domingo, fevereiro 25

O BAILARICO




Ontem, que não foi assim há tantas horas, tive o privilégio de ir a uma daquelas festas em que ficamos felizes por só haver uma vez por ano; a uma festa de aniversário. O convite foi recebido com um certo desdém. Quem me convidou foi um elemento da minha família que fazia nada mais nada menos que quarenta e três anos. O local escolhido para tal celebração foi um restaurante com música ao vivo; um daqueles sítios que nos causa uma indigestão só pelo simples facto de viver à custa de bailaricos à boa moda portuguesa. Entre garfadas e goladas de vinho ia ressoando nos meus ouvidos: Quim Barreiros, Tony Carreira, as de outros tempos badaladas Doce, e outros belos compositores dignos dessa praça musical e ampla que é a música popular portuguesa, vulgar música pimba. A mesa estava repleta de gente que posso denominar de próxima ao meu ser-bom-ouvinte e sempre atento a tudo: ora era entre outros um sujeito que só sabia falar de violência e de porradas orgulhosas devido às faltas de respeito perante o seu cabedal pseudo-imponente, ora era uma pessoa que admiro muito, carregado de brejeirices próprias para a ocasião festiva sempre pronto a fazer rir o mais céptico dos foliões, ou um casal cheio de amor que nem para comer largava as mãos apaixonadas, ou um tipo semelhante ao John Lennon mas numa versão aportuguesada com pinta de galã frequentador daqueles tascos com cortinas à porta que deixam escapar detrás uma linha delineada por um vermelho vivo de tonalidade mais que duvidosa ; e eu! sentado no meu canto, com uma garrafa de muralhas para suavizar e engrandecer tal cenário promissor. Nas mesas circundantes, personagens dum daqueles filmes do Fellini, velhotes emproados, enjeitados com o seu melhor fato para virem ao baile; por vezes como pingas, jovens como eu, aqui e ali, sempre de semblante coberto por um sorriso de alegria por tal visão quase surreal carregada de hilariedade.
A noite começou calma, embora a música soasse pelo salão como bombos arrufados numa rua em dia de fanfarra, as pessoas permaneciam sentadas em frente aos seus pratos, devorando selvaticamente os suculentos nacos de carne e de peixe. De vez em quando, ou melhor, à boa maneira portuguesa, lá se ia empurrando o comer pesado com belas copadas de maduro tinto ou de verde, mediante os gostos e o diâmetro da goela de cada um; até que, consequência de um fígado carregado de álcool e já com as faces avermelhadas, mas não de vergonha, aqueles seres começaram a cobrir-se de sorrisos tão alegres que de repente o salão estava repleto de seres felizes e abstraídos das suas monótonas vidas, bamboleando-se ao ritmo das mais hilariantes e surpreendentes musicas; as velhotas mexiam-se ao ritmo da sonoridade – iam acima e iam abaixo como a música pedia – como jovens cheios daquela energia típica da flor da idade; os velhotes mexiam-se como cobras, e uma vez ou outra tentavam deixar cair – culpando talvez a força bacoreana do vinho - a mão nos cus secos e usados das suas parceiras. Muitas músicas rolaram… Aos poucos, o salão esvaziou para um descanso para recuperar forças e molhar a goela, duas ou três músicas rolaram só com um ou dois casais de idosos a dançar: quais bravos dançarinos duma mocidade de bailarico não perdida! A folia voltou, inflamados pelo álcool cada vez mais senhor dos seus corpos – e do meu também, mesmo permanecendo sentado e de sorriso cada vez mais rasgado na cara -, começou o jogo da cadeira. Cada espaço silencioso intercalado por músicas, fazia as pessoas voltarem ao seu lugar, mas nem dava tempo para enquadrarem o cu na cadeira, começava logo outra bela música e lá iam eles, mais ébrios e felizes do que há minutos atrás, dançar freneticamente sem se lembrarem das mazelas psicológicas impostas pela sociedade que faz dos velhos seres sôfregos; talvez no dia a seguir se queixassem disto e daquilo. Uma vontade de rir assomou-me, talvez fosse o vinho a dar sinais de si. Enquanto observava tudo isto divertidamente, o meu companheiro da direita de mesa lá continuava:

- Conheço um gajo, grande bicharoco, que é segurança do S, ganda maluco, conhece todos os seguranças da noite! Oh moço, uma vez, um gajo veio contra ele na discoteca, não teve mais nada, agarrou-o pelo colarinho, deu-lhe um bojardo arrebentou-lhe a boca toda. Ainda pegou nele e atirou-o para o chão como um fardo de palha. – dizia este tipo de coisas com um orgulho de gorila enquanto enchia o meu copo.

- Foda-se, esse é que bate mal!... – respondia eu enquanto olhava para o copo e sorvia mais uns goles. Bem devagarinho, embalado pela violência da conversa repetitiva que não era mais do que o retrato do cenário dum subúrbio mundial cheio de necessidades e aventuras dignas de um filme, ouvi as mais surpreendentes realidades de dealers de branca; ciganos perseguidores de homens apaixonados pelas suas filhas; gajos carregados de armas, as tropas do exército da urbe; ladrões de chapéus; carros quitados até ao auge da potência mecânica; tarados que vão para quecódremos observar casais a copularem dentro de seus carros, sendo consequencialmente espancados devido à sua curiosidade demencial por dez/quinze homens que formam instantaneamente milícias do sexo automóvel; tudo isto e outras histórias mirabolantes deste mundo que é tão nosso.

Ali, num salão de baile à boa maneira portuguesa, apercebi-me do triste equilíbrio que rege a vivência; senti as mãos bem pesadas pousadas no chão: na mão esquerda estava o peso da abstracção, na direita, o da violência.

Vendo bem, talvez o peso sentido nas mãos tenha sido obra das duas garrafas de muralhas que chupei até ao casco depois duma travessia divertida pelo deserto que é a abstracção!

quinta-feira, fevereiro 22

A LOUCURA


"Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:


Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, a gritar: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.E quando cheguei à praça do mercado, um miúdo no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”Assim me tornei louco.E encontrei tanto liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós."


