira como cabiam aqui todos os mais diferentes dos Portugueses!
Hoje o mundo é do seu verdadeiro tamanho. Nem uma polegada a menos nem uma ilusão a mais.
Das cinco partes da Terra todos regressam aos territórios das suas próprias colectividades. O mundo está o mesmo por toda a parte. A realidade é sempre a mesma em todos os lados do mundo. É impossível fugir da realidade. E quer queiramos ou não, hoje temos de ser todos profetas na nossa própria terra.
Acabaram-se as iniciativas particulares. Acabaram-se os caprichos dos viajantes isolados. Acabaram-se os génios que cantavam chorando a solidão dos indivíduos. Hoje pedimos todos à uma, a colectividade que nos represente, a colectividade a que temos direito, que é ela mesma a nossa colectividade, o nosso próprio a único direito à vida.
Queremos a colectividade portuguesa à altura de si-própria, vista de todos os lados da terra. Que cada português, dentro ou fora da nossa terra, seja o perfeito indivíduo da nossa própria colectividade.
Estamos todos incondicionalmente ao lado da colectividade portuguesa passo a passo, egoistamente, como quem sabe exactamente o sítio onde está a sua própria vida de indivíduo português.
Exactamente neste momento terminaram as nossas palavras da direcção única. Fizemos todo o nosso possível para que elas fossem a própria alegria, a coisa mais séria da vida. Se na verdade não o conseguimos, pedimos perdão a V. Ex.as por lhes termos feito perder esta meia hora do vosso tempo. Na certeza porém, de que o nosso desejo de colaborar na obra comum da direcção única é leal, tão leal que estamos seguros de não termos emitido nenhuma opinião pessoal nem nossa nem de outrem, a que apenas nos servimos dos próprios exemplos da Bíblia, da História, dos génios a dos clássicos para com estes factos conhecidos, aceites a consagrados estabelecer a ligação entre as distâncias mais diferentes a longínquas da Humanidade, e podermos dizer com elas que a direcção é efectivamente única para todos aqueles que a possam ver a também para os que não a virem nunca.

Lisboa, Abril 1932.
José de Almada Negreiros

(Conferência realizada em Lisboa no Teatro Nacional de Almeida Garrett)

domingo, fevereiro 25

O BAILARICO




Ontem, que não foi assim há tantas horas, tive o privilégio de ir a uma daquelas festas em que ficamos felizes por só haver uma vez por ano; a uma festa de aniversário. O convite foi recebido com um certo desdém. Quem me convidou foi um elemento da minha família que fazia nada mais nada menos que quarenta e três anos. O local escolhido para tal celebração foi um restaurante com música ao vivo; um daqueles sítios que nos causa uma indigestão só pelo simples facto de viver à custa de bailaricos à boa moda portuguesa. Entre garfadas e goladas de vinho ia ressoando nos meus ouvidos: Quim Barreiros, Tony Carreira, as de outros tempos badaladas Doce, e outros belos compositores dignos dessa praça musical e ampla que é a música popular portuguesa, vulgar música pimba. A mesa estava repleta de gente que posso denominar de próxima ao meu ser-bom-ouvinte e sempre atento a tudo: ora era entre outros um sujeito que só sabia falar de violência e de porradas orgulhosas devido às faltas de respeito perante o seu cabedal pseudo-imponente, ora era uma pessoa que admiro muito, carregado de brejeirices próprias para a ocasião festiva sempre pronto a fazer rir o mais céptico dos foliões, ou um casal cheio de amor que nem para comer largava as mãos apaixonadas, ou um tipo semelhante ao John Lennon mas numa versão aportuguesada com pinta de galã frequentador daqueles tascos com cortinas à porta que deixam escapar detrás uma linha delineada por um vermelho vivo de tonalidade mais que duvidosa ; e eu! sentado no meu canto, com uma garrafa de muralhas para suavizar e engrandecer tal cenário promissor. Nas mesas circundantes, personagens dum daqueles filmes do Fellini, velhotes emproados, enjeitados com o seu melhor fato para virem ao baile; por vezes como pingas, jovens como eu, aqui e ali, sempre de semblante coberto por um sorriso de alegria por tal visão quase surreal carregada de hilariedade.
A noite começou calma, embora a música soasse pelo salão como bombos arrufados numa rua em dia de fanfarra, as pessoas permaneciam sentadas em frente aos seus pratos, devorando selvaticamente os suculentos nacos de carne e de peixe. De vez em quando, ou melhor, à boa maneira portuguesa, lá se ia empurrando o comer pesado com belas copadas de maduro tinto ou de verde, mediante os gostos e o diâmetro da goela de cada um; até que, consequência de um fígado carregado de álcool e já com as faces avermelhadas, mas não de vergonha, aqueles seres começaram a cobrir-se de sorrisos tão alegres que de repente o salão estava repleto de seres felizes e abstraídos das suas monótonas vidas, bamboleando-se ao ritmo das mais hilariantes e surpreendentes musicas; as velhotas mexiam-se ao ritmo da sonoridade – iam acima e iam abaixo como a música pedia – como jovens cheios daquela energia típica da flor da idade; os velhotes mexiam-se como cobras, e uma vez ou outra tentavam deixar cair – culpando talvez a força bacoreana do vinho - a mão nos cus secos e usados das suas parceiras. Muitas músicas rolaram… Aos poucos, o salão esvaziou para um descanso para recuperar forças e molhar a goela, duas ou três músicas rolaram só com um ou dois casais de idosos a dançar: quais bravos dançarinos duma mocidade de bailarico não perdida! A folia voltou, inflamados pelo álcool cada vez mais senhor dos seus corpos – e do meu também, mesmo permanecendo sentado e de sorriso cada vez mais rasgado na cara -, começou o jogo da cadeira. Cada espaço silencioso intercalado por músicas, fazia as pessoas voltarem ao seu lugar, mas nem dava tempo para enquadrarem o cu na cadeira, começava logo outra bela música e lá iam eles, mais ébrios e felizes do que há minutos atrás, dançar freneticamente sem se lembrarem das mazelas psicológicas impostas pela sociedade que faz dos velhos seres sôfregos; talvez no dia a seguir se queixassem disto e daquilo. Uma vontade de rir assomou-me, talvez fosse o vinho a dar sinais de si. Enquanto observava tudo isto divertidamente, o meu companheiro da direita de mesa lá continuava:

- Conheço um gajo, grande bicharoco, que é segurança do S, ganda maluco, conhece todos os seguranças da noite! Oh moço, uma vez, um gajo veio contra ele na discoteca, não teve mais nada, agarrou-o pelo colarinho, deu-lhe um bojardo arrebentou-lhe a boca toda. Ainda pegou nele e atirou-o para o chão como um fardo de palha. – dizia este tipo de coisas com um orgulho de gorila enquanto enchia o meu copo.

- Foda-se, esse é que bate mal!... – respondia eu enquanto olhava para o copo e sorvia mais uns goles. Bem devagarinho, embalado pela violência da conversa repetitiva que não era mais do que o retrato do cenário dum subúrbio mundial cheio de necessidades e aventuras dignas de um filme, ouvi as mais surpreendentes realidades de dealers de branca; ciganos perseguidores de homens apaixonados pelas suas filhas; gajos carregados de armas, as tropas do exército da urbe; ladrões de chapéus; carros quitados até ao auge da potência mecânica; tarados que vão para quecódremos observar casais a copularem dentro de seus carros, sendo consequencialmente espancados devido à sua curiosidade demencial por dez/quinze homens que formam instantaneamente milícias do sexo automóvel; tudo isto e outras histórias mirabolantes deste mundo que é tão nosso.

Ali, num salão de baile à boa maneira portuguesa, apercebi-me do triste equilíbrio que rege a vivência; senti as mãos bem pesadas pousadas no chão: na mão esquerda estava o peso da abstracção, na direita, o da violência.

