quinta-feira, dezembro 20

A cidade aquece sob as lâmpadas que iluminam a vicissitudes da calçada. Lá no alto da pedra talhada o relógio arrefece a noite. Os carros passam perdidos no seu ruído monótono e tolhido. Olhos meus observam a queda do tempo vivo. Homens arrastam-se como a aragem que se faz sentir, plácidos e encaminhados pelas mãos do acaso pesado na balança do mercado das frutas coloridas. Os cães de caça abrangem-se pela calada da lua, a sua pelugem azul confunde-os ao passarem em frente a uma montra que reflecte a justiça centrifugada. Um gato aparece, símbolo da pureza existente, branco como a espuma dos mares e esguio como os ramos das árvores secas que oscilam nas intempéries assobiadas. O relógio, dá as cinco badaladas do que sinto.

terça-feira, novembro 20

O POETA EM MIM

Perdido nas nuvens da sua imaginação
Encontra-se o poeta
À procura duma arvore enraizada
Que dê forma ao que não pode ter de concreto
Alimenta-se de sonhos, ao almoço e ao jantar
Esperando que o fruto caia dum ramo instituído por si
Desenha com a sua caixa de fantasia cada linha que o define
Na ambição de encontrar o galho do sossego
Espera para cá e para lá que o fruto amadureça
O processo pávido de se sentir transcendental

Na sua mão aberta um espaço receptivo
Uma liberdade de fechá-la quando quer
No seu coração uma metáfora
O mito do compasso cardíaco que o rege

Enterra-se cada vez mais na terra humedecida
Por lágrimas suas que são as de todos
Aqueles que se quedam da essência de estar vivo

Minuciosidade ardente inflama-lhe o peito
Um fogo que arde na chama de um nome
Ateado pelo cantar melódico

Dá azo a devaneios devastadores
Criando cinzas duma alegria que vem da tristeza
Fazendo-lhe crescer flores pela boca
Flores de lótus dum tempo que se encontra em si

A morte, a alegria e o respirar
São bases para as suas palavras imutáveis
São elementos essenciais para o seu jardim
Selvagem não restritivo não amestrado

No seu corpo a lei do mais fraco rege a luta pela vida
As alegrias floridas ferram as tristezas
E o contrário é metamorfose dos sentidos

Não há um caminho delimitado
Apenas um norte desnorteado e perdido
Que lhe dá a direcção incerta do que é quer ser

A bússola em que se apoia não tem chão que o segure
Porque o chão é um limite inferior insuficiente
Vive no céu abaixo do piso que lhe dá forma física
Ansiando o fragmento de dia que lhe dê ânimo

Os seus passos são confusos e levianos
Como se de bicos de pés conseguisse ver algo mais
Esgueira-se sobre o seu corpo na procura daquilo que não lhe dão
Estica-se ao máximo para dar para fora a alegria que lhe negam
A alegria de compreender o justo divinal

Senta-se só feliz de ser na cadeira equilibrada pelos seus pés
Reavivando o entorpecido pelos voos do quotidiano

É o que corre dum lado para o outro

Qual barata tonta dum buraco húmido escurecido
Amealhando as percepções expelidas pela sustentabilidade de ver
Na amplitude da dor que se pode esconder.

A VIDA

Ser é o acto custoso
A fuga no encontro do sentido
À procura do lugar em mim

Ser é não ser
É ser não sendo o que se é
É regressar à essência do corpo

Ser é negar o que quer que sejamos
É libertar o ser que há em nós
Das amarras que somos consequência

Ser é limpar o pátio da alma
Com água limpa que repousa
Nas profundas concavidades da impessoalidade

Ser é unir

Colagem de penas que se perderam
No tempo que nos faz assim depenados

No ser está vida

Não ser é viver.

A ANOREXIA DE MARIA

Está uma noite fria entre os blocos sarapintados a luz,
Pequenas gotas caiem como tempo pelo tempo
Folhas que se dispersam pelo chão do Outono;
As pessoas encolhem-se recostadas nas corridas dos seus cães
Que não vêem nada para além da sua vontade viva.
É a noite da minha nostalgia
Das lembranças de ti que foste e vais caindo
Como as folhas das árvores cada vez mais despidas;
Todo o teu fulgor nos meus braços é fulgor na minha mente
Toda a tua alegria de olhar o é no meu
É fonte que jorra hoje no jardim do vento que vem e vai

