Os suínos da permanência evolutiva
Capricham a sua pocilga esterilizada crescente
Guincham ladainhas de bolota
E gesticulam pergaminhos de gula
- Quais animais capazes
Das maiores atrocidades adocicadas no seu espaço lamacento!
Os suínos da reminiscência ardida
Comicham o seu couro limitado demente
Pincham nos seus frascos compota
E articulam rosmaninhos de lula
- Mais arbitrais perspicazes
Para agigantar caminhos alterados pelo seu toque peganhento!
Os suínos da displicência intuitiva
Cochicham palavras no seu perímetro quente
Lincham carnes na derrota
E simulam vitórias na bula
- Divinais quintais lilases
Diluídos na força extrema construída do seu vento!
Os suínos da complacência diluída
Mancham o futuro passado presente
Esguicham sangue em anedota
E estimulam a individualidade mula
- Jograis demais ases
Destruidores alarves, criadores da jaula que é o tempo!
Os suínos da ciência instruída
Chucham a capacidade da mente
Acham os genes sota
E copulam a criatividade nula.
sábado, janeiro 26
domingo, janeiro 6
NO CAMIÃO TURBULENTO QUE É O RELÓGIO
A óssea vontade do meu espírito
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;
És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio
Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.
A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.
O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.
Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.
A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.
Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.
É a razão deste meu grito hirsuto de revoltas;
És a espinhosa rosa púrpura que me lamina
Nesta carne suada pela inacção verde deste meu corpo rijo. Procuro-te
Desde o sitio em que sei que te encontras, ou será que fujo?
Finjo-me rocha da montanha despejada pelos céus da noite
Enquanto te sinto ali
No camião turbulento que é o relógio
Minhas mãos choram lágrimas de tinta permanente
Na segmentada interacção da matéria
Inscrevem dores infernais em mim, criatura demente.
A névoa separa a unha da carne que nunca foram tal. Sinto o vento lamber
As incríveis lembranças do nunca acontecido para lembrança. O futuro,
Inscrito graficamente no meu peito ruborizado pelo choque que dói,
Determinando a fogo a intensidade do vulcão que jorra faúlhas, pedaços
Do meu corpo que se desfaz em decadências da vivência concêntrica.
O vidro é transparência.
Quebrável placa do teu nome falado, fina camada que me prende
Recluso do corpo que se recusa a agir para te cravar minhas artérias
Transfusão do meu sangue para teu caule suculento na escuridão da pureza.
Nos fios dão-se nós,
Nunca soube atar os cordões da minha jaula aos teus de maravilhas nauseabundas
Às pontas dos teus dedos seráficos
Às pontas dos teus cordões ondulados pelos nós da genética, que te trouxe
As unhas que arranham a neblina das sensações, enquanto canto de longe
O recorte horizonte e risco, a vermelho
Sangue em minha carne putrefacta. És a textura da rispidez com que te vejo
És o ninho emaranhado de ramos do delicado que percorro em películas que só eu sinto antes da dor.
A tua mão direita oscila em mim
Observador de símbolos
Aventura-me no labirinto do teu sentido, lança-me no abismo da vontade
Mutila-me, torna-me homem que deixou de sentir o seu peso
No corpo que é o seu.
A tua mão direita toca-me com a caneta que me marca
Perdido nas sílabas recortadas e coladas por mim, semiótico
Transforma-me em lunática toupeira das entrelinhas que distendes.
A noite desta minha respiração está longe de ti dentro de mim
A tua essência assegura o magma do que te escrevo. Lá fora, os pássaros
Do silêncio agitam as telhas da amargura que se desfaz em chuva.
Os carros passam à velocidade estonteante da necessidade que desespero, do teu cheiro
Que quero, em meu nariz aquilino curva de rio. A cidade agita-se em sons
Estilhaços do progresso, é a tua voz que me chama, silêncio
Nos meus ouvidos lágrimas de cera, as gotas de equilíbrio para a eternidade
Cristalizações espontâneas por não ouvir tua voz viva
Mas a dos tempos separatista porque sou retalhado da vivência.
Quero gritar, quero violentar a distância dos corpos
Para suavizar o toque das almas. Percorrer os contornos da loucura
Para desmistificar a mórbida ternura, que me desfaz em sonhos.
Quero ferrar a prisão do carácter, libertar-me
Das masmorras do corpo de bronze que impede vida às estátuas.
Quero correr pelo teu busto, floresta macia de árvores sensitivas
Repleta de frutas amadurecidas ao sol da minha fulgurância.