Vendo bem, talvez o peso sentido nas mãos tenha sido obra das duas garrafas de muralhas que chupei até ao casco depois duma travessia divertida pelo deserto que é a abstracção!

quinta-feira, fevereiro 22

A LOUCURA


"Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:


Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, a gritar: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.E quando cheguei à praça do mercado, um miúdo no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”Assim me tornei louco.E encontrei tanto liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós."


Gibran Khalil Gibran

quarta-feira, fevereiro 21

AO MONGE SOLITÁRIO

ele era alguém, era o
homem que trazia o mundo às costas,
o seu mundo.
nos seus olhos, algo
que quebra as barreiras da
realidade vigente,
a realidade coberta pela manta negra
que se tornou em vida.
a vida, era para si, afinal
o mundo de todos,
mas no entanto, não era
o mundo criado por ele;
disso tinha ele fugido a sete pés;
só assim conseguia criar o seu mundo,
o mundo de todos os que respiravam
do seu ar
mas que ares do seu pouco tinham;
os seus céus eram mais intensos
eram céus pintados dum azul que só existia em si:
o azul da alma, o azul que esbate todos os cinzentos
todos os negros, todas as tristezas
todas as apatias, todas as realidades.
na sua mão, pesava uma enxada
uma vida inteira
o sonho de uma tarde de inverno
ali, no verde dos seus campos.

domingo, fevereiro 18

TRECHOS DE UM LIVRO SUBLIME

- Quem era não sei - respondeu Cosimo - , mas se andais à procura dum homem que passou por aqui a correr, digo-vos que ele tomou a direcção do riacho...
- Um homem? É um homenzarrão que mete medo...
- Bem, daqui de cima parecem todos pequenos...
- Muito obrigado a Vossa Senhoria! - agradeceram os beleguins, desatando a correr em direcção ao riacho.
Cosimo voltou para a sua nogueira e retomou a sua leitura de Gil Brás. João dos bosques continuava abraçado a um ramo, muito pálido no meio da barba e dos cabelos hirsutos e avermelhados como a erva seca dos campos, cheios de pedaçinhos de casca de árvore, folhas pequenas e agulhas de pinheiro. Estudava Cosimo com os seus dois olhos verdes, muito redondos e espantados; era feio, muito feio.
- Já se foram? - decidiu, por fim, perguntar.
- Sim, sim - respondeu Cosimo, com ar afável. - O senhor é que é o salteador João dos Bosques?
- Como é que me conhece?
- Bem, conheço-o de ouvir falar de si, conheço a sua fama.
- E o senhor é aquele que nunca desce das árvores?
- Sim, sou. Mas como sabe?
- Bem, da mesma maneira... A fama corre.
Olharam-se cortesmente, como duas pessoas de posição que se encontram por acaso e ficam satisfeitas por saberem que não são desconhecidas uma da outra.
Cosimo não sabia que mais dizer e, assim, retomou a leitura.
- Que está a ler?
- O Gil Brás, de Lesage.
- É bonito?
- É, sim, é bonito.
- Falta-lhe muito para acabar?
-Porquê? Bem, faltam-me cerca de umas vinte páginas.
-Porque, quando o acabasse de ler, queria perguntar-lhe se mo emprestava... - sorriu, ligeiramente escondido.
-É que, sabe, passo os dias escondido sem ter nada para fazer. Gostava de ler um livro de vez em quando. Uma vez assaltei uma carruagem. Trazia pouco que roubar, mas havia um livro e eu trouxe-o. Levei-o comigo, escondido debaixo da capa; teria preferido desistir do produto todo do roubo a perder aquele livro. À noite, acendi a lanterna e ia para ler... quando vejo que era em latim! Não percebia nem uma palavra... - Abanou a cabeça. - Como não sei latim...
- Bem, a verdade é que o latim é difícil - disse Cosimo, sentindo que, mau grado seu, estava a tomar por ares de protector. - Este aqui é em francês...
- Francês, toscano, provençal, castelhano, compreendo tudo - disse João dos Bosques. - Até sei um pouco de catalão: Bon dia! Bona nit! Està la mar molt alborotada.
Em pouco mais mais de meia hora Cosimo acabou de ler o livro e emprestou-o a João dos Bosques.
Assim principiaram as relações entre meu irmão e o salteador. Mal João dos Bosques acabava de ler um livro, corria a restituí-lo a Cosimo, pedia-lhe outro emprestado, voltava imediatamente a encafuar-se no seu esconderijo secreto e mergulhava profundamente na leitura. (...)

A quem era João dos Bosques útil agora? Se passava a vida escondido, de lágrimas nos olhos, já não dava mais golpes, não fazia roubos de espécie alguma, no bosque mais ninguém podia fazer o seu negócio, os beleguins todos os dias faziam batidas e mal achassem que um desgraçado tinha ar suspeito era o suficiente para o levarem para a cadeia. Se se acrescentar a isto a tentação que representava o prémio que se oferecia pela cabeça de João dos Bosques, imediatamente se torna claro que os dias deste último estavam praticamente contados. (...)


As associações tornam o homem mais forte e põe em relevo nele os melhores dotes do indivíduo singular e conferem, simultaneamente, aquela espécie de alegria que, permanecendo uma pessoa só, raras vezes sente constatar como é elevado o número de pessoas honestas, corajosas e capazes e pelas quais vale a pena quererem-se coisas boas; ao passo que, vivendo-se isolado, se chega facilmente à conclusão contrária, descobrindo-se quase sempre a outra face das pessoas, essa face perante a qual é sempre necessário ter sempre a mão pousada na espada. (...)


Todo aquele que quiser olhar a terra convenientemente deve manter-se à distância necessária para o fazer (...)

Conheceram-se. Ele conheceu-a e conheceu-se a si próprio, porque na verdade nunca se tinha conhecido. E ela conheceu-o e conheceu-se a si própria, porque, muito embora sempre se tivesse conhecido, nunca pudera reconhecer-se daquela maneira. (...)

O amor era para ele um exercício heróico: o prazer misturava-se frequentemente com provas do seu ardor, de generosidade, de dedicação e de tensão de todas as faculdades de sua alma. O mundo deles eram as árvores mais intrincadas, de ramos mais torcidos e difíceis. (...)

- Porque me fazes sofrer assim?
- Porque te amo.
Desta feita, era ele quem se irritava:
- Não, não me amas, não pode ser verdade! Quem ama deseja a felicidade e repele a dor.
- Quem ama deseja apenas o amor, ainda que para tal seja necessário experimentar a dor.
- Então fazes-me sofrer de propósito.
- Sim, para ter a certeza que me amas.
A filosofia do barão recusava-se porém a ir mais longe.
- A dor é um estado de alma negativo.
- O amor é tudo.
- A dor deve ser sempre combatida.
- Ao amor nada se recusa.
- Certas coisas nunca admitirei.
- Tens de as admitir, inevitavelmente, uma vez que me amas e sofres. (...)

O Barão Trepador, de Italo Calvino

sábado, fevereiro 17

Quintos- a terra prometida



Fiz-me à estrada e fugi do explosivo bulício citadino.

Pelo caminho perdi-me na imensidão dos campos verdejantes resplandecidos pelas chuvas de inverno que tornavam os dias campânulas demasiado cinzentas. Compreendi que a cinza dos dias que antecederam esta minha viagem, eram afinal uma razão divina e bela, eram chuvas dignas de fazer dos campos uma tela imensa, carregada de sinais que ampliavam o meu ser.

O linha do horizonte era uma charneira simbiótica: o azul do céu, espaçado por nuvens gigantes bem lá no alto e ao longe, as nuances de campos divinos obrados pelo homem, davam uma ambiência de sonho, de sonho tornado vivido.

A estrada, era de terra batida, parecia que nunca mais acabava, os campos, eram imensos: multiplicados planos de sonhador; os pássaros, pousavam na terra humedecida, como se nada houvesse demais, eram as asas da liberdade vivendo o verdadeiro significado
da vida.

