ele era alguém, era o
homem que trazia o mundo às costas,
o seu mundo.
nos seus olhos, algo
que quebra as barreiras da
realidade vigente,
a realidade coberta pela manta negra
que se tornou em vida.
a vida, era para si, afinal
o mundo de todos,
mas no entanto, não era
o mundo criado por ele;
disso tinha ele fugido a sete pés;
só assim conseguia criar o seu mundo,
o mundo de todos os que respiravam
do seu ar
mas que ares do seu pouco tinham;
os seus céus eram mais intensos
eram céus pintados dum azul que só existia em si:
o azul da alma, o azul que esbate todos os cinzentos
todos os negros, todas as tristezas
todas as apatias, todas as realidades.
na sua mão, pesava uma enxada
uma vida inteira
o sonho de uma tarde de inverno
ali, no verde dos seus campos.
quarta-feira, fevereiro 21
domingo, fevereiro 18
TRECHOS DE UM LIVRO SUBLIME
- Quem era não sei - respondeu Cosimo - , mas se andais à procura dum homem que passou por aqui a correr, digo-vos que ele tomou a direcção do riacho...
- Um homem? É um homenzarrão que mete medo...
- Bem, daqui de cima parecem todos pequenos...
- Muito obrigado a Vossa Senhoria! - agradeceram os beleguins, desatando a correr em direcção ao riacho.
Cosimo voltou para a sua nogueira e retomou a sua leitura de Gil Brás. João dos bosques continuava abraçado a um ramo, muito pálido no meio da barba e dos cabelos hirsutos e avermelhados como a erva seca dos campos, cheios de pedaçinhos de casca de árvore, folhas pequenas e agulhas de pinheiro. Estudava Cosimo com os seus dois olhos verdes, muito redondos e espantados; era feio, muito feio.
- Já se foram? - decidiu, por fim, perguntar.
- Sim, sim - respondeu Cosimo, com ar afável. - O senhor é que é o salteador João dos Bosques?
- Como é que me conhece?
- Bem, conheço-o de ouvir falar de si, conheço a sua fama.
- E o senhor é aquele que nunca desce das árvores?
- Sim, sou. Mas como sabe?
- Bem, da mesma maneira... A fama corre.
Olharam-se cortesmente, como duas pessoas de posição que se encontram por acaso e ficam satisfeitas por saberem que não são desconhecidas uma da outra.
Cosimo não sabia que mais dizer e, assim, retomou a leitura.
- Que está a ler?
- O Gil Brás, de Lesage.
- É bonito?
- É, sim, é bonito.
- Falta-lhe muito para acabar?
-Porquê? Bem, faltam-me cerca de umas vinte páginas.
-Porque, quando o acabasse de ler, queria perguntar-lhe se mo emprestava... - sorriu, ligeiramente escondido.
-É que, sabe, passo os dias escondido sem ter nada para fazer. Gostava de ler um livro de vez em quando. Uma vez assaltei uma carruagem. Trazia pouco que roubar, mas havia um livro e eu trouxe-o. Levei-o comigo, escondido debaixo da capa; teria preferido desistir do produto todo do roubo a perder aquele livro. À noite, acendi a lanterna e ia para ler... quando vejo que era em latim! Não percebia nem uma palavra... - Abanou a cabeça. - Como não sei latim...
- Bem, a verdade é que o latim é difícil - disse Cosimo, sentindo que, mau grado seu, estava a tomar por ares de protector. - Este aqui é em francês...
- Francês, toscano, provençal, castelhano, compreendo tudo - disse João dos Bosques. - Até sei um pouco de catalão: Bon dia! Bona nit! Està la mar molt alborotada.
Em pouco mais mais de meia hora Cosimo acabou de ler o livro e emprestou-o a João dos Bosques.
Assim principiaram as relações entre meu irmão e o salteador. Mal João dos Bosques acabava de ler um livro, corria a restituí-lo a Cosimo, pedia-lhe outro emprestado, voltava imediatamente a encafuar-se no seu esconderijo secreto e mergulhava profundamente na leitura. (...)
A quem era João dos Bosques útil agora? Se passava a vida escondido, de lágrimas nos olhos, já não dava mais golpes, não fazia roubos de espécie alguma, no bosque mais ninguém podia fazer o seu negócio, os beleguins todos os dias faziam batidas e mal achassem que um desgraçado tinha ar suspeito era o suficiente para o levarem para a cadeia. Se se acrescentar a isto a tentação que representava o prémio que se oferecia pela cabeça de João dos Bosques, imediatamente se torna claro que os dias deste último estavam praticamente contados. (...)
As associações tornam o homem mais forte e põe em relevo nele os melhores dotes do indivíduo singular e conferem, simultaneamente, aquela espécie de alegria que, permanecendo uma pessoa só, raras vezes sente constatar como é elevado o número de pessoas honestas, corajosas e capazes e pelas quais vale a pena quererem-se coisas boas; ao passo que, vivendo-se isolado, se chega facilmente à conclusão contrária, descobrindo-se quase sempre a outra face das pessoas, essa face perante a qual é sempre necessário ter sempre a mão pousada na espada. (...)
Todo aquele que quiser olhar a terra convenientemente deve manter-se à distância necessária para o fazer (...)
Conheceram-se. Ele conheceu-a e conheceu-se a si próprio, porque na verdade nunca se tinha conhecido. E ela conheceu-o e conheceu-se a si própria, porque, muito embora sempre se tivesse conhecido, nunca pudera reconhecer-se daquela maneira. (...)
O amor era para ele um exercício heróico: o prazer misturava-se frequentemente com provas do seu ardor, de generosidade, de dedicação e de tensão de todas as faculdades de sua alma. O mundo deles eram as árvores mais intrincadas, de ramos mais torcidos e difíceis. (...)
- Porque me fazes sofrer assim?
- Porque te amo.
Desta feita, era ele quem se irritava:
- Não, não me amas, não pode ser verdade! Quem ama deseja a felicidade e repele a dor.
- Quem ama deseja apenas o amor, ainda que para tal seja necessário experimentar a dor.
- Então fazes-me sofrer de propósito.
- Sim, para ter a certeza que me amas.
A filosofia do barão recusava-se porém a ir mais longe.
- A dor é um estado de alma negativo.
- O amor é tudo.
- A dor deve ser sempre combatida.
- Ao amor nada se recusa.
- Certas coisas nunca admitirei.
- Tens de as admitir, inevitavelmente, uma vez que me amas e sofres. (...)
O Barão Trepador, de Italo Calvino
- Um homem? É um homenzarrão que mete medo...
- Bem, daqui de cima parecem todos pequenos...
- Muito obrigado a Vossa Senhoria! - agradeceram os beleguins, desatando a correr em direcção ao riacho.
Cosimo voltou para a sua nogueira e retomou a sua leitura de Gil Brás. João dos bosques continuava abraçado a um ramo, muito pálido no meio da barba e dos cabelos hirsutos e avermelhados como a erva seca dos campos, cheios de pedaçinhos de casca de árvore, folhas pequenas e agulhas de pinheiro. Estudava Cosimo com os seus dois olhos verdes, muito redondos e espantados; era feio, muito feio.
- Já se foram? - decidiu, por fim, perguntar.
- Sim, sim - respondeu Cosimo, com ar afável. - O senhor é que é o salteador João dos Bosques?
- Como é que me conhece?
- Bem, conheço-o de ouvir falar de si, conheço a sua fama.
- E o senhor é aquele que nunca desce das árvores?
- Sim, sou. Mas como sabe?
- Bem, da mesma maneira... A fama corre.
Olharam-se cortesmente, como duas pessoas de posição que se encontram por acaso e ficam satisfeitas por saberem que não são desconhecidas uma da outra.
Cosimo não sabia que mais dizer e, assim, retomou a leitura.
- Que está a ler?
- O Gil Brás, de Lesage.
- É bonito?
- É, sim, é bonito.
- Falta-lhe muito para acabar?
-Porquê? Bem, faltam-me cerca de umas vinte páginas.
-Porque, quando o acabasse de ler, queria perguntar-lhe se mo emprestava... - sorriu, ligeiramente escondido.
-É que, sabe, passo os dias escondido sem ter nada para fazer. Gostava de ler um livro de vez em quando. Uma vez assaltei uma carruagem. Trazia pouco que roubar, mas havia um livro e eu trouxe-o. Levei-o comigo, escondido debaixo da capa; teria preferido desistir do produto todo do roubo a perder aquele livro. À noite, acendi a lanterna e ia para ler... quando vejo que era em latim! Não percebia nem uma palavra... - Abanou a cabeça. - Como não sei latim...
- Bem, a verdade é que o latim é difícil - disse Cosimo, sentindo que, mau grado seu, estava a tomar por ares de protector. - Este aqui é em francês...
- Francês, toscano, provençal, castelhano, compreendo tudo - disse João dos Bosques. - Até sei um pouco de catalão: Bon dia! Bona nit! Està la mar molt alborotada.
Em pouco mais mais de meia hora Cosimo acabou de ler o livro e emprestou-o a João dos Bosques.
Assim principiaram as relações entre meu irmão e o salteador. Mal João dos Bosques acabava de ler um livro, corria a restituí-lo a Cosimo, pedia-lhe outro emprestado, voltava imediatamente a encafuar-se no seu esconderijo secreto e mergulhava profundamente na leitura. (...)
A quem era João dos Bosques útil agora? Se passava a vida escondido, de lágrimas nos olhos, já não dava mais golpes, não fazia roubos de espécie alguma, no bosque mais ninguém podia fazer o seu negócio, os beleguins todos os dias faziam batidas e mal achassem que um desgraçado tinha ar suspeito era o suficiente para o levarem para a cadeia. Se se acrescentar a isto a tentação que representava o prémio que se oferecia pela cabeça de João dos Bosques, imediatamente se torna claro que os dias deste último estavam praticamente contados. (...)
As associações tornam o homem mais forte e põe em relevo nele os melhores dotes do indivíduo singular e conferem, simultaneamente, aquela espécie de alegria que, permanecendo uma pessoa só, raras vezes sente constatar como é elevado o número de pessoas honestas, corajosas e capazes e pelas quais vale a pena quererem-se coisas boas; ao passo que, vivendo-se isolado, se chega facilmente à conclusão contrária, descobrindo-se quase sempre a outra face das pessoas, essa face perante a qual é sempre necessário ter sempre a mão pousada na espada. (...)
Todo aquele que quiser olhar a terra convenientemente deve manter-se à distância necessária para o fazer (...)
Conheceram-se. Ele conheceu-a e conheceu-se a si próprio, porque na verdade nunca se tinha conhecido. E ela conheceu-o e conheceu-se a si própria, porque, muito embora sempre se tivesse conhecido, nunca pudera reconhecer-se daquela maneira. (...)
O amor era para ele um exercício heróico: o prazer misturava-se frequentemente com provas do seu ardor, de generosidade, de dedicação e de tensão de todas as faculdades de sua alma. O mundo deles eram as árvores mais intrincadas, de ramos mais torcidos e difíceis. (...)
- Porque me fazes sofrer assim?
- Porque te amo.
Desta feita, era ele quem se irritava:
- Não, não me amas, não pode ser verdade! Quem ama deseja a felicidade e repele a dor.
- Quem ama deseja apenas o amor, ainda que para tal seja necessário experimentar a dor.
- Então fazes-me sofrer de propósito.
- Sim, para ter a certeza que me amas.
