Por vezes as circunstâncias tornam-se estranhas, repletas de fantasmas que nos assolam por as concavidades da cidade serem propícias para o deleite previsível a que nunca nos habituamos. As suposições transformaram-se em certezas que não queremos aceitar verdadeiramente. Um momento chega, já previsto pelo vento que para lá nos empurrou, corta-nos, enfraquece-nos, um mundo transforma-se em metamorfose instantânea. Um cigarro acende-se depois de alguns outros fumados como quem inala gás com uma pressão constante que surpreendentemente nos abana. O perímetro condensa-se, um anel de beleza mental ganha forma no processo que o solidifica, como se tudo fosse tudo diferente. Os pássaros apercebem-nos pela sombra provocada pelo sol que se esvanece na noite que tudo tem, como uma nuance de pincel húmido de lágrimas que nos escorrem pela cara que solidifica em vincos que nos marcam e são desenhados de novo, com uma outra consistência. As linhas tornam-se voláteis, correspondentes a um som que nos embala na mais confusa das conclusões confirmadas pela carne que não se vê. Um ânimo estranho pega em nós, pesados como uma rocha, granito talvez, componentes são formados pela passagem do tempo até encontrar uma rigidez aparentemente insensível mas chorosa. O olhar fica preso, tudo tem outras cores, diferentes pinceladas na tela que se vai deixando ver até ao último toque. Diversas cores recalcadas e coloridas por cores mais fortes mais sombrias que provavelmente vão ser calcadas e recoloridas pela emoção que dá vida ao pincel. A experiência começa a dar azo a novas técnicas, palavras que nos são feias mas bastante úteis. Usa-se um instrumento bem afinado, com uma definição sonora exponencial que ecoa pela sala de espectáculos enquanto o público rejubila alheio. A música vai embalando as necessidades abanando-nos como se procurasse misturar tudo o que temos e concluímos. É bela a sonorização da sala, os altos os baixos e o graves e agudos, entrosa-se tudo numa parafernália deliciosa composta por uma imensidade sensorial que perfura o local onde me encontro. A vida corre no seu rumo inconstante na procura da proximidade duma perfeição natural que nos faça encontrar mais mais e mais. Uma perfeição que nos remete para as profundezas da alma, a eterna metáfora que nos magoa corporalmente.
As árvores agitam-se entre as paredes que formam o espaço sensitivo. Dão vida ao cenário pintado no caminho da mestria. O todo ganha espaço, liberdade para tentar aperfeiçoar o voo, pequenas penas vão crescendo até planarem serenamente sobre céu que se expande. Algures o tempo corre como água numa fonte cristalina e misteriosa, o caminho é longo e cada passo é menos custoso. Pequenos fios de água pelo chão quase imperceptíveis vão-nos saciando a sede até ao dia em que a fonte secar. O meio caminho vai no início e ainda tem muito mais que metade para nos dar.
quinta-feira, julho 5
COISAS A FAZER AINDA ESTE ANO
Sodomizar os sete anões!
Agarrar num punhado de pregos e pregá-los dum só arremesso!
Correr nú pela cidade com a minha bagagem carnal e pesada!
Limpar o cu depois de cagar, com folha de lixa da grossa!
Lamber o chão para sentir o seu localizado sabor!
Ouvir a mais detestável das músicas!
Matar umas quantas pessoas com uma caneta bic!
Coçar os ouvidos e tirar a mais consistente das ceras para assim construir quatro palácios imperiais!
Cagar ininterruptamente para um dia alpinistas escalarem o ponto mais alto do mundo!
Tirar macacos do nariz e deitá-los para uma jaula à sua medida!
Agarrar num punhado de pregos e pregá-los dum só arremesso!
Correr nú pela cidade com a minha bagagem carnal e pesada!
Limpar o cu depois de cagar, com folha de lixa da grossa!
Lamber o chão para sentir o seu localizado sabor!
Ouvir a mais detestável das músicas!
Matar umas quantas pessoas com uma caneta bic!
Coçar os ouvidos e tirar a mais consistente das ceras para assim construir quatro palácios imperiais!
Cagar ininterruptamente para um dia alpinistas escalarem o ponto mais alto do mundo!
Tirar macacos do nariz e deitá-los para uma jaula à sua medida!
quinta-feira, maio 10
segunda-feira, maio 7
OCCULTA PECTORIS SEDITIOSA
Viajo pela alma
Como poeira que levita com o vento
Solto-me de rédeas pesadas
Do peso pesado pelo Tempo
Canto uma melodia desconhecida
Uma ária perpetuada pela noite
Nos meus dedos
Uma fragrância, um cheiro a Sentimento
Uma procura necessária pelo Belo…
No meu peito
Um batimento descompassado
O Sonho que não passa de sonho
Uma Esperança que não passa de esperança
Um desalento com tudo o que passa ao lado
Na minha mão
Uma Força, um apelo
Uma Voz, um pesadelo
Um rio que não corre para o mar
Um poema que nada diz
A quem nada quer entender
E assim, sofro, por ver sofrer
E sofro, por ver querer sofrer
E sofro, pela inexistência dum eco
Eco das almas de outros cantos
(Fragmentos dispersos no ser
Pedaços estilhaçados pelas bombas
Pelas bombas do atarantado viver)
A desistência, por vezes é bela
Quando desistir é irremediavelmente sorrir
E se sorrir é necessário
É tanto quanto fugir
E assim a Beleza perdeu-se… é agora outra,
Ficou para trás
É agora um corpo etéreo, como sempre
Fácil de manusear
É uma fuga constante
Incessante, é uma bola-pequena-brilhante…
E o brilho ofusca a Esperança
E a Esperança esconde-se sob a capa do não-querer
E os homens perdem-se na verosimilhança
Na verdade que é esconder!