O destino tinha-se feito sem noção do tempo corrido. Fora viagem carregada de cantos maravilhosos, os cantos da alegria do interior; ali, no caminho das árvores do silêncio,
encontrei a estrada para a verdadeira vida, a estrada verde-pura, que não a do silêncio ensurdecedor.


Cheguei entretanto a Quintos.

NI, OH, ATCHA!

À mínima ordem, as ovelhas voltavam para o seu sítio, virando assim as costas para o rumo de estrada que se dirigiam.

Se. Manel, do alto dos seus cinquenta e dois anos, era um homem bonito, pele torrada pelo sol alentejano, barba farta e comprida como a de um monge solitário; uma pronúncia típica de alentejano puro como a própria terra de cultivo. Desde miúdo que vivia rodeado de ovelhas - no momento em que o visitei eram perto de quinhentas, pelo meio havia uma negra - patos mudos, galinhas, gansos e outros animais que tais. A sua vida foi, é, e sempre será, o culto à terra sagrada, nunca quis mais do que isso e apenas um sítio para dormir, um fogão e pouco mais, nada de electricidade, nem televisão; por vezes, uma vinda ao centro citadino da sua região, para satisfazer as suas libidinosas necessidades.

A sua vida resumiu-se desde sempre à contemplação dos campos dourados onde vivia.

Levanta-se cedo e cedo se deitava.

Foi uma visita muito proveitosa e encantadora, nunca até então tinha estado com um personagem tão real e senhor das suas reais necessidades. Olhava para os animais com uma candura enternecedora. Nesse olhar, revelou-se a constatação pessoal de que o Homem, ainda é capaz de ser puro, como a própria Natureza que o concebeu.

Por vezes sonho, em ser assim.

terça-feira, fevereiro 13

UM POEMA DE AMOR




Todas as mulheres
Todos os beijos delas as
Formas variadas como amam e
Falam e carecem
As suas orelhas todas elas têm
Orelhas e
Gargantas e vestidos
E sapatos e
Automóveis e ex-
Maridos.
Principalmente
As mulheres são muito
Quentes elas lembram-me a
Torrada amanteigada com manteiga
Derretida
Nela.
Há uma aparência
No olho: elas foram levadas, foram
Enganadas. Não sei mesmo o que
Fazer por
Elas.
Sou
Um bom cozinheiro, um bom
Ouvinte
Mas nunca aprendi a
Dançar - eu estava ocupado
Com coisas maiores.
Mas gostei das camas variadas
Lá delas
Fumar um cigarro
A olhar pro tecto. Não fui nocivo nem
Desonesto. Apenas um
aprendiz.
Sei que todas têm pés e cruzam
Descalças pelo soalho
Enquanto observo os seus tímidos cús na
Penumbra. Sei que gostam de mim algumas até
Me amam
Mas eu amo só umas
Poucas.
Algumas dão-me laranjas e pílulas vitaminicas;
Outras falam mansamente da
Infância e dos pais e das
Paisagens; algumas são quase
Malucas mas nenhumas delas é
Desprovida de sentido; algumas amam
Bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
São as melhores
Noutras coisas; todas têm limites como eu tenho
Limites que aprendemos
Rapidamente.
Todas as mulheres todas as
Mulheres todos os
Quartos de dormir
Os tapetes as
Fotos as
Cortinas, tudo mais ou menos
Como numa igreja isolada
Raramente se ouve
Uma risada.
Essas orelhas esses
Braços esses
Cotovelos esses olhos
A olhar, o afecto e a
Carência
Sustentaram-me,
Sustentaram-me.
CHARLES BUKOWSKI

CONFISSÃO




A esperar pela morte
Como um gato
Que vai pular
Na cama

Sinto muita pena da
Minha mulher

Ela vai ver este
Corpo
Rijo e
Branco

Vai sacudi-lo e
Talvez
Sacudi-lo de novo:

“Henry!”

E o Henry não vai
Responder.

Não é minha morte que me
Preocupa, é a minha mulher
Deixada sozinha com este monte
De coisa
Nenhuma.

No entanto,
Eu quero que ela
Saiba
Que dormir
Todas essas noites
A seu lado

E mesmo as
Discussões mais banais
Eram coisas
Realmente esplêndidas

E as palavras
Difíceis
Que sempre tive medo de
Dizer
Podem agora
Ser ditas:

Eu amo-te.

CHARLES BUKOWSKI

DINOSAURIA, WE



Born like this
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked
We are
Born like this
Into this
Into these carefully mad wars
Into the sight of broken factory windows of emptiness
Into bars where people no longer speak to each other
Into fist fights that end as shootings and knifings
Born into this
Into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
Into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes
Born into this
Walking and living through this
Dying because of this
Muted because of this
Castrated
Debauched
Disinherited
Because of this
Fooled by this
Used by this
Pissed on by this
Made crazy and sick by this
Made violent
Made inhuman
By this
The heart is blackened
The fingers reach for the throat
The gun
The knife
The bomb
The fingers reach toward an unresponsive god
The fingers reach for the bottle
The pill
The powder
We are born into this sorrowful deadliness
We are born into a government 60 years in debt
That soon will be unable to even pay the interest on that debt
And the banks will burn
Money will be useless
There will be open and unpunished murder in the streets
It will be guns and roving mobs
Land will be useless
Food will become a diminishing return
Nuclear power will be taken over by the many
Explosions will continually shake the earth
Radiated robot men will stalk each other
The rich and the chosen will watch from space platforms
Dante's Inferno will be made to look like a children's playground
The sun will not be seen and it will always be night
Trees will die
All vegetation will die
Radiated men will eat the flesh of radiated men
The sea will be poisoned
The lakes and rivers will vanish
Rain will be the new gold
The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind
The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases
And the space platforms will be destroyed by attrition
The petering out of supplies
The natural effect of general decay
And there will be the most beautiful silence never heard
Born out of that.
The sun still hidden there
Awaiting the next chapter.

Charles Bukowski

O GRANDE BORRACHOLAS



uma noite chegou à minha porta, pele e ossos molhado batido
assustado,
era um gato branco estrábico rabão.
deixei-o entrar alimentei-o foi mais um em casa
deu-me a sua carinhosa confiança,
até que um dia um fulano,
estacionado na minha garagem,
passou com o automóvel por cima do gato estrábico rabão.
levei imediatamente o que dele restava a um veterinário que disse:
"não há muito a fazer... dê-lhe estes comprimidos... tem a espinha
partida, mas já antes foi partida e de algum modo
conseguiu sarar, se sobreviver não voltará a andar, olhe
estas radiografias, deram-lhe um tiro,
veja estes pontos escuros,
são chumbadas enquistadas... além disso já teve cauda
e alguém lha cortou...»
levei o gato para casa, era um verão quente um
dos mais quentes em décadas, pus o gato no chão do quarto de banho,
dei-lhe água, os comprimidos, não queria comer nem beber,
eu mergulhava o dedo em água, humedecia-lhe a boca
e falava com ele, nesse verão não saí, passei muitos dias
no quarto de banho falando com o gato, acariciando-o suavemente,
ele olhava-me com aqueles olhos que se cruzavam
e os dias passavam.
uma tarde fez o seu primeiro movimento
arrastando-se com as patas dianteiras
(as traseiras não queriam mover-se)chegou até ao canto onde lhe tinha preparado a cama
arrastou-se mais um pouco e deixou-se cair nela.
foi como o som de um clarim pressagiando a vitória possível,
ensurdecendo o quarto de banho, espalhando-se pela cidade.
então contei ao gato que também eu tinha passado um mau bocado, não tão mau como o dele,
mas bastante mau...
uma manhã ergueu-se, ficou imóvel sobre as patas e logo caiu de costas, olhava-me mansamente.
"és capaz" disse-lhe.
ele insistiu, levantava-se e tornava a cair, uma vez e outra,
finalmente
deu uns poucos passos, era a viva imagem de um bêbado as patas recusavam-se a obedecer-lhe, caiu outra vez, descansou
e de novo se ergueu.
conhecem o resto da história: está melhor que nunca.
estrábico, quase sem dentes, mas recuperou a graça e aquele olhar
pícaro nunca o abandonou.
algumas vezes fazem-me entrevistas, querem saber
da minha vida, da minha literatura,
embriago-me, levanto nos braços o meu gato
estrábico, ferido com bala, atropelado duas vezes, rabão
e digo: "olhem, olhem isto!!!"eles não entendem nada, insisto, nada de nada, perguntam
algo como: "reconhece influências de Celine?""não", ergo o meu gato, "por causa do que acontece, coisas
como esta, como esta!!!"
sacudo o meu gato, levo-o
para a luz enevoada de fumo e álcool, está sereno, ele sabe...e nesse momento a entrevista termina.
às vezes sinto-me orgulhoso quando vejo as fotografias,
lá estou eu, lá está o meu gato, fomos
fotografados juntos,
também ele sabe que são ninharias, mas de algum modo ajudam-nos.