Quero emoldurar sob os meus dedos discrepâncias cinestésicas
Ilusões da alquimia cósmica ordenada pelos raios pueris do limiar cristalino.
CASALMA
Frio de lenha húmida
Nesta manhã dos pássaros
Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.
A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.
Mostra-se baú do mistério
Despoletar da curiosidade…
Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.
O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,
Curioso poeta da matéria
Alma que se escreve
Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado
Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.
Nesta manhã dos pássaros
Dos cantares que preenchem
A floresta citadina.
A fachada desta casa
Que me olha bem alta
Algo esconde,
O tempo passou por ali.
Mostra-se baú do mistério
Despoletar da curiosidade…
Tesouros vários
Utensílios da prática ancestral
Arte a descoberto
Para lá do manto de paredes.
O chão range, oscila
Sob os passos pesados
Da minha necessidade,
Curioso poeta da matéria
Alma que se escreve
Pesado ser ao encontro
Do pó acetinado
Acto corpóreo como a carne
Que me é vida.
EXTERIOR, INTERIOR , A LÂMPADA QUE SE FUNDE
O horizonte prolongado
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.
É a linha que a minha mão perfaz
Sobre o espaço vazio que é folha,
Os contornos alongam o visível
Sobre o palco mutável capaz
(Vulto da vontade canibal de me sentir
Ser), no antro do limitável. Carrego
A minha imaginação que fluoresce
Pelos descampados do betão
Na intensa capacidade de lhes dar
Curvas alíneas de interesse
(Pontos cardinais da saudade
Criada pela inexistência do sonho
- Palpável vitória do tocado).
Arrasto as linhas e as formas
Em cadências profundas
Moldo-as como barro cinestésico
Sob a banca suja pelo uso
Formalizo o sonho pela tinta
Carregada alma que transpira.
Suavizo a áspera vivência
No transporte, suas palavras
Baralho os significados
Na estrada, suas linhas
Para limar as arestas da percepção.
Cristalizo o real no sonho
Metamorfose da essência
Nos meandros da luz que se funde.
sexta-feira, dezembro 28
sexta-feira, dezembro 21
quinta-feira, dezembro 20
A cidade aquece sob as lâmpadas que iluminam a vicissitudes da calçada. Lá no alto da pedra talhada o relógio arrefece a noite. Os carros passam perdidos no seu ruído monótono e tolhido. Olhos meus observam a queda do tempo vivo. Homens arrastam-se como a aragem que se faz sentir, plácidos e encaminhados pelas mãos do acaso pesado na balança do mercado das frutas coloridas. Os cães de caça abrangem-se pela calada da lua, a sua pelugem azul confunde-os ao passarem em frente a uma montra que reflecte a justiça centrifugada. Um gato aparece, símbolo da pureza existente, branco como a espuma dos mares e esguio como os ramos das árvores secas que oscilam nas intempéries assobiadas. O relógio, dá as cinco badaladas do que sinto.
terça-feira, novembro 20
O POETA EM MIM
Perdido nas nuvens da sua imaginação
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental
Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege
Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo
Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico
Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si
A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado
No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos
Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser
A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo
Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal
Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano
É o que corre dum lado para o outro
Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental
Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege
Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo
Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico
Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si
A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado
No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos
Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser
A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo
Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal
Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano
É o que corre dum lado para o outro
Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.
A VIDA
Ser é o acto custoso
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim
Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo
Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência
Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade
Ser é unir
Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados
No ser está vida
Não ser é viver.
A ANOREXIA DE MARIA
Está uma noite fria entre os blocos sarapintados a luz,
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai
E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti
O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo
domingo, novembro 11
HINO ÀS CRIANÇAS
Comecei bem cedo nessas lides de ser homem
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam
Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência
Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência
«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»
Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível
Apercebi-me do desespero...
No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são
«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»
Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.
Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri
Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri
Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.
A RESPEITO DO TRABALHO QUE JÁ NÃO TENHO - SORRIR OU CHORAR?