E a tristeza é transformação
É a alegria de te saber como foste no meu corpo
Que se tornou em dor de te saber caindo no teu próprio corpo que mirra.
Como me dói ter-te longe e ver-te como as árvores esqueleto que contemplo
Isoladas da beleza de outras estações que hão-de vir como ciclos
E para isso, ciclo que quero ser, hei-de voltar para te puxar
Para te cobrir de folhas e voltares à beleza da vida que não existiria sem ti

O choro humedece-me a lembrança
Fico só no jardim da memória
Assobio e o meu canídeo volta
Feliz e estafado pelo esforço alegre,
Choro e continuo a chorar
Não consigo aceitar a dificuldade de te ouvir longe
Presa numa prisão em que a chaves estão no bolso da minha desilusão,
Seria bom assobiar e ter-te feliz e desperta a meu lado
Abraçar-te e sentir a tua carne
E não o esqueleto que te ilude no espelho longínquo

domingo, novembro 11

HINO ÀS CRIANÇAS

Comecei bem cedo nessas lides de ser homem
Mais tarde do que muitos mas a tempo de.
Comecei a correr tinha os meus dezasseis anos
E nunca a corrida me soube tão bem
Era o início, e como quase todos os inícios
Algo de misterioso por descobrir surgiu no horizonte;
Comecei por ver as pessoas à procura da sua compreensão
A que afinal, era minha para com todos os que me acompanhavam

Desde o berço que tudo se conjugava, embora confusamente
Qual emaranhado de desabafos de quem obrigado se vê a pagar um preço
O preço de ter nascido no auge dos tempos da livre concorrência à sobrevivência

Vi ódios companheirismos ouvi lamúrias cantares da abstracção
Recebi testemunhos à passagem da estafeta nos momentos em que a experiência Reformula a experiência

«Entretanto a pista é bem larga
Mas não há lugares para todos os corredores»

Vi também combatentes no próprio corpo
Aleijados pelo tempo das máquinas homónimas
Pessoas levadas pelo vento ciclónico sem fuga possível

Apercebi-me do desespero...

No princípio a inocência não me permitia aprofundar à realidade
Até que no vazio do vento me deparei
Objecto atingido pela banalidade do fatalismo deduzido;
Aí, outra percepção falou mais alto, mais uma experiência
O homem é vítima da sua própria puerilidade
Acidentado senhor da inocência que não se perdeu na infância
Assassino de si próprio como criança que não sabe o fazer à complexidade que lhe foi entregue por outras que o foram e são

«Pobres crianças, o que fazer com as crianças?»

Talvez atirá-las ao poço fazê-las suportar a carga
Embrutecê-las com promessas de sonhos a concretizar
Adoçar-lhes a boca com rebuçados de petróleo
Limpar-lhes o rabo com lixas de pedra
Afagar-lhes o cabelo com uma nota graúda.

Somos então todos crianças no parque do sofrimento
Em cima de baloiços balancés escorregas
Que saltam que vibram que choram quando caem
Que riem quando a realidade lhes ri

Somos então todos homens na sociedade do sofrimento
Em cima de carros de motos de pontes de prédios
Que saltam que vibram que choram quando compreendem
Que sorriem quando a realidade lhes sorri

Somos crianças invejosas que partilham o doce como acto de ignorância assumida.

A RESPEITO DO TRABALHO QUE JÁ NÃO TENHO - SORRIR OU CHORAR?

Cai num vazio que me irrita profundamente. A sua causa é a razão do desconforto que sinto. Mais uma vez encontro-me desempregado. Gostaria de poder não usar tal expressão, preferia de todo poder dizer desocupado, mas uma série de obrigações pessoais intrínsecas a quem tem coisas para pagar, obriga-me a suportar o peso de ser mais um desempregado. O emprego que tinha era no ramo da elevação hidráulica, área esta em que direcções descendentes e ascendentes faziam parte da execução em quase todo o processo até ao final, como em tudo na vida. Só que descender foi a minha última direcção, um rol de circunstâncias levaram a isto. Depois de muitas tentativas de elevação da dignidade fui empurrado pelas costas e cai de novo no chão que noutros tempos me trouxe mazelas. Sou hoje -como gosto eu da palavra hoje - , um homem supostamente livre e digno da sua existência, embora desolado por não poder contribuir para algo que pretendo abnegar absolutamente, sinto-me arrastado e perdido no rio turbulento que é estar morto, elemento entristecido da chamada população activa. Hoje – mais uma vez, a palavra que mais me fascina – esta sociedade que vive das várias áreas produtivas, é um espaço caótico e insuficiente para suportar pessoas como eu, que como todas, têm que ganhar o seu quinhão, o que é de todo assustador, já que a qualificação é cada vez maior e o interesse das estruturas empregadoras e governativas gigantesco -os interesses são muito básicos, aperfeiçoar cada vez mais as máquinas e esquecer que afinal já foram pessoas. É uma verdade dolorosa, isto dependendo do olhar de cada um de nós. Talvez se o meu emprego fosse empregar, mesmo que discordasse de tal robotização, ver-me-ia obrigado a concordar, não tivesse eu em casa contas para pagar! Qualquer coisa como, não concordo tendo em conta o que penso, mas concordo plenamente tendo em conta o que faço e me fazem precisar! E assim o jogo prossegue, a necessidade imposta é a necessidade fundamental substituta.