Charles Bukowski

segunda-feira, fevereiro 5

A ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES

Devido a visões repetitivas do quotidiano, apercebi-me um dia destes de uma discriminação gigante no que toca ao fantástico mundo das animalidades.

Sendo assim, é um orgulho para mim referenciar tal constatação.

Desde puto que sei que os leões tiveram sempre pela frente as leoas, os cães as cadelas, os gatos as gatas, os macacos as macacas, por aí fora.

Desde sempre tive a noção de que por trás dum grande macho está uma grande fêmea ou vice-versa.

Mas um dia destes, enquanto caminhava pela rua com um olhar oblíquo-descendente, constatei que uma fêmea, mais da história da animalidade fantástica, do que do mundo selvagem comum, foi relegada para a inexistência, quando a sua própria existência escondida é tão óbvia quanto o facto do Abominável Homem das Neves ser uma criatura das montanhas, farto em pêlo e senhor de grunhidos selváticos.

Falo-vos pois, da fantástica, encantadora, da fabulosa ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES!

Depois de tal observação, foi notável e até surpreendente verificar que a ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES encontra-se já enraizada na nossa cultura dita ocidental.

Quem lê este isto deve estar a questionar:

«Mas afinal, de quê que fala este homem abominável que não das neves?»

Esta pergunta faria sentido não fosse eu explicar as razões destas minhas dilacções.

O que afirmo, o facto de vivermos cada vez mais rodeados de Abomináveis Mulheres das Neves, é apenas a constatação de quem olha para baixo.

Pergunto-vos agora:

Quantos de voçês nunca se depararam no autocarro, no metro, na rua, no café, no salão de bilhares, na baixa, no comboio, com aquelas criaturas patudas com imensos e fartos tufos de pêlo cravados à pele das partes inferiores das pernas?

Certamente que já sabem do que estou a falar!

Sim, essas mesmas!

O facto de existirem nas mais diversas tonalidades e formas, contrariamente ao pobre desgraçado macho grotesco de pêlo branco sujo que vive numa gruta húmida num monte longínquo e soturno, é uma consequência da adaptação biológica e veloz à vida citadina.

Estas fêmeas, que se desenvolvem fora do habitat natural há já bastante tempo, muito antes do tempo em que os relógios passaram a ser digitais, são agora, seres civilizados com hábitos prosaicos e perfeitamente adaptados à vida do dia-a-dia.

segunda-feira, janeiro 29

A Morte

Decidi escrever uma estória. Uma estória de vida e de morte, de várias cores, de tons cinzentos e de felicidades ilusórias. Personagem ainda não tenho, não porque não tenha tido tempo para lhe dar uma forma e um sentido, mas porque dessa maneira tão prosaica não teria oportunidade de lhe dar um corpo pouco linear e um sentido notoriamente ousado e necessário à finalidade a que me proponho. Podia começar já pelo fim, ainda que não tenha as palavras encandeadas e ordenadas para um sentido final e mesmo sabendo que não posso recorrer a personagens dignas de ser absorvidas e fragmentadas, digo-vos que o personagem morreu num dia frio entre as quatro paredes brancas…

Proponho-me que escrevo sem ter uma noção do que leio ou do sentido em que caminho, sinto que não trago mais do que interrogações… Acabo de escrever e releio o que nunca tinha lido, um texto em que logo no início, o personagem único, e vago interveniente numa estória pouco linear, morre ou morreu numa tarde fria de Agosto em que a chuva ameaçava disparar.

Como morreu?

Será que morreu como personagem deste texto ou é alguém que existiu e serviu de base para um nome com hábitos e maneiras?

Poderia o personagem morrer num outro texto ou livro em que o corpo estremeceu enquanto a sua mão se apoiava sobre uma mesa castanha e fria?

Ou será que quem escreve isto é um confuso e desfasado assassino, que não sabe distinguir amor de ódio, que pensa um dia matar uma misteriosa e inspiradora pessoa, observando-a por diversas vezes para servir de fonte para uma personagem?

Todas estas minhas perguntas sem resposta poderiam seguir uma ordem e seriam sem margem nenhuma para dúvidas uma realidade plausível.

Por muito que tente e force os pontos, as linhas, as letras, as palavras e as frases a escorregar entre o limite dos meus dedos, ainda não consigo perceber porque terá morrido tão cedo este inquietante personagem, que não sei se era ou é novo; se ou vai morrer; justamente ou injustamente; se o meu conceito futuro de justo e injusto vai ser o mesmo que o de agora; ou somente se agora é hoje ou é ontem; ou se somente ontem existiu e isto não seja mais do que nunca…

Este personagem é ou foi, sem dúvida nenhuma, pelo que dá para perceber, um ser intemporal: a morte chegou ou chegará a si como a todos nós, mas não sabemos quando, nem sei onde…

Tudo começou no dia vinte e três daquele mês enquanto escrevia no teclado besuntando de melão as teclas sujas, na tentativa de perceber qual o sentido e a ordem a dar às palavras. Com uma perna alçada e a boca inquieta, tentava preencher o tempo de um vazio que mais cedo ou mais tarde tinha que chegar; o melão da sua terra deixava um aroma húmido e saboroso na boca, as palavras iam ganhando forma, aquele fragmento de vida corria-lhe bem…

Pequenos feixes de luz solar já trespassavam a persiana do seu quarto quadrangular e aconchegante. As horas tinham passado e o tempo era curto para acabar de escrever aquela importante carta; ao longe alguém esperava por uma frágil mas pesada folha de papel…

Com o cigarro pendendo-lhe dos lábios humedecidos e espessos, procurava impingir no branco uma sinceridade necessária e enternecedora, como se a sua vida e a dos outros dependesse daquilo que dissesse ou transmitisse. O fumo dissolvia-se, a ondulação e a sua dissolução davam a entender o desvanecer de tudo o que o rodeava. O galo berrava como um louco. O sol respirava sob a persiana agora aberta golfadas de uma forçada vontade abstracta.

Já de papo cheio vestia a sua roupa para dar início à odisseia de um dia trabalho. Os seus olhos pesavam, a noite depressa se tinha feito dia e a cama tinha ficado por desfazer. Enquanto punha o relógio, sete e cinquenta, percebeu que já era tarde, se não se pusesse a trote o transporte passar-lhe-ia ao lado.

Já de mochila às costas dava passos apressados para o destino que tardava em chegar, o ponteiro ia rolando e o atraso era inevitável. Lá chegou. A fila era grande, o ponteiro já tinha passado o do horário de passagem.

Era um dia de sol. Na paragem em dez pessoas, oito tinham os olhos escurecidos e tapados pelos óculos de sol, tudo lhes passava ao lado, excepto o autocarro pelo qual esperavam.