Gibran Khalil Gibran

quarta-feira, fevereiro 21

AO MONGE SOLITÁRIO

ele era alguém, era o
homem que trazia o mundo às costas,
o seu mundo.
nos seus olhos, algo
que quebra as barreiras da
realidade vigente,
a realidade coberta pela manta negra
que se tornou em vida.
a vida, era para si, afinal
o mundo de todos,
mas no entanto, não era
o mundo criado por ele;
disso tinha ele fugido a sete pés;
só assim conseguia criar o seu mundo,
o mundo de todos os que respiravam
do seu ar
mas que ares do seu pouco tinham;
os seus céus eram mais intensos
eram céus pintados dum azul que só existia em si:
o azul da alma, o azul que esbate todos os cinzentos
todos os negros, todas as tristezas
todas as apatias, todas as realidades.
na sua mão, pesava uma enxada
uma vida inteira
o sonho de uma tarde de inverno
ali, no verde dos seus campos.

domingo, fevereiro 18

TRECHOS DE UM LIVRO SUBLIME

- Quem era não sei - respondeu Cosimo - , mas se andais à procura dum homem que passou por aqui a correr, digo-vos que ele tomou a direcção do riacho...
- Um homem? É um homenzarrão que mete medo...
- Bem, daqui de cima parecem todos pequenos...
- Muito obrigado a Vossa Senhoria! - agradeceram os beleguins, desatando a correr em direcção ao riacho.
Cosimo voltou para a sua nogueira e retomou a sua leitura de Gil Brás. João dos bosques continuava abraçado a um ramo, muito pálido no meio da barba e dos cabelos hirsutos e avermelhados como a erva seca dos campos, cheios de pedaçinhos de casca de árvore, folhas pequenas e agulhas de pinheiro. Estudava Cosimo com os seus dois olhos verdes, muito redondos e espantados; era feio, muito feio.
- Já se foram? - decidiu, por fim, perguntar.
- Sim, sim - respondeu Cosimo, com ar afável. - O senhor é que é o salteador João dos Bosques?
- Como é que me conhece?
- Bem, conheço-o de ouvir falar de si, conheço a sua fama.
- E o senhor é aquele que nunca desce das árvores?
- Sim, sou. Mas como sabe?
- Bem, da mesma maneira... A fama corre.
Olharam-se cortesmente, como duas pessoas de posição que se encontram por acaso e ficam satisfeitas por saberem que não são desconhecidas uma da outra.
Cosimo não sabia que mais dizer e, assim, retomou a leitura.
- Que está a ler?
- O Gil Brás, de Lesage.
- É bonito?
- É, sim, é bonito.
- Falta-lhe muito para acabar?
-Porquê? Bem, faltam-me cerca de umas vinte páginas.
-Porque, quando o acabasse de ler, queria perguntar-lhe se mo emprestava... - sorriu, ligeiramente escondido.
-É que, sabe, passo os dias escondido sem ter nada para fazer. Gostava de ler um livro de vez em quando. Uma vez assaltei uma carruagem. Trazia pouco que roubar, mas havia um livro e eu trouxe-o. Levei-o comigo, escondido debaixo da capa; teria preferido desistir do produto todo do roubo a perder aquele livro. À noite, acendi a lanterna e ia para ler... quando vejo que era em latim! Não percebia nem uma palavra... - Abanou a cabeça. - Como não sei latim...
- Bem, a verdade é que o latim é difícil - disse Cosimo, sentindo que, mau grado seu, estava a tomar por ares de protector. - Este aqui é em francês...
- Francês, toscano, provençal, castelhano, compreendo tudo - disse João dos Bosques. - Até sei um pouco de catalão: Bon dia! Bona nit! Està la mar molt alborotada.
Em pouco mais mais de meia hora Cosimo acabou de ler o livro e emprestou-o a João dos Bosques.
Assim principiaram as relações entre meu irmão e o salteador. Mal João dos Bosques acabava de ler um livro, corria a restituí-lo a Cosimo, pedia-lhe outro emprestado, voltava imediatamente a encafuar-se no seu esconderijo secreto e mergulhava profundamente na leitura. (...)

A quem era João dos Bosques útil agora? Se passava a vida escondido, de lágrimas nos olhos, já não dava mais golpes, não fazia roubos de espécie alguma, no bosque mais ninguém podia fazer o seu negócio, os beleguins todos os dias faziam batidas e mal achassem que um desgraçado tinha ar suspeito era o suficiente para o levarem para a cadeia. Se se acrescentar a isto a tentação que representava o prémio que se oferecia pela cabeça de João dos Bosques, imediatamente se torna claro que os dias deste último estavam praticamente contados. (...)


As associações tornam o homem mais forte e põe em relevo nele os melhores dotes do indivíduo singular e conferem, simultaneamente, aquela espécie de alegria que, permanecendo uma pessoa só, raras vezes sente constatar como é elevado o número de pessoas honestas, corajosas e capazes e pelas quais vale a pena quererem-se coisas boas; ao passo que, vivendo-se isolado, se chega facilmente à conclusão contrária, descobrindo-se quase sempre a outra face das pessoas, essa face perante a qual é sempre necessário ter sempre a mão pousada na espada. (...)


Todo aquele que quiser olhar a terra convenientemente deve manter-se à distância necessária para o fazer (...)

Conheceram-se. Ele conheceu-a e conheceu-se a si próprio, porque na verdade nunca se tinha conhecido. E ela conheceu-o e conheceu-se a si própria, porque, muito embora sempre se tivesse conhecido, nunca pudera reconhecer-se daquela maneira. (...)

O amor era para ele um exercício heróico: o prazer misturava-se frequentemente com provas do seu ardor, de generosidade, de dedicação e de tensão de todas as faculdades de sua alma. O mundo deles eram as árvores mais intrincadas, de ramos mais torcidos e difíceis. (...)

- Porque me fazes sofrer assim?
- Porque te amo.
Desta feita, era ele quem se irritava:
- Não, não me amas, não pode ser verdade! Quem ama deseja a felicidade e repele a dor.
- Quem ama deseja apenas o amor, ainda que para tal seja necessário experimentar a dor.
- Então fazes-me sofrer de propósito.
- Sim, para ter a certeza que me amas.
A filosofia do barão recusava-se porém a ir mais longe.
- A dor é um estado de alma negativo.
- O amor é tudo.
- A dor deve ser sempre combatida.
- Ao amor nada se recusa.
- Certas coisas nunca admitirei.
- Tens de as admitir, inevitavelmente, uma vez que me amas e sofres. (...)

O Barão Trepador, de Italo Calvino

sábado, fevereiro 17

Quintos- a terra prometida



Fiz-me à estrada e fugi do explosivo bulício citadino.

Pelo caminho perdi-me na imensidão dos campos verdejantes resplandecidos pelas chuvas de inverno que tornavam os dias campânulas demasiado cinzentas. Compreendi que a cinza dos dias que antecederam esta minha viagem, eram afinal uma razão divina e bela, eram chuvas dignas de fazer dos campos uma tela imensa, carregada de sinais que ampliavam o meu ser.