terça-feira, novembro 6

A GARAGEM EM CONSTRUÇÃO

Quando a poeira vibra melodicamente
Como lágrimas de nuvens em noite de Inverno soalheiro
A construção ganha contornos como nunca teve

Uma acalmia leve perdura no espaço

Uma imaginação faz fugir
Limpa a ambiência que varre a alma
Da ínfima possibilidade mágica
De sonhar com tudo o que é só por si

Como gotículas de chuva encantadora
O pó esbate-se no chão do esforço
Impingido pela necessidade vindoura

O pó é o canto do antro da sobrevivência
A abstracção do que me faz lá estar
Mesmo quando em devaneios
Da compreensão que unge a física
É a razão de estar vivo na filtrada obrigação

E quando no chão cai
O pó
Um nevoeiro levita harmonioso
Na luz electrificada da lâmpada engenhosa

Como parte de um todo poeirento
Repouso pó pelo chão
Inerte
Em observações carregadas de perspectiva
Na inferioridade visual de tudo contemplar

Tudo se confunde em belezas ofuscantes
Em detritos técnicos e emaranhados
Que esquecem a necessidade

Que também é fonte de beleza sofrida

Compreensão de sonhos firmes
Na ambiguidade de se ver

Dum lado e do outro da barricada
A etérea pedra separadora
Determina secamente
O nicho da alma que se adapta

Os seus pós esculpidos pelo tempo
São a razão do belo ao intercalar os lados do encontro

E da pedra vive o homem
Mesmo quando a separação se confunde
Nos momentos de harmonia contraditória

É simples
É a simplicidade que nos rege

É poético
É a poética que queremos

É dúbio
Como tudo o é

É mistério que se aceita
Diferença que marca o desejado pelo corpo

É maré raivosa
Com barco sôfrego a dois remos

É ânimo que não se perde nos actos

Vontade que não desiste
Da vida que se faz valer
Como criador da memória interpretativa;

E a poeira é assim elemento pávido
Do sonho bifurcado no vivido

Dose de satisfação agridoce
Que se aproxima do chão erosivo
Que nos faz e refaz.

segunda-feira, outubro 29

SURREALISMO SMS

"Tenho aqui uma
camisa de
forças!cortam
cabelo a homens?"

"Nessas condições
até eu ficava
traumatizado.era
capaz de chorar de
cada vez que visse
uma carica, ou
sentisse o cheiro
da laranja...não
aguentava!"

quarta-feira, outubro 24

A MEMÓRIA DO MUNDO

As lembranças acumulam-se como pó em armários que são elementos duma vida. São ecos dum tempo que foi e é agora outro, mesmo na essência que as fazem recordar em nós, partículas que somos. Pode-se dizer que a memória é um boomerang mutável e necessário. Igualmente necessário é perceber que o tempo é o sempre, mesmo quando o sempre acaba e se torna numa memória que assim durará. O espaço pode transformar-se em vazio e o vazio pode abolir a matéria que deu forma à vivência, mas nem aí a lembrança se foi, somente porque o vazio é desenrolar do espaço que se fez. E aí, perdurará a memória, o rasto do tempo até ao limite que o é, deixando de o ser… tudo porque o tempo não é aquilo que criamos como tempo, mas apenas a explanação do início até ao sempre. E a lembrança da memória é isso mesmo, aquilo que fica para lá do que lembramos, a continuidade de tudo o que fomos como seres de memórias. Hoje, enquanto escrevo, lembro o que para trás disse, o que para trás ficou. Relembro o que deu origem à escrita que me faz escrever. Agi no cosmos como elemento comparticipante da intemporalidade, dei forma ao presente passado que mesmo que extinto fez faz e sempre fará parte daquilo que está para vir. O mundo pode ruir, vai ruindo num murmurar crescente que acabará em local indescritível mas continuidade daquilo que foi, mas mesmo assim, na outra forma que não sabemos existência, traços de memória demonstrarão o passado que sempre continuará e foi. Certamente não estaremos cá nesse tempo que não o nosso, mas as memórias permanecerão como são, restos capitais da importância que têm. E assim a lembrança é apenas a conclusiva peça dum puzzle gigantesco, a forma multiplicada dos presentes que nos foram oferecidos pelo passado que nos trouxe e que para sempre nos levará em si.(...)

domingo, outubro 21

A ESFERA*

“E eles passeiam-se pelo mundo com a sua imortalidade histórica e inadequada...”