O barulho da cidade começava a ganhar corpo, o silêncio sonolento das pessoas era perceptível; o seu autocarro tardava a chegar.

Destinos e meios eram muitos, oitenta e nove, quinhentos e dez, quinhentos e doze e mais uns quantos destinos diferentes. A placa da paragem não deixava de maneira alguma enganar.

A viagem que tardava, tinha deixado na sua pessoa sintomas de uma sonolência ainda mais pesada, o barulho do autocarro e das pessoas semi-acordadas enquanto rolavam sem paradeiro pelo paralelo e alcatrão tinham deixado o seu cérebro cansado num estado de inércia mental absoluta.

Foi aí que o destino lhe deu a finalidade necessária…

Não sabia por onde começar, nunca até hoje tinha feito tal coisa, os fios eram para si nada mais nada menos que algo que sustenta dois lados opostos, como que uma ponte.

O armazém era grande e sujo e a manhã lá fora era ainda maior.

Meio atarantado tentava no balneário demonstrar que o trabalho por muito novidade que fosse não era difícil de fazer; o desconhecimento de causa levava-o a vestir a roupa limpa do trabalho como quem veste uns calções de praia numa calorosa tarde de verão em que a brisa húmida do vento ameniza o calor abrasador.

Apesar do sol, o sítio era frio e húmido, a roupa que tinha trazido de casa era insuficiente para aquecer o corpo.

Os seus companheiros de trabalho não eram muitos, eram apenas seis.

Com o tempo conseguiu perceber que embora a idade fosse um fosso entre a sua pessoa e os seus camaradas, o serviço não era mais do que uma união física e quase psicológica de mecanismos básicos impingidos; se errasse na sua parte, o desenvolvimento consequencial não surtia mais do que um efeito do estilo domino. Sendo assim, a idade e as diferentes personalidades não eram mais que uma necessidade secundária, ou terciária em relação ao objectivo principal de presença no local em que se encontrava.

(Mesmo sabendo-se que o trabalho ocupa em quase todas as pessoas activas no mínimo oito horas de um dia que tem vinte e quatro, em que no máximo oito delas estão em estado de repouso, os mecanismos de produção são a prioridade do dia-a-dia, o dinheiro tem que multiplicar para uma só pessoa ou para um restrito grupo de pessoas, enchendo assim, de uma maneira humanamente aceitável, a barriga a porcos e cleptomaníacos.)

As últimas palavras embora vomitem uma arrogância violenta e submissa, não são mais do que uma foto-realidade de um dia de trabalho por esse solo fora, sem fronteiras nem excepções. Pode-se pensar e até dizer que este campo produtivo é o pedestal das nossas sociedades contemporâneas, não digo o contrário, apenas posso incutir o seguinte: é sem dúvida nenhuma uma área do desenvolvimento humano que nos dá uma vida mais preenchida e versátil mas não se pode esquecer de tudo aquilo que vemos desfilar perante as nossas orbitas pseudo inocentes. A morte, as falsas necessidades, a preguiça mental, a ignorância vivencial, entre outras; já para não falar de tudo o que nos dão como quase obrigatório: a casa, o carro, a família, o animal de estimação, a segurança económica, entre outras; tudo isto e muito mais, dá forma à amalgama a que chamamos de vida, que cada vez mais e maquinalmente desfiguramos e aproximamos daquilo a que chamamos de morte. E esta morte de que vos falo, não sabendo se como pessoa que escreve, se como pessoa que morreu ou vai em tempos morrer como personagem desta história complexa e bizarra, não é mais que uma morte colectiva e supra abrangente de uma seita religiosa sem denominação aparente. A seita que tudo constrói \ destrói sem se preocupar com as consequências de um tempo que globalmente e ironicamente se quer harmonioso e a longo prazo.

Embora a seita na sua grande maioria apresente uma indumentária característica de ignorância e união de cariz religiosa quase inconsciente, dá para concluir que essa mesma inconsciência não se restringe à classe superior dominante e perceptível: tudo e todos nesta esfera achatada duma galáxia desconhecida, anseia de uma maneira muito peculiar, gananciosa e distraída a tão bem dita luz, que encerrará o fim dos nossos tempos…

Ao escrever sobre esta misteriosa pessoa que por aqui existe ou existiu preencho o meu tempo com letras, palavras e frases, como se este ser que não existe ou sequer existiu para lá das minhas mãos fosse tudo que tenho.

Pergunto-me o porquê de toda esta salada de fruta seca pelo quente sol que doura cada vez mais. Pergunto-me, e rapidamente descortino a resposta.

terça-feira, janeiro 23

Arrependimento

O arrependimento é um sentimento muito duro que no entanto possui a sua beleza. É um sentimento de impotência que nos tira a força para voltar atrás, mas no entanto, é um sentimento de pujança que nos faz dar mais sentido à palavra aprendizagem.

Por vezes, agimos prematuramente, esquecemo-nos que a irreflexão nos pode levar ao tal arrependimento de que falo; por outro lado, às vezes, a interpretação das nossas atitudes é tomada como um dado adquirido, e assim, duma maneira e doutra, não se consegue dar o devido valor às situações.

Agora que penso, já fui tantas vezes precipitado como tantas vezes fui mal interpretado. Em nenhuma dessas ocasiões, senti que tivesse ganho algo com isso.

Ao ser precipitado, ganhei por um lado a tal aprendizagem, mas acabei por perder a oportunidade de ser bem interpretado.

Ao ser mal interpretado, aconteceu quase o mesmo, aprendi que posso ser mal interpretado, mas perdi a oportunidade de ser precipitado e encontrar razões para tal interpretação.

E agora que fui precipitado, e dei razões para consequentemente ser mal interpretado, sinto que nada ganhei na mesma!

Apenas ganhei na boca o sabor de perda provocado pelo arrependimento.

domingo, janeiro 21

A CONSTATAÇÃO DE QUE A IDEIA GENERALIZADA QUE SE TEM DE ANARQUIA SERVE APENAS PARA DEFINIR OS TEMPOS EM QUE VIVEMOS


Andava eu por aqui a pesquisar acerca duma das grandes falácias dos conceitos modernos e eis que me deparo com uma pérola escrita de um senhor que desconhecia até ao momento que antecede a escrita desta posta.

ANARQUIA.

Embora já tivesse vagamente a ideia correcta, consegui através desta pesquisa frutuosa ter uma visão mais realista e fundamentada acerca deste vasto sistema revolucionário-ideológico. Nesta pequena-grande janela para o conhecimento a que chamamos de laptop, ou mais correctamente ecrã de computador, descobri entre os muitos personagens que compõe o passado histórico do anarquismo - que infelizmente hoje em dia não ganha forma nesta sociedade consumista que vai ardendo através da chama do hábito queimado pelos anos de destruição e abolição da liberdade fundamental ao desenvolvimento pessoal e vivencial do ser humano - um senhor, ou melhor um grande senhor, um gigante e inconformado senhor de nome Errico Malatesta. Este vulto quase apagado da história mediática, foi um insurrecto por natureza que lutou para “assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar”. Não me querendo alongar muito, na ânsia de expor aqui a pérola de que vos falo, deixo então aqui neste meu espaço, que vendo bem é de todos, um pequeno texto que escreveu e que me tocou bastante no que toca à minha interpretação de alguns aspectos que compõe a sociedade contemporânea.


