segunda-feira, dezembro 25

JAMES BROWN


Deixo aqui uma letra que me maravilhou e surpreendeu bastante.
Um dia destes ao vasculhar pelos bastantes cantos já há muito tempo não remexidos da minha casa, descobri uma pequenalataredondalaranja número quatro, com um piano desenhado que tinha escrito com letragrossagarrafalamarelo:
JAMES BROWN!
Lá dentro continha uma música que embora já ouvida há bastante tempo ainda me era de toda desconhecida...
THIS IS A MAN'S WORLD
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness




sexta-feira, novembro 10

A ILHA DAS PANELAS




Nestes últimos dias tenho esvaziado a mala pesada de fotos que se encontrava a ganhar pó algures pela dispensa desta minha casa. Vou analisando uma a uma, procurando rever naqueles momentos imobilizados da folha de papel, memórias que se escondem nas concavidades do meu ser disperso em coisas do presente e do futuro. Algures nesse amontoado de recordações encontrei esta foto, a sua existência é anterior a mim mas no entanto possuo reminiscências contadas de como as coisas se faziam e sentiam nesse tempo.

Numa de muitas tardes como a que precederá esta manhã que finda, contaram-me histórias dum tempo que já lá vai, no tempo em que vagueava- ou talvez não- algures pelo corpo de alguém que era o meu não pai da altura. Eram tempos, diz quem me conta- a minha avó- de sacrifícios múltiplos e cheios de tudo aquilo que nos dá a força de viver, tempos em que parar para pensar era uma perda de tempo que de nada servia para pôr o comer na mesa. Nessa altura a vida não era como agora- como todos nós sabemos- não se tinham luxos como poder comer às horas que queremos e podemos, nem tão pouco darmo-nos a pequenos prazeres que não os básicos, que só por si e mediante as circunstâncias adversas e normais, já eram um verdadeiro luxo.
O nível de alfabetismo dos anos setenta era muito baixo, o conhecimento era restrito a um pequeno número de pessoas, e sendo assim a vida não era mais do que um emaranhado vivêncial de problemas que não eram mais do que motivos para nos "fazermos à vida" e pouco mais. Conta-me a minha saudosa avó que naquela altura e em anos anteriores o melhor meio de transporte- e por sinal mais económico- era o "fiat penantes", chegava a todo o lado e às horas pretendidas desde que as horas tivessem controladas; diz ela que a minha mãe, a partir dos seus tenros doze anos de pouca vida ia daqui à boavista todos os dias pelo tabuleiro de baixo da ponte D. Luís com um cabaz pesado de fruta na cabeça; andava por lá, voltava, chegava à hora do "tacho" comia e deitava-se. No dia a seguir era outro dia de trabalho. Tudo porque um dia tiveram que deixar de viver "sossegadamente" à custa de meu avô que assim queria que fosse, à boa moda machista do antigo regime... Um dia desapareceu, e a vida, diz a minha avó sem voz de arrependimento até que se tornou mais ampla e plena de sentido de sacrifício necessário à aprendizagem daquilo que é, singularmente; ela era e sempre foi analfabeta e sendo assim aprender fosse o que fosse era um prazer imenso. E porquê tudo isto, o que escrevo? Tudo isto para chegar ao local em que alguns destes ilustres personagens que figuram na foto que encima este texto moravam. Tudo isto para falar dum lugar mítico que me maravilha ouvir falar desde os meus tempos de infância, sítio esse que só o nome já é motivo para rejubilar de contentamento: a tão conhecida e badalada "ILHA DAS PANELAS". Não faço a mínima ideia porque tem esse ídilico nome, nunca foram feitas lá panelas, as que existiam também não deveriam ser muitas e se lá estavam era porque foram compradas ou oferecidas. Esta ilha citadina que não ladeada de água, era composta por oito casas de uma divisão cada; a casa de banho era comum, não possuia chuveiro nem lavatório, era apenas uma sanita e nada mais. Cada casa, uma família: a da Miquinhas Varredora e os seus não sei quantos mas bastantes filhos, a de minha avó e seus três filhos, a da se.Maria- dito assim como se lê- e mais os seus quantos filhotes em número bem comum aos que em média uma família típica portuguesa tinha, e mais cinco famílias de que não sei ou não me lembro do nome. Era um cenário, diz-me quem conta, bastante familiar e acolhedor. Nesses anos de sacríficio- coisa que infelizmente não tenho a verdadeira noção do que é- a irmandade entre miúdos era gigantesta. O dinheiro escasseava para os habitantes daquela ilha, talvez a situação geográfica e social fosse propícia a sua quase inexistência, mas no entanto, e às escondidas dos mais velhos, os miúdos como é o caso da minha mãe e de todos os outros, faziam das suas para alimentar a amizade inocente dos seus anos cada vez menos verdejantes que mais tarde viriam a dar lugar ao necessário trabalho; corroídos pela fome que espaçava a hora da refeição, tinham que arranjar maneira de comer pouca coisa que fosse para disfarçar essa fome momentânea; daí, a título de exemplo conto-vos esta história- à minha peculiar maneira- que me há-de maravilhar para o resto da vida.


