segunda-feira, janeiro 29

A Morte

Decidi escrever uma estória. Uma estória de vida e de morte, de várias cores, de tons cinzentos e de felicidades ilusórias. Personagem ainda não tenho, não porque não tenha tido tempo para lhe dar uma forma e um sentido, mas porque dessa maneira tão prosaica não teria oportunidade de lhe dar um corpo pouco linear e um sentido notoriamente ousado e necessário à finalidade a que me proponho. Podia começar já pelo fim, ainda que não tenha as palavras encandeadas e ordenadas para um sentido final e mesmo sabendo que não posso recorrer a personagens dignas de ser absorvidas e fragmentadas, digo-vos que o personagem morreu num dia frio entre as quatro paredes brancas…

Proponho-me que escrevo sem ter uma noção do que leio ou do sentido em que caminho, sinto que não trago mais do que interrogações… Acabo de escrever e releio o que nunca tinha lido, um texto em que logo no início, o personagem único, e vago interveniente numa estória pouco linear, morre ou morreu numa tarde fria de Agosto em que a chuva ameaçava disparar.

Como morreu?

Será que morreu como personagem deste texto ou é alguém que existiu e serviu de base para um nome com hábitos e maneiras?

Poderia o personagem morrer num outro texto ou livro em que o corpo estremeceu enquanto a sua mão se apoiava sobre uma mesa castanha e fria?

Ou será que quem escreve isto é um confuso e desfasado assassino, que não sabe distinguir amor de ódio, que pensa um dia matar uma misteriosa e inspiradora pessoa, observando-a por diversas vezes para servir de fonte para uma personagem?

Todas estas minhas perguntas sem resposta poderiam seguir uma ordem e seriam sem margem nenhuma para dúvidas uma realidade plausível.

Por muito que tente e force os pontos, as linhas, as letras, as palavras e as frases a escorregar entre o limite dos meus dedos, ainda não consigo perceber porque terá morrido tão cedo este inquietante personagem, que não sei se era ou é novo; se ou vai morrer; justamente ou injustamente; se o meu conceito futuro de justo e injusto vai ser o mesmo que o de agora; ou somente se agora é hoje ou é ontem; ou se somente ontem existiu e isto não seja mais do que nunca…

Este personagem é ou foi, sem dúvida nenhuma, pelo que dá para perceber, um ser intemporal: a morte chegou ou chegará a si como a todos nós, mas não sabemos quando, nem sei onde…

Tudo começou no dia vinte e três daquele mês enquanto escrevia no teclado besuntando de melão as teclas sujas, na tentativa de perceber qual o sentido e a ordem a dar às palavras. Com uma perna alçada e a boca inquieta, tentava preencher o tempo de um vazio que mais cedo ou mais tarde tinha que chegar; o melão da sua terra deixava um aroma húmido e saboroso na boca, as palavras iam ganhando forma, aquele fragmento de vida corria-lhe bem…

Pequenos feixes de luz solar já trespassavam a persiana do seu quarto quadrangular e aconchegante. As horas tinham passado e o tempo era curto para acabar de escrever aquela importante carta; ao longe alguém esperava por uma frágil mas pesada folha de papel…

Com o cigarro pendendo-lhe dos lábios humedecidos e espessos, procurava impingir no branco uma sinceridade necessária e enternecedora, como se a sua vida e a dos outros dependesse daquilo que dissesse ou transmitisse. O fumo dissolvia-se, a ondulação e a sua dissolução davam a entender o desvanecer de tudo o que o rodeava. O galo berrava como um louco. O sol respirava sob a persiana agora aberta golfadas de uma forçada vontade abstracta.

Já de papo cheio vestia a sua roupa para dar início à odisseia de um dia trabalho. Os seus olhos pesavam, a noite depressa se tinha feito dia e a cama tinha ficado por desfazer. Enquanto punha o relógio, sete e cinquenta, percebeu que já era tarde, se não se pusesse a trote o transporte passar-lhe-ia ao lado.

Já de mochila às costas dava passos apressados para o destino que tardava em chegar, o ponteiro ia rolando e o atraso era inevitável. Lá chegou. A fila era grande, o ponteiro já tinha passado o do horário de passagem.

Era um dia de sol. Na paragem em dez pessoas, oito tinham os olhos escurecidos e tapados pelos óculos de sol, tudo lhes passava ao lado, excepto o autocarro pelo qual esperavam.

O barulho da cidade começava a ganhar corpo, o silêncio sonolento das pessoas era perceptível; o seu autocarro tardava a chegar.

Destinos e meios eram muitos, oitenta e nove, quinhentos e dez, quinhentos e doze e mais uns quantos destinos diferentes. A placa da paragem não deixava de maneira alguma enganar.

A viagem que tardava, tinha deixado na sua pessoa sintomas de uma sonolência ainda mais pesada, o barulho do autocarro e das pessoas semi-acordadas enquanto rolavam sem paradeiro pelo paralelo e alcatrão tinham deixado o seu cérebro cansado num estado de inércia mental absoluta.

Foi aí que o destino lhe deu a finalidade necessária…

Não sabia por onde começar, nunca até hoje tinha feito tal coisa, os fios eram para si nada mais nada menos que algo que sustenta dois lados opostos, como que uma ponte.

O armazém era grande e sujo e a manhã lá fora era ainda maior.

Meio atarantado tentava no balneário demonstrar que o trabalho por muito novidade que fosse não era difícil de fazer; o desconhecimento de causa levava-o a vestir a roupa limpa do trabalho como quem veste uns calções de praia numa calorosa tarde de verão em que a brisa húmida do vento ameniza o calor abrasador.

Apesar do sol, o sítio era frio e húmido, a roupa que tinha trazido de casa era insuficiente para aquecer o corpo.

Os seus companheiros de trabalho não eram muitos, eram apenas seis.

Com o tempo conseguiu perceber que embora a idade fosse um fosso entre a sua pessoa e os seus camaradas, o serviço não era mais do que uma união física e quase psicológica de mecanismos básicos impingidos; se errasse na sua parte, o desenvolvimento consequencial não surtia mais do que um efeito do estilo domino. Sendo assim, a idade e as diferentes personalidades não eram mais que uma necessidade secundária, ou terciária em relação ao objectivo principal de presença no local em que se encontrava.