Cai num vazio que me irrita profundamente. A sua causa é a razão do desconforto que sinto. Mais uma vez encontro-me desempregado. Gostaria de poder não usar tal expressão, preferia de todo poder dizer desocupado, mas uma série de obrigações pessoais intrínsecas a quem tem coisas para pagar, obriga-me a suportar o peso de ser mais um desempregado. O emprego que tinha era no ramo da elevação hidráulica, área esta em que direcções descendentes e ascendentes faziam parte da execução em quase todo o processo até ao final, como em tudo na vida. Só que descender foi a minha última direcção, um rol de circunstâncias levaram a isto. Depois de muitas tentativas de elevação da dignidade fui empurrado pelas costas e cai de novo no chão que noutros tempos me trouxe mazelas. Sou hoje -como gosto eu da palavra hoje - , um homem supostamente livre e digno da sua existência, embora desolado por não poder contribuir para algo que pretendo abnegar absolutamente, sinto-me arrastado e perdido no rio turbulento que é estar morto, elemento entristecido da chamada população activa. Hoje – mais uma vez, a palavra que mais me fascina – esta sociedade que vive das várias áreas produtivas, é um espaço caótico e insuficiente para suportar pessoas como eu, que como todas, têm que ganhar o seu quinhão, o que é de todo assustador, já que a qualificação é cada vez maior e o interesse das estruturas empregadoras e governativas gigantesco -os interesses são muito básicos, aperfeiçoar cada vez mais as máquinas e esquecer que afinal já foram pessoas. É uma verdade dolorosa, isto dependendo do olhar de cada um de nós. Talvez se o meu emprego fosse empregar, mesmo que discordasse de tal robotização, ver-me-ia obrigado a concordar, não tivesse eu em casa contas para pagar! Qualquer coisa como, não concordo tendo em conta o que penso, mas concordo plenamente tendo em conta o que faço e me fazem precisar! E assim o jogo prossegue, a necessidade imposta é a necessidade fundamental substituta.
terça-feira, novembro 6
A GARAGEM EM CONSTRUÇÃO
Quando a poeira vibra melodicamente
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve
Uma acalmia leve perdura no espaço
Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si
Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura
O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação
E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa
Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar
Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade
Que também é fonte de beleza sofrida
Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver
Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta
Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro
E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória
É simples
É a simplicidade que nos rege
É poético
É a poética que queremos
É dúbio
Como tudo o é
É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo
É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos
É ânimo que não se perde nos actos
Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;
E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido
Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.
segunda-feira, outubro 29
SURREALISMO SMS
"Tenho aqui uma
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"
"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"
"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"
sexta-feira, outubro 26
quinta-feira, outubro 25
quarta-feira, outubro 24
A MEMÓRIA DO MUNDO
As lembranças acumulam-se como pó em armários que são elementos duma vida. São ecos dum tempo que foi e é agora outro, mesmo na essência que as fazem recordar em nós, partículas que somos. Pode-se dizer que a memória é um boomerang mutável e necessário. Igualmente necessário é perceber que o tempo é o sempre, mesmo quando o sempre acaba e se torna numa memória que assim durará. O espaço pode transformar-se em vazio e o vazio pode abolir a matéria que deu forma à vivência, mas nem aí a lembrança se foi, somente porque o vazio é desenrolar do espaço que se fez. E aí, perdurará a memória, o rasto do tempo até ao limite que o é, deixando de o ser… tudo porque o tempo não é aquilo que criamos como tempo, mas apenas a explanação do início até ao sempre. E a lembrança da memória é isso mesmo, aquilo que fica para lá do que lembramos, a continuidade de tudo o que fomos como seres de memórias. Hoje, enquanto escrevo, lembro o que para trás disse, o que para trás ficou. Relembro o que deu origem à escrita que me faz escrever. Agi no cosmos como elemento comparticipante da intemporalidade, dei forma ao presente passado que mesmo que extinto fez faz e sempre fará parte daquilo que está para vir. O mundo pode ruir, vai ruindo num murmurar crescente que acabará em local indescritível mas continuidade daquilo que foi, mas mesmo assim, na outra forma que não sabemos existência, traços de memória demonstrarão o passado que sempre continuará e foi. Certamente não estaremos cá nesse tempo que não o nosso, mas as memórias permanecerão como são, restos capitais da importância que têm. E assim a lembrança é apenas a conclusiva peça dum puzzle gigantesco, a forma multiplicada dos presentes que nos foram oferecidos pelo passado que nos trouxe e que para sempre nos levará em si.(...)
domingo, outubro 21
A ESFERA*
“E eles passeiam-se pelo mundo com a sua imortalidade histórica e inadequada...”
Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.
Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.
Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.
Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.
Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.
Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.
Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.
A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!
Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!
Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.
E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.
Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.
Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.
Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.
Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.
Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.
* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.
TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:
"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."
Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.
Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.
Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.
Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.
Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.
Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.
Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.
A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!
Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!
Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.
E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.
Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.
Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.
Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.
Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.
Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.
* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.
TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:
"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."
quinta-feira, outubro 18
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