As mães tinham saído cedo. Só à hora do jantar voltariam para nos ralhar ou bater por qualquer coisa que tivessemos feito e que era o pão nosso de cada dia. Era uma tarde solarenga e propícia para a brincadeira. Eu e todos eles brincavamos à vez com o cavalinho de madeira que em tempos de largueza financeira tinha sido oferecido a alguém. Depois de umas quantas voltas por campos imaginários- certamente cada um tinha o seu cavalo e o seu campo- já a hora se encaminhava para o sítio onde o sol se põe; um aperto na barriga deu o sinal daquilo a que o senso comum apelida- sim, apenas apelida- de fome constrangedora, que nos faz suar e desesperar por um naco mastígavel; uma ideia brilhante iluminou-me, porque razão até então nunca tinha pensado nisto? Sei que sofrerei consequências por este meu acto, talvez por isso nunca tenha pensado nisso... Mas deixa lá, se não é por isto é por outra coisa qualquer! Decidi-me! Vou subir a rampa e vou ao "Tagana"! Disse a meus irmãos e amigos para esperarem, subi a rampa do "Andante" com passo firme e vitorioso, entrei na lojinha onde a minha mãe tinha anotado o seu nome no livro gasto e desfolhado que repousava sobre o balcão, e disse:
- Dê-me um chouriço, dez pães e uma gasosa, ponha na conta da minha mãe que depois ela paga, muito obrigada.
Com o passo ainda mais determinado e com a mão esquerda estirada para baixo pelo peso da maravilhosa saca que trazia, cheguei à ilha, rápidamente o conteúdo do saco foi esventrado e depositou nos nossos estômagos uma satisfação suficiente para esquecermos a fome e voltarmos à brincadeira, só que desta vez decidimos inocentemente abandonar o cavalo e fomos correr para o vasto milheiral que se escondia por de trás da "Quinta de S. Salvador".
Dias depois chegou o dia de pagar a conta da loja, os tostões contadinhos estavam predestinados à mercearia. O dia do mês era sempre o mesmo, e eu, havia já bastantes dias que rezava para que aquele dia não chegasse nunca, até que um dia chegou... Nesse sábado desapareci da ilha com medo das represálias, mas no entanto, cedo ou tarde, tive que ir para casa, à minha espera estava minha mãe: aqueceu-me o corpo com todos os dedos que tinha nas mãos a multiplicar não sei por quantas vezes. Não lhe disse o porquê de ter feito aquilo. Isso guardei só para mim no meu enorme coração de criança. Apesar de tudo, não me arrependi, de maneira nenhuma.

Fiz desta recordação não vivida por mim, uma recordação pessoal vivida por palavras. Quis com isto chegar a uma conclusão que vendo bem foi o verdadeiro motivo para arquitecturar este texto que explodindo da foto começa a ganhar um espaço bem maior do que o que queria orquestrar. Sinto-me mais feliz depois disto e agora direi o que vos pretendia mostrar e dizer com este texto:

Nos tempos em que a necessidade era um monstro que à partida nos devia tolher, as pessoas sabiam ajudar-se mútuamente sem egoísmos intrínsecos; hoje, vive-se melhor, e apesar de ainda não ser para a maioria um "mar de rosas" as pessoas fazem do egoísmo um modo de vida.

A irmandade e prazer da entreajuda perdeu-se algures pelo tempo.

Mas vá lá, não é geral, ainda há bons corações.

Beijos e abraços!

segunda-feira, novembro 6

Interrogações.

Como é que pode um estado denominado soberano atropelar tudo e todos?

Como é que é possível que toda a gente fique a ver?

Como é que a democracia consegue personificar a liberdade?