A filosofia do barão recusava-se porém a ir mais longe.
- A dor é um estado de alma negativo.
- O amor é tudo.
- A dor deve ser sempre combatida.
- Ao amor nada se recusa.
- Certas coisas nunca admitirei.
- Tens de as admitir, inevitavelmente, uma vez que me amas e sofres. (...)
O Barão Trepador, de Italo Calvino
sábado, fevereiro 17
Quintos- a terra prometida

Fiz-me à estrada e fugi do explosivo bulício citadino.
Pelo caminho perdi-me na imensidão dos campos verdejantes resplandecidos pelas chuvas de inverno que tornavam os dias campânulas demasiado cinzentas. Compreendi que a cinza dos dias que antecederam esta minha viagem, eram afinal uma razão divina e bela, eram chuvas dignas de fazer dos campos uma tela imensa, carregada de sinais que ampliavam o meu ser.
O linha do horizonte era uma charneira simbiótica: o azul do céu, espaçado por nuvens gigantes bem lá no alto e ao longe, as nuances de campos divinos obrados pelo homem, davam uma ambiência de sonho, de sonho tornado vivido.
A estrada, era de terra batida, parecia que nunca mais acabava, os campos, eram imensos: multiplicados planos de sonhador; os pássaros, pousavam na terra humedecida, como se nada houvesse demais, eram as asas da liberdade vivendo o verdadeiro significado
da vida.
O destino tinha-se feito sem noção do tempo corrido. Fora viagem carregada de cantos maravilhosos, os cantos da alegria do interior; ali, no caminho das árvores do silêncio,
encontrei a estrada para a verdadeira vida, a estrada verde-pura, que não a do silêncio ensurdecedor.
Cheguei entretanto a Quintos.
NI, OH, ATCHA!
À mínima ordem, as ovelhas voltavam para o seu sítio, virando assim as costas para o rumo de estrada que se dirigiam.
Se. Manel, do alto dos seus cinquenta e dois anos, era um homem bonito, pele torrada pelo sol alentejano, barba farta e comprida como a de um monge solitário; uma pronúncia típica de alentejano puro como a própria terra de cultivo. Desde miúdo que vivia rodeado de ovelhas - no momento em que o visitei eram perto de quinhentas, pelo meio havia uma negra - patos mudos, galinhas, gansos e outros animais que tais. A sua vida foi, é, e sempre será, o culto à terra sagrada, nunca quis mais do que isso e apenas um sítio para dormir, um fogão e pouco mais, nada de electricidade, nem televisão; por vezes, uma vinda ao centro citadino da sua região, para satisfazer as suas libidinosas necessidades.
A sua vida resumiu-se desde sempre à contemplação dos campos dourados onde vivia.
Levanta-se cedo e cedo se deitava.
Foi uma visita muito proveitosa e encantadora, nunca até então tinha estado com um personagem tão real e senhor das suas reais necessidades. Olhava para os animais com uma candura enternecedora. Nesse olhar, revelou-se a constatação pessoal de que o Homem, ainda é capaz de ser puro, como a própria Natureza que o concebeu.
Por vezes sonho, em ser assim.
Pelo caminho perdi-me na imensidão dos campos verdejantes resplandecidos pelas chuvas de inverno que tornavam os dias campânulas demasiado cinzentas. Compreendi que a cinza dos dias que antecederam esta minha viagem, eram afinal uma razão divina e bela, eram chuvas dignas de fazer dos campos uma tela imensa, carregada de sinais que ampliavam o meu ser.
O linha do horizonte era uma charneira simbiótica: o azul do céu, espaçado por nuvens gigantes bem lá no alto e ao longe, as nuances de campos divinos obrados pelo homem, davam uma ambiência de sonho, de sonho tornado vivido.
A estrada, era de terra batida, parecia que nunca mais acabava, os campos, eram imensos: multiplicados planos de sonhador; os pássaros, pousavam na terra humedecida, como se nada houvesse demais, eram as asas da liberdade vivendo o verdadeiro significado
da vida.
O destino tinha-se feito sem noção do tempo corrido. Fora viagem carregada de cantos maravilhosos, os cantos da alegria do interior; ali, no caminho das árvores do silêncio,
encontrei a estrada para a verdadeira vida, a estrada verde-pura, que não a do silêncio ensurdecedor.
Cheguei entretanto a Quintos.
NI, OH, ATCHA!
À mínima ordem, as ovelhas voltavam para o seu sítio, virando assim as costas para o rumo de estrada que se dirigiam.
Se. Manel, do alto dos seus cinquenta e dois anos, era um homem bonito, pele torrada pelo sol alentejano, barba farta e comprida como a de um monge solitário; uma pronúncia típica de alentejano puro como a própria terra de cultivo. Desde miúdo que vivia rodeado de ovelhas - no momento em que o visitei eram perto de quinhentas, pelo meio havia uma negra - patos mudos, galinhas, gansos e outros animais que tais. A sua vida foi, é, e sempre será, o culto à terra sagrada, nunca quis mais do que isso e apenas um sítio para dormir, um fogão e pouco mais, nada de electricidade, nem televisão; por vezes, uma vinda ao centro citadino da sua região, para satisfazer as suas libidinosas necessidades.
A sua vida resumiu-se desde sempre à contemplação dos campos dourados onde vivia.
Levanta-se cedo e cedo se deitava.
Foi uma visita muito proveitosa e encantadora, nunca até então tinha estado com um personagem tão real e senhor das suas reais necessidades. Olhava para os animais com uma candura enternecedora. Nesse olhar, revelou-se a constatação pessoal de que o Homem, ainda é capaz de ser puro, como a própria Natureza que o concebeu.
Por vezes sonho, em ser assim.
terça-feira, fevereiro 13
UM POEMA DE AMOR

Todas as mulheres
Todos os beijos delas as
Formas variadas como amam e
Falam e carecemAs suas orelhas todas elas têm
Orelhas e
Gargantas e vestidos
E sapatos e
Automóveis e ex-
Maridos.Principalmente
As mulheres são muito
Quentes elas lembram-me a
Torrada amanteigada com manteiga
Derretida
Nela.Há uma aparência
No olho: elas foram levadas, foram
Enganadas. Não sei mesmo o que
Fazer por
Elas.Sou
Um bom cozinheiro, um bom
Ouvinte
Mas nunca aprendi a
Dançar - eu estava ocupado
Com coisas maiores.Mas gostei das camas variadas
Lá delas
Fumar um cigarro
A olhar pro tecto. Não fui nocivo nem
Desonesto. Apenas um
aprendiz.Sei que todas têm pés e cruzam
Descalças pelo soalho
Enquanto observo os seus tímidos cús na
Penumbra. Sei que gostam de mim algumas até
Me amam
Mas eu amo só umas
Poucas.Algumas dão-me laranjas e pílulas vitaminicas;
Outras falam mansamente da
Infância e dos pais e das
Paisagens; algumas são quase
Malucas mas nenhumas delas é
Desprovida de sentido; algumas amam
Bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
São as melhores
Noutras coisas; todas têm limites como eu tenho
Limites que aprendemos
Rapidamente.Todas as mulheres todas as
Mulheres todos os
Quartos de dormir
Os tapetes as
Fotos as
Cortinas, tudo mais ou menos
Como numa igreja isolada
Raramente se ouve
Uma risada.Essas orelhas esses
Braços esses
Cotovelos esses olhos
A olhar, o afecto e a
Carência
Sustentaram-me,
Sustentaram-me.CHARLES BUKOWSKI
CONFISSÃO

A esperar pela morte
Como um gato
Que vai pular
Na cama
Sinto muita pena da
Minha mulher
Ela vai ver este
Corpo
Rijo e
Branco
Vai sacudi-lo e
Talvez
Sacudi-lo de novo:
“Henry!”
E o Henry não vai
Responder.
Não é minha morte que me
Preocupa, é a minha mulher
Deixada sozinha com este monte
De coisa
Nenhuma.
No entanto,
Eu quero que ela
Saiba
Que dormir
Todas essas noites
A seu lado
E mesmo as
Discussões mais banais
Eram coisas
Realmente esplêndidas
E as palavras
Difíceis
Que sempre tive medo de
Dizer
Podem agora
Ser ditas:
Eu amo-te.
CHARLES BUKOWSKI
DINOSAURIA, WE

Born like this
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked
We are
Born like this
Into this
Into these carefully mad wars
Into the sight of broken factory windows of emptiness
Into bars where people no longer speak to each other
Into fist fights that end as shootings and knifings
Born into this
Into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
Into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes
Born into this
Walking and living through this
Dying because of this
Muted because of this
Castrated
Debauched
Disinherited
Because of this
Fooled by this
Used by this
Pissed on by this
Made crazy and sick by this
Made violent
Made inhuman
By this
The heart is blackened
The fingers reach for the throat
The gun
The knife
The bomb
The fingers reach toward an unresponsive god
The fingers reach for the bottle
The pill
The powder
We are born into this sorrowful deadliness
We are born into a government 60 years in debt
That soon will be unable to even pay the interest on that debt
And the banks will burn
Money will be useless
There will be open and unpunished murder in the streets
It will be guns and roving mobs
Land will be useless
Food will become a diminishing return
Nuclear power will be taken over by the many
Explosions will continually shake the earth
Radiated robot men will stalk each other
The rich and the chosen will watch from space platforms
Dante's Inferno will be made to look like a children's playground
The sun will not be seen and it will always be night
Trees will die
All vegetation will die
Radiated men will eat the flesh of radiated men
The sea will be poisoned
The lakes and rivers will vanish
Rain will be the new gold
The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind
The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases
And the space platforms will be destroyed by attrition
The petering out of supplies
The natural effect of general decay
And there will be the most beautiful silence never heard
Born out of that.
The sun still hidden there
Awaiting the next chapter.
Charles Bukowski
O GRANDE BORRACHOLAS

uma noite chegou à minha porta, pele e ossos molhado batido
assustado,
era um gato branco estrábico rabão.
deixei-o entrar alimentei-o foi mais um em casa
deu-me a sua carinhosa confiança,
até que um dia um fulano,
estacionado na minha garagem,
passou com o automóvel por cima do gato estrábico rabão.
levei imediatamente o que dele restava a um veterinário que disse:
"não há muito a fazer... dê-lhe estes comprimidos... tem a espinha
partida, mas já antes foi partida e de algum modo
conseguiu sarar, se sobreviver não voltará a andar, olhe
estas radiografias, deram-lhe um tiro,
veja estes pontos escuros,
são chumbadas enquistadas... além disso já teve cauda
e alguém lha cortou...»
levei o gato para casa, era um verão quente um
dos mais quentes em décadas, pus o gato no chão do quarto de banho,
dei-lhe água, os comprimidos, não queria comer nem beber,
eu mergulhava o dedo em água, humedecia-lhe a boca
e falava com ele, nesse verão não saí, passei muitos dias
no quarto de banho falando com o gato, acariciando-o suavemente,
ele olhava-me com aqueles olhos que se cruzavam
e os dias passavam.
uma tarde fez o seu primeiro movimento
arrastando-se com as patas dianteiras
(as traseiras não queriam mover-se)chegou até ao canto onde lhe tinha preparado a cama
arrastou-se mais um pouco e deixou-se cair nela.
foi como o som de um clarim pressagiando a vitória possível,
ensurdecendo o quarto de banho, espalhando-se pela cidade.
então contei ao gato que também eu tinha passado um mau bocado, não tão mau como o dele,
mas bastante mau...
uma manhã ergueu-se, ficou imóvel sobre as patas e logo caiu de costas, olhava-me mansamente.