É isto… o belo o sonho
Os sonhos
É isto que nos reserva orgulhos medonhos!
Eu não fujo, mas sonho
Eu não me escondo, mas vivo
Farto de viver, como enganado
Sonhador
Escondido!
Arreei a minha capa
Entreguei-a como beleza
Fiz peito, dei azo à minha natureza
Sorri de querer ver outros sorrisos
E assim
A Esperança e o Belo redimiram-se
Desistiram de ser meras palavras!...
Como poeira que levita com o vento
Solto-me de rédeas pesadas
Do peso pesado pelo Tempo
Canto uma melodia desconhecida
Uma ária perpetuada pela noite
Nos meus dedos
Uma fragrância, um cheiro a Sentimento
Uma procura necessária pelo Belo…
No meu peito
Um batimento descompassado
O Sonho que não passa de sonho
Uma Esperança que não passa de esperança
Um desalento com tudo o que passa ao lado
Na minha mão
Uma Força, um apelo
Uma Voz, um pesadelo
Um rio que não corre para o mar
Um poema que nada diz
A quem nada quer entender
E assim, sofro, por ver sofrer
E sofro, por ver querer sofrer
E sofro, pela inexistência dum eco
Eco das almas de outros cantos
(Fragmentos dispersos no ser
Pedaços estilhaçados pelas bombas
Pelas bombas do atarantado viver)
A desistência, por vezes é bela
Quando desistir é irremediavelmente sorrir
E se sorrir é necessário
É tanto quanto fugir
E assim a Beleza perdeu-se… é agora outra,
Ficou para trás
É agora um corpo etéreo, como sempre
Fácil de manusear
É uma fuga constante
Incessante, é uma bola-pequena-brilhante…
E o brilho ofusca a Esperança
E a Esperança esconde-se sob a capa do não-querer
E os homens perdem-se na verosimilhança
Na verdade que é esconder!
É isto… o belo o sonho
Os sonhos
É isto que nos reserva orgulhos medonhos!
Eu não fujo, mas sonho
Eu não me escondo, mas vivo
Farto de viver, como enganado
Sonhador
Escondido!
Arreei a minha capa
Entreguei-a como beleza
Fiz peito, dei azo à minha natureza
Sorri de querer ver outros sorrisos
E assim
A Esperança e o Belo redimiram-se
Desistiram de ser meras palavras!...
NADA PARA DIZER
Há dias assim!
Que não se sabe o que escrever
Mas por alguma razão mais forte
Não conseguimos parar de o fazer...
Hoje é um desses dias
Em que me apetece escrever,
Escrever e escrever...
Mesmo não tendo nada para dizer!
As palavras não interessam,
O que interessa é escrever!
Não procuro nenhum sentido.
Nem nenhuma lógica,
Apenas me sinto escrever!
Não sei o que dizer
Não sei que fazer
E por isso mesmo me encontro a escrever!
É estúpida esta vontade,
É inútil a escrita, absurda demais,
Mas que posso eu fazer
Quando nada mais consigo
Do que escrever
Assim me encontro…
Ando às voltas e abandono tudo
Para simplesmente escrever!
Assim sou, assim somos…
Uma repetição enfadonha…
Escrever! Escrever! Escrever!
Escrever e Escrever!
Escrever para me (não) sentir viver…
Que não se sabe o que escrever
Mas por alguma razão mais forte
Não conseguimos parar de o fazer...
Hoje é um desses dias
Em que me apetece escrever,
Escrever e escrever...
Mesmo não tendo nada para dizer!
As palavras não interessam,
O que interessa é escrever!
Não procuro nenhum sentido.
Nem nenhuma lógica,
Apenas me sinto escrever!
Não sei o que dizer
Não sei que fazer
E por isso mesmo me encontro a escrever!
É estúpida esta vontade,
É inútil a escrita, absurda demais,
Mas que posso eu fazer
Quando nada mais consigo
Do que escrever
Assim me encontro…
Ando às voltas e abandono tudo
Para simplesmente escrever!
Assim sou, assim somos…
Uma repetição enfadonha…
Escrever! Escrever! Escrever!
Escrever e Escrever!
Escrever para me (não) sentir viver…
sábado, maio 5
MEMÓRIA ANTECIPADA
Hoje por força da vontade inesperada que me acordou, decidi dar corda com comprimento suficiente para puxar as lembranças de infância como quem puxa água de um poço. Um poço que ainda não é muito fundo, mas como o tempo rola não há grande tempo, nem profundidade suficiente, para alcançar esse fundo que é tão estimulado pelo jogo das circunstâncias e coincidências que dá rodinhas à gigantesca máquina em que se tornou a sociedade de hoje amanhã e sabe-se lá mais quanto tempo. Avivado por não-sei-o-quê concretamente, senti em mim uma força enorme de agir perante um tumulto, o tumulto do espírito, a luta incessante contra as tropas da razão que nos foi dada como prenda de natal, a destruição com as amarras da prosaica vivência.
Não acordei nada cedo. O costume.
Um bafo sonolento dispersava-se pelo quarto como nevoeiro de verão, era esse o ar que se respirava, como se a cama tivesse umas presas plumadas e macias que me impedissem de sair dela com a maior das naturalidades. O sol, lá fora, aproveitando as frinchas existentes, demonstrava a sua força, denotando na luz o seu orgulho, o orgulho de quem cada vez mais se aproxima de tudo quanto pode. Abro a persiana. Os carros passam a escassos metros da minha tela para o mundo, não os vejo, mas ouve-se bem a sua voz violenta e incomodativa.