Como é que a liberdade pode ser sinónimo de violência?

Como é que a violência pode ser a solução para um problema?

Como é que um problema pode realçar tanta ignorância?

Como é que a ignorância pode abrir tantos buracos?

Como é que os buracos podem ser tão escuros?

Como é que a escuridão nos pode salvar?

Como é que a salvação traz tanta desilusão?

Como é que a desilusão pode ser tão dramática?

Como é que um drama pode não ter fim?

Como é que o fim pode ser a solução?

Como é que a solução pode ganhar vida?

Como é que viver pode ser verdadeiramente real?

Como é que a realidade pode mudar?

Como é que a verdade pode vir a ser mudança?

Como é que vamos deixar de ser assim...?

segunda-feira, outubro 16

Vida de Cão

Para fazer gargalhar os mais cépticos que aqui não passam, um retrato fiel e sério de muitos dos que por aqui andam por este portugal.


Vida de cão
Dormir com pulgas no colchão,
Vida de cão
Lamber as botas ao patrão,
Viver da televisão,
Trabalhar na construção
E ao domingo,
Ir com um puta para a pensão.

Vida de cão
É nao puder dizer que não,
Vida de cão
É encontrar um porcalhão,
Comer merda em vez de pão,
Engordar o tubarão
E ao domingo,
Beber tinto do garrafão.

Vida de cão
Viver à vista de tesão,
Vida de cão
É desabar no alcatrão,
Escorregar num cagalhão,
Bater com as trombas no chão,
E ainda por cima...
Foda-se,
Ser esmagado por um camião!

Ena Pá 2000

À espera do fim

Hoje deixo aqui para todos aqueles que não visitam este blog
uma música magnífica deste grande senhor.


Vou andando por ai
Sobrevivendo á bebedeira e ao comprimido
Vou dizendo sim á engrenagem
E ando muito deprimido
É dificil encontrar quem o não esteja
Quando o sistema nos consome e aleija
Trincamos sempre o caroço
Mas já não saboreamos a cereja

Já houve tempos em que eu
Tinha tudo não tendo quase nada
Quando dormia ao relento
Ouvindo o vento beijar a geada
Fazia o meu manjar com pão e uva
Fazia o meu caminho ao sol ou á chuva
Ao encontro da mão miúda
Que me assentava como uma luva

Se ainda me queres vender
Se ainda me queres negociar
Isso já pouco me interessa
Perdemos o gosto de viver
Eu a obedecer e tu a mandar
Os dois na mesma triste peça
Os dois á espera do fim

Tu tens fortuna e eu não
Podes comer salmão e eu só peixe miúdo
Mas temos em comum o facto de ambos vermos
A vida por um canudo
Invertemos a ordem dos factores
Pusemos números á frente de amores
E vemos sempre a preto e branco o programa
Que afinal é a cores


Jorge Palma

terça-feira, outubro 3

Máquina















Cavalgas freneticamente
Desconcertante
Extenuante
Incongruente!

Bafejas estupidamente
Poluis
Destróis
Cumplicemente!

Produzes felicidade
Infelicidade
Contemporaneidade
Indecente!

És rainha da repetição
Desolação
Contradição
Demente!

quarta-feira, agosto 30

Concavidade colorida













Alvorada tardia
Nesta noite viscosa
Numa concavidade colorida
De vontade solar,
Necessidade rugosa
Entre a mata selvática
Duma simples gramática
Que não tem um lugar,
Preciosidade distante
Leitosa e extremosa
Contudo no sítio
Há que hesitar,
Ilusão de ardósia
De frieza do presente
Que no entanto se mente
E não pára para pensar!
Palavras deliciosas
Absorventes abstractas
Em passado sombrio
Que nos podem acordar
Vontade e vitória
No futuro iluminado
Ofuscantes detritos
Do que tarda em chegar.
Libertina memória
Em que reza a história
Que a rima repetitiva
Já começa a enjoar
Alegria descritiva
Ridículo substancial
Necessidade libertina
Clarificante na noite…
Verdade ventosa
Dentro de todas as gentes
Que se sentem dementes
Pelo querer não conseguir,
Membrana branca fina
Invisível quase transparente
Que visualmente evidencia
A obrigatoriedade de agir:
Utopia realista
Sem necessidade chupista
Filosofia de equilibrista
Pureza e destreza
Na adversidade submissa
Da simples observação

quarta-feira, agosto 9

O TEMPO A PRETO E BRANCO

"Quadrado negro" Malevich

I

Acendo um cigarro,
Perco-me na sombra nocturna
Que me gela o ser que não sou,
Aqueço os pulmões de alcatrão profundo
Que corrói a azia da minha comiserada existência.