"és capaz" disse-lhe.
ele insistiu, levantava-se e tornava a cair, uma vez e outra,
finalmente
deu uns poucos passos, era a viva imagem de um bêbado as patas recusavam-se a obedecer-lhe, caiu outra vez, descansou
e de novo se ergueu.
conhecem o resto da história: está melhor que nunca.
estrábico, quase sem dentes, mas recuperou a graça e aquele olhar
pícaro nunca o abandonou.
algumas vezes fazem-me entrevistas, querem saber
da minha vida, da minha literatura,
embriago-me, levanto nos braços o meu gato
estrábico, ferido com bala, atropelado duas vezes, rabão
e digo: "olhem, olhem isto!!!"eles não entendem nada, insisto, nada de nada, perguntam
algo como: "reconhece influências de Celine?""não", ergo o meu gato, "por causa do que acontece, coisas
como esta, como esta!!!"
sacudo o meu gato, levo-o
para a luz enevoada de fumo e álcool, está sereno, ele sabe...e nesse momento a entrevista termina.
às vezes sinto-me orgulhoso quando vejo as fotografias,
lá estou eu, lá está o meu gato, fomos
fotografados juntos,
também ele sabe que são ninharias, mas de algum modo ajudam-nos.
assustado,
era um gato branco estrábico rabão.
deixei-o entrar alimentei-o foi mais um em casa
deu-me a sua carinhosa confiança,
até que um dia um fulano,
estacionado na minha garagem,
passou com o automóvel por cima do gato estrábico rabão.
levei imediatamente o que dele restava a um veterinário que disse:
"não há muito a fazer... dê-lhe estes comprimidos... tem a espinha
partida, mas já antes foi partida e de algum modo
conseguiu sarar, se sobreviver não voltará a andar, olhe
estas radiografias, deram-lhe um tiro,
veja estes pontos escuros,
são chumbadas enquistadas... além disso já teve cauda
e alguém lha cortou...»
levei o gato para casa, era um verão quente um
dos mais quentes em décadas, pus o gato no chão do quarto de banho,
dei-lhe água, os comprimidos, não queria comer nem beber,
eu mergulhava o dedo em água, humedecia-lhe a boca
e falava com ele, nesse verão não saí, passei muitos dias
no quarto de banho falando com o gato, acariciando-o suavemente,
ele olhava-me com aqueles olhos que se cruzavam
e os dias passavam.
uma tarde fez o seu primeiro movimento
arrastando-se com as patas dianteiras
(as traseiras não queriam mover-se)chegou até ao canto onde lhe tinha preparado a cama
arrastou-se mais um pouco e deixou-se cair nela.
foi como o som de um clarim pressagiando a vitória possível,
ensurdecendo o quarto de banho, espalhando-se pela cidade.
então contei ao gato que também eu tinha passado um mau bocado, não tão mau como o dele,
mas bastante mau...
uma manhã ergueu-se, ficou imóvel sobre as patas e logo caiu de costas, olhava-me mansamente.
"és capaz" disse-lhe.
ele insistiu, levantava-se e tornava a cair, uma vez e outra,
finalmente
deu uns poucos passos, era a viva imagem de um bêbado as patas recusavam-se a obedecer-lhe, caiu outra vez, descansou
e de novo se ergueu.
conhecem o resto da história: está melhor que nunca.
estrábico, quase sem dentes, mas recuperou a graça e aquele olhar
pícaro nunca o abandonou.
algumas vezes fazem-me entrevistas, querem saber
da minha vida, da minha literatura,
embriago-me, levanto nos braços o meu gato
estrábico, ferido com bala, atropelado duas vezes, rabão
e digo: "olhem, olhem isto!!!"eles não entendem nada, insisto, nada de nada, perguntam
algo como: "reconhece influências de Celine?""não", ergo o meu gato, "por causa do que acontece, coisas
como esta, como esta!!!"
sacudo o meu gato, levo-o
para a luz enevoada de fumo e álcool, está sereno, ele sabe...e nesse momento a entrevista termina.
às vezes sinto-me orgulhoso quando vejo as fotografias,
lá estou eu, lá está o meu gato, fomos
fotografados juntos,
também ele sabe que são ninharias, mas de algum modo ajudam-nos.
Charles Bukowski
segunda-feira, fevereiro 5
A ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES
Devido a visões repetitivas do quotidiano, apercebi-me um dia destes de uma discriminação gigante no que toca ao fantástico mundo das animalidades.
Sendo assim, é um orgulho para mim referenciar tal constatação.
Desde puto que sei que os leões tiveram sempre pela frente as leoas, os cães as cadelas, os gatos as gatas, os macacos as macacas, por aí fora.
Desde sempre tive a noção de que por trás dum grande macho está uma grande fêmea ou vice-versa.
Mas um dia destes, enquanto caminhava pela rua com um olhar oblíquo-descendente, constatei que uma fêmea, mais da história da animalidade fantástica, do que do mundo selvagem comum, foi relegada para a inexistência, quando a sua própria existência escondida é tão óbvia quanto o facto do Abominável Homem das Neves ser uma criatura das montanhas, farto em pêlo e senhor de grunhidos selváticos.
Falo-vos pois, da fantástica, encantadora, da fabulosa ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES!
Depois de tal observação, foi notável e até surpreendente verificar que a ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES encontra-se já enraizada na nossa cultura dita ocidental.
Quem lê este isto deve estar a questionar:
«Mas afinal, de quê que fala este homem abominável que não das neves?»
Esta pergunta faria sentido não fosse eu explicar as razões destas minhas dilacções.
O que afirmo, o facto de vivermos cada vez mais rodeados de Abomináveis Mulheres das Neves, é apenas a constatação de quem olha para baixo.
Pergunto-vos agora:
Quantos de voçês nunca se depararam no autocarro, no metro, na rua, no café, no salão de bilhares, na baixa, no comboio, com aquelas criaturas patudas com imensos e fartos tufos de pêlo cravados à pele das partes inferiores das pernas?
Certamente que já sabem do que estou a falar!
Sim, essas mesmas!
O facto de existirem nas mais diversas tonalidades e formas, contrariamente ao pobre desgraçado macho grotesco de pêlo branco sujo que vive numa gruta húmida num monte longínquo e soturno, é uma consequência da adaptação biológica e veloz à vida citadina.
Estas fêmeas, que se desenvolvem fora do habitat natural há já bastante tempo, muito antes do tempo em que os relógios passaram a ser digitais, são agora, seres civilizados com hábitos prosaicos e perfeitamente adaptados à vida do dia-a-dia.
Sendo assim, é um orgulho para mim referenciar tal constatação.
Desde puto que sei que os leões tiveram sempre pela frente as leoas, os cães as cadelas, os gatos as gatas, os macacos as macacas, por aí fora.
Desde sempre tive a noção de que por trás dum grande macho está uma grande fêmea ou vice-versa.
Mas um dia destes, enquanto caminhava pela rua com um olhar oblíquo-descendente, constatei que uma fêmea, mais da história da animalidade fantástica, do que do mundo selvagem comum, foi relegada para a inexistência, quando a sua própria existência escondida é tão óbvia quanto o facto do Abominável Homem das Neves ser uma criatura das montanhas, farto em pêlo e senhor de grunhidos selváticos.
Falo-vos pois, da fantástica, encantadora, da fabulosa ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES!
Depois de tal observação, foi notável e até surpreendente verificar que a ABOMINÁVEL MULHER DAS NEVES encontra-se já enraizada na nossa cultura dita ocidental.
Quem lê este isto deve estar a questionar:
«Mas afinal, de quê que fala este homem abominável que não das neves?»
Esta pergunta faria sentido não fosse eu explicar as razões destas minhas dilacções.
O que afirmo, o facto de vivermos cada vez mais rodeados de Abomináveis Mulheres das Neves, é apenas a constatação de quem olha para baixo.
Pergunto-vos agora:
Quantos de voçês nunca se depararam no autocarro, no metro, na rua, no café, no salão de bilhares, na baixa, no comboio, com aquelas criaturas patudas com imensos e fartos tufos de pêlo cravados à pele das partes inferiores das pernas?
Certamente que já sabem do que estou a falar!
Sim, essas mesmas!
O facto de existirem nas mais diversas tonalidades e formas, contrariamente ao pobre desgraçado macho grotesco de pêlo branco sujo que vive numa gruta húmida num monte longínquo e soturno, é uma consequência da adaptação biológica e veloz à vida citadina.
Estas fêmeas, que se desenvolvem fora do habitat natural há já bastante tempo, muito antes do tempo em que os relógios passaram a ser digitais, são agora, seres civilizados com hábitos prosaicos e perfeitamente adaptados à vida do dia-a-dia.
segunda-feira, janeiro 29
A Morte
Decidi escrever uma estória. Uma estória de vida e de morte, de várias cores, de tons cinzentos e de felicidades ilusórias. Personagem ainda não tenho, não porque não tenha tido tempo para lhe dar uma forma e um sentido, mas porque dessa maneira tão prosaica não teria oportunidade de lhe dar um corpo pouco linear e um sentido notoriamente ousado e necessário à finalidade a que me proponho. Podia começar já pelo fim, ainda que não tenha as palavras encandeadas e ordenadas para um sentido final e mesmo sabendo que não posso recorrer a personagens dignas de ser absorvidas e fragmentadas, digo-vos que o personagem morreu num dia frio entre as quatro paredes brancas…
Proponho-me que escrevo sem ter uma noção do que leio ou do sentido em que caminho, sinto que não trago mais do que interrogações… Acabo de escrever e releio o que nunca tinha lido, um texto em que logo no início, o personagem único, e vago interveniente numa estória pouco linear, morre ou morreu numa tarde fria de Agosto em que a chuva ameaçava disparar.
Como morreu?
Será que morreu como personagem deste texto ou é alguém que existiu e serviu de base para um nome com hábitos e maneiras?
Poderia o personagem morrer num outro texto ou livro em que o corpo estremeceu enquanto a sua mão se apoiava sobre uma mesa castanha e fria?
Ou será que quem escreve isto é um confuso e desfasado assassino, que não sabe distinguir amor de ódio, que pensa um dia matar uma misteriosa e inspiradora pessoa, observando-a por diversas vezes para servir de fonte para uma personagem?
Todas estas minhas perguntas sem resposta poderiam seguir uma ordem e seriam sem margem nenhuma para dúvidas uma realidade plausível.