«Belo dia!»
Depois de comer, ruminar, colar ao computador, coçar-me, tomar banho e ruminar mais um bocadito, decidi deixar-me levar pela tal vontade inesperada de que falo.
Ao sair da minha porta encontrei uma familiar que já não havia há coisa de um ano, mais coisa menos coisa, a minha Prima; fiquei sem dúvida surpreendido, mas não muito, devido a relatos de meus conhecidos que a viram um dia destes e me disseram que estava fresca e jovial como sempre. Nem sei que idade Ela deve ter, mas penso que já deve ter uns quantos anos. Contava-me histórias do tempo em que os antigos egípcios estavam de pé, e isso é sem dúvida alguma motivo para colocá-la nessa época da história; hipoteticamente deve ter nascido no tempo em que o império se começou a desmoronar. Como nunca me disse a idade, reconhecendo ela que é acto de mulher que se preze e que a uma mulher nunca se deve perguntar a idade, qualquer hipótese remota que possa dar percebas quanto à sua temporalidade é sempre motivo para ser colocada como possibilidade.
Adiante.
Disse-lhe olá sem falar, apenas um sorriso de contentado. A sua luminosidade era tanta que tive que pôr os óculos para conseguir ver os seus contornos. Sorriu-me, com aquele sorriso de quem ri de tudo para tudo.
Nada me disse.
Com a imponência do querer ver, consegui convencê-la a acompanhar-me sem me esforçar muito. Os seus passos eram suaves. Os seus movimentos fluidos como o escasso vento que lambe cara e pescoço. A sua presença era como o nevoeiro de éter, alma sem corpo, só espírito e subtileza vital.
Os carros continuaram a passar, faziam-se ouvir quebrando o silêncio da minha prima que só vejo uma vez por ano; mas no entanto, o silêncio continuava a persistir, fragmentado, mas sempre ali, entre as concavidades dos barulhos do subúrbio. A persistência motivada pela sua etérea presença esbatia cores sobre os barulhos a agitação e sobre tudo o que dá forma ao desenrolar dum dia da semana, dando ao dia um aspecto surpreendente e minimamente reconfortante. Acompanhou-me até ao final do meu passeio pela rua da memória. Sempre fechada em si, na sua beleza, para demonstrar a sua graciosidade.
Pelo caminho, talvez no autocarro, apercebi-me do porquê da vontade inesperada. Acho que foi aí que percebi o quão divinal poderia ser a tarde. No sítio mais inesperado deparo-me com este raciocínio, esta conclusão orientada, como quem recebe um soco sem luva. O soco pôs-me mais atento como quem escrutina tudo para conseguir fugir de um futuro. Atento. Embriagado pela ambiência proporcionada por uns singelos e fiados raios de sol no meu quarto, ambiência mínima que foi crescendo ao ritmo das conclusões circunstanciais, lá estava eu já fora do autocarro, de passo determinado, com leveza de espírito suficiente para escorregar, inocentemente, entre as superfícies áridas e ásperas da calçada gasta pelas calcadelas apressadas do tempo. Fora do meu corpo, as recordações amplificadas pelo estado em que me sentia abstraíram-me de todas as estruturas habituais. A estrutura era agora só uma. Não era eu, não era a minha prima, nem tão pouco tudo o que me rodeava: era tudo isso e muito mais numa bela singularidade triangular.
De repente encontrava-me entre as muralhas da memória da minha infância. Dentro daquela área eu era de novo criança, tinha menos de cinco anos. Ali, naquele espaço limitado pela inocência dos velhos outros tempos vindouros, senti-me de novo pequeno. Uma pequenez tacanha mas bem recordada… As ruas estavam iguais. As casas iguais estavam. O céu estava à mesma distância, à distância duma vontade. Com passos curtos fui embrenhando num farto tufo de algodão. A cada passo sentia menos o chão como se começasse a levantar voo. De repente estava perdido, a estrada da minha infância já não existia, consequentemente tive de voltar para trás para retomar o passo curto. O percurso era íngreme, quanto mais descia mais alto me sentia. O sentimento era cada vez mais bruto e puro. Memórias do bairro que surgia sob os meus olhos brilhantes percorriam-me o cérebro a uma velocidade confusa e espantosa…
Sons estridentes eram o pão-nosso de cada dia, eram o pão amassado pelo diabo que alimentava muitos seres embrutecidos pela irresponsabilidade de viver. O bairro era grande e sobrepovoado. As casas, de apenas três ou quatro divisões escondiam e debitavam os berros abafados de quem lá vivia. Mas no entanto eram o palco exterior das minhas brincadeiras maravilhosas de que tanto tenho saudade. Tenho, agora que penso, saudades de Tânia, a minha extinta e fiel companhia de brincadeira. Das festas de anos em que a mesa era um tanque de cimento armado com uma tábua de madeira. Saudades do Pata Descalça, que por muito que o obrigassem a calçar e lhe dessem sapatilhas novas andava sempre descalço; fosse por onde fosse, pelo paralelo frio, pela terra quente ou pelos montes agrestes que espaçavam o vão de escadas que não eram mais do que casas. Bem lá distantes os pneus sem jante que rolavam sobre o chão empurrados por um pau qualquer encontrado pelo bairro. As bolas de borracha hiper saltitantes que teimavam em fugir das mãos dando uma vontade ainda maior de as apanhar. A voz amplificada da minha mãe, que ressoava na arquitectural configuração bairrística, na hora duma refeição ou do recolher anoitecido. O barulho das bolas a bater nas garagens naquela rampa íngreme a que chamávamos de campo da bola. Saudades da peixeira que passava com a sua voz grossa de bom som a apregoar peixe fosse qual ele fosse. Da família de ciganos que atirava o pequeno-almoço do terceiro andar ao seu filho que se encontrava a uma distância de vinte ou trinta metros no recreio da escola que ficava do outra lado da rua íngreme da casa da minha avó. Do gato da minha avó de nome Tareco que sorrateiramente se enfiava debaixo do cobertor para nos aquecer e aveludar os pés; saudades dos banhos de bacia e de água aquecida pelo fogão jorrada enternecedoramente sobre os meus caracóis dourados; de ouvir a chuva bater harmoniosamente sobre os telhados de chapa e acrílico que davam forma à casa da minha avó. De ir à fonte da rija beber água pelo simples prazer inocente de beber água da fonte. Dos campos de milho onde se ia buscar o vinho doce para os adultos e entretanto se roubavam espigas para desespero dos donos dos milheirais; das correrias frenéticas como quem foge dos donos que viram roubar as espigas...