O linha do horizonte era uma charneira simbiótica: o azul do céu, espaçado por nuvens gigantes bem lá no alto e ao longe, as nuances de campos divinos obrados pelo homem, davam uma ambiência de sonho, de sonho tornado vivido.

A estrada, era de terra batida, parecia que nunca mais acabava, os campos, eram imensos: multiplicados planos de sonhador; os pássaros, pousavam na terra humedecida, como se nada houvesse demais, eram as asas da liberdade vivendo o verdadeiro significado
da vida.

O destino tinha-se feito sem noção do tempo corrido. Fora viagem carregada de cantos maravilhosos, os cantos da alegria do interior; ali, no caminho das árvores do silêncio,
encontrei a estrada para a verdadeira vida, a estrada verde-pura, que não a do silêncio ensurdecedor.


Cheguei entretanto a Quintos.

NI, OH, ATCHA!

À mínima ordem, as ovelhas voltavam para o seu sítio, virando assim as costas para o rumo de estrada que se dirigiam.

Se. Manel, do alto dos seus cinquenta e dois anos, era um homem bonito, pele torrada pelo sol alentejano, barba farta e comprida como a de um monge solitário; uma pronúncia típica de alentejano puro como a própria terra de cultivo. Desde miúdo que vivia rodeado de ovelhas - no momento em que o visitei eram perto de quinhentas, pelo meio havia uma negra - patos mudos, galinhas, gansos e outros animais que tais. A sua vida foi, é, e sempre será, o culto à terra sagrada, nunca quis mais do que isso e apenas um sítio para dormir, um fogão e pouco mais, nada de electricidade, nem televisão; por vezes, uma vinda ao centro citadino da sua região, para satisfazer as suas libidinosas necessidades.

A sua vida resumiu-se desde sempre à contemplação dos campos dourados onde vivia.

Levanta-se cedo e cedo se deitava.

Foi uma visita muito proveitosa e encantadora, nunca até então tinha estado com um personagem tão real e senhor das suas reais necessidades. Olhava para os animais com uma candura enternecedora. Nesse olhar, revelou-se a constatação pessoal de que o Homem, ainda é capaz de ser puro, como a própria Natureza que o concebeu.

Por vezes sonho, em ser assim.

terça-feira, fevereiro 13

UM POEMA DE AMOR




Todas as mulheres
Todos os beijos delas as
Formas variadas como amam e
Falam e carecem
As suas orelhas todas elas têm
Orelhas e
Gargantas e vestidos
E sapatos e
Automóveis e ex-
Maridos.
Principalmente
As mulheres são muito
Quentes elas lembram-me a
Torrada amanteigada com manteiga
Derretida
Nela.
Há uma aparência
No olho: elas foram levadas, foram
Enganadas. Não sei mesmo o que
Fazer por
Elas.
Sou
Um bom cozinheiro, um bom
Ouvinte
Mas nunca aprendi a
Dançar - eu estava ocupado
Com coisas maiores.
Mas gostei das camas variadas
Lá delas
Fumar um cigarro
A olhar pro tecto. Não fui nocivo nem
Desonesto. Apenas um
aprendiz.
Sei que todas têm pés e cruzam
Descalças pelo soalho
Enquanto observo os seus tímidos cús na
Penumbra. Sei que gostam de mim algumas até
Me amam
Mas eu amo só umas
Poucas.
Algumas dão-me laranjas e pílulas vitaminicas;
Outras falam mansamente da
Infância e dos pais e das
Paisagens; algumas são quase
Malucas mas nenhumas delas é
Desprovida de sentido; algumas amam
Bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
São as melhores
Noutras coisas; todas têm limites como eu tenho
Limites que aprendemos
Rapidamente.
Todas as mulheres todas as
Mulheres todos os
Quartos de dormir
Os tapetes as
Fotos as
Cortinas, tudo mais ou menos
Como numa igreja isolada
Raramente se ouve
Uma risada.
Essas orelhas esses
Braços esses
Cotovelos esses olhos
A olhar, o afecto e a
Carência
Sustentaram-me,
Sustentaram-me.
CHARLES BUKOWSKI

CONFISSÃO




A esperar pela morte
Como um gato
Que vai pular
Na cama

Sinto muita pena da
Minha mulher

Ela vai ver este
Corpo
Rijo e
Branco

Vai sacudi-lo e
Talvez
Sacudi-lo de novo:

“Henry!”

E o Henry não vai
Responder.

Não é minha morte que me
Preocupa, é a minha mulher
Deixada sozinha com este monte
De coisa
Nenhuma.

No entanto,
Eu quero que ela
Saiba
Que dormir
Todas essas noites
A seu lado

E mesmo as
Discussões mais banais
Eram coisas
Realmente esplêndidas

E as palavras
Difíceis
Que sempre tive medo de
Dizer
Podem agora
Ser ditas:

Eu amo-te.

CHARLES BUKOWSKI

DINOSAURIA, WE



Born like this
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked
We are
Born like this
Into this
Into these carefully mad wars
Into the sight of broken factory windows of emptiness
Into bars where people no longer speak to each other
Into fist fights that end as shootings and knifings
Born into this
Into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
Into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes
Born into this
Walking and living through this
Dying because of this
Muted because of this
Castrated
Debauched
Disinherited
Because of this
Fooled by this
Used by this
Pissed on by this
Made crazy and sick by this
Made violent
Made inhuman
By this
The heart is blackened
The fingers reach for the throat
The gun
The knife
The bomb
The fingers reach toward an unresponsive god
The fingers reach for the bottle
The pill
The powder
We are born into this sorrowful deadliness
We are born into a government 60 years in debt
That soon will be unable to even pay the interest on that debt
And the banks will burn
Money will be useless
There will be open and unpunished murder in the streets
It will be guns and roving mobs
Land will be useless
Food will become a diminishing return
Nuclear power will be taken over by the many
Explosions will continually shake the earth
Radiated robot men will stalk each other
The rich and the chosen will watch from space platforms
Dante's Inferno will be made to look like a children's playground
The sun will not be seen and it will always be night
Trees will die
All vegetation will die
Radiated men will eat the flesh of radiated men
The sea will be poisoned
The lakes and rivers will vanish
Rain will be the new gold
The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind
The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases
And the space platforms will be destroyed by attrition
The petering out of supplies
The natural effect of general decay
And there will be the most beautiful silence never heard
Born out of that.
The sun still hidden there
Awaiting the next chapter.