Encontro-me e rapidamente me esqueço,
Existo, sem tão pouco me sentir pesar.
Acordo, sem necessidade de procurar
Sem precisar de artifícios,
Sem obrigatoriamente respirar…

II

Azeda é a luz do dia,
Quando a noite é todo meu eu,
Não me quero, não me sinto querer!
Sou a apatia, sou a verdade
Sou a verdadeira vontade,
Sem recorrer ao rumo
Da contemporaneidade

Precoce…

Arrasto-me pelo betão árido,
Como um fantasma do passado
Que não sabe querer, que não quer existir
Como um vulto dum ilusório diabo

III

Repito-me no reflexo do tempo
que não existe,
Que se perdeu nele próprio:
entre o negro da sabedoria
E o branco da ignorância…

Agito-me, a alma já não faz sentido,
Sente-se amarrada pelo pescoço,
E de bicos de pés tento ver
O que ninguém consegue querer
Ou simplesmente sentir…

segunda-feira, julho 17

Destroços



















Acordo entre os destroços
Moveis, cadeiras, secretárias,
Entre as paredes manchadas de branco;
Penso no que fazer, no futuro
E anseio o passado longínquo,
Sem receios nem hesitações.
Procuro o impossível entre o entulho
Confuso, heterogéneo, alienante
Procuro o que não vejo
O que não verei, o que não sinto!
No chão em que peso, sinto-me…
Não sei como, mas sinto
Estupidamente, inexplicavelmente…
Sinto-me vazio talvez
Ou talvez sinta o vazio,
Sinceramente ainda não sei…
Não te vejo, onde andas?
Não te procuro, porque não vens?
Eu não me sinto viver…
Não sinto o teu cheiro
A tua doce respiração,
Não vejo os teus olhos
Não vejo uma direcção…
Não me sinto respirar
Não me sinto querer
Nem tão pouco pesar…
O que tenho? Não sei,
Chamam-lhe loucura…
De onde veio? Não sei…
Veio de mim certamente,
De que parte?
Ainda não sei…
Não sei nada,
Não te sei procurar
Não sei amar
E isso dói-me…
Sou mais um apático,
Um inútil coerente (?)
Uma sombra clara
Entre sombras que escurecem…
Quero viver e não vivo,
Quero vida e não a vejo
Quero respirar e não respiro.

quarta-feira, junho 14

Figo o rato clonado

Rato Figo na cerimónia de prémios dos laureus




Hoje enquanto tentava ler interessadamente as notícias do dia deparei-me com esta desconfortante e divertida reportagem:

O ratinho "Figo" -nome com que o clone foi baptizado, por influências do campeonato europeu de futebol, que decorria quando foi clonado - nasceu saudável, embora obeso (como todos os animais clonados), o que animou os cientistas, principalmente porque a Dolly, à semelhança de outros animais entretanto clonados, nasceu com anomalias genénitas.
Fotografado como uma estrela - não do relvado, mas do laboratório - "Figo" durou nove meses. Foi a "menina dos olhos" de Ricardo Ribas que, apesar de ser um homem da ciência, se afeiçoou ao roedor. "Acabamos por criar laços de afectividade, pois não deixa de ser um animal criado por nós", contou Ricardo Ribas. A morte do rato "Figo" não apagou o sucesso da experiência, que mereceu já a atenção de cientistas de vários países, interessados na sua aplicação em roedores e outros animais de maior porte. No caso dos roedores, explicou Ricardo Ribas, o interesse deve-se ao facto da gestação destes animais ser muito curta (21 dias), o que permite acompanhar rapidamente os resultados.

O grande objectivo desta técnica é aperfeiçoar a clonagem com vista à sua utilização em animais maiores, nomeadamente gado, para a produção de leite com antibióticos, por exemplo.


Parei de ler enquanto me tentava conter, as gargalhadas despregadas impediam-me de prosseguir este cómico raciocínio: um português (é nestas alturas que sou um nacionalista, quando ouço destas anedotas) clonou um roedor, deu-lhe o futebolístico nome de Figo, provavelmente o seu primeiro nome seria Luís… deu-lhe amor e carinho durante nove longos meses e se calhar ainda lhe deu um funeral digno de transmissão televisiva, com vários elementos de peso deste nosso grande país que é Portugal; não pensem que estou a falar do funeral do verdadeiro Figo, esse também vai ter direito a transmissão televisiva no seu, mas para já ainda não, ainda não morreu…

O CÁGADO



Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de facto submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a qüinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.