23 de março, 2007
Não acordei nada cedo. O costume.
Um bafo sonolento dispersava-se pelo quarto como nevoeiro de verão, era esse o ar que se respirava, como se a cama tivesse umas presas plumadas e macias que me impedissem de sair dela com a maior das naturalidades. O sol, lá fora, aproveitando as frinchas existentes, demonstrava a sua força, denotando na luz o seu orgulho, o orgulho de quem cada vez mais se aproxima de tudo quanto pode. Abro a persiana. Os carros passam a escassos metros da minha tela para o mundo, não os vejo, mas ouve-se bem a sua voz violenta e incomodativa.
«Belo dia!»
Depois de comer, ruminar, colar ao computador, coçar-me, tomar banho e ruminar mais um bocadito, decidi deixar-me levar pela tal vontade inesperada de que falo.
Ao sair da minha porta encontrei uma familiar que já não havia há coisa de um ano, mais coisa menos coisa, a minha Prima; fiquei sem dúvida surpreendido, mas não muito, devido a relatos de meus conhecidos que a viram um dia destes e me disseram que estava fresca e jovial como sempre. Nem sei que idade Ela deve ter, mas penso que já deve ter uns quantos anos. Contava-me histórias do tempo em que os antigos egípcios estavam de pé, e isso é sem dúvida alguma motivo para colocá-la nessa época da história; hipoteticamente deve ter nascido no tempo em que o império se começou a desmoronar. Como nunca me disse a idade, reconhecendo ela que é acto de mulher que se preze e que a uma mulher nunca se deve perguntar a idade, qualquer hipótese remota que possa dar percebas quanto à sua temporalidade é sempre motivo para ser colocada como possibilidade.
Adiante.
Disse-lhe olá sem falar, apenas um sorriso de contentado. A sua luminosidade era tanta que tive que pôr os óculos para conseguir ver os seus contornos. Sorriu-me, com aquele sorriso de quem ri de tudo para tudo.
Nada me disse.
Com a imponência do querer ver, consegui convencê-la a acompanhar-me sem me esforçar muito. Os seus passos eram suaves. Os seus movimentos fluidos como o escasso vento que lambe cara e pescoço. A sua presença era como o nevoeiro de éter, alma sem corpo, só espírito e subtileza vital.
Os carros continuaram a passar, faziam-se ouvir quebrando o silêncio da minha prima que só vejo uma vez por ano; mas no entanto, o silêncio continuava a persistir, fragmentado, mas sempre ali, entre as concavidades dos barulhos do subúrbio. A persistência motivada pela sua etérea presença esbatia cores sobre os barulhos a agitação e sobre tudo o que dá forma ao desenrolar dum dia da semana, dando ao dia um aspecto surpreendente e minimamente reconfortante. Acompanhou-me até ao final do meu passeio pela rua da memória. Sempre fechada em si, na sua beleza, para demonstrar a sua graciosidade.
Pelo caminho, talvez no autocarro, apercebi-me do porquê da vontade inesperada. Acho que foi aí que percebi o quão divinal poderia ser a tarde. No sítio mais inesperado deparo-me com este raciocínio, esta conclusão orientada, como quem recebe um soco sem luva. O soco pôs-me mais atento como quem escrutina tudo para conseguir fugir de um futuro. Atento. Embriagado pela ambiência proporcionada por uns singelos e fiados raios de sol no meu quarto, ambiência mínima que foi crescendo ao ritmo das conclusões circunstanciais, lá estava eu já fora do autocarro, de passo determinado, com leveza de espírito suficiente para escorregar, inocentemente, entre as superfícies áridas e ásperas da calçada gasta pelas calcadelas apressadas do tempo. Fora do meu corpo, as recordações amplificadas pelo estado em que me sentia abstraíram-me de todas as estruturas habituais. A estrutura era agora só uma. Não era eu, não era a minha prima, nem tão pouco tudo o que me rodeava: era tudo isso e muito mais numa bela singularidade triangular.