(Mesmo sabendo-se que o trabalho ocupa em quase todas as pessoas activas no mínimo oito horas de um dia que tem vinte e quatro, em que no máximo oito delas estão em estado de repouso, os mecanismos de produção são a prioridade do dia-a-dia, o dinheiro tem que multiplicar para uma só pessoa ou para um restrito grupo de pessoas, enchendo assim, de uma maneira humanamente aceitável, a barriga a porcos e cleptomaníacos.)

As últimas palavras embora vomitem uma arrogância violenta e submissa, não são mais do que uma foto-realidade de um dia de trabalho por esse solo fora, sem fronteiras nem excepções. Pode-se pensar e até dizer que este campo produtivo é o pedestal das nossas sociedades contemporâneas, não digo o contrário, apenas posso incutir o seguinte: é sem dúvida nenhuma uma área do desenvolvimento humano que nos dá uma vida mais preenchida e versátil mas não se pode esquecer de tudo aquilo que vemos desfilar perante as nossas orbitas pseudo inocentes. A morte, as falsas necessidades, a preguiça mental, a ignorância vivencial, entre outras; já para não falar de tudo o que nos dão como quase obrigatório: a casa, o carro, a família, o animal de estimação, a segurança económica, entre outras; tudo isto e muito mais, dá forma à amalgama a que chamamos de vida, que cada vez mais e maquinalmente desfiguramos e aproximamos daquilo a que chamamos de morte. E esta morte de que vos falo, não sabendo se como pessoa que escreve, se como pessoa que morreu ou vai em tempos morrer como personagem desta história complexa e bizarra, não é mais que uma morte colectiva e supra abrangente de uma seita religiosa sem denominação aparente. A seita que tudo constrói \ destrói sem se preocupar com as consequências de um tempo que globalmente e ironicamente se quer harmonioso e a longo prazo.

Embora a seita na sua grande maioria apresente uma indumentária característica de ignorância e união de cariz religiosa quase inconsciente, dá para concluir que essa mesma inconsciência não se restringe à classe superior dominante e perceptível: tudo e todos nesta esfera achatada duma galáxia desconhecida, anseia de uma maneira muito peculiar, gananciosa e distraída a tão bem dita luz, que encerrará o fim dos nossos tempos…

Ao escrever sobre esta misteriosa pessoa que por aqui existe ou existiu preencho o meu tempo com letras, palavras e frases, como se este ser que não existe ou sequer existiu para lá das minhas mãos fosse tudo que tenho.

Pergunto-me o porquê de toda esta salada de fruta seca pelo quente sol que doura cada vez mais. Pergunto-me, e rapidamente descortino a resposta.

terça-feira, janeiro 23

Arrependimento

O arrependimento é um sentimento muito duro que no entanto possui a sua beleza. É um sentimento de impotência que nos tira a força para voltar atrás, mas no entanto, é um sentimento de pujança que nos faz dar mais sentido à palavra aprendizagem.

Por vezes, agimos prematuramente, esquecemo-nos que a irreflexão nos pode levar ao tal arrependimento de que falo; por outro lado, às vezes, a interpretação das nossas atitudes é tomada como um dado adquirido, e assim, duma maneira e doutra, não se consegue dar o devido valor às situações.

Agora que penso, já fui tantas vezes precipitado como tantas vezes fui mal interpretado. Em nenhuma dessas ocasiões, senti que tivesse ganho algo com isso.

Ao ser precipitado, ganhei por um lado a tal aprendizagem, mas acabei por perder a oportunidade de ser bem interpretado.

Ao ser mal interpretado, aconteceu quase o mesmo, aprendi que posso ser mal interpretado, mas perdi a oportunidade de ser precipitado e encontrar razões para tal interpretação.

E agora que fui precipitado, e dei razões para consequentemente ser mal interpretado, sinto que nada ganhei na mesma!

Apenas ganhei na boca o sabor de perda provocado pelo arrependimento.

domingo, janeiro 21

A CONSTATAÇÃO DE QUE A IDEIA GENERALIZADA QUE SE TEM DE ANARQUIA SERVE APENAS PARA DEFINIR OS TEMPOS EM QUE VIVEMOS


Andava eu por aqui a pesquisar acerca duma das grandes falácias dos conceitos modernos e eis que me deparo com uma pérola escrita de um senhor que desconhecia até ao momento que antecede a escrita desta posta.

ANARQUIA.

Embora já tivesse vagamente a ideia correcta, consegui através desta pesquisa frutuosa ter uma visão mais realista e fundamentada acerca deste vasto sistema revolucionário-ideológico. Nesta pequena-grande janela para o conhecimento a que chamamos de laptop, ou mais correctamente ecrã de computador, descobri entre os muitos personagens que compõe o passado histórico do anarquismo - que infelizmente hoje em dia não ganha forma nesta sociedade consumista que vai ardendo através da chama do hábito queimado pelos anos de destruição e abolição da liberdade fundamental ao desenvolvimento pessoal e vivencial do ser humano - um senhor, ou melhor um grande senhor, um gigante e inconformado senhor de nome Errico Malatesta. Este vulto quase apagado da história mediática, foi um insurrecto por natureza que lutou para “assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar”. Não me querendo alongar muito, na ânsia de expor aqui a pérola de que vos falo, deixo então aqui neste meu espaço, que vendo bem é de todos, um pequeno texto que escreveu e que me tocou bastante no que toca à minha interpretação de alguns aspectos que compõe a sociedade contemporânea.


