quinta-feira, fevereiro 21

ART BLAKEY & JAZZ MESSENGERS- ARE YOU REAL?



Por vezes, esta pergunta banal impõe-se,
palavras para quê?

segunda-feira, fevereiro 18

A ESSÊNCIA DO HOMEM

Perguntar pelo Infinito
É resposta nas Palavras
É a criação de um mito
O ordenar da desordem

É ir e vir

O Homem é um pêndulo de arroz
Na panela que é Cosmos

Vai e vem!

Responder pelo Infinito
É perguntar nas Palavras
É ordenar de um mito
A criação da desordem

Tic-tac!

O Homem é um ponteiro
No relógio que define o Tempo

Tac-tic…

É a carne apodrecida
No corpo em corrente



O Homem é uma esponja
Na matéria da sua vontade

Zás e traz…

É o veículo Inocente
Na carne que o faz

Traz e zás!

O Homem é uma cobra
Na pele da hereditariedade

Zig zag!

É esquivo da Memória
No sonho da Perfeição efémera

Zag zig…

É o Homem uma árvore
Nas raízes da saudade
Contrariado pela mão

Acção!


Ping-pong!

É a bola lá e cá
Na mesa da Contradição

Pong-Ping…

É o Homem o ridículo
No circo da sua abstracção

Ri e chora…

É o Homem uma Lágrima
Na face da desilusão

Chora e ri!

É um rasgo de Alegria
No pano da Admiração.

Vai e vem
Vem vai…

E Traz e zás!
Zás traz!

E Tic e tac!
Tac tic!

E zig e zag!
Zag zig!

E ping e pong!
Pong-ping!

E ri e chora…
E chora E RI!

É o Homem um Homem



É balança em Equilíbrio
Nos pesos
Consolação!

quarta-feira, fevereiro 13

"THE BIG SLEEP"

Anda por aí muita gente a rir-se dos ingleses que, segundo um estudo agora divulgado, acreditam que Sherlock Holmes, Robin dos Bosques e Os Três Mosqueteiros são seres reais e Churchill uma personagem de ficção. Ora basta ler jornais e ver TV para verificarmos que os portugueses não são menos crédulos que os ingleses. Uma assustadora percentagem de portugueses acredita, por exemplo, que Mário Lino existe e é ministro das Obras Públicas e, tendo adormecido durante a projecção do filme que passa no país há dois anos, julga que Maria de Lurdes Rodrigues, Teixeira dos Santos ou Manuel Pinho são de carne e osso e não alucinações que, como o Freddy Kruger de "Pesadelo em Elm Street", personificam os seus piores medos. Coleridge observa que, de dia, as imagens geram sentimentos ao passo que, durante o sono, são os sentimentos que geram imagens. Assim, é natural que os medos dos professores (caos e desalento nas escolas, derrocada do sistema de ensino) suscitem neles a imagem "uncanny" de Maria de Lurdes Rodrigues e que essa imagem lhes pareça real. E do mesmo modo, nos outros casos, trabalhadores, empresários e cidadãos em geral. A solução é acordar e esfregar os olhos. O problema é que o filme tem uma banda sonora suave e embaladora, propícia à sonolência.