De repente encontrava-me entre as muralhas da memória da minha infância. Dentro daquela área eu era de novo criança, tinha menos de cinco anos. Ali, naquele espaço limitado pela inocência dos velhos outros tempos vindouros, senti-me de novo pequeno. Uma pequenez tacanha mas bem recordada… As ruas estavam iguais. As casas iguais estavam. O céu estava à mesma distância, à distância duma vontade. Com passos curtos fui embrenhando num farto tufo de algodão. A cada passo sentia menos o chão como se começasse a levantar voo. De repente estava perdido, a estrada da minha infância já não existia, consequentemente tive de voltar para trás para retomar o passo curto. O percurso era íngreme, quanto mais descia mais alto me sentia. O sentimento era cada vez mais bruto e puro. Memórias do bairro que surgia sob os meus olhos brilhantes percorriam-me o cérebro a uma velocidade confusa e espantosa…
Sons estridentes eram o pão-nosso de cada dia, eram o pão amassado pelo diabo que alimentava muitos seres embrutecidos pela irresponsabilidade de viver. O bairro era grande e sobrepovoado. As casas, de apenas três ou quatro divisões escondiam e debitavam os berros abafados de quem lá vivia. Mas no entanto eram o palco exterior das minhas brincadeiras maravilhosas de que tanto tenho saudade. Tenho, agora que penso, saudades de Tânia, a minha extinta e fiel companhia de brincadeira. Das festas de anos em que a mesa era um tanque de cimento armado com uma tábua de madeira. Saudades do Pata Descalça, que por muito que o obrigassem a calçar e lhe dessem sapatilhas novas andava sempre descalço; fosse por onde fosse, pelo paralelo frio, pela terra quente ou pelos montes agrestes que espaçavam o vão de escadas que não eram mais do que casas. Bem lá distantes os pneus sem jante que rolavam sobre o chão empurrados por um pau qualquer encontrado pelo bairro. As bolas de borracha hiper saltitantes que teimavam em fugir das mãos dando uma vontade ainda maior de as apanhar. A voz amplificada da minha mãe, que ressoava na arquitectural configuração bairrística, na hora duma refeição ou do recolher anoitecido. O barulho das bolas a bater nas garagens naquela rampa íngreme a que chamávamos de campo da bola. Saudades da peixeira que passava com a sua voz grossa de bom som a apregoar peixe fosse qual ele fosse. Da família de ciganos que atirava o pequeno-almoço do terceiro andar ao seu filho que se encontrava a uma distância de vinte ou trinta metros no recreio da escola que ficava do outra lado da rua íngreme da casa da minha avó. Do gato da minha avó de nome Tareco que sorrateiramente se enfiava debaixo do cobertor para nos aquecer e aveludar os pés; saudades dos banhos de bacia e de água aquecida pelo fogão jorrada enternecedoramente sobre os meus caracóis dourados; de ouvir a chuva bater harmoniosamente sobre os telhados de chapa e acrílico que davam forma à casa da minha avó. De ir à fonte da rija beber água pelo simples prazer inocente de beber água da fonte. Dos campos de milho onde se ia buscar o vinho doce para os adultos e entretanto se roubavam espigas para desespero dos donos dos milheirais; das correrias frenéticas como quem foge dos donos que viram roubar as espigas...
23 de março, 2007
quarta-feira, abril 25
ODE À LIBERDADE

Hoje, dia 25 de abril de 2007, comemora-se uma liberdade pela qual se lutou que não a de hoje, sendo assim, e em jeito de "comemoração", deixo aqui uma música desse nunca falecido senhor que é José Afonso.
A CIDADE
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
quarta-feira, abril 18
sábado, abril 7
4306
Quatro e trinta e seis da manhã. Ouço um estrondo metálico. Acabo de fazer o que estava a fazer. Vou espreitar a janela aberta por causa do fumo de cigarro. Lá fora, um homem encostado a um poste em pose de quem mija para ele, começa a andar de repente; encosta a mão à parede em pose de indisposição e desespero. Parece estar bêbado, tenho quase a certeza que o está. Prossegue a passo trôpego, vai parando, barafustando, bamboleando doentiamente o corpo como quem se tenta soltar de algo. Gesticula com os braços. Pára de novo em frente a um segundo poste depois de se encostar à parede umas três vezes como quem ampara um desabamento. Prossegue. Bate surpreendido contra um terceiro; diz-lhe qualquer coisa; pára, oscilante, dobra a esquina, perde-se para lá desta minha sensação nocturna...
quarta-feira, abril 4
ADEUS! (OUTROS DIAS VIRÃO...)
Inquietação, sufocante, a de ouvir sofrer
O canto rouco consequência do viver,
Fim de linha para a sapiência
Vontade suplicante de ouvir
Melodia suave-agir,
O toque melódico da ninfa
A grandiosa Ninfa-da-Solidão…
Toque rasgado no coração, desesperado
Atónito, pedaço da minha vida;
Campainha que toca, estridentemente
Que ressoa em campânulas atentas
A gritar um S.O.S., uma impossibilidade
Uma contrariedade
-quero-te, sem te poder querer.
O canto rouco consequência do viver,
Fim de linha para a sapiência
Vontade suplicante de ouvir
Melodia suave-agir,
O toque melódico da ninfa
A grandiosa Ninfa-da-Solidão…
Toque rasgado no coração, desesperado
Atónito, pedaço da minha vida;
Campainha que toca, estridentemente
Que ressoa em campânulas atentas
A gritar um S.O.S., uma impossibilidade
Uma contrariedade
-quero-te, sem te poder querer.
segunda-feira, abril 2
CÃO EUFÉMICO
Às vezes apetece-me ser cão
Para esquecer o cão que sou
Lamber o pêlo sujo
De me esfregar no chão:
Ficar limpo e Viver!
O que é pena, é ser só sonho!...
Sonho de cão, cão raivoso
Com que ladra mas não ferra
Cão que sonha com o osso
Osso que esconde, como um cão.
Quem vai à “guerra” dá e leva!
Como cão (também) é assim,
E se cão a cão ferrasse
Certa raça teria fim!
Para esquecer o cão que sou
Lamber o pêlo sujo
De me esfregar no chão:
Ficar limpo e Viver!
O que é pena, é ser só sonho!...