Charles Bukowski

O GRANDE BORRACHOLAS



uma noite chegou à minha porta, pele e ossos molhado batido
assustado,
era um gato branco estrábico rabão.
deixei-o entrar alimentei-o foi mais um em casa
deu-me a sua carinhosa confiança,
até que um dia um fulano,
estacionado na minha garagem,
passou com o automóvel por cima do gato estrábico rabão.
levei imediatamente o que dele restava a um veterinário que disse:
"não há muito a fazer... dê-lhe estes comprimidos... tem a espinha
partida, mas já antes foi partida e de algum modo
conseguiu sarar, se sobreviver não voltará a andar, olhe
estas radiografias, deram-lhe um tiro,
veja estes pontos escuros,
são chumbadas enquistadas... além disso já teve cauda
e alguém lha cortou...»
levei o gato para casa, era um verão quente um
dos mais quentes em décadas, pus o gato no chão do quarto de banho,
dei-lhe água, os comprimidos, não queria comer nem beber,
eu mergulhava o dedo em água, humedecia-lhe a boca
e falava com ele, nesse verão não saí, passei muitos dias
no quarto de banho falando com o gato, acariciando-o suavemente,
ele olhava-me com aqueles olhos que se cruzavam
e os dias passavam.
uma tarde fez o seu primeiro movimento
arrastando-se com as patas dianteiras
(as traseiras não queriam mover-se)chegou até ao canto onde lhe tinha preparado a cama
arrastou-se mais um pouco e deixou-se cair nela.
foi como o som de um clarim pressagiando a vitória possível,
ensurdecendo o quarto de banho, espalhando-se pela cidade.
então contei ao gato que também eu tinha passado um mau bocado, não tão mau como o dele,
mas bastante mau...
uma manhã ergueu-se, ficou imóvel sobre as patas e logo caiu de costas, olhava-me mansamente.
"és capaz" disse-lhe.
ele insistiu, levantava-se e tornava a cair, uma vez e outra,
finalmente
deu uns poucos passos, era a viva imagem de um bêbado as patas recusavam-se a obedecer-lhe, caiu outra vez, descansou
e de novo se ergueu.
conhecem o resto da história: está melhor que nunca.
estrábico, quase sem dentes, mas recuperou a graça e aquele olhar
pícaro nunca o abandonou.
algumas vezes fazem-me entrevistas, querem saber
da minha vida, da minha literatura,
embriago-me, levanto nos braços o meu gato
estrábico, ferido com bala, atropelado duas vezes, rabão
e digo: "olhem, olhem isto!!!"eles não entendem nada, insisto, nada de nada, perguntam
algo como: "reconhece influências de Celine?""não", ergo o meu gato, "por causa do que acontece, coisas
como esta, como esta!!!"
sacudo o meu gato, levo-o
para a luz enevoada de fumo e álcool, está sereno, ele sabe...e nesse momento a entrevista termina.
às vezes sinto-me orgulhoso quando vejo as fotografias,
lá estou eu, lá está o meu gato, fomos
fotografados juntos,
também ele sabe que são ninharias, mas de algum modo ajudam-nos.

Charles Bukowski

segunda-feira, fevereiro 5

A ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES

Devido a visões repetitivas do quotidiano, apercebi-me um dia destes de uma discriminação gigante no que toca ao fantástico mundo das animalidades.

Sendo assim, é um orgulho para mim referenciar tal constatação.

Desde puto que sei que os leões tiveram sempre pela frente as leoas, os cães as cadelas, os gatos as gatas, os macacos as macacas, por aí fora.

Desde sempre tive a noção de que por trás dum grande macho está uma grande fêmea ou vice-versa.

Mas um dia destes, enquanto caminhava pela rua com um olhar oblíquo-descendente, constatei que uma fêmea, mais da história da animalidade fantástica, do que do mundo selvagem comum, foi relegada para a inexistência, quando a sua própria existência escondida é tão óbvia quanto o facto do Abominável Homem das Neves ser uma criatura das montanhas, farto em pêlo e senhor de grunhidos selváticos.

Falo-vos pois, da fantástica, encantadora, da fabulosa ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES!

Depois de tal observação, foi notável e até surpreendente verificar que a ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES encontra-se já enraizada na nossa cultura dita ocidental.

Quem lê este isto deve estar a questionar:

«Mas afinal, de quê que fala este homem abominável que não das neves?»

Esta pergunta faria sentido não fosse eu explicar as razões destas minhas dilacções.

O que afirmo, o facto de vivermos cada vez mais rodeados de Abomináveis Mulheres das Neves, é apenas a constatação de quem olha para baixo.

Pergunto-vos agora:

Quantos de voçês nunca se depararam no autocarro, no metro, na rua, no café, no salão de bilhares, na baixa, no comboio, com aquelas criaturas patudas com imensos e fartos tufos de pêlo cravados à pele das partes inferiores das pernas?

Certamente que já sabem do que estou a falar!

Sim, essas mesmas!

O facto de existirem nas mais diversas tonalidades e formas, contrariamente ao pobre desgraçado macho grotesco de pêlo branco sujo que vive numa gruta húmida num monte longínquo e soturno, é uma consequência da adaptação biológica e veloz à vida citadina.

Estas fêmeas, que se desenvolvem fora do habitat natural há já bastante tempo, muito antes do tempo em que os relógios passaram a ser digitais, são agora, seres civilizados com hábitos prosaicos e perfeitamente adaptados à vida do dia-a-dia.

segunda-feira, janeiro 29

A Morte

Decidi escrever uma estória. Uma estória de vida e de morte, de várias cores, de tons cinzentos e de felicidades ilusórias. Personagem ainda não tenho, não porque não tenha tido tempo para lhe dar uma forma e um sentido, mas porque dessa maneira tão prosaica não teria oportunidade de lhe dar um corpo pouco linear e um sentido notoriamente ousado e necessário à finalidade a que me proponho. Podia começar já pelo fim, ainda que não tenha as palavras encandeadas e ordenadas para um sentido final e mesmo sabendo que não posso recorrer a personagens dignas de ser absorvidas e fragmentadas, digo-vos que o personagem morreu num dia frio entre as quatro paredes brancas…

Proponho-me que escrevo sem ter uma noção do que leio ou do sentido em que caminho, sinto que não trago mais do que interrogações… Acabo de escrever e releio o que nunca tinha lido, um texto em que logo no início, o personagem único, e vago interveniente numa estória pouco linear, morre ou morreu numa tarde fria de Agosto em que a chuva ameaçava disparar.