“CAPITALISTAS E LADRÕES”

“A propósito das tragédias de Houndsditch e Sidney Street numa ruela da City, ocorre uma tentativa de assalto a uma joalharia; os ladrões, surpreendidos pela polícia, fogem abrindo caminho aos tiros. Mais tarde, dois dos ladrões, descobertos numa casa de East-End defendem-se uma vez mais com tiros, e morrem no tiroteio. No fundo, nada de extraordinário em tudo isto, na sociedade actual, excepto a energia excepcional com que os ladrões se defenderam.
Mas esses ladrões eram russos, talvez refugiados russos; e é também possível que tenham frequentado um clube anarquista nos dias de reunião pública, quando ele está aberto a todos. Sem dúvida, a imprensa capitalista serve-se, uma vez mais, deste caso para atacar os anarquistas. Ao ler os jornais burgueses, dir-se-ia que a anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens, nada mais é senão roubo e assassinato. Com tais mentiras e calúnias, conseguem, com certeza, afastar de nós, muitos daqueles que estariam connosco se ao menos soubessem o que queremos. Não é inútil repetir, portanto, qual é nossa atitude de anarquistas em relação à teoria e à prática do roubo. Um dos pontos fundamentais do anarquismo é a abolição do monopólio da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, e, consequentemente, a abolição da exploração do trabalho alheio exercida pelos detentores dos meios de produção. Toda apropriação do trabalho alheio, tudo o que serve a um homem para viver sem dar à sociedade a sua contribuição à produção, é um roubo, do ponto de vista anarquista e socialista. Os proprietários, os capitalistas, roubaram do povo, pela fraude ou pela violência, a terra e todos os meios de produção, e como consequência deste roubo inicial podem subtrair dos trabalhadores, a cada dia, o produto de seu trabalho. Mas esses ladrões afortunados tornaram-se fortes, fizeram leis para legitimar sua situação, e organizaram todo um sistema de repressão para se defender, tanto das reivindicações dos trabalhadores como daqueles que querem substituí-los, agindo como eles próprios agiram. E agora o roubo desses senhores chama-se propriedade, comércio, indústria, etc; o nome de ladrões é reservado, todavia, na linguagem usual, àqueles que gostariam de seguir o exemplo dos capitalistas, mas que, tendo chegado muito tarde e em circunstâncias desfavoráveis, só podem fazê-lo revoltando-se contra a lei. Entretanto, a diferença de nomes empregados ordinariamente não basta para apagar a identidade moral e social das duas situações. O capitalista é um ladrão cujo sucesso se deve a seu mérito ou a de seus ascendentes; o ladrão é um aspirante a capitalista que só espera a oportunidade para sê-lo na realidade, para viver, sem trabalhar, do produto de seu roubo, isto é, do trabalho alheio. Inimigos dos capitalistas, não podemos ter simpatia pelo ladrão que visa tornar-se capitalista. Partidários da expropriação feita pelo povo em proveito de todos, não podemos, enquanto anarquistas, ter nada em comum com uma operação que consiste unicamente em fazer passar a riqueza das mãos de um proprietário para as de outro. Obviamente, refiro-me ao ladrão profissional, àquele que não quer trabalhar e procura os meios para poder viver como parasita do trabalho alheio. É bem diferente o caso de um homem ao qual a sociedade recusa meios de trabalhar e que rouba para não morrer de fome e não deixa morrer de fome seus filhos. Neste caso, o roubo (se é que se pode denominá-lo assim) é uma revolta contra a injustiça social, e pode tornar-se o mais imperioso dos deveres. Mas a imprensa capitalista evita falar desses casos, pois deveria, ao mesmo tempo, atacar a ordem social que tem por missão defender. Com certeza, o ladrão profissional é, ele também, uma vítima do meio social. O exemplo que vem de cima, a educação recebida, as condições repugnantes nas quais se é, amiúde, obrigado a trabalhar, explicam facilmente como é que homens, que não são moralmente superiores a seus contemporâneos, colocados na alternativa de serem explorados ou exploradores, preferem ser exploradores e encarregam-se de consegui-lo pelos meios de que são capazes. Todavia, essas circunstâncias atenuantes podem também se aplicar aos capitalistas, e esta é a melhor prova da identidade das duas profissões. As ideias anarquistas não podem, em consequência, levar os indivíduos a tornarem-se capitalistas assim como não pode levá-los a serem ladrões. Ao contrário, dando aos descontentes uma ideia de vida superior e esperança de emancipação colectiva, elas desviam-nos, na medida do possível, tendo em vista o meio actual, de todas essas acções legais ou ilegais, que representam apenas adaptação ao sistema capitalista, e tendem a perpetuá-lo. Apesar de tudo isso, o meio social é tão poderoso e os temperamentos pessoais tão diferentes, que bem pode existir entre os anarquistas alguns que se tornem ladrões, como há os que se tornam comerciantes ou industriais; mas, neste caso, uns e outros agem, assim, não por causa, mas a despeito das ideias anarquistas.”

Errico Malatesta (Março de 1911)

quarta-feira, janeiro 17

QUE FORÇA É ESSA

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compreendes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes

Não me digas que não me compreendes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


SÉRGIO GODINHO

terça-feira, janeiro 9

Poema Non-sense (exploração patafísica)

Boris Vian (1920-1959)
A verdade ecoa numa concavidade de luz que reluz na parede de cimento contado.
Na liberdade do céu vejo um peixe sem escamas que voa para um céu que não o do limite esponjoso.

«Olho o chão que se deixa ficar para trás entre secretárias e colunas duma comunicabilidade silenciosa.
Procuro o cerne num pedaço de metal frio que explode suavemente nas minhas mãos.
-E a cadeira, para que me senta?
Talvez me sente porque nas mãos tenho uma vara-que-não-vara que me serve para afagar.
Talvez porque uma foto de papel de seda me deixa sequioso e impaciente.
Talvez porque a mente nos meandros da rocha não saiba que o gato já passou há bastante tempo.
-Um miar ladrou bem alto no espaço sólido duma noite radiosa de Inverno.»

Algures pela concha encontrei uma maçã.
E nessa saliência de cavaleiro do presente vi um olhar!
O brilho era baço e de cavalo!
O ponto era negro e reluzente como a luz dum farol apagado.

«As coisas que se dizem quando tudo não se quer dizer sem regras nem sentido!»