Era uma vez uma pequena esfera. Nessa esfera tudo agia em prol duma finalidade abstracta – mas não muito! Os donos dessa Esfera eram tiranos, seres capazes de tudo quando assim deixavam; mais abaixo da tirania institucionalizada havia outros mais seres, tiranos também, mas de um egoísmo menor.

Os tiranos superiores agiam mesmo com os bolsos a romper de tanto peso - isso não os preocupava, o cangalheiro coseria os bolsos que já não o eram ou até faria um novo fato de ordem fúnebre.

Os tiranos inferiores, desgraçados, gostavam de ter pena própria, e até, com um deturpado sentido de orgulho, ostentar símbolos ordenados pela tirania superior.

Como foi escrito, os superiores agiam, e como tal - e seria desnecessário escrever - os inferiores não reagiam.

Era uma esfera estranha, um pouco achatada que não nos pólos.

Nalguns dias de sol, palavras soltavam-se duma caixa disforme mas desde sempre pouco alienada, mas mesmo nesses dias, as palavras não eram actos e outros actos não deixavam de seguir o seu rumo.

Em dias de chuva, que eram cada vez em maior número, palavras antecediam actos e os actos formavam o seu rumo.

A chuva já há algum tempo, gradualmente, que ganhava outros contornos. Era uma chuva metálica e estridente que se arrastava pelos dias da esfera não a atingindo fisicamente em toda a sua superfície. Sendo uma chuva proveniente de actos congruentemente elaborados pelos tiranos superiores, os locais a humedecer pelas lágrimas eram escolhidos pelos dedos do interesse dourado – isto simbolicamente falando!

Os outros tiranos, os inferiores – somente pelo gosto de terem razões para falar sem agir – iam vendo pelos próprios os olhos a chuva cair como bombas nos seus quintais matando as suas couves e demais legumes – isto sarcasticamente falando!

Resumindo, naquela esfera - que não é de maneira alguma aquela que temos na palma da mão - a chuva caía aos olhos de todos, e cedo ou tarde podia mesmo cair para todos de corpo inteiro.

E assim, o medo – o catalizador de todos os problemas e de todas as soluções – ia ganhando espaço geográfico.

Um dia todos perceberam que a tirania já não era nem superior nem inferior. A tirania era então a próprio esfera.

Os superiores, sem se perceber se felizes ou entristecidos, por lá prosseguiam a sua caminhada árdua pelo forro dos seus bolsos.

Os inferiores, coitados, por lá corriam como baratas tontas numa sala blindada sem nada de necessário à sua condição natural.

Era triste saber que a esfera tinha absorvido anos de coragem e medo para assim formar uma tirania irreversível. Era a esfera agora, formada tirania dos tiranos, inferiores e superiores, corajosos e medrosos.

Certo dia, nem se interiorizou quando, uma tirania faleceu. Vergonhosamente, nem cangalheiros havia para lhe dar um fato decente para o funeral da memória; mas nesse acertado dia, obra da esfera tirana duma tirania que não a dos seres opostos, a esfera permaneceu – a sua luta tinha sido renhida, adequada às necessidades naturais da existência.


* este título é o nome da futura seita religiosa apocalítica, em que sou sacerdote supremo, que terá lugar no meu sotão todos os sábados à tarde das 15h às 17h. Quem estiver interessado veja o filme de título homónimo como pré-requisito de admissão. Só serão admitidos maiores de 18 anos com carta de condução e de preferência que possuam carros de alta cilindrada ou chassos antecedentes ao ano de mil novecentos e setenta. Para os mais cépticos mas possuídores dum apetite voraz e lambareiro, todos os serões serão acompanhados por bolachas com cobertura de chocolate.

TEMA DO SERÃO DO PRÓXIMO SÁBADO:

"O mundo está nas vossas mãos e não nas do Senhor."

quarta-feira, outubro 10

E AFINAL DEUS EXISTE!