Por muito que tente e force os pontos, as linhas, as letras, as palavras e as frases a escorregar entre o limite dos meus dedos, ainda não consigo perceber porque terá morrido tão cedo este inquietante personagem, que não sei se era ou é novo; se ou vai morrer; justamente ou injustamente; se o meu conceito futuro de justo e injusto vai ser o mesmo que o de agora; ou somente se agora é hoje ou é ontem; ou se somente ontem existiu e isto não seja mais do que nunca…
Este personagem é ou foi, sem dúvida nenhuma, pelo que dá para perceber, um ser intemporal: a morte chegou ou chegará a si como a todos nós, mas não sabemos quando, nem sei onde…
Tudo começou no dia vinte e três daquele mês enquanto escrevia no teclado besuntando de melão as teclas sujas, na tentativa de perceber qual o sentido e a ordem a dar às palavras. Com uma perna alçada e a boca inquieta, tentava preencher o tempo de um vazio que mais cedo ou mais tarde tinha que chegar; o melão da sua terra deixava um aroma húmido e saboroso na boca, as palavras iam ganhando forma, aquele fragmento de vida corria-lhe bem…
Pequenos feixes de luz solar já trespassavam a persiana do seu quarto quadrangular e aconchegante. As horas tinham passado e o tempo era curto para acabar de escrever aquela importante carta; ao longe alguém esperava por uma frágil mas pesada folha de papel…
Com o cigarro pendendo-lhe dos lábios humedecidos e espessos, procurava impingir no branco uma sinceridade necessária e enternecedora, como se a sua vida e a dos outros dependesse daquilo que dissesse ou transmitisse. O fumo dissolvia-se, a ondulação e a sua dissolução davam a entender o desvanecer de tudo o que o rodeava. O galo berrava como um louco. O sol respirava sob a persiana agora aberta golfadas de uma forçada vontade abstracta.
Já de papo cheio vestia a sua roupa para dar início à odisseia de um dia trabalho. Os seus olhos pesavam, a noite depressa se tinha feito dia e a cama tinha ficado por desfazer. Enquanto punha o relógio, sete e cinquenta, percebeu que já era tarde, se não se pusesse a trote o transporte passar-lhe-ia ao lado.
Já de mochila às costas dava passos apressados para o destino que tardava em chegar, o ponteiro ia rolando e o atraso era inevitável. Lá chegou. A fila era grande, o ponteiro já tinha passado o do horário de passagem.
Era um dia de sol. Na paragem em dez pessoas, oito tinham os olhos escurecidos e tapados pelos óculos de sol, tudo lhes passava ao lado, excepto o autocarro pelo qual esperavam.
O barulho da cidade começava a ganhar corpo, o silêncio sonolento das pessoas era perceptível; o seu autocarro tardava a chegar.
Destinos e meios eram muitos, oitenta e nove, quinhentos e dez, quinhentos e doze e mais uns quantos destinos diferentes. A placa da paragem não deixava de maneira alguma enganar.
A viagem que tardava, tinha deixado na sua pessoa sintomas de uma sonolência ainda mais pesada, o barulho do autocarro e das pessoas semi-acordadas enquanto rolavam sem paradeiro pelo paralelo e alcatrão tinham deixado o seu cérebro cansado num estado de inércia mental absoluta.
Foi aí que o destino lhe deu a finalidade necessária…
Não sabia por onde começar, nunca até hoje tinha feito tal coisa, os fios eram para si nada mais nada menos que algo que sustenta dois lados opostos, como que uma ponte.
O armazém era grande e sujo e a manhã lá fora era ainda maior.
Meio atarantado tentava no balneário demonstrar que o trabalho por muito novidade que fosse não era difícil de fazer; o desconhecimento de causa levava-o a vestir a roupa limpa do trabalho como quem veste uns calções de praia numa calorosa tarde de verão em que a brisa húmida do vento ameniza o calor abrasador.
Apesar do sol, o sítio era frio e húmido, a roupa que tinha trazido de casa era insuficiente para aquecer o corpo.
Os seus companheiros de trabalho não eram muitos, eram apenas seis.
Com o tempo conseguiu perceber que embora a idade fosse um fosso entre a sua pessoa e os seus camaradas, o serviço não era mais do que uma união física e quase psicológica de mecanismos básicos impingidos; se errasse na sua parte, o desenvolvimento consequencial não surtia mais do que um efeito do estilo domino. Sendo assim, a idade e as diferentes personalidades não eram mais que uma necessidade secundária, ou terciária em relação ao objectivo principal de presença no local em que se encontrava.
(Mesmo sabendo-se que o trabalho ocupa em quase todas as pessoas activas no mínimo oito horas de um dia que tem vinte e quatro, em que no máximo oito delas estão em estado de repouso, os mecanismos de produção são a prioridade do dia-a-dia, o dinheiro tem que multiplicar para uma só pessoa ou para um restrito grupo de pessoas, enchendo assim, de uma maneira humanamente aceitável, a barriga a porcos e cleptomaníacos.)
As últimas palavras embora vomitem uma arrogância violenta e submissa, não são mais do que uma foto-realidade de um dia de trabalho por esse solo fora, sem fronteiras nem excepções. Pode-se pensar e até dizer que este campo produtivo é o pedestal das nossas sociedades contemporâneas, não digo o contrário, apenas posso incutir o seguinte: é sem dúvida nenhuma uma área do desenvolvimento humano que nos dá uma vida mais preenchida e versátil mas não se pode esquecer de tudo aquilo que vemos desfilar perante as nossas orbitas pseudo inocentes. A morte, as falsas necessidades, a preguiça mental, a ignorância vivencial, entre outras; já para não falar de tudo o que nos dão como quase obrigatório: a casa, o carro, a família, o animal de estimação, a segurança económica, entre outras; tudo isto e muito mais, dá forma à amalgama a que chamamos de vida, que cada vez mais e maquinalmente desfiguramos e aproximamos daquilo a que chamamos de morte. E esta morte de que vos falo, não sabendo se como pessoa que escreve, se como pessoa que morreu ou vai em tempos morrer como personagem desta história complexa e bizarra, não é mais que uma morte colectiva e supra abrangente de uma seita religiosa sem denominação aparente. A seita que tudo constrói \ destrói sem se preocupar com as consequências de um tempo que globalmente e ironicamente se quer harmonioso e a longo prazo.
Embora a seita na sua grande maioria apresente uma indumentária característica de ignorância e união de cariz religiosa quase inconsciente, dá para concluir que essa mesma inconsciência não se restringe à classe superior dominante e perceptível: tudo e todos nesta esfera achatada duma galáxia desconhecida, anseia de uma maneira muito peculiar, gananciosa e distraída a tão bem dita luz, que encerrará o fim dos nossos tempos…
Ao escrever sobre esta misteriosa pessoa que por aqui existe ou existiu preencho o meu tempo com letras, palavras e frases, como se este ser que não existe ou sequer existiu para lá das minhas mãos fosse tudo que tenho.
Pergunto-me o porquê de toda esta salada de fruta seca pelo quente sol que doura cada vez mais. Pergunto-me, e rapidamente descortino a resposta.
Proponho-me que escrevo sem ter uma noção do que leio ou do sentido em que caminho, sinto que não trago mais do que interrogações… Acabo de escrever e releio o que nunca tinha lido, um texto em que logo no início, o personagem único, e vago interveniente numa estória pouco linear, morre ou morreu numa tarde fria de Agosto em que a chuva ameaçava disparar.
Como morreu?
Será que morreu como personagem deste texto ou é alguém que existiu e serviu de base para um nome com hábitos e maneiras?
Poderia o personagem morrer num outro texto ou livro em que o corpo estremeceu enquanto a sua mão se apoiava sobre uma mesa castanha e fria?
Ou será que quem escreve isto é um confuso e desfasado assassino, que não sabe distinguir amor de ódio, que pensa um dia matar uma misteriosa e inspiradora pessoa, observando-a por diversas vezes para servir de fonte para uma personagem?
Todas estas minhas perguntas sem resposta poderiam seguir uma ordem e seriam sem margem nenhuma para dúvidas uma realidade plausível.
Por muito que tente e force os pontos, as linhas, as letras, as palavras e as frases a escorregar entre o limite dos meus dedos, ainda não consigo perceber porque terá morrido tão cedo este inquietante personagem, que não sei se era ou é novo; se ou vai morrer; justamente ou injustamente; se o meu conceito futuro de justo e injusto vai ser o mesmo que o de agora; ou somente se agora é hoje ou é ontem; ou se somente ontem existiu e isto não seja mais do que nunca…
Este personagem é ou foi, sem dúvida nenhuma, pelo que dá para perceber, um ser intemporal: a morte chegou ou chegará a si como a todos nós, mas não sabemos quando, nem sei onde…
Tudo começou no dia vinte e três daquele mês enquanto escrevia no teclado besuntando de melão as teclas sujas, na tentativa de perceber qual o sentido e a ordem a dar às palavras. Com uma perna alçada e a boca inquieta, tentava preencher o tempo de um vazio que mais cedo ou mais tarde tinha que chegar; o melão da sua terra deixava um aroma húmido e saboroso na boca, as palavras iam ganhando forma, aquele fragmento de vida corria-lhe bem…
Pequenos feixes de luz solar já trespassavam a persiana do seu quarto quadrangular e aconchegante. As horas tinham passado e o tempo era curto para acabar de escrever aquela importante carta; ao longe alguém esperava por uma frágil mas pesada folha de papel…
Com o cigarro pendendo-lhe dos lábios humedecidos e espessos, procurava impingir no branco uma sinceridade necessária e enternecedora, como se a sua vida e a dos outros dependesse daquilo que dissesse ou transmitisse. O fumo dissolvia-se, a ondulação e a sua dissolução davam a entender o desvanecer de tudo o que o rodeava. O galo berrava como um louco. O sol respirava sob a persiana agora aberta golfadas de uma forçada vontade abstracta.
Já de papo cheio vestia a sua roupa para dar início à odisseia de um dia trabalho. Os seus olhos pesavam, a noite depressa se tinha feito dia e a cama tinha ficado por desfazer. Enquanto punha o relógio, sete e cinquenta, percebeu que já era tarde, se não se pusesse a trote o transporte passar-lhe-ia ao lado.
Já de mochila às costas dava passos apressados para o destino que tardava em chegar, o ponteiro ia rolando e o atraso era inevitável. Lá chegou. A fila era grande, o ponteiro já tinha passado o do horário de passagem.
Era um dia de sol. Na paragem em dez pessoas, oito tinham os olhos escurecidos e tapados pelos óculos de sol, tudo lhes passava ao lado, excepto o autocarro pelo qual esperavam.
O barulho da cidade começava a ganhar corpo, o silêncio sonolento das pessoas era perceptível; o seu autocarro tardava a chegar.
Destinos e meios eram muitos, oitenta e nove, quinhentos e dez, quinhentos e doze e mais uns quantos destinos diferentes. A placa da paragem não deixava de maneira alguma enganar.
A viagem que tardava, tinha deixado na sua pessoa sintomas de uma sonolência ainda mais pesada, o barulho do autocarro e das pessoas semi-acordadas enquanto rolavam sem paradeiro pelo paralelo e alcatrão tinham deixado o seu cérebro cansado num estado de inércia mental absoluta.
Foi aí que o destino lhe deu a finalidade necessária…
Não sabia por onde começar, nunca até hoje tinha feito tal coisa, os fios eram para si nada mais nada menos que algo que sustenta dois lados opostos, como que uma ponte.
O armazém era grande e sujo e a manhã lá fora era ainda maior.
Meio atarantado tentava no balneário demonstrar que o trabalho por muito novidade que fosse não era difícil de fazer; o desconhecimento de causa levava-o a vestir a roupa limpa do trabalho como quem veste uns calções de praia numa calorosa tarde de verão em que a brisa húmida do vento ameniza o calor abrasador.
Apesar do sol, o sítio era frio e húmido, a roupa que tinha trazido de casa era insuficiente para aquecer o corpo.
Os seus companheiros de trabalho não eram muitos, eram apenas seis.