“CAPITALISTAS E LADRÕES”

“A propósito das tragédias de Houndsditch e Sidney Street numa ruela da City, ocorre uma tentativa de assalto a uma joalharia; os ladrões, surpreendidos pela polícia, fogem abrindo caminho aos tiros. Mais tarde, dois dos ladrões, descobertos numa casa de East-End defendem-se uma vez mais com tiros, e morrem no tiroteio. No fundo, nada de extraordinário em tudo isto, na sociedade actual, excepto a energia excepcional com que os ladrões se defenderam.
Mas esses ladrões eram russos, talvez refugiados russos; e é também possível que tenham frequentado um clube anarquista nos dias de reunião pública, quando ele está aberto a todos. Sem dúvida, a imprensa capitalista serve-se, uma vez mais, deste caso para atacar os anarquistas. Ao ler os jornais burgueses, dir-se-ia que a anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens, nada mais é senão roubo e assassinato. Com tais mentiras e calúnias, conseguem, com certeza, afastar de nós, muitos daqueles que estariam connosco se ao menos soubessem o que queremos. Não é inútil repetir, portanto, qual é nossa atitude de anarquistas em relação à teoria e à prática do roubo. Um dos pontos fundamentais do anarquismo é a abolição do monopólio da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, e, consequentemente, a abolição da exploração do trabalho alheio exercida pelos detentores dos meios de produção. Toda apropriação do trabalho alheio, tudo o que serve a um homem para viver sem dar à sociedade a sua contribuição à produção, é um roubo, do ponto de vista anarquista e socialista. Os proprietários, os capitalistas, roubaram do povo, pela fraude ou pela violência, a terra e todos os meios de produção, e como consequência deste roubo inicial podem subtrair dos trabalhadores, a cada dia, o produto de seu trabalho. Mas esses ladrões afortunados tornaram-se fortes, fizeram leis para legitimar sua situação, e organizaram todo um sistema de repressão para se defender, tanto das reivindicações dos trabalhadores como daqueles que querem substituí-los, agindo como eles próprios agiram. E agora o roubo desses senhores chama-se propriedade, comércio, indústria, etc; o nome de ladrões é reservado, todavia, na linguagem usual, àqueles que gostariam de seguir o exemplo dos capitalistas, mas que, tendo chegado muito tarde e em circunstâncias desfavoráveis, só podem fazê-lo revoltando-se contra a lei. Entretanto, a diferença de nomes empregados ordinariamente não basta para apagar a identidade moral e social das duas situações. O capitalista é um ladrão cujo sucesso se deve a seu mérito ou a de seus ascendentes; o ladrão é um aspirante a capitalista que só espera a oportunidade para sê-lo na realidade, para viver, sem trabalhar, do produto de seu roubo, isto é, do trabalho alheio. Inimigos dos capitalistas, não podemos ter simpatia pelo ladrão que visa tornar-se capitalista. Partidários da expropriação feita pelo povo em proveito de todos, não podemos, enquanto anarquistas, ter nada em comum com uma operação que consiste unicamente em fazer passar a riqueza das mãos de um proprietário para as de outro. Obviamente, refiro-me ao ladrão profissional, àquele que não quer trabalhar e procura os meios para poder viver como parasita do trabalho alheio. É bem diferente o caso de um homem ao qual a sociedade recusa meios de trabalhar e que rouba para não morrer de fome e não deixa morrer de fome seus filhos. Neste caso, o roubo (se é que se pode denominá-lo assim) é uma revolta contra a injustiça social, e pode tornar-se o mais imperioso dos deveres. Mas a imprensa capitalista evita falar desses casos, pois deveria, ao mesmo tempo, atacar a ordem social que tem por missão defender. Com certeza, o ladrão profissional é, ele também, uma vítima do meio social. O exemplo que vem de cima, a educação recebida, as condições repugnantes nas quais se é, amiúde, obrigado a trabalhar, explicam facilmente como é que homens, que não são moralmente superiores a seus contemporâneos, colocados na alternativa de serem explorados ou exploradores, preferem ser exploradores e encarregam-se de consegui-lo pelos meios de que são capazes. Todavia, essas circunstâncias atenuantes podem também se aplicar aos capitalistas, e esta é a melhor prova da identidade das duas profissões. As ideias anarquistas não podem, em consequência, levar os indivíduos a tornarem-se capitalistas assim como não pode levá-los a serem ladrões. Ao contrário, dando aos descontentes uma ideia de vida superior e esperança de emancipação colectiva, elas desviam-nos, na medida do possível, tendo em vista o meio actual, de todas essas acções legais ou ilegais, que representam apenas adaptação ao sistema capitalista, e tendem a perpetuá-lo. Apesar de tudo isso, o meio social é tão poderoso e os temperamentos pessoais tão diferentes, que bem pode existir entre os anarquistas alguns que se tornem ladrões, como há os que se tornam comerciantes ou industriais; mas, neste caso, uns e outros agem, assim, não por causa, mas a despeito das ideias anarquistas.”

Errico Malatesta (Março de 1911)

quarta-feira, janeiro 17

QUE FORÇA É ESSA

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compreendes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes

Não me digas que não me compreendes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


SÉRGIO GODINHO

terça-feira, janeiro 9

Poema Non-sense (exploração patafísica)

Boris Vian (1920-1959)
A verdade ecoa numa concavidade de luz que reluz na parede de cimento contado.
Na liberdade do céu vejo um peixe sem escamas que voa para um céu que não o do limite esponjoso.

«Olho o chão que se deixa ficar para trás entre secretárias e colunas duma comunicabilidade silenciosa.
Procuro o cerne num pedaço de metal frio que explode suavemente nas minhas mãos.
-E a cadeira, para que me senta?
Talvez me sente porque nas mãos tenho uma vara-que-não-vara que me serve para afagar.
Talvez porque uma foto de papel de seda me deixa sequioso e impaciente.
Talvez porque a mente nos meandros da rocha não saiba que o gato já passou há bastante tempo.
-Um miar ladrou bem alto no espaço sólido duma noite radiosa de Inverno.»

Algures pela concha encontrei uma maçã.
E nessa saliência de cavaleiro do presente vi um olhar!
O brilho era baço e de cavalo!
O ponto era negro e reluzente como a luz dum farol apagado.

«As coisas que se dizem quando tudo não se quer dizer sem regras nem sentido!»

Caminhar verde de crista de lua que se espanta com um cão radioso.
Passo preso com bolinhas espalmadas de cor acolchoada.
Quadrados quentes mediatizados pelo querer da tarde vagarosa como um carro de auto-estrada!
Fio de corda solta numa manhã espacial como a postura!
Voz de botão de tecto que traz consigo o cabide ancestral.
Textura ajudada pelo pêlo dum orangotango citadino.
Música pendurada nas paredes duma imaterialidade física.
Complexidade duma casa com as postas dos dedos enclausuradas pelas composturas descosidas.

«Pergunto ao chão quantas vezes comeu a sopa hoje.
Automatizo a maneabilidade da inserção formatada.
Ajudo a demência a ganhar forma na roupa de cama que visto no tronco de manga.
Contabilizo a sombra e constato que afinal o cão ainda não passou.
Era afinal uma caneta de cheiro a laranja que voltava da sua odisseia por um garfo sem dentes!
-E a faca? Falta a faca!»

Faca do sonho duma laranjeira despida de massas!
Colchão duro como a polpa dum balão térreo.
Ar constrangido pela sobreposição do paragrafo que só existe na sua imprópria inexistência.
Persiana solar que se queda nas despropositada interacção dos telhados subterrâneos.
Deambular quieto da linha obliqua duma horizontalidade do passado.
Símbolo transparente que se arrasta tardiamente sobre a folha duma estrada ainda verde.
Enquadramento de inquilino que se pendura num chinelo de cozinha.

«Procuro a almofada! Não quero nada mais que não seja casaco de fecho Napoleão.»

Cabala de tecla roxa como o morango.
Cinzeiro limpo por um rectângulo sem ângulos.
Limpeza da ombreira numa casa que se encontra num monte de penas para o ar.
Lata trilhada por uma pluma feita de arame constrangido.

«Onde andas? Já dei voltas e mais voltas e nunca mais te desencontrava!»