Mudei de ramo. Sou agora macaco noutro galho. Desta vez – mais uma experiência – sou técnico de montagem de elevadores. Nem sabem, é um sobe e desce constante. Depois de ir receber um cheque referente ao trabalho anterior, fui indicado para ir montar um elevador a uma dessas igrejas pós modernas em que a divindade aparece bem representada nas linhas que a sustentam. Escusado será dizer que nessa igreja existirá um elevador, para oito pessoas, talvez para elevá-las ao céu do todo-poderoso senhor. Prosseguindo. Não sou um gajo religioso e nem diabólico tampouco, mas hoje foi um dia em que a mão divina repousou sobre a minha cabeça, tal entidade não permitiu que eu trabalhasse da parte da manhã - os seus desígnios são supremos. A falta de andaimes demonstrou que era da sua vontade ver-me descansado a contemplar o esqueleto da sua construtiva casa. Hoje algo mudou. Sinto-me uma pessoa diferente e abençoada.

domingo, outubro 7

O NEVOEIRO DA MANHÃ

A manhã fez-se ao acordar
Como flor que acorda da terra húmida
E se esventra em poses miraculosas

Pelo rolar da estrada em que ando
O mundo não é mais do que um palmo
Um palmo cheio de tudo o que é a imaginação

A aura do nevoeiro paira a partir do que não vejo

O limite que nos dá
É o que não é

O invisível
Ganha asas
Sob os olhos da minha alma

Redesenho o horizonte
Para lá da barreira pluviosa

Escrevo em mente
A história do plano terrestre
Em formas magicadas pelo sonho

A mística do que não vejo
Assoma-me em proporções divinais
Na procura do mundo que quero

O destino chega até mim

Tudo se desdobra e mostra
Em liberdades que não tenho

A mão crava em sonho
A memória do que sinto.

terça-feira, outubro 2

POLITIKISSES!













"Sou uma queque. Mas fui a deputada que mais fez por Leiria e conheço todos os camionistas das estações de serviço"
TERESA CAEIRO, deputada do CDS/PP, Única
Ora aqui está a prova de que os camionistas não usam caixote do lixo.