Com o tempo conseguiu perceber que embora a idade fosse um fosso entre a sua pessoa e os seus camaradas, o serviço não era mais do que uma união física e quase psicológica de mecanismos básicos impingidos; se errasse na sua parte, o desenvolvimento consequencial não surtia mais do que um efeito do estilo domino. Sendo assim, a idade e as diferentes personalidades não eram mais que uma necessidade secundária, ou terciária em relação ao objectivo principal de presença no local em que se encontrava.
(Mesmo sabendo-se que o trabalho ocupa em quase todas as pessoas activas no mínimo oito horas de um dia que tem vinte e quatro, em que no máximo oito delas estão em estado de repouso, os mecanismos de produção são a prioridade do dia-a-dia, o dinheiro tem que multiplicar para uma só pessoa ou para um restrito grupo de pessoas, enchendo assim, de uma maneira humanamente aceitável, a barriga a porcos e cleptomaníacos.)
As últimas palavras embora vomitem uma arrogância violenta e submissa, não são mais do que uma foto-realidade de um dia de trabalho por esse solo fora, sem fronteiras nem excepções. Pode-se pensar e até dizer que este campo produtivo é o pedestal das nossas sociedades contemporâneas, não digo o contrário, apenas posso incutir o seguinte: é sem dúvida nenhuma uma área do desenvolvimento humano que nos dá uma vida mais preenchida e versátil mas não se pode esquecer de tudo aquilo que vemos desfilar perante as nossas orbitas pseudo inocentes. A morte, as falsas necessidades, a preguiça mental, a ignorância vivencial, entre outras; já para não falar de tudo o que nos dão como quase obrigatório: a casa, o carro, a família, o animal de estimação, a segurança económica, entre outras; tudo isto e muito mais, dá forma à amalgama a que chamamos de vida, que cada vez mais e maquinalmente desfiguramos e aproximamos daquilo a que chamamos de morte. E esta morte de que vos falo, não sabendo se como pessoa que escreve, se como pessoa que morreu ou vai em tempos morrer como personagem desta história complexa e bizarra, não é mais que uma morte colectiva e supra abrangente de uma seita religiosa sem denominação aparente. A seita que tudo constrói \ destrói sem se preocupar com as consequências de um tempo que globalmente e ironicamente se quer harmonioso e a longo prazo.
Embora a seita na sua grande maioria apresente uma indumentária característica de ignorância e união de cariz religiosa quase inconsciente, dá para concluir que essa mesma inconsciência não se restringe à classe superior dominante e perceptível: tudo e todos nesta esfera achatada duma galáxia desconhecida, anseia de uma maneira muito peculiar, gananciosa e distraída a tão bem dita luz, que encerrará o fim dos nossos tempos…
Ao escrever sobre esta misteriosa pessoa que por aqui existe ou existiu preencho o meu tempo com letras, palavras e frases, como se este ser que não existe ou sequer existiu para lá das minhas mãos fosse tudo que tenho.
Pergunto-me o porquê de toda esta salada de fruta seca pelo quente sol que doura cada vez mais. Pergunto-me, e rapidamente descortino a resposta.
terça-feira, janeiro 23
Arrependimento
O arrependimento é um sentimento muito duro que no entanto possui a sua beleza. É um sentimento de impotência que nos tira a força para voltar atrás, mas no entanto, é um sentimento de pujança que nos faz dar mais sentido à palavra aprendizagem.
Por vezes, agimos prematuramente, esquecemo-nos que a irreflexão nos pode levar ao tal arrependimento de que falo; por outro lado, às vezes, a interpretação das nossas atitudes é tomada como um dado adquirido, e assim, duma maneira e doutra, não se consegue dar o devido valor às situações.
Agora que penso, já fui tantas vezes precipitado como tantas vezes fui mal interpretado. Em nenhuma dessas ocasiões, senti que tivesse ganho algo com isso.
Ao ser precipitado, ganhei por um lado a tal aprendizagem, mas acabei por perder a oportunidade de ser bem interpretado.
Ao ser mal interpretado, aconteceu quase o mesmo, aprendi que posso ser mal interpretado, mas perdi a oportunidade de ser precipitado e encontrar razões para tal interpretação.
E agora que fui precipitado, e dei razões para consequentemente ser mal interpretado, sinto que nada ganhei na mesma!
Apenas ganhei na boca o sabor de perda provocado pelo arrependimento.
Por vezes, agimos prematuramente, esquecemo-nos que a irreflexão nos pode levar ao tal arrependimento de que falo; por outro lado, às vezes, a interpretação das nossas atitudes é tomada como um dado adquirido, e assim, duma maneira e doutra, não se consegue dar o devido valor às situações.
Agora que penso, já fui tantas vezes precipitado como tantas vezes fui mal interpretado. Em nenhuma dessas ocasiões, senti que tivesse ganho algo com isso.
Ao ser precipitado, ganhei por um lado a tal aprendizagem, mas acabei por perder a oportunidade de ser bem interpretado.
Ao ser mal interpretado, aconteceu quase o mesmo, aprendi que posso ser mal interpretado, mas perdi a oportunidade de ser precipitado e encontrar razões para tal interpretação.
E agora que fui precipitado, e dei razões para consequentemente ser mal interpretado, sinto que nada ganhei na mesma!
Apenas ganhei na boca o sabor de perda provocado pelo arrependimento.
domingo, janeiro 21
A CONSTATAÇÃO DE QUE A IDEIA GENERALIZADA QUE SE TEM DE ANARQUIA SERVE APENAS PARA DEFINIR OS TEMPOS EM QUE VIVEMOS

Andava eu por aqui a pesquisar acerca duma das grandes falácias dos conceitos modernos e eis que me deparo com uma pérola escrita de um senhor que desconhecia até ao momento que antecede a escrita desta posta.
ANARQUIA.
Embora já tivesse vagamente a ideia correcta, consegui através desta pesquisa frutuosa ter uma visão mais realista e fundamentada acerca deste vasto sistema revolucionário-ideológico. Nesta pequena-grande janela para o conhecimento a que chamamos de laptop, ou mais correctamente ecrã de computador, descobri entre os muitos personagens que compõe o passado histórico do anarquismo - que infelizmente hoje em dia não ganha forma nesta sociedade consumista que vai ardendo através da chama do hábito queimado pelos anos de destruição e abolição da liberdade fundamental ao desenvolvimento pessoal e vivencial do ser humano - um senhor, ou melhor um grande senhor, um gigante e inconformado senhor de nome Errico Malatesta. Este vulto quase apagado da história mediática, foi um insurrecto por natureza que lutou para “assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar”. Não me querendo alongar muito, na ânsia de expor aqui a pérola de que vos falo, deixo então aqui neste meu espaço, que vendo bem é de todos, um pequeno texto que escreveu e que me tocou bastante no que toca à minha interpretação de alguns aspectos que compõe a sociedade contemporânea.
ANARQUIA.
Embora já tivesse vagamente a ideia correcta, consegui através desta pesquisa frutuosa ter uma visão mais realista e fundamentada acerca deste vasto sistema revolucionário-ideológico. Nesta pequena-grande janela para o conhecimento a que chamamos de laptop, ou mais correctamente ecrã de computador, descobri entre os muitos personagens que compõe o passado histórico do anarquismo - que infelizmente hoje em dia não ganha forma nesta sociedade consumista que vai ardendo através da chama do hábito queimado pelos anos de destruição e abolição da liberdade fundamental ao desenvolvimento pessoal e vivencial do ser humano - um senhor, ou melhor um grande senhor, um gigante e inconformado senhor de nome Errico Malatesta. Este vulto quase apagado da história mediática, foi um insurrecto por natureza que lutou para “assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar”. Não me querendo alongar muito, na ânsia de expor aqui a pérola de que vos falo, deixo então aqui neste meu espaço, que vendo bem é de todos, um pequeno texto que escreveu e que me tocou bastante no que toca à minha interpretação de alguns aspectos que compõe a sociedade contemporânea.
“CAPITALISTAS E LADRÕES”
“A propósito das tragédias de Houndsditch e Sidney Street numa ruela da City, ocorre uma tentativa de assalto a uma joalharia; os ladrões, surpreendidos pela polícia, fogem abrindo caminho aos tiros. Mais tarde, dois dos ladrões, descobertos numa casa de East-End defendem-se uma vez mais com tiros, e morrem no tiroteio. No fundo, nada de extraordinário em tudo isto, na sociedade actual, excepto a energia excepcional com que os ladrões se defenderam.
Mas esses ladrões eram russos, talvez refugiados russos; e é também possível que tenham frequentado um clube anarquista nos dias de reunião pública, quando ele está aberto a todos. Sem dúvida, a imprensa capitalista serve-se, uma vez mais, deste caso para atacar os anarquistas. Ao ler os jornais burgueses, dir-se-ia que a anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens, nada mais é senão roubo e assassinato. Com tais mentiras e calúnias, conseguem, com certeza, afastar de nós, muitos daqueles que estariam connosco se ao menos soubessem o que queremos. Não é inútil repetir, portanto, qual é nossa atitude de anarquistas em relação à teoria e à prática do roubo. Um dos pontos fundamentais do anarquismo é a abolição do monopólio da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, e, consequentemente, a abolição da exploração do trabalho alheio exercida pelos detentores dos meios de produção. Toda apropriação do trabalho alheio, tudo o que serve a um homem para viver sem dar à sociedade a sua contribuição à produção, é um roubo, do ponto de vista anarquista e socialista. Os proprietários, os capitalistas, roubaram do povo, pela fraude ou pela violência, a terra e todos os meios de produção, e como consequência deste roubo inicial podem subtrair dos trabalhadores, a cada dia, o produto de seu trabalho. Mas esses ladrões afortunados tornaram-se fortes, fizeram leis para legitimar sua situação, e organizaram todo um sistema de repressão para se defender, tanto das reivindicações dos trabalhadores como daqueles que querem substituí-los, agindo como eles próprios agiram. E agora o roubo desses senhores chama-se propriedade, comércio, indústria, etc; o nome de ladrões é reservado, todavia, na linguagem usual, àqueles que gostariam de seguir o exemplo dos capitalistas, mas que, tendo chegado muito tarde e em circunstâncias desfavoráveis, só podem fazê-lo revoltando-se contra a lei. Entretanto, a diferença de nomes empregados ordinariamente não basta para apagar a identidade moral e social das duas situações. O capitalista é um ladrão cujo sucesso se deve a seu mérito ou a de seus ascendentes; o ladrão é um aspirante a capitalista que só espera a oportunidade para sê-lo na realidade, para viver, sem trabalhar, do produto de seu roubo, isto é, do trabalho alheio. Inimigos dos capitalistas, não podemos ter simpatia pelo ladrão que visa tornar-se capitalista. Partidários da expropriação feita pelo povo em proveito de todos, não podemos, enquanto anarquistas, ter nada em comum com uma operação que consiste unicamente em fazer passar a riqueza das mãos de um proprietário para as de outro. Obviamente, refiro-me ao ladrão profissional, àquele que não quer trabalhar e procura os meios para poder viver como parasita do trabalho alheio. É bem diferente o caso de um homem ao qual a sociedade recusa meios de trabalhar e que rouba para não morrer de fome e não deixa morrer de fome seus filhos. Neste caso, o roubo (se é que se pode denominá-lo assim) é uma revolta contra a injustiça social, e pode tornar-se o mais imperioso dos deveres. Mas a imprensa capitalista evita falar desses casos, pois deveria, ao mesmo tempo, atacar a ordem social que tem por missão defender. Com certeza, o ladrão profissional é, ele também, uma vítima do meio social. O exemplo que vem de cima, a educação recebida, as condições repugnantes nas quais se é, amiúde, obrigado a trabalhar, explicam facilmente como é que homens, que não são moralmente superiores a seus contemporâneos, colocados na alternativa de serem explorados ou exploradores, preferem ser exploradores e encarregam-se de consegui-lo pelos meios de que são capazes. Todavia, essas circunstâncias atenuantes podem também se aplicar aos capitalistas, e esta é a melhor prova da identidade das duas profissões. As ideias anarquistas não podem, em consequência, levar os indivíduos a tornarem-se capitalistas assim como não pode levá-los a serem ladrões. Ao contrário, dando aos descontentes uma ideia de vida superior e esperança de emancipação colectiva, elas desviam-nos, na medida do possível, tendo em vista o meio actual, de todas essas acções legais ou ilegais, que representam apenas adaptação ao sistema capitalista, e tendem a perpetuá-lo. Apesar de tudo isso, o meio social é tão poderoso e os temperamentos pessoais tão diferentes, que bem pode existir entre os anarquistas alguns que se tornem ladrões, como há os que se tornam comerciantes ou industriais; mas, neste caso, uns e outros agem, assim, não por causa, mas a despeito das ideias anarquistas.”