Como morreu?

Será que morreu como personagem deste texto ou é alguém que existiu e serviu de base para um nome com hábitos e maneiras?

Poderia o personagem morrer num outro texto ou livro em que o corpo estremeceu enquanto a sua mão se apoiava sobre uma mesa castanha e fria?

Ou será que quem escreve isto é um confuso e desfasado assassino, que não sabe distinguir amor de ódio, que pensa um dia matar uma misteriosa e inspiradora pessoa, observando-a por diversas vezes para servir de fonte para uma personagem?

Todas estas minhas perguntas sem resposta poderiam seguir uma ordem e seriam sem margem nenhuma para dúvidas uma realidade plausível.

Por muito que tente e force os pontos, as linhas, as letras, as palavras e as frases a escorregar entre o limite dos meus dedos, ainda não consigo perceber porque terá morrido tão cedo este inquietante personagem, que não sei se era ou é novo; se ou vai morrer; justamente ou injustamente; se o meu conceito futuro de justo e injusto vai ser o mesmo que o de agora; ou somente se agora é hoje ou é ontem; ou se somente ontem existiu e isto não seja mais do que nunca…

Este personagem é ou foi, sem dúvida nenhuma, pelo que dá para perceber, um ser intemporal: a morte chegou ou chegará a si como a todos nós, mas não sabemos quando, nem sei onde…

Tudo começou no dia vinte e três daquele mês enquanto escrevia no teclado besuntando de melão as teclas sujas, na tentativa de perceber qual o sentido e a ordem a dar às palavras. Com uma perna alçada e a boca inquieta, tentava preencher o tempo de um vazio que mais cedo ou mais tarde tinha que chegar; o melão da sua terra deixava um aroma húmido e saboroso na boca, as palavras iam ganhando forma, aquele fragmento de vida corria-lhe bem…

Pequenos feixes de luz solar já trespassavam a persiana do seu quarto quadrangular e aconchegante. As horas tinham passado e o tempo era curto para acabar de escrever aquela importante carta; ao longe alguém esperava por uma frágil mas pesada folha de papel…

Com o cigarro pendendo-lhe dos lábios humedecidos e espessos, procurava impingir no branco uma sinceridade necessária e enternecedora, como se a sua vida e a dos outros dependesse daquilo que dissesse ou transmitisse. O fumo dissolvia-se, a ondulação e a sua dissolução davam a entender o desvanecer de tudo o que o rodeava. O galo berrava como um louco. O sol respirava sob a persiana agora aberta golfadas de uma forçada vontade abstracta.

Já de papo cheio vestia a sua roupa para dar início à odisseia de um dia trabalho. Os seus olhos pesavam, a noite depressa se tinha feito dia e a cama tinha ficado por desfazer. Enquanto punha o relógio, sete e cinquenta, percebeu que já era tarde, se não se pusesse a trote o transporte passar-lhe-ia ao lado.

Já de mochila às costas dava passos apressados para o destino que tardava em chegar, o ponteiro ia rolando e o atraso era inevitável. Lá chegou. A fila era grande, o ponteiro já tinha passado o do horário de passagem.

Era um dia de sol. Na paragem em dez pessoas, oito tinham os olhos escurecidos e tapados pelos óculos de sol, tudo lhes passava ao lado, excepto o autocarro pelo qual esperavam.

O barulho da cidade começava a ganhar corpo, o silêncio sonolento das pessoas era perceptível; o seu autocarro tardava a chegar.

Destinos e meios eram muitos, oitenta e nove, quinhentos e dez, quinhentos e doze e mais uns quantos destinos diferentes. A placa da paragem não deixava de maneira alguma enganar.

A viagem que tardava, tinha deixado na sua pessoa sintomas de uma sonolência ainda mais pesada, o barulho do autocarro e das pessoas semi-acordadas enquanto rolavam sem paradeiro pelo paralelo e alcatrão tinham deixado o seu cérebro cansado num estado de inércia mental absoluta.

Foi aí que o destino lhe deu a finalidade necessária…

Não sabia por onde começar, nunca até hoje tinha feito tal coisa, os fios eram para si nada mais nada menos que algo que sustenta dois lados opostos, como que uma ponte.

O armazém era grande e sujo e a manhã lá fora era ainda maior.

Meio atarantado tentava no balneário demonstrar que o trabalho por muito novidade que fosse não era difícil de fazer; o desconhecimento de causa levava-o a vestir a roupa limpa do trabalho como quem veste uns calções de praia numa calorosa tarde de verão em que a brisa húmida do vento ameniza o calor abrasador.

Apesar do sol, o sítio era frio e húmido, a roupa que tinha trazido de casa era insuficiente para aquecer o corpo.

Os seus companheiros de trabalho não eram muitos, eram apenas seis.

Com o tempo conseguiu perceber que embora a idade fosse um fosso entre a sua pessoa e os seus camaradas, o serviço não era mais do que uma união física e quase psicológica de mecanismos básicos impingidos; se errasse na sua parte, o desenvolvimento consequencial não surtia mais do que um efeito do estilo domino. Sendo assim, a idade e as diferentes personalidades não eram mais que uma necessidade secundária, ou terciária em relação ao objectivo principal de presença no local em que se encontrava.

(Mesmo sabendo-se que o trabalho ocupa em quase todas as pessoas activas no mínimo oito horas de um dia que tem vinte e quatro, em que no máximo oito delas estão em estado de repouso, os mecanismos de produção são a prioridade do dia-a-dia, o dinheiro tem que multiplicar para uma só pessoa ou para um restrito grupo de pessoas, enchendo assim, de uma maneira humanamente aceitável, a barriga a porcos e cleptomaníacos.)

As últimas palavras embora vomitem uma arrogância violenta e submissa, não são mais do que uma foto-realidade de um dia de trabalho por esse solo fora, sem fronteiras nem excepções. Pode-se pensar e até dizer que este campo produtivo é o pedestal das nossas sociedades contemporâneas, não digo o contrário, apenas posso incutir o seguinte: é sem dúvida nenhuma uma área do desenvolvimento humano que nos dá uma vida mais preenchida e versátil mas não se pode esquecer de tudo aquilo que vemos desfilar perante as nossas orbitas pseudo inocentes. A morte, as falsas necessidades, a preguiça mental, a ignorância vivencial, entre outras; já para não falar de tudo o que nos dão como quase obrigatório: a casa, o carro, a família, o animal de estimação, a segurança económica, entre outras; tudo isto e muito mais, dá forma à amalgama a que chamamos de vida, que cada vez mais e maquinalmente desfiguramos e aproximamos daquilo a que chamamos de morte. E esta morte de que vos falo, não sabendo se como pessoa que escreve, se como pessoa que morreu ou vai em tempos morrer como personagem desta história complexa e bizarra, não é mais que uma morte colectiva e supra abrangente de uma seita religiosa sem denominação aparente. A seita que tudo constrói \ destrói sem se preocupar com as consequências de um tempo que globalmente e ironicamente se quer harmonioso e a longo prazo.