Caminhar verde de crista de lua que se espanta com um cão radioso.
Passo preso com bolinhas espalmadas de cor acolchoada.
Quadrados quentes mediatizados pelo querer da tarde vagarosa como um carro de auto-estrada!
Fio de corda solta numa manhã espacial como a postura!
Voz de botão de tecto que traz consigo o cabide ancestral.
Textura ajudada pelo pêlo dum orangotango citadino.
Música pendurada nas paredes duma imaterialidade física.
Complexidade duma casa com as postas dos dedos enclausuradas pelas composturas descosidas.

«Pergunto ao chão quantas vezes comeu a sopa hoje.
Automatizo a maneabilidade da inserção formatada.
Ajudo a demência a ganhar forma na roupa de cama que visto no tronco de manga.
Contabilizo a sombra e constato que afinal o cão ainda não passou.
Era afinal uma caneta de cheiro a laranja que voltava da sua odisseia por um garfo sem dentes!
-E a faca? Falta a faca!»

Faca do sonho duma laranjeira despida de massas!
Colchão duro como a polpa dum balão térreo.
Ar constrangido pela sobreposição do paragrafo que só existe na sua imprópria inexistência.
Persiana solar que se queda nas despropositada interacção dos telhados subterrâneos.
Deambular quieto da linha obliqua duma horizontalidade do passado.
Símbolo transparente que se arrasta tardiamente sobre a folha duma estrada ainda verde.
Enquadramento de inquilino que se pendura num chinelo de cozinha.

«Procuro a almofada! Não quero nada mais que não seja casaco de fecho Napoleão.»

Cabala de tecla roxa como o morango.
Cinzeiro limpo por um rectângulo sem ângulos.
Limpeza da ombreira numa casa que se encontra num monte de penas para o ar.
Lata trilhada por uma pluma feita de arame constrangido.

«Onde andas? Já dei voltas e mais voltas e nunca mais te desencontrava!»

Cores tardias que ecoam pela massa saturada pelo ar!
Letras riscadas por um marcador deliciado pelo agir da espuma francesa!
Demência concêntrica.
Espirais espiraladas pelos poros duma boca fechada.
Libertinagem maquinal que vai flutuando pesada pelas paredes arredondadas como um plano perfeito.
Tomada de pose perante o caminho dum beco com saída.
Mentira conspurcada pelo homem-guerra que voa como um pássaro sem barbatanas.
Jogo de coisas e não-coisas na imensa clausura duma farinha amarelada pelo não passar da mota do Pé Raso.
Desnivelamento perante um camafeu cor de braço oscilante.
Dezasseis.
Vinte e quatro.
Oito milhões quatrocentos e vinte oito mil cento e setenta e um!
Quatrocentos biliões cinquenta e sete milhões trezentos e vinte sete mil e uma miríades ululantes!

«Números, apenas números!»

Uma.
Cinco.
Nove idades!

«Sinceramente ainda não sei ao certo…
Ainda não me disseram.
Isso para mim são apenas nove idades sem ligação passível!»

Colaboração descolorada pela água dum nariz de carteira de bolso.
Impressão contida na impossibilidade de dar azo às tentativas furtadas por um ladrão inocente como a madeira.
Raízes sem fumo.

«Fumo sem raízes!»

Raízes fumo sem.

«Sem raízes fumo»

Sem fumo raízes!
Colibris sem cabeça de alfinete.
Alfinetes sem colibris de cabeça.
Cabeça sem alfinete de colibris.
De colibris sem alfinete cabeça.
Colibris sem alfinete de cabeça.
Sem alfinete de cabeça colibris!

«Trocas e baldrocas!»

De!
Sem!
Colibris!
Cabeça!
Sem!
Cabeça!
De!
Colibris!
Sem colibris!
De cabeça!
Sem cabeça!
Colibris cabeça!

«Mando-me de cabeça sem colibris à mistura!»

Era uma vez.
Mas também foi duas vezes!
Em tempos!

«Mando-me de colibris com uma cabeça à mistura!»

Foi em tempos.
Mas ainda é!
Um homem sem rumo-alienado.
Um sentido não sentido.
Uma broca sem diamante num manto que não o cobria!
De amante restava-lhe o socado ventríloquo de alarido constante.
Coloquial levitado pela barata alargada do confuso buraco de ardina.
Exploração do sítio onde as larvas do bicho-da-seda faziam o seu pinho.

«Foi num pinhal abençoado, as escadas estavam lá e eu vi-as, estavam por baixo dos degraus!»

Preto e branco ressoado pelo respirar dum pé!
Laranja e melancia cortadas por inteiro.
Frutaria duma esquina sem homens por certo.
Longevidade intima complicada pela razão.
Substância detalhada na beira dum centro sem bordas.

«Quero o fim! Onde anda o fim?!»

Um fim sem fim que se encontre na finalidade de findar.
Umfimsemfimqueseencontrenafinalidadedefindar!
Uma colagem sem cola que sustenha o rumo das palavras que não são.
Uma cola sem colagem que sustenha as palavras que não são apenas as que escrevi.
Uma inglesa escrita pelo canto dum tenor indiano!
Ladear a escrita para inserir na parte de forra uma essência quase aquecida.
Explorar para expor a experimentação explicativa exprimida pela explosão expugnável.

«O cigarro que bafejo apagado vai ardendo através da inspiração ordenada pelos cantos das ninfas do Beijo.»

Ojieb od safnin sad sotnac solep adanedro oãçaripsni ad sèvarta odnedra iav odagapa ojefab euq orragic o.

«No fundo do cume das coisas era apenas isto que tinha para dizer!»
















quinta-feira, janeiro 4

Políticos

Desenham num néon colorido
Um arco-íris para as nossas vidas,

A laranja uma vontade económica

A rosa uma suposta vontade

A vermelho uma necessidade

A azul uma minoria

Exploram a imagem, as pessoas
A ignorância e a ilusória inteligência
As nossas vidas e o nosso tempo
Como quem masca uma chicla sem sabor.