Cores tardias que ecoam pela massa saturada pelo ar!
Letras riscadas por um marcador deliciado pelo agir da espuma francesa!
Demência concêntrica.
Espirais espiraladas pelos poros duma boca fechada.
Libertinagem maquinal que vai flutuando pesada pelas paredes arredondadas como um plano perfeito.
Tomada de pose perante o caminho dum beco com saída.
Mentira conspurcada pelo homem-guerra que voa como um pássaro sem barbatanas.
Jogo de coisas e não-coisas na imensa clausura duma farinha amarelada pelo não passar da mota do Pé Raso.
Desnivelamento perante um camafeu cor de braço oscilante.
Dezasseis.
Vinte e quatro.
Oito milhões quatrocentos e vinte oito mil cento e setenta e um!
Quatrocentos biliões cinquenta e sete milhões trezentos e vinte sete mil e uma miríades ululantes!

«Números, apenas números!»

Uma.
Cinco.
Nove idades!

«Sinceramente ainda não sei ao certo…
Ainda não me disseram.
Isso para mim são apenas nove idades sem ligação passível!»

Colaboração descolorada pela água dum nariz de carteira de bolso.
Impressão contida na impossibilidade de dar azo às tentativas furtadas por um ladrão inocente como a madeira.
Raízes sem fumo.

«Fumo sem raízes!»

Raízes fumo sem.

«Sem raízes fumo»

Sem fumo raízes!
Colibris sem cabeça de alfinete.
Alfinetes sem colibris de cabeça.
Cabeça sem alfinete de colibris.
De colibris sem alfinete cabeça.
Colibris sem alfinete de cabeça.
Sem alfinete de cabeça colibris!

«Trocas e baldrocas!»

De!
Sem!
Colibris!
Cabeça!
Sem!
Cabeça!
De!
Colibris!
Sem colibris!
De cabeça!
Sem cabeça!
Colibris cabeça!

«Mando-me de cabeça sem colibris à mistura!»

Era uma vez.
Mas também foi duas vezes!
Em tempos!

«Mando-me de colibris com uma cabeça à mistura!»

Foi em tempos.
Mas ainda é!
Um homem sem rumo-alienado.
Um sentido não sentido.
Uma broca sem diamante num manto que não o cobria!
De amante restava-lhe o socado ventríloquo de alarido constante.
Coloquial levitado pela barata alargada do confuso buraco de ardina.
Exploração do sítio onde as larvas do bicho-da-seda faziam o seu pinho.

«Foi num pinhal abençoado, as escadas estavam lá e eu vi-as, estavam por baixo dos degraus!»

Preto e branco ressoado pelo respirar dum pé!
Laranja e melancia cortadas por inteiro.
Frutaria duma esquina sem homens por certo.
Longevidade intima complicada pela razão.
Substância detalhada na beira dum centro sem bordas.

«Quero o fim! Onde anda o fim?!»

Um fim sem fim que se encontre na finalidade de findar.
Umfimsemfimqueseencontrenafinalidadedefindar!
Uma colagem sem cola que sustenha o rumo das palavras que não são.
Uma cola sem colagem que sustenha as palavras que não são apenas as que escrevi.
Uma inglesa escrita pelo canto dum tenor indiano!
Ladear a escrita para inserir na parte de forra uma essência quase aquecida.
Explorar para expor a experimentação explicativa exprimida pela explosão expugnável.

«O cigarro que bafejo apagado vai ardendo através da inspiração ordenada pelos cantos das ninfas do Beijo.»

Ojieb od safnin sad sotnac solep adanedro oãçaripsni ad sèvarta odnedra iav odagapa ojefab euq orragic o.

«No fundo do cume das coisas era apenas isto que tinha para dizer!»
















quinta-feira, janeiro 4

Políticos

Desenham num néon colorido
Um arco-íris para as nossas vidas,

A laranja uma vontade económica

A rosa uma suposta vontade

A vermelho uma necessidade

A azul uma minoria

Exploram a imagem, as pessoas
A ignorância e a ilusória inteligência
As nossas vidas e o nosso tempo
Como quem masca uma chicla sem sabor.

Embrulham como tornados o dinheiro,
As falsidades, as despropositadas necessidades
Embalam e revoltam no silêncio
O cérebro cinzento a ressacar
Por um símbolo que nos há-de salvar

De gravata e camisa camelada
Desdobram-se em argumentos complexos
Despropositados,
Em palavras atulhadas e confusas
Em frases sem objectivo nem propósito necessário
Arrastam-nos sem que consigamos ter força
Sem que consigamos fazer valer o que nos magoa

Em casa, no seu guarda-fatos
Os factos vão-se acumulando
Sem que se verga o ferro frio que os sustenta
Como se os fatos ásperos não pesassem
E valessem mais os fracos argumentos!

DOWNTOWN TRAIN

Outside another yellow moon
punched a hole in the nighttime, yes
I climb through the window and down the street
shining like a new dime
the downtown trains are full with all those Brooklyn girls
they try so hard to break out of their little worlds

You wave your hand and they scatter like crows
they have nothing that will ever capture your heart
theyr'e just thorns without the rosebe careful of them in the dark
oh if I was the one
you chose to be your only one
oh baby can't you hear me now

Will I see you tonight
on a downtown train
every night is just the same
you leave me lonely now

I know your window and I know it's late
I know your stairs and your doorway
I walk down your street and past your gate
I stand by the light at the four way
you watch them as they fall
they all have heart attacks
they stay at the carnival
but they'll never win you back

Will I see you tonight on a downtown train
where every night is just the same you leave me lonely
will I see you tonight on a downtown train
all of my dreams just fall like rain
all upon a downtown train


TOM WAITS

segunda-feira, janeiro 1

O Homem e o Conhecimento

O princípio básico e esclarecedor da racionalidade contemporânea é a espelhada irracionalidade que obviamente advém da imagem de conhecimento que possuímos, ou seja, o princípio fundamental das necessidades vivenciais foi alienado de tal maneira, que desde esse momento primordial e básico que o conhecimento foi deturpado pelo erróneo desenvolvimento de si próprio. (...)

Intemporalidade

Apetecia-me escrever
Para no futuro lembrar-me
Deste mórbido presente
Que vive do erróneo passado

Fazer do observado passado
Presente
Do presente futuro
E do futuro passado

Apetecia-me cristalizar o tempo
E torná-lo intemporal

Pegar em tudo isto e isolar no tempo
Sem um presente
Sem um passado
Sem um futuro
Apenas isto e nada mais

segunda-feira, dezembro 25

JAMES BROWN


Deixo aqui uma letra que me maravilhou e surpreendeu bastante.
Um dia destes ao vasculhar pelos bastantes cantos já há muito tempo não remexidos da minha casa, descobri uma pequenalataredondalaranja número quatro, com um piano desenhado que tinha escrito com letragrossagarrafalamarelo:
JAMES BROWN!
Lá dentro continha uma música que embora já ouvida há bastante tempo ainda me era de toda desconhecida...
THIS IS A MAN'S WORLD
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness




sexta-feira, novembro 10

A ILHA DAS PANELAS




Nestes últimos dias tenho esvaziado a mala pesada de fotos que se encontrava a ganhar pó algures pela dispensa desta minha casa. Vou analisando uma a uma, procurando rever naqueles momentos imobilizados da folha de papel, memórias que se escondem nas concavidades do meu ser disperso em coisas do presente e do futuro. Algures nesse amontoado de recordações encontrei esta foto, a sua existência é anterior a mim mas no entanto possuo reminiscências contadas de como as coisas se faziam e sentiam nesse tempo.