Manuel António Pina

Jornal de Notícias do dia 12 de Fevereiro de 2008

AOS CAVALOS DA DEMOCRACIA

A democracia é a mãe destas nossas sociedades caprichosas. É a trama que vive da liberdade que não temos, tendo-a em absoluto. A democracia é liberdade, a liberdade é rédea solta, a rédea é o que se dá a um cavalo quando a sua selvajaria é total e a sua condição assim exige. Imagino assim certos democratas em campo aberto, a correram furiosamente e a seu bel-prazer sobre chão que sempre foi seu, desde os primórdios da existência democrática. Não especifico democratas como partidários políticos, mas sim como praticantes da democracia. Assim como não diferencio as diversas raças de cavalo existentes. Aqui generalizo apenas.
Sendo eu filho da democracia e consequentemente da liberdade, imagino-me um dia destes a montar um democrata que não é mais que um cavalo – desgraçados dos cavalos, equipará-los a um democrata deve ser aborrecido, mas como nunca conheci um cavalo que tivesse aprendido a leitura, sinto-me livre de abusar de tal ignorância - , a puxar rédea e a gritar alto e a bom som “anda lá democrata, eu quero posso e mando, por ali que se faz tarde!” e o pobre desgraçado que é, a prosseguir comigo em peso sobre o seu costado cansado de tanta correria! Aí sim! Diria que a democracia é liberdade, e que o peso e medida não seriam abuso da liberdade que posso ter na sociedade democrática em que vivo. Adiante. O abuso é feio, e os cavalos andam a abusar! Como tal, seria homem para fazê-los correr até ao fim do mundo, o local vertiginoso em que detritos da terra caiem como água numa catarata de poeiras temporais. Levá-los-ia lá, ou melhor eles levar-me-iam, só para constatarem que idílica imagem era digna de ser vista pelos seus próprios olhos de cavalo com palas. Depois fazia-o voltar atrás, e certamente que ele correria para lá da sua ignorância e eu que remédio que teria que vir atrás. De regresso ao ponto de partida a sua orientada fugida determinaria a sua morte. “Ritmo assustado foi a causa da morte.” Diria concisamente o veterinário depois da autópsia. Nada triste regressaria ao estábulo, por lá escolheria outro democrata, e de lá correria outra vez até ao fim do mundo. Pensava para mim antes de puxar a rédea “mais um que vai morrer, mas que gosto isto me dá!”. Aquela viagem dar-me-ia tanto gosto e espaço para a contemplação, que um dia, depois de dias e dias de óbitos e viagens de ida e volta até ao fim do mundo, acabaria por encontrar o estábulo vazio de democratas. Tal vazio espacial assolar-me-ia de dúvidas, não teriam sido essas viagens abuso da liberdade que me deram? Ou foram somente actos ajustados à democracia que me deram? O dar seria o verbo da minha consumação. O que me tinham dado durante anos era um conceito de democracia deturpada pelo tempo que se desfazia para lá das minhas mãos, e as minhas, tinham sido a razão de todas as mortes.

ENTRE PÁGINAS

Abro o livro que te ampara
Não és personagem
És entre páginas a recordação que me deste
Naquele dia longínquo de Inverno

Nunca te ouvi,
Guardo de ti aquela folha
Aquela tua caligrafia sobre papel pardo
Daquele dia,
O dia em que passaste e não te vi
Do outro lado da rua do meu contentamento
Que não foi maior porque não quiseste

Maravilho-me com o teu cheiro no passar do tempo
O aroma deturpado pelo calor das páginas

Imagino-te, naquela manhã
Sorridente e perfumada como hoje que te toco
Folha de papel que tantas vezes evoco
Na ânsia do sonho que desejo diariamente.

domingo, fevereiro 10

O PÉ

Bato o pé
Cresce poema
Memória do tempo
Que se faz crescente,
Dou um passo
Cresce o poema
Ritmo compassado
Passeio lento:
Troco o passo
Cresce um poema
Viagem pelo pé
Velocidade gema.