domingo, setembro 23

O RÍDICULO EM PODER MENOR

Depois do tudo que se passou a coisa tornou-se monstruosamente bela. Os pés parecidos com joelhos de elefante eram fonte aquosa de todas as preocupações cósmicas. Tudo se estendia num pranto libidinoso capaz de denegrir a pintura de unhas que o ministro trazia. A sua cabeça esponjosa era como uma melancia rachada por uma estrela decadente arrastada pelos oceanos profundos de memória coalhada. O seu sorriso era um corte transversal dum cavalo eunuco de raça árabe sangrento e até tresmalhado. As palavras eram rochas meridionais de cor arrozada, uma a uma, como gotas leitosas das mamas do gordo. A tribuna triturava-as ao ritmo duma máquina de pipocas em feira de psicopatas empertigados por roupas de cerimónia festiva. Os mitos eram demasiados para a capacidade do parlamento. Não dava para compreender o porquê de tudo aquilo. Se os malabaristas treinavam, porquê o rinoceronte listado pela polícia secreta? O caso começou a tornar-se demasiado enigmático ao ponto de se poder concluir que a chuva ácida é uma reacção natural à artificialidade de ser natural. Todos berravam e gesticulavam burburinhos em letras e cânones duma ferocidade atroz e igualmente adocicada. O mais alto dizia, “vai, vai, cai!” O da frente questionava, “então, então?” O mais gordo deitava um líquido estranho e doentio pelos bicos das suas mamas. Todos se conjugavam pelo manto encabeçado de cabeças ondulantes. Sentados em cadeiras pontiagudas e confortáveis, os rostos desfigurados, iam ouvindo através dos seus funis avermelhados de plástico sujo, “Iremos dar continuidade à desorganização da selva! Os leões continuarão a ter direito ao aperfeiçoamento da sua diarreia saudável e perfumada e os ratos serão aniquilados acutilantemente com o veneno retirado, pelos nossos piores cientistas loucos de meio palmo, das amígdalas do crocodilo albino da Papua Nova Guiné! Os canteiros serão aparados com canetas de feltro e os balões de ar quente serão um assunto delicado a ter em conta num futuro próximo de mim!...” ouviu-se urras, surras também, e até gritos duma excitação contagiosa e irrepreensível; continuava “Quanto às maçanetas das portas, referidas pelo senhor depurado, continuaremos a apostar nas arredondadas e escorregadias, precisamos primordialmente delas assim, brilhantes e engenhosas como bem precisamos!” O auditório ia quase caindo, as palmas salgadas desenhavam ondas corpóreas pelos poucos e ardentes espaços vazios. A onda elevou-se à altura da montanha espinhosa, as cabeças chocaram como chocalhos umas nas outras, e o porteiro, espalmado e seguro, disse com o seu vozeirão húmido entre grunhidos e elevações suadas para quem o ladeava “Era dum ministro destes que estávamos a precisar! Determinado e conciso como uma alheira a cair na sanita! Arrependo-me profundamente mal de não ter votado nele…” em jeito de resposta o indígena ouvinte da sua direita disse “Deixa lá, ele está no poder apesar dos seus suportes para parede serem um pouco fracos, sem encadernados ele era um anjinho careca, e nós deste lado não queremos cá disso, não queremos esquisitices embrulhadas! Ele é o maior, até me dá vertigens, hei-de trepar a montanha também!”. Era uma sala estranha aquela, nas paredes acastanhadas, cactos horizontais, carapaças de caranguejos envernizadas a pincel e molduras de estrelas enterradas do céu, um dos fotografados sorria com um pepino na mão, por baixo em pé rotativo dizia HOJE SALADA DE PEPINO AMANHÃ O MESMO. Ao fundo da sala uma pequena porta para a rua cheia de cantis e barris de pólvora extenuada. Ao lado, um homem alto anterior falante, mais alto que a própria e fria altura do ano, dizia a todos os depurados um obrigado e volte sempre com as suas ideias magicadas e as suas perguntas ridículas e despropositadas. Sorriam todos à saída como quem acabou de sair dum show de contorcionistas ébrios pelo ar respirado a bombadas capitais. Lá fora as rodas com caixas de fruta para proteger da chuva corrosiva esperavam por eles, tinham todas a mesma forma, só variava a fruta estilizada, banana, laranja, cereja, morango e até uma caixa de mangas! Uma fila indiana ordenava por valor vitamínico as suas posições. A caixa da frente era para a sua excelência ministerial. Amarrada à antena do rádio trazia uma daquelas fitas que se põe nos casamentos, amarradas ao pára-choques latas tilintantes de cerveja americana. Todos já a postos em direcção ao copo de água partiram felizes debaixo de buzinadelas e arroz amarelado pela chuva. Destino, cemitério. Por lá comeriam e pediriam facturas para apresentar na sua grande e comunitária empresa governamental.
O banquete bem regado a mijo periódico de vaca tornou-se numa orgia tresloucada e quente. O ministro à vez foi levando no seu buraco negro como forma de agradecimento pelo seu discurso completo e indicado à romaria antecedente. Gritava de prazer enquanto todos, quase sem tirar nem pôr, se deliciavam com o digestivo aprofundado da sua vontade. Era um descambar político e típico. Homens nus e sem complexos. Senhores das suas atitudes descaradas mas aprazíveis e aceitáveis por todos numa comunidade sem preconceitos entre si. O cemitério nunca tinha vivido tal coisa, os mortos batiam palmas adormecidos e castrados pelo que lhes foi entregue em prato porcelana de tempo rolado e rebolado. Até que, uma voz falou mais alto que os gemidos, “Mas o que é isto?!? Não têm vergonha na cara?” pararam todos, o ministro respirou fundo, disse algo imperceptível devido ao ofegar desconcertante, todos se riram, o homem não soube o que dizer, era coveiro! Mudo, decidiu enterrá-los a todos mesmo sabendo que das suas mortes enclausuradas outros seguidores avantajados surgiriam das escolas em que estudavam e ensinavam a ser assim.

quinta-feira, setembro 20

ANGOLA

Entrou no Angola
Pelo passo trocado que o trazia a si
Era belo, de leste, alto como um cipreste
A sua face característica, era homem pelos quarenta anos
Sentou-se na mesa de olhar inflamado
Pelo sentido tão seu que o fazia sozinho
Contou o trocado que era do seu bolso, suspirou
Pediu uma cerveja, uma cerveja veio até si;
Sorriu, demencialmente, sob o olhar inflamado dos seus espelhos
A garrafa transcendeu-o, olhou em volta, fitou-a com amor.
Tresloucado pelo que o tinha levado a ser assim feliz
Pegou em três moedas miúdas, pousou-as sobre o gargalo magro a cobre
Dedilhou o ar que rodeava o anel prestes ser humedecido
Gargalhou, girou os olhos em redor, baixou a cabeça em jeito de desespero
Começou a bufar para o peso das moedas, gargalhava, seus olhos reviravam suavemente
Minha mãe a meu lado, alheia à minha introspecção
Estava então a chorar quando me apercebi
Bebeu um gole de cerveja sua amada, e mirou-a, orgulhoso
Ao longe, da mesa a sair, uma velhinha manchada com o seu hereditário
Cambaleava rumo à sua saída para a noite quente
Toquei no ombro da minha doce origem,
Questionei o que se passava com a sua face humedecida a sal