Errico Malatesta (Março de 1911)
Mas esses ladrões eram russos, talvez refugiados russos; e é também possível que tenham frequentado um clube anarquista nos dias de reunião pública, quando ele está aberto a todos. Sem dúvida, a imprensa capitalista serve-se, uma vez mais, deste caso para atacar os anarquistas. Ao ler os jornais burgueses, dir-se-ia que a anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens, nada mais é senão roubo e assassinato. Com tais mentiras e calúnias, conseguem, com certeza, afastar de nós, muitos daqueles que estariam connosco se ao menos soubessem o que queremos. Não é inútil repetir, portanto, qual é nossa atitude de anarquistas em relação à teoria e à prática do roubo. Um dos pontos fundamentais do anarquismo é a abolição do monopólio da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, e, consequentemente, a abolição da exploração do trabalho alheio exercida pelos detentores dos meios de produção. Toda apropriação do trabalho alheio, tudo o que serve a um homem para viver sem dar à sociedade a sua contribuição à produção, é um roubo, do ponto de vista anarquista e socialista. Os proprietários, os capitalistas, roubaram do povo, pela fraude ou pela violência, a terra e todos os meios de produção, e como consequência deste roubo inicial podem subtrair dos trabalhadores, a cada dia, o produto de seu trabalho. Mas esses ladrões afortunados tornaram-se fortes, fizeram leis para legitimar sua situação, e organizaram todo um sistema de repressão para se defender, tanto das reivindicações dos trabalhadores como daqueles que querem substituí-los, agindo como eles próprios agiram. E agora o roubo desses senhores chama-se propriedade, comércio, indústria, etc; o nome de ladrões é reservado, todavia, na linguagem usual, àqueles que gostariam de seguir o exemplo dos capitalistas, mas que, tendo chegado muito tarde e em circunstâncias desfavoráveis, só podem fazê-lo revoltando-se contra a lei. Entretanto, a diferença de nomes empregados ordinariamente não basta para apagar a identidade moral e social das duas situações. O capitalista é um ladrão cujo sucesso se deve a seu mérito ou a de seus ascendentes; o ladrão é um aspirante a capitalista que só espera a oportunidade para sê-lo na realidade, para viver, sem trabalhar, do produto de seu roubo, isto é, do trabalho alheio. Inimigos dos capitalistas, não podemos ter simpatia pelo ladrão que visa tornar-se capitalista. Partidários da expropriação feita pelo povo em proveito de todos, não podemos, enquanto anarquistas, ter nada em comum com uma operação que consiste unicamente em fazer passar a riqueza das mãos de um proprietário para as de outro. Obviamente, refiro-me ao ladrão profissional, àquele que não quer trabalhar e procura os meios para poder viver como parasita do trabalho alheio. É bem diferente o caso de um homem ao qual a sociedade recusa meios de trabalhar e que rouba para não morrer de fome e não deixa morrer de fome seus filhos. Neste caso, o roubo (se é que se pode denominá-lo assim) é uma revolta contra a injustiça social, e pode tornar-se o mais imperioso dos deveres. Mas a imprensa capitalista evita falar desses casos, pois deveria, ao mesmo tempo, atacar a ordem social que tem por missão defender. Com certeza, o ladrão profissional é, ele também, uma vítima do meio social. O exemplo que vem de cima, a educação recebida, as condições repugnantes nas quais se é, amiúde, obrigado a trabalhar, explicam facilmente como é que homens, que não são moralmente superiores a seus contemporâneos, colocados na alternativa de serem explorados ou exploradores, preferem ser exploradores e encarregam-se de consegui-lo pelos meios de que são capazes. Todavia, essas circunstâncias atenuantes podem também se aplicar aos capitalistas, e esta é a melhor prova da identidade das duas profissões. As ideias anarquistas não podem, em consequência, levar os indivíduos a tornarem-se capitalistas assim como não pode levá-los a serem ladrões. Ao contrário, dando aos descontentes uma ideia de vida superior e esperança de emancipação colectiva, elas desviam-nos, na medida do possível, tendo em vista o meio actual, de todas essas acções legais ou ilegais, que representam apenas adaptação ao sistema capitalista, e tendem a perpetuá-lo. Apesar de tudo isso, o meio social é tão poderoso e os temperamentos pessoais tão diferentes, que bem pode existir entre os anarquistas alguns que se tornem ladrões, como há os que se tornam comerciantes ou industriais; mas, neste caso, uns e outros agem, assim, não por causa, mas a despeito das ideias anarquistas.”
Errico Malatesta (Março de 1911)
quarta-feira, janeiro 17
QUE FORÇA É ESSA
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro
Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compreendes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compreendes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
SÉRGIO GODINHO
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro
Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compreendes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compreendes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
SÉRGIO GODINHO
terça-feira, janeiro 9
Poema Non-sense (exploração patafísica)
A verdade ecoa numa concavidade de luz que reluz na parede de cimento contado.
Na liberdade do céu vejo um peixe sem escamas que voa para um céu que não o do limite esponjoso.
«Olho o chão que se deixa ficar para trás entre secretárias e colunas duma comunicabilidade silenciosa.
Procuro o cerne num pedaço de metal frio que explode suavemente nas minhas mãos.
-E a cadeira, para que me senta?
Talvez me sente porque nas mãos tenho uma vara-que-não-vara que me serve para afagar.
Talvez porque uma foto de papel de seda me deixa sequioso e impaciente.
Talvez porque a mente nos meandros da rocha não saiba que o gato já passou há bastante tempo.
-Um miar ladrou bem alto no espaço sólido duma noite radiosa de Inverno.»
Algures pela concha encontrei uma maçã.
E nessa saliência de cavaleiro do presente vi um olhar!
O brilho era baço e de cavalo!
O ponto era negro e reluzente como a luz dum farol apagado.
«As coisas que se dizem quando tudo não se quer dizer sem regras nem sentido!»
Caminhar verde de crista de lua que se espanta com um cão radioso.
Passo preso com bolinhas espalmadas de cor acolchoada.
Quadrados quentes mediatizados pelo querer da tarde vagarosa como um carro de auto-estrada!
Fio de corda solta numa manhã espacial como a postura!
Voz de botão de tecto que traz consigo o cabide ancestral.
Textura ajudada pelo pêlo dum orangotango citadino.
Música pendurada nas paredes duma imaterialidade física.
Complexidade duma casa com as postas dos dedos enclausuradas pelas composturas descosidas.
«Pergunto ao chão quantas vezes comeu a sopa hoje.
Automatizo a maneabilidade da inserção formatada.
Ajudo a demência a ganhar forma na roupa de cama que visto no tronco de manga.
Contabilizo a sombra e constato que afinal o cão ainda não passou.
Era afinal uma caneta de cheiro a laranja que voltava da sua odisseia por um garfo sem dentes!
-E a faca? Falta a faca!»
Faca do sonho duma laranjeira despida de massas!
Colchão duro como a polpa dum balão térreo.
Ar constrangido pela sobreposição do paragrafo que só existe na sua imprópria inexistência.
Persiana solar que se queda nas despropositada interacção dos telhados subterrâneos.
Deambular quieto da linha obliqua duma horizontalidade do passado.
Símbolo transparente que se arrasta tardiamente sobre a folha duma estrada ainda verde.
Enquadramento de inquilino que se pendura num chinelo de cozinha.
«Procuro a almofada! Não quero nada mais que não seja casaco de fecho Napoleão.»
Cabala de tecla roxa como o morango.
Cinzeiro limpo por um rectângulo sem ângulos.
Limpeza da ombreira numa casa que se encontra num monte de penas para o ar.
Lata trilhada por uma pluma feita de arame constrangido.
«Onde andas? Já dei voltas e mais voltas e nunca mais te desencontrava!»
Cores tardias que ecoam pela massa saturada pelo ar!
Letras riscadas por um marcador deliciado pelo agir da espuma francesa!
Demência concêntrica.
Espirais espiraladas pelos poros duma boca fechada.
Libertinagem maquinal que vai flutuando pesada pelas paredes arredondadas como um plano perfeito.
Tomada de pose perante o caminho dum beco com saída.
Mentira conspurcada pelo homem-guerra que voa como um pássaro sem barbatanas.
Jogo de coisas e não-coisas na imensa clausura duma farinha amarelada pelo não passar da mota do Pé Raso.
Desnivelamento perante um camafeu cor de braço oscilante.
Dezasseis.
Vinte e quatro.
Oito milhões quatrocentos e vinte oito mil cento e setenta e um!
Quatrocentos biliões cinquenta e sete milhões trezentos e vinte sete mil e uma miríades ululantes!
«Números, apenas números!»
Uma.
Cinco.
Nove idades!
«Sinceramente ainda não sei ao certo…
Ainda não me disseram.
Isso para mim são apenas nove idades sem ligação passível!»
Colaboração descolorada pela água dum nariz de carteira de bolso.
Impressão contida na impossibilidade de dar azo às tentativas furtadas por um ladrão inocente como a madeira.
Raízes sem fumo.
«Fumo sem raízes!»
Raízes fumo sem.
«Sem raízes fumo»
Sem fumo raízes!
Colibris sem cabeça de alfinete.
Alfinetes sem colibris de cabeça.
Cabeça sem alfinete de colibris.
De colibris sem alfinete cabeça.
Colibris sem alfinete de cabeça.
Sem alfinete de cabeça colibris!
«Trocas e baldrocas!»
De!
Sem!
Colibris!
Cabeça!
Sem!
Cabeça!
De!
Colibris!
Sem colibris!
De cabeça!
Sem cabeça!
Colibris cabeça!
«Mando-me de cabeça sem colibris à mistura!»
Era uma vez.
Mas também foi duas vezes!
Em tempos!
«Mando-me de colibris com uma cabeça à mistura!»
Foi em tempos.
Mas ainda é!
Um homem sem rumo-alienado.
Um sentido não sentido.
Uma broca sem diamante num manto que não o cobria!
De amante restava-lhe o socado ventríloquo de alarido constante.
Coloquial levitado pela barata alargada do confuso buraco de ardina.
Exploração do sítio onde as larvas do bicho-da-seda faziam o seu pinho.