Numa de muitas tardes como a que precederá esta manhã que finda, contaram-me histórias dum tempo que já lá vai, no tempo em que vagueava- ou talvez não- algures pelo corpo de alguém que era o meu não pai da altura. Eram tempos, diz quem me conta- a minha avó- de sacrifícios múltiplos e cheios de tudo aquilo que nos dá a força de viver, tempos em que parar para pensar era uma perda de tempo que de nada servia para pôr o comer na mesa. Nessa altura a vida não era como agora- como todos nós sabemos- não se tinham luxos como poder comer às horas que queremos e podemos, nem tão pouco darmo-nos a pequenos prazeres que não os básicos, que só por si e mediante as circunstâncias adversas e normais, já eram um verdadeiro luxo.
O nível de alfabetismo dos anos setenta era muito baixo, o conhecimento era restrito a um pequeno número de pessoas, e sendo assim a vida não era mais do que um emaranhado vivêncial de problemas que não eram mais do que motivos para nos "fazermos à vida" e pouco mais. Conta-me a minha saudosa avó que naquela altura e em anos anteriores o melhor meio de transporte- e por sinal mais económico- era o "fiat penantes", chegava a todo o lado e às horas pretendidas desde que as horas tivessem controladas; diz ela que a minha mãe, a partir dos seus tenros doze anos de pouca vida ia daqui à boavista todos os dias pelo tabuleiro de baixo da ponte D. Luís com um cabaz pesado de fruta na cabeça; andava por lá, voltava, chegava à hora do "tacho" comia e deitava-se. No dia a seguir era outro dia de trabalho. Tudo porque um dia tiveram que deixar de viver "sossegadamente" à custa de meu avô que assim queria que fosse, à boa moda machista do antigo regime... Um dia desapareceu, e a vida, diz a minha avó sem voz de arrependimento até que se tornou mais ampla e plena de sentido de sacrifício necessário à aprendizagem daquilo que é, singularmente; ela era e sempre foi analfabeta e sendo assim aprender fosse o que fosse era um prazer imenso. E porquê tudo isto, o que escrevo? Tudo isto para chegar ao local em que alguns destes ilustres personagens que figuram na foto que encima este texto moravam. Tudo isto para falar dum lugar mítico que me maravilha ouvir falar desde os meus tempos de infância, sítio esse que só o nome já é motivo para rejubilar de contentamento: a tão conhecida e badalada "ILHA DAS PANELAS". Não faço a mínima ideia porque tem esse ídilico nome, nunca foram feitas lá panelas, as que existiam também não deveriam ser muitas e se lá estavam era porque foram compradas ou oferecidas. Esta ilha citadina que não ladeada de água, era composta por oito casas de uma divisão cada; a casa de banho era comum, não possuia chuveiro nem lavatório, era apenas uma sanita e nada mais. Cada casa, uma família: a da Miquinhas Varredora e os seus não sei quantos mas bastantes filhos, a de minha avó e seus três filhos, a da se.Maria- dito assim como se lê- e mais os seus quantos filhotes em número bem comum aos que em média uma família típica portuguesa tinha, e mais cinco famílias de que não sei ou não me lembro do nome. Era um cenário, diz-me quem conta, bastante familiar e acolhedor. Nesses anos de sacríficio- coisa que infelizmente não tenho a verdadeira noção do que é- a irmandade entre miúdos era gigantesta. O dinheiro escasseava para os habitantes daquela ilha, talvez a situação geográfica e social fosse propícia a sua quase inexistência, mas no entanto, e às escondidas dos mais velhos, os miúdos como é o caso da minha mãe e de todos os outros, faziam das suas para alimentar a amizade inocente dos seus anos cada vez menos verdejantes que mais tarde viriam a dar lugar ao necessário trabalho; corroídos pela fome que espaçava a hora da refeição, tinham que arranjar maneira de comer pouca coisa que fosse para disfarçar essa fome momentânea; daí, a título de exemplo conto-vos esta história- à minha peculiar maneira- que me há-de maravilhar para o resto da vida.


As mães tinham saído cedo. Só à hora do jantar voltariam para nos ralhar ou bater por qualquer coisa que tivessemos feito e que era o pão nosso de cada dia. Era uma tarde solarenga e propícia para a brincadeira. Eu e todos eles brincavamos à vez com o cavalinho de madeira que em tempos de largueza financeira tinha sido oferecido a alguém. Depois de umas quantas voltas por campos imaginários- certamente cada um tinha o seu cavalo e o seu campo- já a hora se encaminhava para o sítio onde o sol se põe; um aperto na barriga deu o sinal daquilo a que o senso comum apelida- sim, apenas apelida- de fome constrangedora, que nos faz suar e desesperar por um naco mastígavel; uma ideia brilhante iluminou-me, porque razão até então nunca tinha pensado nisto? Sei que sofrerei consequências por este meu acto, talvez por isso nunca tenha pensado nisso... Mas deixa lá, se não é por isto é por outra coisa qualquer! Decidi-me! Vou subir a rampa e vou ao "Tagana"! Disse a meus irmãos e amigos para esperarem, subi a rampa do "Andante" com passo firme e vitorioso, entrei na lojinha onde a minha mãe tinha anotado o seu nome no livro gasto e desfolhado que repousava sobre o balcão, e disse:
- Dê-me um chouriço, dez pães e uma gasosa, ponha na conta da minha mãe que depois ela paga, muito obrigada.
Com o passo ainda mais determinado e com a mão esquerda estirada para baixo pelo peso da maravilhosa saca que trazia, cheguei à ilha, rápidamente o conteúdo do saco foi esventrado e depositou nos nossos estômagos uma satisfação suficiente para esquecermos a fome e voltarmos à brincadeira, só que desta vez decidimos inocentemente abandonar o cavalo e fomos correr para o vasto milheiral que se escondia por de trás da "Quinta de S. Salvador".
Dias depois chegou o dia de pagar a conta da loja, os tostões contadinhos estavam predestinados à mercearia. O dia do mês era sempre o mesmo, e eu, havia já bastantes dias que rezava para que aquele dia não chegasse nunca, até que um dia chegou... Nesse sábado desapareci da ilha com medo das represálias, mas no entanto, cedo ou tarde, tive que ir para casa, à minha espera estava minha mãe: aqueceu-me o corpo com todos os dedos que tinha nas mãos a multiplicar não sei por quantas vezes. Não lhe disse o porquê de ter feito aquilo. Isso guardei só para mim no meu enorme coração de criança. Apesar de tudo, não me arrependi, de maneira nenhuma.

Fiz desta recordação não vivida por mim, uma recordação pessoal vivida por palavras. Quis com isto chegar a uma conclusão que vendo bem foi o verdadeiro motivo para arquitecturar este texto que explodindo da foto começa a ganhar um espaço bem maior do que o que queria orquestrar. Sinto-me mais feliz depois disto e agora direi o que vos pretendia mostrar e dizer com este texto:

Nos tempos em que a necessidade era um monstro que à partida nos devia tolher, as pessoas sabiam ajudar-se mútuamente sem egoísmos intrínsecos; hoje, vive-se melhor, e apesar de ainda não ser para a maioria um "mar de rosas" as pessoas fazem do egoísmo um modo de vida.

A irmandade e prazer da entreajuda perdeu-se algures pelo tempo.

Mas vá lá, não é geral, ainda há bons corações.

Beijos e abraços!

segunda-feira, novembro 6

Interrogações.

Como é que pode um estado denominado soberano atropelar tudo e todos?

Como é que é possível que toda a gente fique a ver?

Como é que a democracia consegue personificar a liberdade?

Como é que a liberdade pode ser sinónimo de violência?

Como é que a violência pode ser a solução para um problema?

Como é que um problema pode realçar tanta ignorância?

Como é que a ignorância pode abrir tantos buracos?

Como é que os buracos podem ser tão escuros?

Como é que a escuridão nos pode salvar?

Como é que a salvação traz tanta desilusão?

Como é que a desilusão pode ser tão dramática?

Como é que um drama pode não ter fim?

Como é que o fim pode ser a solução?

Como é que a solução pode ganhar vida?

Como é que viver pode ser verdadeiramente real?

Como é que a realidade pode mudar?

Como é que a verdade pode vir a ser mudança?

Como é que vamos deixar de ser assim...?