Embrulham como tornados o dinheiro,
As falsidades, as despropositadas necessidades
Embalam e revoltam no silêncio
O cérebro cinzento a ressacar
Por um símbolo que nos há-de salvar

De gravata e camisa camelada
Desdobram-se em argumentos complexos
Despropositados,
Em palavras atulhadas e confusas
Em frases sem objectivo nem propósito necessário
Arrastam-nos sem que consigamos ter força
Sem que consigamos fazer valer o que nos magoa

Em casa, no seu guarda-fatos
Os factos vão-se acumulando
Sem que se verga o ferro frio que os sustenta
Como se os fatos ásperos não pesassem
E valessem mais os fracos argumentos!

DOWNTOWN TRAIN

Outside another yellow moon
punched a hole in the nighttime, yes
I climb through the window and down the street
shining like a new dime
the downtown trains are full with all those Brooklyn girls
they try so hard to break out of their little worlds

You wave your hand and they scatter like crows
they have nothing that will ever capture your heart
theyr'e just thorns without the rosebe careful of them in the dark
oh if I was the one
you chose to be your only one
oh baby can't you hear me now

Will I see you tonight
on a downtown train
every night is just the same
you leave me lonely now

I know your window and I know it's late
I know your stairs and your doorway
I walk down your street and past your gate
I stand by the light at the four way
you watch them as they fall
they all have heart attacks
they stay at the carnival
but they'll never win you back

Will I see you tonight on a downtown train
where every night is just the same you leave me lonely
will I see you tonight on a downtown train
all of my dreams just fall like rain
all upon a downtown train


TOM WAITS

segunda-feira, janeiro 1

O Homem e o Conhecimento

O princípio básico e esclarecedor da racionalidade contemporânea é a espelhada irracionalidade que obviamente advém da imagem de conhecimento que possuímos, ou seja, o princípio fundamental das necessidades vivenciais foi alienado de tal maneira, que desde esse momento primordial e básico que o conhecimento foi deturpado pelo erróneo desenvolvimento de si próprio. (...)

Intemporalidade

Apetecia-me escrever
Para no futuro lembrar-me
Deste mórbido presente
Que vive do erróneo passado

Fazer do observado passado
Presente
Do presente futuro
E do futuro passado

Apetecia-me cristalizar o tempo
E torná-lo intemporal

Pegar em tudo isto e isolar no tempo
Sem um presente
Sem um passado
Sem um futuro
Apenas isto e nada mais

segunda-feira, dezembro 25

JAMES BROWN


Deixo aqui uma letra que me maravilhou e surpreendeu bastante.
Um dia destes ao vasculhar pelos bastantes cantos já há muito tempo não remexidos da minha casa, descobri uma pequenalataredondalaranja número quatro, com um piano desenhado que tinha escrito com letragrossagarrafalamarelo:
JAMES BROWN!
Lá dentro continha uma música que embora já ouvida há bastante tempo ainda me era de toda desconhecida...
THIS IS A MAN'S WORLD
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness




sexta-feira, novembro 10

A ILHA DAS PANELAS




Nestes últimos dias tenho esvaziado a mala pesada de fotos que se encontrava a ganhar pó algures pela dispensa desta minha casa. Vou analisando uma a uma, procurando rever naqueles momentos imobilizados da folha de papel, memórias que se escondem nas concavidades do meu ser disperso em coisas do presente e do futuro. Algures nesse amontoado de recordações encontrei esta foto, a sua existência é anterior a mim mas no entanto possuo reminiscências contadas de como as coisas se faziam e sentiam nesse tempo.

Numa de muitas tardes como a que precederá esta manhã que finda, contaram-me histórias dum tempo que já lá vai, no tempo em que vagueava- ou talvez não- algures pelo corpo de alguém que era o meu não pai da altura. Eram tempos, diz quem me conta- a minha avó- de sacrifícios múltiplos e cheios de tudo aquilo que nos dá a força de viver, tempos em que parar para pensar era uma perda de tempo que de nada servia para pôr o comer na mesa. Nessa altura a vida não era como agora- como todos nós sabemos- não se tinham luxos como poder comer às horas que queremos e podemos, nem tão pouco darmo-nos a pequenos prazeres que não os básicos, que só por si e mediante as circunstâncias adversas e normais, já eram um verdadeiro luxo.
O nível de alfabetismo dos anos setenta era muito baixo, o conhecimento era restrito a um pequeno número de pessoas, e sendo assim a vida não era mais do que um emaranhado vivêncial de problemas que não eram mais do que motivos para nos "fazermos à vida" e pouco mais. Conta-me a minha saudosa avó que naquela altura e em anos anteriores o melhor meio de transporte- e por sinal mais económico- era o "fiat penantes", chegava a todo o lado e às horas pretendidas desde que as horas tivessem controladas; diz ela que a minha mãe, a partir dos seus tenros doze anos de pouca vida ia daqui à boavista todos os dias pelo tabuleiro de baixo da ponte D. Luís com um cabaz pesado de fruta na cabeça; andava por lá, voltava, chegava à hora do "tacho" comia e deitava-se. No dia a seguir era outro dia de trabalho. Tudo porque um dia tiveram que deixar de viver "sossegadamente" à custa de meu avô que assim queria que fosse, à boa moda machista do antigo regime... Um dia desapareceu, e a vida, diz a minha avó sem voz de arrependimento até que se tornou mais ampla e plena de sentido de sacrifício necessário à aprendizagem daquilo que é, singularmente; ela era e sempre foi analfabeta e sendo assim aprender fosse o que fosse era um prazer imenso. E porquê tudo isto, o que escrevo? Tudo isto para chegar ao local em que alguns destes ilustres personagens que figuram na foto que encima este texto moravam. Tudo isto para falar dum lugar mítico que me maravilha ouvir falar desde os meus tempos de infância, sítio esse que só o nome já é motivo para rejubilar de contentamento: a tão conhecida e badalada "ILHA DAS PANELAS". Não faço a mínima ideia porque tem esse ídilico nome, nunca foram feitas lá panelas, as que existiam também não deveriam ser muitas e se lá estavam era porque foram compradas ou oferecidas. Esta ilha citadina que não ladeada de água, era composta por oito casas de uma divisão cada; a casa de banho era comum, não possuia chuveiro nem lavatório, era apenas uma sanita e nada mais. Cada casa, uma família: a da Miquinhas Varredora e os seus não sei quantos mas bastantes filhos, a de minha avó e seus três filhos, a da se.Maria- dito assim como se lê- e mais os seus quantos filhotes em número bem comum aos que em média uma família típica portuguesa tinha, e mais cinco famílias de que não sei ou não me lembro do nome. Era um cenário, diz-me quem conta, bastante familiar e acolhedor. Nesses anos de sacríficio- coisa que infelizmente não tenho a verdadeira noção do que é- a irmandade entre miúdos era gigantesta. O dinheiro escasseava para os habitantes daquela ilha, talvez a situação geográfica e social fosse propícia a sua quase inexistência, mas no entanto, e às escondidas dos mais velhos, os miúdos como é o caso da minha mãe e de todos os outros, faziam das suas para alimentar a amizade inocente dos seus anos cada vez menos verdejantes que mais tarde viriam a dar lugar ao necessário trabalho; corroídos pela fome que espaçava a hora da refeição, tinham que arranjar maneira de comer pouca coisa que fosse para disfarçar essa fome momentânea; daí, a título de exemplo conto-vos esta história- à minha peculiar maneira- que me há-de maravilhar para o resto da vida.