Nada, nada.
Que vai em ti?!?
Nada, nada meu filho!...
Foi aquela senhora que vai a sair?
Sim meu querido, uma memória fresca de tua avó faz-me chorar…
Oh… deixa, preferias que ela estivesse viva?
Preferia a tudo neste mundo
Então mantém-na animada e viva em ti, não a lembres plácida…

Sorriu-me sob o brilho das suas lágrimas…

Dei-lhe espaço para pensar
Olhei em frente; o ser extraordinário olhava para nós
Sorriu… um sorriso diferente
Perdeu então o seu jeito demente
A compreensão é o que guia,
Retribuo tal imagem, reforça o seu rasgo de humanidade
Questiono a loucura que se respira nas horas do relógio
As pessoas que se acotovelam para voltar a vê-lo jocosas
Devaneando sob as luz duma incompreensão geral.
Levanto-me, cumprimento-o, a sua mão é forte
O toque carnal fá-lo sentir homem que é

Choro já pelo caminho dos meus passos leves
Lágrimas secas de tudo o que me é dado a saborear
Percebo que a distância é como um barco à vela
Afasta-nos e junta-nos, conforme o sabor do vento quer…

quinta-feira, setembro 13

VERGÍLIO A DESCASCAR A MELANCIA

(...) Estou parado à varanda, dos quatro pontos cardeais. Uma sarrabulhada de vozes, aturdem-me. Por entre a balbúrdia, uma outra voz mais alta. As que falam dos deuses todos em torrente de ecos pelo espaço, por entre um fervor de ladainhas. E das divindades subalternas, mais chegadas à humanidade, para socorro das desgraças proletárias, desde o antraz e o coice de mula à espinhela caída - com a casquinada crítica dos descrentes evoluídos, ressoa pelo espaço, entremeada à devoção como um grasnar de corvos. A dos políticos salvadores da humanidade num histerismo com receitas prontas a aviar e a defesa aos guinchos da liberdade e da autoridade, que são iguais mas muitíssimo diferentes, porque a defesa da liberdade obriga a defendê-la dos que são contra a liberdade e exige pois uma autoridade de ferro para defendê-la, da propriedade e do ideal comunitário e comunitarismo em escalões, da gestão, autogestão, e semiautogestão, do direito à informação e que tem de ser por isso desinformação por virtude do direito à informação e que tem que ser por isso informação correcta e deixa assim de ser direito à informação que todavia ainda é esse direito mas melhorado embora não seja já direito à informação por que não ter esse direito, do direito à cultura que é só a boa cultura porque a má cultura é contra a boa e já não é cultura e precisa de ser afastada para salvaguarda do povo que gosta de má cultura pelo vício intrínseco de ser povo que precisa portanto de ser defendido contra si para não ser ele mas por aqueles que defendem a boa e podem defendê-la por virtude de ser mandatados pelo povo que não gosta de boa mas da outra, do direito ao trabalho que não é o dever de trabalhar, excepto quando os que defendem esse direito, mandatados pelos que não têm esse direito, conquistam o direito de imporem esse direito que é então um dever e os que não tinham esse direito já não querem, porque o direito e o dever estão cheios de antagonismos, e a defesa da democracia popular da democracia parlamentar e da democracia orgânica, da república da monarquia da oligarquia.

- Estai calados, estupores!

e da centralização, da descentralização e da anarquia, do presidencialismo do semipresidencialismo da regionalização e das autarquias locais, do primado do grupo, do primado do indivíduo, do primado da identidade nacional, e a interpretação das leis filtradas trabalhosamente pelos ódios ambições ralhos partidários dos que foram comissianados pela vontade colectiva esquadriada pelos grupos que os sonhos e ambições e ódios esquadriam e foram apurados depois de dias e semanas e meses e saíram depois ainda com uma rede intervalada orifícios por onde se escaparam ainda em ginástica de rins as ambições teorias princípios salvadores do bem comum que ficaram de fora dos princípios do bem comum em que se entreteceu a rede de leis, enquanto de outros cantos do mundo outras leis contrárias também para o bem comum erguiam-se em grita e doutros cantos outras também para benifício de ser-se em colectividade, cruzadas vozes por cima trémulas de ardor e histeria, embatiam umas nas outras esguichavam como ondas que se entrecruzam pulverizavam-se num ruído anónimo de arraial popular.