Sonho de cão, cão raivoso
Com que ladra mas não ferra
Cão que sonha com o osso
Osso que esconde, como um cão.
Quem vai à “guerra” dá e leva!
Como cão (também) é assim,
E se cão a cão ferrasse
Certa raça teria fim!
CONFISSÕES

Procuro raramente pôr no papel aquilo que é dado como belo. Não porque não goste da beleza, mas tão só e apenas porque acho que o belo é-me reservado. Não é preciso criar beleza daquilo que é belo por si só, e que, a meu ver, é mais que suficiente para me tornar num ser que respira e faz aquilo que quer. Prosseguindo. Vejo naquilo que escrevo uma certa desolação com o presente. Releio sempre o que escrevo e a meu ver são verdadeiras obras primas. O que os outros pensam de depreciativo em relação à minha forma de expressão, é para mim uma fonte de deleito e satisfação. Consegui impôr o meu ritmo, o desconforto, consegui que parássem mais um pouco para pensar, sem se camuflarem em
"tudo o que de bom tem a vida"
Seguindo em frente. Hoje em dia, há uma preocupação muito grande em ser feliz idilicamente, como se tal parafernália fosse a desculpa para a merda que nos rodeia, como se tudo isso fosse areia atirada por nós mesmos para os olhos que são nossos.
"só é cego aquele que não quer ver"
E se por vezes cego pareço, não é porque não saiba dar valor a
"tudo o que de bom tem a vida"
mas simplesmente porque não tenho medo de exprimir o meu descontentamento. Poder-se-á dizer que isso é
"bater no ceguinho"
e vendo bem talvez seja... é do género:
«ó ceguinho acorda! acorda!»
Não tenho pena dos que querem à força toda desviar o olhar de tudo aquilo que é grotesco, nada disso, é mais do tipo: tenho pena de tentarem formular uma opinião apoindo-se em meras suposições que não fazem sentido nenhum enquanto pessoa que sou. Uns, compreendem uma dor imensa, em vez de compreenderam uma forma de exprimir cristalizada pela vontade. outros, uma espécie de peditório por algo que cada vez menos procuro. Nada disso me consome, muito menos me é compreendido como algo que me atormente, somente acho que tal tentativa de compreensão é tentativa em vão.
«Não me sinto na escrita como homem que sou em vivência. Na escrita, sinto uma enorme vontade de depositar a esperança. Nas pessoas, eu incluído, sinto insuficiente esperança que necessita de ser fortificada pela palavra, sinto as pessoas com um pesado nó na garganta apertado pelo medo de exprimir aquilo que sentem e querem, verdadeiramente, em relação à vivência.»
Para concluír, e para
"tudo o que de bom tem a vida"
Seguindo em frente. Hoje em dia, há uma preocupação muito grande em ser feliz idilicamente, como se tal parafernália fosse a desculpa para a merda que nos rodeia, como se tudo isso fosse areia atirada por nós mesmos para os olhos que são nossos.
"só é cego aquele que não quer ver"
E se por vezes cego pareço, não é porque não saiba dar valor a
"tudo o que de bom tem a vida"
mas simplesmente porque não tenho medo de exprimir o meu descontentamento. Poder-se-á dizer que isso é
"bater no ceguinho"
e vendo bem talvez seja... é do género:
«ó ceguinho acorda! acorda!»
Não tenho pena dos que querem à força toda desviar o olhar de tudo aquilo que é grotesco, nada disso, é mais do tipo: tenho pena de tentarem formular uma opinião apoindo-se em meras suposições que não fazem sentido nenhum enquanto pessoa que sou. Uns, compreendem uma dor imensa, em vez de compreenderam uma forma de exprimir cristalizada pela vontade. outros, uma espécie de peditório por algo que cada vez menos procuro. Nada disso me consome, muito menos me é compreendido como algo que me atormente, somente acho que tal tentativa de compreensão é tentativa em vão.
«Não me sinto na escrita como homem que sou em vivência. Na escrita, sinto uma enorme vontade de depositar a esperança. Nas pessoas, eu incluído, sinto insuficiente esperança que necessita de ser fortificada pela palavra, sinto as pessoas com um pesado nó na garganta apertado pelo medo de exprimir aquilo que sentem e querem, verdadeiramente, em relação à vivência.»
Para concluír, e para
"não fugir com o cu à seringa"
direi com todas as certezas possíveis e encontradas que sou alguém feliz. Posso não o ser, sob o olhar de alguém prosaico, habituado à rotina que dá a cara por muitos homens, posso não corresponder aos moldes que foram projectados coerentemente pelos séculos, milénios, por aí fora, mas sou feliz comigo e para mim e isso ninguém me tira; a razão - que-não-razão - é simples:
«Procuro uma felicidade que não existe e essa procura faz-me sentir feliz, comigo próprio.»
quinta-feira, março 29
O CANTO SURDO DE UM MUDO NUMA NOITE CHUVOSA DE INVERNO!