As mães tinham saído cedo. Só à hora do jantar voltariam para nos ralhar ou bater por qualquer coisa que tivessemos feito e que era o pão nosso de cada dia. Era uma tarde solarenga e propícia para a brincadeira. Eu e todos eles brincavamos à vez com o cavalinho de madeira que em tempos de largueza financeira tinha sido oferecido a alguém. Depois de umas quantas voltas por campos imaginários- certamente cada um tinha o seu cavalo e o seu campo- já a hora se encaminhava para o sítio onde o sol se põe; um aperto na barriga deu o sinal daquilo a que o senso comum apelida- sim, apenas apelida- de fome constrangedora, que nos faz suar e desesperar por um naco mastígavel; uma ideia brilhante iluminou-me, porque razão até então nunca tinha pensado nisto? Sei que sofrerei consequências por este meu acto, talvez por isso nunca tenha pensado nisso... Mas deixa lá, se não é por isto é por outra coisa qualquer! Decidi-me! Vou subir a rampa e vou ao "Tagana"! Disse a meus irmãos e amigos para esperarem, subi a rampa do "Andante" com passo firme e vitorioso, entrei na lojinha onde a minha mãe tinha anotado o seu nome no livro gasto e desfolhado que repousava sobre o balcão, e disse:
- Dê-me um chouriço, dez pães e uma gasosa, ponha na conta da minha mãe que depois ela paga, muito obrigada.
Com o passo ainda mais determinado e com a mão esquerda estirada para baixo pelo peso da maravilhosa saca que trazia, cheguei à ilha, rápidamente o conteúdo do saco foi esventrado e depositou nos nossos estômagos uma satisfação suficiente para esquecermos a fome e voltarmos à brincadeira, só que desta vez decidimos inocentemente abandonar o cavalo e fomos correr para o vasto milheiral que se escondia por de trás da "Quinta de S. Salvador".
Dias depois chegou o dia de pagar a conta da loja, os tostões contadinhos estavam predestinados à mercearia. O dia do mês era sempre o mesmo, e eu, havia já bastantes dias que rezava para que aquele dia não chegasse nunca, até que um dia chegou... Nesse sábado desapareci da ilha com medo das represálias, mas no entanto, cedo ou tarde, tive que ir para casa, à minha espera estava minha mãe: aqueceu-me o corpo com todos os dedos que tinha nas mãos a multiplicar não sei por quantas vezes. Não lhe disse o porquê de ter feito aquilo. Isso guardei só para mim no meu enorme coração de criança. Apesar de tudo, não me arrependi, de maneira nenhuma.

Fiz desta recordação não vivida por mim, uma recordação pessoal vivida por palavras. Quis com isto chegar a uma conclusão que vendo bem foi o verdadeiro motivo para arquitecturar este texto que explodindo da foto começa a ganhar um espaço bem maior do que o que queria orquestrar. Sinto-me mais feliz depois disto e agora direi o que vos pretendia mostrar e dizer com este texto:

Nos tempos em que a necessidade era um monstro que à partida nos devia tolher, as pessoas sabiam ajudar-se mútuamente sem egoísmos intrínsecos; hoje, vive-se melhor, e apesar de ainda não ser para a maioria um "mar de rosas" as pessoas fazem do egoísmo um modo de vida.

A irmandade e prazer da entreajuda perdeu-se algures pelo tempo.

Mas vá lá, não é geral, ainda há bons corações.

Beijos e abraços!

segunda-feira, novembro 6

Interrogações.

Como é que pode um estado denominado soberano atropelar tudo e todos?

Como é que é possível que toda a gente fique a ver?

Como é que a democracia consegue personificar a liberdade?

Como é que a liberdade pode ser sinónimo de violência?

Como é que a violência pode ser a solução para um problema?

Como é que um problema pode realçar tanta ignorância?

Como é que a ignorância pode abrir tantos buracos?

Como é que os buracos podem ser tão escuros?

Como é que a escuridão nos pode salvar?

Como é que a salvação traz tanta desilusão?

Como é que a desilusão pode ser tão dramática?

Como é que um drama pode não ter fim?

Como é que o fim pode ser a solução?

Como é que a solução pode ganhar vida?

Como é que viver pode ser verdadeiramente real?

Como é que a realidade pode mudar?

Como é que a verdade pode vir a ser mudança?

Como é que vamos deixar de ser assim...?

segunda-feira, outubro 16

Vida de Cão

Para fazer gargalhar os mais cépticos que aqui não passam, um retrato fiel e sério de muitos dos que por aqui andam por este portugal.


Vida de cão
Dormir com pulgas no colchão,
Vida de cão
Lamber as botas ao patrão,
Viver da televisão,
Trabalhar na construção
E ao domingo,
Ir com um puta para a pensão.