sábado, janeiro 26

HOMEM LOUCO NO JARDIM

Lambia com os olhos as pessoas que passavam. Nas suas mãos um jornal dizia que o mundo estava caótico. Não o olhava. Apenas era seguro pelos seus dedos tremendos. Fazia sol nesse dia, pequenas nuvens tingiam o céu de lixívia. Entretanto passou um homem, magro como uma cabeça de gado sugada até ao tutano por um bicho misterioso. De passo rápido ia tirando a faneca do cu como gente grande. Mais abaixo, acompanhada pelo seu cão grisalho, uma senhora descolorada ia dizendo para si que as folhas eram a fonte de toda a miséria do mundo. Tudo se conjugava, sobre o seu jornal, como numa tela carregada de símbolos propulsores duma realidade. Acendeu então o cigarro e olhou mais amplamente em seu redor. Ao fundo um touro. Tinha um ar enraivecido, o toureiro nem vê-lo, aquela imagem para ele era ainda mais estranha, mas nada de impossível. O animal caminhava determinado mas compassado, algo trazia em si, origem de toda a raiva, tinha um olhar desconfiado capaz de fulminar o mais desatento dos homens. No seu banco tudo isto lhe dava uma sensação de imobilidade vindoura e até interessante. O homem da faneca, o jornal nas suas mãos, a velha descolorada, o touro enraivecido pela vivência. Ouviu-se uma voz. Era o homem dos gelados. Perguntou-lhe qual queria. Nenhum foi-lhe respondido. Um seguro foi então sugerido. Um porque não foi respondido. Já há bastante tempo que sabia que precisava de tal segurança. Perguntou quando era e se, como se sabe, numa altura de aflição o seguro ia deixá-lo na prancha para os tubarões. Claro que sim empurraram. Sendo assim, quero dois. De vida e de, ressoou a interrogação. Nada disso, quero um de baunilha e outro de morango. O homem dos gelados ficou atónito, na sua cabeça a tômbola girava desordenadamente. Mesmo assim, tirou os dois gelados. Quando se esticou um braço com uma mão na ponta e duas moedas na palma, a rejeição monetária surpreendeu. Não era de maneira nenhuma normal a recusa. Sorriram os dois. Um para cada lado. O jornal começava a pesar, as folhas eram espessas como um manto de flanela. O homem dos gelados e dos seguros prosseguia com o seu carrinho e tentava impingir ao touro, ao fundo, qualquer coisa de inaudível. Sentado, e com os gelados a derreter no prolongamento do banco gargalhou. O touro tinha espetado uma cornada tal no carrinho e no homem que os dois voavam bem juntinhos e emaranhados pelo ar. Foi impressionante para si, o barulho seco que se fez ouvir aquando do contacto simultâneo com o chão. Já satisfeito com o nível visionário proporcionado decidiu abrir o jornal. Letras e mais letras e imagens acompanhantes figuravam por lá acertadamente. De repente um cabeçalho bombástico, ou melhor, mais bombástico e miserável do que todos os outros lidos de relanço. HOMEM LOUCO NO JARDIM. A leitura começou a correr ao ritmo das diminuídas letras. “Todos os dias é visto um homem, porque nunca de lá sai, sentado num banco do jardim Y, não se percebe o que lá faz, nem nunca, tão pouco, lhe foi perguntado o que faz por lá há tanto tempo. É um homem dum aspecto frio intrigante, parece sempre rir de todos aqueles que por lá passam. Não se sabe minimamente o que lhe ocorre na cabeça, daí ser o seu sorriso a razão desta reportagem flexiva.” Ao lado vinha uma foto do homem, e o homem do jornal não ficou nada surpreendido ao ver que o homem era afinal ele. O homem de riso frio e estranho, ao ler sobre si, entrou numa viagem pela sua galáxia introspectiva. Pensava para si. É bom saber que a minha loucura vem no jornal, pode ser que assim se perceba, que o mundo não é mais que multiplicadas insanidades dignas de serem observadas por todos, e consequentemente, insanidades que a todos pertencem, mesmo quando no jornal não figuram como eu. E assim voltou a gargalhar, gargalhou a tal volume, que rapidamente toda a gente parou para perceber donde vinha tal gargalhada demente.

O ARTISTA A LÁPIS DE COR

Se eu tivesse outra vida
E outra escolha me dessem
Eu seria um desenhador perfeccionista

Primeiramente, analista

Desenharia o mundo
Numa folha de papel maior
Numa escala real a lápis de cor

Desenharia tudo aquilo que gira com o mundo
O globo o Homem os seus gestos

O universo para lá
As emoções os choros e os sorrisos

Desenharia os animais as fábricas as casas
As florestas os rios os mares a chuva e o sol
Realizava uma nova lua feita a partir da mesma
Flores cheiros até ao limite pintado do nunca visto

Depois de tudo colorido
Sobre a superfície maior que tudo
Apagaria tudo o que não me agradasse
Tornar-me-ia um artista do egoísmo

Apagaria certos gestos do Homem
Certos seres e os seus sorrisos
E outros choros para além dos que ficariam

Desenharia mais animais outras fábricas e casas
Florestas mais densas e rios mais dourados
E também outras chuvas com o mesmo sol escondido

Delinearia uma lua cheia permanente
Passava a borracha sobre certos cheiros e algumas flores
Desenhar-me-ia um novo esplendor

Depois de tudo
Transformar-se-ia o Homem
Nesta minha mudança riscada
Um Homem novo filho do paraíso

Mas se no entanto
Este paraíso não fosse para o outro novo Homem
Nenhum pânico me abalaria
A perfeição é um pedestal em construção

De novo esticaria a minha tela de papel
Não mais outra seria tingida
De borracha essências apagaria
De lápis na mão de novo recriaria.