Embora a seita na sua grande maioria apresente uma indumentária característica de ignorância e união de cariz religiosa quase inconsciente, dá para concluir que essa mesma inconsciência não se restringe à classe superior dominante e perceptível: tudo e todos nesta esfera achatada duma galáxia desconhecida, anseia de uma maneira muito peculiar, gananciosa e distraída a tão bem dita luz, que encerrará o fim dos nossos tempos…

Ao escrever sobre esta misteriosa pessoa que por aqui existe ou existiu preencho o meu tempo com letras, palavras e frases, como se este ser que não existe ou sequer existiu para lá das minhas mãos fosse tudo que tenho.

Pergunto-me o porquê de toda esta salada de fruta seca pelo quente sol que doura cada vez mais. Pergunto-me, e rapidamente descortino a resposta.

terça-feira, janeiro 23

Arrependimento

O arrependimento é um sentimento muito duro que no entanto possui a sua beleza. É um sentimento de impotência que nos tira a força para voltar atrás, mas no entanto, é um sentimento de pujança que nos faz dar mais sentido à palavra aprendizagem.

Por vezes, agimos prematuramente, esquecemo-nos que a irreflexão nos pode levar ao tal arrependimento de que falo; por outro lado, às vezes, a interpretação das nossas atitudes é tomada como um dado adquirido, e assim, duma maneira e doutra, não se consegue dar o devido valor às situações.

Agora que penso, já fui tantas vezes precipitado como tantas vezes fui mal interpretado. Em nenhuma dessas ocasiões, senti que tivesse ganho algo com isso.

Ao ser precipitado, ganhei por um lado a tal aprendizagem, mas acabei por perder a oportunidade de ser bem interpretado.

Ao ser mal interpretado, aconteceu quase o mesmo, aprendi que posso ser mal interpretado, mas perdi a oportunidade de ser precipitado e encontrar razões para tal interpretação.

E agora que fui precipitado, e dei razões para consequentemente ser mal interpretado, sinto que nada ganhei na mesma!

Apenas ganhei na boca o sabor de perda provocado pelo arrependimento.

domingo, janeiro 21

A CONSTATAÇÃO DE QUE A IDEIA GENERALIZADA QUE SE TEM DE ANARQUIA SERVE APENAS PARA DEFINIR OS TEMPOS EM QUE VIVEMOS


Andava eu por aqui a pesquisar acerca duma das grandes falácias dos conceitos modernos e eis que me deparo com uma pérola escrita de um senhor que desconhecia até ao momento que antecede a escrita desta posta.

ANARQUIA.

Embora já tivesse vagamente a ideia correcta, consegui através desta pesquisa frutuosa ter uma visão mais realista e fundamentada acerca deste vasto sistema revolucionário-ideológico. Nesta pequena-grande janela para o conhecimento a que chamamos de laptop, ou mais correctamente ecrã de computador, descobri entre os muitos personagens que compõe o passado histórico do anarquismo - que infelizmente hoje em dia não ganha forma nesta sociedade consumista que vai ardendo através da chama do hábito queimado pelos anos de destruição e abolição da liberdade fundamental ao desenvolvimento pessoal e vivencial do ser humano - um senhor, ou melhor um grande senhor, um gigante e inconformado senhor de nome Errico Malatesta. Este vulto quase apagado da história mediática, foi um insurrecto por natureza que lutou para “assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar”. Não me querendo alongar muito, na ânsia de expor aqui a pérola de que vos falo, deixo então aqui neste meu espaço, que vendo bem é de todos, um pequeno texto que escreveu e que me tocou bastante no que toca à minha interpretação de alguns aspectos que compõe a sociedade contemporânea.


“CAPITALISTAS E LADRÕES”