Neste meu canto humedecido pelo céu povoado de nuvens que lá fora se constrangem, prossigo a minha odisseia pelo mundo em que vivo, vou vivendo o momento de um mundo que se auto-destroi e corrompe pelas circunstâncias em que as vivências se tornaram. Porque que te destróis ó homem da sabedoria que é demência plausível? Onde anda o sonho transpirado pelos poros desse teu cérebro cansado de tudo o que constróis à tua volta? Ó mundo sobrepovoado de morte e de ganância, porquê que um homem só no seu quarto como o meu se arrasta em pensamentos contraditórios em relação ao estilo de vida que leva? Vou à cozinha e dou um gole num massificado refrigerante que dentro de mim vai roendo o canceroso estômago entorpecido de merdas. Olho para a parede branca e lisa e vejo o destino de tudo aquilo que me rodeia, vejo o nada, a longa caminhada pelo nada, por tudo aquilo que não nos preenche, tudo aquilo que nos torna azedos como um metafórico limão. Mundo cruel é este em que respiramos. É o mundo da guerra eterna pela felicidade, que se vai resumindo a uma ilusória felicidade simbolizada e encarcerada pelos campos de batalha que infelizmente são tão reais; mundo que vive do sangue escurecido e sujo pela tinta impregnada numa nota. Tudo se resume a isso, à ilusão de que a vida se vive com dinheiro e que tudo o resto sem ele não é mais do que uma preguiça notória de quem tenta viver à custa dos outros. O cansaço consome-nos o corpo, o corpo não mais se sente vivo, é apenas o cadáver que repousa sobre a areia quente dum deserto global; a vida deixa de ser vivida, só nos resta a sobrevivência impregnada de multiplicadas oportunidades artificiais; a sobrevivência de que falo não faz sentido; pelo tapete longo que é a superfície da terra, outras formas de sobrevivência ainda mais sofrida fazem-se ouvir, sofrem porque querem mais, querem tudo aquilo de todos nós que sofremos por demais, querem porque não têm, porque não vêem outras formas de querer, querem porque ter o que temos é um sonho impingido, é uma lavagem incutida pelas mãos do homem abstracto que fez o mundo, pelo deus, deus desses seres minúsculos que somos como homens, o senhor-deus da supremacia dos tempos e das tempestades ornamentadas pelo sangue coagulado dos seus filhos.
03/01/07
03/01/07
PENSAMENTO DE UMA TARDE DE PRIMAVERA
A humidade sovaquiana serve de condição artificial para o aparecimento de cogumelos urbanísticos.
domingo, março 25
TOXICODEPENDÊNCIA

Arrastam-se como cobras
Amolgam-se como chapas de um chapeiro citadino
Prolongam-se em chamas crepitantes
Apodrecendo obscuramente o seu perpétuo caminho.
Coçam-se, comicham-se, vão se destruindo
Em peregrinações constantes ao pesadelo.
Roubam, como todos nós
Talvez duma forma mais directa,
Perdem-se como nós
Mas numa aparência mais concreta;
Desfigurados pelo reflexivo tempo
Congeminam uma vontade única:
Mutilação com agulhas e simples garrafas de plástico…
Pergunto-me por que o fazem,
Pergunto porque somos assim
E embora não encontre uma resposta em concreto
Uma abstracta apareceu…
São assim porque assim somos,
Filhos da vontade que nossa não parece individualmente
Aos pais duma vontade colectiva que nos desfigura;
Somos uma parte de um todo
Um todo real e que é tão nosso
Que por muito injustificável que pareça
É a razão da peregrinação…
Não se justifica tal afunilamento
Não se justifica a apatia de ver a vida como ela é
Talvez por isso se quedem em garrafas adulteradas
Talvez assim se esqueçam da vida estúpida que levam…
São vidas, são opções insensatas na abismal estupidez
Que é apenas fruto da estupidez colectiva!
Amolgam-se como chapas de um chapeiro citadino
Prolongam-se em chamas crepitantes
Apodrecendo obscuramente o seu perpétuo caminho.
Coçam-se, comicham-se, vão se destruindo
Em peregrinações constantes ao pesadelo.
Roubam, como todos nós
Talvez duma forma mais directa,
Perdem-se como nós
Mas numa aparência mais concreta;
Desfigurados pelo reflexivo tempo
Congeminam uma vontade única:
Mutilação com agulhas e simples garrafas de plástico…
Pergunto-me por que o fazem,
Pergunto porque somos assim
E embora não encontre uma resposta em concreto
Uma abstracta apareceu…
São assim porque assim somos,
Filhos da vontade que nossa não parece individualmente
Aos pais duma vontade colectiva que nos desfigura;
Somos uma parte de um todo
Um todo real e que é tão nosso
Que por muito injustificável que pareça
É a razão da peregrinação…
Não se justifica tal afunilamento
Não se justifica a apatia de ver a vida como ela é
Talvez por isso se quedem em garrafas adulteradas
Talvez assim se esqueçam da vida estúpida que levam…
São vidas, são opções insensatas na abismal estupidez
Que é apenas fruto da estupidez colectiva!
MESTRES NO TRABALHO
As rodas cantam a música
de lés a lés
latitude e longitude
sincronizadas pelo som do
glaciar
pela melodia árida do
Tempo
Almoço uma sandes
uma bifana,
uma refeição sob o tolde
sujo do Meio-dia:
Descanso da inércia
rodeado de belos cães
esfomeados.
Uma espera indefinida
dura esta vida,
a do jogo de reflexos que multiplica
as diversas imagens,
que dá forma materializada ao viver
à campânula dourada, ilusória
ao imenso deserto
sobrelotado de engenhos
Aglutinação fria de pessoas
numa ampla sala de corpos inanimados
conjugação apática de respirares
mortos: o suster incessante na obrigação do ser.
de lés a lés
latitude e longitude
sincronizadas pelo som do
glaciar
pela melodia árida do
Tempo
Almoço uma sandes
uma bifana,
uma refeição sob o tolde
sujo do Meio-dia:
Descanso da inércia
rodeado de belos cães
esfomeados.