Vida de cão
É nao puder dizer que não,
Vida de cão
É encontrar um porcalhão,
Comer merda em vez de pão,
Engordar o tubarão
E ao domingo,
Beber tinto do garrafão.

Vida de cão
Viver à vista de tesão,
Vida de cão
É desabar no alcatrão,
Escorregar num cagalhão,
Bater com as trombas no chão,
E ainda por cima...
Foda-se,
Ser esmagado por um camião!

Ena Pá 2000

À espera do fim

Hoje deixo aqui para todos aqueles que não visitam este blog
uma música magnífica deste grande senhor.


Vou andando por ai
Sobrevivendo á bebedeira e ao comprimido
Vou dizendo sim á engrenagem
E ando muito deprimido
É dificil encontrar quem o não esteja
Quando o sistema nos consome e aleija
Trincamos sempre o caroço
Mas já não saboreamos a cereja

Já houve tempos em que eu
Tinha tudo não tendo quase nada
Quando dormia ao relento
Ouvindo o vento beijar a geada
Fazia o meu manjar com pão e uva
Fazia o meu caminho ao sol ou á chuva
Ao encontro da mão miúda
Que me assentava como uma luva

Se ainda me queres vender
Se ainda me queres negociar
Isso já pouco me interessa
Perdemos o gosto de viver
Eu a obedecer e tu a mandar
Os dois na mesma triste peça
Os dois á espera do fim

Tu tens fortuna e eu não
Podes comer salmão e eu só peixe miúdo
Mas temos em comum o facto de ambos vermos
A vida por um canudo
Invertemos a ordem dos factores
Pusemos números á frente de amores
E vemos sempre a preto e branco o programa
Que afinal é a cores


Jorge Palma

terça-feira, outubro 3

Máquina















Cavalgas freneticamente
Desconcertante
Extenuante
Incongruente!

Bafejas estupidamente
Poluis
Destróis
Cumplicemente!

Produzes felicidade
Infelicidade
Contemporaneidade
Indecente!

És rainha da repetição
Desolação
Contradição
Demente!

quarta-feira, agosto 30

Concavidade colorida













Alvorada tardia
Nesta noite viscosa
Numa concavidade colorida
De vontade solar,
Necessidade rugosa
Entre a mata selvática
Duma simples gramática
Que não tem um lugar,
Preciosidade distante
Leitosa e extremosa
Contudo no sítio
Há que hesitar,
Ilusão de ardósia
De frieza do presente
Que no entanto se mente
E não pára para pensar!
Palavras deliciosas
Absorventes abstractas
Em passado sombrio
Que nos podem acordar
Vontade e vitória
No futuro iluminado
Ofuscantes detritos
Do que tarda em chegar.
Libertina memória
Em que reza a história
Que a rima repetitiva
Já começa a enjoar
Alegria descritiva
Ridículo substancial
Necessidade libertina
Clarificante na noite…
Verdade ventosa
Dentro de todas as gentes
Que se sentem dementes
Pelo querer não conseguir,
Membrana branca fina
Invisível quase transparente
Que visualmente evidencia
A obrigatoriedade de agir:
Utopia realista
Sem necessidade chupista
Filosofia de equilibrista
Pureza e destreza
Na adversidade submissa
Da simples observação

quarta-feira, agosto 9

O TEMPO A PRETO E BRANCO

"Quadrado negro" Malevich

I

Acendo um cigarro,
Perco-me na sombra nocturna
Que me gela o ser que não sou,
Aqueço os pulmões de alcatrão profundo
Que corrói a azia da minha comiserada existência.

Encontro-me e rapidamente me esqueço,
Existo, sem tão pouco me sentir pesar.
Acordo, sem necessidade de procurar
Sem precisar de artifícios,
Sem obrigatoriamente respirar…

II

Azeda é a luz do dia,
Quando a noite é todo meu eu,
Não me quero, não me sinto querer!
Sou a apatia, sou a verdade
Sou a verdadeira vontade,
Sem recorrer ao rumo
Da contemporaneidade

Precoce…

Arrasto-me pelo betão árido,
Como um fantasma do passado
Que não sabe querer, que não quer existir
Como um vulto dum ilusório diabo

III

Repito-me no reflexo do tempo
que não existe,
Que se perdeu nele próprio:
entre o negro da sabedoria
E o branco da ignorância…

Agito-me, a alma já não faz sentido,
Sente-se amarrada pelo pescoço,
E de bicos de pés tento ver
O que ninguém consegue querer
Ou simplesmente sentir…

segunda-feira, julho 17

Destroços



















Acordo entre os destroços
Moveis, cadeiras, secretárias,
Entre as paredes manchadas de branco;
Penso no que fazer, no futuro
E anseio o passado longínquo,
Sem receios nem hesitações.
Procuro o impossível entre o entulho
Confuso, heterogéneo, alienante
Procuro o que não vejo
O que não verei, o que não sinto!
No chão em que peso, sinto-me…
Não sei como, mas sinto
Estupidamente, inexplicavelmente…
Sinto-me vazio talvez
Ou talvez sinta o vazio,
Sinceramente ainda não sei…
Não te vejo, onde andas?
Não te procuro, porque não vens?
Eu não me sinto viver…
Não sinto o teu cheiro
A tua doce respiração,
Não vejo os teus olhos
Não vejo uma direcção…
Não me sinto respirar
Não me sinto querer
Nem tão pouco pesar…
O que tenho? Não sei,
Chamam-lhe loucura…
De onde veio? Não sei…
Veio de mim certamente,
De que parte?
Ainda não sei…
Não sei nada,
Não te sei procurar
Não sei amar
E isso dói-me…
Sou mais um apático,
Um inútil coerente (?)
Uma sombra clara
Entre sombras que escurecem…
Quero viver e não vivo,
Quero vida e não a vejo
Quero respirar e não respiro.

quarta-feira, junho 14

Figo o rato clonado

Rato Figo na cerimónia de prémios dos laureus




Hoje enquanto tentava ler interessadamente as notícias do dia deparei-me com esta desconfortante e divertida reportagem:

O ratinho "Figo" -nome com que o clone foi baptizado, por influências do campeonato europeu de futebol, que decorria quando foi clonado - nasceu saudável, embora obeso (como todos os animais clonados), o que animou os cientistas, principalmente porque a Dolly, à semelhança de outros animais entretanto clonados, nasceu com anomalias genénitas.
Fotografado como uma estrela - não do relvado, mas do laboratório - "Figo" durou nove meses. Foi a "menina dos olhos" de Ricardo Ribas que, apesar de ser um homem da ciência, se afeiçoou ao roedor. "Acabamos por criar laços de afectividade, pois não deixa de ser um animal criado por nós", contou Ricardo Ribas. A morte do rato "Figo" não apagou o sucesso da experiência, que mereceu já a atenção de cientistas de vários países, interessados na sua aplicação em roedores e outros animais de maior porte. No caso dos roedores, explicou Ricardo Ribas, o interesse deve-se ao facto da gestação destes animais ser muito curta (21 dias), o que permite acompanhar rapidamente os resultados.

O grande objectivo desta técnica é aperfeiçoar a clonagem com vista à sua utilização em animais maiores, nomeadamente gado, para a produção de leite com antibióticos, por exemplo.


Parei de ler enquanto me tentava conter, as gargalhadas despregadas impediam-me de prosseguir este cómico raciocínio: um português (é nestas alturas que sou um nacionalista, quando ouço destas anedotas) clonou um roedor, deu-lhe o futebolístico nome de Figo, provavelmente o seu primeiro nome seria Luís… deu-lhe amor e carinho durante nove longos meses e se calhar ainda lhe deu um funeral digno de transmissão televisiva, com vários elementos de peso deste nosso grande país que é Portugal; não pensem que estou a falar do funeral do verdadeiro Figo, esse também vai ter direito a transmissão televisiva no seu, mas para já ainda não, ainda não morreu…

O CÁGADO



Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de facto submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a qüinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.

ALMADA NEGREIROS

Chuva ácida



Corre, corre,
antes que o tempo
se evapore
corre, corre…
porque o tempo
também morre!
Corre, corre…

Foges tempo
do Passado,
Como podes?
Foges da Verdade
E da realidade
porque corres?

Foges talvez
porque chove
corre, corre…

Chuva esta tão tua,
escorre, escorre
e que arrasta
sem piedade,
Corre, corre!

Filha bastarda
da verdade
corre, foge
da triste contemporaneidade
que chove, chove…
e que não sabe
o seu lugar

Mas que fim
tão interessante
foge, foge!
do fim escuro
E arrepiante,
Foge, corre…

É uma vida alucinante
foge, chove
porque já não sabe endireitar
corre, foge…

Fizeste da chuva
uma vontade
foge, foge!
Uma repetição da
Ingenuidade!
Corre, foge…
porque chove
sem parar…



O problema das massas




A Vontade não se afirma, tornou-se numa pluralidade enfraquecida, a força já não é só uma (a natureza) mas várias subdivisões que nos confundem e esvanecem. Nunca até então a vontade foi tão vendida e ramificada; a de mudança dos padrões sociais esgotou-se a partir do momento em que a despreocupada sociedade se propôs a dar-nos uma vida aparentemente melhor, no etéreo e longínquo dia em que a preguiça começou a rebolar como uma exponencial bola de flocos de neve. Aí começou a sua odisseia. O mundo tomou o rumo da destruição da força de vontade, perdeu a sua vida e tornou-se num esquartejado fantasma. Só no dia em que os homens largarem o peso de todas as ociosidades não necessárias (mesmo aquelas que aparentam levar-nos à mudança) é que nós conseguiremos agarrar a verdadeira vontade: a que nos rói e teima em não ganhar vida. O hábito molda-nos, só aí conseguiremos ter força para agir e para nos elevar a deuses patéticos, com toda a digna e verosímil ingenuidade, sem falsas necessidades nem ilusórias preocupações. E para que este utópico dia chegue é necessário dar outro sentido à palavra utopia, é preciso que nos deixemos de sonhos e nos queiramos naturalmente preencher. Merda já há muita, as coisas não estão bem, o mundo não rola bem, mas o eixo ainda não se quebrou! A Vontade está dividida mas ainda tem uma origem e só a origem nos levará à equilibrada vivência e só a equilibrada vivência nos fará verdadeiramente felizes e só a felicidade nos levará à morte sem receios. Perdi a vergonha, chamem-me louco, chamem-me tudo e mais alguma coisa, mas assim não somos verdadeiramente felizes, nem nunca o seremos. Enquanto não convergirmos os nossos ideais diferentes e abstractos para a mesma origem ou para uma maior proximidade da verdade, estamos a deixar que tudo o que como verdadeiras pessoas sentimos, nos tolha, nos preencha de uma aparente submissão agradável. Deixamos que o nosso caminho não tenha sentido e que a vontade se torne numa apatia caprichosa, numa baça sombra sobre um qualquer pedaço de betão. Não acredito em milagres, nem em fórmulas mágicas, mas ainda acredito na força de vontade e sinto que um dia todos nós vamos ganhar vida para conseguir impedir esta caminhada cada vez mais ofegante e sem sentido. Enquanto escrevo penso em todos aqueles que tal como eu escrevem no papel, no computador ou em pensamento, a sua insatisfação, os que escondem, os que mostram e os que escrevem por escrever…. Milhares que se vão arrastando até ao dia da sua morte, vazios e injustamente preenchidos pelo desagrado. Penso agora na última frase dactilografada e ocorre-me: os velhos são na sua maioria uma cambada de resmungões. Porque será? Pelo simples facto de que se arrastaram pelo tempo sem verdadeiramente viverem, sentem-se arrependidos por se deixarem levar anos a fio por vias escuras e alienantes. Há quem diga ou pense que essa amargura é inevitável, que se deve à proximidade com a morte… Sinceramente, não faz sentido, quando nos sentimos verdadeiramente realizados e preenchidos nem a morte nos pode assustar!