“A propósito das tragédias de Houndsditch e Sidney Street numa ruela da City, ocorre uma tentativa de assalto a uma joalharia; os ladrões, surpreendidos pela polícia, fogem abrindo caminho aos tiros. Mais tarde, dois dos ladrões, descobertos numa casa de East-End defendem-se uma vez mais com tiros, e morrem no tiroteio. No fundo, nada de extraordinário em tudo isto, na sociedade actual, excepto a energia excepcional com que os ladrões se defenderam.
Mas esses ladrões eram russos, talvez refugiados russos; e é também possível que tenham frequentado um clube anarquista nos dias de reunião pública, quando ele está aberto a todos. Sem dúvida, a imprensa capitalista serve-se, uma vez mais, deste caso para atacar os anarquistas. Ao ler os jornais burgueses, dir-se-ia que a anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens, nada mais é senão roubo e assassinato. Com tais mentiras e calúnias, conseguem, com certeza, afastar de nós, muitos daqueles que estariam connosco se ao menos soubessem o que queremos. Não é inútil repetir, portanto, qual é nossa atitude de anarquistas em relação à teoria e à prática do roubo. Um dos pontos fundamentais do anarquismo é a abolição do monopólio da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, e, consequentemente, a abolição da exploração do trabalho alheio exercida pelos detentores dos meios de produção. Toda apropriação do trabalho alheio, tudo o que serve a um homem para viver sem dar à sociedade a sua contribuição à produção, é um roubo, do ponto de vista anarquista e socialista. Os proprietários, os capitalistas, roubaram do povo, pela fraude ou pela violência, a terra e todos os meios de produção, e como consequência deste roubo inicial podem subtrair dos trabalhadores, a cada dia, o produto de seu trabalho. Mas esses ladrões afortunados tornaram-se fortes, fizeram leis para legitimar sua situação, e organizaram todo um sistema de repressão para se defender, tanto das reivindicações dos trabalhadores como daqueles que querem substituí-los, agindo como eles próprios agiram. E agora o roubo desses senhores chama-se propriedade, comércio, indústria, etc; o nome de ladrões é reservado, todavia, na linguagem usual, àqueles que gostariam de seguir o exemplo dos capitalistas, mas que, tendo chegado muito tarde e em circunstâncias desfavoráveis, só podem fazê-lo revoltando-se contra a lei. Entretanto, a diferença de nomes empregados ordinariamente não basta para apagar a identidade moral e social das duas situações. O capitalista é um ladrão cujo sucesso se deve a seu mérito ou a de seus ascendentes; o ladrão é um aspirante a capitalista que só espera a oportunidade para sê-lo na realidade, para viver, sem trabalhar, do produto de seu roubo, isto é, do trabalho alheio. Inimigos dos capitalistas, não podemos ter simpatia pelo ladrão que visa tornar-se capitalista. Partidários da expropriação feita pelo povo em proveito de todos, não podemos, enquanto anarquistas, ter nada em comum com uma operação que consiste unicamente em fazer passar a riqueza das mãos de um proprietário para as de outro. Obviamente, refiro-me ao ladrão profissional, àquele que não quer trabalhar e procura os meios para poder viver como parasita do trabalho alheio. É bem diferente o caso de um homem ao qual a sociedade recusa meios de trabalhar e que rouba para não morrer de fome e não deixa morrer de fome seus filhos. Neste caso, o roubo (se é que se pode denominá-lo assim) é uma revolta contra a injustiça social, e pode tornar-se o mais imperioso dos deveres. Mas a imprensa capitalista evita falar desses casos, pois deveria, ao mesmo tempo, atacar a ordem social que tem por missão defender. Com certeza, o ladrão profissional é, ele também, uma vítima do meio social. O exemplo que vem de cima, a educação recebida, as condições repugnantes nas quais se é, amiúde, obrigado a trabalhar, explicam facilmente como é que homens, que não são moralmente superiores a seus contemporâneos, colocados na alternativa de serem explorados ou exploradores, preferem ser exploradores e encarregam-se de consegui-lo pelos meios de que são capazes. Todavia, essas circunstâncias atenuantes podem também se aplicar aos capitalistas, e esta é a melhor prova da identidade das duas profissões. As ideias anarquistas não podem, em consequência, levar os indivíduos a tornarem-se capitalistas assim como não pode levá-los a serem ladrões. Ao contrário, dando aos descontentes uma ideia de vida superior e esperança de emancipação colectiva, elas desviam-nos, na medida do possível, tendo em vista o meio actual, de todas essas acções legais ou ilegais, que representam apenas adaptação ao sistema capitalista, e tendem a perpetuá-lo. Apesar de tudo isso, o meio social é tão poderoso e os temperamentos pessoais tão diferentes, que bem pode existir entre os anarquistas alguns que se tornem ladrões, como há os que se tornam comerciantes ou industriais; mas, neste caso, uns e outros agem, assim, não por causa, mas a despeito das ideias anarquistas.”

Errico Malatesta (Março de 1911)

quarta-feira, janeiro 17

QUE FORÇA É ESSA

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compreendes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes

Não me digas que não me compreendes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


SÉRGIO GODINHO

terça-feira, janeiro 9

Poema Non-sense (exploração patafísica)

Boris Vian (1920-1959)
A verdade ecoa numa concavidade de luz que reluz na parede de cimento contado.
Na liberdade do céu vejo um peixe sem escamas que voa para um céu que não o do limite esponjoso.

«Olho o chão que se deixa ficar para trás entre secretárias e colunas duma comunicabilidade silenciosa.
Procuro o cerne num pedaço de metal frio que explode suavemente nas minhas mãos.
-E a cadeira, para que me senta?
Talvez me sente porque nas mãos tenho uma vara-que-não-vara que me serve para afagar.
Talvez porque uma foto de papel de seda me deixa sequioso e impaciente.
Talvez porque a mente nos meandros da rocha não saiba que o gato já passou há bastante tempo.
-Um miar ladrou bem alto no espaço sólido duma noite radiosa de Inverno.»

Algures pela concha encontrei uma maçã.
E nessa saliência de cavaleiro do presente vi um olhar!
O brilho era baço e de cavalo!
O ponto era negro e reluzente como a luz dum farol apagado.

«As coisas que se dizem quando tudo não se quer dizer sem regras nem sentido!»

Caminhar verde de crista de lua que se espanta com um cão radioso.
Passo preso com bolinhas espalmadas de cor acolchoada.
Quadrados quentes mediatizados pelo querer da tarde vagarosa como um carro de auto-estrada!
Fio de corda solta numa manhã espacial como a postura!
Voz de botão de tecto que traz consigo o cabide ancestral.
Textura ajudada pelo pêlo dum orangotango citadino.
Música pendurada nas paredes duma imaterialidade física.
Complexidade duma casa com as postas dos dedos enclausuradas pelas composturas descosidas.

«Pergunto ao chão quantas vezes comeu a sopa hoje.
Automatizo a maneabilidade da inserção formatada.
Ajudo a demência a ganhar forma na roupa de cama que visto no tronco de manga.
Contabilizo a sombra e constato que afinal o cão ainda não passou.
Era afinal uma caneta de cheiro a laranja que voltava da sua odisseia por um garfo sem dentes!
-E a faca? Falta a faca!»

Faca do sonho duma laranjeira despida de massas!
Colchão duro como a polpa dum balão térreo.
Ar constrangido pela sobreposição do paragrafo que só existe na sua imprópria inexistência.
Persiana solar que se queda nas despropositada interacção dos telhados subterrâneos.
Deambular quieto da linha obliqua duma horizontalidade do passado.
Símbolo transparente que se arrasta tardiamente sobre a folha duma estrada ainda verde.
Enquadramento de inquilino que se pendura num chinelo de cozinha.

«Procuro a almofada! Não quero nada mais que não seja casaco de fecho Napoleão.»

Cabala de tecla roxa como o morango.
Cinzeiro limpo por um rectângulo sem ângulos.
Limpeza da ombreira numa casa que se encontra num monte de penas para o ar.
Lata trilhada por uma pluma feita de arame constrangido.

«Onde andas? Já dei voltas e mais voltas e nunca mais te desencontrava!»

Cores tardias que ecoam pela massa saturada pelo ar!
Letras riscadas por um marcador deliciado pelo agir da espuma francesa!
Demência concêntrica.
Espirais espiraladas pelos poros duma boca fechada.
Libertinagem maquinal que vai flutuando pesada pelas paredes arredondadas como um plano perfeito.
Tomada de pose perante o caminho dum beco com saída.
Mentira conspurcada pelo homem-guerra que voa como um pássaro sem barbatanas.
Jogo de coisas e não-coisas na imensa clausura duma farinha amarelada pelo não passar da mota do Pé Raso.
Desnivelamento perante um camafeu cor de braço oscilante.
Dezasseis.
Vinte e quatro.
Oito milhões quatrocentos e vinte oito mil cento e setenta e um!
Quatrocentos biliões cinquenta e sete milhões trezentos e vinte sete mil e uma miríades ululantes!