ALMADA NEGREIROS

Chuva ácida



Corre, corre,
antes que o tempo
se evapore
corre, corre…
porque o tempo
também morre!
Corre, corre…

Foges tempo
do Passado,
Como podes?
Foges da Verdade
E da realidade
porque corres?

Foges talvez
porque chove
corre, corre…

Chuva esta tão tua,
escorre, escorre
e que arrasta
sem piedade,
Corre, corre!

Filha bastarda
da verdade
corre, foge
da triste contemporaneidade
que chove, chove…
e que não sabe
o seu lugar

Mas que fim
tão interessante
foge, foge!
do fim escuro
E arrepiante,
Foge, corre…

É uma vida alucinante
foge, chove
porque já não sabe endireitar
corre, foge…

Fizeste da chuva
uma vontade
foge, foge!
Uma repetição da
Ingenuidade!
Corre, foge…
porque chove
sem parar…



O problema das massas




A Vontade não se afirma, tornou-se numa pluralidade enfraquecida, a força já não é só uma (a natureza) mas várias subdivisões que nos confundem e esvanecem. Nunca até então a vontade foi tão vendida e ramificada; a de mudança dos padrões sociais esgotou-se a partir do momento em que a despreocupada sociedade se propôs a dar-nos uma vida aparentemente melhor, no etéreo e longínquo dia em que a preguiça começou a rebolar como uma exponencial bola de flocos de neve. Aí começou a sua odisseia. O mundo tomou o rumo da destruição da força de vontade, perdeu a sua vida e tornou-se num esquartejado fantasma. Só no dia em que os homens largarem o peso de todas as ociosidades não necessárias (mesmo aquelas que aparentam levar-nos à mudança) é que nós conseguiremos agarrar a verdadeira vontade: a que nos rói e teima em não ganhar vida. O hábito molda-nos, só aí conseguiremos ter força para agir e para nos elevar a deuses patéticos, com toda a digna e verosímil ingenuidade, sem falsas necessidades nem ilusórias preocupações. E para que este utópico dia chegue é necessário dar outro sentido à palavra utopia, é preciso que nos deixemos de sonhos e nos queiramos naturalmente preencher. Merda já há muita, as coisas não estão bem, o mundo não rola bem, mas o eixo ainda não se quebrou! A Vontade está dividida mas ainda tem uma origem e só a origem nos levará à equilibrada vivência e só a equilibrada vivência nos fará verdadeiramente felizes e só a felicidade nos levará à morte sem receios. Perdi a vergonha, chamem-me louco, chamem-me tudo e mais alguma coisa, mas assim não somos verdadeiramente felizes, nem nunca o seremos. Enquanto não convergirmos os nossos ideais diferentes e abstractos para a mesma origem ou para uma maior proximidade da verdade, estamos a deixar que tudo o que como verdadeiras pessoas sentimos, nos tolha, nos preencha de uma aparente submissão agradável. Deixamos que o nosso caminho não tenha sentido e que a vontade se torne numa apatia caprichosa, numa baça sombra sobre um qualquer pedaço de betão. Não acredito em milagres, nem em fórmulas mágicas, mas ainda acredito na força de vontade e sinto que um dia todos nós vamos ganhar vida para conseguir impedir esta caminhada cada vez mais ofegante e sem sentido. Enquanto escrevo penso em todos aqueles que tal como eu escrevem no papel, no computador ou em pensamento, a sua insatisfação, os que escondem, os que mostram e os que escrevem por escrever…. Milhares que se vão arrastando até ao dia da sua morte, vazios e injustamente preenchidos pelo desagrado. Penso agora na última frase dactilografada e ocorre-me: os velhos são na sua maioria uma cambada de resmungões. Porque será? Pelo simples facto de que se arrastaram pelo tempo sem verdadeiramente viverem, sentem-se arrependidos por se deixarem levar anos a fio por vias escuras e alienantes. Há quem diga ou pense que essa amargura é inevitável, que se deve à proximidade com a morte… Sinceramente, não faz sentido, quando nos sentimos verdadeiramente realizados e preenchidos nem a morte nos pode assustar!