«Foi num pinhal abençoado, as escadas estavam lá e eu vi-as, estavam por baixo dos degraus!»
Preto e branco ressoado pelo respirar dum pé!
Laranja e melancia cortadas por inteiro.
Frutaria duma esquina sem homens por certo.
Longevidade intima complicada pela razão.
Substância detalhada na beira dum centro sem bordas.
«Quero o fim! Onde anda o fim?!»
Um fim sem fim que se encontre na finalidade de findar.
Umfimsemfimqueseencontrenafinalidadedefindar!
Uma colagem sem cola que sustenha o rumo das palavras que não são.
Uma cola sem colagem que sustenha as palavras que não são apenas as que escrevi.
Uma inglesa escrita pelo canto dum tenor indiano!
Ladear a escrita para inserir na parte de forra uma essência quase aquecida.
Explorar para expor a experimentação explicativa exprimida pela explosão expugnável.
«O cigarro que bafejo apagado vai ardendo através da inspiração ordenada pelos cantos das ninfas do Beijo.»
Ojieb od safnin sad sotnac solep adanedro oãçaripsni ad sèvarta odnedra iav odagapa ojefab euq orragic o.
«No fundo do cume das coisas era apenas isto que tinha para dizer!»
Na liberdade do céu vejo um peixe sem escamas que voa para um céu que não o do limite esponjoso.
«Olho o chão que se deixa ficar para trás entre secretárias e colunas duma comunicabilidade silenciosa.
Procuro o cerne num pedaço de metal frio que explode suavemente nas minhas mãos.
-E a cadeira, para que me senta?
Talvez me sente porque nas mãos tenho uma vara-que-não-vara que me serve para afagar.
Talvez porque uma foto de papel de seda me deixa sequioso e impaciente.
Talvez porque a mente nos meandros da rocha não saiba que o gato já passou há bastante tempo.
-Um miar ladrou bem alto no espaço sólido duma noite radiosa de Inverno.»
Algures pela concha encontrei uma maçã.
E nessa saliência de cavaleiro do presente vi um olhar!
O brilho era baço e de cavalo!
O ponto era negro e reluzente como a luz dum farol apagado.
«As coisas que se dizem quando tudo não se quer dizer sem regras nem sentido!»
Caminhar verde de crista de lua que se espanta com um cão radioso.
Passo preso com bolinhas espalmadas de cor acolchoada.
Quadrados quentes mediatizados pelo querer da tarde vagarosa como um carro de auto-estrada!
Fio de corda solta numa manhã espacial como a postura!
Voz de botão de tecto que traz consigo o cabide ancestral.
Textura ajudada pelo pêlo dum orangotango citadino.
Música pendurada nas paredes duma imaterialidade física.
Complexidade duma casa com as postas dos dedos enclausuradas pelas composturas descosidas.
«Pergunto ao chão quantas vezes comeu a sopa hoje.
Automatizo a maneabilidade da inserção formatada.
Ajudo a demência a ganhar forma na roupa de cama que visto no tronco de manga.
Contabilizo a sombra e constato que afinal o cão ainda não passou.
Era afinal uma caneta de cheiro a laranja que voltava da sua odisseia por um garfo sem dentes!
-E a faca? Falta a faca!»
Faca do sonho duma laranjeira despida de massas!
Colchão duro como a polpa dum balão térreo.
Ar constrangido pela sobreposição do paragrafo que só existe na sua imprópria inexistência.
Persiana solar que se queda nas despropositada interacção dos telhados subterrâneos.
Deambular quieto da linha obliqua duma horizontalidade do passado.
Símbolo transparente que se arrasta tardiamente sobre a folha duma estrada ainda verde.
Enquadramento de inquilino que se pendura num chinelo de cozinha.
«Procuro a almofada! Não quero nada mais que não seja casaco de fecho Napoleão.»
Cabala de tecla roxa como o morango.
Cinzeiro limpo por um rectângulo sem ângulos.
Limpeza da ombreira numa casa que se encontra num monte de penas para o ar.
Lata trilhada por uma pluma feita de arame constrangido.
«Onde andas? Já dei voltas e mais voltas e nunca mais te desencontrava!»
Cores tardias que ecoam pela massa saturada pelo ar!
Letras riscadas por um marcador deliciado pelo agir da espuma francesa!
Demência concêntrica.
Espirais espiraladas pelos poros duma boca fechada.
Libertinagem maquinal que vai flutuando pesada pelas paredes arredondadas como um plano perfeito.
Tomada de pose perante o caminho dum beco com saída.
Mentira conspurcada pelo homem-guerra que voa como um pássaro sem barbatanas.
Jogo de coisas e não-coisas na imensa clausura duma farinha amarelada pelo não passar da mota do Pé Raso.
Desnivelamento perante um camafeu cor de braço oscilante.
Dezasseis.
Vinte e quatro.
Oito milhões quatrocentos e vinte oito mil cento e setenta e um!
Quatrocentos biliões cinquenta e sete milhões trezentos e vinte sete mil e uma miríades ululantes!
«Números, apenas números!»
Uma.
Cinco.
Nove idades!
«Sinceramente ainda não sei ao certo…
Ainda não me disseram.
Isso para mim são apenas nove idades sem ligação passível!»
Colaboração descolorada pela água dum nariz de carteira de bolso.
Impressão contida na impossibilidade de dar azo às tentativas furtadas por um ladrão inocente como a madeira.
Raízes sem fumo.
«Fumo sem raízes!»
Raízes fumo sem.
«Sem raízes fumo»
Sem fumo raízes!
Colibris sem cabeça de alfinete.
Alfinetes sem colibris de cabeça.
Cabeça sem alfinete de colibris.
De colibris sem alfinete cabeça.
Colibris sem alfinete de cabeça.
Sem alfinete de cabeça colibris!
«Trocas e baldrocas!»
De!
Sem!
Colibris!
Cabeça!
Sem!
Cabeça!
De!
Colibris!
Sem colibris!
De cabeça!
Sem cabeça!
Colibris cabeça!
«Mando-me de cabeça sem colibris à mistura!»
Era uma vez.
Mas também foi duas vezes!
Em tempos!
«Mando-me de colibris com uma cabeça à mistura!»
Foi em tempos.
Mas ainda é!
Um homem sem rumo-alienado.
Um sentido não sentido.
Uma broca sem diamante num manto que não o cobria!
De amante restava-lhe o socado ventríloquo de alarido constante.
Coloquial levitado pela barata alargada do confuso buraco de ardina.
Exploração do sítio onde as larvas do bicho-da-seda faziam o seu pinho.
«Foi num pinhal abençoado, as escadas estavam lá e eu vi-as, estavam por baixo dos degraus!»
Preto e branco ressoado pelo respirar dum pé!
Laranja e melancia cortadas por inteiro.
Frutaria duma esquina sem homens por certo.
Longevidade intima complicada pela razão.
Substância detalhada na beira dum centro sem bordas.
«Quero o fim! Onde anda o fim?!»
Um fim sem fim que se encontre na finalidade de findar.
Umfimsemfimqueseencontrenafinalidadedefindar!
Uma colagem sem cola que sustenha o rumo das palavras que não são.
Uma cola sem colagem que sustenha as palavras que não são apenas as que escrevi.
Uma inglesa escrita pelo canto dum tenor indiano!
Ladear a escrita para inserir na parte de forra uma essência quase aquecida.
Explorar para expor a experimentação explicativa exprimida pela explosão expugnável.
«O cigarro que bafejo apagado vai ardendo através da inspiração ordenada pelos cantos das ninfas do Beijo.»
Ojieb od safnin sad sotnac solep adanedro oãçaripsni ad sèvarta odnedra iav odagapa ojefab euq orragic o.
«No fundo do cume das coisas era apenas isto que tinha para dizer!»
quinta-feira, janeiro 4
Políticos
Desenham num néon colorido
Um arco-íris para as nossas vidas,
A laranja uma vontade económica
A rosa uma suposta vontade
A vermelho uma necessidade
A azul uma minoria
Exploram a imagem, as pessoas
A ignorância e a ilusória inteligência
As nossas vidas e o nosso tempo
Como quem masca uma chicla sem sabor.
Embrulham como tornados o dinheiro,
As falsidades, as despropositadas necessidades
Embalam e revoltam no silêncio
O cérebro cinzento a ressacar
Por um símbolo que nos há-de salvar
De gravata e camisa camelada
Desdobram-se em argumentos complexos
Despropositados,
Em palavras atulhadas e confusas
Em frases sem objectivo nem propósito necessário
Arrastam-nos sem que consigamos ter força
Sem que consigamos fazer valer o que nos magoa
Em casa, no seu guarda-fatos
Os factos vão-se acumulando
Sem que se verga o ferro frio que os sustenta
Como se os fatos ásperos não pesassem
E valessem mais os fracos argumentos!
Um arco-íris para as nossas vidas,
A laranja uma vontade económica
A rosa uma suposta vontade
A vermelho uma necessidade
A azul uma minoria
Exploram a imagem, as pessoas
A ignorância e a ilusória inteligência
As nossas vidas e o nosso tempo
Como quem masca uma chicla sem sabor.
Embrulham como tornados o dinheiro,
As falsidades, as despropositadas necessidades
Embalam e revoltam no silêncio
O cérebro cinzento a ressacar
Por um símbolo que nos há-de salvar
De gravata e camisa camelada
Desdobram-se em argumentos complexos
Despropositados,
Em palavras atulhadas e confusas
Em frases sem objectivo nem propósito necessário
Arrastam-nos sem que consigamos ter força
Sem que consigamos fazer valer o que nos magoa
Em casa, no seu guarda-fatos
Os factos vão-se acumulando
Sem que se verga o ferro frio que os sustenta
Como se os fatos ásperos não pesassem
E valessem mais os fracos argumentos!
DOWNTOWN TRAIN
Outside another yellow moon
punched a hole in the nighttime, yes
I climb through the window and down the street
shining like a new dime
the downtown trains are full with all those Brooklyn girls
they try so hard to break out of their little worlds
You wave your hand and they scatter like crows
they have nothing that will ever capture your heart
theyr'e just thorns without the rosebe careful of them in the dark
oh if I was the one
you chose to be your only one
oh baby can't you hear me now
Will I see you tonight
on a downtown train
every night is just the same
you leave me lonely now
I know your window and I know it's late
I know your stairs and your doorway
I walk down your street and past your gate
I stand by the light at the four way
you watch them as they fall
they all have heart attacks
they stay at the carnival
but they'll never win you back
Will I see you tonight on a downtown train
where every night is just the same you leave me lonely
will I see you tonight on a downtown train
all of my dreams just fall like rain
all upon a downtown train
TOM WAITS
punched a hole in the nighttime, yes
I climb through the window and down the street
shining like a new dime
the downtown trains are full with all those Brooklyn girls
they try so hard to break out of their little worlds
You wave your hand and they scatter like crows
they have nothing that will ever capture your heart
theyr'e just thorns without the rosebe careful of them in the dark
oh if I was the one
you chose to be your only one
oh baby can't you hear me now
Will I see you tonight
on a downtown train
every night is just the same
you leave me lonely now
I know your window and I know it's late
I know your stairs and your doorway
I walk down your street and past your gate
I stand by the light at the four way
you watch them as they fall
they all have heart attacks
they stay at the carnival
but they'll never win you back
Will I see you tonight on a downtown train
where every night is just the same you leave me lonely
will I see you tonight on a downtown train
all of my dreams just fall like rain
all upon a downtown train
TOM WAITS
segunda-feira, janeiro 1
O Homem e o Conhecimento
O princípio básico e esclarecedor da racionalidade contemporânea é a espelhada irracionalidade que obviamente advém da imagem de conhecimento que possuímos, ou seja, o princípio fundamental das necessidades vivenciais foi alienado de tal maneira, que desde esse momento primordial e básico que o conhecimento foi deturpado pelo erróneo desenvolvimento de si próprio. (...)