O CIRCO VEIO À CIDADE

É o meu circo em viagem
Enriquecido em imagem
Solstício do sabor!

A minha tenda em vantagem
Sobre a trupe pajem
Que me arrasta extintor!

A aurora da verdade
Metamorfose do visto
Que se desfaz em riso

- Minha alma em risco!

O espectáculo na estrada
Sociedade errada
Pela sensibilidade encontrada
No artista fanfarrão!

O meu tolde de formol
Que cobre em sombra do sol
Os palhaços do caixão!

Uma performance de actores
Narizes vermelhos em clamores
Pela veracidade em humores
Na jaula do leão!

Mais uma cidade que me recebe
No auge seu ridículo
Sob o tolde da emoção!

Lá vai meu circo embora
Abandonando gargalhada outrora
Sintomática satisfação!

E para trás os palhaços
Que nas cidades ficam
Os seres que para sempre magicam
A continuidade da Razão!

Só porque o mundo é uma cidade
Uma crescente saudade
Do que nunca teve na mão!

SINCRONISMO, PARALELISMO - A VARA DO RÍDICULO

Os suínos da permanência evolutiva
Capricham a sua pocilga esterilizada crescente
Guincham ladainhas de bolota
E gesticulam pergaminhos de gula

- Quais animais capazes
Das maiores atrocidades adocicadas no seu espaço lamacento!

Os suínos da reminiscência ardida
Comicham o seu couro limitado demente
Pincham nos seus frascos compota
E articulam rosmaninhos de lula

- Mais arbitrais perspicazes
Para agigantar caminhos alterados pelo seu toque peganhento!

Os suínos da displicência intuitiva
Cochicham palavras no seu perímetro quente
Lincham carnes na derrota
E simulam vitórias na bula

- Divinais quintais lilases
Diluídos na força extrema construída do seu vento!

Os suínos da complacência diluída
Mancham o futuro passado presente
Esguicham sangue em anedota
E estimulam a individualidade mula

- Jograis demais ases
Destruidores alarves, criadores da jaula que é o tempo!

Os suínos da ciência instruída
Chucham a capacidade da mente
Acham os genes sota
E copulam a criatividade nula.

domingo, janeiro 6

NO CAMIÃO TURBULENTO QUE É O RELÓGIO

A óssea vontade do meu espírito
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;

És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio

Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.

A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.

O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.

Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.

A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.

Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.

CASALMA

Frio de lenha húmida
Nesta manhã dos pássaros

Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.

A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.

Mostra-se baú do mistério

Despoletar da curiosidade…

Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.

O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,

Curioso poeta da matéria

Alma que se escreve

Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado

Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.

EXTERIOR, INTERIOR , A LÂMPADA QUE SE FUNDE

O horizonte prolongado
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.

quinta-feira, dezembro 20

A cidade aquece sob as lâmpadas que iluminam a vicissitudes da calçada. Lá no alto da pedra talhada o relógio arrefece a noite. Os carros passam perdidos no seu ruído monótono e tolhido. Olhos meus observam a queda do tempo vivo. Homens arrastam-se como a aragem que se faz sentir, plácidos e encaminhados pelas mãos do acaso pesado na balança do mercado das frutas coloridas. Os cães de caça abrangem-se pela calada da lua, a sua pelugem azul confunde-os ao passarem em frente a uma montra que reflecte a justiça centrifugada. Um gato aparece, símbolo da pureza existente, branco como a espuma dos mares e esguio como os ramos das árvores secas que oscilam nas intempéries assobiadas. O relógio, dá as cinco badaladas do que sinto.

terça-feira, novembro 20

O POETA EM MIM

Perdido nas nuvens da sua imaginação
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental

Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege

Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo

Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico

Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si

A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado

No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos

Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser

A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo

Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal

Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano

É o que corre dum lado para o outro

Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.

A VIDA

Ser é o acto custoso
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim

Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo

Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência

Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade

Ser é unir

Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados

No ser está vida

Não ser é viver.

A ANOREXIA DE MARIA

Está uma noite fria entre os blocos sarapintados a luz,
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai

E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti

O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo

domingo, novembro 11

HINO ÀS CRIANÇAS

Comecei bem cedo nessas lides de ser homem
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam

Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência

Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência

«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»

Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível

Apercebi-me do desespero...

No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são

«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»

Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.

Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri

Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri

Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.