- Estai calados, desgraçados!

e foi quando os filósofos. Eram tecnicistas especializados precisos, confusos enrodilhados subtilíssimos, falavam de deus que não havia mas havia embora não houvesse, e da liberdade inteira do homem determinada pelas circunstâncias históricas e pelas glândulas e pela vontade dos outros homens que eram livres e determinados por outras, e falavam do espírito e da matéria que era o espírito de uma maneira que não o era, e da consciência do homem que era inconsciente, e da quantificação do inquantificável que se quantifica por essa quantificação mas não podia, e da explicação do inexplicável que ficava explicável pela palavra que era o nome no inexplicável para ser explicação, e de outras palavras que formavam crosta por cima para tapar tudo o que era intapável e ficava por baixo mas não se via e era como se não ficasse,

- Ide todos À merda!

e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstânciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões e da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapasssada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado.

- Para a puta que vos pariu!

e foi quando outra vez os pregadores da religião. Mas eu já mal os ouço. Nos intervalos da minha atenção avulsa, Deus e o destino do homem - que destino é o teu? aqui, só, filtrado através de todas as ilusões, e a necessidade de justificar uma vida quem se não Deus? e a citação dos tratadistas desde o motor imóvel e metafísico do grego, e outra vez a casquinada alegre dos antimetafísicos, e o murmúrio longínquo da beatas velhas a reazar o padre-nosso, e os métodos novos e tecnocráticos, ou de pressão psicológica para se chegar à divindade, enquanto em frente, estou parado à varanda, pesada massa imensa a montanha desnudada à aridez, e os que pregam um Deus intratrável cheio de fígados coléricos, e os que pregam um Deus porreiro cheio de comunicação proletária que vai connosco aos comícios aos cafés e às putas, e os que dizem outra vez que a matéria é que, os que espremem todas as religiões para terem um Deus sintético e os que aproveitam essas escorralhas para fabricarem deuses avulsos corriqueiros e entremeados a todo o ser de circunstância, os que fabricam religiões novas com abaixo-assinados, e os pregadores dos malefícios da religião através dos tempos e do seu ódio vesgo ao progresso, e os pregadores dos benefícios da religião e do seu amor ao progresso com o exemplo dos grandes sábios que vergavam a cerviz e diziam «eu creio», enquanto os outros com outros sábios quem não diziam nem vergavam, estou imóvel à varanda, na tarde paralizada de calor - e foi quando os artistas.

- Espera. Faltavam agora ainda estes, os artistas. Que é que vós quereis, meus bardamerdas?

Queriam coisas, queriam também dizer coisas. E imediatamente um murmúrio larvar, ia crescendo, com esguichos histéricos aqui e além, depois foi a gritaria. Mas eu não quero ouvir. Fecho mesmo a varanda, não quero. Mas eles desvairam aos gritos, deve haver grossa pancadaria para as bandas da cultura. Devem ter vindo os mortos a ajudar. Dizem nomes bárbaros, é a barbaridade da nossa condição. Suprematismo, pois, pois. E orfismo purismo simultaneísmo oh, oh. E rayonismo neoplasticismo. E uma voz escura já cavernosa, cubismo,fauvismo eh, eh. E umas vozes raquíticas em falsete, a pregação do vazio programático o nulismo. E o sitismo que era a pregação contra a existência do quadro e a defesa apenas e intransigente do sítio dele na parede - e os poetas. A defesa do regresso às formas poéticas de base que um jocoso crismou de parolice e que ficou o parolismo. E o baralhismo que baralhava muitas palavras e as atirava ao ar e caíam em forma de poema - e o saquismo. Que era metê-las num saco para as tirar ao acaso da inspiração, e o mudismo. Que era a poesia muda em livros em branco. E o canalhismo que era uma poesia ordinária para as classes mais desfavorecidas. E o caralhismo, cujo o chefe de fila era o célebre autor de «Caralhícolas», e que era uma poesia ainda mais ordinária.

- Ide berrar para as profundas do inferno!

e o panacismo que considerava o pânico como medida fundamental do sentimento - e foi quando os músicos

- Não quero! Não quero!

tapei os ouvidos - meu Deus. Estou assim algum tempo, destapo os ouvidos, havia ainda atrasados os romancistas. E os arquitectos, urbanistas. Os pedagogos, os cientistas. E os críticos.
Na tarde abrasada desértica.
E os técnicos publicitários. E os técnicos dos cemitérios.
Na tarde imóvel à praga do calor. Uma voz canta ao longe - canta? Não a ouço. Na tarde de minha condenação.
E os economistas." (...)


Vergílio Ferreira, em Para Sempre