Uma espera indefinida
dura esta vida,
a do jogo de reflexos que multiplica
as diversas imagens,
que dá forma materializada ao viver
à campânula dourada, ilusória
ao imenso deserto
sobrelotado de engenhos
Aglutinação fria de pessoas
numa ampla sala de corpos inanimados
conjugação apática de respirares
mortos: o suster incessante na obrigação do ser.
sábado, março 17
PENSAMENTO DO DIA DE ONTEM
Já peguei em quinhentas mil novecentas e trinta e sete secretárias e é com muito pesar que não posso pegar em todas, principalmente nas secretárias naturalmente apetecíveis.
segunda-feira, março 12
RIO CURIOSO
Vimos por este meio pedir
a todos vós um segundo
que este não seja o dever
que se anuncia ao mundo
Somos mais muito mais que o parafuso
é decerto um exagero
já que pensar nestes dias é um abuso
que se paga em desespero
Já lá vai a guilhotina
e nem é caso para tanto
agora a dor corta mais fino
e depois, poupa-se um santo
Vimos sem freios
vimos agora dizer que está podre o reinado
que por mais voltas e revoltas que se der
não passamos do teu gado
Quando nos roubam o sorriso
quando nos enchem os ouvidos
quando nos mostram o paraíso
esfomeados
cobiçam-nos logo os sentidos
Chegai ó deuses cá da terra
vinde ao menos saber
se os que vivem lá na serra
estão prontos para morrer
Haja uma luz, uma estrela que nos aponte
quando perdidos no horizonte
esperando que depois de morta a manhã fria
depois da noite chegue o dia
Como um rio curioso,
fervilhando ao luar,
procura o mar que é sempre um leito carinhoso
onde possa descansar.
TROVANTE (no seu melhor!)
a todos vós um segundo
que este não seja o dever
que se anuncia ao mundo
Somos mais muito mais que o parafuso
é decerto um exagero
já que pensar nestes dias é um abuso
que se paga em desespero
Já lá vai a guilhotina
e nem é caso para tanto
agora a dor corta mais fino
e depois, poupa-se um santo
Vimos sem freios
vimos agora dizer que está podre o reinado
que por mais voltas e revoltas que se der
não passamos do teu gado
Quando nos roubam o sorriso
quando nos enchem os ouvidos
quando nos mostram o paraíso
esfomeados
cobiçam-nos logo os sentidos
Chegai ó deuses cá da terra
vinde ao menos saber
se os que vivem lá na serra
estão prontos para morrer
Haja uma luz, uma estrela que nos aponte
quando perdidos no horizonte
esperando que depois de morta a manhã fria
depois da noite chegue o dia
Como um rio curioso,
fervilhando ao luar,
procura o mar que é sempre um leito carinhoso
onde possa descansar.
TROVANTE (no seu melhor!)
PROCISSÃO DE SANTA BEBIANA
Já comi e já bebi
Já molhei minha garganta
Eu sou como o roxinal
Quando bebe logo canta
Rapazes quando eu morrer
Levai-me devagarinho
Na campa deitai-me àgua
Por cima deitai-me vinho
Um e um são dois - quem tem vacas espera bois
Dois e um são três - ainda cá volto outra vez
À porta do St. António
Está um ramo de loureiro
É uma pouca vergonha
Fazer do santo tasqueiro
Hei-de morrer numa adega
Um tonel ser meu caixão
Hei-de levar de mortalha
Um copo cheio na mão
Dois e dois são quatro - bela carne tem o pato
Três e dois são cinco - vai do branco se não há tinto
O vinho é coisa boa
Nascido da cepa torta
A uns faz perder o tino
Outros faz perder a porta
Se um dia perder a porta
Seja com tal desatino
Que vá dar a um lugar
Onde se venda bom vinho
Três e três são seis - posto Natal vêm os Reis
Quatro e três são sete - quem não pode não promete
O vinho mata tristezas
A água cria lombrigas
Quando vejo vinho puro
Peço a Deus sete barigas
Minha avó quando morreu
Levou palma e capela
Deixou-me as chaves da adega
O vinho bebeu-a ela
Quatro e quatro são oito - não há bolo como o biscoito
Quatro e cinco são nove - canta o rico chora o pobre
Cinco e cinco são dez - descansam as mãos trabalham os pés
CANÇÃO POPULAR INTERPRETADA P´LOS TROVANTE
Já molhei minha garganta
Eu sou como o roxinal
Quando bebe logo canta
Rapazes quando eu morrer
Levai-me devagarinho
Na campa deitai-me àgua
Por cima deitai-me vinho
Um e um são dois - quem tem vacas espera bois
Dois e um são três - ainda cá volto outra vez
À porta do St. António
Está um ramo de loureiro
É uma pouca vergonha
Fazer do santo tasqueiro
Hei-de morrer numa adega
Um tonel ser meu caixão
Hei-de levar de mortalha
Um copo cheio na mão
Dois e dois são quatro - bela carne tem o pato
Três e dois são cinco - vai do branco se não há tinto
O vinho é coisa boa
Nascido da cepa torta
A uns faz perder o tino
Outros faz perder a porta
Se um dia perder a porta
Seja com tal desatino
Que vá dar a um lugar
Onde se venda bom vinho
Três e três são seis - posto Natal vêm os Reis
Quatro e três são sete - quem não pode não promete
O vinho mata tristezas
A água cria lombrigas
Quando vejo vinho puro
Peço a Deus sete barigas
Minha avó quando morreu
Levou palma e capela
Deixou-me as chaves da adega
O vinho bebeu-a ela
Quatro e quatro são oito - não há bolo como o biscoito
Quatro e cinco são nove - canta o rico chora o pobre
Cinco e cinco são dez - descansam as mãos trabalham os pés
CANÇÃO POPULAR INTERPRETADA P´LOS TROVANTE
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