Intemporalidade
Apetecia-me escrever
Para no futuro lembrar-me
Deste mórbido presente
Que vive do erróneo passado
Fazer do observado passado
Presente
Do presente futuro
E do futuro passado
Apetecia-me cristalizar o tempo
E torná-lo intemporal
Pegar em tudo isto e isolar no tempo
Sem um presente
Sem um passado
Sem um futuro
Apenas isto e nada mais
Para no futuro lembrar-me
Deste mórbido presente
Que vive do erróneo passado
Fazer do observado passado
Presente
Do presente futuro
E do futuro passado
Apetecia-me cristalizar o tempo
E torná-lo intemporal
Pegar em tudo isto e isolar no tempo
Sem um presente
Sem um passado
Sem um futuro
Apenas isto e nada mais
segunda-feira, dezembro 25
JAMES BROWN

Deixo aqui uma letra que me maravilhou e surpreendeu bastante.
Um dia destes ao vasculhar pelos bastantes cantos já há muito tempo não remexidos da minha casa, descobri uma pequenalataredondalaranja número quatro, com um piano desenhado que tinha escrito com letragrossagarrafalamarelo:
JAMES BROWN!
Lá dentro continha uma música que embora já ouvida há bastante tempo ainda me era de toda desconhecida...
THIS IS A MAN'S WORLD
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness
sexta-feira, novembro 10
A ILHA DAS PANELAS



Nestes últimos dias tenho esvaziado a mala pesada de fotos que se encontrava a ganhar pó algures pela dispensa desta minha casa. Vou analisando uma a uma, procurando rever naqueles momentos imobilizados da folha de papel, memórias que se escondem nas concavidades do meu ser disperso em coisas do presente e do futuro. Algures nesse amontoado de recordações encontrei esta foto, a sua existência é anterior a mim mas no entanto possuo reminiscências contadas de como as coisas se faziam e sentiam nesse tempo.
Numa de muitas tardes como a que precederá esta manhã que finda, contaram-me histórias dum tempo que já lá vai, no tempo em que vagueava- ou talvez não- algures pelo corpo de alguém que era o meu não pai da altura. Eram tempos, diz quem me conta- a minha avó- de sacrifícios múltiplos e cheios de tudo aquilo que nos dá a força de viver, tempos em que parar para pensar era uma perda de tempo que de nada servia para pôr o comer na mesa. Nessa altura a vida não era como agora- como todos nós sabemos- não se tinham luxos como poder comer às horas que queremos e podemos, nem tão pouco darmo-nos a pequenos prazeres que não os básicos, que só por si e mediante as circunstâncias adversas e normais, já eram um verdadeiro luxo.
O nível de alfabetismo dos anos setenta era muito baixo, o conhecimento era restrito a um pequeno número de pessoas, e sendo assim a vida não era mais do que um emaranhado vivêncial de problemas que não eram mais do que motivos para nos "fazermos à vida" e pouco mais. Conta-me a minha saudosa avó que naquela altura e em anos anteriores o melhor meio de transporte- e por sinal mais económico- era o "fiat penantes", chegava a todo o lado e às horas pretendidas desde que as horas tivessem controladas; diz ela que a minha mãe, a partir dos seus tenros doze anos de pouca vida ia daqui à boavista todos os dias pelo tabuleiro de baixo da ponte D. Luís com um cabaz pesado de fruta na cabeça; andava por lá, voltava, chegava à hora do "tacho" comia e deitava-se. No dia a seguir era outro dia de trabalho. Tudo porque um dia tiveram que deixar de viver "sossegadamente" à custa de meu avô que assim queria que fosse, à boa moda machista do antigo regime... Um dia desapareceu, e a vida, diz a minha avó sem voz de arrependimento até que se tornou mais ampla e plena de sentido de sacrifício necessário à aprendizagem daquilo que é, singularmente; ela era e sempre foi analfabeta e sendo assim aprender fosse o que fosse era um prazer imenso. E porquê tudo isto, o que escrevo? Tudo isto para chegar ao local em que alguns destes ilustres personagens que figuram na foto que encima este texto moravam. Tudo isto para falar dum lugar mítico que me maravilha ouvir falar desde os meus tempos de infância, sítio esse que só o nome já é motivo para rejubilar de contentamento: a tão conhecida e badalada "ILHA DAS PANELAS". Não faço a mínima ideia porque tem esse ídilico nome, nunca foram feitas lá panelas, as que existiam também não deveriam ser muitas e se lá estavam era porque foram compradas ou oferecidas. Esta ilha citadina que não ladeada de água, era composta por oito casas de uma divisão cada; a casa de banho era comum, não possuia chuveiro nem lavatório, era apenas uma sanita e nada mais. Cada casa, uma família: a da Miquinhas Varredora e os seus não sei quantos mas bastantes filhos, a de minha avó e seus três filhos, a da se.Maria- dito assim como se lê- e mais os seus quantos filhotes em número bem comum aos que em média uma família típica portuguesa tinha, e mais cinco famílias de que não sei ou não me lembro do nome. Era um cenário, diz-me quem conta, bastante familiar e acolhedor. Nesses anos de sacríficio- coisa que infelizmente não tenho a verdadeira noção do que é- a irmandade entre miúdos era gigantesta. O dinheiro escasseava para os habitantes daquela ilha, talvez a situação geográfica e social fosse propícia a sua quase inexistência, mas no entanto, e às escondidas dos mais velhos, os miúdos como é o caso da minha mãe e de todos os outros, faziam das suas para alimentar a amizade inocente dos seus anos cada vez menos verdejantes que mais tarde viriam a dar lugar ao necessário trabalho; corroídos pela fome que espaçava a hora da refeição, tinham que arranjar maneira de comer pouca coisa que fosse para disfarçar essa fome momentânea; daí, a título de exemplo conto-vos esta história- à minha peculiar maneira- que me há-de maravilhar para o resto da vida.
As mães tinham saído cedo. Só à hora do jantar voltariam para nos ralhar ou bater por qualquer coisa que tivessemos feito e que era o pão nosso de cada dia. Era uma tarde solarenga e propícia para a brincadeira. Eu e todos eles brincavamos à vez com o cavalinho de madeira que em tempos de largueza financeira tinha sido oferecido a alguém. Depois de umas quantas voltas por campos imaginários- certamente cada um tinha o seu cavalo e o seu campo- já a hora se encaminhava para o sítio onde o sol se põe; um aperto na barriga deu o sinal daquilo a que o senso comum apelida- sim, apenas apelida- de fome constrangedora, que nos faz suar e desesperar por um naco mastígavel; uma ideia brilhante iluminou-me, porque razão até então nunca tinha pensado nisto? Sei que sofrerei consequências por este meu acto, talvez por isso nunca tenha pensado nisso... Mas deixa lá, se não é por isto é por outra coisa qualquer! Decidi-me! Vou subir a rampa e vou ao "Tagana"! Disse a meus irmãos e amigos para esperarem, subi a rampa do "Andante" com passo firme e vitorioso, entrei na lojinha onde a minha mãe tinha anotado o seu nome no livro gasto e desfolhado que repousava sobre o balcão, e disse:
- Dê-me um chouriço, dez pães e uma gasosa, ponha na conta da minha mãe que depois ela paga, muito obrigada.
Com o passo ainda mais determinado e com a mão esquerda estirada para baixo pelo peso da maravilhosa saca que trazia, cheguei à ilha, rápidamente o conteúdo do saco foi esventrado e depositou nos nossos estômagos uma satisfação suficiente para esquecermos a fome e voltarmos à brincadeira, só que desta vez decidimos inocentemente abandonar o cavalo e fomos correr para o vasto milheiral que se escondia por de trás da "Quinta de S. Salvador".
Dias depois chegou o dia de pagar a conta da loja, os tostões contadinhos estavam predestinados à mercearia. O dia do mês era sempre o mesmo, e eu, havia já bastantes dias que rezava para que aquele dia não chegasse nunca, até que um dia chegou... Nesse sábado desapareci da ilha com medo das represálias, mas no entanto, cedo ou tarde, tive que ir para casa, à minha espera estava minha mãe: aqueceu-me o corpo com todos os dedos que tinha nas mãos a multiplicar não sei por quantas vezes. Não lhe disse o porquê de ter feito aquilo. Isso guardei só para mim no meu enorme coração de criança. Apesar de tudo, não me arrependi, de maneira nenhuma.
Fiz desta recordação não vivida por mim, uma recordação pessoal vivida por palavras. Quis com isto chegar a uma conclusão que vendo bem foi o verdadeiro motivo para arquitecturar este texto que explodindo da foto começa a ganhar um espaço bem maior do que o que queria orquestrar. Sinto-me mais feliz depois disto e agora direi o que vos pretendia mostrar e dizer com este texto:
Nos tempos em que a necessidade era um monstro que à partida nos devia tolher, as pessoas sabiam ajudar-se mútuamente sem egoísmos intrínsecos; hoje, vive-se melhor, e apesar de ainda não ser para a maioria um "mar de rosas" as pessoas fazem do egoísmo um modo de vida.
A irmandade e prazer da entreajuda perdeu-se algures pelo tempo.
Mas vá lá, não é geral, ainda há bons corações.
Beijos e abraços!
segunda-feira, novembro 6
Interrogações.
Como é que pode um estado denominado soberano atropelar tudo e todos?
Como é que é possível que toda a gente fique a ver?
Como é que a democracia consegue personificar a liberdade?
Como é que a liberdade pode ser sinónimo de violência?
Como é que a violência pode ser a solução para um problema?
Como é que um problema pode realçar tanta ignorância?
Como é que a ignorância pode abrir tantos buracos?
Como é que os buracos podem ser tão escuros?
Como é que a escuridão nos pode salvar?
Como é que a salvação traz tanta desilusão?
Como é que a desilusão pode ser tão dramática?
Como é que um drama pode não ter fim?
Como é que o fim pode ser a solução?
Como é que a solução pode ganhar vida?
Como é que viver pode ser verdadeiramente real?
Como é que a realidade pode mudar?
Como é que a verdade pode vir a ser mudança?
Como é que vamos deixar de ser assim...?
Como é que é possível que toda a gente fique a ver?
Como é que a democracia consegue personificar a liberdade?
Como é que a liberdade pode ser sinónimo de violência?
Como é que a violência pode ser a solução para um problema?
Como é que um problema pode realçar tanta ignorância?
Como é que a ignorância pode abrir tantos buracos?
Como é que os buracos podem ser tão escuros?
Como é que a escuridão nos pode salvar?
Como é que a salvação traz tanta desilusão?
Como é que a desilusão pode ser tão dramática?
Como é que um drama pode não ter fim?
Como é que o fim pode ser a solução?
Como é que a solução pode ganhar vida?
Como é que viver pode ser verdadeiramente real?
Como é que a realidade pode mudar?
Como é que a verdade pode vir a ser mudança?
Como é que vamos deixar de ser assim...?
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