«Números, apenas números!»

Uma.
Cinco.
Nove idades!

«Sinceramente ainda não sei ao certo…
Ainda não me disseram.
Isso para mim são apenas nove idades sem ligação passível!»

Colaboração descolorada pela água dum nariz de carteira de bolso.
Impressão contida na impossibilidade de dar azo às tentativas furtadas por um ladrão inocente como a madeira.
Raízes sem fumo.

«Fumo sem raízes!»

Raízes fumo sem.

«Sem raízes fumo»

Sem fumo raízes!
Colibris sem cabeça de alfinete.
Alfinetes sem colibris de cabeça.
Cabeça sem alfinete de colibris.
De colibris sem alfinete cabeça.
Colibris sem alfinete de cabeça.
Sem alfinete de cabeça colibris!

«Trocas e baldrocas!»

De!
Sem!
Colibris!
Cabeça!
Sem!
Cabeça!
De!
Colibris!
Sem colibris!
De cabeça!
Sem cabeça!
Colibris cabeça!

«Mando-me de cabeça sem colibris à mistura!»

Era uma vez.
Mas também foi duas vezes!
Em tempos!

«Mando-me de colibris com uma cabeça à mistura!»

Foi em tempos.
Mas ainda é!
Um homem sem rumo-alienado.
Um sentido não sentido.
Uma broca sem diamante num manto que não o cobria!
De amante restava-lhe o socado ventríloquo de alarido constante.
Coloquial levitado pela barata alargada do confuso buraco de ardina.
Exploração do sítio onde as larvas do bicho-da-seda faziam o seu pinho.

«Foi num pinhal abençoado, as escadas estavam lá e eu vi-as, estavam por baixo dos degraus!»

Preto e branco ressoado pelo respirar dum pé!
Laranja e melancia cortadas por inteiro.
Frutaria duma esquina sem homens por certo.
Longevidade intima complicada pela razão.
Substância detalhada na beira dum centro sem bordas.

«Quero o fim! Onde anda o fim?!»

Um fim sem fim que se encontre na finalidade de findar.
Umfimsemfimqueseencontrenafinalidadedefindar!
Uma colagem sem cola que sustenha o rumo das palavras que não são.
Uma cola sem colagem que sustenha as palavras que não são apenas as que escrevi.
Uma inglesa escrita pelo canto dum tenor indiano!
Ladear a escrita para inserir na parte de forra uma essência quase aquecida.
Explorar para expor a experimentação explicativa exprimida pela explosão expugnável.

«O cigarro que bafejo apagado vai ardendo através da inspiração ordenada pelos cantos das ninfas do Beijo.»

Ojieb od safnin sad sotnac solep adanedro oãçaripsni ad sèvarta odnedra iav odagapa ojefab euq orragic o.

«No fundo do cume das coisas era apenas isto que tinha para dizer!»
















quinta-feira, janeiro 4

Políticos

Desenham num néon colorido
Um arco-íris para as nossas vidas,

A laranja uma vontade económica

A rosa uma suposta vontade

A vermelho uma necessidade

A azul uma minoria

Exploram a imagem, as pessoas
A ignorância e a ilusória inteligência
As nossas vidas e o nosso tempo
Como quem masca uma chicla sem sabor.

Embrulham como tornados o dinheiro,
As falsidades, as despropositadas necessidades
Embalam e revoltam no silêncio
O cérebro cinzento a ressacar
Por um símbolo que nos há-de salvar

De gravata e camisa camelada
Desdobram-se em argumentos complexos
Despropositados,
Em palavras atulhadas e confusas
Em frases sem objectivo nem propósito necessário
Arrastam-nos sem que consigamos ter força
Sem que consigamos fazer valer o que nos magoa

Em casa, no seu guarda-fatos
Os factos vão-se acumulando
Sem que se verga o ferro frio que os sustenta
Como se os fatos ásperos não pesassem
E valessem mais os fracos argumentos!

DOWNTOWN TRAIN

Outside another yellow moon
punched a hole in the nighttime, yes
I climb through the window and down the street
shining like a new dime
the downtown trains are full with all those Brooklyn girls
they try so hard to break out of their little worlds

You wave your hand and they scatter like crows
they have nothing that will ever capture your heart
theyr'e just thorns without the rosebe careful of them in the dark
oh if I was the one
you chose to be your only one
oh baby can't you hear me now

Will I see you tonight
on a downtown train
every night is just the same
you leave me lonely now

I know your window and I know it's late
I know your stairs and your doorway
I walk down your street and past your gate
I stand by the light at the four way
you watch them as they fall
they all have heart attacks
they stay at the carnival
but they'll never win you back

Will I see you tonight on a downtown train
where every night is just the same you leave me lonely
will I see you tonight on a downtown train
all of my dreams just fall like rain
all upon a downtown train


TOM WAITS

segunda-feira, janeiro 1

O Homem e o Conhecimento

O princípio básico e esclarecedor da racionalidade contemporânea é a espelhada irracionalidade que obviamente advém da imagem de conhecimento que possuímos, ou seja, o princípio fundamental das necessidades vivenciais foi alienado de tal maneira, que desde esse momento primordial e básico que o conhecimento foi deturpado pelo erróneo desenvolvimento de si próprio. (...)

Intemporalidade

Apetecia-me escrever
Para no futuro lembrar-me
Deste mórbido presente
Que vive do erróneo passado

Fazer do observado passado
Presente
Do presente futuro
E do futuro passado

Apetecia-me cristalizar o tempo
E torná-lo intemporal

Pegar em tudo isto e isolar no tempo
Sem um presente
Sem um passado
Sem um futuro
Apenas isto e nada mais

segunda-feira, dezembro 25

JAMES BROWN


Deixo aqui uma letra que me maravilhou e surpreendeu bastante.
Um dia destes ao vasculhar pelos bastantes cantos já há muito tempo não remexidos da minha casa, descobri uma pequenalataredondalaranja número quatro, com um piano desenhado que tinha escrito com letragrossagarrafalamarelo:
JAMES BROWN!
Lá dentro continha uma música que embora já ouvida há bastante tempo ainda me era de toda desconhecida...
THIS IS A MAN'S WORLD
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness